historietas assombradas para crianças malcriadas
1 as mãos peludas de Gael
Gael havia acabado de chegar em casa. Largou a mochila no sofá, sentou-se à mesa por obrigação e engoliu o almoço, sem dizer uma palavra. A mãe ainda tentava puxar conversa, pobrezinha, mas como todos os outros dias o rapaz largava o prato na pia e trancava-se no quarto. Ligava o computador com urgência e, depois de espiar uma vez para conferir a porta trancada, acessava o site de vídeos pornôs. Mas naquele dia não foi assim tão cuidadoso.
Ele realmente imaginava que era desse jeito: o entregador de pizza tocava a campainha e era atendido por uma gostosa de lingerie. Imaginava-se no lugar dele, entrando na casa, tirando a sua roupa e tendo o pau chupado por uma boca gulosa. De repente a gostosa do vídeo tinha o rosto de Marina, a representante de sala do sétimo ano. E pensar nela só fazia a punheta ser mais intensa. Masturbava-se com afinco, a cabeça pendida para trás e quando estava quase lá...
— Sangue de Jesus tem poder!
Rapidamente curvou-se sobre o pênis, ainda ereto, quando a voz e imagem da mãe surgiram na porta que achou ter trancado. Deveria ter conferido mais uma vez.
— Mãe, sai! – Gritou, sentindo o rosto queimar diante do flagrante.
— Vista-se!
Subir a cueca junto da calça nunca foi tarefa tão difícil. Limpou a mão no tecido grosso do uniforme, que nem se dera ao trabalho de tirar, caminhando apressadamente na direção da mãe e a empurrando para fora do quarto.
— Privacidade, mãe! Eu preciso de privacidade, poxa... Eu já tenho quatorze anos! – Brigava, a expressão fechada numa careta emburrada.
— É exatamente por isso, meu filho... – e a mãe travava os pés do lado de dentro do quarto, não se deixando levar pela força dele – Você é muito novo e ainda não sabe de nada da vida. Precisa se guardar para o casamento, Gael.
— Até parece... – debochou.
Mas a mãe estava firme ali. Segurou em uma de suas mãos e olhou com atenção, ignorando as tentativas dele de livrar-se de sua presença.
— Está vendo aqui? – Arqueou as sobrancelhas – Os pelos já estão começando a nascer!
Não queria admitir, mas assustou-se. Pelos? Em suas mãos? Olhou melhor para ter certeza e, depois de um tempo analisando, constatou que continuavam brancas, lisas. Gael respirou fundo, revirando os olhos e voltando a empurrar a mulher para fora do quarto, o que desta vez surtiu efeito. E, com ela já do lado de fora, ouvia ainda os protestos da mulher sobre o pecado irreversível que era a masturbação: sua mão se tornará peluda e para sempre será uma vergonha.
No jantar, nenhuma palavra sobre o ocorrido. Era bom não ouvir um sermão da mãe sobre a falta que ele fazia nas missas. Ao invés disso, ela tinha uma expressão de luto no rosto. Nem mesmo o pai dissera nada. Melhor aquilo do que uma discussão chata. Então, seguindo o protocolo de todos os dias, largou, tomou um banho e deitou-se na cama. Desta vez esperou até que eles estivessem dormindo para terminar o trabalho antes interrompido com a gostosa da pizza. Ela poderia ser Marina. Assim, ao final da noite, estaria gozando em sua boca ao invés de na própria mão.
Seis e quarenta da manhã. Perdeu dez enrolando nas cobertas, pensando nos bons motivos que tinha para levantar. A ereção matinal acabou por impulsioná-lo, então Gael sentou-se na cama e coçou os olhos sonolentos. Para sentir como se estivesse sendo acariciado por um rosto barbudo. Mas não havia rosto nenhum ali.
Havia a sua própria mão.
Por um tempo ele as encarou, trêmulo. Estava coberta de pelos, desde a palma até a parte traseira, como uma luva preta de lobisomem. Quando a ficha caiu, correu para o banheiro e tentou tirar todo aquele excesso com água e sabão, mas de nada adiantava. Talvez pudesse arrancar com a gilete do pai, mas para isso teria de ir ao quarto do casal. Seria quase como assinar um atestado de "razão" para a mãe, o que não estava disposto a isso. Então tentou fazer escondido. Mas no meio do caminho a encontrou.
— Vista-se. Temos dez minutos para sair, se não quiser se atrasar.
— Acho que não me sinto bem para ir à escola hoje... – Gael tentou uma desculpa.
— E eu não me sinto muito bem para discussões, Gael, então vá se arrumar. Agora. Não queira que eu acorde o seu pai para lhe mandar fazer isso.
E quando o pai era envolvido, a coisa ficava séria.
Não tinha outro jeito. Arrumou-se e meteu o par de luvas amarelas nas mãos, as únicas que tinha. Não estava frio lá fora, mas era o único jeito, então meteu-se no carro cabisbaixo e assim permaneceu até a hora do intervalo no colégio, desviando-se dos amigos e de quem tentava se aproximar.
Menos de Marina.
— Pode me ajudar a destravar o meu armário? Acho que emperrou.
Marina tinha aqueles cabelos pretos que desciam até a bunda – e que bunda mais bonita a dela. Vivia lhe dando bola. Vivia inventando deveres e favores, ele sempre a ajudava. E, no corredor vazio, ele tentava destrancar o armário dela para receber o tão ansiado beijo no rosto como agradecimento. Faltavam poucos minutos para o sinal soar novamente.
— Porque está usando estas luvas? – Ela perguntou, recostada no armário ao lado.
— Hm... Estilo – ele tentou rir, puxando a porta e a abrindo em seguida.
A menina pegou a bolsa e pendurou-a nas costas. Lhe dedicou aquele sorriso curto após fechar a porta, parando a frente dele e mostrando-lhe um biquinho de agradecimento.
— Não sei o que faria sem você...
E beijou-lhe. Só que dessa vez, beijou na boca.
No corredor vazio ele pode retribuir. Aquele era o seu dia de sorte. Apertou-lhe pela cintura, mas não pode sentir a pele dela – que por tantas noites imaginara a quentura. Talvez Marina também houvesse imaginado a quentura do corpo dele. Talvez isso a levara, abruptamente, a lhe arrancar a luva. Para afastar-se em seguida, assustada.
Nesse momento o soou o sinal.
— O que houve com a sua mão? – ela perguntou, alto, em momento nada propício. E logo surpreendeu-se ainda mais – Meu deus, Gael, você está com o pau duro!
O corredor era invadido por alunos de todos os lados. Logo ele era o foco das atenções. As meninas afastavam-se, assustadas. Os meninos apontavam e riam. Por que agora toda a escola sabia que Gael, o nerd do sétimo ano, era um punheteiro amaldiçoado.
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