jisei no ku
1 1 — A Cloak In The Wind
Notas iniciais

なほ見たし花に明け行く神の顔
quero ainda ver nas flores no amanhecer
a face de um deus.
— matsuo bashô
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Atsushi conhece a Morte em uma sexta-feira de primavera.
O menino observa o manto negro ser levado pelo vento, mas nunca abandonar seu dono, como se o querer de proteger o homem fosse mais forte que o desejo de liberdade. Ele não se move por vários minutos, em pé em seu jardim vivo demais para um deserto — em algum momento ele percebe que também não respira, hipnotizado demais pela imagem do ponto preto em sua visão que se destaca diante de uma imensidão de terra e céu.
Os passos do homem — ele até pode chamá-lo assim? — queimam marcas negras e fumegantes no chão, arrastando chamas que lembram a Atsushi de uma lembrança distante de um mar pintado pela noite sem estrelas. O platinado vê como a figura alta e esbelta caminha serenamente em linha reta, em sua direção, deixando um rastro de destruição que convém para a imagem grotesca que os mortais construíram sobre sua existência.
Atsushi continua lá, parado, quieto; segurando em suas mãos enluvadas uma de suas ferramentas de jardinagem, os pés descalços e já marrons de terra se contorcem e se enterram no chão, como se tentassem criar raízes.
A forma negra para diante da pequena e branca portinhola da casa de Atsushi que, ironicamente, separa a vida da morte. O homem o observa, os olhos de um vermelho bordô estreitados em curiosidade, e os fios castanhos formando uma auréola nas feições de seu rosto ainda sereno. Atsushi também o observa, reparando na capa que antes tremulava em uma dança com o vento, e nas bandagens que cobrem os braços e o pescoço do homem — ou melhor da entidade.
A Morte lhe sorri, pequeno, quieto e gentil. Atsushi respira, e se move, parando diante do homem, a única coisa lhes separando sendo aquela pequena e branca portinhola de madeira.
— Olá, gostaria de um chá?
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