Elena estava, resumidamente, feliz. Amava Damon. Sabia que ele não o correspondia e as vezes aquele sentimento a assustava, mas então a noite chegava e lá estava ele, nos braços dela. Não estava sobrecarregada de trabalho; Sua tarefa era cuidar de Hope em tempo integral. Ela e a menina já se amavam. Poucas semanas se passaram e toda a insegurança de Damon desapareceu. Elena não faria mal a Hope, pelo contrário, a menina estava a cada dia mais feliz.

Hope: Lena... – Chamou, sentada em sua cama. Elena estava catando as bonecas no chão, e a olhou. Damon parou do lado de fora da porta. Era sempre fascinante observar as duas – Se eu perguntar algo você me conta a verdade?

Elena: Sempre. – Disse, sem entender.

Hope: Você vai ser minha mãe? – Perguntou, e havia certa expectativa na voz dela. Pegou Elena de baixa guarda. Damon observava, imóvel. Viu ela largar a boneca em uma cadeira, se aproximando da cama.

Elena: Não, bebê. – Disse, se sentando perto da menina – Você já tem uma mãe.

Hope: É, mas eu nem nunca vi ela. Ela não gostava de mim? –Damon já estava de cara fechada.

Elena: Ela amava você. Demais. – Damon esperou.

Hope: E porque ela nunca apareceu? Eu não posso perguntar isso ao papai, ele fica bravo. – Disse, encolhidinha.

Elena: Porque alguém foi cruel com ela. Mas ela sempre amou você. – Disse, acariciando o rosto da menina.

Hope: Porque você não vira minha mãe? Aposto que meu pai gosta de você. – Disse, travessa.

Elena: Não repete isso. – Disse, e Damon sorriu ao ver o pré-panico no rosto dela – Veja, não vou ser sua mãe. Você já tem uma, e deve amá-la assim como ela te amou. Mas posso ser sua amiga. – Disse, sorrindo. – O que quer fazer agora?

Hope: Acho que estou com fome. – Disse, se recostando no travesseiro.

Elena: Fome? – Hope assentiu – Ainda está longe do jantar... – Ela pensou – Vou ver se trago algo para você lanchar, sim? – Hope assentiu.

Damon saiu do caminho antes de Elena sair. Ela sentiu o perfume dele no ar, mas não deu atenção. Foi para a cozinha. Lá preparou uma bandeja para Hope com algumas frutas, suco, e sanduíches. Fazia um pouco mais de um mês que assumira a menina, e só se encantava mais.

Rose: Que está fazendo? – Perguntou, entrando na cozinha.

Elena: Hope tem fome. – Disse, sem dar atenção. A tempos não deixava nina aborrece-la.

Rose: Não está no horário da refeição dela. – Disse, severa.

Elena: E ela está com fome, o que quer que eu faça? – Perguntou, revirando os olhos.

Rose: É por isso que ela quis você, porque tu fazes todas as vontades. Parece que isso funciona, tu não trabalha mais, tens um cômodo teu... Só por fazer ‘vontades’. – Disse, maldosa.

Damon: Eu vi o que você fez. – Disse, e as duas se sobressaltaram. Elena se virou. – Eu gostei. – Se resumiu.

Elena: Era o certo. – Disse, sabendo que Katherine não era um assunto do qual ele gostava de falar.

Elena se virou pra apanhar a bandeja pronta, então o cheiro do suco a apanhou. Ela largou a bandeja, aquilo a causou repugnância.

Damon: Há algo errado? – Perguntou, confuso. Rose observava, também sem entender.

Elena: Acho que isso está estragado. – Disse, cheirando o suco. Seu estomago se revirou terrivelmente, mas ela sabia que não podia levar nada estragado até Hope – Não sei, o cheiro...

Rose: Estragado? O suco? – Perguntou, incrédula.

Elena tomou um gole do suco, provando o gosto. A convulsão veio imediatamente. Damon olhava a cena, confuso e incrédulo. Ela largou o copo de qualquer jeito na bandeja e disparou correndo, com a mão na boca. Que iria vomitar era um fato claro. Damon se aproximou e apanhou o copo. O perfume do suco de laranja era fresco. Ele bebeu um gole, o gosto estava normal. O rosto dele estava fechado quando ele pôs o copo de volta a bandeja. Nada bom.

Elena não esteve bem por dias. A comida a enjoava, ela tinha mal estar. Achava que era alguma gripe, algo assim, e por isso Damon não a estava tocando mais, com medo de se contagiar. Ele apenas a observava. Observava demais.

Elena: Acho que jantarei hoje. – Disse, achando que estava melhorando. Damon caminhava com ela, as mãos nas costas, quieto. – O que tu tens?

Damon: Nada, apenas pensando em algumas coisas. – Eles entraram na cozinha. Estavam pondo a mesa dos empregados.

Elena: O que tem pra jantar? – Perguntou, curiosa, indo até a cozinheira, que respondeu algo sobre carne. Ele não ouviu – Hum, o cheiro é bom. Estou com tanta fome! É estranho. – Disse, devaneando.

Damon apenas encarou Rose, mas aquele olhar era o mesmo olhar que ele tinha quando dava a ordem da execução de alguém. Não havia vida. Ela entendeu e assentiu apenas uma vez.

Damon: Elena, venha comigo um instante. – Chamou, saindo dali. Ela foi. Ele parou no corredor – Lembra-se da viagem que lhe disse que faria?

Elena: Me lembro, claro.

Damon: Irei amanhã pela manhã. – Disse, e ela estranhava o comportamento dele. Parecia desgostoso com algo. – Se não... Se não se sentir bem amanhã, fique em seus aposentos. Avise, que outra pessoa cuidará de Hope enquanto você... Se recupera.

Elena: Não se preocupe, eu estou melhorando. – Disse, tomando a instrução dele por precaução.

Damon: Não irei ver-te hoje, preciso organizar papéis com Klaus, para que amanhã cedo esteja tudo pronto. – Elena assentiu. Ele ergueu a mão, tocando a maxilar dela – Fique bem.

Elena: Estarei esperando você voltar. – Disse, ainda inocente. Ele assentiu uma só vez e deu as costas, saindo dali. Ela não o viu mais.

Quando Elena se sentou aquela noite, em frente a seu prato, estava faminta. Tanto que não viu quem o preparou, nem como havia sido preparado. Uma pena. Comeu até a ultima garfada, e nem percebeu o sorriso no olhar de Rose observando-a comer. Quando terminou foi até Hope, verificando-a, e depois se retirou. Era estranho estar naquele quarto enorme sem Damon. Tudo ali lembrava ele. Ela parou por um instante pensando no tempo livre que em geral não tinha, e resolveu tomar um banho demorado. Soltou os cabelos e foi pra banheira. Não estava se sentindo muito bem. Acontece que naquela época os métodos abortivos não eram como os de hoje em dia. Existiam, mas não tão sofisticadamente. Se tratava de uma combinação de ervas que eram fatais ao feto. O jantar dela foi temperado com essas ervas. Se a mulher não estivesse grávida, nada lhe aconteceria, ela nunca saberia. Mas se ela estivesse...

Elena: Ai. – Gemeu, desconfortável, algum tempo depois. Havia cochilado na água, e acordara porque as dores pioraram. Ela se remexeu, sentindo pontadas agudas no ventre. Foi então que abriu os olhos e viu. A espuma havia se desfeito com o tempo, e a água limpa estava manchada gravemente de sangue. Ela se sentou, mas piorou a dor.

Elena estava assustada. Estava morrendo, era isso? A dor era forte mas era suportável, porém ela se sentia sangrar. Porque isso aconteceu justo quando Damon não estava? Se ele estivesse, mesmo se não soubesse porque aquilo acontecia, chamaria alguém. Ela tinha perdido a voz. Não eram suas regras, não era assim que acontecia. Foi pensando em suas regras que um clique ocorreu em sua cabeça. Suas regras não vinham há muito tempo, e agora isso... O olhar de Damon, duro, e ele distante todo o tempo... Os enjôos, mal estar... O sangue a sua frente. Estava grávida. Estivera, agora não mais. Seu bebê morrera porque o pai ordenara. Elena se recostou na banheira, se abraçando, desolada. Não era dor pela dor do filho; ela não tivera tempo de amá-lo, de senti-lo seu. Era o vazio pelo que poderia ter sido. Ela nunca cobraria nada dele, nem o pediria pra olhar o bebê uma única vez, ou reconhecê-lo, mas ele não pensara nisso. A apunhalou, logo ele que ela tanto confiava!

Elena: Desculpe, bebê. – Disse, rouca, o rosto soado e molhado de lágrimas.

E ela se abandonou. Não pensou, não sentiu, não quis saber. Quando recobrou a consciência já devia ser madrugada. A dor forte havia passado, agora só haviam algumas fisgadas. Havia terminado. A água da banheira era irreconhecível, parecia sangue puro. Ela puxou a tampa do ralo, deixando a água ir, e abriu a torneira, se lavando. Parara de sangrar, mas algo estava morto nela. No rosto, no olhar. Ela se lavou novamente e saiu dali. Seu andar estava dolorido. Se vestiu e foi pra cama. Chorou. Em seguida, como não há dor existente que não possa ser vencida pelo sono, e ela adormeceu.

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