i want to write you a song
2 .i want to Build you a boat
.eu quero construir um barco; um que é forte, como você é livre; assim, qualquer hora que você pensar que seu coração vai afundar, você saberá que não vai.
Kageyama não tinha encontrado o presente de aniversário perfeito ainda.
O tempo estava passando, e, conforme os dias se arrastavam, tomados por uma morosidade pacata, o levantador se preocupava com a possibilidade de não conseguir um bom presente para Hinata.
Hinata merecia o melhor presente que poderia existir, e Kageyama queria mostrar como o garoto era especial em sua vida, embora fosse particularmente ruim nisso.
Como uma perturbação do destino, não conseguira pensar no assunto com tranquilidade. As coisas não estavam indo bem nos treinos com o time da Karasuno, o que, além de desestabilizar os ânimos dos jogadores, tornava o clima ainda mais denso do que de costume.
Muitas das novas jogadas não estavam sendo bem-sucedidas, e, com o campeonato se aproximando, precisavam estar em sintonia para terem, ao menos, uma chance de progredir. Kageyama, tomado por pesada culpa e responsabilidade, cobrava-se além de seus limites, e tornava-se mais irritado do que de costume.
Particularmente dentro das quadras, ele e Hinata não estavam em sua melhor forma, e aquilo o enfurecia.
Desde o primeiro momento, sua ligação fora instantânea. Um elo poderoso, mais forte do que poderia ser explicado ou palpado, formou-se entre eles. Kageyama era capaz de sentir Hinata, cada um de seus movimentos, e adequar a eles, fazendo com que seu ataque rápido torna-se imparável. Juntos, era invencíveis.
Agora, era como se simplesmente não estivessem mais conectados.
A bola quicou, solitária, até o canto da quadra; novamente. Era a quinta ou sexta tentativa, todas fracassadas. Kageyama emitiu um ruído de insatisfação, bagunçando o cabelo. Daichi gritou algo para animar o time, como “Não se preocupem” e “Mais uma vez”.
No entanto, procurou por Hinata com os olhos, quase que involuntariamente. Algo estava errado.
Geralmente, o ruivo era cheio de energia, barulhos e exclamações espontâneas. Mesmo que estivesse errando – e Kageyama sabia, porque tinha visto acontecer muitas vezes –, não se deixava abater pelas falhas.
Não, ele não se deixava abater. Em vez disso, continuava tentando, com o rosto convertido em caretas ridículas e um olhar determinado que fazia com que Tobio também não desistisse.
Contudo, não era essa a feição que os traços delicados exibiam.
— Eu... me desculpem. – murmurou, chamando a atenção de todos os jogadores, muito mais do que se apenas tivesse gritado, como costumava fazer.
Seu rosto estava baixo, sem fazer contato visual com ninguém. E, surpreendendo a todos, virou-se e saiu correndo, porta afora. Desapareceu para fora do ginásio, deixando um silêncio desconfortável e diversos rostos confusos.
Kageyama sentiu seu coração apertar, e, sem pensar, virou-se para segui-lo, antes que qualquer um se manifestasse. Não percebeu que Daichi ameaçou dar alguns passos, e foi impedido por Sugawara. Já estava do lado de fora há muito quando Yamaguchi segurou Tsukishima pelo ombro.
Não importava. Nada mais importava, que não fosse Hinata.
O levantador desacelerou o ritmo quando se virou, encontrando Shoyo não muito afastado, sentado contra a parede lateral do ginásio, nos fundos. Tinha a cabeça entre os joelhos, e, embora o vento estivesse gélido e cortante, não demonstrava frio.
Kageyama, com o corpo quente e o coração batendo desenfreadamente, caminhou lentamente até alcançar Hinata. Sentou-se ao seu lado, sem falar nada. Ponderou tocar seus ombros, mas recolheu a mão algumas vezes, até decidir, finalmente, por suspirar.
— Desculpa, Kageyama. – o bloqueador murmurou, tão baixo que Tobio pensou não ter escutado corretamente. Hinata não levantou o rosto, tampouco.
— Não vim brigar com você. – resmungou, buscando seu tom mais paciente, ainda que a angústia lutasse para ser exprimida através de sua voz.
Hinata ergueu os olhos, as sobrancelhas subitamente surpresas. Kageyama tentou não se irritar pela expressão chocada que ele tinha em seu rosto, porque algo chamou sua atenção; os olhos de Hinata.
Os olhos, tão expressivos e determinados. Uma chama quente, aveludada, quebrou todas as defesas que Kageyama um dia sonhara em construir. Eram capazes de se entender com apenas um olhar; mas, naquele momento, Hinata tinha um olhar acinzentado. Apagado.
— O que está acontecendo? – Kageyama perguntou, tentando não demonstrar nenhum tipo de pressão; apenas preocupação genuína. Temeu ter soado autoritário demais.
— Eu não sei. – gemeu, voltando a baixar a cabeça, parecendo envergonhado – Não consigo acertar. Por mais que eu treine, por mais que eu me esforço, não consigo alcançar a bola. – sua voz estava mais alta, embora oscilante – Sinto que estou ficando para trás. Não estou melhorando, e se eu não conseguir, não vou poder jogar, e... e... – sua voz morreu lentamente com um soluço.
Kageyama não soube o que dizer.
Não esperava um desabafo como aquele, e tampouco imaginava que tais pensamentos cruzavam a mente de Hinata; embora pudesse entender o sentimento. O melhor fica na quadra por mais tempo. Kageyama esforçava-se para ser melhor, cada vez melhor. Para estar na quadra.
Para jogar com Hinata.
As palavras não o encontraram, enquanto o silêncio, e o vento frio, os envolvia. Sua pele arrepiou-se, e, hesitante, ergueu a mão. A levou até o braço de Hinata, que cobria seu rosto. A ponta de seus dedos tocou a pele exposta, e, quase que instantaneamente, Shoyo ergueu a cabeça, procurando por Kageyama com a respiração entrecortada.
Tobio fitou o rosto vermelho, inundado por lágrimas.
Naquele instante, percebeu que estavam, indubitavelmente, conectados. Possivelmente porque aquele choro, engasgado, sôfrego, fez Kageyama perder o fôlego, e sentir como se seu coração estivesse afundando.
Ele jamais gostaria de ver Hinata chorar novamente.
Estendeu os braços, ao passo que Shoyo se inclinou para ser abraçado por Tobio. Os braços, feitos para estarem ao redor de seu corpo pequeno e, ali, frágil, foram suficientes para aquecer a pele fria. Hinata soluçou, de maneira nada bonita, enquanto se agarrava contra a camiseta de treino do levantador.
Kageyama não sabia o que fazer, tampouco o que dizer. Manteve as mãos cuidadosamente posicionadas sobre as costas de Hinata, afagando ocasionalmente.
Mas, de uma coisa estava convicto; Kageyama nunca deixaria Hinata desamparado.
Ele gostaria de construir um barco, para que seu pequeno bloqueador irritante jamais se afogasse em suas lágrimas. Mesmo sozinho, ele seria guiado em segurança de volta para seus braços, onde pertencia.
Um barco grande, forte, com lemes e velas; livre para navegar, como Hinata era livre para pular. Um barco que jamais afundaria, mesmo com um oceano de lágrimas de tristeza. E, sempre que fosse possível, sabia que estaria com Shoyo para navegar junto a ele.
Kageyama ainda não tinha um bom presente de aniversário, mas, enquanto abraçava Hinata, sabia que estava no caminho certo.
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