(in) esquecível

35 Sobre como você tornou-se a Bela Adormecida


Notas iniciais
Oi, oi, oi!!! Tudo sucesso por aí? Demorou mais do que o previsto, mas cá está o novo capítulo! Eu demorei um tempão pra escrever, confesso, hahahha! Mas estou realmente orgulhosa do título dele, desculpa. XD Nos vemos nas notas finais? Boa leitura!!! Beijo, =*



Sobre como você tornou-se a Bela Adormecida

A senhora Kiyoko, proprietária do mais simpático mercadinho de Ikebukuro, conseguiu manter Shizuo quieto por dezoito minutos e quarenta e dois segundos, nem mais nem menos. O que, mesmo que as circunstâncias fossem relevadas, foi um feito incrível.

Não que tenha sido fácil. Fazê-lo sentar-se, acalmar-se e respirar fundo para beber um copo de água foi – contou Kiyoko às amigas do clube de poker mais tarde naquele dia – a coisa mais difícil que fizera em todos os seus setenta e um anos de vida. No fim, contudo, fosse por conta de sua incessante conversa gentil ou por conta do olhar inegavelmente abatido no rosto de Shizuo, fato foi que durante exatos dezoito minutos e quarenta e dois segundos a gentil senhorinha foi capaz de reter – um copo em uma das mãos, um pudim na outra e olhos baixinhos – quietinho o homem mais forte de Ikebukuro, ouvindo-a em silêncio e resmungando quando em quando alguma resposta mais polida do que qualquer outro morador de Ikebukuro já havia recebido.

Mas, ainda que o tal feito – tão surpreendente que arregalou os olhos de todos os que do lado de fora do mercadinho com sucesso conseguiam espiar dentro – fosse vir a ser repetido durante anos aos sussurros pelo agitado distrito, e fosse vir a conferir notável fama à senhorinha do mercado, a verdade foi que nem tanto assim Kiyoko pôde fazer por Shizuo naquela tarde fria de terça-feira.

Ela o havia acalmado um pouco, e ele ouvira com atenção seus conselhos, e qualquer um que o olhasse perceberia como mais suaves estavam suas sobrancelhas, ainda assim, contudo, quando depois de dezoito minutos e quarenta e dois segundos, Heiwajima Shizuo se levantou e com a mão no bolso já buscando por um cigarro transpassou a entrada do mercado para deixar-se iluminar pelo suave solzinho que aquecia o distrito do lado de fora, verdade era que ninguém ali duvidaria se a primeira coisa que fizesse ao alcançar a rua fosse correr atrás dos homens que há pouco espancara para terminar a surra que começara.

Não foi isso o que aconteceu, entretanto.

Mesmo que a carranca raivosa tanto denunciasse o quanto era exatamente isso o que queria fazer, Shizuo não foi atrás de ninguém.

Nem dos homens com quem brigara.

Nem de Celty.

Nem de Izaya.

Shizuo foi para casa. Direto pra casa.

E quem o viu passar, o cigarro aceso pendendo dos lábios crispados, as mãos cerradas em punhos e os passos apressados, realmente acreditou que isso era culpa dos dezoito minutos e quarenta e dois segundos recheados de tão bons conselhos. E também assim Kiyoko, mesmo que distraída com a arrumação do mercadinho e a reabertura da porta, teria gostado de pensar, caso tivesse ficado sabendo do inesperado rumo que o homem mais forte do distrito tomou depois de deixar sua companhia.

Mas a verdade era que não fora Kiyoko, nem os conselhos, nem a conversa, nem o pudim e nem os cigarros a guiarem pacíficos os passos de Heiwajima Shizuopelos poucos quarteirões que separavam o mercado do humilde conjunto de apartamentos simples... Os passos em linha reta, a suavização da carranca e a tão dura e visivelmente concentrada tentativa de calma tinham, ainda que desconhecido por todos os que acompanhavam com os celulares em riste os passos tão decididos, apenas um culpado: Orihara Izaya.

E, ainda que com o peito tal qual tempestade, até mesmo ele, Heiwajima Shizuo, conseguia entender o absurdo que era conseguir caminhar os quarteirões até seu apartamento, guardar tudo o que trouxera do mercado com relativa organização dentro da geladeira e sentar-se no sofá – as mãos nos cabelos, os cotovelos sobre os joelhos e a respiração em ofegos – com o objetivo bastante claro de acalmar-se.

Shizuo, afinal, nunca havia conscientemente, controlado e centrado, tentado acalmar-se. A destruição sempre viera sem freios, a fúria tal qual explosão. Não se lembrava, mesmo se forçasse muito sua memória, de um momento no qual sentara-se, as costas baixas, os lábios trêmulos e a testa sobre os joelhos, para respirar fundo e repensar antes (antes, veja bem, antes!, não depois) de fazer algo.

Não era coisa sua, portanto. Nada da falsa aparente tranquilidade e nada da respiração a acalmar-se. Porque sabia, verdadeiramente sabia, que se dependesse de si, e apenas de si mesmo, já estaria no apartamento de Shinra. Já estaria lá antes mesmo de perceber. Lá antes mesmo de pensar em ir.

E por isso tinha certeza, certeza absoluta, mesmo enquanto ainda tão irritado, que era coisa de Izaya. Culpa de Izaya.

De Izaya e de uma mensagem de celular que recebeu segundos antes de deixar o mercado.

De Izaya e de um "eu estou bem venha me ver só quando você também estiver" seco, sem apelidos, sem pontos, sem doçura.

Porque ali, com os olhos cerrados e a cabeça vertiginosa, jurava quase poder ouvir a voz do informante através das pequenas letrinhas na tela do celular. Baixinha. Irredutível. Debochada. Tediosa. Quase poder ver os olhos rubros semicerrados em provocação. Quase podia. Quase.

Quase

Quase

E esse quase, ainda que absurdo e incompleto, havia sido o bastante para pará-lo e mandá-lo para casa.

O homem mais forte de Ikebukuro, ainda que nunca fosse admitir, voltou a seu apartamento com os dentes trincados e o coração a solavancos porque Izaya pedira. Voltou porque, ainda que absurdo, reconhecia que Izaya tinha razão. Razão do tipo que nem mesmo a vontade de perseguir através do distrito uns pares de membros de gangues era capaz de nublar.

Izaya estava certo: precisava se acalmar. Não estava bem. Nem um pouco bem. Sabia que se colocasse os pés nas ruas mancharia de sangue as mãos. Sabia que se colocasse os pés no apartamento de Shinra mancharia com o gosto de Izaya os lábios. Sabia que se o caminho que tomasse fosse um que não aquele que o levou até seu pequeno sofá, acabaria fazendo alguma coisa da qual se arrependeria.

Sabia. Sabia de verdade.

E por isso sabia que Izaya tinha razão. Que Kiyoko também tinha. E que Celty também. Que o melhor a fazer era se acalmar antes de correr até Shinra. Que o melhor era não ir atrás de quem batera em Izaya. Que melhor era respirar fundo.

Então tentou.

Tentou, dizendo para si mesmo que só mais um pouquinho teria que aguentar.

Só pelo quanto mais durasse seu maço de cigarro quase vazio.

Só mais alguns minutos.

Só o tempo de tomar um banho.

O tão pouquinho mais quanto pudesse aguentar.

O tempo de comer mais um pudim.

O tempo de separar algumas roupas para levar até Izaya.

Os segundinhos que precisava para que seu coração parasse de dolorosamente pulsar em seus ouvidos e sua mandíbula parasse de estalar juntos os dentes.

Não que, ao fim, tivesse sido capaz de esperar tempo o bastante. (Mas talvez nenhum tempo no mundo o fosse.) Já que, quando finalmente deixou de esperar e saiu de seu pequeno apartamento, limpo cheirando a cigarro, Shizuo ainda não podia dizer saber exatamente para onde estava indo: se atrás de Izaya ou se atrás de briga.

E ainda por um bom tempo não soube, vagando estranhamente perdido pelo distrito que conhecia como a palma da própria mão.

Só ao sentir, quase uma hora depois, os pés batendo suaves no tapetinho arrumadinho da portaria do prédio do médico clandestino, percebeu que uma de suas urgências era mais urgente que a outra.

Queria ver Izaya.

Queria muito ver Izaya. Mais do que queria bater em gangues e mais do que queria explodir de raiva. Queria ver Izaya. Olhá-lo mesmo que ele estivesse machucado. Resmungar um "foda-se que não esperei mais". Estalar os lábios para as repreensões que sabia que receberia. Xingar a provocação que com certeza ouviria. Ameaçar socar os maliciosos olhos rubros. Queria ver Izaya mesmo que isso significasse ver também os lados de Izaya que definitivamente não queria ver.

Queria tanto, tanto, tanto, que mesmo antes de pensar e poder parar-se, foi exatamente isso

um "eu quero ver Izaya" firme e irritado

que rugiu no interfone quando do outro lado a voz de Shinra soou

E exatamente isso

outro "eu quero ver Izaya"

seguido de um "logo, caralho"

e de um "cala a boca e abre a porra da porta, Shinra"

que sem medir consequências gritou ao bater com força na porta de entrada do apartamento do rapaz que provavelmente era um de seus poucos amigos.

Não foi Shinra quem abriu a porta, mas nem mesmo a visão de Celty cercada com uma aura que sem dúvidas tinha como objetivo acalmá-lo foi o bastante para esmaecer a carranca que mais profundo se enraizava em seu rosto a cada instante que naquele lugar ficava sem que Izaya aparecesse.

— Celty, cadê a pulga?

"Você não está calmo, Shizuo", foi o que leu no palmtop que provavelmente tão próximo a seu rosto fora colocado para, acima de tudo, barrar sua entrada impetuosa para dentro do apartamento.

E Shizuo não soube dizer exatamente o que o irritou – talvez o fato de Celty insinuar que devia estar calmo, talvez o fato de estar ali há já quase dois minutos e não ter sequer ouvido a voz do rapaz que tanto queria ver –, mas, antes de poder conter-se e pensar sobre o quão inadequado era fazer isso com quem mais o havia ajudado naquele dia, viu-se desviando com mais força do que o necessário da mão estendida em sua direção e forçar passagem porta adentro. E ele pensou – verdadeiramente pensou – se devia ou não perguntar outra vez sobre Izaya e, desta vez, esperar pela resposta e agir com todo o respeito que sua melhor amiga merecia, mas seus pés se moveram sozinhos.

Primeiro através da cozinha. Depois pela ampla sala-de-estar. Então através de um corredorzinho que dava acesso a um quarto de hóspedes cuja porta foi aberta no momento no qual em frente a ela se postou.

— Quanto barulho, Shizuo! Parece um monstro andando pelo apartamento. Está deixando minha Celty preocupada, vê?! – os dedos indicadores e médio empurraram os óculos de lentes grossas para cima enquanto os olhos castanho-escuros do rapaz que recém saíra do quarto focavam-se no rosto de Shizuo. A expressão de Shinra não demonstrava, realmente, irritação (talvez até mesmo mostrasse algum divertimento) mas o guarda-costas sabia, por algo na postura rígida ou no dedo em riste que depois de arrumar os óculos apontou para algo a suas costas, que o médio clandestino estava bravo – Izaya-kun não te disse pra se acalmar? Sei que disse. Por que está aqui assim en-

— Cadê ele, Shinra? – rugiu outra vez, a voz alta como se há segundos não tivesse ouvido uma repreensão.

— Ele está dormindo aí dentro. – a voz era baixinha, levemente animada – Mas, antes de você entrar como um descontrolado e começar a me ignorar e decidir as coisas precipitadamente por si só, Shizuo, tenho que te dizer que eu não esperava nada disso hoje, ent-

A voz de Shinra ainda soava a suas costas quando Shizuo com dois passos cruzou a distância necessária para entrar no pequeno e bem iluminado quarto de hóspedes, deixou de ouvi-la e com ela importar-se, contudo, no instante no qual os olhos caramelo encontraram o rapaz adormecido sobre um simples futon no centro do quarto.

Já esperava pelo gesso no pé. E verdadeiramente esperava também pela faixa branca no pulso que mesmo no dia anterior já julgara precisar de tratamento. Mas não pôde conter dentro do peito o suspiro dolorido ao perceber que, além de gesso e faixa, manchas alaranjadas de iodo a cobrirem a pele sempre tão branca terminavam de compor a imagem mais machucada de Orihara Izaya que já vira em todos os anos de sua vida.

Os olhos caramelo fecharam-se por alguns segundos antes de rapidamente abrirem-se com vincos profundos no espaço entre eles, e Shizuo engoliu dolorido antes de arriscar resmungar um

— Pulga?

que não arrancou de Izaya reação alguma.

— Izaya? – insistiu, então, elevando um pouco mais a já alta voz – Oe, pulga! – chamou, outra vez, ajoelhando-se na ponta do futon.

— Ah, não adianta. Ele não vai acordar. – a voz de Shinra parou a mão de Shizuo a centímetros de tocar Izaya para um chacoalhão. Um arrepio correu a espinha do homem mais forte de Ikebukuro quando seus olhos encontraram o rapaz recostado à porta.

— Como você sab-?

— Eu dopei ele.

O sorriso tão perfeitamente moldado nos lábios de Shinra, quase orgulhoso, fez com que os olhos de Shizuo corressem outra vez até o rosto de Izaya. Ele parecia, inegavelmente, duramente adormecido. A respiração pesada, os olhos cerrados contraditoriamente tão firmes e tão relaxados, a postura que pelo gesso e pela faixa tão desconfortável parecia: não restava dúvida alguma de que não poderia acordar o jovem adormecido apenas chamando-o ou chacoalhando-o.

Não disse nada. Emudecido talvez mais pela desconfortável sensação de que precisava zelar pelo sono de Izaya do que pela confissão absurda que acabara de ouvir. Mas, ainda que tão silenciosos permanecessem seus lábios enquanto progressivamente mais intensos seus olhos castanhos-mel tornavam-se, Kishitani Shinra, ainda recostado à porta e com a voz alterada, começou a entregar as explicações que ainda sequer havia pedido.

— Eu tenho planos pra hoje, sabe?! Tentei te dizer, e disse pra Izaya-kun ontem... Hoje eu e a linda Celty vamos testar o cardápio do ano novo! Ela mesma separou as receitas! Todas tão deliciosas... Vamos cozinhar ouvindo jazz. Tomando um vinho. E a Celty vai estar incrível naquele vestido preto. Ela tem cozinhado tanto ultimamente... Sempre tão linda! Segura uma espátula com a precisão de um bisturi. Absolutamente estonteante! E a gente vai dançar! Cozinhar ouvindo jazz e rodopiando pela sala. O vestido tão lindo rodando... É um ótimo plano! Sabe quanto tempo demorei pra convencer ela que precisávamos testar o cardápio antes de fazer a festa de ano novo?! Muito! E você provavelmente nem se lembra da festa, mas eu esperei ansiosamente pelo teste de hoje! E ela estava tão animada hoje de manhã para cozinhar, ouvir jazz e rodopiar... – o sorriso afetado ainda maior abriu-se conforme os braços estendidos de Shinra traçavam um ritmo imaginário – Tão linda! Mas daí você ligou e ela ficou preocupada! Vocês sempre aparecem em dias assim... Ficando doente, destruindo a porta, apanhando de gangues... Sempre nos piores dias. E ele estava com dor sabia?! Mesmo que na hora ele não tenha gostado e eu tenha tido que forçar um pouquinho, ele vai perceber que foi o melhor quando acordar amanhã. Era meu melhor sedativo! E eu nem vou cobrar. Tudo o que eu queria era ver a Celty no vestido! É pedir muito?! E não precisa fazer essa cara, ele parece pior do que está, na realidade. O iodo dá essa impressão, mas no fim não é nada demais. Com exceção do pé, que vai demorar um pouco mais pra melhorar... E nem é como se Izaya nunca tivesse apanhado antes, já vi ele bem pior que isso... E nem é como se ele nunca tivesse tomado um remédio meu sem concordar ant-

— Espera! Cala a boca, Shinra, merda! Repete o que disse... quando é que el-?

— ele já tomou remédios contra sua vontade antes? Ah, teve aquela vez que coloquei na água dele, no colégio. E quando você o trouxe aqui com a cabeça quebrada há uns meses você acha que ele me deixou enfaixar de boa? Eu ti-

— Não, idiota! Ant-

— Que a Celty vai ficar linda no vestido?! Sim, ela vai, mas Shizuo não pode ficar aqu-

— Não! Cala a boca um pouco... Nunca me deixa terminar, droga! O que você disse sobr- Quando é que ele vai acordar?

— Ah, isso! – os olhos animados perderam um pouco do brilho, como se, de tudo, aquele fosse o mais entediante dos assuntos – Amanhã, talvez. Duvido que hoje... E há a possibilidade de que só depois de amanhã de manhazinha.

— Quê?

— É um ótimo sedativo, Shizuo! E eu precisava de tempo! Você acha que é rápido testar cardápio e rodopiar com Celty?

— Depois de amanhã?

— Eu disse que precisava mesmo de tempo. Mesmo!

Os ombros do médico clandestino se levantaram e abaixaram, rendidos, e o sorriso enorme se transformou em um pequeno bico nos lábios que tanta facilidade tinham para tagarelar tolices antes que Shizuo percebesse que, sim, Shinra estava falando sério e que, verdadeiramente, ele havia recebido Orihara Izaya com uma perna e (possivelmente) um pulso quebrados, coberto de escoriações e arranhões, carregado com cuidado por Celty, e havia decidido que o melhor seria dopá-lo sem seu consentimento com uma dose forte o bastante para apagá-lo por mais de vinte e quatro horas para poder com calma preparar um jantar, rodopiar jazz e flertar com a noiva.

Era absurdo. Absurdo demais até mesmo para Kishitani Shinra.

Mas, ainda assim, a forma como os olhos castanho-avermelhados permaneciam tão firmemente cerrados e a respiração tão suave que mal agitava o peito do rapaz largado sobre o futon apesar de todo o barulho e gritos que há pouco inundavam o quarto não deixavam Shizuo duvidar nem que por um instante que Shinra realmente fora capaz de fazer isso a Izaya.

— Eu deixo você ficar aqui com ele se você prometer fazer silêncio, Shizuo. É só não vir até a sala. Nem precisa ir embora...

Havia culpa e um pouco de complacência na voz de Shinra e Shizuo não duvidava, verdadeiramente não, que o médico realmente acreditasse estar fazendo um favor e sendo gentil ao deixá-lo ficar. Como se, por alguma sinapse absurda em seu cérebro perturbado, ele estivesse cedendo e sendo solidário ao deixar que Shizuo permanecesse ao lado de um inerte Izaya, que, definitivamente, não estaria inerte se não fossem os caprichos de Kishitani Shinra.

A verdade, no fim, é que Shizuo não planejava realmente acertar Shinra quando levantou com ímpeto do futon e direcionou o punho fechado ao rosto ainda sorridente – ou ao menos foi isso o que resmungou para Celty quando foi por ela parado. Mas, de toda forma, não era como se Shinra parecesse ter sido pego de surpresa. E nem mesmo parecia que Celty tão disposta assim a defendê-lo estava. No fim, fosse porque ele sabia que o cascudo que Celty entregou à cabeça do noivo doeu bem mais do que qualquer soco que pudesse dar ou porque no palmtop que logo em seguida foi posto em frente a seus olhos estivava escrito "Shizuo, você não pode levar ele agora. Vai acabar machucando mais. Fica com ele por aqui hoje, sim?!", mas, independentemente da estranheza do absurdo e do desconforto, o homem mais forte de Ikebukuro acabou por voltar a sentar-se na pontinha do futon para vigiar o sono ainda tão pesado de Orihara Izaya.

Celty permaneceu um bom tempo a seu lado, pedindo por respostas que Shizuo ou desconhecia ou não estava disposto a dar, perguntando sobre detalhes que Izaya havia se recusado a falar, levantando hipóteses sobre os membros da gangue e sobre coincidências sobre as quais Shizuo não queria pensar. Mas até ela mesma se cansou em algum momento do silêncio que com teimosia impunha Shizuo, desculpando-se e indo atrás do noivo que, emburrado pelo cascudo, se retirara.

Só ao fim da noite, quando Shizuo já havia cedido à ideia de dormir por lá e havia aceito o futon extra que Celty colocara colado ao futon do ainda adormecido Izaya, finalmente fez-se ouvir algum som na casa. Nada de jazz e nada de música, apenas a voz animada de Shinra e o confortável som de fritura.

Não comeu, ainda que estivesse como fome. E nem para nenhuma outra coisa além de uma passadinha rápida na sala para buscar pela mochilinha com roupas de Izaya deixou o quarto e a vigília do sono de Izaya.

No fim, dormiu antes mesmo que Celty, silenciosamente, entrasse no quarto para oferecer um pratinho de gyosas fritos, os olhos pesando teimosos enquanto lutava para mantê-los no rosto adormecido de Izaya, que bastante mais suave parecia ter se tornado depois que havia colocado nele o mais aconchegante de seus pijamas e pousado em suas bochechas sujas um carinho descuidado.

*

Quando acordou no dia seguinte, a primeira coisa que Shizuo percebeu foi que Izaya estava aconchegado em seus braços, quentinho e relaxado, a cabeça recostada a seu peito, a mão atada à sua camisa e a perna engessada por entre as suas. E segunda foi que, contrariando o bom senso, não havia sido ele a se mexer durante a madrugada.

Izaya havia invadido seu futon em algum momento da noite – disso não tinha dúvidas. Havia se arrastado para seus braços, enroscado a mão boa à sua camisa até quase arrancá-la, pousado as coxas sobre as suas e feito de travesseiro seu peito quase nu.

O informante havia, mesmo que o diagnóstico de Shinra não previsse e que os olhos castanho-avermelhados permanecessem tão firmemente cerrados quanto antes, durante a madrugada se aconchegado a si como se em casa.

Por um instante, acreditou que tamanha absurda ousadia era sinal de que o sedativo não tão intenso quanto achava Shinra era e que por trás do rosto relaxado havia um sorriso pronto para debochar divertido das bochechas coradas do homem mais forte de Ikebujuro. Mas qualquer fé nisso ruiu quando, mesmo depois de chamá-lo, chacoalhá-lo e beijá-los suave, envergonhado e por reflexo nos lábios, o informante não deu sinal algum de que abriria os olhos

— Grudou em mim dormindo, pulga? – resmungou baixinho, afastando sem pressa a perna engessada das suas – É um carrapato agora?

Os lábios alaranjados de iodo crisparam-se levemente quando terminou de pousar a perna machucada no futon e com calma desprendeu o corpo do abraço de Izaya. Mas, independentemente do tempo pelo qual tivesse mantida sustida a respiração, os olhos castanho-avermelhados permaneceram tão firmemente cerrados quanto antes e o rosto sujo de laranja-amarelado novamente suavizou-se.

— Precisa acordar, pulga. – voltou a resmungar, a voz enrouquecida de sono – Não quero ficar sozinho com os dois... E... – estalou os lábios, deslizando com a ponta dos dedos uma mecha de cabelo para longe do rosto tão calmo – Ainda precisa de contar a história toda, não é não, seu merdinha?

Só quando se inclinou para outro beijo plantar nos lábios levemente inchados, Shizuo percebeu a figura silenciosa parada na porta. O homem mais forte de Ikebukuro, não era, definitivamente não, do tipo de homem que corava. Não era. Mas, debaixo dos olhos atentos de um sorridente Shinra e com os lábios tão poucos centímetros dos lábios de Izaya, não pôde evitar que sangue em demasia corresse até suas bochechas, colorindo escarlate seu rosto.

— Esse método antigo de conto de fadas não funciona com sedativos fortes, Shizuo. Mas aprecio sua tentativa, então vai em frente, pode beijar o Izaya-kun, vai ser divertido! Beija, vai!

Antes mesmo que Shizuo pudesse se levantar, Shinra já havia escapulido para longe. E, quando o alcançou, decidido a acertá-lo pelo que fizera no dia anterior e começara já tão cedo naquele dia a fazer, viu-o escondido atrás de Celty que, com uma espátula em mãos, preparava o café da manhã.

O resultado final foi que, durante o café e durante toda a manhã, Shizuo precisou de toda a pouca paciência que nele ainda restava (e de Celty toda a atenção e boa disposição) para aguentar o médico clandestino cantando o que sabia ser a música tema da versão de "A Bela Adormecida" da Disney.

E, sem dúvidas, nem mesmo durante o Natal Shizuo tantas vezes havia desejado voltar para casa quanto desejou durante aquela manhã que parecia arrastar-se no relógio. A perspectiva de deixar Izaya à mercê de Shinra, apenas, e talvez um pouco da latente animação de Celty para o jantar que dariam dali a pouco mais de um dia, eram as únicas coisas a impedirem-no de deixar aquele apartamento.

De toda forma, um pouco de satisfação barata e medíocre preenchia seu peito a cada vez que ouvia de Shinra alguma reclamação por causa de algum utensílio que em raiva havia quebrado-se ao ser arremessado em direção ao anfitrião. E um pouco de sua vontade de ir embora e deixar tudo para trás se acalmava a cada vez que, irritado, Shinra cansava de cantarolar e o convidava a retirar-se.

Já havia, no fim, experimentado todo o cardápio do ano novo, quebrado um liquidificador, dois copos e um braço do sofá e ralhado com Shinra até fazê-lo enfurnar-se em seu próprio laboratório, quando ouviu um chamado baixinho do quarto de hóspedes:

Izaya, finalmente, havia acordado.

Ele estava grogue. Indiscutivelmente grogue. A língua sempre afiada enrolava um pouco quando ele falava e Shizuo quase não podia segurar o riso a cada vez que era chamado de "sizu-an". Mas estava bem. Bastante bem. Reclamou um pouco de dor enquanto Shinra o examinava, mas parecia bem mais incomodado por ter sido dopado do que por algo que sentisse quando o médico o apertava aqui e ali a procura de machucados que não tivessem sido tratados.

Não havia nenhum.

E, agora que abertos estavam os olhos rubros e, mesmo que estranhezas, a boca de Izaya outra vez havia começado a falar, Shizuo admitia que Shinra tinha razão ao afirmar que o informante não estava tão machucado quanto parecia quando no fim da tarde anterior o encontrara inerte sobre o futon.

Ao menos, ele estava bem o bastante para resmungar, bem o bastante para falar sem parar, e bem o bastante para ficar se movendo sem parar quieto nem que por um instante, o que fazia dele, mesmo que machucado, bastante parecido com o normal Orihara Izaya.

— Muito inxusto, Sizu-an! – os olhos castanho-avermelhados, um pouco caídos e vidrados, se encontraram com os seus tão logo Izaya, pousado com cuidado no sofá da sala, arrastou-se desajeitado para seu colo – Você me deixou xozinho.

Não fazia muito que haviam deixado o quarto e o pequeno futon. Izaya insistira em um banho, mas a ênfase com a qual Celty gesticulou que mais importante era que o informante se alimentasse os havia levado primeiro até o espaçoso sofá da sala. Na cozinha, Shinra preparava com ajuda de Celty alguma coisa que Izaya fosse capaz de comer, enquanto ele, Shizuo, se encarregava do papel importantíssimo de manter acordado o sonolento Orihara Izaya.

— Você que disse, pulga. – retrucou, acomodando-se nas almofadas e aconchegando mais confortável o rapaz em seus braços. Sabia que, na teoria, a última coisa que devia fazer era aconchegar confortável Izaya (ainda mais por perceber que mal aconchegara-se, o informante já cerrava um pouquinho os olhos), mas não conseguia evitar. O corpo mole, demasiadamente quente e machucado parecia implorar por cuidados de tal forma que nem o homem mais forte de Ikebukuro poderia dizer não.

— Dixe?

— Mandou a mensagem. – corrigiu-se – Era pra eu me acalmar antes de vir e sei lá mais o quê.

— Menxagem?

— É. – o riso baixinho que escapou clandestino de seu peito vez revoltar-se de leve o cabelo negro do rapaz em seu colo – A mensagem que mandou no celular, pulga.

— Num mandei menxagem. Mandei?

Outro riso involuntário tremulou inquieto na garganta do homem mais forte de Ikebukuro. Mas ele teria conseguido segurá-lo, ciente de que estava sendo observado pelo casal na cozinha, não fosse o riso meio afetado que, acompanhando o seu, começou a escapar de Izaya. Quando percebeu, então, que Izaya começara a rir sem motivo algum só porque ele, Shizuo, estava rindo, não pôde controlar o riso alto que escapou de seus lábios.

— Você é idiota, pulga-carrapato?! Tô rindo de você, não ri comigo!

Riso que só se intensificou ainda mais quando, após a repreensão, Izaya encarou-o meio confuso meio irritado, com os lábios meio separados meio sorridentes.

— Ah, que gracinha vocês se divertindo! Que bom que alguém aqui está tendo um bom momento de casal, não é?! – a voz de Shinra interrompeu o riso de Izaya e, ainda que não quisesse vê-lo franzir o cenho para alguém que não ele mesmo, Shizuo assistiu o olhar do informante pousar curioso em Shinra – Enfim... Acha que consegue comer, Izaya-kun?

O prato fumegante nas mãos do médico clandestino desprendia um cheiro que fez com que a boca de Shizuo, mesmo que ainda preenchida pelo gosto do recente café da tarde, salivasse em expectativa. De sua posição no sofá, não podia ver exatamente o que era, mas, pela velocidade do preparo, suspeitava que fosse alguma variação do que ele mesmo comera horas atrás no almoço. Só quando o médico aproximou-se e pousou o prato na mesinha de centro pôde ter certeza absoluta do que o preenchia: um arroz colorido, temperado com pedacinhos pequenininhos de um monte tão variado de coisas que ele nem ao menos era capaz de dizer o quê.

— Izaya?

O tom de voz no chamado do médico levou os olhos castanhos-mel até o rosto do rapaz em seu colo. E, como se lá escrito, entendeu de imediato o porquê de Shinra soar tão incerto.

Os olhos castanhos com tons rubros brilhavam enormes, como se livres do sono, desconfiados e repreendedores, as sobrancelhas negras, tão crispadas que quase deformavam-se, tornando-os ainda mais duros enquanto eles corriam de lado a outro, oscilando entre o rosto do médico e o prato sobre a mesinha.

— Eu não envenenei isso, se é o que está pensando, Izaya-kun.

Baixinha e ofendida soava a voz de Shinra quando, nem movimento rápido, Shizuo o viu de rabo de olho sentar-se numa poltrona em frente ao sofá. E ele sabia, realmente sabia, que Shinra estava falando sério – não só porque o tom de voz era firme, mas porque, afinal, Celty ajudara na preparação da comida e, ela, definitivamente, nunca deixaria nada de estranho ser colocado na panela –, mas, ainda assim, qualquer traço de confusão que havia em seu rosto pelo súbito mau-humor de Izaya e a estranha afirmação de Shinra sumiu de uma só vez.

Entendia perfeitamente a insatisfação tão pesada no rosto de Izaya. Izaya, afinal, tinha todos os motivos do mundo para desconfiar do médico. E isso com perfeição explicava o aceno negativo bastante enfático que dele escapou junto a um estalo de lábios.

— Você sabe que tive que fazer aquilo ontem, Izaya-kun. E não é como se eu tivesse te feito mal! – a desconfiança nas sobrancelhas escuras acentuou-se até transmutar-se no que o guarda-costas não hesitou em reconhecer como raiva e indignação conforme o médico começava a explicar-se – Você não sentiu dor, sentiu? E mesmo agora não está com muita dor, né?! Eu não envenenaria sua comida... acho... Assim você me ofende!

Shizuo não precisava olhar para Shinra para saber que ele não estava nadinha ofendido, mas o fez mesmo assim. O médico clandestino, se precisasse definir, parecia muito mais animado do que ofendido, o que não ajudava em nada a convencer Izaya a comer a comida.

— Izaya-kun, acha que Celty me deixaria fazer algo assim com voc-

O médico recomeçara a argumentar, um sorriso divertido ganhando progressivamente mais espaço em seu rosto a cada vez que Izaya torcia mais firme o cenho.

'Irritante', não conseguiu evitar pensar, 'Shinra é irritante. Ainda mais irritante que Izaya'.

'E ainda mais irritante ultimamente'.

Torceu os lábios. Shinra, inegavelmente, sempre fora o tipo provocativo, oscilando entre dizer exatamente o que pensa e esconder todas as informações por trás de um sorriso. Nos últimos meses, contudo, ele parecia ainda pior quando o assunto era Orihara Izaya. O médico clandestino, para Shizuo, havia desenvolvido algum prazer obscuro em testar o desmemoriado informante e, absolutamente, nunca perdia uma chance de levá-lo ao limite. Fosse provocando-o, perguntando excessivamente, não respeitando seu espaço pessoal ou, como agora, tentando convencê-lo a fazer algo que Izaya obviamente não queria fazer enquanto exibia no rosto um sorriso que faria qualquer pessoa em sã consciência – com ou sem suas memórias – duvidar das supostas boas intenções.

E Izaya era, definitivamente, a pior pessoa do mundo quando estava desconfiado. Era teimoso, e barulhento, e irônico, e debochado.

Ele não havia, ainda, começado a responder o médico com algo além de estalos e bufadas, mas Shizuo sabia que, quando e se ele começasse, aquela discussão não terminaria nunca.

Antes que isso acontecesse, Shizuo já se sentia irritado.

Foi, portanto, por mais que os resmungos de "merda vocês dois desgraçados" pudessem sugerir o contrário, para ajudar que o homem mais forte de Ikebukuro tomou nas mãos o prato de comida, encheu uma colher até a borda e com ímpeto enfiou na boca uma generosa porção de arroz.

— Se tiver alguma porcaria nessa merda, eu mesmo te mato, Shinra. – rugiu, a boca entreaberta cheia de comida.

Os olhos castanho-avermelhados, até então cerrados em desconfiança, abriram-se enormes, surpresos, quando a segunda colherada de arroz temperado tomou como destino não a boca de Shizuo, mas a boca logo abaixo deles.

— Deixa de frescura, pulga. Até parece que ele ia fazer algo com a Celty e comigo aqui. Come essa merda logo!

Shinra riu até que o prato estivesse vazio, algumas vezes sussurrando algo sobre Izaya ser "bastante obediente quando Shizuo falava grosso", e, para o desconforto do guarda-costas, em momento algum tirou deles os olhos, acompanhando divertido cada colherada que, segurada firme pelo guarda-costas, saia do prato para dentro da boca do informante. Ainda assim, ainda que enorme fosse o desconforto e ainda que vez em quando um arrepio frio corresse agitado por sua espinha, Shizuo nada fez para impedir que, durante cada instante daquela refeição e cada colherada de arroz temperado, fosse ele a levar a comida à boca de Izaya.

E Izaya parecia, sinceramente, bastante deslumbrado com aquilo. Sorrindo sem nada dizer, mastigando com cuidado, recostando-se mole no sofá e olhando-o nos olhos a cada vez que abria a boca. E talvez tenha sido esse olhar, mais do que a faixa no pulso machucado ou os pensamentos bobos sobre Izaya não ser capaz de servir-se sozinho, o que manteve o homem mais forte de Ikebukuro enchendo a colher até que esvaziasse-se o prato. Havia algo de hipnótico na forma como os olhos rubros fixavam-se nos seus enquanto, entregues, os lábios inchados recebiam a comida. E esse algo conseguiu fazê-lo ignorar até mesmo as provocações de Shinra, até mesmo a aura incerta de Celty e até mesmo o desconforto pelo beijo que diante de tanto público foi deixado na ponta de seus dedos logo o prato vazio pousou na mesinha de centro.

— Shizu-chan é tão atencioso... – foi o que ouviu quando, outra vez, o informante arrastou-se para seu colo – Gosto muito!

E, ainda que desconfortável diante de tanta demonstração de afeto em público, a maior preocupação de Shizuo foi, vergonhosamente, se alguém ali notaria o quão quente haviam-se tornado suas bochechas e o quão dolorosamente seu baixo-ventre respondia à voz arrastada de Izaya.

Uma preocupação que – mas isso ele ainda não sabia – se tornaria bastante recorrente nos dias que seguiriam aquele já quase ao fim.

O Ano Novo, afinal, agora há só dois dias de distância, se aproximava com fúria.

Notas finais
Olá de novo! Tudo certo até aqui? Espero que tenha gostado do capítulo e que tenha rido ao menos um pouco com ele. Eu confesso que me diverti bastante escrevendo-o! Porque, porran, quem precisa de inimigos quando se tem um amigo como o Shinra, hein?! Beleza de médico, super profissional e sensato, um homem incrível! XD Enfim, um monte de coisa que eu queria contar ficou fora desse capítulo porque seilá ele foi ficando enooooorme. Então ficaram pro próximo e eu tô mó animada para escrever sobre o ano novo e aaaaaaaa Espero, do fundo do meu coração, que tenha gostado! Nos vemos no próximo? Beijo, beijo, =* Yuki
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.