(in) esquecível
25 Sobre como você era muito mais leve que desculpas
Sobre como você era muito mais leve que desculpas
A campainha soou duas vez, alta mesmo através da porta fechada. Ela foi, entretanto, a única coisa que ouviu, sem qualquer movimentação dentro do apartamento que denunciasse que não fora inútil tocá-la.
Sabia que Izaya estava em casa. Nunca poderia enganar-se, não quando sentia-se novamente cercado pelo cheiro que resignadamente assistira, dia após dia, esvair-se de seu apartamento. Não quando sentira-o desde o momento no qual pousou os pés na recepção do prédio, quando parado, em espera ansiosa diante da porta escura, sentia-o intenso ao ponto de queimar seus pulmões e forçar sorrisos a seus lábios.
Inspirou fundo, jurando que para preencher-se de coragem, e pressionou mais uma vez o botão, o dedo a demorar-se nele mais do que devia.
Não sabia se havia ou não sido anunciado. Se o dono do apartamento sabia ou não ser ele a tocar a campainha. Não demorou-se o suficiente em sua marcha imponente para dentro do prédio para concluir se a ausência de resistência e perguntas do porteiro era desencadeada pelo reconhecimento dele enquanto o imparável homem mais forte de Ikebukuro, pela lembrança de que estivera naquele mesmo lugar semanas atrás, ou pelo medo da carranca inabalável que mantinha no rosto sério. Fosse qual fosse a desculpa atrás da qual escondia-se o homem franzino e assustado para deixa-lo seguir firme em frente sem quaisquer tentativas de interceptá-lo, verdade era que era desnecessária. Heiwajima Shizuo não iria impor-se caso fosse barrado. Não dessa vez. A carranca era sinal apenas do hábito – talvez um pouco mais fechada, diferente por manchar-se de preocupação e ansiedade – não da fúria. O homem mais forte de Ikebukuro não resistiria caso fosse impedido de entrar, aceitaria caso dissessem-no para que fosse para casa. Estivera, verdadeiramente, preparado para isso.
Ainda que só tenha percebido ao pôr-se dentro do metrô a caminho de Shinjuku, reconhecia a possibilidade de ter seu passe de transporte público perdido um crédito inutilmente. Sabia que não podia obrigar Izaya a recebê-lo, que não podia força-lo a ouvir o que tinha a dizer. Não quando o que tinha para ser dito eram pedidos por desculpas e quando força-lo a ouvi-los seria o mesmo que fazê-los mais longos. “Desculpa pelo que fiz. Desculpa pelo que disse. Desculpa pela demora. Desculpa por quebrar a portaria de seu prédio. Desculpa por socar o porteiro. Desculpa por arrombar sua porta. Desculpa por te forçar a me ouvir. Desculpa se te machuquei.”. Ao homem tão pouco acostumado a desculpas, dizer tantas de uma só vez seria impensável. Assim como era também impensável, a beirar o absurdo, um novo pedido de desculpas por um anterior pedido de desculpas.
Foi com alívio, portanto, que marchara através da portaria sem ser barrado. Com alívio que subira os lances de escada até o andar do apartamento de Izaya. E com alívio que tocara a campainha. Três vezes, altas o suficiente para ouvi-las mesmo através da porta fechada. Alívio, entretanto, que esvaiu-se ao perceber que, mesmo passado tempo, a porta permanecia fechada.
— Sei que está ai, abre a porta, pulga. – sussurrou para o botão do interfone ao pressioná-lo mais uma vez, a quarta. E apertou-o mais uma vez para barrar o impulso de repetir seu sussurro a plenos pulmões. E ainda outra para controlar a aflição que progressivamente instalava-se em seu estômago enquanto ideias erradas sobrepunham-se à sua calma.
“Essa fechadura é fácil de quebrar. Só um aperto um pouco mais forte. Um tranco, talvez. Um chute e ela se desfaria sem muito barulho. E então ele diz que não quer falar comigo. Diz na minha cara! Ele tem que me ouvir, nem que pra dizer que não quer ouvir... Essa pulga maldita, tenho certeza que está brincando comigo...Rindo de mim!”
— Estou indo, não quebre minha porta. Não de novo. – a voz soava adulterada através da pequena caixa de som fixa ao aparelho negro, levemente metalizada, calma, pausada, regular, o exato oposto do pulso do homem parado do outro lado da porta, a ouvi-la.
Engoliu em seco, estalando os lábios subitamente ressecados, e piscou repetidas vezes. As desculpas pareciam, de repente, pesadas demais para que pudesse ter andado com elas por todo o caminho de um distrito a outro. Sentia-se ridículo por tê-las carregado consigo, ridículo para deslocar-se até o apartamento de seu pior inimigo trazendo-as e ridículo por esperar pacientemente do lado de fora até que fosse permitido a ele entregá-las. Já não tinha mais certeza se queria fazê-lo, se poderia fazê-lo. Não para o dono da voz firme e fria que acabara de ouvir, não quando repetidamente lembrava-se da última vez que a ouvira, duas semanas atrás. Farfalhar inquietante tomou-lhe o estômago, não queria mais vê-lo, nem o Izaya da voz ferida e raivosa, nem o Izaya da voz metalizada e congelante.
Pensou em recuar, pôr-se no metrô de volta a Ikebukuro com suas pesadas desculpas intocadas no bolso. Permaneceu parado, entretanto, estático até o momento no qual ouviu a chave virar-se na fechadura, do lado de dentro. Só então permitiu-se mover-se. Duas inspiradas profundas, o peito subindo e descendo e os lábios a fecharem-se e abrirem-se.
O cheiro invadiu seus pulmões, intenso, mas não forte o suficiente para prepará-lo para o momento no qual a imagem do responsável por ele alcançou seus olhos.
Os cabelos negros estavam mais compridos do que o normal, caindo sobre os olhos castanho-avermelhados como sombra de uma franja, desgrenhados, absurdamente bagunçados, arrepiados em todas as direções. Molhados, e talvez exatamente por isso ainda mais negros, a alongarem-se até o começo da nuca parcialmente nua, coberta desleixadamente por uma toalha pequena, branca, que parecia ser a responsável tanto pela bagunça nos cabelos quanto pela tarefa de impedir que as gotículas a escorrerem dos fios excessivamente escuros molhassem o peito, esse sim, integralmente nu. Tarefa que não cumpria eficientemente, tendo como prova de sua incompetência trilhas molhadas que estendiam-se em linhas do pescoço nu até uma segunda toalha, também branca, firmemente presa, enrolada no início do quadril estreito. Segunda toalha que, diferente da anterior, não parecia sequer tentar manter a pele abaixo da faixa do joelho minimamente seca, deixando expostas gordas gotas nas canelas, tornozelos e pés, como se prendesse-se ao rapaz apenas para impedir a nudez completa.
— Estava no banho.
Levantou os olhos para a voz. Natural como se não estivesse até aquele momento a temer a expressão que encontraria ao fitar o rosto de Orihara Izaya.
Os traços eram sérios. Sobrancelhas nem relaxadas nem tensas. Lábios sutilmente repuxados. As maças do rosto levemente coradas em contraste com o fraco arroxeado da região abaixo dos olhos.
— Vai ficar parado aí ou entrar? – piscou diante da pergunta, assimilando-a – Tive que correr por causa da porta, não quero ter que pagar por ela uma segunda vez... vou me vestir. Entra.
— Não precisa.
Umedeceu os lábios ao notar que foram eles os responsáveis pelas últimas palavras a alcançarem seus ouvidos, corando sutilmente ao entender o porquê de tê-las dito. O entendimento não pareceu alcançar tão rápido o rapaz a sua frente, as sobrancelhas crispando-se em dúvida antes de levantarem-se surpresas e franzirem-se contrariadas. Sabia que não deveria fazê-lo, ainda mais por estar arrependido do que acabara de sugerir, ainda mais com o peso das desculpas e o do lubrificante no bolso direito, mas sustentou o olhar firme que lhe foi lançado.
— Oh, Shizuo, acredite em mim, estou bastante interessado no que de tão importante tem pra me dizer que pode fazê-lo até enquanto estou pelado, mas está frio e eu estou molhado, de toalha. – o tom impassível arrepiou cada pelo de seu corpo, ainda mais do que seu nome a ser chamado sem honoríficos – A propósito, se vai entrar, faça logo. Meu aquecedor não vai aguentar se você segurar a porta escancarada desse jeito e não quero acrescentar novas multas de condomínio às minhas contas do mês.
Torceu os lábios levemente, confuso pelas afirmações estranhas e inesperadas. Aquele não era o rumo de conversa que planejava ao meter-se no metrô até ali. Qualquer pergunta que poderia fazer, entretanto, morreu no instante no qual o rapaz a sua frente assentiu para a porta então fechada e virou-lhe as costas, calmamente iniciando caminhada até escadas laterais à grande sala-de-estar na qual acabara de entrar.
— Suas costas estão molhadas. – a voz escapou-lhe rouca, arranhando sua garganta, forçando-o a engolir seco algumas vezes.
Não era o que queria dizer, mas também não sabia ao certo o que queria. A seriedade de Izaya o deixava confuso. Estrangeira demais, forçada demais. Não se preparara para ele, aquele Izaya sério de torso nu e voz entediada. Não era a ele que devia suas desculpas. Preparara-se para encontrar o rapaz de olhos brilhantes e raivosos que o abandonara em sua própria cama há duas semanas, ou o rapaz de cenho magoado que cobrira dele sua nudez, ou até mesmo o rapaz de sorriso malicioso que tantas vezes fodera sua vida. Era, sim, a eles que devia algo. Não ao indiferente homem seminu, coberto apenas por duas toalhas brancas. Calou-se, portanto. À espera por algo que nem sabia o que era. Em pé, estático, no centro da sala-de-estar do apartamento de Orihara Izaya, a acompanhar pequenas gotículas que desprendiam-se dos fios negros e perdiam-se no cós da toalha branca.
— E você parece bastante incomodado com isso, não é? – mais uma vez, apenas séria, a voz alcançou seus ouvidos. Não a ouviu por completo ou a entendeu por completo, mas soube que ela tinha razão. Ele sentia-se incomodado.
E, incomodado, limitou-se a manter, de cenho franzido, ambas as orbes castanho-avelã no caminho do informante, que novamente virara-se e agora refazia o trajeto até o centro da sala-de-estar. Não o entendia. Não entendia a calma dos movimentos. Não entendia o porquê de dirigir-se ao aquecedor e aumentar a potência. Não entendia o porquê de sentar-se, vestido ainda apenas com suas toalhas, em um dos sofás e indicar com a mão que deveria sentar-se também, à sua frente.
— Mudei de ideia, Shizu-chan. Vai ser divertido assim. – anunciou, mesmo que não houvesse diversão alguma em sua voz gelada – Pode dizer o que veio dizer. Afinal, veio aqui para alguma coisa além de anunciar que minhas costas estão molhadas e ficar me encarando com essa careta feia, né? Estou bastante curioso.
Crispou os lábios para a mão estendida, não movendo-se sequer milímetro para cumprir a ordem velada contida nela. Mesmo que ainda sentisse-se confuso em relação a tudo o que fazia o rapaz calmamente sentado à sua frente, sabia que ele não o agradava. Não da forma como não o agradava o informante malicioso e sarcástico. Não da forma como o irritava o desmemoriado a fazer suposições e piadas sorridentes. Havia algo de diferente naquele rosto sério a camuflar seus insultos que arrepiava cada pelo de seu corpo e fazia-o lutar contra o descontrole, lutar para manter preso em sua garganta o grito que queria manda-lo calar-se. Ao mesmo tempo, havia algo em sua postura rígida que fazia-o irritado também consigo mesmo, que ardia culpa em seus pulmões.
Naquele momento, odiou-o de verdade, como se todo o ódio que bradasse por todo distrito sentir por Orihara Izaya durante os últimos dez anos nunca houvesse de verdade existido. Odiou os olhos sérios, a nudez intocável, os lábios cerrados. Odiou tudo o que eles o faziam sentir.
Sondou-o outra vez. Da ponta dos pés descalços até a ponta dos cabelos bagunçados antes de fixar-se novamente no rosto impassível.
Piscou algumas vezes, confuso. Ainda que o olhar se mantivesse odiosamente sério a retribuir o seu, os lábios outrora tão firmemente cerrados progressivamente arroxeavam-se e tremiam.
— Vista-se, Izaya. – pediu, os olhos presos nos pelos arrepiados no corpo do outro, algo a gelar em seu estômago. Um suspiro alto, entretanto, roubou sua atenção de volta ao rosto de Izaya, encontrando lá expressão totalmente diferente da anterior.
— Me vestir, Shizu-chan? Ah, sim, você já deixou bastante claro o quanto isso aqui te incomoda. Não precisa vir até a minha casa repetir. Eu entendi bastante bem da última vez que disse, em seu quarto. – os olhos bem abertos, o cenho franzido, os lábios trêmulos arroxeando-se como se para intensificar a cor das olheiras, a voz alta entrecortada pelo repetitivo bater dos dentes: aquele não se parecia em nada com o Izaya que abrira a porta minutos antes – Me vestir! Shinra estava enganado... eu entendi muito bem o que quis dizer naquela hora e, sinceramente, não sei o que veio fazer aqui. Mas, independentemente do que for, não tem regra alguma que me obrigue a te ouvir do jeito que você quer...
Ambas as toalhas, enroladas em um bolo de tecido fofo branco, bateram contra seu peito antes que pudesse pensar em desviar. Não dedicou a elas, entretanto, atenção alguma, olhar algum. Seus olhos castanhos-mel arregalados eram, plenamente, de um Orihara Izaya completamente nu, vermelho de raiva e pálido de frio, a encará-lo diretamente, desafiando-o.
De um instante para o outro o pequeno aquecedor claro pareceu o suficiente para aquecer o mundo todo, trazendo verão para a larga sala-de-estar como se do lado de fora não chovesse tediosa tarde de domingo, quente o suficiente para derreter o frio que instalara-se no fundo de seu estômago a partir do instante no qual fitou o rosto sério com o qual Orihara Izaya o recebera. Ódio, desconforto, raiva: todos evaporados de uma só vez.
Riso baixinho escapou dos lábios até pouco tempo crispados em desconforto enquanto o homem mais forte de Ikebukuro percebia o porquê de sentir raiva daquele Izaya sério e impassível: ele não era Izaya. Izaya era, sim, o que agora tremia de frio, de raiva, de fúria, que lutava para manter os olhos nos seus, para mantê-los sérios, que esforçava-se para impedir os dedos trêmulos de cobrir o sexo exposto, que sorria-lhe falso sorriso irônico, torto e dolorido, em retribuição ao seu riso aberto.
Riu mais uma vez, desta vez mais alto, alto ao ponto de chacoalhar os ombros. E, então, com toda a atenção dos olhos castanho-avermelhados em si, atenção raivosa, contrariada, estreita, atenção que esperava ver desde o momento que decidiu pôr-se a caminho daquele apartamento, retirou seu pesado casaco de inverno e pousou-o com cuidado sobre os cabelos molhados, assistindo-o cobrir parcialmente o corpo encolhido de frio. Por fim, com terceiro riso, silencioso, só em seus olhos, abaixou-se, ajoelhando-se em frente ao rapaz coberto por seu casaco, e, passando os braços ao seu redor, aconchegou-o entre o tecido e seu peito em um abraço firme.
— Você vai ter que fazer melhor que isso, então, pulga, já que assim está exatamente do jeito que te quero. – sussurrou, aproximando-se de seu rosto e beijando-o.
Eram frios: os lábios nos seus e a pele sob seus dedos. Não quentes como se lembrava deles. E trêmulos. Não maliciosos e decididos como lembrava-se deles. Trouxe-os mais para perto, mesmo que sentisse ser mais fácil seu estômago gelar-se mais uma vez em culpa do que aquecê-los com seu corpo. E esfregou-os, desviando os lábios dos beijos para soprar as mãos frias que enlaçavam-se a seus fios descoloridos, retornando posteriormente aos beijos ao perceber que, sem os seus, os lábios de Izaya tremiam.
Duas mãos frias sobre seu peito gelaram-no de medo de rejeição. Rejeição, também, o gosto que ficou nos seus lábios ao serem abandonados em fuga furtiva. Os dedos, entretanto, trêmulos a tentarem abrir os botões de sua camisa e o rosto frio a afundar-se em seu pescoço em inspirações profundas colocaram-no novamente fogo.
Izaya queria-o. Queria a pele debaixo de sua camisa e queria a sensação de aconchegar-se em seu peito. A temperatura, entretanto, da pele que buscava pela sua não o deixava entregar-se ao conforto dos toques.
— Quero te deixar quente, onde é seu quarto? – pediu, a voz mais alta e desesperada do que planejava.
— Você é... – sentiu-o sussurrar contra seu pescoço, o queixo em solavancos –... bastante abusado para um cara que sumiu durante duas semanas. – sorriu pela resposta, acenando incrédulo e sentindo o rosto molhar-se nos cabelos negros úmidos – Subindo as escadas. Porta da direita.
Com o sorriso ainda no rosto e um só impulso, trouxe o corpo do informante, ainda enrolado em seu casaco, para seu colo.
— Você está mais leve.
— Dias difíceis. – declarou, baixo, enroscando os braços ao redor de seu pescoço.
Engoliu em seco, sentindo em suas costas peso que em nada tinha relação com o rapaz em seus braços.
— Você tem comido direi-?
— Não por conta disso. – cortou-o o informante, silenciando-se em seguida.
Sentiu o aperto em sua nuca afrouxar-se levemente e soube que aquela não era a hora de fazer perguntas. Torceu o cenho e crispou os lábios, trazendo o rapaz para mais perto de seu peito. Aquecê-lo era, de toda forma, o mais importante, toda outra questão ficaria para depois.
Empurrou a porta entreaberta com um dos pés e, em um só pulo, meteu-se dentro do quarto. No instante seguinte Izaya estava debaixo das cobertas, apenas o par de olhos castanho-avermelhados visíveis, a fitarem-no atentamente.
— Aqui. – a mão de Izaya deixou o casulo que formara há pouco com o cobertor apenas por tempo o suficiente para arrastar para fora seu casaco, retornando imediatamente após deixa-lo sobre o lençol, às vistas – Obrigado, não preciso mais.
Seus pés remexeram-se, inquietos, nos sapatos que a anormalidade do reencontro não o permitiu retirar ao adentrar o apartamento, intercalando entre eles o peso do corpo.
— Quer que ligue o aquecedor?
— Já está ligado, obrigado.
— Mas está frio, ainda.
— Sim.
Forçou a ponta de um sapato contra o calço do outro, obrigando-o a deixar seu pé. Não pode, entretanto, evitar sentir-se desconfortável ao fazê-lo. Os olhos atentos de Izaya como que afetando seu equilíbrio.
— Precisa de mais alg-?
— Estou bem, obrigado, Shizu-chan.
— Se você ficar doent-
— Não vou ficar.
— Seu cabel-
— Tá tudo certo, eu já disse.
— Quer outro cobert-?
— Não.
O silêncio, os olhos castanho-avermelhados vigilantes, a distância, a ausência de toques: Shizuo não conseguia determinar o que o fazia mais desconfortável. Era tarde demais para chegar à conclusão, mas reconhecia que devia ter-se deitado ao lado de Izaya ao pousá-lo sobre os lençóis. Agora, depois de tempo considerável parado de pé ao lado da cama, parecia tarefa impossível meter-se debaixo das cobertas e tocá-lo como desejava, tocá-lo mais uma vez como havia tocado pouco antes.
Sabia que ainda devia desculpas. Que ainda havia muito o que dizer. Mas reconhecia que um lado seu do qual não se orgulhava – o covarde – progressivamente ganhava espaço em seus pensamentos. “Ele já me aceitou. Já entendeu que eu não quis dizer aquilo. Já até me beijou. O pulga já sabe tudo, não preciso ficar falando, explicando...”.
— Você está com uma cara bastante engraçada agora, Shizu-chan... Quer dizer alguma coisa?
“Foda-se!”
— Pulga, eu t-
— Ora, ora. O que está fazendo?
— Quê?
— Por que está se sentando?
— Como?
— Não precisa sentar para falar. Ouço muito bem com você de pé.
Encarou-o, firme, as sobrancelhas torcidas em confusão. Podia jurar que por trás da voz abafada pelo cobertor havia um sorriso, suas crenças, entretanto, ruíram no instante no qual viu-o descobrir-se um pouco e ostentar o mesmo olhar sério e lábios repuxados que tinha ao abrir-lhe a porta.
— Izaya. Quê? Mas, na sala, voc-
— Isso e aquilo são coisas diferentes, Shizu-chan.
— Você me beijou! – acusou, sentindo-se ridículo por sua tentativa de contra argumentação.
— Eu estava com frio, você estava quente. Agora tenho um cobertor, estou quente o bastante.
— Você está brincando comigo, maldito!
— Eu pareço estar brincando? – fitou-o sério, apertando os punhos ao ver que era fitado de volta com a mesma intensidade. Sabia que ele tinha razão, que sua defensiva, ainda que odiosa, tinha um motivo – Você veio aqui para falar, não veio? Eu estou aqui para te ouvir, é você que não está falando.
— É mais fácil mostrar... – sussurrou baixinho, quase um rosnado, inclinando-se na cama.
— Não entendi o que disse e você está perto demais. Você é surdo, Shizu-chan? Disse que não podia nem se sentar, então muito menos deitar-se assim...
— Disse que é mais fácil te mostrar. – repetiu, contrariado.
— Mais fácil pra quem, Shizu-chan?
“Pra mim.”
Mordeu o lábio inferior antes de bufar, rendido. “Diga, não é difícil”: repetia a si mesmo, os nós dos dedos tornando-se cada vez mais brancos conforme apertava com firmeza entre eles a ponta do cobertor.
— É difícil para mim também. – encarou-o, desconfiado, certo de que aquela voz séria e calma era outra das provocações daquele Izaya com o qual não sabia lidar, as sobrancelhas negras franzidas como se em dor, entretanto, fizeram-no recuar. Izaya falava sério, não da anterior maneira forçada e teimosa, falava verdadeiramente sério, e, mesmo que sentisse que os motivos que o levavam a dizer aquilo fossem diferentes de seus próprios, não podia ignorá-lo. Não quando os olhos castanhos com tons rubros fitavam-no tão doloridos. Encarou-os firme e, sem poder conter-se, estendeu a mão direita até alcançar o rosto pálido, acariciando-o de leve antes de afundar os dedos nos fios ainda molhados – Afinal, você é sempre tão quente, Shizu-chan.
Assistiu-o apoiar o rosto em sua mão e fechar os olhos momentaneamente e não pode deixar de pensar que nunca o vira tão suscetível. O perigoso informante de Tóquio como garotinho intimidado. Havia, entretanto, nos olhos que abriram-se instantes depois firmeza que também podia jurar nunca ter visto em Izaya. Não sabia como era possível que o rapaz mostrasse ao mesmo tempo tantas faces diferentes, mas sabia que precisava com urgência tocar todas elas.
— Eu vou te beijar agora, Izaya, tudo bem? – mesmo com seu esforço por fazê-la firme, a voz saiu-lhe baixa, raspando-lhe a garganta.
A última coisa que viu antes de fechar os olhos foram duas orbes castanho-avermelhadas fitando-o receosas, assustadas, no segundo seguinte, entretanto, com seus lábios sobre os agora quentes lábios de Orihara Izaya, medo algum ou receio algum mais importavam.
O beijo de Izaya foi como em seus sonhos. Não como em suas lembranças, não como em suas fantasias. Foi beijo como aqueles que não podia controlar. Desesperado, bruto, ansioso, quase dolorido. Respiração alta demais, dedos a busca-lo com fúria demais, dentes a se baterem demais e língua a tocarem-se demais. Só ao afastar-se, beijá-lo em uma bochecha, no canto dos lábios, e meter-se por baixo das cobertas, aconchegando o corpo sobre o dele, recebeu o, então sim, beijo que esperava. O beijo do Izaya que se lembrava.
Desespero transformado em êxtase, brutalidade em malícia, respirações altas em suspiros, infinitos deles, um novo a cada botão de sua camisa desfeito pelos dedos longos e cobertos de cicatrizes, dois a cada fração da pele agora despida descoberta por eles.
Saudades abriram seus olhos. Mesmo que nunca fosse capaz de dizê-lo em voz alta, sabia que a irregularidade em seu pulso era mais por finalmente estar tocando Izaya do que por estar sendo tocado por ele. O informante, ao contrário dele, manteve os olhos bem fechados, não abrindo-os nem mesmo quando afastavam-se, nem mesmo quando punha-se a procura por seus lábios. Sentiu-se grato por isso, permitindo-se pensar que eles não mostrariam mais medo nem se arregalados.
— Tira isso. – a ordem, ainda mais do que os dedos a deslizarem da gola até a barra de sua camisa, arrepiou cada pelo de seu corpo, e, mesmo que posteriormente não fosse se orgulhar de sua prontidão, obedeceu de imediato. Havia, entretanto, algo de rebeldia na forma como afastou-se mais do que o necessário apenas para poder ver o torso nu de Izaya, olhando-o como até o momento não o fora permitido fazer, mantendo-se afastado tempo o suficiente para que os olhos de estranhos tons rubros abrissem-se para procurar por ele, tempo o suficiente para checar que suas pupilas dilatavam-se em malícia, não medo – E esse agora. – a voz mandona e ferina do informante a apontar para suas calças arrancou-lhe mais um dos sorrisos que pareciam ter-se tão bem acostumado a seu rosto – Opa, Shizu-chan, é algo no seu bolso ou você está feliz em me ver?
— Os dois. – afirmou, esforçando-se para manter o rosto sério enquanto levava uma das mãos ao bolso da calça.
Os olhos castanho-avermelhados abriram-se ao limite enquanto acompanhavam o caminho que sua mão fazia para fora do bolso e então até a cabeceira da cama.
— Eu não quero nem saber o que escondeu debaixo do meu travesseiro... Mas tenho que repetir: você é muito abusado para um cara que sumiu durante duas semanas... achei que tivesse vindo aqui convers-
Sorriu confuso, achando graça em Izaya a calar-se sozinho, como se desistindo do que pretendia dizer. Não seria ele, entretanto, a pressioná-lo para continuar, preferia que a atenção do informante, e não suas palavras, fosse, naquele momento, sua. Contraditoriamente, contudo, sentiu-se quase tímido quando a recebeu, atenção crua que acompanhava cada um dos seus movimentos: o botão a ser desabotoado e a calça a deslizar para fora de suas pernas. Mesmo que involuntariamente, sentiu que, naquele momento, podia entender um pouco melhor as anteriores ações de Izaya, a mágoa diante das palavras direcionadas a sua nudez. Assumia que sua força capaz de botar Ikebukuro abaixo não o ajudaria em nada se sentisse que o olhar atento a percorrer cada centímetro de seu corpo quase nu demonstrava desagrado. Não o fez. Pelo contrário, ganhou para sua seminudez um sorrisinho sacana e um levantar de sobrancelhas seguido de uma leve umedecida dos lábios. Ainda assim, manteve sua cueca no lugar, inseguro de despi-la diante daqueles olhos.
Arrependeu-se de sua escolha no momento no qual deitou-se novamente sobre o informante, no momento no qual sua pele tocou a dele. Izaya era quente, úmido, macio apesar da magreza.
Recebeu-o primeiro em suas coxas, como se quisesse senti-lo por completo, como se adivinhando que era assim que queria senti-lo: pele contra pele, em sensual simetria de braços, tronco e quadril. Só então, com um gemido que pareceu vibrar também em sua garganta, separou os joelhos para recebê-lo entre suas pernas, envolvendo-o com os braços para encaixá-lo em seu corpo.
Queria afastar-se, direcionar as mãos que tão confortavelmente aconchegara nas costas de Izaya para o próprio corpo, arrancar à força a última peça de roupa, mantida por loucura, que o impedia de sentir por completo o rapaz sob seu peso.
— Você está de cueca. – a voz soou baixa, rouca, contra sua bochecha esquerda. Tomou os lábios responsáveis por ela em um beijo curto antes de responder.
— Tô. E arrependido.
O riso baixinho alcançou seus ouvidos na forma de suspiro, seguido de um vagaroso “Vou resolver para você, então. De nada” e mãos a desenroscarem-se de seu pescoço e desceram por suas costas, lentas, quentes, pequenos arranhões de unhas curtas. Beijou-o mais uma vez no momento no qual sentiu os dedos no cós de sua roupa íntima e, ainda que todos os outros beijos tivessem inquestionável sabor de luxúria, sentiu em sua língua que aquele era o mais próximo da loucura que já estivera.
A peça parou antes da metade de suas coxas, aparentemente, o mais longe que Izaya conseguia afastá-la sem mover-se para longe de seus braços. Não importou-se. Nada importava agora que podia senti-lo nu contra sua própria nudez. Izaya também não pareceu importar-se, tocando descomedidamente o pedaço de pele recém descoberto, espalmando ambas as mãos em suas nádegas e forçando-as contra seu próprio quadril, gemendo baixo enquanto, progressivamente, passava a mover-se, rebolando com dificuldade.
Seu peito pulou uma batida quando moveu-se junto. E, contra sua vontade, gemeu alto pelo atrito, intensificando a força com a qual prendia Izaya na cama.
Leitura alguma o preparara para aquilo. Da mesma forma que, estranhamente, nenhum toque anterior entre eles o fizera. Como se tudo mudasse depois de despidas todas as roupas. A pele quente contra sua pele quente, o atrito úmido entre os quadris, os suspiros trocados de um hálito para outro, a certeza de que não seriam interrompidos... Livro preto-e-branco algum, sonho molhado algum, fantasia alguma guiada por movimentos de pulso algum o preparara para as mãos de Izaya deslizando devagar por sua barriga e tocando a ponta de seu pênis.
— Pu-pulga, espera.
Talvez fosse pura teimosia. Ou orgulho ferido. Ou resistência em acreditar que tudo o que aprendera não servira para nada. Ou, no fim, apenas medo de deixar-se levar pela loucura dos toques de Orihara Izaya e acabar por perder o controle e as desculpas. Mas parou com mordida o beijo que Izaya impunha ao aconchegar na palma da mão a extensão de seu membro.
— Desculpe, muito rápido para você, Shizu-chan? – apertou os olhos para o sorriso malicioso, decidindo que talvez não sentisse tanta falta dele quanto pensara – Quer ir com mais calma? É sua primeira vez?
— Oe! O que voc-?
— Achei camisinhas nas minhas coisas, então sei que não é a minha primeira... Oh! Entendi! Essa é nossa primeira vez. Que adorável sua insegurança, Shizu-chan. Mas fique tranquilo, gostei bastante até agora. Gosto de beijos. Dos seus. Bastante quentes. Você também é, mais do que qualquer cobertor. E confesso que gostei bastante. De você, sabe?! Principalmente daqui, daqui e daqui.
— Você fala demais. – rosnou baixinho, mordendo o queixo pequeno, o falatório de Izaya acalmando-o o suficiente para permitir que recompusesse-se e empurrasse com uma das mãos a roupa íntima para fora do corpo. Pronto a, agora sim, tocá-lo como queria. Disposto a, agora sim, roubar de volta o controle que a mão de Izaya momentaneamente tomara dele.
— Você fala de menos. – recebeu como resposta risonha – Num momento estou eu te pressionando por explicação, no outro você tá pelado em cima de mim. No meio disso só um “eu vou te beijar, pulga”. Como se fosse a forma mais normal de agir. Como se tivesse alguma relação direta, sabe? “Uau, estou me sentindo tão pressionado, quem sabe se tirar minha roupa e me insinuar sensualmente para alguém passa. Ok, vale a pena a tentativa, vamos lá. Olha ali, o pulga, vou tentar com ele”, ou algo assim...
— Uhum. – resmungou, os lábios espalhando beijos pelo pescoço pálido num esforço absurdo para não se mover contra a mão de Izaya, agora parada.
— E, então, de repente, um “espera, pulga”. Não sei se fico mais confuso por você falar tão pouco ou se contrariado por metade do pouco que você fala ser “pulga”. Me sinto meio bobo por já ter achado que isso era um apelido carinhoso, isso seria demais até mesmo para você, Shizu-chan... Pulga é um pés-
— Você ainda está falando. – sussurrou, pressionando os dentes de leve na clavícula a insinuar-se para frente a cada respiração pesada que um beijo seu levantava.
— Estou... Estou, né?
Não precisou levantar os olhos para saber que Izaya forçava um sorriso, que a voz entrecortada por risos não era de forma alguma divertida ou provocadora. Sabia porque ele mesmo tinha em seu rosto sorriso forçado, sabia porque sua voz, caso falasse o bastante, talvez também saísse daquela forma, insegura e truncada. E, ele sabia, talvez fosse isso o que faziam quando sentiam medo: sorrisos forçados e vozes sorridentes. Isso ou o medo que sentia em Izaya era apenas o seu próprio, tão forte que contaminava também o pulso do outro. Queria conseguir olhá-lo nos olhos. Queria perguntar. Confirmar se ele começara a falar e afastá-lo ao mesmo tempo de propósito, se continuara a falar para poder afastá-lo ainda mais. Se queria que deixasse-o falar, que alimentasse a conversa até que estivessem mais uma vez longes. Faria-o, faria-o sem hesitação alguma, não fosse a mão que ainda mantinha-se em seu pênis ereto. Queria coragem o suficiente para perguntar qual das mãos de Izaya devia obedecer: a que espalmava-se em seu peito, criando barreira entre eles, ou a que acariciava seu sexo, puxando-o para perto.
Inspirou fundo. Izaya cheirava a sabonete, um pouco diferente do sabonete a que cheirava há duas semanas em sua cama, mas, ainda assim, sabonete. Teve certeza de que se não mantivesse os olhos abertos, bem abertos, cairia facilmente na armadilha de confundir-se, de acreditar que tempo algum havia se passado entre os beijos que entregava àquela pele fresca pelo banho agora e os beijos que entregara há quatorze dias. Risco de esquecer a mão em seu peito e centrar-se apenas na que movia-se em crescente velocidade sobre seu pênis.
Não queria confundir-se. Não quando sabia o porquê da mão a afastá-lo. Era importante que não enganasse-se, que sentisse diferença entre um dia e outro ao ponto de fazer com que Izaya também sentisse, sentisse ao ponto de ser capaz de afastar tanto seu próprio medo quanto o que atribuía ao informante, senti-la tão forte que a passasse através de seu suor, de sua saliva, de seus lábios e de seus olhos bem abertos. Queria que Izaya notasse que seus dedos a correrem por sua pele não estavam perdidos, que tivesse certeza do que fazia ao afastar a mão de seu peito para enlaçá-la ao seu pescoço, que quando oferecesse a pele do colo para seus dentes, o fizesse sabendo que marcava-a porque queria marcá-la, porque queria-a sua, presa entre seus dentes, molhada por sua saliva. Queria que quando Izaya gemesse ao abrir-se novamente para seu corpo, o fizesse sabendo que os gemidos seriam recebidos por gemidos seus. E queria, por fim, que quando puxasse-o para seus braços e o aconchegasse entre suas pernas, Izaya fizesse-o sabendo que aquele era exatamente o lugar onde gostaria de estar.
Queria que Izaya soubesse. De tudo.
E, querendo, deu-se conta de que seus pedidos de desculpa eram muito mais leves do que esperava. Dizer a Izaya que não se importava com forma de seu sexo era incrivelmente fácil quando tinha-o entre os dedos, quando deslizava o polegar pela ponta úmida. Dizer que não chegava sequer perto de julgar indesejável o peito plano era terrivelmente fácil quando tinha os mamilos pequenos em sua língua, quando sentia-os duros em seu hálito.
— Você é lindo. – a voz saiu-lhe como sopro, como se nem precisasse de sua língua ou sua garganta para articulá-la, e por medo que sendo fácil demais não fosse real, esforçou-se por repetir, devagar, os olhos fixos agora nos olhos castanho-avermelhados para garantir que seria ouvido – Você é lindo, Izaya.
Os dedos em seus fios afrouxaram-se de súbito e as íris castanhas e rubras alongaram-se tanto que quase cobriam por completo as pupilas antes tão grandes. As pernas a prenderem-no afrouxaram-se até pousarem novamente no colchão, ao lado da mão que já não mais acariciava-o. Os lábios abriram-se em um estalo úmido, movendo-se, então, devagar, como se quisessem dizer algo. O colo coberto pelas marcas de seus dentes avermelhou-se por completo, tão intenso que, se não tivesse em sua mão direita prova contrária, afirmaria que todo o sangue de Izaya fluíra para lá.
Os olhos arregalados encararam-no longamente, impassíveis, mas, de alguma forma, não sentiu-se decepcionado. Havia um lado seu que sabia que Izaya não sorriria quando recebesse aquele elogio, mesmo lado que dizia que exatamente por isso sentia-se bem elogiando-o. Não queria o riso fácil e bobo que entregava-o o informante enquanto o elogiava.
— Esse... – começou, a ponta da língua passeando pelos lábios separados – Esse é o seu pedido de desculpas?
— Parte dele. Sim. – respondeu, a sinceridade escapando-lhe tão fácil quanto o elogio.
O aperto em seu cabelo não foi forte o suficiente para machuca-lo, mas foi firme o suficiente para fazê-lo saber que Izaya queria afastá-lo, dessa vez, definitivamente. Afastou-se devagar, incapaz de impedir o suspiro frustrado que escapou-lhe dos lábios ao desencaixar o quadril do aconchego entre as penas do informante. Por mais inquieto que estivesse por não ter mais o calor do outro contra o seu, contudo, não pode evitar pensar que Izaya parecia-lhe verdadeiramente lindo estirado na cama, o tronco avermelhado e as pernas separadas.
Não demorou, contudo, para que as pernas separadas fossem recolhidas e o rapaz sentasse-se a sua frente. Encarou-o sem tentar entender sua expressão, misto da seriedade do início com a malícia de momentos antes com o sorriso da falta de memórias com a dor que ele não sabia de onde vinha.
— Continuo lindo? – a voz pegou-o de surpresa, não mais, contudo, que a mão furtiva, quase rude, a roubar a sua e pousá-la sobre o colo vermelho, forçando-a a deslizar do pescoço marcado por seus dentes até a ereção em riste.
Engoliu em seco, piscando duro. Sentiu vontade de rir para a pergunta, mas não o fez. No lugar do sorriso, separou os lábios em uma inspiração profunda e retomou o controle da própria mão, enlaçando juntos os dedos e fazendo caminho reverso: do pênis duro pela virilha melada, através da trilha de pelos negros até o pescoço alvo, onde entregou leve carícia antes de afastar-se. Quando recuou a mão, largando-a ao lado do corpo, Izaya veio junto a ela, sentando-se em seu colo.
— Continuo? – perguntou mais uma vez, a voz firme soprando seus lábios.
— Sim. – respondeu, esforçando-se para não beijá-lo – Como sempre.
E, pela primeira vez em sua vida, assistiu Izaya segurar um sorriso. Os lábios repuxando-se algumas vezes antes de serem mordidos, esbranquiçando-se levemente. Pensou em provocá-lo, dizer-lhe que agora queria seu sorriso, que agora o receberia com o todo prazer que negara para o rapaz desmemoriado que sorria-lhe constantemente, mas soube que isso faria-o apenas segurá-lo com ainda mais força, os olhos castanhos-avermelhados gritavam-lhe isso, que aquele sorriso era só do informante, proibido para qualquer outro que quisesse vê-lo.
— Você está com uma cara engraçada mais uma vez, Shizu-chan.
— Você está com uma cara engraçada também, Izaya-kun. – retrucou – Uma bem irritante.
— Oh, pare, Shizu-chan, não sei o que farei se continuar com todos esses elogios... É demais para mim... Todo essa adorabilidade.
Enlaçou-o com ambos os braços, dobrando as pernas em lótus para recebê-lo por completo em seu colo e, roubando um selar de lábios longo, não importou-se de sorrir, ainda que discreto, mal movendo os lábios, para o rapaz que negava-lhe o sorriso.
— Você continua falando demais.
Dessa vez ganhou um riso alto, Izaya a inclinar a cabeça para trás. Um riso só, curto, para o teto. Pensou em vingar-se do riso irritante mordendo o pescoço exposto, mas esqueceu-se de sua vingança ao sentir o gosto do informante. Mordeu-o de leve, portanto, jurando a si mesmo que não o machucaria caso mordesse-o com a mesma força com que mordia os próprios lábios. Lambeu-o em seguida, apenas para checar se o gosto ainda era o de Izaya e sabonete. Só então mordeu-o de novo, lambendo-o em seguida porque era o que queria fazer.
— Tem certeza disso? – a garganta moveu-se sob seus lábios, obrigando-o a recuar.
— Não. – suspirou, sem hesitar qualquer segundo quanto ao significado da pergunta. Não mentiu, mentir não era uma possibilidade, nunca era, não a Heiwajima Shizuo. Manter-se calado, entretanto, não parecia, também, naquele momento resposta possível, não diante daqueles olhos – Mas eu quero mesmo assim.
O homem mais forte de Ikebukuro nunca seria ingênuo o suficiente para afirmar ter certeza de alguma expressão de Orihara Izaya, mesmo um Orihara Izaya supostamente sem memórias, mas não pode evitar pensar que o que viu nas pálpebras que abaixaram-se até quase fecharem-se era alívio. Izaya, entretanto, parecia ser especialmente bom em esconder dele as expressões que desejava ver, abaixando o olhar até quase ocultá-lo por completo. Quando abriu novamente, bem abertos, os olhos castanho-avermelhados, eles estavam mais uma vez inundados em pupilas, tão maliciosos quanto o quadril que rebolou sobre suas pernas.
Um gemido engasgado escapou de sua garganta enquanto agarrava a cintura de Izaya e forçava-o para baixo uma única vez, pressionando-o bem firme contra seu baixo ventre antes de afastá-lo e empurrá-lo mais uma vez contra o colchão. Um resmungo de reclamação fez-se ouvir e ele não teve certeza se era seu próprio ou se de Izaya. Por mais que soubesse precisar de controle, não era fácil afastar o informante de seu colo quando o que mais queria era mantê-lo preso a ele.
Sua determinação, entretanto, tornou-se mais forte quando ouviu o primeiro gemido satisfeito. Ainda tinha os lábios no início do caminho quando o ouviu, provando mais uma vez os mamilos pequenos, mas não hesitou em recuar e reiniciar seu trajeto, mais uma vez, do início.
Beijou os lábios já inchados por beijos anteriores até que um segundo gemido fosse ouvido, então, como se só com ele pudesse continuar caminho, desceu mais uma vez ao pescoço avermelhado. Mordeu-o mais forte do que fizera antes e ainda mais forte ao sentir dedos apressados enfiarem-se por entre seus fios descoloridos. Deixou-se, então, guiar por eles, aceitando enquanto forçavam-no para baixo, de volta aos mamilos ainda úmidos por sua saliva e recuando quando puxaram-no outra vez para cima, de volta aos lábios. Sorriu-lhes, apertando-os de leve com os próprios dedos, ao notar que, trêmulos e indecisos, eles impediam que seu caminho avançasse, sempre trazendo-o de volta aos lábios.
Teve quase certeza de ter ouvido mais uma vez um “e, agora, Shizu-chan? Continuo?” antes que os dedos desistissem de puxá-lo para cima e transformassem-se em carícias contraditoriamente suaves e apressadas enquanto beijava-lhe o umbigo pequeno. Acenou positivamente, soprando um surdo “sim” que provavelmente não foi ouvido. Teria gritado, seguido caminho até os lábios de Izaya para marca-los com sua resposta, beijado-os até que não restasse pergunta alguma a ser feita, estava, contudo, irremediavelmente preso ao ventre do informante, como se as mãos que a pouco enlaçara às coxas pálidas se prendessem ali com algemas.
Rendido, limitou-se a tocar a ponta do nariz no caminho de pelos negros que iniciava-se logo abaixo do umbigo pequeno e esfrega-la ali de leve, torcendo para que Izaya percebesse que aquele era seu “sim”. Ele sabia que devia fazer tudo adequadamente e beijar o informante mesmo quando as mãos dele deixavam de guia-lo a seus lábios, sabia que aquela trilha não era longa o suficiente para que pudesse dizer que perdera-se nela. Ainda assim, porém, permitiu-se sentir-se perdido naqueles poucos centímetros, correndo o nariz de ponta a ponta. Talvez em desejo por nunca esquecê-lo, talvez por ser aquela a primeira vez que era capaz de percorrê-lo depois de tanto desejar fazê-lo.
Perdido por lá, demorou a perceber que não estava sozinho em seu caminho. Izaya acompanhava-o sem quaisquer reservas: os dedos apertando seus cabelos quando descia o rosto até a virilha e afrouxando o aperto quando subia de volta ao umbigo pequeno, a respiração a suster-se quando beijava-o e a soltar-se quando afastava-se. Sorriu para ele, mesmo que soubesse que não seria visto. Tinha certeza de que poderia manter-se naquela trilha pelo resto do dia, sentindo o informante tencionar e relaxar de acordo com seus lábios, Izaya, entretanto, parecia ter plano diferente. E, quando aos dedos em seu cabelos e às oscilações da respiração juntou-se também um pequeno palavrão e o quadril a ondular em sua direção, Heiwajima Shizuo sentiu-se obrigado a reconhecer que a escolha do informante mais perigoso de Ikebukuro era a melhor.
Abocanhou-o de uma só vez, exatamente como planejou não fazer. Os ensinamentos do dia anterior como se perdendo-se junto a sua razão. Ingenuidade sua, verdadeiramente. Fato era que mesmo integralmente são nunca teria seguido o caminho das páginas em preto-e-branco. Não chegaria de mansinho, não distribuiria beijinhos e lambidinhas, não separaria com cuidado pernas receosas que fechavam-se tímidas com sua aproximação. Não havia, afinal, pernas tímidas para afastar com cuidado, nem espaço para beijinhos pacientes e lambidinhas cuidadosas. Não quando Izaya escancarava as pernas e empurrava o quadril em direção a seus lábios.
Ele sempre soube e sempre atribuíra parte de sua raiva a isso: Izaya nunca dedicava-se pela metade. Havia loucura e entrega alucinada em tudo o que fazia. Sentiu isso ao conhece-lo, sentiu ao correr atrás dele pelo distrito, sentiu ao trocar golpes, sentiu na lâmina a deslizar por sua pele, sentiu na risada maliciosa e nas palavras irracionais, e sentia agora, ao tê-lo em sua língua. Algo como uma fixação quase doentia pelo extremo, que, de alguma forma, permanecia com ele mesmo quando as memórias o abandonavam.
E, assim como era antes, como quando o conheceu, correu atrás dele pelo distrito, golpeou-o ou ouviu suas palavras e risos loucos, sabia que não tinha chance alguma de resistir contra aquele Izaya. Como se a loucura dele gritasse pela sua, alto, ordem que não aceita recusas.
E enlouqueceu junto a ele, como sempre fazia. Os lábios estalando molhados, os dedos enterrados nas coxas pálidas, a desnecessária força a manter preso o quadril que não tentava fugir, os gemidos altos confundindo-se, intercalando-se, compondo trilha sonora para cada uma de suas investidas.
Izaya gozou com um gemido alto, as costas a contorcerem-se em arco contra o colchão e as penas a tremerem em suas mãos. Não relaxou de imediato, permanecendo trêmulo e arrepiado por ainda duas outras investidas, contorcendo-se fortemente quando o tirou de sua boca.
A consciência, entretanto, ao contrário do prolongado orgasmo do rapaz em seus lábios, atingiu-o imediatamente após o gozo. De forma que, quando o engoliu, o gosto em sua garganta era mais o de culpa do que qualquer outro.
“Fiz merda”.
Cerrou os olhos e balançou a cabeça, deixando-a posteriormente pender contra o baixo-ventre de Izaya e recebendo como resposta um arrepio e um suspiro de aflição.
— Esp-espera, Shizu-chan. Não toc-Tá sensível... – torceu o cenho antes de abrir os olhos e fitar o rosto absurdamente vermelho que o olhava de cima. Os olhos castanhos com tons rubros pareciam fazer sacrifício enorme para focarem-se em seu rosto – O que tá fazendo, Shizu-chan?... vem cá.
As mãos que ainda enroscaram-se em seus cabelos soltaram-nos para estenderem-se em sua direção. Demorou algum tempo a fita-las antes de entender que era aquela uma proposta de abraço. Quando percebeu, entretanto, Izaya já as recolhera e o olhava confuso, as sobrancelhas franzidas pesadas demais para o rosto tão relaxado.
Sentou-se sobre seus joelhos e permitiu-se olhar o rapaz a sua frente por completo.
“Droga! Fiz merda!”.
— Shizu-chan... eu... não consegui segurar... nem avisar... eu...
Desviou os olhos rapidamente das coxas com marcas imensamente vermelhas na forma de seus dedos, evitando encontra-los com as mordidas que sabia ter espalhado pelo peito e barriga de Izaya, para o rosto avermelhado. Piscou pesado diante da expressão dele: as sobrancelhas ainda mais franzidas e as pupilas pequenas. Encarou-o por um tempo, incapaz de compreender o porquê de o olhar nublado pelo orgasmo ter sido substituído por aquele, deixando de encará-lo apenas quando as mãos de Izaya espalmaram-se no rosto, escondendo-o.
Só então, diante do rosto escondido, percebeu as palavras de Izaya.
— Não, pulga, espera... – afirmou, o pulso acelerado, cobrindo-o mais uma vez com seu corpo, lutando para impedir-se de afastar à força os braços do informante de seu rosto – Não me importo... Eu só... me descontrolei... eu não queria...
— Não queria?
— Não, espera...! Eu queria... mas devia ter feito um monte de coisa diferente antes... Só...
Calou-se, incapaz de continuar. Sua ereção, ainda em riste, doía e exigia dele força muito além da que possuía para manter-se inerte sobre a perna de Izaya. Talvez se ela não lhe incomodasse tanto seus pensamentos poderiam organizar-se o suficiente para que ele pudesse explicá-los ao informante.
O roteiro que preparara antes de meter-se naquele apartamento tão maior que o seu pulsava-lhe na cabeça. “ir com calma, não assustá-lo, não usar força demais, não ficar só no pênis dele, usar as mãos para acaricia-lo, usar o lubrificante para começar a prepara-lo enquanto ele está excitado para que ele não sinta dor, encontrar a próstata dele e estimulá-lo em dois pontos ao mesmo tempo, deixa-lo confortável, prestar atenção nas respostas dele, não perder o controle, abraça-lo depois de terminar, não pensar na própria excitação”. Suas recentes ações eram tão absurdamente diferente de seu roteiro que não podia evitar sentir-se frustrado.
“Merda, eu... só te apertei e chupei feito um...!”
— Te machuquei? – perguntou, por fim, rendido, afastando-se até deitar-se ao lado do informante, frustrado e ao mesmo tempo aliviado por não ter mais contado entre seu pênis e a perna dele.
Um resmungo de entendimento soou ao seu lado.
— Esse era seu pedido de desculpas? A outra parte dele?
— Mais ou menos. – resmungou.
— Bom... isso me faz pensar que meu eu com memórias provavelmente tinha um bom motivo para brigar com você, então...
— Qu-?
— Se é assim que você se desculpa... – explicou a voz aérea – Confesso que estou tentado a começar uma nova briga agora mesmo, Shizu-chan. E eu teria motivos, já que arruinou meu momento pós-gozo... Diz... se eu te disser que me machucou, você vai fazer de novo como um pedido de desculpas? Ou vai usar esse negócio que escondeu debaixo do meu travesseiro?
Apoiou-se no cotovelo direito para virar-se para Izaya, fitando-o num misto de surpresa e confusão. A expressão relaxada de pós-orgasmo estava de volta ao rosto dele e foi notável o esforço feito para que ela moldasse-se em um sorrisinho sacana como resposta a seu olhar.
— Tá falando sério?
— Eu pareço estar brincando?
— Parece.
Os lábios de Izaya se separaram num sorriso tão solto que ele teve que beijá-los. E, de repente, percebeu que talvez aqueles beijos fossem os seus favoritos. A língua ainda mais quente do que o normal e os lábios um pouco frouxos, preguiçosos, absurdamente receptivos: era uma forma de malícia diferente do normal, quase inocente, inofensiva.
Beijou-o repetidas vezes, beijou-o até que ele cansasse-se de beijá-lo de volta e risse entre os beijos. Beijou-o então só com os lábios a deslizarem-se uns sobre os outros, sem língua alguma ou dente algum, apenas estalos molhados. Beijou-o até que o foco de sua atenção deixasse de ser a ereção entre suas pernas e tornasse-se os lábios absurdamente macios de Izaya.
— Você é surpreendentemente beijoqueiro, Shizu-chan. – resmungou o informante, interrompendo os beijos – Na verdade, eu já tinha reparado antes, mas sabia que ia ficar bravo se eu falasse... – fitou-o contrariado, beijando-o uma última vez antes de afastar-se, à espera do ele diria – Nunca imaginei que seria assim, por conta do nosso primeiro encontro e tal. Digo, o primeiro encontro que me lembro, quando aquela garota me mandou para sua casa. Enfim, você é alguém que gosta de tocar e de ser tocado. Isso é bastante engraçado, sabe, você me abraçando mesmo quando tem uma carranca enorme na cara.
— Não tenho carranca nenhuma. – rosnou, baixinho, afastando-se um pouco mais para enquadrar o rosto de Izaya em seu olhar.
— Não agora... Normalmente, Shizu-chan... Não agora. – os fios negros, já quase secos, balançaram de um lado a outro enquanto ele negava – Enfim, você gosta disso, não gosta? – fechou os olhos momentaneamente enquanto os dedos de Izaya deslizavam por seu rosto, acariciando-o lentamente o queixo – E disso. – ainda de olhos fechados, sentiu a respiração de Izaya tocar-lhe o rosto e como que por reflexo juntou os lábios em um pequeno bico, ganhando do outro um riso baixinho. Abriu os olhos, contrariado, no exato momento em que Izaya beijou-o e, então, já não mais importava a reclamação que faria – E disso. – fechou os olhos novamente ao sentir os dedos de Izaya a deslizarem por sua barriga e tocarem mais uma vez seu membro – E, então, consequentemente, eu posso te tocar aqui agora, não é?
Gemeu baixinho. Queria dizer que não, que Izaya era o único que devia ser tocado para que seu pedido de desculpas fosse completo. Não tinha forças, entretanto, para resistir aos toques. Era diferente da forma como o informante o havia tocado antes e diferente de como quando ele mesmo se tocava. Diferente, também, assumia, de quando era outra pessoa a tocá-lo ali. Era diferente da masturbação apressada dos encontros casuais e diferente da punheta envergonhada das preliminares de ex-compromissos. Izaya queria fazê-lo gozar, não tinha dúvida disso, mas não tinha pressa em fazê-lo. Movia-se devagar, como se testando o pênis em sua mão, encaixando-o de diferentes formas, rodando o pulso em velocidades e direções diferentes, pausando, acelerando, largando-o e apertando-o.
Anulou a distância que minutos antes havia por ele mesmo aberto e entrelaçou juntas as pernas, sua esquerda jogada sobre as de Izaya enquanto aconchegava-se novamente na lateral do corpo do informante. Quando Izaya voltou a beijá-lo, perguntou-se se fazia-o de propósito no ritmo da masturbação ou se, de alguma forma, estava tão envolvido por ela quanto ele.
Pensou brevemente que Izaya tinha razão, que ele talvez fosse alguém que gostava muito de ser tocado. E, ainda que momentaneamente, quis rir ao lembrar-se que já ouvira chamarem-no de “intocável”. O intocável homem que gostava de ser tocado. O epíteto como se uma punição por sua força inumana, como valor que tinha que pagar por ela. E, ainda que ironia fosse muito mais parte do rapaz que lhe chupava os lábios do que dele mesmo, riu ao pensar como, no fim, acabara por ser tocado justo por aquele que mais o julgava monstro.
Afastou-se para olhá-lo, quebrando, desta vez, o beijo por ele mesmo e, por reflexo, flexionou o cotovelo direito e apoiou a cabeça na mão. Podia vê-lo sem impedimentos agora, sem o olhar frio a encará-lo de volta e sem que sua nudez fosse-lhe proibida: a pernas sob sua perna esquerda, enroscando-se a ela, as coxas e quadril marcados por seus dedos, os dedos movendo-se em sua ereção, o peito nu arrepiado e, por fim, o pênis que despontava mais uma vez ereto através dos pelos negros da virilha.
Tocou-o mais uma vez, mais por curiosidade do que por qualquer outra coisa, apenas vontade de saber se ele também gostava de ser tocado. Só notou, entretanto, que outra coisa que não curiosidade guiava seus dedos ao tocá-lo outra vez. Havia desespero em seu toque, sinal de que, ainda que sua mente tivesse se perdido em ironias, seu corpo não esquecera-se sequer por segundo de que era tocado.
Gozou antes mesmo de tocá-lo pela terceira vez, gemendo alto nos lábios que mais uma vez tomavam os seus.
Abriu os olhos devagar, encontrando os olhos-castanho avermelhados a fitarem seu rosto intensamente. Teria desviado o olhar se tivesse forças para tal, tudo o que tinha entretanto, era a respiração desregulada a tentar estabilizar-se e os arrepios a percorrem cada centímetro de seu corpo.
— Gostou?
Sorriu bufado e deixou-se desabar no peito de Izaya, aconchegando o rosto na curva do pescoço mais uma vez vermelho.
— Cala a boca, pulga.
Envolveu-o com ambos os braços, apertando-o ainda mais forte ao ouvi-lo rir de sua resposta.
— Você realmente gosta disso... – não negou nem assentiu, limitando-se a sair de cima do informante e ajeitar-se mais uma vez ao seu lado: as pernas mais uma vez sobre as dele e os olhos sobre sua nudez – Bom, não me culpe por isso, alguém aqui estava fazendo umas expressões bastante perigosas a pouco menos...
Olhou-o confuso, só relaxando a expressão ao sentir o informante enlaçar os dedos aos de sua mão direita e leva-la a ereção que retornara. Mordeu os lábios em um semi-sorriso ao ouvi-lo gemer baixinho e levantar as sobrancelhas em um arco sugestivo.
No instante seguinte, eram os olhos castanho-avermelhados a olharem-no confuso enquanto deixava de estimulá-lo e afastava para longe a mão, e, então, os lábios avermelhados a morderem-se em um sugestivo semi-sorriso enquanto o informante entendi o porquê de ter-se afastado.
A tampa do lubrificante abriu-se em um clique sonoro e Shizuo podia jurar que corara levemente por conta de sua tentativa desajeitada de retirar o lacre de proteção, percebendo que qualquer ideia que tinha de surpreender Izaya findara-se imediatamente. Sabia que o informante segurara-se para não oferecer-lhe ajuda, o sorriso divertido estampado em seu rosto deixava isso bastante claro. Rosnou baixinho para ele, arrancando dele apenas um novo riso e um “oh, não, Shizu-chan, por favor, tome seu tempo, temos bastante dele”.
Beijou-o inicialmente para calá-lo e fechar os olhos atentos que insistiam em prender-se em seu rosto. Depois, por perceber que tornava-se bem mais fácil relaxar e manter as mãos firmes com os lábios de Izaya nos seus. Por fim, beijou-o apenas porque queria beijá-lo mais uma vez.
Por mais que agora já se esquecesse disso, perdido mais uma vez no hálito de Izaya, a verdade era ainda tinha seu roteiro a seguir.
O lubrificante estaria perto quando começasse a chupar Izaya. Abriria o tubo sem deixar de chupá-lo nem por um momento. Tocaria-o apenas quando o informante já estivesse bastante relaxado, prestes a gozar. Primeiro apenas uma carícia, leve, um aviso. Continuaria apenas se ele não se afastasse. Ele se contrairia, sabia disso, acariciaria-o até que não mais o fizesse, para, só então, invadi-lo com o primeiro dedo. Devagar. Pouco mais de sete centímetros, pouco acima da segunda dobra de seu dedo indicador. Então para cima. O dedo contra a textura um pouco diferente das demais. Contaria com o aviso de Izaya quando a encontrasse, um gemido longo e alto. E tocaria-a mais antes de inserir um segundo dedo, os lábios ainda estimulando-o e o polegar em carícias pelo períneo para quando finalmente o inserisse. Tocaria-o até o orgasmo. O primeiro. Penetraria-o apenas para o segundo, quando houvesse em seus gemidos a indicação de que poderia fazê-lo.
Sabia que seu roteiro ruíra no momento no qual esquecera-se dele para entregar-se à loucura de ter Izaya entre seus lábios, gemendo para sua língua. E, ainda que soubesse que não podia fazê-lo, sentia no gosto dos beijos de Izaya que se perderia mais uma vez e que não faria absolutamente nada para impedir-se. Sabia que afundaria-se mais uma vez uma vez nos toques de Izaya e sabia que não faria absolutamente nada para trazer-se de volta à superfície.
Sabendo, sequer tentou impedir-se quando abandonou os lábios de Orihara Izaya para morder sobre as já evidentes marcas de mordida no pescoço pálido ou quando, posteriormente, abandonou-as para tomar, sem pressa, entre os dentes os mamilos pequenos, ambos a endurecerem-se com seus gemidos. E sequer tentou criar desculpas, todas inevitavelmente inúteis, para as mãos a descerem impudicas, lambuzadas de lubrificante, até o pênis ereto para massageá-lo sonoramente antes de descerem até o vão entre as pernas do informante e acaricia-lo ali.
Quando beijou-o novamente, o gosto em seus lábios era o de lubrificante. Dessa vez, mesmo que seguindo apenas por seu próprio desejo e ainda ignorante de qualquer outro motivo, fez questão de beijá-lo devagar, lambendo a extensão até a ponta, deixando que ao lubrificante juntasse-se também sua saliva. Não deixou-se guiar, ignorando sem qualquer hesitação as mãos em seu cabelo a implorarem para que fosse mais rápido. Devagar porque, por mais que quisesse-o o mais rápido possível, queria-o também para sempre. Como enquanto criança diante do doce favorito: a indecisão entre devorá-lo rápido ou devorá-lo aos poucos, render-se à gula e desejo e comê-lo de uma vez ou comê-lo aos pedacinhos para que durasse mais.
Não fora decisão consciente devorar Izaya aos poucos. Nunca era decisão consciente quando a questão era entre os dois homens mais perigosos de Ikebukuro. Quando deu por si, os braços apoiados pelo cotovelo seguraram fortes o quadril de Izaya suspenso e sua língua já descia devagar.
O gemido de Izaya soou alto e ele sorriria para ele, satisfeito, se não tivesse os lábios tão ocupados a chupar-lhe as bolas. As mãos que há tempo haviam desistido de guia-lo voltaram a seus cabelos apenas para agarrá-los forte. Shizuo jurou que seriam elas as responsáveis por fazerem-no prenderem o controle, jurou até sentir as pernas entre seus dedos afastarem-se ainda mais, abrindo-se em convite.
Tocou-o com os lábios antes de tocá-lo com os dedos, e se apegou ao gemido abafado que recebeu como resposta a seus toques para não perder-se novamente. Não era sentimento estranho a ele sentir-se fora do controle de seu corpo, como se sua mente apagasse e abandonasse-o sozinho com seus instintos. O que sentia naquele momento, entretanto, era diferente disso. Sentia-se dividido em dois. Um lado que lambia, beijava, chupava e outro que gritava que era Izaya em seus lábios, que não permitia a ele esquecer-se disso nem que por um instante.
Não esqueceria-se. Talvez mais por Izaya do que por ele mesmo. Havia, afinal, algo na confiança cega com a qual o informante separava para eles as pernas que não o deixava entregar-se por completo a loucura que, contraditoriamente, também era trazida à tona pelo informante. Como se exigisse dele toda sua loucura e toda sua sanidade de uma só vez.
Fitou-o uma última vez antes de penetrá-lo com um dedo, e sentiu-se quase como se fosse ele próprio a ser tomado, os olhos castanho-avermelhados mantendo-se presos aos seus o tempo todo, a oscilarem apenas levemente quando movia a mão. Tinha certeza de que recuaria caso ele recuasse, desviando o olhar para corar sem a supervisão das orbes de coloração tão atípica. Izaya, entretanto, não recuou em momento algum, mantendo os olhos presos aos seus enquanto tocava-o mais fundo e enquanto acrescentava outro dedo.
Quando os olhos finalmente fecharam-se em um gemido longo, permitiu-se subir para perto deles, beijando as pálpebras fechadas.
Um sorriso falhado foi a resposta recebida e, então sim, mesmo que não tivesse sido esse o objetivo de seus lábios, sentiu que suas desculpas haviam sido, finalmente, plenamente aceitas. O suspiro aliviado escapou por entre seus lábios mais alto do que gostaria, ainda assim, passou despercebido no quarto inundado pelos gemidos de Izaya.
“Me diz se doer”, as mãos a buscarem mais uma vez o lubrificante e o repasse mental de como deveria fazer aquilo foram as últimas ações conscientes às quais obrigou-se Shizuo antes de retirar os dedos de dentro do informante e aconchega-lo em seu peito, deitando-o ao seu lado.
O queixo pequeno tencionou-se evidentemente enquanto dobrava a perna direita marcada por digitais suas e derramava mais um pouco de lubrificante entre nádegas do informante. Com o cenho franzido, assistiu-o contrair-se em seu peito e agarrar com força o lençol branco.
Inspirou fundo. O arrepio gelado tomando-lhe o estômago apesar de suas tentativas de afastá-lo.
“Não vou te machucar”, quis dizer, talvez mais si mesmo do que para o outro.
Não disse. E, em silêncio, recuou o quadril que a pouco aproximara, apertando os dentes tão firme quando via Izaya apertar.
Seu cenho franziu-se sem sua permissão, encarando as costas pálidas, sem coragem para tocá-las ou aproximar-se novamente delas. A boca a amargar quando pensou em beijá-las e os dedos presos na coxa direita do informante a tornarem-se imensamente pesados, manchados pela indecisão entre ir em frente ou recuar.
“Não vou te machucar”, repetiu outra vez em sua mente, ainda incapaz de convencer-se.
Os dedos recuaram devagar, em fuga que sua mente já tomada por imagens confusas convenceu-o que não seria percebida. Estava enganado, sobre a força sobrenatural que acreditava ter e sobre a furtividade de sua fuga, ou, ao menos, foi isso o que pensou ao ter o recuo impedido por uma mão coberta de cicatrizes que parecia ser tão mais forte que a sua.
— Me toca.
Os olhos castanho-avermelhados já não cerravam-se firmes, os dedos já não mais agarravam o lençol, o corpo mais uma vez colado ao seu já não mais contraía-se e os dentes já não mais apertavam-se com força: quando olhou na direção da voz tão firme, Orihara Izaya fitava-o de volta em expectativa crua. Gostaria de dizer que sim, que havia sido ele a ultrapassar a covardia que invadira seu peito para enlaçar cheio de certezas o rapaz em seus braços e beijá-lo. Não fora. Foram os dedos que a pouco agarravam-se firmes ao lençol que buscaram por sua pele e os lábios que antes apertavam-se duros que separaram-se para unirem-se aos seus.
Quando beijou-o de volta, contudo, sua língua então a buscar pela dele e seus dedos então a tocarem-no desesperados, já não havia mais espaço algum para qualquer receio de machucá-lo. E, ainda que fosse irresponsável pensar daquela forma, não se importou sequer minimante de ter em seus dedos força o suficiente para botar um distrito abaixo se eles também possuíssem a capacidade de encaixar-se tão perfeitamente na pele do quadril de Orihara Izaya.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Quando invadiu-o, não se importou sequer minimamente se esperaram dele descontrole, invadiu-o bem devagar, encaixando-se aos poucos, tapando-lhe os lábios com seus beijos para engolir dele todos os gemidos de desconforto, e soltando-os apenas quando chegou ao fim, quando precisou deles para seus próprios gemidos.
Em suas ilusões de leitor de livros preto-e-brancos, Shizuo acreditava que aquele momento seria todo de Izaya, que sua atenção estaria toda voltada para o informante, para suas contrações, seus gemidos e, infelizmente, para seu desconforto. Preso a ele, entretanto, a este exato momento, Shizuo reconhecia que tinha-o como plenamente seu, não porque o quisesse ou porque o roubasse. Era seu porque tudo o que poderia existir naquele instante era seu pênis a deslizar para dentro de Izaya. Sem romantismos e sem distrações. Não havia, verdadeiramente, espaço para nada além daquela sensação dentro do homem mais forte de Ikebukuro.
No segundo seguinte, entretanto, todas as outras sensações forçaram caminho para dentro dele de uma só vez: ele sentiu o calor de Izaya, os suspiros de Izaya, os gemidos de Izaya, as contrações de Izaya, os dedos de Izaya firmes em seus braços. E, então sim, tudo tornara-se Izaya.
As sobrancelhas franzidas, os lábios separados, os olhos fechados, a respiração em solavancos, o quadril a ondular-se contra o seu. Tão bonito que não pode fazer nada que não inclinar-se em sua direção, apertá-lo mais forte e beijar-lhe os cabelos enquanto movia-se dentro dele, cobrindo-o com o próprio quadril.
Ouviu seu nome em um gemido profundo e desejou que os olhos castanho-avermelhados estivessem mais uma vez abertos, presos nos seus, olhando-o diretamente enquanto chamava por seu nome. E, mesmo que sentisse-se já perdido apenas com as costas do informante coladas a seu peito e o corpo tão perfeitamente encaixado ao seu, queria poder olhá-lo no rosto, tendo para si mais das expressões de Izaya do que a metade.
Não podendo vê-lo por completo, optou por fechar ele mesmo os olhos e, como por ironia, sentiu os olhos de Izaya em seu rosto no momento que o fez. Talvez fosse imaginação sua, e, exatamente por isso, não abriu-os novamente para confirmar, algum medo de que se os abrisse, perderia o que recentemente ganhara: a respiração pesada em seu rosto, os gemidos mais altos, o quadril batendo contra o seu com quase violência e um par de mãos a prendê-lo ainda mais perto, uma no início de sua cintura e outra sobre sua mão esquerda, obrigando-o a intensificar o ritmo da masturbação.
Pensou em recuar, sabendo estar próximo de seu limite. O arrepio a percorrer-lhe a espinha como uma súplica por tempo, um segundo, nem que muito curto, apenas o suficiente para uma tomada de fôlego.
Izaya parecia senti-las: sua ânsia por uma pausa e sua contraditória urgência por colar-se ainda mais a ele. E, rebelde, não obedeceu a nenhuma delas, rendendo-se em um gemido alto, o corpo em convulsão, desfazendo-se enquanto chamava seu nome como se por provocação.
Abriu os olhos imediatamente, faminto pela expressão que a fúria de sua primeira investida não o permitira ver, e encontrou-o em êxtase: os olhos bem abertos, úmidos, fitando-o como se sofressem, as sobrancelhas juntas, a respiração descompassada a escapar por entre os lábios separados.
Desistiu, então, de sua luta. Ciente de que não havia mais como vencê-la, ciente de que não havia sequer possibilidade de contragolpe quando era aquele rosto que o encarava. Beijou-o por orgulho, com quem deseja manter a majestade mesmo enquanto cai, impedindo-o de ver seu rosto enquanto gozava e mordendo-o quando não mais podia manter o beijo.
— Continuo? – a voz soou rouca, baixinha, contra seus lábios ainda sensíveis, roubando-lhe um salto do pulso que ainda não acalmara-se.
Piscou algumas vezes, forçando o rosto relaxado a franzir-se levemente em dúvida, antes de apertá-lo firme entre os braços, afastando o quadril apenas o suficiente para sair de dentro dele, então aproximando-se novamente, as pernas dobradas encaixadas sobre suas pernas também dobradas, as costas mais uma vez coladas ao seu peito.
Permaneceu em silêncio, pensando ter ouvido errado, confundido a pergunta com outra por conta de sua respiração ainda alta e os arrepios ainda intensos a percorrerem seu corpo. Esperou, portanto, o rosto aconchegado nos cabelos negros.
Os olhos já haviam se fechado, pesados, cansados, quando ouviu-a outra vez. Um pouco mais alta e, talvez exatamente por isso, um pouco aflita.
— Continuo?
Afastou-se a contragosto, o rosto agora levantado a apoiar-se na mão esquerda sustentada pelo cotovelo flexionado, e assistiu confuso Izaya deixar o conforto de seu abraço e virava-se de barriga para cima, as costas contra o colchão. Riu mole para ele, enroscando a perna direita em sua perna esquerda enquanto esperava que explicasse o que perguntava. O rapaz, entretanto, apenas repetiu a pergunta, alteração nenhum em seu rosto a denunciar o que esperava com ela.
A compreensão atingiu-o de uma só vez, fazendo-o olhar espantado para Izaya. O olhar nublado pelo orgasmo a ceder um pouco de espaço para dezenas de outros sentimentos estranhos.
— Sim. – anunciou, a voz a escapar-lhe ainda mais rouca do que a de Izaya parecia-lhe – Como sempre.
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