Há quem prefira estrelas

Zacarias escondia todas as coisas do mundo em seus olhos pretos.

Ele sorria bonito, mostrando todos os dentes enquanto dizia bobagens sem sentido, causando queimações estranhas em meu estômago. Como se algo inflamasse por dentro de mim — algo quente e duradouro, que tirava todos meus órgãos todos do lugar, antes de colocá-los de volta como se nada houvesse acontecido. E então, seu sorriso se desfazia com alguma pergunta engraçada que eu nunca sabia responder, mas sempre inventava respostas injustas, apenas para vê-lo argumentar contra.

Porque Zacarias amava argumentar.

Ele gostava de me explicar sobre o mundo e suas coisas, sobre a arte e a medicina, como se pudesse passar horas me contando sobre a própria vida sem sequer ver o tempo passar; ainda que, quando juntos, a única pessoa que perdia a noção das horas fosse eu mesmo. E por mais que ele falasse o suficiente para nós dois, Zacarias também adorava me ouvir. Ele me encarava com os olhos grandes e escuros, como se eu dissesse a coisa mais interessante do universo. Ele me dava uma atenção que eu não sabia merecer.

— Sabia? — o ouvi perguntar, curioso. Respondi que não, como fazia na maioria das vezes, e vi seu sorriso brotar de volta, contagiante. Seus lábios carnudos, que eram sempre tão bonitos, pareciam ainda mais apetitosos quando delineados daquela maneira.

Ele voltou a falar empolgado, trocando o apoio do corpo para o antebraço esquerdo. Encarou-me jeitoso agora que sua disposição o permitia, gesticulando grande enquanto explicava. A voz de Zacarias era quente; eu, inepto, gostava de acreditar que aquele calor todo era o suficiente para me manter confortável, mesmo naquela madrugada fria de inverno.

— E você tem certeza? — perguntei, apenas para ouvi-lo falar mais uma vez. Vi fugir da sua boca a fumaça fria de vapor d'água condensado. Ele tomou o cigarro de meus dedos minguados e o levou aos lábios com uma elegância que só pertencia a ele.

— Não. — ele riu. — Mas seria ótimo se fosse verdade.

Eu concordei em um silêncio risonho. Alcancei meu maço amassado de poucos cigarros, decidido por deixar aquele com Zacarias. Permiti minha atenção fugir dos seus olhos para o céu estrelado. Ele nada disse; mexeu-se desengonçado no cobertor frio, colocando-se de costas para a grama. O ouvi bocejar, tateando seu corpo magro em busca do isqueiro vermelho que escondia em seus bolsos. Senti o seu toque gelar minha pele quando me entregou o tão procurado objeto. Não agradeci, e ele voltou a prestar atenção na escuridão acima.

Zacarias nada mais disse. Sentei desengonçado com as pernas entrelaçadas, nossos dedos tímidos se encostando nas pontas. O barulho da noite parecia mais alto naquela hora da madrugada, e nenhum de nós ousou interromper o cântico terno. Tomei seus dedos nos meus em um acesso de coragem momentânea, me arrependendo logo em seguida. Porque diferente de tudo o que cogitei nos poucos segundos antes de minha decisão, Zacarias não me repudiou como era de seu costume fazer: apertou seu toque ao meu, olhando-me curioso. Ele voltou a deitar, parecendo distraído com a noite.

Nós ficamos ali, de mãos dadas, céus sabe por quanto tempo. Meus músculos cansaram, cheios de câimbras, implorando para que eu trocasse de posição mesmo que milimetricamente, mas eu não o fiz. Busquei por outro cigarro com a mão destra incompetente, o isqueiro vermelho de volta ao meu domínio. Ofereci a última unidade a ele, que aceitou prontamente o cigarro forte de qualidade duvidosa. Sorri sem perceber, observando seus olhos fechados e suas pintas redondas, numerosas.

Zacarias desfez nosso contato mixuruco para sentar do meu lado. Distante. Nosso cobertor estava sujo de cinzas, garoa e gramas picotadas que arrancamos sem notar durante o tédio. Olhei para cima, com o coração cheio de vontades pouco razoáveis. Queria tocá-lo de novo, mas não o fiz. Ainda que autêntico, não eram todas as coisas que eu demonstrava a Zacarias.

Porque ele tinha aquele jeito tosco de limitar seu próprio espaço, de modo que até mesmo eu e minha mediocridade pudéssemos entender. Ele tinha aquele passado imenso, cheio de romances deslumbrantes e muitos ex-namorados de longas histórias — dessas histórias que arrancam pedaço e causam baques difíceis de se esquecer, mas que ainda assim a gente não se arrepende de ter tido.

Zacarias não me contava muito, mas eu sabia. Sabia tanto que chegava a doer nos ossos.

Era por isso que, mesmo respeitando todas as decisões que ele tomava, eu ainda sentia minha bile borbulhar — o amargo de meu estômago cutucava o canto de minha língua. Nossa relação sempre seria cheia de espaços. E eu viveria ali, do seu lado, com medo de pedir demais. Medo de vê-lo sumir com justificativas inventadas sobre sua vida amorosa conturbada, aceitando até mesmo a forma que ele me deixaria para trás, independente de que forma fosse essa. Mesmo que ele pouco aceitasse algo vindo de mim. Engoli seco, encarando seu rosto cansado. Vi surgir outro sorriso em seus lábios, os olhos me observando de dentro para fora. Riu de minha cara, como se soubesse exatamente o que eu pensava.

Ele apagou o cigarro na sola grossa de seu sapato, se espreguiçando em seguida. — Vamos entrar, Yan. Quero tentar acordar a tempo de ver a manhã. — ele me disse, panhando suas coisas de nosso cobertor imundo.

—Você sempre gosta das manhãs. — disse eu, como quem não entende. Ele gargalhou, entendendo minha cobrança silenciosa por nunca ter da sua companhia da maneira que gostaria. Ainda era cedo, por mais que já houvesse passado de duas da manhã; sequer chegamos a abrir a segunda garrafa de vinho.

— Sim. — ele concordou, sem dar muita importância. — Mas porque sei que sempre há quem prefira estrelas. Elas sempre vão ser bem apreciadas por vocês esquisitos, que gostam de virar a noite feito corujas.

De tudo nos braços, voltamos para dentro da casa. Ele me sorriu promessas vazias de que, qualquer noite dessas, ele iria me acompanhar do início ao fim, cumprindo uma necessidade estúpida minha de aproximá-lo mesmo que minimamente de mim. No fim, tanto eu quanto ele sabíamos que aquilo não iria acontecer. Não de verdade.

Os espaços criados entre a gente disfarçados no meio dos seus sorrisos bonitos, que eu aceitei de peito aberto, mesmo sem saber o porquê.

Zacarias escondia todas as coisas do mundo em seus olhos pretos.

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