Notas iniciais
“Bem mais que o tempo que nós perdemos; ficou pra trás também o que nos juntou”
?” Resposta, Skank

Minha mãe trazia mais caixas para o porão. Todos os anos ela inventava de reformar um cômodo de nossa casa, e nesse ano o cômodo escolhido foi o porão. Charlie teve trabalho para reformá-lo, mas meu pai não reclamava disso com Renée. Ele queria vê-la feliz, por isso ele apenas reclamava comigo. Era engraçado. Ele dizia tudo o que queria, mas no fim sempre soltava um “mas não conte para a sua mãe, hein!”.

— Bella, vamos trocar essas caixas. Eu comprei algumas novas. As coisas vão ficar mais bem guardadas. – Minha mãe disse, se sentou ao meu lado no cômodo empoeirado – porém reformado – e começou a tirar a fita que fechava uma das caixas de papelão.

— Tudo bem. Podemos abrir todas, então? – Eu perguntei.

— Sim. Ai! Estou animada! Todas as nossas lembranças estão aqui… – Ela falou e bateu palmas, como uma criança que ganha um doce. Eu sorri para ela. Minha mãe era uma criança de alma, totalmente irremediável.

— Eu estou preocupada com toda essa poeira, isso sim. Com certeza minha rinite vai atacar… – Pensei em voz alta.

— Ah, deixe de ser chata Bella. Um remedinho e você está nova. Mãos à obra! – Renée disse e começou a abrir as várias caixas.

Eu acompanhei seu ritmo. Duas horas depois, nós tínhamos colocado todas as roupas de bebê e todos os brinquedos antigos nas novas caixas. Eu vivia dizendo para ela desocupá-las e doar tudo para a caridade, mas ela insistia em deixar tudo ali. Claro, ela tinha doado algumas coisas, porém muitas ainda jaziam em nosso porão. Segundo Renée, aquelas coisas eram as “memórias de mãe''. Não fazia sentido que aquilo não ficasse perto dela. Aquela discussão era uma guerra já perdida.

Abríamos as últimas caixas quando ela exclamou:

— Ah, meu Deus! Olha isso aqui, Bella! São suas fotos de bebê. Você era tão linda…

— Então quer dizer que eu não sou mais linda? – Perguntei e cheguei mais perto dela.

— Claro que não, sua boba. Mas olha isso, que bebê mais fofinho! Olha essa, do seu primeiro dia de aula do ballet! Você odiava essa roupa, lembra? – Ela perguntou.

— Óbvio que eu me lembro. A gente não esquece os momentos de tortura nunca. – Falei e minha mãe deu uma risada. Eu realmente odiava as aulas de ballet. Eu tinha nascido com os dois pés esquerdos, ou seja, sem nenhum talento para a dança. Ver todas aquelas meninas, mais delicadas e graciosas, era uma verdadeira tortura para a mini Bella. Ainda bem que durou pouco.

— Ai, ai. Você falando assim fica igual ao seu pai. – Ela disse, enquanto olhava mais fotos.

— Claro, vou deixar o bigode crescer também, o que acha? – Eu falei e coloquei uma mecha de cabelo logo acima da boca.

— Você é uma palhaça, Bells. – Mamãe falou e me deu um tapinha no braço. Ela continuou a me mostrar as fotos.

— Você lembra desse dia, Bella? Seu primeiro dia de aula no ensino médio! Ai como você estava novinha… – Ela falou e virou a foto para mim. Ali estava eu, sentada com uma blusa de mangas compridas cinza. Meus cabelos tinham cachos nas pontas e estavam presos com uma tiara. Meu sorriso parecia sincero. Não pude deixar de retribuí-lo para aquela garota na foto.

— Eu me lembro… – E realmente me lembrava. Estava ansiosa por finalmente ter chegado no ensino médio, a época que todos diziam “ser a melhor da sua vida”. De certa forma, foi boa para mim — só não ganhava da faculdade -, porém aquilo ainda era muito presente em minha vida. Eu me lembrava também que foi nesse exato dia que falei com o garoto que foi minha paixão desde o quinto ano, quando ele chegou em Forks.

Edward Cullen era filho do médico da cidade. Todos na escola conheciam os Cullen. Edward e a irmã mais nova, Alice, eram muito populares. Alice principalmente, com todo aquele senso de moda. Ela parecia ter saído de uma Vogue. Edward era mais retraído, mas era cortês todo mundo. Não tinha problemas com ninguém.

No primeiro dia de aula, descobri que fazíamos aula de biologia juntos, e fui escolhida pelo professor para ser sua dupla. Nada melhor do que aquilo para uma garota apaixonada. Éramos bons parceiros em biologia e tirávamos sempre as melhores notas da turma. Com nossas boas notas, conseguimos vagas na melhor faculdade da região, a Universidade de Washington. Eu não o via mais com tanta frequência, mas às vezes nós nos esbarrávamos no supermercado ou na biblioteca.

Eu nunca contei sobre minha paixão platônica. Com certeza ele iria achar no mínimo estranho eu falar uma coisa dessas. Nós não éramos tão próximos para que eu desse esse passo. Então decidi que isso morreria comigo. Meu coração ainda batia forte quando eu o via, mas não tanto quanto antes. Agora estava tudo sob controle.

— Ah, não acredito! Eu procurei tanto essa foto! – Minha mãe me arrancou de meus pensamentos.

— Qual? – Eu perguntei e ela me entregou a foto, que tinha dois bebês. Um vestido de lilás, outro de azul. Eu era a bebê de lilás, mas eu não sabia quem era o bebê de azul. – Mãe, quem é esse bebê? – Questionei.

— Ora, seu namorado da maternidade. Quem mais poderia ser? – Ela falou e me olhou com uma expressão que dizia “isso é óbvio garota!”.

— Mãe você está louca? Que história é essa? – Eu falei. Que história maluca era aquela que Renée estava falando?

— Eu não estou louca! – Ela começou a rir. – Eu vou explicar. – Eu comecei a ouvir com atenção a primeira história louca da minha vida.

“Eu fui fazer seu último ultrassom. Eu estava bem perto de te ganhar, na verdade. Daí lá no hospital eu conheci uma mulher, que estava lá para dar a luz. Ela tinha marcado a cirurgia para aquele dia e estava fazendo o ultrassom para ver em que posição o bebê dela estava. Bem, quando eu estava saindo do exame eu comecei a sentir as contrações e tive que ser levada correndo pra sala de parto. Seu pai quase deu um infarto, coitado.

Eu fiquei lá com essa mulher, na mesma sala. Contrações vão, contrações vêm, nós conseguimos conversar um pouco. Ela me tranquilizou muito. Ela era extremamente tranquila e muito doce. Eu fiquei muito desesperada, não estava preparada para que você nascesse naquele dia. Com o Emmett foi diferente, eu tinha tudo marcado. Mas enfim, nós ficamos amigas naquele momento, e nossos bebês nasceram praticamente juntos.

Depois que fomos para o quarto, nós nos separamos. Mas no dia em que eu saí do hospital, ela ia sair também. Para, sei lá, comemorar o nascimento de vocês, nós resolvemos tirar essa foto e ela brincou que você seria namorada do garoto dela. Porém, depois disso nós nunca mais nos encontramos, mesmo nessa cidade minúscula. A minha teoria é que ela não era daqui. Mas enfim, ficou a foto e a lembrança engraçada do dia que você nasceu…”

— Meu Deus. Que loucura. Você nunca tinha me contado isso, mãe. – Eu falei e comecei a refletir sobre aquela história.

— Acho que com o passar dos anos eu me esqueci desse fato. Ele não parecia ter muita importância. Só me lembrei quando vi a foto. Eu gostaria de ter realmente ficado amiga dela… Ela parecia uma pessoa boa. Mas a vida é cheia de idas e vindas, não é mesmo? – Ela falou, enquanto guardava as fotos na caixa nova.

— Realmente… – Eu falei enquanto ajudava a guardar o resto das coisas. Em seguida fomos preparar o jantar.