(in) esquecível
17 Sobre como você era a loucura
Notas iniciais
Sobre como você era a loucura
A praça central de Ikebukuro era, dentre todos os lugares que Heiwajima Shizuo amava em seu distrito, seu lugar favorito de domingo à tarde. E um dos poucos, certamente, capazes de pintar em seus sempre severos lábios a sombra de um sorriso. Clandestino, escondido de todos os olhos que ousassem fita-lo, mas, ainda assim, preso no contorno de sua boca a partir do instante no qual o sapato negro, desgastado pelo uso, pousou na grama queimada pelo frio.
Perceber a grama sob seus pés, ouvir as poucas folhas que pareciam ter sobrevivido ao outono apenas para estralar sob a sola de seus sapatos, sentir o vento frio balançar seus cabelos ainda úmidos do banho: todo o impulso de seu corpo gritava para que corresse como criança por aquele lugar que nem a chegada do rigoroso inverno era capaz de arrancar o valor.
As árvores, abundantes ali como não o eram em parte outra alguma do distrito, cheiravam, para o homem mais forte de Ikebukuro, a infância. A inspiração profunda fez-se, portanto, inevitável, inevitável como o sorriso que esgueirou-se para seus olhos enquanto os corria por todos os cantos marcados tão firmemente em suas memórias. Uma segunda inspiração foi o bastante para que ele se sentisse novamente o garoto que gritava em voz alta a contagem regressiva enquanto apoiava a testa nos braços cruzados sobre uma árvore. Um terceiro, e ele pode ver Kasuka a esconder-se atrás de um pequeno arbusto, os olhos brilhantes em quase palpável expectativa.
A praça não era, em definitivo, o lugar que o trazia as mais fortes memórias do irmão mais novo. Este papel era inquestionavelmente do pequeno parquinho de crianças perto da casa na qual crescera. Independente de graus de intensidade, entretanto, ele nunca conseguia segurar o próprio riso ao lembrar que o pequeno Heiwajima, normalmente tão inexpressivo, às vezes ria a plenos pulmões enquanto corria por entre as árvores e bancos de madeira de pintura descascada para alcançar um pique.
Por mais que o tivesse precioso em seu coração, entretanto, Shizuo não visitava com frequência o local, se o fizesse, talvez não estranhasse o quão vazio ele mostrava-se em uma tarde fria de domingo que a TV previra chuvosa. Suas memórias eram, afinal, coloridas pelos sorrisos de Kasuka e pelos sorvetes de verão, totalmente diferente, portanto, da grama queimada pelo frio e das árvores quase sem folhas.
– Espero que não chova. A previsão disse que sim, mas ela errou durante a semana inteira, não é? Espero que erre hoje também...
Talvez por ser pego de surpresa, Shizuo permitiu que o sorriso outrora discreto crescesse em seus lábios.
Izaya era, em definitivo, o único ponto daquela praça que não era cinza ou sem cor. O concreto frio do piso, os bancos lascados, a grama amarelada, o céu fechado, as árvores com seus troncos nus e escuros: todos eles pareciam estar ali apenas para fazerem o cachecol de Izaya ainda mais vermelho. Shizuo não sabia onde Izaya o encontrara e sequer sabia ter em seu guarda-roupas recheado de roupas de cores neutras uma peça de tal tom quente. O pensamento de que Izaya era uma pulga fuçadora de guarda-roupas passou por sua cabeça e a provocação com sabor de xingamento coçou em sua língua, mas não estava disposto a fazer morrer o sorriso que Izaya parecia tão determinado a manter desde que confirmara o encontro com as gêmeas.
Entendia o nervosismo de Izaya e, inevitavelmente, o espelhava. Ele realmente tentava convencer a si mesmo que a conversa correria normalmente. Era difícil conseguir sucesso, entretanto, quando Izaya sorria de sobrancelhas tensas. A situação talvez não fosse tão ruim se o informante reclamasse, ou falasse sem parar, ou se recusasse a ir. Assim Shizuo poderia brigar, gritar e dizer o quão insuportavelmente pulguento ele era. Izaya, entretanto, não se opôs em momento algum, seguindo seus passos sem hesitação e esforçando-se para manter o sorriso que tanto contrastava com seus olhos preocupados.
“Tá nervoso, pulga?”
“Vai ficar tudo bem...”
“Não é como se elas fossem doidas...”
“Não muito, ao menos...”
“É rápido, depois a gente come algo quente...”
“Não choveu a semana toda. Não vai chover hoje...”
“Vamos ao Russia Sushi depois da conversa.”
Não era como se ele não tivesse palavra alguma a entregar ao homem que o encarava parecendo esperar por algum pronunciamento. Mas o silêncio era sempre sua opção quando não sabia o que dizer. Se aquele não fosse um domingo à tarde e ele não soubesse que Shinra reclamaria por dias caso o fizesse, teria pedido a Celty para que os acompanhasse. Celty saberia o que dizer. Celty sempre sabia. Ela saberia, portanto, o que dizer ao Izaya de sobrancelhas franzidas em nervosismo e bochechas coradas pelo frio escondidas em um cachecol vermelho sangue.
Um suspiro aliviado quase deixou seus lábios, portanto, ao notar Izaya ceder e baixar os olhos que esperavam por resposta para ambas das mãos, agora cruzadas em concha em frente aos lábios. Um arrepio ainda correu por sua espinha, reflexo do injustificado receio de ser pressionado por alguma palavra de conforto que não estava disposto a entregar, ao ver o informante entreabrir os lábios. Longe de ser motivo de seu desconforto, entretanto, Shizuo viu no gesto de Izaya, que agora soprava os dedos nus na tentativa de aquecê-los, a chance de afastar-se da estranha sensação de impotência que congelava seu estômago a consideráveis graus abaixo do vento que cortava sua pele.
– Senta por aqui, pulga. Elas devem chegar logo mais. Vou pegar um algo quente para beber.
E ele perdeu uma batida de seu coração a cada vez que o olhar de Izaya mostrava uma nuance diferente: primeiro confusão, depois surpresa, então desconfiança e, por fim, o brilho de um sorriso meio bobo. Ele não soube dizer se quando regularizou-se, seu peito embalou-se leve pelo riso bobo ou se pelo alívio de arrancar do semblante do informante mais perigoso de Ikebukuo o nervosismo. Independentemente do que os fizeram assim, entretanto, os passos de Shizuo contra a grama amarelada soaram bem menos pesados quando dirigiram-se até a loja de conveniência do lado direito da praça, não muito longe de onde estavam.
O gosto amargo não agradava ao seu paladar. Com o acréscimo do dobro de leite, o triplo de açúcar e alguns pequenos potinhos de creme, entretanto, Shizuo podia apreciar um café quente. O copo de Izaya não levava nem leite nem açúcar nem creme, e, por mais que Shizuo quase se sentisse mal carregando em suas mãos tal bomba de amargura, já ouviria de Izaya que era assim que um café devia ser: puro, sendo inaceitável qualquer intervenção no sabor natural da bebida. Explicação alguma ou defesa alguma, contudo, conseguiam evitar que Shizuo pensasse que até mesmo o café do informante era intragável.
Enquanto, com os dois copos de isopor acomodados em porta copos nas mãos, atravessava a rua em direção à praça, pensou se a melhor opção realmente fora encontrar as gêmeas ali e não em seu apartamento. Ainda que não chovesse, aquele domingo não era seria definido com um dia adequado para um passeio. Diferente da manhã, quando o sol mostrara-se um pouco, mesmo que tímido, a tarde mantinha-se irremediavelmente cinzenta. “Conversas importantes devem ser feitas longe da sua zona de conforto” – fora o conselho que recebera, uma vez, de Celty – “Assim você terá um lugar intocado e confortável para voltar caso algo der errado”. Ele tinha certeza que não desejava transformar sua casa no porto seguro de Izaya, mas sua certeza, aparentemente, não era forte o bastante para fazê-lo enfiar em seu pequeno apartamento três Oriharas de uma só vez.
Apesar do tempo frio e fechado, entretanto, e ele notava ao caminhar pela praça e ouvir pedaços de conversas arrastados pelo vento, a praça mostrava-se cada segundo mais cheia. Pessoas com animaizinhos ou casais com mãos dadas e copos de cafés iguais aos que carregava, algumas poucas crianças com casacos enormes, narizes escorrendo e luvas enfiadas desajeitadamente nos bolsos correndo por entre os bancos de concreto e árvores desfolhadas.
Izaya acenou quando o viu. Apenas um aceno leve e um sorriso. Ele sorriu involuntariamente de volta, mas não acenaria nem mesmo se não tivesse ambas as mãos ocupadas por copos de isopor. Mesmo sem o aceno, entretanto, o conteúdo de ambos os copos encontrou, inevitavelmente, em um baque abafado pela grama, o chão. Shizuo, porém, sequer percebeu ter as mãos vazias. Mesmo sem dar-se conta, contudo, do vazio de suas mãos, acabou por espelhá-lo e espalhá-lo pelo resto do corpo. Pensamento algum, movimento algum: Shizuo assistiu, estático, o que se desenvolvia diante de seus olhos. E em contraste a sua imobilidade, tudo parecia acontecer rápido demais: num segundo via Izaya acenar e sorrir, no seguinte Mairu passava correndo ao seu lado, então um grito e Izaya estava no chão, tirado a força do banco no qual se sentava por um chute nas costelas.
Ele não soube a partir de qual momento seu corpo reagiu, quando deu por si, entretanto, tinha Kururi em uma mão e a outra a arrancar Mairu de cima de Izaya. Não as ouviu reclamar sobre o aperto, mas, ao soltá-las, assistiu-as caírem contra o chão e massagearem os pulsos e os quadris. Não havia tempo, contudo, para preocupar-se com as gêmeas quando tinha Izaya trêmulo em seu colo. Mesmo que não soubesse como acabara com o informante agarrado firmemente a seu tronco, se por movimento seu ou dele, não fez nada para afastar o dono dos cabelos negros que faziam cócegas em seu pescoço, limitando-se a acomodar-se melhor sobre a grama seca e, consequente e involuntariamente, acolher confortavelmente Izaya em si.
– O que acham que estão fazendo, vocês duas? Mairu, Kururi!
Ainda que dois pares de olhos castanhos escuros o fitassem com surpresa palpável, não recebeu resposta alguma deles. O único movimento feito em reação à sua pergunta foi o remexer do rapaz em seu colo, que apertou-o em um forte abraço. O homem mais forte de Ikebukuro não precisava de grande esforço para concluir que o tremor que sentia passar através do aperto era mais provável medo do que frio. “Merda. E ele já estava todo nervoso. Que caralho isso!”, não conseguiu evitar pensar, torcendo seu cenho na direção das gêmeas antes de abaixar o rosto até quase afundá-lo nos cabelos negros do informante
– Hey, pulga. Desgruda. – alguns fios resvalaram de leve em seu rosto enquanto Izaya negava avidamente com a cabeça. – Solta, Izaya, merda! Você está machucado, caralho? Deixe-me ver.
Um estalar de língua escapou de seus lábios quando o informante soltou-o e afastou-se o suficiente para encaixar-se em seu campo de visão, sentando-se por entre suas pernas separadas. Ele não sabia se o que mais o irritava era o corte sangrento na bochecha direita do informante ou os olhos castanho avermelhados manterem-se fechados, esperando por sua inspeção. Ele evitou pensar nos motivos que fariam Izaya fechar os olhos e concentrou-se no que faria contra o machucado. Não era nada demais, apenas um arranhão, provavelmente causado por unhas, que já quase não mais sangrava, mas que irritava-o profundamente.
– Vocês tem água ai?
Não direcionou os olhos para as gêmeas enquanto perguntava, mas soube que fora entendido quando uma pequena garrafa de água rolou em sua direção.
Mesmo que ao fim do processo tenha ficado com a barra das mangas de seu casaco molhada, Shizuo considerou o trabalho perfeito ao fitar o pequeno curativo no rosto de Izaya. Um pequeno sorriso ocupava os lábios do informante, e ele considerou-o um deboche pela quantidade de pequenos curativos que carregava em sua carteira, mas mesmo que o desejo de gritar com o sorriso tenha preenchido seu peito, ele obrigou-se a calar-se ao notar que os olhos de Izaya permaneceram sempre fechados, a ele e a sua carteira recheada de materiais primeiros-socorros. Izaya não ria dos curativos, mas algo gritava a ele que não desejava saber qual era a razão das curvas suaves nos lábios do informante.
– Ótimo. Dói algum outro lugar? – para seu agrado, Izaya abriu os olhos antes de acenar negativamente. Não encontrou nada ali para justificar a tardia abertura, mas não procurou com real determinação. – Ok. Então agora você vai fal-
Não era sua intenção calar-se ou ter sua afirmação, que tanto tinha de resolução e ordem, interrompia, verdadeiramente não o era. Mas nem mesmo o homem mais forte de Ikebukuro é capaz de continuar a falar quando um tufo de cabelos invade sua boca. E sua situação agravava-se exponencialmente: a cada novo aceno enfático de Izaya, mais cabelo invadia a boca de Shizuo, e a cada vez que tentava afastar o informante para continuar a falar, mais enroscado ficava nele. Quando por fim segurou a cabeça repleta dos atacantes fios negros lisos e o impediu-a de continuar a se mover, surpreendeu-se com seu próprio riso:
– Para quieto, pulga. Está me sufocando. Que coisa! Vai falar com suas irmãs, é para isso que a gente está aqui, caramba!
Se Shizuo não precisasse de toda a sua concentração para controlar o riso e impedir a cabeça de Izaya de começar uma nova série de negativas, veria o momento no qual Kururi acotovelou Mairu e a encarou séria.
– Des-desculpa, Izaya-nii. Achei que você fosse desviar... Você sempre desvia. Eu não posso dizer que não desejava isso, mas-ai, Kuro-nee, já ped-
– Desculpa, Izaya-nii.
Os olhos castanhos-mel correram de uma gêmea para outra. Ambas mantinham as cabeças abaixadas e o tronco inclinado em reforço às desculpas que pediam, mas os olhares, levantados, fixo nele. Um aperto em sua blusa, entretanto, roubou sua atenção e arrastou sua atenção de volta a Izaya. Os olhos castanho-avermelhados o encaravam numa mescla de seriedade e receio e ele perdeu-se momentaneamente a pensar em como o cabelo mais escuro não era a única diferença entre os irmãos.
Um riso nasal, resignado e incomodado, escapou do guarda-costas.
Como se não fosse suficientemente ruim ser encarado por três Oriharas, ainda deixava-se perder em comparações. Aquela era uma ironia maior do que alguém que tanto gostaria de manter distância de qualquer pessoa que carregasse o odioso sobrenome poderia suportar.
Respirou fundo e, num só impulso, agarrou a cintura de Izaya e girou-o em direção às gêmeas.
– Encarem a vocês mesmo, idiotas, não a mim! Não sou eu quem tem algo a dizer!
Não soube dizer qual expressão Izaya fez ao perceber-se de frente a suas irmãs, mas não se preocupou em imaginá-la. Não importava qual expressão ele faria. Não importava se sentisse medo. Não importava se tremesse. Não importava se lançasse a elas um sorriso malicioso, cheio de ameaças, que denunciaria sua mentira. Nada importava. Absolutamente nada. Não que não houvesse no peito do homem mais forte de Ikebukuro mais batidas do que o normal para uma reunião familiar em um domingo familiar no parque. Não que não houvesse em sua cabeça mais pensamentos do que ele era capaz de lidar com. E não que não gritassem a ele todos os seus sentidos. Mas porque se ele, Heiwajima Shizuo, fosse se importar por algo, teria que começar, irremediavelmente, por ele mesmo.
O início de suas preocupações deveria ser, inexoravelmente, o porquê de manter entre suas pernas, ao alcance de suas mãos, quase acomodado em seu peito, Orihara Izaya. E Shizuo, mesmo com toda a força que corria em suas veias, não era capaz, naquele momento, de lidar com isso. Pensar que, inquestionavelmente, dispunha-se a ser o suporte de Izaya, dispunha-se a guardar, literalmente, suas costas, mesmo que isso significasse não ver suas expressões e talvez perder o momento no qual poderia ver suas possíveis mentiras.
– O irmão de vocês tem uma história. – ele quase podia sentir a infantilidade em suas palavras, como se fossem ambos, ele e Izaya, contadores de histórias de ninar. Os olhos brilhantes de ambas as garotas, sentadas com as pernas cruzadas e a coluna ereta em expectativa, já provavelmente esquecidas da cena anterior, reforçavam ainda mais a estranha sensação.
– Achamos que é uma ótima história, não é, Kuro-nee?
– Sim.
Shizuo não compreendia, verdadeiramente, como Izaya era capaz de manter-se calado mesmo com dois pares adolescentes de olhos tão opressivamente atentos, o informante, entretanto, manteve-se em silêncio tempo o suficiente para que o guarda-costas considerasse chacoalhá-lo antes de, por fim, pronunciar-se:
– E-eu... precisava conversar com a família... dai... Shizu-chan e eu... e... nós... juntos... aqui...
Um suspiro alto escapou por entre os lábios do homem mais forte de Ikebukuro. Ele acreditava que, dentre todas as possibilidades, Izaya escolhera a mais complicada para começar a descrever seu problema. Ele sabia qual era o ponto de partida do informante. Sabia que ele provavelmente contaria que, por precisar de memórias de sua família para reverter seu estado amnésico, Shizuo e ele foram juntos até a praça para encontrá-las, e, então, explicaria sua falta de memórias, os prováveis causadores e a dimensão dos danos para pedir, por fim, que contassem histórias que ajudassem na recuperação das memórias. O guarda-costas, entretanto, só era capaz de traçar tal rumo de sucessões porque conhecia miseravelmente bem a história do Izaya que despertou em uma terça-feira chuvosa em um beco escuro qualquer de Ikebukuro. A alguém que não a conhecesse, a reação seria a exata que estampava os dois rostos incrivelmente parecidos que os fitavam: um misto de confusão, desconfiança e surpresa. Expressão, provavelmente, agravada pelo novo silêncio imposto pelo informante após sua declaração receosa e incompleta.
Desde que pousara o telefone no colo e os olhos em um Izaya nervoso em sua pequena sala-de-estar-corredor, Heiwajima Shizuo decidira não interferir na conversa entre os irmãos Orihara. Sabia que ela desembocaria, com ou sem sua intervenção, em assuntos desconfortáveis e planejava manter-se a parte deles o quanto fosse possível. Teve certeza, entretanto, que precisaria intervir no momento no qual as expressões confusas, desconfiadas e surpresas transformaram-se em sorrisos maliciosos e trocas de olhares. Mesmo contra sua vontade, portanto, ele separou os lábios, pronto a assumir a explicação e evitar que as palavras de Izaya fossem interpretadas de forma equivocada. O som de uma explicação impaciente e exasperada sobre semanas na companhia de um Izaya sem memórias sequer ganhou chances, contudo, de alcançar os ouvidos de Mairu e Kururi, substituído por um engasgar seco. O tempo que Shizuo precisou para entender que a interrupção fora produzida por sua própria garganta e causada pelo impacto das costas de Izaya batendo de encontro a seu peito foi o suficiente para que o informante buscasse seus braços e os enlaçasse ao redor da própria cintura. A explicação que planejava entregar fez-se, no instante seguinte, aparentemente desnecessária às duas gêmeas, que fitavam com expressões quase serenas um Shizuo, de cenho franzido, enlaçando com ambos os braços um Izaya sentado entre suas pernas e acomodado relaxadamente em seu peito.
– Entendi, Izaya-nii, Shizuo-nii. – o guarda-costas não precisou esforçar-se a perceber o que Kururi afirmava entender ao acrescentar tal sufixo a seu nome, não quando ela acrescentou a explicação, trocando olhares com uma Mairu portadora de um sorriso quase diabólico – Eles estão juntos.
– Wow! Izaya-nii parece tão envergonhado... isso é bastante surpreendente! E ele está corado. E Shizuo-nii parece tão sem palavras. Que emocionante! E, wow, somos irmãs do Kasuka agora, Kuru-nee. Kasuka-nii... Kasuka-oniichan... Yuhei-chan... Yuhei-oniichan... Soa tão bem, Kuro-nee! Estamos um passo mais próximas do nosso Yuhei! Será que vamos morar todos juntos? Tão perfeito, não é, Kuro-nee?! Podemos dividir nossos quartos, Shizuo-oniichan?
E Shizuo não soube determinar se o que o levou seus dedos a se juntarem na palma de suas mãos num aperto forte o suficiente para marca-la foi a reação exageradamente entusiasmada de Mairu, que pulava e unia as mãos animadamente em pequenas palmas, se a conclusão da agora inexpressivamente acenante Kururi sobre sua relação com Izaya, se o rosto corado do Izaya encolhido em seus braços ou se o eminente perigo a rondar seu irmão mais novo com a sugestão de aumento da família. Não foram seus lábios, entretanto, por mais que eles se moldassem raivosos no prenúncio de um grito, os donos da enfática negação que interrompeu no meio uma das palmas da gêmea mais nova.
– Nã-não é assim. Shizu-chan e eu não somos um casal... não estamos juntos e...e ele já me explicou isso e vai ficar bravo se fizerem confusão... ok? E eu não quero o Shizu-chan bravo comigo. Não de novo...
Os dias que se seguiram à terça-feira chuvosa na qual duas batidinhas surdas fizeram-se ouvir na porta de madeira lisa de seu apartamento provaram ao homem mais forte de Ikebukuro que ele não conhecia, verdadeiramente, Orihara Izaya. Não que ele esperasse, fosse por conta da falta de memórias ou pela mentira ao dizer tê-las perdido, encontrar no homem de risos soltos o mesmo que corria dele pelo distrito há tantos anos. Ele não esperava conhecer o Izaya que pedia por sua proteção, não retrucava suas provocações, não era perigosamente afiado e calava-se depois de beijos, mas confessava acreditar conhecer, ainda que pouco e ainda que nunca fosse admitir caso perguntado, o homem que perseguiu durante os últimos anos pelas ruas de Ikebukuro. Ele, entretanto, gradativamente percebia que, apesar das perseguições incansáveis, nunca aproximou-se o suficiente do informante para saber se ele, por mais inteligente e sem escrúpulos que fosse, seria realmente capaz de pegá-lo desprevenido e subjugá-lo.
Ele não sabia se Izaya, o informante manipulador, seria capaz de encolher-se em seu colo, pequeno, e, enlaçando as mãos às suas, exigir um abraço ainda mais apertado enquanto dizia a ele que não o queria bravo. Não sabia se Orihara Izaya seria capaz de fazê-lo, mesmo se soubesse que esse método, acima de quaisquer prisões infundadas, perdas de empregos e tentativas de assassinatos, seria o mais eficiente modo de trazer abaixo o homem mais forte de Ikebukuro. Porque mesmo Shizuo, que odiava admitir sentir-se daquela maneira, sentia que golpe algum de Izaya já o havia afetado tanto quanto o receio de sua voz ao dizer que não queria seu ódio.
Independente, entretanto, de saber quais eram as intenções de Izaya, se atacá-lo ou se verdadeiramente abraça-lo, a atitude do informante fora sentida com toda força em cada mínima célula de Shizuo, drenando dele tudo o que tinha: o ódio, o desconforto, a raiva. Sem suas forças, restou ao mais forte dos filhos de Ikebukuro abaixar a cabeça até apoiá-la no ombro de Izaya e enlaçá-lo ainda mais contra si enquanto resmungava um “eu não estou bravo, pulga”.
E não era uma mentira. Ele não sentia correr em suas veias sequer traço da raiva anterior. Raiva que não deu sinais de voltar nem mesmo quando ouviu um resmungo de entendimento e a reafirmação de Mairu sobre o quão interessante seria a história.
E ele sabia, sabia com cada um dos nervos que sequer davam sinal de querer moverem-se, que se arrependeria por deixar sua raiva abandoná-lo ao ponto de permiti-lo ouvir pela quarta vez, enquanto enlaçava a cintura e apoiava a testa na curva do pescoço do dono dela, a história sobre como Izaya acordara em um beco escuro no centro de Ikebukuro em uma terça-feira chuvosa há algumas semanas sem conseguir lembrar-se de quem era. E, diferente do homem cujas voz vibrava contra seu peito, que jurava não se lembrar quem era o Orihara Izaya que crescera com as duas garotas ridiculamente parecidas que o ouviam com atenção, Shizuo não podia dizer o mesmo. Izaya tinha o direito de apoiar o peso em seu peito, tinha o direito de procurar por seus dedos, tinha o direito de mexer displicentemente em seus cabelos, tinha o direito de agir como se o contato entre eles parecesse natural. Tinha o direito – se dissesse a verdade sobre não poder lembrar-se – de acreditar no que quisesse acreditar. Tinha o direito de esquecer que era o informante mais perigoso de Ikebukuro.
Shizuo não.
Shizuo não podia dizer que não conhecia de incontáveis memórias o cheiro no qual afundava o nariz. Não podia dizer que não sabia que a pele que agora tocava tão intimamente não era conhecia de seus socos. E não podia dizer que a voz que de sua posição parecia um incomum misto de segurança com hesitação não lhe trazia recordações de sarcasmos e risos inquietantes.
– ...Shizu-chan, se continuar me apertando assim não consigo contar a história para elas... Está se sentindo mal? – e, por mais infantil que ele soubesse ser seu gesto, limitou-se a acenar com a cabeça, arrancando risos de Izaya – Faz cócegas, Shizu-chan! Você não é assim normalmente. Normalmente é mais como “cala a boca, pulga maldita”, “cuida da merda da sua vida pulguenta, desgraçado”. O que você tem? Fome? Sono?
“Você está pensando mais nisso do que deveria, Shizuo.”
“Você está pensando mais nisso do que deve, Shizuo.”
“Você está pensando mais nisso do que pode, Shizuo.”
“É loucura pensar tanto nisso, Shizuo.”
Advertências, entretanto, não fariam sentido algum, não quando invadiam sua mente repetidas vezes, tantas e tantas, mas não tocavam-no com intensidade o suficiente para convencerem-no. Aviso algum, mesmo se repetido à exaustão, poderia trazer lucidez para um Shizuo que deixara seu desalinho ser notado por outros. Ser notado por Izaya.
Não havia sentido em advertências que não seriam seguidas.
“Talvez, talvez, ele esteja rindo de mim agora mesmo.”
Porque ele sabia que os lábios do antigo informante seriam pintados por um sorriso malicioso, cruel, debochado, se ele soubesse que bastariam duas batidinhas surdas na porta em uma terça-chuvosa e alguns sorrisos para desarmarem o homem mais forte de Ikebukuro. O riso ecoaria alto, percorreria cada mínimo canto do distrito, espalharia-se por centenas de outros lábios, se Orihara Izaya soubesse que afirmar que esquecera de si mesmo era o suficiente para que Shizuo também se esquecesse quem ele era. Se soubesse que para manter longe os socos de Shizuo bastaria aconchegar-se em seus braços.
“Você está pensando demais nisso!”
“Isso é loucura!”
Talvez fosse o pouco do orgulho que lhe restava, aquele que ele usaria para defender-se quando percebesse-se enganado por Izaya, o que acumulou-se em seus músculos o suficiente para permitirem um último impulso. Era seu último, ele sabia disso. E por saber que era seu último, sabia também que devia usá-lo para fazer mais do que faria. Sabia que devia usá-lo para afastar Izaya mais do que alguns centímetros. Sabia que aquela era sua última chance de cumprir as promessas que há anos fazia. Sabia que devia usá-lo para gritar, para socar, para destruir, para arruinar tudo.
– Se uma pulga maldita não tivesse pulado em mim até me acordar eu não estaria com sono, desgraçado!
E ele sabia, sabia dolorosamente, que ainda que houvesse mais de ódio do que qualquer outro sentimento em sua voz, ele não chegava perto de ser tão grande quanto deveria. E, ainda que odiasse com todas as suas absurdas forças a necessidade que tinha de tocar novamente o Izaya que acabara de afastar, de envolver seus braços novamente em seu corpo, de trazê-lo para perto mesmo enquanto ele ostentava um inquestionável sorriso maliciosamente satisfeito, sabia que o ódio não era suficientemente intenso.
– Desculpe, Shizu-chan... mas, de toda forma, se você tivesse acordado quando chamei, saltos de pulgas não teriam sido necessários... Aqui – e ele poderia ter-se chocado, poderia ter aberto os olhos castanhos-mel até o limite ao fitar o caminho para o qual os dedos e o sorriso de Izaya apontavam, mas ele, naquele momento, não acreditava que houvesse no mundo algo mais absurdo do que ele mesmo – eu assumo a responsabilidade. Minha culpa, meu colo. Troca justa?
“Você está pensando demais nisso!”
“Ele está rindo agora mesmo!”
“Você está pensando demais nisso!”
“Você está tão louco quanto ele!”
E talvez – talvez – exatamente por ter a cabeça tão pesada por pensamentos foi fácil deixa-la pousar no colo de Izaya. E o suspiro ouvido soou para o guarda-costas tanto como se pudesse ser surpresa quanto se pudesse ser a dor do informante por receber em seu colo o peso dos conflitos de Shizuo. Fosse qual fosse a explicação, o homem mais forte de Ikebukuro sentia quase palpável satisfação por passar para Izaya o que lhe pesava.
O vento continuava a soprar com força, mas o dia não estava tão frio quanto antes. A grama, ainda que queimada, acumulava em suas folhas umidade o suficiente para gelar suas costas e, possivelmente, molhá-las. As coxas de Izaya também de forma alguma contribuíam para seu conforto. Não eram duras como o corpo magro poderia sugerir, mas também não macias. Estavam quentes, entretanto. Tão quentes quanto os dedos que pouco depois corriam por seus cabelos na forma de um carinho distraído, mais brincando com os fios do que realmente acarinhando-os. Apesar do frio, do vento, da umidade e do desconforto, Shizuo sentiu aos poucos o peso em sua cabeça pensar também seus olhos.
Kururi contava sobre os pais que mantinham-se quase sempre fora, descrevia a casa, traçava linhagens e semelhanças físicas. Mairu especulava sobre sentimentos mútuos, sobre lutas, sobre vezes nas quais o irmão mais velho as atormentara ou supostamente as protegera. Izaya perguntava sobre comidas, sobre programas de TV, sobre viagens familiares, sobre festas de aniversários. Shizuo não ousaria dizer em voz alta que era assim que a ouvia, mas a voz de Izaya, ecoando tão próxima a seu corpo, regendo os movimentos de suas roupas, soava-lhe quase como uma canção de ninar. E ele sabia, sabia bem como sabia de todos os seus outros deveres, que devia manter sua atenção longe dos carinhos de Izaya, do vento suave, das nuances de vozes, do calor acolhedor do colo em contraste com a grama a suas costas e mantê-la nas informações trocadas pelos Oriharas. Ele sabia que devia estar desperto caso Izaya deixasse alguma mentira escapar. Sabia que devia estar desperto caso Izaya precisasse dele. Sabia que devia manter os olhos abertos.
Shizuo tornara-se, entretanto, talvez o maior especialista em fechar os olhos.
E talvez o maior especialista em mantê-los parcialmente fechados mesmo enquanto abertos. Só assim, ao menos, ele conseguiria explicar como roubou, mais tarde naquele dia, beijos de seu pior inimigo. Tantos e tantos. Suficientes para preencher cada centímetro de seu ódio com loucura.
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