Notas iniciais
eu pensei tantas coisas legais para fazer com esse tema MAS COMO SEMPRE eu sou uma irresponsável meu deuss aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa desde já me perdoem pela péssima leitura e peço que não desistam de mim não esta revisada ja que to parindo nos 45 minutos do segundo tempo

Parado diante da lápide ele sente-se preso aquele lugar. As flores que carrega nas mãos suadas pareciam querer cair sobre o leito sob si, como se ali pertencessem. Mesmo assim ele as segura com uma força que faz a ponta dos dedos embranquecerem e a carne furar em atrito com os espinhos do caule verde. Faz tempo que vai lá, tanto tempo que ele nem ao menos tem ideia de quanto tempo realmente se passou. A essa altura é quase um ritual religioso; acorda de manhã, faz toda a rotina matinal, sai para trabalhar e na volta, se vê ali, parado diante dela.

(o coveiro passa ao seu lado. um sorriso de reconhecimento.)

Faz tempo que a balança está torta, pendendo capenga para um lado. E por isso ele culpa o nome fincado naquela lápide, culpa as flores que já estavam esparramadas no chão mesmo que ele não se lembrasse de tê-las largado, culpa o céu com pôr do sol mais lindo que ele vira em anos, culpa o cheiro do mato rasteiro, o ar que ele respira a cada tique de minuto; ele culpa a dor que desponta dentro do peito toda vez que seus dedos ousam tocar a superfície fria daquele túmulo que para ele ecoaria eterno.

(o celular dentro do bolso vibra. brrr. brrr. brrr.)

E parece o som mais perturbador do universo naquele ínfimo momento. Tão perturbador que ele não hesita em tirá-lo do bolso com o intuito de jogá-lo longe. Então o som para. Silêncio. Uma recordação de repente o atinge, e, embora fosse como uma lufada de ar, era fria como gelo; petrificante. No visor brilha o nome de um parente íntimo. Ignora.

(a lápide permane imóvel)

Ele se senta ao seu lado, fingindo estar na presença de uma pessoa viva, ele a abraça como tal. Não chora, apenas inspira o odor inócuo do ambiente. Ele sabia que precisava esperar, mas em esperar ele sentia o peso da eternidade. Mesmo que todos os dias de frente ao espelho conseguisse observar os sinais claros da idade, eles apareciam tão vagarosamente quanto o despertar de um dia na Sibéria.

Mas ele tinha fé.

E veja bem, fé é uma coisa perigosa. Fé é fidelidade, é confiança absoluta. Fé é acreditar na afirmação de uma esperança infinita. Acreditar é dar e esperar algo em troca. Ás vezes, acreditar demais é não receber nada no final. E acreditar de menos, o mesmo. A ideia de uma fé ideal seria apreciar o meio-termo, onde não há mais e não há menos; na linha tênue que separa todos os extremos.

É o completo equilíbrio.

No entanto, esse não existia, pois como ele já havia dito, a balança pendia para um lado sem misericórdia.

(o coveiro passa novamente por ali. o olha como quem sente pena, mas segue seu caminho)

Ás vezes a morte é um sinal de justiça e o nascimento um sinal de caos. Ás vezes o caos é equilíbrio, mas em outras ele é simplesmente a definição de seu nome.

(do latim chăos,i 'caos, confusão; os infernos; escuridão')

Infelizmente para si, a existência material e espiritual daquele que carregou o nome fincado na lápide foi o distúrbio de seu status quo. Não sobrou desse encontro um resquício sequer de paz, apenas conturbação. Amá-lo foi viver os melhores anos de sua vida, e, ao mesmo tempo, os mais remotos. Amá-lo foi sentir de perto os efeitos de uma punição divina. Amá-lo foi reter em si um poder tão intenso que resultou no mais trágico final, daqueles dignos de uma epopeia grega. Amá-lo foi aceitar o peso de sua existência juntos, por mais breve que ela tenha sido.

Amá-lo foi odiá-lo com a intensidade de mil sóis.

A balança pende tanto (tanto) para si e ele não aguenta mais. Ele reza mentalmente pois os lábios estão tão juntos que é como se entre eles houvesse cola, reza pelo momento em que a balança estará finalmente perfeita, quando os dois estariam debaixo da mesma terra.

(tira do bolso uma foto velha amassada e a observa por um tempo que não conta. finalmente a deixa ao lado das flores e se levanta, anda até a saída do cemitério sem olhar pra trás)

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!