fora do caos, a vida está sendo feita
1 Parte i
1
O lugar não tinha cheiro.
Ou melhor, o lugar não tinha nada: cheiro, sons, cores, tudo é branco e sem vida ao redor da grande cama de ferro, o monitor desligado na parede e o espelho enorme que refletia sua aparência doentia. É uma sensação estranha (engraçada seria o correto, porém o protocolo para essa sensação não é autorizado), pois ele sabe exatamente quem está por trás do espelho, o que eles tentarão ver no grande monitor e o quão gelado será deitar na cama de ferro.
A meia luz da sala fazia jus ao resto do andar onde estão — décimo sétimo da Torre Stark. Natasha Romanova (Наталья Альяновна Романова, associação: Sala Vermelha, KGB, S.H.I.E.L.D., Vingadores), disse ser a área hospitalar e tudo ali parece morto. Não é essa uma grande ironia?
“Sargento Barnes” — diz o teto, JARVIS (Edwin. 15 de dezembro, 1992. Missão: completa) — “quando o senhor estiver pronto, pode deitar-se. Dr. Banner e o Capitão Rogers irão ajudá-lo durante o procedimento.”
E foi assim que o Soldado Invernal (re)descobriu que seu nome era James Buchanan Barnes, mas o Capitão (Grant, Steven. codinome: Capitão América. Alvo nível: 10) o chama de Bucky, era um nome que ele lembrava e uma área do seu cérebro que acendia. Foi assim que James descobriu que não lembra nada de sua vida como Bucky, e nem do Capitão como Steve, mas lembrou-se do nome das cores que pintam o grande monitor, a cada nova memória.
No final, há sangue em seu nariz e mãos na base de suas costas, massageando como forma de acalmar um ataque de pânico que James notou somente depois de acabar. A voz através do espelho diz ser uma reação de seu corpo para um protocolo de ação há pouco quebrado, que seu cérebro ainda não sabe como agir corretamente, e a memória de seus músculos por um certo tempo tentará cumprir com certas ordens. Sua mente dói a cada dose de ar que seu pulmão suga. Capitão Rogers está perguntando se ele lembrou de algo relacionado a Hydra. Os Vingadores estão investigando cada membro e cada base que tem conexão com o monstro de sete cabeças. Primeiro James pensou em responder corte uma cabeça e duas nascem no lugar, mas seu segundo pensamento, em meio a confusão e dor de seu cérebro, fora Syringa vulgaris, e ele abriu a boca para replicar.
Foi assim que Capitão Rogers descobriu que Bucky Barnes não pode falar.
2
Ainda que James não saia muito de seu apartamento, não é complicado de reconhecer a dinâmica do grupo e o papel de cada um dentro desse excêntrico círculo de amizade.
Tony é Tony, não muito diferente de seu pai, talvez um pouco mais megalomaníaco e dono de um narcisismo mais agudo. Tem mais dinheiro também e uma vontade de festejar e assistir filmes “clássicos” que ninguém mais parece dar conta. James não sabe muito como o descrever, mas é fácil notar sua admiração por Rogers, ainda que ambos passem mais tempo discutindo do que o normal.
Sam Wilson é melhor amigo de Rogers nesse novo século, veterano de guerra cujas asas James lembra de ter arrancado uma vez. Se tivesse voz, talvez pedisse desculpas, porque além de Rogers, Sam Wilson é o único que acorda toda noite e tem coragem de descer até seu apartamento para lhe fazer companhia ou ajudar durante um pesadelo. Um bom homem, Rogers disse uma vez, e algo em James pensa em concordar.
Banner, o Hulk, é quem tem a paciência e o tempo necessário para explicar a James cada procedimento e medicamentos novos, seja para memórias, falta de sono ou vontade de... viver. Não fala muito além disso, apenas olha James nos olhos e, de alguma maneira, eles parecem se entender.
Natasha é Natasha, codinome: Viúva Negra. Aparentemente isso é tudo que ele deve saber.
Clint Barton não mora na Torre, é pai de família, surdo e é muito bom com flechas. Natasha possui um colar de flecha e Clint passa muito tempo no apartamento dela. “Melhores amigos, Buck”, diz Rogers toda vez que eles somem juntos no elevador, e James observa suspeito, “assim como a gente.” Ao que tudo indica, isso deve ser informação suficiente.
Thor, que James viu somente uma vez, é duas vezes maior que Rogers e três vezes mais… Maria Hill disse fofo uma vez. Seu linguajar é obsoleto, mas possui um certo charme, talvez por comentar simpaticamente e sorrir tão facilmente as asneiras que saiam principalmente da boca de Tony Stark. Rogers disse que ele era de outro mundo, e por um momento James pensou que Rogers tinha uma crush no colega de equipe (o que fez seu coração apertar de uma maneira não muito agradável), até que Romanova afirmou que Asgard e deuses eram todos reais. Não foi difícil de acreditar, afinal ele tinha um braço de metal e cem anos de idade.
Steve Rogers é como aquele filhote de cachorro que todos querem levar para casa e cuidar. Grandes olhos azuis e ombros sempre caídos, dando respostas sempre curtas e evitando qualquer contato não necessário. Sempre na mesma sala que Bucky, o olhando de lado, as vezes encarando e quase sempre perdido em pensamento. Uma sombra que a todo momento questiona Bucky, tentando ler suas expressões faciais, explicar coisas e mostrar imagens e “você tinha quatro irmãos, Buck, você era um ótimo irmão mais velho” e “Sam marcou a próxima sessão para a próxima terça, podemos ir juntos se quiser,” e “Jesus, como você gostava de doces, bom ver que isso não mud-” e principalmente “é só um pesadelo Bucky, tudo bem, tudo vai ficar bem, eu estou aqui agora” como se isso significasse algo (talvez sim, talvez James só não tenha descoberto o que ainda).
Steve Rogers é o centro dessa dinâmica, onde todos os papéis são fixos ou reversíveis para se adaptar ao humor do Capitão. Natasha fará piadas e Tony será mais responsável e Sam Wilson será sempre Sam Wilson. E aos poucos James é sugado para dentro dessa rotina como uma extensão de Rogers, como se ao deixar James contente e confortável, por consequência estarão fazendo o Capitão contente e confortável em dobro.
Tony fala bastante de si mesmo. Sam Wilson ajuda veteranos de guerra e tem um coração enorme. Banner passa muito tempo no laboratório e na sala de meditação. Natasha é letal a cada passo e palavra. Barton gosta de cachorro mais do que de pessoas. Thor tem uma namorada que chama sempre de Lady Jane.
James Barnes não lembra de muitas coisas.
Steve Rogers nunca sorri.
3
Há algo no frio que ele não sabe explicar. Talvez seja como sua respiração se torna vapor por entre seus lábios, que isso o faz pensar em Yukon, Eismitte, Verkhoyansk ou Vostok. Quem sabe são as lembranças presentes em seu corpo de cada vez que deitava na já congelada câmara de criogênesis, onde ficaria por meses ou anos a espera de uma nova missão.
Ele tem um apartamento na torre agora, entre os apartamentos de Rogers e Romanova. As paredes inteiramente de vidro lhe mostram a neve lá fora, e mesmo ele sabendo que o prédio mantinha a temperatura de uma tarde de veraneio, o seu redor parece arder nos graus negativos que penetram rapidamente sua mente e seus músculos.
James ainda não lembra das coisas de antes, mas sua sala agora está entulhada de livros e fotografias e cartas e documentários. Stark Jr. e Banner emprestaram um artigo que falava de carros voadores e máquina do tempo, de como a humanidade estava perto de tornar ambos realidade. Rogers disse uma vez, na sala comum, a todos os moradores da torre, que se fosse criado uma máquina do tempo ele jamais o deixaria cair do trem, e voltaria quantas vezes necessárias para que James tivesse uma chance diferente para viver, mesmo que para isso ele mesmo tivesse que se tornar o Soldado Invernal. James falou que ele usaria a máquina para lembrar algo que não fosse sangue e frio e dor. Ele acredita ter visto os olhos do Capitão marejar, antes dele se desculpar e sair da sala.
Porém há novas memórias, de uma jovem linda e inteligente, que nos poucos segundos de lembrança o chama de idiota e responde pelo nome de Becca, e outra de uma mulher loira, que fala sem parar ainda que essa memória não tenha voz, ela está agachada a sua frente, enrolando uma faixa em seu joelho machucado. Há lembranças sobre docas, graxa em suas mãos, calças curtas demais para pernas muito finas e jornais em calçados.
Tem uma lembrança de um inverno longínquo também.
Memória onde seu corpo, menor, mais magro, mais bonito, levanta de madrugada num quarto pequeno e gelado, seu eu mais jovem e de outro século retira todas as finas cobertas de sua cama pequena e carrega o pouco que tem para a cama ao lado, onde um rapaz quase esquelético treme de frio. Nessa lembrança, James coloca todas as cobertas em cima da cama, depois deita-se debaixo dela ao lado do garoto e puxa seu corpo frágil para perto de si.
“Obrigado, Buck.” O garoto diz e o James da memória suspira, algo meio triste meio nostálgico aparece em seus lábio. “Não por isso, Stevie.”
Cada inverno é diferente, assim como a história do rio, mas parece que todas eles marcaram uma espécie de dor ou outra na mente de James.
Há algo no frio que ele não sabe explicar.
4
As coisas estão indo bem para um super soldado e ex assassino, ele sabe que as coisas podiam ser piores. Depois do procedimento, aquele das luzes em seu cérebro que cada pensamento fazia acender, James jurou pra si mesmo que jamais deixaria que o colocassem numa mesa de metal novamente.
A primeira vez que ele sai da torre num período de cinco meses é com Rogers, para comprar ração para o cachorro de Barton, Lucky, que ficará com o time por algumas semanas,enquanto Barton e sua família tiram as tão desejadas férias. Rogers não cala boca por um segundo mesmo numa conversa unilateral. Ele fala sobre Peggy e cachorro quente e Valkiria. Fala sobre Bucky e todas as garotas que ele levava para dançar, de Connie, a única que conheceu a grande família Barnes.
Na fila do caixa, esperando passar 10 quilos de ração sabor carne fresca, James deseja poder falar e pedir por favor Rogers cala essa boca!. E talvez Rogers saiba disso, porque há um brilho surreal em seus olhos e diz, pela última vez naquele dia: “Banner acredita que consegue trazer sua voz de volta, Buck”.
James nunca esteve tão tentado a quebrar uma promessa.
5
Há essa memória, ela surgiu durante uma sessão de terapia, enquanto Dra. Cho perguntava sobre sair da torre e conhecer pessoas novas, que James não estava preparado para ter.
A memória é de quando ele ainda era um ser humano e Rogers (Steve) era uma pequena pilha de ossos, doenças e raiva. Eles estavam num parque e seus braços estavam jogados nos ombros de um Steve irritado por ter vomitado o jantar e ofegante por ter andado nas montanhas russas até o dinheiro acabar. Havia suor em seu cabelo e o vento gelado não faria bem aos seus pulmões. O James da lembrança estava alegre, e a diferença dessa lembrança para as outras é a sensação de uma boa ansiedade no seu estômago, o tremer dentro dele, como se estivesse cheio das tão clichês borboletas. Rogers estava reclamando e xingando e empurrando James para longe, e tudo que ele conseguia ver era, oh céus, ele é tão, tão lindo.
E a memória de James se encheu do cheiro de grafite e coisa velha e Rogers.
Não havia, até o momento, cheiro melhor que aquele.
6
A sensação no seu estômago sempre retorna toda vez que Rogers (Steve) entra em seu campo de visão. As vezes só basta saber que ele está no mesmo espaço que ele.
As vezes só basta pensar.
7
Ele demorou para notar que todos o chamam de James, que ele mesmo se chama de James, mas Rogers (Steve), insiste em chamar-lhe de Bucky, ou Buck, como algo ainda mais íntimo, um apelido do apelido que só ele tinha autorização para usar.
Demorou para notar também que Rogers agora passa mais tempo no seu apartamento no que no dele próprio, sempre arrumando a bagunça que James deixa para trás, falando alto ou baixo, o olhando de canto ou diretamente nos olhos. Demorou mais ainda para notar que eles caíram numa rotina só deles. Rogers iria chegar de uma missão e teria comida pronta na mesa ou na geladeira, eles sentariam juntos no sofá para ver a televisão ou escutar o rádio ou somente ficar em silêncio.
Porém, apesar da irritação, James não demorou para saber que viver e conviver com Rogers (Steve) não o incomoda tanto quanto deveria, e que as memórias vem mais fácil com ele sempre perto.
No final, ele não precisará esperar por uma máquina do tempo.
8
Ele gostava de brincar com fogo. Rogers (Steve) disse uma vez que havia cicatrizes em sua mão esquerda, causadas por uma queimadura. Aparentemente o jovem James tinha uma fascinação pelas chamas, como vermelho e laranja e amarelo contrastavam com a casa sem cor e aquecia a comida sem gosto. Afastava o frio.
James é convidado para a iniciativa Vingadores pelo próprio Nicky Fury, que apareceu numa quarta à noite somente para falar com ele — o que não faz sentido, visto que agora ele é diretor de nada -, mas mesmo assim ele aceitou. É bom ter algo para ocupar a mente, usar sua memória muscular para algo que talvez, talvez resultará em bom.
Sua primeira missão é em San Rafael del Sur, Nicarágua. A cidade é pequena, simples e está ardendo em chamas. Eles parecem resgatar civis por horas, enquanto a Viúva Negra desaparece para descobrir informações e Stark reclama que a função deles é derrotar vilões e não encher baldes e baldes de água, ainda que esta fora sua atitude imediata ao ver o fogo. Rogers (Steve) e James estão retirando pessoas de um prédio pequeno, quando o cheiro de fumaça parece finalmente fazer uma ligação com seu cérebro.
Ahmedabad é uma cidade pequena, simples, antiga e um dia também ardeu em chamas. De repente ao seu redor há gritos de dor e de redenção, há orações gritadas aos ventos para Svarga loka e que eles possam renascer de novo, porque não deveriam partir assim.
Era 1978.
Foi a primeira e única vez que Soldado cometeu um erro.
Mas Rogers (Steve) está ao seu lado no momento seguinte, gritando entre os estalar do fogo para que os civis continuem seguindo em frente, perguntando a todo momento “Bucky, você está bem?” e “Tudo bem, tudo bem” e “Vai ficar tudo Bucky, eu prometo”. Porém sua respiração continua ofegante, seu coração bate tão forte que talvez pule para fora de seu peito, e os gritos em sua mente estão cada vez mais altos, o cheiro de fumaça — e carne queimada — mais fortes. Tony esbraveja no ponto, pedindo onde estão.
Caos.
Tudo ali se tornou caos. Porque é isso o Soldado deixa para trás, sua marca registrada, sua assinatura.
E seu corpo continua a se mover, tentando a todo custo se livrar dos braços de Steve, que agora passa a localização deles para o resto da equipe, (se James tivesse voz, talvez ele estaria gritando mais alto que todos, porque agora havia pessoas há tanto tempo mortas o olhando fixamente, lhe apontando o dedo, e rezando, rezando e rezando e rezando para que ele arda junto com eles).
Há uma faca em sua mão e uma pequena mão queimada que o ajuda a guiar a lâmina em direção ao seu peito (seu cérebro, que não lembra de todas as coisas, recorda o nome dessa criança, Aditya, que significa Sol). A missão era uma piada mortal, de mal gosto, não planejada por ele porém executada, o que era algo muito, muito pior.
E Steve chora agora, tentando segurar seu pulso, soluçando “Por favor, Buck, por favor, me escuta,” e “Natasha, eu preciso de ajuda, não há ninguém aqui, foi armadilha, Bucky, ele... ele…”
Então há lábios pressionados contra os seus, com gosto de lágrimas e secos pelo calor, há uma língua procurando a sua, explorando o interior de sua boca.
Pela primeira vez em tantos, tantos anos, sua mente ficou no completo e mais alto silêncio.
Fale com o autor