insolação
1 insolação
Notas iniciais
Crescer em um orfanato fez com que Tom se considerasse uma pessoa autossuficiente. Talvez fosse por isso que o rapaz estranhasse quando seus colegas se juntavam para ter, como eles chamavam, momentos de descontração em grupo, uma interação saudável dos membros da casa.
Apesar de, na maioria das vezes, Riddle conseguir ter as suas decisões respeitadas (um olhar levemente mais frio ou uma arqueada de sobrancelha geralmente davam conta disso), naquele dia suas estratégias não funcionaram. Alphard, que por algum motivo não estava renegando a Sonserina naquela época, praticamente o arrastou até o campo de Quadribol, onde a maioria dos sonserinos estavam reunidos: alguns rapazes estavam voando em uma partida simplificada do jogo, outros estavam sentados no gramado lendo ou fazendo tarefa. As meninas estavam lá também, Dorea Black e Mildred Rosier enfiadas debaixo de uma sombrinha para se protegerem do sol enquanto lutavam contra um novelo de lã e agulhas de crochê, além de Isla Crabbe e Araminta Flint que estavam mais ocupadas observando os colegas que se equilibravam em cima das vassouras.
Tudo que Riddle queria era uma sombra para poder ler em paz e o local ideal para isso, naquele dia ensolarado de Junho, acabou sendo um canto próximo à parede da arquibancada. Apesar de muita gente acreditar que Tom Riddle vivia apenas para suas tarefas acadêmicas, ele também se divertia com um bom livro de ficção e o escolhido do dia era um tijolo de Tolstoi, o qual lhe manteve muito entretido por longos minutos enquanto as vassouras passavam zunindo por sobre a sua cabeça, a goles volte e meia caindo perto dele e os gritos dos jogadores parecendo distante.
“Eu ia brigar com você por estar desperdiçando um dia desses lendo, mas agora vi que é Tolstoi.”
O rapaz ergueu o rosto e estreitou os olhos para tentar enxergar a silhueta do bruxo à sua frente. Contra o sol, era impossível ver o rosto de Abraxas, mas Tom já estava tão acostumado com a voz e a postura dele que não foi difícil reconhece-lo: Malfoy se movia de uma forma que deixava claro que ele tinha plena consciência do peso de seu nome e das moedas que carregava nos bolsos, algo que Riddle detestava, admirava e invejava ao mesmo tempo.
“Já leu?” perguntou Riddle, observando o outro se aproximar e apoiar a vassoura no chão, escorando-se nela.
“Já. Estou pensando em dar uma chance para Guerra e Paz nas férias.”
“Boa sorte.”
Malfoy riu e passou uma mão pelos cabelos e Tom não pôde deixar de notar o quão diferente ele ficava com o cabelo loiro fora de um penteado bem feito, bagunçado pelo voo e suado. A camisa do uniforme estava grudada no corpo do rapaz por conta do suor e a respiração deste continuava acelerada, apesar de já estar no chão por alguns minutos. O uniforme de Quadribol era pesado e de lã, eficiente para proteger um jogador do frio e do olhar de qualquer pessoa que quisesse saber mais sobre o corpo deste, porém, eles não estavam em uma partida e o calor estava insuportável, logo, Abraxas havia se contentado em voar usando o uniforme padrão do colégio.
“Por que não lemos juntos?” Malfoy perguntou, virando-se por um momento para ver que Atlas havia acabado de arrancar a camisa e agora atraía a atenção das moças. Um sorriso leve continuava repuxando os cantos de seus lábios. Malfoy sempre ficava mais sorridente depois de voar.
“Porque duvido que o orfanato tenha Guerra e Paz entre a sua pequena coleção de livros.”
“Posso te emprestar, aposto que meu pai tem pelo menos duas cópias na biblioteca,” o loiro falou, dando de ombros e apoiando a vassoura na parede da arquibancada. Sem hesitar, ele desfez os botões da camisa e a tirou, ficando apenas com a camisa debaixo.
Tom piscou uma, duas vezes, notando que ele já deveria ter respondido a proposta mais prontamente se não tivesse sido distraído pela falta de decoro do amigo.
“Eu não preciso... Não preciso que me empreste livros.” Riddle respirou fundo e amaldiçoou o verão. Odiava sentir aquele calor infernal que, de repente, fizera o seu uniforme ficar insuportável. “Tudo isso pra chamar a atenção delas?” ele perguntou, apontando para as meninas.
“Estou te emprestando um livro, não te dando cem galeões, Tommy.” Malfoy sacudiu a cabeça, jogando a camisa em cima do outro. “Claro que não, é pra chamar a sua atenção.” Riddle sentiu o rosto esquentar e odiou ainda mais o dia quente. O loiro riu. “Não precisa ficar sem jeito, é pelo calor mesmo.”
Tom resmungou algo, amassando a camisa nas mãos e a jogando no outro novamente. Abraxas riu e se virou ao ser chamado por Lestrange, correndo novamente para o campo.
Riddle soltou o ar devagar e olhou para o livro em seu colo. Os longos monólogos de Lievin sobre o amor puro que sentia por Kitty pararam de parecer interessantes. Uma pequenina parte de sua mente sussurrou que, naquele momento, ele queria ler sobre Anna e Vronsky, mas ele decidiu ignorá-la e apenas voltar para o castelo.
***
Tom se considerava uma pessoa controlada e isso era uma grande vantagem na sua vida. Por essa exata razão que o rapaz estava se sentindo extremamente angustiado ao perceber que havia perdido o controle sobre os próprios pensamentos.
Ele queria dormir. Estava cansado e tinha que estudar no dia seguinte. No entanto, sua mente estava decidia a fazê-lo pensar em Abraxas Malfoy pelo máximo de tempo possível. Deitado em sua cama e ainda odiando o calor do verão (como era possível um dormitório debaixo do lago ser tão quente?!), detalhes do colega ficavam surgindo em seus pensamentos, como os cabelos loiros grudados na testa por conta do suor ou os braços expostos, os quais provavelmente estariam bronzeados no dia seguinte.
Aquilo não fazia sentido. Riddle já havia visto tanto Abraxas quanto os outros sonserinos com menos roupas do que aquilo (afinal, era para isso que serviam os malditos banheiros comunitários, não? Expô-los até que a intimidade os fizessem ver uns aos outros como uma extensão de si). Por que diabos agora ele estava prestando atenção em como a camisa debaixo de Malfoy se grudava ao peito dele depois de um voo debaixo do sol?
Devia estar ficando doente. Devia estar com febre. Talvez fosse insolação.
Ele viu como Isla Crabbe havia olhado Abraxas dos pés a cabeça, os olhos escuros quase o despindo no meio do campo de Quadribol. Tom queria poder fazer isso agora, no dormitório-
Ele sacudiu a cabeça. Definitivamente insolação.
Ou... Riddle mordeu o lábio inferior. Crescer em um orfanato e, depois, estudar em um colégio interno era um laboratório na questão de ver jovens entrando na adolescência e virando seres controlados por hormônios. Ele sempre se sentiu superior a isso, afinal, ele era controlado. Mas ele sabia muito bem o que os garotos falavam sobre as moças e o que Atlas ou Canopus (e tantos outros garotos do orfanato) faziam quando estavam às sós com as suas revistas indecentes.
Ele, Tom Riddle, nunca havia sentido necessidade disso.
Até Abraxas decidir tirar a maldita camisa no meio do campo de Quadribol. E, Deus, aquilo era tão, tão errado, dizia parte de sua mente, enquanto outra o lembrava que ele estava pensando exatamente a mesma coisa que Isla Crabbe devia estar pensando agora, deitada em sua cama. Nada anormal.
Riddle sabia que gostava mais de Malfoy do que dos outros colegas. O loiro era mais confiável e mais interessante, conseguindo manter conversar animadoras e lhe proporcionando uma estranha sensação de conforto e naturalidade. No entanto, havia uma enorme diferença entre gostar de conversar sobre livros e querer que o outro rapaz estivesse ali, na sua cama, naquele exato momento, enquanto ele enfiava a mão por dentro das calças do pijama.
Tom era uma pessoa controlada e esse controle foi fundamental para não chamar a atenção para si. Um travesseiro enfiado no rosto também foi muito útil, ele tinha que admitir.
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