faltou açúcar
1 Capítulo Único - Sem leite, sem creme, sem açúcar.
Desde que ele frequenta a cafeteria, Ângelo sempre foi um sujeitinho amargo como café preto; de anjo só tem o nome. Vinha ao Chá de Café (a cafeteria mais badalada da cidade – e provavelmente a única) pelo menos três vezes por semana, e sempre pedia a mesma coisa:
— Um cappuccino grande sem leite, sem creme e sem açúcar.
Dei o meu melhor sorriso de caixa e anotei seu pedido, passando-o para uma garota mal humorada atrás de mim.
— São oito dólares, por favor. Muito obrigada!
Da boca de Ângelo eu nunca ouvi um “por favor” nem um “obrigado", o que me deixava bastante aflita. Sua personalidade poderia deixar qualquer um bastante irritado, seu olhar orgulhoso não era algo que as pessoas aceitavam tão facilmente. Mas eu nunca tive raiva dele nem cheguei a odiá-lo pela forma que me trata, e provavelmente nunca odiei ninguém em toda a minha vida. Às vezes me pegava pensando no que alguém como ele pode ter passado para adquirir um temperamento tão amargo.
— Eu sempre digo: ele é um ogro! – Margô me tirou dos meus pensamentos e adentrou minha bolha de reflexão.
— Não diz isso, Margs. Você nem o conhece.
— Nem você, Cecí, e mesmo assim insiste em defender ele. Eu acho que você tem uma quedinha por ele.
Arregalei os olhos.
— Mas é claro que não!
Margô deu apenas uma risadinha sarcástica de canto de boca, o que fez sua covinha da bochecha esquerda aparecer suavemente em seu rosto pálido. Ela era uma mistura de delicadeza, força (no quesito emocional) e uma pitada de maldade na ponta da sua língua, o que a faz ser a amizade perfeita para alguém como eu.
— Vou levar o café para o Sr. Sorriso – debochou com o nosso apelido secreto – Pra ver se espanta o mau humor.
Ela levou o café de Ângelo em uma bandeja vermelha apoiada em uma só mão. Esse era um dom que eu nunca adquiri.
Olhei para baixo e ajeitei meu uniforme amarrotado. O crachá com o nome “Cecília” estava pousado em meu peito, quase virando de cabeça para baixo. Chequei o relógio, faltavam ainda três horas e 26 minutos para fechar. Estava exausta.
Senti um olhar fixado em mim e procurei pelas mesas quem poderia ser. Foi aí que notei Ângelo me encarando com sua típica cara amarrada. Quando ele percebeu que eu o retribuí, fez um sinal com a cabeça me chamando para perto. Saí detrás do balcão e tomei um pouco de ar ao chegar em sua mesa.
— Como posso aju...
— Olha, eu não estou interessado.
Congelei no meu lugar.
— Como é? – Franzi a testa.
Ele me mostra um pedaço de papel com um número rabiscado em uma caligrafia familiar. A letra “C" estava grafada em seu verso.
— Me perdoe, mas eu não sei de onde isso surgiu.
Ele revirou os olhos e de forma brusca me deu as costas, saindo pela porta do estabelecimento. Senti uma leve humilhação, mas agradeci aos céus por o estabelecimento estar vazio.
— Mas que droga foi essa?! Como um babaca desse ousa rejeitar alguém como você? Impossível. – Margô parecia chocada.
— Você fez isso? – Ela se fez de desentendida – O bilhetinho, Margô.
Ela abriu a boca para inventar uma desculpa, mas a fechou quase que de imediato. Ela é uma péssima mentirosa e sabe disso.
— Eu só queria dar um empurrãozinho, não pensei se ele faria essa cena toda. Ele deve ser gay...
— Margs, por favor, não culpe os gays pela arrogância de Ângelo. Aliás, ele não é obrigado a se sentir atraído por mim. Só não precisava me humilhar...
Meu olhar pousou sobre um caderninho esquecido no canto da mesa que anteriormente fora ocupada por Ângelo.
— Ai Cecí, não fica brava comigo, vai.
— O que? Não, eu nunca fico brava com você. Aliás, eu nem consigo. – Ela deu um sorrisinho de Vitória – Mas olhe...!
Estiquei-me sem esforço por sobre a mesa e peguei o pequeno objeto. Era um caderno de desenhos preto com detalhes em dourado. Tinha a letra “A" na capa envolvida por adornos.
— Ele esqueceu aqui.
— Vamos dar uma olhada! – Sugeriu Margô – Ver se ele tem algo de interessante. Ou se ele desenha mangás eróticos em segredo. Nunca se sabe.
— Acho melhor não mexermos no que não nos pertence.
Ela deu um suspiro de tédio.
— Você é muito sem graça, sabia disso? Adora cortar o meu barato.
— Margs, nem a minha vó usa mais essa expressão.
“Sem graça” era um dos adjetivos carinhosos que minha melhor amiga usava para me descrever, e ela não estava totalmente errada. Eu tenho um péssimo senso de humor, sou humilde na medida do possível e gosto de pensar que cada um de nós tem um lado bom, mesmo que muito bem escondido no nosso interior.
Margô sempre me disse que eu era ingênua e boa demais para esse mundo terrível, mas eu não o acho tão ruim assim. Acredito que a maneira como cada um vê o mundo diz muito sobre a pessoa em si, seu passado e principalmente sobre o que ela vivencia.
(...)
Já era tarde da noite quando o último cliente pagou por seu café – um descafeinado com bastante açúcar – e foi embora. Era o meu turno e consequentemente minha vez de trancar tudo, então Margô já havia ido embora. Fechei o caixa como o habitual, separando as notas grandes em um saquinho sob a caixa registradora e guardando o troco contado.
Tranquei-a e apaguei as luzes, deixando apenas as lâmpadas do lado de fora acesas. Com o molho de chaves em uma mão e o caderninho de Ângelo em outra, tranquei as portas do Chá de Café. A noite estava abafada, com previsão de chuva para essa madrugada. Andando até o estacionamento dos funcionários que ficava na parte de trás do estabelecimento, perto do depósito, ouvi passos seguindo os meus. Apressei-me para chegar ao meu carro, mas senti uma mão agarrar meu braço.
— Eu não tenho dinheiro! Por favor! – Gritei, sem poder ver seu rosto.
— Eu não quero seu dinheiro, só quero o meu caderno.
A mão afrouxou o aperto em meu braço. A voz familiar me deixou quase aliviada. Era Ângelo. Iluminado a luz de um poste de rua, eu podia ver suas feições mais claramente. Seu cabelo estava caído por cima de um olho, o que provavelmente o incomodava, e seu olhar era difícil de compreender. Parecia um pouco frustrado, porém querendo demonstrar a maior neutralidade possível. Como se não quisesse que eu soubesse que seu caderno era algo especial para ele.
Por um momento, me peguei pensando se ele era assim também as pessoas a sua volta. Se mesmo considerando elas especiais em sua vida, as tratava como qualquer um, sem demonstrar afeição. E pensei também em quantas amizades e relacionamentos ele poderia ter perdido por causa dessa indiferença.
— Você me assustou. – Falei com calma, enquanto entregava o caderno em suas mãos.
— Você viu o que tem nele? – Ele me perguntou com uma pontada de preocupação.
— Não é da minha conta. Não o abri.
Ele suspirou.
— Bem... obrigado.
Olhei em seus olhos hesitantes. Ele ainda estava ali, parado. Balancei o molho de chaves que estava dentro do bolso do meu casaco. Por que não?
— Escuta... quer tomar um café? – Sorri – É por conta da casa.
Senti sua hesitação em responder.
— Por que?
— Ora, está frio e amanhã é domingo. A cafeteria não abre aos domingos. – Tentei convencê-lo.
Ele ponderou por um instante. A noite estava calma. Senti uma garoa fina começar a cair sobre nós e desejei que ele respondesse depressa.
— Está bem.
Demos a volta na cafeteria e voltamos a entrada principal. Abri uma das portas e acendi as luzes novamente. Liguei a máquina de café enquanto ele se acomodava próximo a janela. Fiz o seu cappuccino sem leite e sem creme, e um chocolate quente para mim. Pousei as xícaras na mesa e me sentei em sua frente.
Não dissemos uma palavra por um bom tempo. As nuvens lá fora já descarregavam uma chuva forte acompanhada de relâmpagos breves. Ângelo tomou um gole de seu café e seu rosto se contorceu em uma careta de desaprovação.
— O que eu estou bebendo?
— Cappuccino. O mesmo que você sempre pede. – Beberiquei meu chocolate.
— Mas não está igual. – Ele reclamou novamente.
Descansei minha xícara e o encarei.
— Coloquei um pouco de açúcar. Não sei como você consegue beber ele assim, amargo.
— Eu gosto do sabor. Me lembra minha infância.
Percebi que ele se arrependeu daquela frase no momento em que saiu de seus lábios, como alguém trancado tentando escapar de seu cárcere, porém com medo do que lhe esperava do lado de fora.
— Como assim?
— Não é nada. – Bebeu o café – Só uma história triste.
A chuva lá fora batia contra as janelas da cafeteria.
— Por que não me conta? Tenho certeza de que vamos ficar presos aqui um bom tempo.
Ele suspirou novamente como quem baixa a guarda.
— Está bem, eu vou te contar.
“Quando eu era garoto, uns sete anos de idade, eu parecia uma garotinha. Meus cabelos eram relativamente longos e meu corpo era magricela. Eu tinha um tio, irmão da minha mãe, que morava comigo, com a mamãe e com meu padrasto. Meu pai morreu quando eu tinha cinco anos.”
— Sinto muito. – Baixei o olhar para a xícara entre meus dedos.
— Tudo bem, eu era muito pequeno pra entender e sempre fui mais apegado a minha mãe mesmo.
“Meu padrasto era um cara legal, mas bebia muito. E meu tio sempre o acompanhava. Eles ficavam jogando cartas e bebendo cerveja até madrugada. Minha mãe sempre limpava a bagunça depois que eles iam dormir. Até que a louça apareceu suja no dia seguinte. Mamãe havia dormido mais cedo naquele dia. Ouvi uma discussão de madrugada entre ela e meu padrasto, e no outro dia havia um enorme hematoma roxo em seu rosto. Ela disse que havia escorregado no chuveiro, e eu, criança, acreditei.
Até que esses hematomas começaram a ser constantes, e eu decidi criar coragem e falar com os dois homens. Meu tio jurou que eles nunca machucaram minha mãe. Eu deixei pra lá.
Até que em uma tarde de sexta feira, eles já haviam bebido o suficiente pra andar pela casa caindo sobre os móveis. Meu padrasto pediu para minha mãe fazer um café para eles. Faltou açúcar, ele reclamou. Mamãe contou que havia acabado, e eles teriam que tomar café amargo. Ele ficou furioso e a mandou até a mercearia do outro lado da cidade para comprar, e ela foi.
Fiquei um bom tempo sozinho com eles naquela casa, escondido em meu quarto enquanto minha mãe não voltava. Eles foram até lá e começaram a me atormentar. Você é muito franzino para um garoto, meu tio disse. Tem certeza de que tem um pinto aí?
Eles tiraram minhas roupas. Eu resisti muito, mas era impossível. Os hematomas agora estavam em mim. Por todo o meu corpo. Quando mamãe voltou, eu lhe contei o que aconteceu. Ela disse, já cansada: Bem, faltou açúcar.”
Meus olhos estavam arregalados. Senti um nó na garganta ao fim do seu relato. Nenhuma palavra se atrevia a sair da minha boca.
— Depois daquela noite, eu nunca deixei faltar açúcar na minha casa. Mas sempre preferi o amargo e preto.
Eu podia sentir sua tristeza, sua agonia, seu trauma agora escancarado diante de mim. Me levantei e percorri até o outro lado da mesa. Me sentei ao seu lado e o abracei. Um abraço doce, o mais sincero que eu já havia dado em alguém. Ele hesitou em recebê-lo, mas acabou aceitando. Lágrimas rolaram dos meus olhos.
— Eu sinto muito. – Disse, quase que em um sussurro.
— Eu também.
Ficamos um bom tempo naquele abraço, e a chuva lá fora já estava parando. Conversamos mais um pouco e logo nos despedimos.
— Eu tenho uma coisa para você.
Ele me entregou uma folha de seu caderno.
— O que é isso? – Perguntei. Mas no momento em que a peguei, percebi que não precisava ter perguntado.
Havia um lindo desenho meu rabiscado naquela folha. Ele destacou meus olhos castanhos e os cachos do meu cabelo, e me fez sorrindo.
— Ângelo, isso é lindo! Mas quando foi que você desenhou isso?
Ele sorriu de canto de boca.
— Há duas semanas atrás.
(...)
Na segunda-feira, fui trabalhar me sentindo leve. Vesti meu uniforme e coloquei meu crachá. O sino das portas soou e anunciou o primeiro cliente do dia.
— Bom dia! Como posso ajudá-lo?
— Um cappuccino, por favor. – Ângelo sorriu e pagou por ele.
Margô não acreditava.
— Quem é ele? É um irmão gêmeo bonzinho ou satanás finalmente deixou o corpo dele? – Ela perguntava.
— Deixa de ser má, Margs. Ele só está de bom humor.
Preparei seu cappuccino como habitual, coloquei-o em cima de uma bandeja vermelha e a levei apoiada nas duas mãos.
— Aqui está. – Entreguei seu café.
Ele bebericou e fez uma careta engraçada.
— Há algo errado com o cappuccino? – Perguntei, revendo mentalmente o processo que eu realizei até trazê-lo a mesa.
— Há uma coisa. – Ele sorriu – Faltou açúcar.
Fale com o autor