even in death
1 Elliott
Notas iniciais
(Mindira, quero sim, mandem reviles)
Elliott.
Ele sempre fora baixinho. Sua mãe media muito menos que seu pai, que já era considerado baixo, comparado com a estatura média dos outros homens do reino. A genética nunca estivera muito do seu lado, condenando-o a uma vida de submissão e pobreza, mas Elliott não aprendeu essas coisas por causa do estado servil de sua família.
Na verdade, sequer lembrava direito dos rostos dos pais, pois as labaredas que consumiram a pequena casa de um andar de sua família sequer lhe dera a chance de salvar algumas poucas fotos de todos juntos antes que tudo virasse cinzas. Pó.
Foi assim que conheceu Hansel. Trazido por um conhecido da família qualquer que não sabia o que fazer com seu eu mirrado de cinco anos de idade, tentou oferecê-lo como ajudante de copa, mesmo sabendo que era incapaz até mesmo de segurar uma panela de barro em seus braços finos de criança.
Se Hansel não tivesse aparecido naquele exato instante, com seus cavalinhos de madeira e soldadinhos de chumbo, vestido em tecidos roxos que o denunciavam como sendo a cria da realeza, teria sido jogado em um orfanato qualquer para apodrecer e morrer de alguma doença endêmica. Porque era incapaz de acreditar em milagres e apenas com a intervenção de um milagre uma criança feia como ele seria adotada antes do próximo surto de doença.
Mas Hansel viu aquela criança mirrada que era, e viu nele um potencial amigo. Sorriu e perguntou se poderia tê-lo perto de si, já que não podia ter amigos de fora do castelo. Não foi com a maldade possessiva com a qual já vira os filhos dos patrões de seus pais tratarem-no, como se fosse um bichinho de pelúcia, e sim a ânsia de ter companhia para suas intermináveis tardes solitárias.
A diferença de tratamento unida à interminável bondade refletida no fundo de seus olhos azuis mexeram com o coração de Elliott. Não era ainda o amor romântico que viria a desabrochar durante a adolescência dos dois, mas já era algum tipo de carinho, de apego àquela outra criança, que o tratava como igual e não como um peso morto.
Os pais de Hansel não eram tão encantadores quanto o menino, mas acataram com seus pedidos depois de muito choro e muita birra do loiro, coisa que, Elliott viria descobrir com a convivência, não fazia parte de seu comportamento habitual.
Cresceram juntos. Durante a maior parte do dia, Elliott não precisava se preocupar com sua posição de empregado na casa, pois brincada com Hansel como um igual e o garoto nunca o tratava como inferior. Era apenas à noite, quando tinha que se recolher ao quartinho que dividia com a copeira e o cozinheiro, que lembrava que não tinha dinheiro algum, muito menos onde cair morto caso os pais de Hansel decidissem que ele não era mais necessário. Que pertenciam a mundos diferentes e que, por mais que Elliott desejasse, nunca faria parte do mesmo mundo de Hansel.
E por isso, chorava. Chorava quase todas as noites, durante anos e anos a fio até, no auge de seus catorze anos, se dar conta do que vinha crescendo em seu peito, deixando suas lágrimas mais amargas e seu peito mais pesado.
Era o pecado. Era o pecado que crescia em si e queria sair, queria tocar Hansel, queria abraçar Hansel, queria que olhasse para ele e quisesse sua companhia tanto quanto ele próprio queria a de Hansel. Era o pecado lhe dizendo que queria ser a pessoa mais importante de toda a vida do loiro e por isso, Elliott sofria cada vez mais.
Hansel percebeu. Eram quase grudados desde pequenos, desde que Elliott se tornara órfão, então conseguia captar, mesmo que de soslaio, quando o outro suspirava, quando seus ombros pareciam pesados demais para manter as costas eretas e quando, ao achar que estava distraído, seus olhos castanhos quase queimavam sua pele, tal era a intensidade de seus olhares.
Mas não havia espaço para os dois. Não sendo tão jovens e estando sempre tão sujeitos ao acaso. Portas não tinham trancas e adultos não tinham boas maneiras com crianças. Sim, crianças, pois não se tratava ninguém como adulto antes dos dezoito anos.
Então Hansel, que percebia que o amigo tinha algo entalado na garganta para lhe dizer, inventou um momento para que os dois pudessem ficar a sós. Uma brincadeira nas florestas, um “treino” para a guerra iminente de que todos os adultos falavam.
Não eram palavras que Elliott tinha entaladas; eram rios de sentimentos e lágrimas e um carinho que não podia ser expresso verbalmente. E por mais apavorado que pudesse estar, deixou-se transbordar diante de Hansel, os dois a sós, íntimos como nunca antes puderam estar.
Diferente do que esperava, Hansel o recebeu por inteiro. Não fugiu, com medo daquele pecado, mas o abraçou e incorporou para si. O romance dos dois era oficialmente segredo e todo o cuidado do mundo era muito pouco.
Foi no primeiro deslize, na primeira fraquejada que deram, que foram descobertos.
A garganta de Elliott ardeu por dias. Seus olhos arderam por meses. Os castigos físicos lhe arderam até seus olhos secarem e seus nervos se fecharem para a dor.
Mas seu coração nunca foi capaz de sarar. Sabia que nunca deixaram Hansel saber qual havia sido seu fim e que o amante certamente o havia dado por morto, mas a morte lhe teria sido um castigo mais benevolente do que o que realmente havia acontecido.
Obrigaram-no a assisti-lo casar. Trancafiaram-no em uma cela isolada para não poder fazer amizades e absolutamente todo dia, um guarda vinha para puni-lo como achasse o mais correto.
Apenas uma luz naquele inferno de lugar não o deixara enlouquecer. Se recusara a deixar que se entregasse aos maus tratos e aos próprios demônios que sussurravam em sua cabeça para que abandonasse toda esperança.
Mavra era uma mulher grosseirona. Soltava palavras chulas toda vez que abria a boca, mas era a enfermeira mais competente que conheceram e suas habilidades ajudaram a curar seu corpo e remendar um pouco sua alma.
Foi graças a ela que fugiu da prisão, da vila, do reino. Foi graças a seus conselhos que enriqueceu e seu nome, antes manchado pelo escândalo no qual se envolvera, ganhou prestígio entre outros, tão ricos quanto ele mesmo.
Mas ainda assim, não enriqueceu rápido o bastante. Passaram-se décadas. Hansel já devia ter filhos e herdeiros, mas tinha esperanças de que pudessem ainda se reencontrar uma vez mais, uma tentativa de cobrir os anos de angústia que tanto haviam castigado seu coração.
Elliott tinha certeza de que Hansel havia sofrido tanto quanto ele próprio e queria poder compensar o tempo perdido de certa forma. Não queria levá-lo para a cama, mas queria dar-lhe o carinho sufocado por tanto tempo dentro de si, que não havia ousado emprestar a mais ninguém.
E ainda assim, chegou tarde demais. Quando pisou na vila onde vivera a infância e adolescência ao lado do herdeiro do trono, os rumores chegaram ao seu ouvido.
“Foi cianureto, parece. Encontraram de manhãzinha todo roxo, na sala do trono”.
Elliott não quis acreditar. Correu como um cachorro até o castelo e chegou bem a tempo de ver o caixão saindo dali para o cemitério.
Não sabia o que fazer. Não tinha certeza do que estava sentindo. E quando foi ver, havia derrubado o caixão, os guardas, todos em volta olhavam em espanto. Aya o reconheceu e gritou de horror.
Mas mesmo o grito de Aya foi abafado quando os soluços resolveram soltar de seu peito. Os anos de carinho e amor guardados no fundo de sua alma, em questão de minutos, haviam sido convertidos na lancinante dor do luto. Seu coração já havia experimentado muita judiação, mas nem juntando todas as dores que havia sentido conseguiria chegar àquela sensação.
Não conseguia respirar. As lágrimas derramavam com uma velocidade que não conseguia compreender e foi catapultado para antes de Hansel, para a sensação de perder os pais e estar sozinho no mundo, sem ninguém que o quisesse. Ainda assim, comparando aquele luto com o que sentia agora, não parecia a mesma coisa.
Hansel havia tido tempo de mostrar a Elliott um amor que transcendia status social. Que transcendia preconceitos, pecados, tabus; um carinho e dedicação que ninguém nunca havia dedicado a sua pessoa; mesmo Mavra às vezes se cansava de seus choros e cortava suas ladainhas pela metade.
E agora, a pessoa que julgara ser a única coisa que existia no mundo inteiro para levá-lo adiante não estava mais lá. Havia sumido. Apenas dois dias antes de seu retorno.
O destino era mesmo muito ingrato.
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