(in) esquecível
8 Sobre o que você perdeu e sobre o que você ganhou
Notas iniciais
Sobre o que você perdeu e sobre o que você ganhou
Ele percebeu a situação na qual se encontrava muito antes de abrir os olhos. Não percebeu tudo de uma vez, entretanto. A situação foi exatamente a oposta. Percebeu aos poucos, bem devagar, cada célula de seu corpo reconhecendo vagarosa e lentamente o que o envolvia.
Primeiro foram seus sonhos, que devagar se deixaram invadir por imagens desconexas. Dedos entrelaçados e respirações abafadas, sussurros baixos e fogueiras, papéis em chamas e risos altos. Não eram exatamente pesadelos, mas também não eram sonhos agradáveis, não quando o mostravam apenas imagens em preto e branco, livres de qualquer cor. A desconfortável sensação monocromática agitou poderosamente seu inconsciente, como se o queimasse tal qual queimava os desconhecidos papéis. Aos poucos seus olhos começaram a responder ativamente ao calor e às cores que os invadiam através das finas pálpebras fechadas. Estas sensações acordavam seu corpo a aquilo que seu inconsciente já notara há algum tempo. Seu corpo, entretanto, assim como sua mente, não percebeu tudo de uma só vez.
Primeiro foi sua pele. Seus dedos e a lateral de seu braço direito. Ambos aquecidos por um calor distinto, daquele que um cobertor não é capaz de trazer, confortável e vivo. Depois foram seus ouvidos. O som do cobertor movendo-se. O som do atrito no travesseiro. O som de duas respirações leves, suaves. Em seguida suas narinas. E quando elas entraram no jogo ele estava já a ponto de acordar, as pálpebras leves que ocasionalmente tremiam desconfortáveis pela luz que entrava pela janela do quarto.
Como se conscientes do iminente despertar, seus sonhos esforçaram-se por prendê-lo com eles, fazendo-se cada vez mais reais: o calor que sentia contra sua pele aliava-se às imagens de uma fogueira grande, a respiração abafada era substituída por duas suaves e sincronizadas, a luz solar que entrava através das cortinas abertas coloria aos poucos as imagens e por fim o cheiro que preenchia cada milímetro do quarto envolveu também cada mínima parte de sua mente.
Quando finalmente acordou já sabia qual era a exata imagem que esperava pelos olhos castanho-dourados, mas isso não evitou que ao vê-la os abrisse ao máximo que podia ou que seu coração batesse tão rápido que parecia parar. E ele verdadeiramente não precisava fazê-lo, mas direcionou aos poucos seu olhar para cada um dos pontos que atribulavam seus sonhos. Gradualmente, atento a diferenciar o que era real e o que era confusão da mente recém-desperta.
Primeiro moveu um pouco os dedos da mão direita, sentindo os movimentos restritos antes de direcionar a eles os olhos castanhos-mel. Não era um sonho, eles estavam firmemente entrelaçados a dedos pálidos e longos cobertos de cicatrizes de cortes. Consciente do que fazia, voltou a mover os dedos, desta vez com mais força, e sentiu como os que os prendiam seguraram-nos com mais força, roubando-os de volta a seu aperto.
Ao ter seus dedos roubados de volta, sentiu intensificar o calor em seu braço direito e lentamente direcionou para lá seus olhos castanhos-mel. O contato começava um pouco abaixo de seu cotovelo, tomando seu antebraço quase que por completo. Iluminada pelos raios solares, a pele que parecia querer mesclar-se à sua queimada de sol parecia ainda mais pálida, como se o braço que se entrelaçava ao seu tentasse, de alguma forma, roubar-lhe a cor.
Enquanto ainda fitava a forma como o pulso pálido grudava-se ao seu com força, mantendo firmes os dedos entrelaçados, passou sua atenção ao seu segundo ponto.
Ouviu com atenção a respiração leve que agora já não mais sincronizava com a sua agitada e pesada. Desviou os olhos devagar para a fonte do som, passando pelo peito que subia e descia sutilmente, reconhecendo ali um moletom seu, e parando nos lábios entreabertos que resmungaram de leve quando puxou novamente seus dedos para fora do aperto.
Foi enquanto passava para seu último ponto, inspirando profundamente e deixando o cheiro do homem a seu lado invadir cada célula de seu corpo assim como invadia cada milímetro de seu quarto que percebeu que, assim como ele mesmo fizera instantes antes, o dono da respiração leve, da pele pálida e do cheiro inebriante também acordava. Ele o fazia aos poucos, e, estranhamente, percorrendo o caminho contrário ao que fizera.
Começou com uma respiração profunda, daquelas que pareciam querer sugar para dentro todo o ar que a cercava, mas que cessou rápida, como se agora rejeitasse o que quer que tivesse sugado anteriormente. A respiração profunda, diferente da respiração do primeiro homem, que lhe roubara toda a cor do rosto, pintara de vermelho o rosto anteriormente pálido. Os lábios que até então entreabertos deixavam escapar um respiração leve fecharam-se apertadamente e, pálidos, contrastaram imensamente com o rosto corado. Em seguida, sob o olhar castanho-mel intenso, o homem de lábios pálidos e rosto corado afundou a lateral do rosto pesadamente sobre o travesseiro, pressionando o ouvido esquerdo contra o tecido fofo.
Foi só neste momento que o primeiro homem, Heiwajima Shizuo, percebeu que gritava. E pareceu ser apenas neste momento, também, que o segundo homem, Orihara Izaya, pareceu dar-se conta de tinha seus dedos a puxarem para si os de Shizuo, e pareceu percebê-lo apenas porque os puxou rapidamente de volta para si, desenroscando seu braço do braço do guarda-costas e encolhendo-o para junto do corpo.
Quando terminou o último ponto de contato entre eles, abriu os olhos castanho-avermelhados, que fitaram grandes os olhos castanhos-mel.
Mesmo que não pudesse ouvir-se, surdo pela raiva, Shizuo sabia que ainda gritava, seus gritos, entretanto, cessaram aos poucos, até que os únicos sons a preencherem o quarto fossem as duas respirações pesadas e altas, lado a lado. Diferente de seus ouvidos, entretanto, seus olhos não pareciam afetados pela raiva, fitando intensos e atentos a forma como eram observados pelos olhos castanho-avermelhados. E sequer sua mente parecia de todo influenciada, perguntando-lhe como se perfeitamente sã o motivo pelo qual permanecia deitado ao lado do homem para qual até poucos segundos gritava ofensas tão intensamente. Se aquela fosse uma batalha, ele sabia com cada célula de seu corpo que a havia perdido no momento no qual virou o corpo na direção do homem que separava os lábios para dizer algo e entregou a ele sua atenção silenciosa.
– Desculpe – foi tudo o que alcançou seus ouvidos, mesmo que não tivesse dúvidas de ter visto os lábios abrirem-se mais vezes do que aquela simples palavra pedia.
E ela não era o suficiente, ela não lhe explicava porque acordara com Izaya deitado a seu lado em sua cama, desperto como fora pelo calor de sua pele, sua respiração leve e seu cheiro. E a forma como os lábios continuavam abertos e arriscavam algumas sílabas quando em quando anunciava que Izaya compartilhava de seu pensamento.
Ele sabia que sua confusão passaria em poucos minutos e o choque liberaria seus músculos para que enterrassem o punho no rosto daquele homem a seu lado. Ele sabia disso e esperou, ansioso, pelo momento no qual seu corpo despertaria por completo daquele que parecia ser um transe causado pelo choque de encontrar Izaya ao abrir seus olhos. E ele realmente não esperava por uma explicação por parte do outro enquanto esperava pela autorização de seu corpo, mas ela veio, atropelada e rápida, de forma que ele demorou um pouco a percebê-la:
– Eu sei-eu sei que me mandou dormir no sofá... Eu fiz isso... Fiz, de verdade, na maior parte do tempo, ao menos... Mas... Mas ficou muito frio e a chuva aumentou e na sala não tem aquecedor e o cobertor não era o suficiente e eu tremia e eu sabia que você ficaria bravo caso tivesse febre de novo e...e...e então eu vim pra cá. Eu não pensei direito... Só estava frio e aqui... aqui era-é quentinho... Eu não planejei t-te abraçar nem nada... M-mas você é quentinho...
– Você não me abraçou! – Shizuo não percebeu que tivera sua atenção capturada pelas palavras de Izaya até ouvir-se defendendo delas, a voz soando alta e raivosa.
– N-não te abracei! – Izaya defendeu-se também, recuando alguns centímetros e afastando-se de Shizuo.
– Foi você que disse, idiota!
– S-só segurei sua mão!
– E eu devia estar te quebrando por isso! – suspirou, cansado – Por que diabos segurou o caralho da minha mão?
– Eu não segurei sua mão!
Shizuo fitou-o impaciente enquanto virava o corpo novamente, de forma a apoiar suas costas no colchão macio. Ainda sentia-se tonto pelo recente despertar e o sono ainda insinuava-se para suas pálpebras, brincando de fechá-las em piscadas longas. Com os dedos agora livres do aperto de Izaya, direcionou a mão direita aos olhos e coçou-os fortemente, afastando a força o sono.
Fitou o teto branco de seu quarto. Ele não percebera o momento no qual Izaya metera-se entre os seus lençóis, mas lembrava-se com perfeição de todos os outros momentos do dia anterior.
Ele estava exausto quando deitara, disso tinha certeza. Não fora fácil a ele controlar-se diante de um Orihara Izaya descontrolado. Manter-se preso, trancado em casa por uma chuva torrencial, fora tão difícil quanto manter-se são o suficiente para não acabar com Izaya. Mas ao fim do dia ele tomara uma decisão. E foi esta decisão que permitiu a ele, agora desperto, não quebrar cada um dos ossos de Izaya por encontra-lo tão próximo a si.
A decisão que tomara não viera facilmente, e sequer viera apenas de si e sua vontade. A decisão veio com um toque baixo de celular, através de uma mensagem que trazia o nome de Heiwajima Kasuka.
“Shizuo, você não precisa fazer isso. Boa sorte.”.
A mensagem era curta e direta, assim como todos os contatos que tinha com o irmão, mas ele a encarou por minutos a fio. Não que precisasse fazê-lo, ela era afinal perfeitamente compreensível para o homem mais forte de Ikebukuro.
Ele não sabia como Kasuka soubera de sua situação, mas desconfiava que Shinra estivesse envolvido. Não que isso importasse, ele sabia que cedo ou tarde teria de contar ao irmão, era algo inevitável ao levar-se em conta que Orihara Izaya parecia ter desenvolvido o hábito de correr até sua casa. E não que isso importasse, não quando Kasuka parecia saber exatamente o que acontecia consigo mesmo sem uma palavra sua. E era exatamente o que lhe diziam aquelas palavras extremamente contraditórias na tela de seu celular: “Não precisa fazer”, “Boa sorte fazendo”. Conhecia Kasuka bem demais para interpretar aquilo como um: “Eu sei que fará algo, vou te apoiar no que decidir”, mesmo que nunca houvesse ouvido nada como isso deixar os lábios de seu irmão mais novo.
E aquela mensagem, por mais simples que fosse, continha tudo o que ele precisava para manter-se sobre controle. Porque, se havia em Heiwajima Shizuo algo mais forte do que seus músculos, seria, definitivamente, o amor por seu irmão mais novo.
Ele queria, acima de qualquer coisa, que Kasuka tivesse motivos para sentir-se orgulhoso dele. Ouvir um “boa sorte” do irmão mais novo o fazia querer honrar este desejo fazendo o melhor de si. E o melhor de si, aparentemente, era ajudar Orihara Izaya, mesmo que isso soasse um pouco cômico. Como diabos ajudar Orihara Izaya poderia ser o melhor? Se ele houvesse mesmo esquecido quem era, em que mundo trazer de volta o antigo informante poderia ser algo bom? Talvez o melhor seria deixar tudo como estava... Isso, claro, se ele pensasse de forma egoísta. E, por mais que suas ações muitas vezes levassem todos a pensar nesta característica como uma das que lhe pertencia, Heiwajima Shizuo não era um homem egoísta. Inconsequente e impulsivo sim, mas não egoísta. Se ele perdesse suas memórias, iria querer que alguém o ajudasse. Se Kasuka perdesse suas memórias, ele iria querer que alguém o ajudasse a lembrar-se.
Agora era a ele, portanto, uma questão de honra ajudar Izaya. Era provar a si mesmo que conseguia fazê-lo. E, bem no fundo, o fato de que provar que Izaya perdera suas memórias provavelmente ser a única forma de redimir tudo o que decidira fazer por ele definitivamente pesava em sua decisão. Ele precisava provar que Izaya não se lembrava, assim ele também poderia provar a si mesmo que estava certo em fazer o que planejava fazer dali em diante.
E o que planejava fazer dali em diante não incluía matar Izaya. Nem bater ou socar ou arremessar objetos. Não, ao menos, com frequência.
– E-eu segurei só um pouquinho... Desculpe... – Shizuo voltou os olhos que fitavam o teto branco para os olhos castanho-avermelhados que se recusavam a olharem-no diretamente e quase sorriu diante do embaraço presente neles. Seria fácil manter sua decisão se Izaya permanecesse sempre daquela forma: foi seu primeiro pensamento. Mas ele logo o recusou, lembrando-se que aquele era o resultado de Izaya ter segurado sua mão, o que, verdadeiramente, não estava incluído na lista de “coisas que tenho que aguentar para ajudar a pulga”. Em termos gerais, ele admitia que aquele Izaya irritava-o tanto quanto o que perseguira por anos a fio em Ikebukuro. Mais do que “inocente como uma criança” e “dono de um sorriso leve”, aquele Izaya era para ele “pulga terrivelmente irritante”, mesmo que, de uma forma estranha, parecesse algo como uma “pulga filhote” – Você vai me bater?
“Eu devia. Mas não.” – foi o que pensou, mas permaneceu em silêncio. Izaya não precisava saber de sua decisão. No lugar da resposta que carregava toda sua determinação, o que deixou os lábios de Shizuo foram duas simples palavras:
– Agora não.
O suspiro aliviado que deixou os lábios de Izaya foi perfeitamente audível, e Shizuo não conseguiu evitar espelhá-lo.
– Você vai me ajudar?
A pergunta séria, livre de qualquer receio e hesitação, poderia ter pego Shizuo de surpresa. Mas ele nunca seria ingênuo o suficiente para pensar que junto à memória Izaya tivesse perdido todas as suas outras capacidades. Ele tivera uma prova concreta disso na tarde anterior, quando o informante desviara de seu golpe com a característica agilidade. Ele estava preparado para o fato de Izaya não ser tão ingênuo quanto inicialmente aparentava. Ele não tinha dúvidas, afinal, de que aquele era Orihara Izaya. E aceitar que aquele era Orihara Izaya era aceitar o pacote todo: a agilidade, as lâminas, a língua afiada, a inteligência irritante. Mesmo que elas demorassem a revelar-se ou mesmo que elas nunca se revelassem novamente. Ele estava preparado para elas de toda forma. Ou, ao menos, tentava convencer-se de que estava.
– O laboratório de Shinra queimou – começou, olhando com atenção o homem a sua frente, não conseguindo evitar pensar “E eu ainda acho que você tem dedo nisso” mesmo que nada dissesse – e com isso também seus exames. Ele não tem certeza, então, do que causou esta bosta toda... – anunciou, fitando com atenção o rosto que o olhava confuso diante de suas palavras. Bufou alto antes de acrescentar – Digo, sua perda de memória. Se é que ela realmente existe... – viu Izaya entreabrir os lábios, provavelmente para afirmar sua verdade, mas não o deixou continuar – ... De toda forma, o idiota falou um monte de merda que não entendi direito e então vou até lá mais tarde. Você vai comigo e depois vai pra sua casa.
– Mas você não vai me aju-?
– Isso não significa que vai ficar aqui. – cortou-o – Se ficar aqui vou acabar te matando e estou falando sério. Você mora em Shinjuku. Você fica lá.
Um impulso foi o suficiente para que Shizuo levantasse-se, o que por fim provou a ele que o peso que parecia impedi-lo de levantar estava agora, provavelmente, longe de seus ombros. Sentou-se na cama e passou com força a mão direita entre os fios dos cabelos, alinhando-os involuntariamente. Pela iluminação do quarto supunha que já não chovia e que a manhã estava quase pelo fim, o que significava que a visita a Shinra seria feita a tarde, provavelmente após o almoço que ele tentava convencer-se a fazer quando sentiu os dedos finos e marcados por cicatrizes de cortes segurarem seu braço, impedindo-o de levantar-se totalmente da cama.
– Obrigado. – a voz era baixa, quase um sussurro, mas soou mais divertida quando seu dono voltou a pronunciar-se – Posso te abraçar de novo? Só pra agradecer?
Shizuo revirou os olhos. Manter sua decisão seria, definitivamente, a coisa mais difícil que faria em toda sua vida.
– Eu quebro sua cara. – rosnou antes de levantar-se da cama e marchar a passos pesados para fora do quarto, tentando convencer a si mesmo que o riso divertido que ouvira fora apenas sua imaginação.
*
Andar com Izaya por Ikebukuro não era uma ideia confortável a Shizuo, definitivamente. Mas ao fazê-lo, o guarda-costas teve a certeza de que não era o único desconfortável com a situação.
No início não era nada que merecesse a atenção, não mais, ao menos, do que a que normalmente já lhe era dirigida. Mas agora ele percebia que aquilo era resultado, provavelmente, do fato de que ainda não haviam percebido que aquele homem em moletons largos e que andava mais perto de si do que Shizuo gostaria que fizesse era Orihara Izaya.
Ele não os culpava, mesmo ele não acreditaria de primeira.
Izaya acompanhava-o a suas costas, por dois passos de distância, metido em um de seus moletons velhos e, se ainda mantivesse a mesma expressão que tinha desde a última vez que checara, encarava Ikebukuro com olhos enormes, como se olhasse pela primeira vez para suas cores e seus prédios altos.
Vez ou outra o moreno afastava-se um pouco dele, parando para fitar algum prédio ou alguma loja em específico, e logo se punha a correr para alcança-lo, parando ao seu lado e sorrindo um sorriso cheio de dentes que Shizuo tinha vontade de quebrar a socos. Era um fato: cada vez que Izaya sorria, morria o sorriso de algum dos moradores de Ikebukuro que passava pela rua ao lado dos dois, substituído como era por uma careta intrigada e receosa.
Tinha vontade de mandar que Izaya parasse de parecer deslocado ou que guardasse para si seus sorrisos, mas sabia que dirigir a palavra a ele chamaria ainda mais atenção, de forma que os passantes que ainda não os haviam reconhecido o fizesse instantaneamente. De toda forma, sentia-se grato por ser um domingo à tarde, e, como toda tarde de domingo, a rua não estivesse abarrotada de gente.
Shinra não morava longe, mas também não perto o suficiente para que pudesse caminhar até lá com um Izaya atrasando seus passos. Mas ele teria insistido em ir a pé até lá se soubesse o que o esperava ao optar por meter-se dentro de um pequeno vagão do metrô com Orihara Izaya. Se julgara absurdamente desconfortável andar com o moreno em sua cola por Ikebukuro, era, definitivamente, porque ainda não se estivera com ele no trem que, diferente das calçadas, estava lotado. A verdade é que a situação já chamaria a atenção dos moradores de Ikebukuro mesmo se Izaya não estivesse com ele. Eram perfeitamente audíveis no vagão pequeno os sussurros “Ei, aquele não é Heiwajima Shizuo?”. Mas, claro, tudo piorou quando Izaya achou que seria uma boa ideia perguntar a ele se ouvia as pessoas falarem sobre ele. Apenas um “Ei, Shizu-chan, você é famoso ou algo assim?! Todo mundo está falando seu nome! Que legal!” seguido de uma risada mais alta do que aconselhava a regra de bom comportamento em meios de transportes coletivos e Shizuo pensou seriamente se seria ou não uma quebra de sua decisão se, ao invés de matar Izaya, usasse-o para atingir as pessoas que agora olhavam assustadas para os dois.
O metrô era rápido e o caminho não era longo, mas, ao desembarcar, Shizuo sentiu como se tivesse viajado através do inferno. Entretanto, por mais desconfortável que se sentisse, ele sabia com cada célula de seu corpo que aquela fora apenas uma pequena amostra e que o dia seguinte, quando a notícia de que Izaya tentara segurar sua mão no metrô e puxá-lo para sentar-se ao seu lado se espalhasse, seria a verdadeira provação. Não que ele tivesse tempo para preocupar-se com isso agora. E, verdadeiramente, não que ele quisesse se preocupar com isso agora.
Enviou uma curta mensagem ao médico clandestino quando virou a esquina que dava acesso ao seu prédio e, quando finalmente o alcançou, sua entrada foi permitida sem problema algum. O breve pensamento de que se, como Shinra, tivesse em seu prédio uma portaria que controlasse o acesso aos apartamentos não estaria agora metido na situação que estava passou por sua mente.
– Hey, pulga, – ao entrar no elevador dirigiu-se ao informante pela primeira vez desde que deixara seu apartamento – não faça nenhuma gracinha nem fale merda alguma. Entendeu?
Sob seu olhar atento, Izaya permaneceu quieto por algum tempo, apenas olhando-o interrogativamente. Ao perceber que Shizuo esperava por uma resposta concreta, limitou-se a abaixar os olhos e resmungar um baixo “sim” no exato momento no qual o elevador parou no andar de Shinra.
– Shizuo-kun! Izaya-kun! – o médico clandestino gritou através da porta aberta, recepcionando-os – Entrem, entrem! Izaya-kun... – Shizuo apenas continuou seu caminho porta adentro, ignorando o amigo que parecia repreender Izaya – Você não devia ter fugido daqui! Fiquei preocupado! Cadê sua faixa?
Cumprimentou Celty com um aceno simpático e leu em seu palmtop um “Oi, Shizuo, tudo bem com você?” enquanto ouvia um aparentemente embaraçado informante dizendo que se esquecera de refazer o curativo após o banho do dia anterior.
– Shizuo! – ouviu ao jogar-se no sofá da sala, afundando-se pesadamente nele – Porque não refez o curativo do Izaya? Ele não consegue fazer sozinho!
Ignorou a repreensão recebida e fitou o médico com seriedade o suficiente para fazê-lo calar-se e sentar-se no sofá lateral ao que se sentara. Celty sentou-se ao lado do noivo e Izaya, para seu desconforto, sentou-se a seu lado. Entretanto, mesmo que sentisse vontade de manda-lo afastar-se, permaneceu calado, os olhos fixos nos olhos castanhos escuros de Kishitani Shinra.
– Desembucha – foi tudo o que disse, ouvindo como resposta um suspiro profundo de Shinra.
– Izaya-kun – o médico desviava o olhar dos olhos castanhos-mel, direcionando-os a Izaya, que se remexeu desconfortável ao ver-se o alvo da atenção – Eu já falei um pouco com Shizuo por telefone. Mas não falei com você. E isso é assunto que interessa mais você do que qualquer um, né?! E ele provavelmente não te disse nada, né?!
– D-disse que seu laboratório foi atacado e que meu exame perdeu-se... que você tinha dito umas coisas que não dava pra entender e que, então, tínhamos que vir até aqui para saber direito o que fazer.
– Ele disse isso?! Uau! Você explicou para ele, Shizuo! – o olhar do médico voltara-se novamente a Shizuo e era quase palpável a surpresa nele, quando se desviou de volta a Izaya, assumira o ar sério que Shizuo esperava ver desde o começo – Meu laboratório foi atacado anteontem, no fim da tarde, acredito que um pouco depois de você ter saído daqui. Quem o atacou, e não importa quem o fez, queimou tudo o que eu tinha e isso inclui seus exames. Como eu mesmo já te disse, eu já os tinha olhado antes, então, mesmo que ainda quisesse analisa-los melhor, não posso dizer que foi uma perda total. – o médico pausou momentaneamente o que falava, desviando o olhar primeiro para Celty, para Shizuo e por fim voltando-o para Izaya – Você não teve nenhuma fratura. A batida foi forte, definitivamente. Forte o suficiente para causar danos, mas, como eu disse a Shizuo-kun, eu não os encontrei. Não encontrei nada que justificasse sua perda de memória... Entretanto – e agora seu olhar concentrou-se totalmente em Shizuo – tenho indícios o suficiente para dar crédito às suas palavras quando diz que não se lembra de nada. Eu tinha feito um pouco disso após olhar seu exame, mas ontem, após falar com Shizuo, pesquisei um pouco mais sobre o que poderia ter causado a sua perda de memória. Tenho algumas teorias sobre, mas, de modo geral, acredito que o trauma da pancada, físico, tenha desencadeado um trauma emocional e este sim está ligado à sua perda de memórias. Claro que não tenho como saber porque isso aconteceu. Uma teoria é que você tenha suprimido o desconforto e dor causados pela pancada e, junto a ela, tenha suprimido memórias que de alguma forma se relacionassem a ela. Como você acabou por suprimir tudo, até mesmo seu nome, não sei te dizer. Eu disse pro Shizuo-kun: nunca me interessei por traumas emocionais, e mesmo agora não me interesso, então não posso te dizer muitas coisas sobre...
– Então... eu suprimi as memórias para que... eu não me lembrasse da dor da pancada?
– Acho que, resumidamente, essa é a explicação mais razoável!
– Por que eu fiz isso? Não sinto mais dor na cabeça...
– Ah! Isso não seria voluntário. Acontece não raramente com pessoas que sofrem traumas. Talvez algo mais naquela noite tenha desencadeado isso. Mas, bom, a única pessoa que poderia confirmar isso pra gente agora não consegue nem enfaixar o próprio machucado sozinho, né?! – o tom do médico clandestino voltara ao usual zombeteiro. Ao ouvir tal tom, Shizuo, que ouvira toda a explicação em silêncio, soube que deveria intervir antes que o médico acabasse por perder sua postura profissional.
– Você disse que dá pra fazer algo! O que dá pra fazer?
O médico clandestino olhou-o intrigado, como se houvesse se esquecido de sua presença ali e suspirou fundo antes de continuar.
– Eu também disse que não era fácil. Não é como tomar um remédio e, puf, memórias de volta. E mesmo entre as pesquisas que li não há um consenso. De modo geral, todos os especialistas dizem que as memórias voltarão normalmente com o tempo e com os estímulos que a pessoa naturalmente receberá. Como uma reação em cadeia, sabe? Um dia ele se lembra de alguma coisa ao relaciona-la com algo que vê e no outro dia lembra-se de outra coisa por causa de um cheiro e assim por diante. É aconselhado terapia, também.
– Terapia? – Izaya sussurrou baixinho, como se receoso do que aquilo pudesse significar.
– Sim! Hahaha... eu gostaria de dizer que conheço um bom médico para isso, mas infelizmente não conheço ninguém que mereça a alcunha.... Hahaha... “bom médico”... Todos os que conheço tentariam arrancar algo mais do perigoso informante, né, Izaya-kun?!
– Informante? – Izaya perguntou, mas Shizuo interrompeu qualquer que fosse a resposta que Shinra planejava ao abrir os lábios em um sorriso enorme.
– E esses tais de “estímulos”? Quer dizer que se ele vir algo relacionado a quem ele é, vai se lembrar? – o médico acenou positivamente, e Shizuo desviou o olhar para Izaya – Você andou por Ikebukuro hoje! Se lembrou de algo? – Izaya acenou negativamente com a cabeça, abaixando os olhos e soltando um baixo “Não, Shizu-chan”. A negação de Izaya trouxe uma nova ideia à mente de Shizuo, fazendo-o desviar os olhos novamente para Shinra – Ouviu isso? Ele me chama de “Shizu-chan”! Ontem ele disse que “sabia que era o jeito certo de me chamar”! – rosnou, tentando controlar a raiva e ironia por trás de suas palavras – É disso que você está falando?
– Sim! – gritou o médico em resposta, visivelmente empolgado – É exatamente isso. Ele terá certezas que não saberá como explicar quando algo fizer referência a alguma memória dele. Como com o apelido. Ele não saberá porque, mas saberá que é assim. E uma coisa vai puxando a outra. Como um quebra-cabeça, sabe? A cada nova peça encaixada ficará mais fácil encaixar a próxima, até que cada lacuna seja preenchida.
– Então porque ele não se lembrou de caralho nenhum vindo pra cá?! Ele está mentindo pra mim que não se lembra, né?! Essa pulga maldita!
– Não é regular assim, Shizuo. Se fosse assim ele já teria se lembrado quem sou e quem Celty é. Não dá pra saber qual será a imagem, som ou cheiro que o fará lembr-
– Então eu tenho que esperar a boa vontade dele de lembrar que é um desgraçado? – gritou, cortando o médico. Observava Izaya com o canto dos olhos. O informante se mexia visivelmente desconfortável no sofá e quando em quando arriscava um olhar em sua direção.
– Não é assim tão legal quando se coloca nestes termos, né?! Hahaha – apesar do riso, o médico soava também desconfortável e Shizuo não perdeu o momento no qual ele buscou a mão da noiva e entrelaçou seus dedos aos dela. Ele sabia que seu tom de voz estava alterado e que devia parecer prestes a explodir, mas não faria nada para desmanchar esta impressão – E então aqui entra a parte que te falei por telefone. Sobre o que dá pra fazer para fazê-lo lembrar-se. – o médico apertou mais uma vez os dedos de Celty antes de relaxá-los e fitar Shizuo diretamente nos olhos, como se para confirmar que a atenção dele era sua, e o era, Shizuo ouvia atentamente cada palavra do amigo – Não há muito o que pode-se fazer. Como disse, não há como saber o que desencadeará recordações, mas o que dá pra fazer é forçar situações que poderiam fazer com que ele se lembre. Lugares que de alguma forma são importantes para ele, pessoas com quem ele tenha algum tipo de relação, comidas favoritas, situações típicas à vida dele... coisas assim... Assim como foi com você, Shizuo. Ele sabe que te conhece, mesmo que não se lembre de quem você é. É exatamente isso que dá pra fazer: criar situações que tragam a sensação de “familiaridade” e “conhecido”...
Os olhos castanhos-mel estavam agora fixos nos olhos astutos do médico sentado no sofá ao seu lado, mas Shizuo já não mais via Shinra, ou mesmo Celty ou Izaya. Toda a atenção do guarda-costas dedicada somente a absorver as palavras do amigo e os significados por trás delas. Não que ele precisasse pensar muito para entendê-las, o médico fora claro em sua mensagem, não havia ambiguidade alguma, nem nenhum dos termos esquisitos que normalmente usava o amigo. Estava tudo claro como água limpa. E exatamente por estar assim tão claro, Shizuo não tinha outra opção a não ser entender tudo perfeitamente. Ele sabia que não teria desculpas para explicar o que faria a seguir, qualquer que fosse sua decisão. Fosse manter firme sua decisão de ajudar Izaya ou abandoná-lo sozinho em busca do que quer que ele buscasse: qualquer que fosse seu caminho, Shizuo não poderia dizer que não o escolhera em plena consciência. Por mais que devesse fazê-lo, entretanto, Shizuo agora não ponderava sobre as consequências de suas escolhas.
Ele não pensava agora que escolher ajudar Izaya significaria mantê-lo perto de si, arrastando-o junto consigo em busca de suas memórias e, consequentemente, criando ele mesmo novas memórias para si. Ele não pensava que a partir do momento no qual resolvesse ajudar Izaya se transformaria em seu aliado e na pessoa que inegavelmente seria seu suporte, seu ponto seguro. Não pensava, tampouco, que se resolvesse não ajudar Izaya sua cabeça atormentaria-o por dias a fio, meses talvez, e seu peito e estômago pesariam desconfortáveis numa sensação que o acompanharia como sua sombra.
Shizuo não pensava em nada disso. Nem mesmo na possibilidade do homem que agora abaixara a cabeça ao seu lado, escondendo o rosto firmemente entre as mãos, os cotovelos apoiados nos joelhos e as costas curvadas, não estar assiduamente em busca por controle enquanto absorvia tudo o que ouvia, como sugeria sua postura, mas sim rindo de sua indecisão, o sorriso malicioso escondido entre as mãos.
Shizuo não pensava, em definitivo, em nada disso, por mais que devesse fazê-lo.
Ele pensava apenas que devia tomar uma decisão consciente. Somente isso. Sem mover-se um centímetro no intuito de seguir o que achava que devia fazer. Afinal, preencher os pensamentos com repetições das explicações de Shinra e frases como “Pense, Shizuo”, não eram exatamente a definição de “pensar conscientemente sobre suas próprias ações”. E, de certa forma, Shizuo nunca fora bom com isso, ele sempre deixava-se levar e quando percebia já estava encrencado até o último fio de cabelo, inexoravelmente preso à situação. Talvez exatamente por saber que era assim que sempre eram as coisas com ele, se esforçava agora por fazer diferente. Mas é um fato: essa não é uma mudança que poderia ser feita de uma hora para outra. Não era fácil mudar costumes de toda uma vida. Shizuo, entretanto, inocentemente jurou a si mesmo, após alguns minutos numa inútil reflexão, que o havia feito, que a decisão que tomara tinha fundamento.
Era uma mentira. Uma enorme mentira. Shizuo verdadeiramente não tinha noção alguma do que fazia ao levantar-se de supetão, assustando todos os presentes na sala e declarar com a voz carregada de uma enérgica convicção:
– Começamos pelo seu apartamento, pulga. – e diante dos surpresos olhos castanho-avermelhados, acrescentar – Anda logo, caralho!
– Acho que isso significa que ele vai te ajudar, Izaya-kun... – o médico o olhava receoso, mas logo sorriu e dirigiu os olhos a Izaya – É um jeito meio estranho de dizer pra alguém que vai ajudar... Mas... bom... hehehe... você tem ajuda de qualquer jeito!
– O-brigado, Shizu-chan... – a voz soava baixa, mostrando como seu dono ainda hesitava quanto ao significado da dureza nos olhos castanhos-mel.
– Cala a boca, pulga. Isso não significa que vou te ajudar. Eu só vou te mostrar onde é sua casa e depois uns lugares que você conhece... e talvez o Russia Sushi e a Academia Raira... e aqueles ninhos que você se mete às vezes... E encontrar Kadota mais uma vez, e Simon... e suas irmãs, eu acho. Mas... – endureceu a voz, quase um rosnado –... se continuar com essa merda de “Shizu-chan” o único lugar que visitará será o inferno, pulga maldita!
Shizuo não soube dizer porque ao invés de tremer diante de sua ameaça os olhos castanho-avermelhados sorriam brilhantes para ele, visivelmente divertidos, enquanto o informante sussurrava entre risos um baixo “e isso não é me ajudar, Shizu-chan?”. Mas antes que pudesse interrogar os discretos risos, Shinra levantou-se e arrastou o informante para longe, resmungando algo sobre “refazer o curativo e olhar os pontos”. Impulsionava-se para segui-los quando sentiu um toque delicado em seu ombro. Virou-se, apertando os olhos para ler o que lhe entregava Celty em seu palmtop.
“Tem certeza disso, Shizuo?”
E claro que ele tinha certeza. Ou ao menos afirmaria toda ela se fosse Shinra a perguntar-lhe. Mas, por mais que ele quisesse dizer em alto e bom som que sim, que sabia exatamente no que estava se metendo, tudo mudava de figura quando era Celty a perguntar-lhe. Havia algo na contraditória delicadeza daquela pessoa tão absurdamente forte que o fazia hesitar em deixar escapar com tanta facilidade a certeza que ainda tentava se convencer que tinha. Não disse nada e Celty não insistiu. Quando aproximou novamente o palmtop de seus olhos, o guarda-costas suspirou aliviado ao ler ali exatamente o que precisava:
“Se você precisar de ajuda, sabe que pode contar comigo, certo?! E com Shinra também, mesmo que ele seja daquele jeito.”
Sorriu em resposta à amiga, e aquele seria seu agradecimento. Ele sabia que não precisava dizer mais nada tanto quanto sabia que agora ela seria a primeira pessoa que procuraria caso precisasse de ajuda com Izaya. E sabia que, definitivamente, precisaria.
Não demorou que Izaya retornasse à sala, a faixa circundando novamente sua cabeça e o rosto quase tão branco quanto ela. Ele fez menção de aproximar-se de Shizuo, estendendo os braços levemente em sua direção, mas parou alguns passos de distância e resmungou, os olhos baixos:
– Ele é assustador!
Celty saltou sobre o noivo no exato momento no qual ele adentrou a sala com um sorriso enorme no rosto, e, pelas respostas doloridas do médico, Shizuo deduziu que ele recolhera mais sangue do Izaya.
– Mas você deixou, não é, Izaya-kun?
– Você me perguntou: “vou usar essa, tudo bem?”, e estava segurando uma faixa na mão e eu disse que tudo bem, mas quando olhei de novo você estava segurando uma seringa e nem sei onde a faixa tinha ido parar!
Shizuo bufou alto ao perceber que Izaya correra para trás de si e agora gritava para Shinra usando seu corpo como escudo. O grito alto e raivoso que planejava soltar ficou preso, entretanto, em sua garganta quando sentiu um toque gelado em seus dedos. Pela segunda vez naquele dia direcionou o olhar aos dedos da sua mão direita e pela segunda vez no dia encontrou-os entrelaçados a dedos pálidos e cobertos por cicatrizes de cortes num forte aperto.
– Hey, pulga, o que pensa que está fazendo? – perguntou, puxando os dedos do firme aperto. Izaya permaneceu em silêncio, limitando-se a puxar seus dedos de volta a si e direcionar a ele enormes olhos castanho-avermelhados assustados. Separou novamente os lábios, pronto a xingar o informante – Shinra, para de ser idiota, está assustando a pulga!
Shizuo não percebeu de primeira porque um par de olhos, um castanho-avermelhado e outro castanho-escuro, o fitaram tão assustados. E não percebeu de imediato o porquê de Celty ter deixado cair seu palmtop num baque surdo e alto que ecoou por todo o apartamento assustadoramente silencioso. E não teria percebido o que falara se não se obrigasse a procurar o porquê de todos o encararem tão quietos. Quando finalmente percebeu o que fazia com que o olhassem tão admirados, não pode evitar que seus próprios olhos abrissem-se surpresos e um rubor que ele jurou ser causado pela raiva corasse seu rosto.
– Tsc, cala a boca, pulga! Você sempre fala bosta! Maldito desgraçado! – xingou, puxando para longe dele seus dedos e afastando-se com nojo.
E ele esteve preparado para muitas coisas. Esteve preparado para que o informante enraivecesse-se diante de seus xingamentos e sua acusação sem justificativas, esteve preparado para ouvir os pedidos de Shinra para que não destruíssem seu apartamento e esteve preparado para que Celty corresse até ele e tentasse impedi-lo de matar Izaya. Mas ele, definitivamente, não esteve preparado para ouvir risos altos enquanto Shinra e Izaya se dobravam com as mãos sobre a barriga. E não esteve preparado para que Celty se aproximasse dele e tocasse gentilmente seu ombro em um silencioso “está tudo bem, Shizuo, eu te entendo”, mesmo que depois este toque sutil se transformasse em um aperto que o segurava no lugar e impedia-o de avançar para cima dos dois homens que ainda riam dele.
E naquele momento, pela primeira vez desde que abrira a porta naquela noite chuvosa de uma terça-feira há quase uma semana, ele teve certeza de que, outra vez, havia se enfiado até o último fio de cabelo em uma situação sem volta e que, talvez, ele não estivesse preparado para isso tanto quanto pensava que estava. E, como se precisasse de uma, a confirmação veio em forma de pequenas letras na tela de um palmtop:
“Você sabe que agora você é a única pessoa que ele tem, certo?”.
Naquela hora, mesmo que ele não houvesse entendido por completo as palavras de Celty, a forma como Izaya, ainda sorrindo, jogou-se contra seu peito e o abraçou enquanto sussurrava um “Obrigado por me ajudar, Shizu-chan”, o fez perceber que ele, definitivamente, estava se metendo em uma situação maior do que poderia aguentar.
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