(in) esquecível

20 Sobre como você era mais do que pixels em uma tela


Notas iniciais
Olá, gente mais linda, *.* Tudo sucesso absoluto com vocês? Eu nem sei direito como começar minhas notas hoje porque estou seriamente debilitada pelo intenso ataque de fofura suprema que foi a recomendação da linda da Orentsu! Orentsu, sualinda, obrigada, de verdade, por me escrever uma recomendação tão delicada. Eu acredito que é preciso um confiança enorme para recomendar uma fic que ainda em processo de escrita e agradeço do fundo do meu coração por acreditar assim em mim e ahhhh! sério, quase chorei! Tão linda! ♥ Obrigada pelo apoio, de verdade! Você é um amor! ♥ Muito obrigada também a todo mundo que comentou, favoritou e está lendo a história! Sou grata a vocês dos fundo do meu coraçãozinho. Demorei um pouquinho mais desta vez, =(, mas cá estou com um capítulo novinho em folha. Espero que gostem dele e que se divirtam lendo tanto quanto eu me diverti escrevendo, =D beijo, beijo, =* Yuki



Sobre como você era mais do que pixels em uma tela

Os olhos castanhos-mel a espiarem atentamente a pequena tela de celular piscaram algumas vezes antes de apertarem-se em evidente esforço. Ainda que pertencessem ao homem mais forte de Ikebukuro, deles era, inegavelmente, exigido mais do que podiam oferecer. As sobrancelhas podiam, portanto, unirem-se aos limites e os olhos apertarem-se até quase fecharem-se sem que nada fosse alterado na incontestável incapacidade de superação da distância entre a desconfortável banqueta e o pequeno aparelho amarelo na ponta dos dedos do braço estendido de Orihara Izaya. O único capaz de desencadear tal resultado foi parcialmente abafado por um distraído ralhar contra a má resolução das telas de celulares e contra as imagens ruins das câmeras dos aparelhos: o arrastar do banco, marcando trilha riscada pelo piso, até que uma das pontas do assento tocasse as relaxadas pernas cobertas sem sua permissão por uma de suas calças. O segundo xingamento, mais alto, abafou um riso divertido do rapaz agora tão perto e qualquer sentimento de estranheza que poderia preencher o peito de um Heiwajima Shizuo a colar o tronco no braço livre de seu pior inimigo e a apoiar o queixo no ombro magro e ossudo. Um terceiro xingamento teria deixado seu lábios, e com ele uma provável bruta aproximação entre ele e pequeno aparelho entre os dedos finos e cobertos de cicatrizes, se não percebesse que seu crescente desconforto em relação às imagens não era desencadeado pela má resolução das imagens ou pelas limitações de sua visão, mas pelo conteúdo vídeo.

Os vídeos eram, absolutamente, mentirosos. Cada frame. A parca iluminação do fim de tarde, a grama queimada, o encaixe das pernas, os risos, os carinhos, as mãos a adentrarem peças de roupas, os toques, os sons, os beijos: todos eles adulterados.

As já em esforço franzidas sobrancelhas crisparam-se ainda mais, aumentando o vinco entre o par de olhos castanhos-mel. Mesmo que, entretanto, a carranca intensificasse-se a cada tentativa do homem mais forte de Ikebukuro em traçar paralelos entre suas memórias e as imagens na pequena tela, não haveria alguém naquele restaurante que declarasse com convicção que Shizuo transparecia em seu rosto raiva. Confusão, certamente, mas não ira. Se, contudo, restassem dúvidas quanto aos motivos por trás do cenho franzido, ela se dissiparia no instante no qual o guarda-costas pousou uma das mãos no cotovelo estendido de Izaya e obrigou-o a curvar-se enquanto roubava para perto a mão que mantinha o celular afastado.

— Hey, pulga, não segura longe assim... mais perto de mim...

Ainda que, no entanto, com um “melhor assim, Shizu-chan?” e um remexer aconchegante em seu peito Izaya tenha aproximado o celular o suficiente para que não restassem suspeitas de que as imagens nos vídeos eram cenas daquela tarde, o guarda-costas não pode evitar um evidente torcer de lábios.

Não era, definitivamente, daquela forma que ele lembrava-se do que acontecera mais cedo naquele dia. O riso, quadros que não soavam nem com o volume aumentado ao máximo e o quase absoluto silêncio do restaurante, não era o riso que ele recebera mais cedo. Os beijos, antes arfantes, ávidos, estalados e intensos, atuavam na pequena tela pixels distorcidos pelo zoom. Os olhos castanhos-avermelhados, brilhantes, repreendedores, deleitosos e ousados, não coloriam fração alguma das imagens de baixa resolução. Como também nada coloriam os fios vermelhos do cachecol, opacos, estranhamente marrons, presos dentro do aparelho. As mãos a perderem-se por dentro de casacos, outrora invasoras, geladas ao ponto de queimarem, agora apenas deformavam tecidos, carinhos cálidos transformados em relevos disformes. E seu próprio sorriso, aquele que ao ser entregue arrepiou cada centímetro de sua pele, impiedosamente transmutado em borrões.

Um estalo, alto e sonoro, abriu em surpresa os olhos castanhos-mel que tão atentos fitavam a tela do celular e obrigou-os a piscar repetidas vezes, rapidamente, confusos. Apenas, entretanto, após o estalo repetir-se outras duas vezes, intenso, exagerado, ousado e divertido, primeiro em sua bochecha depois em seus lábios, Heiwajima Shizuo percebeu que não fora a cena na pequena tela a reproduzi-lo. Precisou ter os lábios tomados mais uma vez antes de perceber-se beijado, quando finalmente o percebeu, contudo, o rapaz responsável pelos estalos já se afastara o suficiente para pousar a ponta fria do nariz em sua têmpora esquerda e sussurrar com mais inocência do que se esperava de alguém que acabara de roubar quatro beijos:

— Como eu pensei... é bastante diferente, né, Shizu-chan?

Os cabelos negros acarinhavam em cócegas seu rosto conforme Izaya se desmanchava em risos que Shizuo sabia serem suas reações as desencadeadoras. O xingamento travou sua garganta e suas unhas curtas cravaram nas palmas de suas mãos. Ele sabia que devia afastar Izaya. Diferente de como fora naquele fim de tarde na praça central de Ikebukuro, ele tinha plena consciência dos atentos olhos a fitarem-no e, por mais que tentasse convencer-se de que não se importava com qual seria a razão a levar tais olhos a ele – afinal, sabia que estariam nele independente dos motivos ou de suas preocupações – a exposição não o agradava. Por não agradá-lo, sabia que devia afastar a si mesmo ou ao outro, e, prontamente, fechar à força todos os olhos que, por mais que evitasse encarar, sabia fixos nele. Afastar Izaya, entretanto, não era a mais fácil das tarefas. A força que poderia cerrar os olhos de toda Ikebukuro parecia piada diante da percepção de que os risos e beijos não captados nos vídeos não eram memórias falhas. Diante da verdade incontestável de que estavam ali, sorrindo para ele e beijando-o outras vezes, prontos a serem tocados, e, possivelmente, à espera do toque.

Trincou os dentes, incerto se para controlar a raiva que sentia crescer em seu peito ou o impulso de tocar Izaya mais uma vez. Fosse qual fosse seu propósito, entretanto, a mandíbula travada afastou para longe de suas bochechas os cabelos negros, para longe de sua têmpora a ponta do nariz e para longe de seu peito as costas de Izaya.

— Não fica bravo, Shizu-chan... achei que tinha pensado o mesmo que eu...

— O q-?

— Eu meio que precisei confirmar se você é tão sem-graça quanto parece no vídeo. Daí achei que seria melhor te beijar... E eu tinha razão! O vídeo definitivamente não faz jus a você! – as excessivas palavras calaram-se em um pequeno bico antes de abrirem-se novamente em um sorriso largo – Você estava com cara de quem estava pensando a mesma coisa... E daí, quando chegou mais perto e me apertou, achei que queria confirmar também...

Um estalo sonoro escapou dos lábios de Shizuo quando ele os separou repentinamente. Os olhos castanhos-mel correram com desespero até a mão que ainda apertava a cintura de Izaya mas que sequer percebera ter pousado ali. Afastou-a de imediato, arrancando de Izaya uma sonora gargalhada e um “agora é tarde, Shizu-chan, tenho suas digitais em mim como prova do crime!”.

— Oh! Shizuo, Izaya, eu não esperava...

A voz de Simon, calma e curiosa, contrastava imensamente com os músculos de seu antebraço a anunciarem toda a força que o russo empregava para impedir Shizuo de arrancar a parte superior do balcão e usá-la como arma contra Izaya. O sorriso do informante, assim a calma e curiosidade de Simon, também contrastava imensamente com os olhos castanho-avermelhados a fitarem nervosamente a porta do restaurante.

— Vocês são um par bastante juntinho... – o russo continuou, não notando — ou fingindo não notar — os olhos castanhos-mel direcionarem a ele a raiva – como os jovens dizem hoje em dia? Grelhadinhos...

Os olhos castanhos-avermelhados presos à porta correram largos até Simon antes que um riso alto corresse todo o restaurante. A atenção que Shizuo dedicava a ignorar as palavras de Simon e livrar-se do aperto dos dedos grandes a impedi-lo de conseguir sua desejada arma desviou-se imediatamente para os lábios de Izaya.

— Grelhadinhos, Simon? O que é isso?

— Não é?! Como quando ficam bem juntinhos, abraçadinhos...

— Grudadinhos, é isso?! Grelhado é com carne... ou legumes, se você não for um Shizu-chan...

— Isso! Grudadinho igual arroz no sushi.

Shizuo não soube dizer se o fez por sentir que, com os olhos excessivamente abertos e os músculos tensos, já não representava perigo algum à bancada, ao restaurante ou a Izaya, ou se realmente precisava entrelaçar juntos os dedos de ambas as mãos para expressar-se corretamente, mas quando Simon finalmente liberou seu antebraço, Shizuo soltou lentamente sua já não mais futura arma e pousou fracamente ambas as mãos no balcão. Não estaria totalmente enganado quem visse em seu gesto rendição, seria errôneo, entretanto, presumir que mesmo resignado o homem mais forte de Ikebukuro estava concorde com o que ouvia. Uma fera fitando seu alvo, quieta, supostamente calma: esta seria a imagem mais adequada para classificar Heiwajima Shizuo. O ataque, entretanto, quando veio, não foi silencioso ou certeiro, mas barulhento e descontrolado, uma avalanche de palavras desconexas:

— Simon, o que caralh- que merda é ess-? Q-? Do que cacete está falando? Grudadinho? Com a pulga? Que merda é essa? Par?! Não tem merda nenhuma disso aqui! Juntinho?! Mesm- sendo você... que porcaria é ess-? Não teve nada diss-

Quaisquer brados, por mais intensos e raivosos ou por mais insistentes que fossem, não eram capazes, entretanto, de sobrepor-se a um risinho baixo a escapar de lábios perfeitamente curvados em um sorriso suspeito. Não que os brandos tenham parado de imediato, e não que, ao pararem, tenham interrompido também a raiva de Heiwajima Shizuo. Pararam lentamente, como se condicionados ao rubor que espalhava-se pelas bochechas do homem mais forte de Ikebukuro, transformando-se em respiração pesada e descompassada.

Três olhos arregalaram-se. Os azuis no rosto negro, bondosamente surpresos diante do corar do homem que há tanto tempo conhecia e nunca vira tingir-se. Os castanho-avermelhados no rosto pálido, ávidos, devoradores, também surpresos e talvez encantados. E, por fim, os olhos castanhos-mel no rosto corado, constrangidos, incrédulos, a fitar a pequena tela do celular que mais uma vez exibia os beijos falsos, os risos falsos e as falsas mãos a perderem-se em casacos ou a deslizarem por coxas falsas.

— O que você dizia mesmo, Shizu-chan? Não teve nada de “juntinho”? É isso? É isso que você quis dizer com “grudadinho”, Simon?

— Também isso, mas também quando vocês estavam assistind-

— Foi ele quem fez isso, Simon!

A provocação debochada ou os olhos azuis apaziguadores: Shizuo não soube dizer o qual fora o maior responsável por fazer escapar de seus lábios, num tom dezenas de vezes mais alto do que desejava, a exclamação enfática. Os já excessivamente abertos olhos castanho-avermelhados e azuis abriram-se aos limites, e, Shizuo sabia, certamente também o faziam os olhos que sentia queimarem sua nuca. Se houvesse nele qualquer possibilidade de reação que não o intensificar do corar, Shizuo certamente riria. Riria da exclamação quase infantil. Riria do dedo a apontar em riste na direção do rosto de Orihara Izaya. Riria das expressões que faziam os que o fitavam. No lugar do riso que contraditoriamente teria algo de divertido, entretanto, Shizuo bufou lentamente enquanto abaixava o braço estendido na direção do informante.

A contenção do riso pelo homem mais forte de Ikebukuro não foi, contudo, espelhada por Izaya. A gargalhada espalhou-se pelo restaurante, ainda mais alta do que a exclamação que a despertou.

— Que gracinha, Shizu-chan! Parece um bebê reclamação com essas bochechonas coradas e cheias...

— Cala a boca, pulg-

— “Foi ele quem fez isso, Simon” – as bochechas infladas de ar, o bico exagerado e a clara imitação de seu tom de voz derrubaram em indignação o queixo de Shizuo, mas qualquer reclamação que planejasse foi imediatamente cortada pela voz de Izaya, desta vez carregada de não contida mágoa – Que injusto, Shizu-chan! Confesso que da primeira vez fui eu a começar... mas hoje não foi! Foi você quem veio cheio de dedos para cima de mim!

— Quê? Para de falar merda, pulga! – o fato de que aquela era a primeira vez na qual Izaya comentava o primeiro beijo entre eles não passou despercebido a Shizuo, mas não havia nele espaço para preocupar-se com isso quando o sorriso de Izaya transmutava-se em um estranho sorriso inocente.

— “Pulga, eu não consigo resistir! Você é tão delicioso.”: você disse.

— Q-? Do que caralho tá falando, maldito?! Nunca disse isso!

— Mas pensou, Shizu-chan, eu vi nesses belos olhinhos brilhantes...

— Brilhante vai ficar seu sangue no chão do restau-

— N-não briguem, Shizuo, Izaya.

— Simon! – a exclamação de Izaya pareceu pegar desprevenido o russo, que prontamente recuou surpreso as mãos levantadas em sinal apaziguador. Mesmo Shizuo, contrariamente acostumado à estranha natureza excessivamente animada do Izaya que batera à sua porta semanas atrás, surpreendeu-se com o olhar vibrante direcionado ao russo – Você pode tirar a prova! Pode me dizer, por favor, o que você vê nos vídeos?

— Hã?

A clara confusão de Simon não pareceu intimidar Izaya, que, sem hesitação alguma, devolveu o celular ao dono e encarou-o à espera da realização de seu pedido. O dono do aparelho, contudo, permanecia apenas a segurá-lo e a correr o olhar confuso do expectante Izaya ao contrariado Shizuo.

— Nada demais, Simon. Só me fala o que vê, ok? E responde minhas perguntas. O Shizu-chan também quer, só está se fazendo de difícil.

— Hey, pulga, eu não quero nada diss-

— O primeiro vídeo, Simon. O que tem nele?

— Hã? Ah... Shizuo dormindo.

— Simon! Você vai ter que ser mais específico se quiser fazer isso funcionar...

— O que caralho funcionar, pulg-?

— Shizuo dormindo no colo.

— Simon! – a indignação era palpável na voz de Shizuo, que mal podia acreditar que o normalmente discreto amigo correspondia com o que ele arriscava nomear curiosidade e diversão a loucura de Izaya.

— Sim, sim... o que mais?!

— Izaya-kun está fazendo carinho nele. No cabelo...

— Ops, minha culpa esta parte, Shizu-chan...

— ... e dai acaba.

— Tá. Ok! O próximo agora, Simon.

— Hã? Tá bom... o segundo é igual... Shizuo dormindo com carinho.

— Hehehe... fofo. E o próximo?

— Hey, pulga, Simon, parem com isso!

— O próximo – Simon continuou, ignorando plenamente os protestos de um Shizuo que parecia indignado demais até mesmo para fazer mais enfáticos seus protestos – Não está muito bom... Mas Shizuo pegou seu pano vermelho... isso da cadeira... e daí você foi junto com a cabeça e...

— E daí ficamos grudadinhos igual arroz no sushi, né?! – Izaya completou, um sorriso satisfeito a estampar os lábios – Bom, Shizu-chan, segundo a visão inteiramente imparcial do Simon, foi você quem me puxou, ávido, pelo cachecol na sua direção, depois envolveu minha nuca e me beijou com paixão.

— Não foi isso que ele disse, pulg-

— Hehehe... foi isso sim! E isso prova que não fui e-, não, espera! Empresta um pouquinho o celular para mim, Simon? Só mais uma coisinha... espera... espera... aqui: me diz o que acontece aqui, Simon?

Os olhos azuis apertaram-se sutilmente na tentativa de assistir a cena selecionada pelo informante. Aos olhos castanhos-mel, entretanto, pouco importava a força empregada analisando as costas amarelas do aparelho, não lhe eram entregues quaisquer pistas sobre a cena. Da mesma forma, pouco importava apurar os ouvidos na tentativa de descobrir através do som. O restaurante, até pouco mortalmente silencioso, parecia unir-se para causar tantos ruídos quanto possível quando Shizuo mais precisava da ausência deles. Mesmo que inúteis, entretanto, foram as sobrancelhas franzidas em concentração e os ouvidos atentos que permitiram que Shizuo aguardasse pelo parecer do russo sem descontrolar-se.

— Hum... vocês estão sentados bem juntinhos...

— Não, não, Simon. Antes disso. Espera... hum... aqui: assiste de novo. Como eu fui parar “bem juntinho” do Shizu-chan?

— Shizuo arrastou sua perna.

— Hey, Si-

— Espera, Shizu-chan! Foi isso! Shizu-chan agarrou minhas pernas e me puxou para pertinho dele... Espera, Shizu-chan! Simon, não deixa ele pegar. Para, Shizu-chan! Só mais uma!

— Simon! Me dá aqui essa merda! – mesmo que tentasse soar o mais ameaçador possível, seu tom pouco parecia afetar Simon, que mantinha um sorriso discreto no rosto, segurando com uma das mãos o próprio celular enquanto a outra esforçava-se para mantê-lo afastado. Não seria a primeira vez que sentia na pele a força do russo, certamente era, entretanto, a circunstância na qual ela mais o irritara. Não fazia parte de seus desejos, entretanto, deixar-se irritar. Não queria perder a calma no restaurante, e, principalmente, não queria perder a calma com Simon – Fodam-se vocês dois! Me dá essa porcaria, Simon! Foi a pulga maldita que se jogou em cima de mim!

— Eu me joguei pra cima do Shizu-chan?! Simon, me empresta aqui o celular de novo... Não, não precisa! Dá play de novo e me diz quem é que está com a mão na coxa de quem?

Contraídas pela raiva e focadas plenamente no celular que tentava arrancar das mãos do russo, as pupilas de Heiwajima Shizuo dilataram-se em surpresa tão logo as palavras deixaram os lábios de Orihara Izaya. Se suas memórias não lhe fossem o suficiente para responder a pergunta, certamente o seriam o formigamento em suas mãos e o arrepio em sua nuca.

Involuntariamente, o guarda-costas contraiu juntos os dedos. Tinha certeza de que se fechasse seu olhos poderia confundir a dureza da palma de suas mãos com a maciez das coxas daquele que ele ainda jurava seu pior inimigo. Ele definitivamente lembrava-se delas, da sensação quente que nem mesmo a calça úmida pela grama era capaz de barrar.

— Shizu-chan, gostaria que você pudesse ver sua cara neste exato momento...

Shizuo entretanto, não precisava ver o próprio rosto para dizê-lo tingido de vermelho. Sentia-o quente o suficiente para não ter dúvidas de que assim o era. Lutou contra o impulso de baixa-lo e escondê-lo dos dois pares de olhos que sentia observá-lo, mesmo que pequeno depois de uma refutação tão vergonhosa de suas afirmações, afinal, ele ainda tinha orgulho. Orgulho que gritava com todas as forças que levar a cabo sua ideia de sair correndo do restaurante ou descontrolar-se em fúria o tornaria patético. Dificilmente, contudo, seu orgulho seria capaz de sobrepor-se a seu descontrole e à adrenalina que corria por suas veias exigindo um pouco de ação, se assim o fosse, afinal, há tempos já teria reprimido os acessos violentos dos quais não orgulhava-se. Algo dentro dele, entretanto, dava suporte a seu orgulho, ecoando junto aos gritos deste que descontrole era exatamente o que Orihara Izaya gostaria de arrancar dele. E, ainda que o sorriso que encontrasse ao fitar o rosto do rapaz ao seu lado fosse mais divertido e travesso do que malicioso e provocador, a ideia de deixar-se tomar pelo descontrole diante daqueles intensos olhos castanho-avermelhados trazia-lhe arrepios de repulsa.

— Shizuo, não pode fumar aqui dentro.

O cigarro encaixado por entre seus lábios permaneceu apagado enquanto ele encarava o semblante repreensor de Simon, a mão que há poucos invadira seu bolso em busca de seu isqueiro lá manteve-se, apertando com mais força do que planejava o pequeno objeto. Um sorriso confuso foi o que recebeu ao levantar-se, um suspiro a escapar pelo lábios entreabertos. Um aceno discreto em direção à porta foi o suficiente, contudo, para fazer o russo transmutar seu sorriso confuso em um compreensivo e pousar com cuidado o celular que ainda mantinha nas mãos no balcão. Ignorou o aparentemente amargo “vai fumar, Shizu-chan? Por quê?” e todos os olhares a voltarem-se para ele enquanto dirigia-se até a porta.

Foi por manter ainda a mão direita em seu bolso, firmemente presa a seu isqueiro, que sentiu vibrar pelo que provavelmente seria a vigésima vez naquela noite seu celular. Não voltou-se ao jogá-lo na direção que sabia estar um Izaya ainda a encará-lo.

— É para você, pulga.

Pode jurar ouvir o nome de Shinra escapar através dos lábios do informante ao cruzar a entrada do restaurante, ao ser atingido, entretanto, pelo frio vento das ruas e finalmente queimar a ponta de seu cigarro com o isqueiro há pouco trincado por seu aperto, esqueceu-se imediatamente do celular colado à orelha de Izaya e da pessoa que provavelmente gritava do outro lado da linha. Um trago, dois, três e ele sentia que podia até mesmo esquecer-se da raiva pelo fluido inflamável a escapar pelas rachaduras do que era seu isqueiro favorito. E, mesmo que não houvesse esquecido de propósito o casaco no encosto de sua banqueta, era fato que o ar gelado de Ikebukuro esfriava lhe a cabeça e confundia os choques de adrenalina com arrepios de frio.

Lançou longe o quebrado pequeno objeto em suas mãos, esmurrou um poste de iluminação, acendeu um segundo cigarro na chama do que estava a acabar-se e encostou-se com humor já quase normal à parede fria do Russia Sushi para fumá-lo em tragos profundos até o fim. O vento a movimentar com violência as nuvens cinzas pelo céu e a crescente umidade do ar não o permitiriam arriscar acender outro cigarro, mas não era como se o homem mais forte de Ikebukuro realmente precisasse de um terceiro para acalmar-se o suficiente para entrar novamente no restaurante, pagar a conta e correr para casa antes de ser alcançado pela chuva.

O plano de ignorar o sorriso presunçoso de Izaya e o olhar curioso de Simon e levantar a mão apenas para deixar no balcão uma quantia de dinheiro maior do que podia gastar ruiu no instante no qual encontrou um par de olhos com estranhos tons avermelhados e estranhas nuances de tristeza. A mão que corria para o bolso traseiro em busca da carteira foi imediatamente direcionada para os músculos tensos de uma das coxas que prazerosamente agarrara mais cedo naquele dia.

— Eu não ligo, Shizu-chan. Pode pegar. Não foi porque não gostei. Só estava brincando com você. Eu gosto, na verdade. Gosto bastante.

Pela primeira vez naquela noite, Shizuo permitiu-se espelhar um dos sorrisos que entregara a seu pior inimigo naquela tarde. Sorriu até transformar-se seus lábios em uma sonora gargalhada, uma que, de cômica forma, afastou para longe o gosto de nicotina de sua língua e a raiva de seu peito e espalhou-se pelo restaurante, arrancando sorrisinhos discretos dos donos dos celulares que espalhavam continuamente imagens do homem mais forte de Ikebukuro junto ao informante mais perigoso do distrito, ora colados um ao outro na praça central de Ikebukuro, ora colados um ao outro no restaurante.

— Hey, idiota, solta, tem gente olhan-

— Essa é a primeira vez que Shizu-chan ri assim pra mim!

Shizuo não soube dizer se pelo tom, estranhamente surpreso e falhado, ou se pelo olhar a mesclar confusão e algo que quase ousava determinar como admiração, mas deixou sua mão permanecer presa pela de Izaya na coxa sobre a banqueta sem significativos esforços contrários e encarou em crescente surpresa o informante. Seu primeiro pensamento foi que o rapaz lhe lançaria outro daqueles elogios constrangedores que sempre lançava em momentos como aquele. “Uau, sua risada é tão legal, Shizu-chan”, “Você fica tão bonito rindo”, ou quaisquer outras palavras extremamente desnecessárias que aquela nova versão do informante permitia deixar os lábios do outrora venenoso de Orihara Izaya. Nada, entretanto, escapou pelos lábios entreabertos em surpresa do homem a fita-lo.

Shizuo acreditava que nada poderia deixa-lo tão constrangido e contrariado quanto elogios de Izaya, entretanto, ao ver-se vítima de um olhar tão intenso e esfíngico, não podia evitar repensar suas crenças.

Limpou a garganta sonoramente antes de finalmente puxar para longe das pernas de Izaya a mão, desviando os olhos do estranho olhar e encarando os olhos azuis intrigados de Simon.

— Simon, é bom me dar um daqueles descontos que sempre fica gritando por ai. – se antes desconfiava que os números no fim de sua nota fiscal trariam a ele dores de cabeça, ao encarar o largo sorriso de Simon, teve certeza de que as horas extras feitas nas semanas anteriores na tentativa de passar menos tempo em casa e, portanto, menos tempo na companhia de Izaya, não alcançariam o destino inicial de rechearem para o Natal, agora distante por pouco mais de 30 dias, sua conta bancária – Hey, pulga, vai chover. Vamos logo.

A previsão de Shizuo, entretanto, mostrou-se tão errada quanto a previsão dos programas meteorológicos durante as últimas semanas. Poucos quarteirões, nem a metade do caminho, e a chuva caiu sobre eles. Forte e intensa, como se sorrisse maliciosamente para todos os garotos e garotas do tempo que afirmaram com toda convicção que ela cairia durante a tarde e não durante a noite. Abrigar-se e esperar pelo fim não era uma opção viável quando já se encontravam completamente molhados por uma chuva que sequer dava indícios de que cederia.

Nenhuma palavra foi trocada, nenhuma, ao menos, que tenha sido ouvida por Shizuo. O guarda-costas não acreditava, entretanto, que precisava informar Izaya sobre a necessidade da corrida até seu apartamento. Ao pôr-se a correr, portanto, sequer deu-se ao trabalho de checar suas costas para confirmar se o informante o seguia. Ele podia jurar, entretanto, escutar risos altos cortarem quando em quanto o som de seus passos contra poças de água.

Seu casaco ensopado encontrou o chão tão logo a porta bateu às suas costas e a chave virou-se na fechadura. Seus dedos marcaram a parede com digitais molhadas até encontrarem o interruptor e acenderem as luzes de sua pequena sala-de-estar-corredor.

— Muito rápido, Shizu-chan! – Izaya respirava fortemente às suas costas – Perdemos a nossa chance de fazer nosso beijo-romântico-na-chuva. Como vai ficar nossa história se você simplesmente ignorar isso? Tsc tsc tsc.

Virou-se pronto a xingar o rapaz risonho que o encarava com uma falsa expressão de repreensão, engoliu, entretanto, os xingamentos ao notar o rastro de água a molhar seu piso conforme o informante movia-se em direção a sala.

— Hey, pulga, para! Tira já a roupa!

Os olhos castanho-avermelhados abriram-se ao limite, fitando-o em palpável surpresa e – Shizuo podia jurar – algo de constrangimento.

— Parece que estamos pulando algumas etapas, então...

— Quê? Não! – o guarda-costas deixou os próprios olhos abrirem-se aos limites ao interpretar as palavras de Izaya – O chão! Você está molhando todo o chão. Deixa a roupa aqui e... banho... toalha...

— Ah! Entendi.

Assistiu Izaya encolher os ombros e retirar o rigorosamente molhado cachecol vermelho antes de voltar a atenção às próprias roupas. Sabia que devia dar o fim apropriado a elas o mais rápido possível e sentia-se extremamente contrariado em ter que adiar seu banho quente para estendê-las e, provavelmente, permitir que Izaya banhasse-se primeiro. Sabia que a resolução ia além de sua posição como anfitrião – posição que ele negava com fervor –, permitir que Izaya assumisse antes dele o confortável lugar debaixo de seu chuveiro quentinho era uma questão de extrema importância se não desejasse ter mais uma vez um adoentado projeto de informante debaixo de seu teto.

— Ah! Me enganei... – as palavras de Izaya arrancaram-no de seus lamentos sobre ordem nos banhos e roubaram para o informante sua atenção. No instante, entretanto, no qual Shizuo pousou no informante seus olhos, quaisquer pensamentos tonaram-se secundários – Na verdade a cueca que estou é sua sim, Shizu-chan. Só o cinto, o cachecol, a camisa e os sapatos er-

O que quer que Izaya planejasse dizer, entretanto, com seu claro tom provocativo, cortou-se no instante no qual Shizuo beijou-o.

A pele sob seus dedos era fria, assim como também o eram os dedos sobre sua pele, os lábios colados aos seus e as pernas a rodearem seu quadril. A almofada na qual afundou-se menos de um minuto depois, entretanto, era quente, quente como a língua que enroscava-se à sua e como a respiração pesada que atingia-lhe o rosto a cada vez que afastava-se abruptamente dos lábios agora inchados e vermelhos. Ele realmente poderia fazê-lo por lembrar-se de que fora exatamente naquele mesmo lugar que tomara pela primeira os lábios que agora contornava com seu polegar, ou poderia fazê-lo por ser inundado por alguma forma de consciência que insistisse em gritar como estava a perder-se nos carinhos de seu pior inimigo, era fato, entretanto, que não era lembrança alguma ou reflexão alguma o que afastava quando em quando os lábios de Heiwajima Shizuo dos de Orihara Izaya. O homem mais forte de Ikebukuro, verdadeiramente, afastava-se apenas pelo prazer de aproximar-se de novo. Afastava-se apenas para sentir o rapaz sob seu corpo contorcer-se para alcança-lo. Afastava-se apenas para ouvir ofegos mais altos. Afastava-se dele só para poder tomá-lo de novo. Entre seus dentes, entre seus lábios, entre suas palmas.

Apenas ao afastar-se o suficiente, entretanto, para que o contorcer-se de Izaya não o alcançasse e o ofego alto prolongasse-se até tonar-se um gemido frustrado, notou que Izaya tremia em seus braços. Fitou-o demoradamente, desviando a atenção apenas ao passar apressadamente a gola de sua camisa pela cabeça e lança-la em direção à porta. Não que verdadeiramente o visse, não, ao menos, integralmente. Os olhos castanhos mel perdiam-se detidos nos cabelos negros a espalharem-se pela almofada do pequeno sofá, ou na forma como elástico de sua roupa íntima não ajustava-se corretamente às coxas pálidas, ou no pequeno caminho de pelos negros entre o cós da cueca e o umbigo, ou nos lábios entreabertos, ou nos olhos firmemente cerrados.

Assistiu-o tremer mais uma vez antes de pensar que o que o fazia ondular o quadril era o mesmo que colocava em pé cada um dos pelos do próprio corpo. O que, Shizuo sabia com cada uma de suas células, não era frio. E percorreu mais uma vez os olhos mel do elástico frouxo da cueca azul escura até os lábios trêmulos antes de perder a atenção para o pescoço que inclinava-se levemente, expondo-se. A respiração alta, descompassada, alcançou seus ouvidos antes mesmo de depositar os lábios recém-umedecidos na pele pálida e ainda úmida pela chuva. E ele nunca poderia determinar, perdido na confusão de sons, se a força com a qual seu quadril pressionava o do rapaz abaixo de si partia mais dele ou das mão a fisgarem ávidas o cós de sua roupa íntima.

— Espera... chegou... Shizu-chan...

Correu a língua mais uma vez pela linha do maxilar de Izaya antes de perceber que as mãos a deixarem sua cueca e pousarem firmes em seu peito estavam empurrando-o, e não acariciando-o como inicialmente pensara. Relutantemente controlou seu impulso de calar o que quer que o informante tentasse dizer beijando-o e obrigou-se a perguntar:

— Hum?

A resposta recebida, entretanto, não partiu dos lábios entreabertos do rapaz preso entre seu corpo e o sofá, mas da pequena caixinha branca colada no canto superior da parede de sua pequena sala.

— Campainha. – como se precisasse confirmar, entretanto, Izaya pronunciou-se, aumentando a pressão em suas mãos que esforçavam-se em afastar o guarda-costas.

— Ignora.

— N-não dá.

— Dá sim. – retrucou, lutando entre o desejo de mais uma vez atacar o pescoço do informante.

— Não dá, é Shinra.

Os olhos castanhos mel abriram-se ao limite enquanto o guarda-costas absorvia as palavras ouvidas.

— Droga. Como voc-

— No Russia Sushi... quando seu telefone tocou, lembra? Eu disse que logo viríamos para cas-

— Tsc. – mesmo que o estalo irritado tenha interrompido sua explicação, o informante não parecia sequer minimamente contrariado, aliviando a pressão nas mãos que afastavam Shizuo e deslizando-as até o pescoço do guarda-costas – Ele vai entrar logo mais. Esse maldito.

— Vai. Como da outra vez, né?! Hehehe...

— Não ri, pulga. Não é engraçado! Ele é um idiota. – afirmou, sentindo a frustração substituir progressivamente a anterior excitação, tinha certeza de que seria a raiva a substituí-la se não fossem os dedos longos e cobertos de cicatrizes a acarinharem calmamente sua nuca – Você também é um, Izaya!

— Você não parece muito convincente me xingando, Shizu-chan. Talvez o lance de estar só de cueca em cima de mim... talvez... – a reclamação que planejava morreu em seus lábios ao tê-los colados ao de Izaya – Enfim... ele vai entrar logo mais, você sabe... vou tomar um banho, tá?

Um porta abrindo-se e outra fechando-se: os sons foram de tais forma concomitantes que Shizuo não pode segurar o suspiro indignado que escapou de seus lábios.

Não preocupou-se em levantar-se, esconder-se ou cobrir-se, sabia que não teria tempo para nenhuma destas ações antes que os olhos castanhos curiosos circundados por óculos o encontrassem seminu no pequeno sofá de dois lugares.

— Se você quebrou minha porta, eu vou te matar, Shinra. – limitou-se a resmungar, num tom que considerava ao menos minimamente ameaçador, ao encarar o rapaz parado na soleira de sua porta.

— Eu tenho uma chave, na verdade.

— Você tem o q-?

— Cadê o Izaya-kun?

Relutantemente ignorou a revelação daquele que sem dúvidas era o mais irritante dentre seus amigos. Ele mesmo havia entregue uma chave extra a Celty após assistir a recomendação de um programa de televisão – para emergências e fatalidades, afirmava o programa – e sabia que Celty não a entregaria a Shinra caso não estivesse extremamente preocupada e, possivelmente, considerando a sua atual situação como uma que se enquadrasse em “emergências e fatalidades”. O que, de certa forma, não estava totalmente errado, não ao considerar a forma como o guarda-costas encarava o noivo da Dullahan.

Suspirou alto, tentando controlar-se, antes de responder:

— Banheiro.

— Déjà vu! Acho que mais uma vez cheguei em uma hora errada, né?!

Já inicialmente largo, o sorriso do recém-chegado alongava-se num misto de diversão e curiosidade enquanto sondava o homem que esforçava-se para não deixar-se controlar pelos arrepios de aversão que corriam por sua espinha. Um progressivo curvar de sobrancelhas juntou-se ao imenso sorriso ao mesmo tempo em que os olhos castanhos escuros percorriam todo o corpo do guarda-costas em direção ao baixo ventre.

— Vai se foder, Shinra!

— Shizuo, alguém já te disse que não dá pra ter medo de você quando você parece tão feliz? – o homem mais forte de Ikebukuro não pode evitar que seus lábios se separassem com um sonoro estalo e suas mãos corressem protetoramente até sua região íntima – Não me olha assim, Shizuo, não dá pra não olhar! E não é como se fosse a primeira que vejo... quer dizer... é a primeira vez que o vejo assim... Enfim... mas eu não esperava ser recebido assim quando ante- AH! Shizuo! Onde você estava? Eu e Celty estávamos loucos atrás de vocês! Celty... – o médico olhou em volta a procura da entregadora – Celty vai subir logo. Aquele policial encontr- Dá um jeito nisso antes, Shizuo!

— Quê? – Shizuo encarava confuso o rapaz a arrancar os cabelos no centro de sua pequena sala-de-estar, torcendo o cenho na tentativa de ligar as palavras ditas rápidas demais.

— Uma roupa, Shizuo. Celt-

Um bufar alto e um olhar feio: isso foi tudo o que Shizuo deixou para Shinra antes de dirigir-se a passos mais rápidos do que o normal até seu quarto. O guarda-costas realmente gostaria de poder retrucar a petulância do médico clandestino, naquele momento, entretanto, todos os seus sentimentos centravam-se na vergonha em ter sido pego em sua atual situação e a frustração pela interrupção. Mesmo que não fosse dados a banhos longos, ele sentia que precisava de um. A esperança, entretanto, de que Izaya há houvesse terminado o banho ruiu no instante no qual alcançou o corredor e ouviu o som do chuveiro escapar pela porta entreaberta de seu banheiro.

Franziu o cenho descontente antes de obrigar com força a porta a se fechar.

— O que essa pulga quer deixando a porta aberta?! Idiota! – rosnou contrariado.

— Shizu-chan? É você? – mesmo abafada pelo chuveiro, a voz de Izaya era perfeitamente audível através da agora fechada porta.

— Que foi? – gritou de volta antes de poder conter-se.

— Toalha! Pega uma pra mim! Esqueci.

— Pega do toalheiro, pulga.

O som do chuveiro cessou repentinamente. O guarda-costas não pode conter um sorrisinho na esperança de que pudesse tomar seu banho.

— Quê?

— Toalheiro. – respondeu, irritado ao perceber a ausência do som das pequenas gotas contra o chão significava apenas que Izaya não o havia ouvido.

— Tirei ontem de noite. Pra lavar. Esqueci de repor. Pega pra mim?

— Tá brincando comigo...

E como todas suas atitudes a partir do momento no qual abriu a porta à duas batidinhas numa terça-feira chuvosa semanas atrás, mais uma vez Shizuo preencheu cada célula de seu corpo de contradição e, apesar dos resmungos, pescou em seu guarda-roupa uma toalha e poucos segundos depois entregava à porta do banheiro uma batida com os nós dos dedos. O som do chuveiro era mais uma vez audível, mas, ele não tinha dúvidas, certamente era incapaz de abafar o som de sua batida, e não podia, portanto, justificar a forma como fora ignorado. Pelo benefício da dúvida, bateu mais uma vez.

— Shizu-chan? Pode entrar e colocar para mim aqui?

— Não fode, pulga! – gritou, ouvindo um risinho de dentro do banheiro e um confuso chamado pelo seu nome para além do corredor. Trincou os dentes e pressionou a maçaneta. A última coisa que precisava era Shinra correndo até o corredor e encontrando-o parado de cueca em frente a porta do banheiro enquanto Izaya tomava banho – Vai se ferrar, Izaya! – resmungou como uma saudação ao entrar, pendurando a toalha no toalheiro vazio e ignorando os risos entrecortados por agradecimentos do rapaz cuja silhueta podia ver perfeitamente através da cortina creme que circundava a área de seu chuveiro.

“Merda, Izaya, seu maldito!”, mesmo que os xingamentos em sua mente de fato fossem direcionados a Izaya, era inegável que o guarda-costas dedicava parte considerável de sua incredulidade ao retorno do quase inexistente momentos antes volume em sua cueca. Os segundos que permaneceu parado na tensão de ser flagrado ali por Izaya ou por Shinra no caminho até seu quarto em nada contribuíam para seu estado quando seus olhos persistiram presos à silhueta na cortina.

— Tudo bem, Shizu-chan? Precisa de algo? – ele não sabia determinar se eram seus sentidos gritando-lhe o quão absurda era sua situação a fazem-na desta forma ou se a voz de Izaya realmente soou tão suave e inocente quanto pareceu.

“Merda!”, gritou em sua mente, apoiando a testa na porta e uma das mãos na maçaneta, hesitando mais do que gostaria de assumir. Pressionou com força a testa na madeira, força o suficiente para arranhá-la, tentando evitar que a outra mão terminasse o caminho que fazia em direção à sua agora evidente ereção. “Merda!”.

Ouviu perfeitamente a voz de Izaya perguntar mais alguma coisa, mas não pode reconhecer a palavras e não permaneceu no banheiro tempo o suficiente para ouvir a repetição. A caminhada até seu quarto foi feita num pulo e os olhos castanhos-mel não abriram-se até ouvirem uma porta batendo-se às suas costas, desta vez a porta de seu quarto.

A mão direita moveu-se quatro vezes, sinuosamente, rápida. E o ofego certamente seria ouvido se a porta às suas costas não estivesse perfeitamente selada. A porta selada, entretanto, não o impediu de ouvir a campainha tocar mais uma vez e os movimentos repetidos do pulso não o impediram de concluir que Celty chegara. E ele sabia, realmente sabia, que devia parar. Parar, acalmar-se e caminhar-se até sua sala-de-estar-corredor para tranquilizar a amiga que provavelmente encontrava-se extremamente preocupada. Mesmo repetindo, entretanto, em sua mente que seria sujo encontrar a entregadora se concluísse o que sua respiração arfante já quase dava por concluído, não podia parar. O pressionar de seu polegar, o apertar da base de seu pênis, a pressão da mão esquerda em suas bolas: nada tinha o efeito esperado de fazê-lo desanimar-se e arrancá-lo do caminho que seguia.

A campainha soou mais um vez, a porta de entrada abriu-se e uma saudação animada preencheu sua sala, Shizuo entretanto, não ouviu nada disso. Seus ouvidos ecoavam o som de pequenas gotas quentes caindo de encontro a uma silhueta desenhada em uma cortina creme. A recém-chegada sentou-se preocupada no pequeno sofá e o rapaz empolgado sentou-se ao lado dela, tomando para si uma das mãos cobertas por luvas negras, mas Shizuo, assim como não estava lá para ouvir a campainha, a porta e o cumprimento, não estava lá para ver nada disso. Seus olhos, portanto, podiam-se dedicar, por trás de suas pálpebras cerradas, a imaginar as gotas mornas a correrem pelos lábios entreabertos, pelo pescoço alvo e pelo caminho de pelos negros entre o umbigo e o baixo ventre.

Rendidas, as mãos desviaram-se do caminho da contenção. A direita que apertava deslizou forte e rápida, repetidas vezes. A esquerda que pressionava rolou devagar em carícias. Ambas a acompanhar fielmente o ritmo crescente dos gemidos a escaparem pelo lábios entreabertos do homem mais forte de Ikebukuro.

A culpa não invadiu-o como achou que invadiria. O alívio era grande o suficiente para camuflar qualquer outro sentimento. Preenchido por seu alívio, portanto, continuou até que não houvesse mais nada a sentir que não o pênis flácido a repousar em sua mão suja de gozo e mais imagem alguma de lábios inchados entreabertos, elásticos de cuecas frouxos, olhos castanho-avermelhados, pescoços expostos ou silhuetas em cortinas a ocuparem sua mente.

Um suspiro, dois, três. Um inspirar profundo. Então a mão limpa desleixadamente na roupa íntima lançada displicentemente segundos depois para um canto qualquer e a escolha impaciente por uma troca de roupas. A expressão endureceu-se e a culpa trancou-se dentro da porta fechada do quarto. A expressão permaneceu dura enquanto uma porta em seguida se abria e o suspiro surpreso dentro do chuveiro era ignorado e cortado pelo abrir da torneira e o esfregar intenso das mãos sujas debaixo da água corrente.

Quando cruzou a soleira e adentrou a pequena sala-de-estar-corredor, Shizuo concluiu que teria tempo depois para pensar no que acabara de fazer em seu quatro, agora, definitivamente, teria que lidar com a figura claramente exaltada sentada em seu sofá com o palmtop em mãos.

Notas finais
Olá de novo, pessoal tudo certo até aqui? Eu planejava trazer a conversa entre Shinra, Celty e nosso querido Shizuo ainda neste capítulo, mas o capítulo se desenrolou de uma forma meio inesperada... rs! Shizuo não pode esperar os dois irem embora, então, bem, aconteceu. Hahahah... Espero que, mesmo inesperado, tenham gostado da forma como o capítulo se desenrolou. =D Nos vemos no próximo?! Obrigada por lerem, Beijo, beijo, =* Yuki