incendiar

1 i. o pulo no Riacho


Notas iniciais
Dei uma revisão, espero que esteja tudo claro! Boa leitura à todes!

Faltava-me fôlego, mas eu não poderia parar.

Meu vestido estava indo de trapos a frangalhos. Por um segundo me distrai e olhei para trás para tomar noção do alcance dos aldeões em minha direção, por isso quase tropeço em um toco de árvore, se eu caísse me ferindo e eles me alcançassem seria meu fim.

Deveria ter escutado quando Gael me instruiu a ficar segura no habitat até ele retornar com mais mantimentos. Também deveria ter tentado segurar por mais algum tempo a minha fome, fosse mastigando um pedaço de folha seca, ou caçando algum cogumelo, enganando meu estômago mesmo sentindo as minhas costelas comprimirem. Poderia até mesmo ter me brincado com a areia na caverna, dançado, sozinha, cantado alto sentada na pedra, feito qualquer coisa, menos ter tomado a decisão de ir tentar surrupiar algo na feira da vila dos humanos. Foi a minha tomada de decisão imprudente que me enfiou nessa enrascada.

Para os aldeões eu era uma paixão e uma promessa, pois acreditavam que ao me alcançar e me tocar a pele, diante de seus pés tornar-me-ia riqueza de valor inigualável e nunca vista antes na terra. A minha origem era um mistério para mim mesma, tudo poderia muito bem ser um engano para todos, mas ninguém queria arriscar, muito menos eu. Portanto, desde concebida, fujo e sigo fugindo, com o tempo fui me tornando cada vez mais fisicamente resistente e sozinha.

Aguardei surgirem os primeiros raios de sol para começar a caminhar em direção a feira daquela vila, abandonei meu habitat, decidi correr riscos. Ainda era inverno, durante essa estação não havia muitos frutos na floresta, estava tudo seco. Por conta disso Gael tinha que ir além da floresta, buscar alimentos que nos fossem mais saciáveis para assim conseguirmos nos sustentar por mais tempo durante essa estação difícil, visto que não conseguiríamos sobreviver semanas de cogumelos e folhas.

A caminho para a vila resolvi observar ao redor, estava tudo em uma quietude, quase pétreo, congelado em cores opacas pelo clima acinzentado do inverno. Não havia também tantas criaturas zoando de um lado para o outro como costumeiramente, mas deveria ser devido ao horário. Olhei a minha esquerda e assustei-me ao perceber que uma árvore movia lentamente um galho seu em minha direção, oferecendo-me uma grande maçã de um vermelho quase sanguíneo.

Conheço essa oferta, conheço o que posso estar perdendo ou ganhando, sinto em minhas entranhas a vontade, fui avisada, mas estou com fome, passei dias ouvindo os roncos do meu estômago e o gralhar dos urubus acima do habitat, tão famintos quanto eu e aguardando sorrateiramente o meu sumir. Agora ao meu redor silêncio, logo uma brisa e o som de crepitar do galho se aproximando de mim cada vez mais de mim.

“Não!”, falei empurrando a fruta, olhando para a árvore, hesitando e com pesar.

A árvore murchou como se surpreendida com a minha resposta, hesitou um segundo para logo oferecer mais uma vez a fruta. Eu poderia comer ali mesmo e sumir, sem sofrer fome, sem precisar tentar sobreviver, mas não poderia me deixar convencer pela facilidade. Mesmo que eu seja da terra para voltar para a terra como me lembro, ao menos desejo poder escolher o momento ideal, mesmo que pareça que eu não seja importante, ainda quero tentar ser algo.

“Obrigada, mas eu não quero agora”, uma hora ou outra poderia ser que eu precisasse, a minha indecisão me tornava humana, adolescente, aprendiz. A árvore obedeceu e lentamente voltou ao seu lugar, suspirei e rapidamente voltei a caminhar.

Tropecei e ouvi o grito dos aldeões se aproximando. Eles não deveriam adentrar tão profundamente na floresta, normalmente já teriam sido expulsos por um urso, lobos ou cães do mato, mas por algum infortúnio não havia mais nenhum animal na floresta naquele momento, era apenas eu, de forma que minha única opção era fugir e não torcer por ser salva. A floresta era-me conhecida, mas eles conseguiam observar o rastro do brilho da minha aura, eu tinha algo que eles desejavam e eles ansiavam por me tocar. Levantei-me rapidamente e segui a fuga, repentinamente comecei a sentir como se estivesse sendo encurralada, então tentei me concentrar para pensar em algum plano, me esforcei para ignorar seus gritos.

"Ela é minha eu a vi primeiro!".

"Peguem-na logo! Dividamos! Para todos!".

"Não! Ela é minha!"

Consegui ouvir o som do riacho. Serena.

Parei um segundo e recuperei um pouco de minha respiração ofegante, logo voltei a correr como nunca havia corrido antes na minha vida. Eles não iriam me alcançar, eu não permitiria isso. Senti um corte no meu ombro por um galho seco, pisei numa farpa, bati numa pedra, as árvores me engoliam. Estava aproximando-me do riacho quando senti um puxão que quase me derrubou.

Um deles me alcançou, um garoto.

Ele segurava o meu vestido, meu resto de pudor, puxava quase tão forte a ponto de tirar minhas alças. Como poderia eu ainda fazer tanta questão de pudor quando eles não veem mais que querem ver? O riacho corria atrás de mim. Encarei-o, me recompus, o garoto ficou me olhando como um tonto, dei-lhe um empurrão com o pé, observei todos os aldeões se aproximando, consegui chegar beira do riacho e saltei. Sem pensar. Estava muito ferida, não sabia se iria conseguir nadar. A correnteza estava forte demais. Ouvi uma flecha passando por trás da minha cabeça. A correnteza estava forte demais e eu estava muito ferida.

Quando eu cheguei na vila tentei ser o mais silenciosa possível, estava prestes a surrupiar algumas frutas, mas um aldeão velho e banguela insistiu tanto em se enxerir debaixo do capuz do meu manto para ver meu rosto. Eu tentei despistá-lo sendo cordial o máximo possível até que ele conseguiu o que queria e imediatamente gritou sobre a minha presença. “A garota! Ouro!”. Depois tudo aconteceu rápido demais. E rápido demais também as águas me levavam. Me vinha um sentimento de arrependimento misturado com o medo da morte, meu estômago embrulhava.

“Serena, Serena!”, clamei em minha mente e quando conseguia ficar acima da água. Será que não deveria ter escolhido a maçã, afinal de contas?

Meu treinamento respiratório estava fazendo com que eu conseguisse sobreviver mais tempo do que deveria ser suportável. Mas meus esforços para alcançar uma das margens não estavam sendo suficientes, uma vez ou outra era arremessada contra alguma pedra. A água estava tão fria, eu estava engolindo tanta água. “Serena”, clamei mais uma vez, logo senti seus braços ao meu redor. Salva, mas não por muito tempo. Cabia a mim agora me justificar.

Carregada em direção a uma das margens fui jogada de bruços, não com o tanto de delicadeza que gostaria, me virei de barriga para cima e comecei a tentar recuperar o fôlego. Olhei para as águas do riacho, observei o semblante de Serena com meus olhos ainda um pouco embaçados, ela parecia com raiva e triste, preocupada, assustada. Ela estava fitando-me de braços cruzados, não pretendia falar nada até que eu me explicasse.

“Eu não consegui ver outra saída”, consegui dizer, fraca.

“O que você pensa estar fazendo?”, ela inquiriu, sua voz rouca, nervosa. “O que seria de você se eu não estivesse por perto, Aurora?”.

Além da água lágrimas, pesar, culpa. “Me desculpe”, era o que eu precisava ter dito.

Mas falei: “Estava sendo perseguida, eles iriam me encurralar!”.

Ela suspirou, mas seus ombros continuaram tensos e os braços cruzados. Seu olhar pareceu um pouco mais leve, ela nunca mantinha raiva de mim por muito tempo, pois era sábia, era uma sereiana conhecida como o espírito das águas calmas.

“Entendo,”, disse. Eu não tinha certeza se ela entendia, tampouco eu entendia o que fiz, mas o que importava era que estávamos um pouco mais livres: eu, da morte, ela, da raiva por alguém que ama ter se colocado em risco imprudentemente. Ela disse "entendo" como que para pôr panos quentes, deixar o assunto de lado, relevar, apaziguar a situação, entendo. Eu deveria ter pedido desculpas invés de tentar me justificar.

“Gael já estava voltando no final desta tarde”, ela contou, relaxando os ombros e descruzando os braços. “Você deveria ter tentado esperar ele um pouco mais. Conte-lhe o que você fez, caso você não fale, eu falarei”.

Estava envergonhada e arrependida.

“Eu vou falar com ele”, falei, a voz falhando, como uma criança de castigo.

Estava me levantando e reparei que Serena havia ido embora, normalmente ela despedia-se, mas naquele momento eu não merecia sua educação. Comecei a espremer a água do meu vestido, esse resto de vestido que ainda me tornava meio humana. Espremi-o com raiva de mim mesma, da fome e dos homens. Não acredito que Gael ficará com raiva de mim pelo que fiz, a indiferença dele é justamente o que poderia me machucar. Apesar do que passei até o momento talvez o que fosse enfim abrandar todos esses sentimentos seria seu veredito. Eu precisava que alguém dissesse não que eu fui irresponsável, mas sim estúpida.

Quando terminei de espremer o vestido comecei a tentar parar de me lamentar. O caminho de volta ao habitat era longo e, conforme Serena me informou, Gael já estava voltando. Queria chegar antes dele para recepcioná-lo. Virei as costas para o riacho e caminhei.

Nesse lado da floresta ainda havia algumas folhas verdes e notei que também estava tão estranhamente silencioso quanto mais cedo. Toda a floresta estava estranhamente silenciosa aquele dia. Normalmente havia uma grande sinfonia, uma cantoria de pássaros, o vento nas folhas, os grunhidos de alguns bichos, mesmo que pausadamente, havia som na floresta. Mas hoje não, estava um silêncio, parecia estar tudo congelado. Era inverno, mas ainda havia vida, ou deveria haver. Gael provavelmente saberia me explicar o que estava acontecendo, caso eu decidisse perguntar.

“Olha, menina, olha por onde anda!”, era o Matim vindo a cantar, quase tomei um susto com sua repentina aparição e, sem dúvida, era sempre essa a intenção dele. “Agora não me olha com essa cara de munganga, pois não te convidei para uma dança!”

Ele era uma ser encantado peculiar, de história trágica, poderes mágicos incríveis e personalidade difícil de decifrar. Usava um gorro vermelho e sempre estava com um cachimbo vaporando. A cor de seu corpo era breu o que fazia com que a cor dos seus olhos e boca vermelhos tivessem um aspecto sombrio. Ele causava rodas de vento por onde quer que passasse e sua diversão era perturbar um pouco a paz.

Depois de suas palavras foi como se toda a floresta tivesse revivido. Os animais que estavam escondidos saíram de suas tocas e um por um começou a se sentir à vontade para fazer sua melodia única. Não sabia dizer ao certo se o Matim os despertou, ou se foi uma coincidência, porque na maior parte das vezes ele trazia o caos e os bichos se escondiam, mas eu também não acreditava em coincidências.

Ele me deixava bastante confusa sobre essas questões, me divertia.

“Onde estavam todos?”, perguntei.

“Estavam todos escondidos, menina, com medo de você com suas perguntas”, zombou. “Pergunte ao pássaro porque ele canta”.

“Matim, por que estavam todos escondidos?”, me esforcei para ser clara, normalmente ele conseguia distorcer minhas palavras, mesmo as mais rígidas.

Ele caminhava ao meu lado parou um momento e fez uma roda de ar onde um porco-espinho se encostou e voou para longe.

“Houve uma grande reunião no alto do cume, tu não foste convidada, como de costume?”, disse rindo e balançando a cabeça, seria perturbador senão fosse engraçado. “Ô, garota! Olha os modos, tenha cuidado...", ele olhou ao redor "quase houve um velório”, disse de maneira sombria, me assustando.

“De quem?”, minha voz era baixa, quase um sussurro. “O que houve?”

“Ouço tudo, mas não posso informar. Ninguém sobre isso deve ousar falar”, advertiu. “Agora volte pro seu habitat, garota curiosa. Não deixes assim ficar tão ansiosa”.

“Matim”, segurei-o pelo braço, pretendia sumir no vento, me esconder a verdade, eu queria pelo menos um sinal sobre ela.

"Mamãe está bem?”, perguntei-lhe, era a primeira vez que estava pensando nela depois de tantos dias.

Por alguma razão senti ser sobre ela. A floresta em um silêncio e esse quase velório. Mesmo sendo difícil consegui fazê-lo parar, sua expressão normalmente zombeteira adquiriu um teor mais sério, mas ele não me daria a verdade nua e crua, iria apenas dar uma dica, fazer uma charada. “Ela está ótima!” riu, desvencilhou-se de minhas mãos e sumiu levando embora qualquer certeza.

Sentia fome e fiquei sem saber com o que me preocupar naquele momento, estava assombrada, queria voltar logo para meu habitat. Parei por um momento, sentada numa pedra, pensando, me recompondo mais uma vez, juntando os cacos, pensando nos casos. Nunca aconteceram tantas coisas comigo tão sucessivamente, até ali minha vida havia sido tediosa, com poucos turbilhões. Senti o vento em minha pele, que algo ruim se aproximava e que toda a natureza sabia disso também, mas ninguém sabia explicar quando. O “o quê” todos conseguimos imaginar.

Cheguei na parte do riacho onde dava para saltar por sobre algumas pedras para chegar do outro lado, ainda havia um longo caminho pela frente. Observei algumas sereias brincando na margem com uma bola de algas, ou pelo menos parecia com uma bola de algas agora. Às vezes era-me estranho compreender que Serena fazia parte dessa espécie. As sereias normalmente não tinham pudor, nem pena, tampouco nojo de sangue, ou de matar. Tomavam tudo por brincadeira, ou necessidade instintiva, de forma que não sentiam culpa, eram cruéis.

Quando percebo que minha amiga destoa de todas elas, sendo por isso renegada, fico me perguntando se isso é ruim ou bom para ela. Acredito que por mais que ela sinta seus sentimentos mais vivamente, era melhor ela não sentir, assim ela teria uma família e não viveria lutando contra os seus instintos.

“Oi”, Serena me chamou.

Havia pulado rapidamente as pedras para chegar na margem do outro lado com medo de que as sereias me vissem e viessem me tirar a paz, quando a ouvi e me virei para atendê-la. “Oi”, respondi.

Ela jogou dois peixes na margem. “Não estão tão gordos, mas infelizmente não tem muitos no rio agora. Tive que ir buscá-los na foz e trazê-los até aqui”, ela me olhou travessa e sorrindo. “Não há de quê”.

“Me desculpe, obrigada!”, falei por fim puxando os peixes pela cauda para não pularem de volta. “Tanta coisa passando por minha mente que estou demorando a responder”.

“Quem lhe preocupou?”, questionou.

Engoli em seco. “O Matim…”.

Ela riu alto e sarcástica. “Pode dançar, cantar, esquecer tudo o que ele tenha lhe dito!”, cantou gargalhando. “Sabe que ele gosta de pregar peças, mesmo que tenha que mentir para isso! Ele gosta de ouvir o compasso do coração acelerado da pessoa aperreada com coisa ruim, porque ele dança com esse batucar! Ele gosta de sentir o cheiro de medo porque é um feromônio para ele!”, era um sermão que eu precisava. “Com certeza você tem mais coisas com o que se preocupar, como, por exemplo, explicar para o lobo o que tu cometeste”.

Suspirei, rendida. “Verdade, obrigada.” falei, “mas a Mamãe tá bem, não é?” questionei.

Podia jurar que, mesmo por uma fração de segundos, seu semblante adquiriu um tom mais sombrio, mais sério. Ela sorriu. “Claro que ela está, sua boba! Agora, de volta pro seu habitat!”, disse rindo antes de imergir nas águas me acenando um tchau.

Era essa uma característica que tornava Serena mais humana que sereia: ela não sabia mentir.

Catei os dois peixes depois que pararam de se debater e voltei a caminhar.

Estava ficando tarde e fiquei me perguntando se iria conseguir chegar na caverna antes de Gael porque caso ele chegasse antes de mim ele iria me procurar nos lugares que eu costumo ficar e caso não me encontrasse poderia ficar preocupado. Ou poderia simplesmente chegar, começar a preparar uma fogueira para acender, colocar os mantimentos em seus devidos lugares, e não der por minha falta até eu aparecer.

“Filha do Sol!”, ouvi alguém me chamar, uma voz que ecoava, que parecia vim de dentro da minha própria mente ou de outro mundo. “Sou eu, de novo, não se assuste”.

Observei-a descer lentamente do céu. Era Celeste, a portadora do espírito da lua. Era um dos seres etéreos mais antigos que habitavam a floresta. Ela cheirava a sereno, a brincadeira na chuva, a lugar novo. Era alva, quase transparente, tinha cabelos grandes e escuros. Na sua pele havia algumas manchas escuras como as crateras na lua. Nosso astro ainda não havia começado a demonstrar seu esplendor no céu noturno, pois o sol ainda se punha.

Ocasionalmente Celeste me encontrava para conversarmos firulas, ela era peculiar, poucos conseguiam lidar com suas fases, suas transições, tampouco a forma como movia as coisas, às vezes violentamente demais, outras vezes delicadamente, era, exatamente dessa forma, sua maneira de falar.

Ela desceu ao chão, seus pés levitando levemente, roçando a relva seca, com as pontas dos dedos como se fosse uma bailarina. Vestia um vestido de várias cores, a maior parte deles tons indistinguíveis relacionados ao teto estrelado, nosso firmamento.

“Está preocupada?”, ela perguntou. “Fale, por favor, fale, pode falar”.

Celeste tinha uma curiosidade que poderia beirar ao enxerimento, era preciso ter cuidado, às vezes ela só queria saber das coisas por saber. Além de que uma de suas habilidades é que ela, supostamente, conhecia todo o futuro. E, o que realmente poderia ser irritante sobre esse seu enxerimento, é que como por se tratar de um ser celestial, ela poderia aceitar ver as coisas lá de cima, mas ela queria se sentir a par da situação.

“Foi um dia longo, Celeste”, falei continuando a caminhar. “Agradeço tua preocupação, mas devo sozinha cuidar das coisas”.

Ela me seguia, seus olhos escuros faiscaram. “Filha do Sol!”, exclamou. “Eu conheço você como conheci sua mãe, você precisa falar sobre o seu coração!”.

Eu estava tentando ser o mais delicada possível. “Qual das minhas mães você está falando? O Sol, a Mamãe, ou a que não me deram?”.

Celeste se espantou afastando-se um pouco de mim, balançou a cabeça e o dedo indicador. “Na-na-ni-na-não”, censurou, “você é um ser transcendental também, menina! É eternal, celestial, espectral, de valor infinitesimal! Mas está presa à terra por”, ela olhou ao redor e disse sussurrando: “sua Mamãe”.

Era mentira, todo mundo falava sobre como não dava para confiar em tudo que Celeste dizia, que ela mentia, tanto quanto o Matim, mas o Matim comparado a ela nos parecia mais verdadeiro. Algumas vezes ele até nos ajudava a encontrar a verdade, mas a Lua já enganara caminho de viajantes levando-os para fora do seu destino e deixando-os ser engolidos pela noite.

“Que seja”, murmurei. “Tenho que ir para meu habitat. Pode ir embora!”

Mais uma vez Celeste se espantou. “Não fale assim comigo! Estou tentando lhe ajudar!”, choramingou.

Senti picadas de mosquitos nas minhas mãos devido aos peixes, estava ficando irritada com a situação.

“Não, não está! Você está mentindo e tentando me pôr em um dos seus joguinhos em que você observa lá em cima! Me deixe! Eu sei iluminar o meu caminho. Eu sou filha do Sol, sou cria da Natureza e não preciso de mais um espírito zombeteiro para tentar me guiar!” falei de uma vez, fiquei um pouco sem ar.

Silêncio.

Ela crispou, espantada. Primeiramente sua expressão foi de mágoa para em seguida se enraivecer, fagulhas no fundo dos seus olhos. Ela começou a se levantar do chão, não me disse uma palavra, apenas me fitava. Na altura das árvores ela conseguiu controlar seus sentimentos e abriu um sorriso antes de sumir. Com sumir quero dizer engolir todos os resquícios da luz solar, consumir todo o firmamento e trazer a escuridão, anoitecendo um pouco mais cedo do que o habitual. Mas mesmo se ela estivesse mortificada de raiva ela não poderia nos negar as estrelas.

Voltei a caminhar para o habitat.

E depois de um longo caminho, enfim, havia chegado ao meu destino.

Notas finais
Dá um coment, dá um feedback, na moral, vai!