e tudo ardeu em azul, foi tudo estrela
1 E tudo ardeu em azul, foi tudo estrela
Notas iniciais
Jacob odiava neve.
Ele se lembra disso desde pequeno, quando brincava nas águas da reserva até que seus dedos já estavam todos enrugados. De repente ele sentia um calafrio descendo por sua espinha e seu queixo logo começava a tremer, mesmo que ele se esforçasse para mantê-lo parado. Seu pai gritava e acenava de sua cadeira de rodas — Jacob não tinha escolha que não segui-lo de volta para casa, mesmo que desse tudo por mais alguns minutos de brincadeira. Mais tarde, quando já estivesse com uma coberta por cima dos ombros e uma caneca cheia de chocolate tão quente que lhe queimava a língua, ele olharia para janela e veria pequenos flocos de neve que vieram sem serem chamados, eles que sempre estragavam suas brincadeiras e o colocavam para dentro de casa. E ele os odiava tanto, mas tanto, que quando ia se deitar ainda passava um tempo apenas desejando — como se ele pudesse mudar o clima com seu pensamento — acordar no outro dia e abrir a janela para ver o sol brilhando alto no céu, derretendo a fina camada branca sobre o areia da praia, para expulsar o frio daquele lugar a qual ele não pertencia.
Quando ele cresceu tudo isso perdeu um pouco de seu sentido. Então ele sabia das histórias da tribo, ele sabia qual era seu destino e quem eram seus inimigos. O frio que sentia nos ossos significava que eles estavam por perto, e se tinha uma coisa que Jacob odiava — odiou — mais do que a neve, foram os vampiros.
Ele ainda se lembrava de dançar com Bella em seu casamento como se aquele fosse seu último dia na terra.
Mas por mais que ele odiasse a neve, ela não parava de cair na Rússia. Para ser sincero, ele fora o único que votara contra o lugar — os anos iam passando e eles precisavam fugir e fugir e fugir para sempre. Ele ainda se lembrava da Alemanha, da Austrália, de Bali, do Egito, da Turquia e de todos os outros países nos quais eles moraram nesses cinquenta — ou seriam mais? — anos desde que deixaram Forks para trás numa manhã ensolarada de junho. Agora tinha que se contentar com o vento cortante de São Petersburgo por pelo menos três ou quatro anos, até que alguém começasse a perceber — veja só! — que eles não estavam envelhecendo. E não, não era por causa de creme algum (como se algum dos malditos vampiros não já fosse bonito o suficiente). Por enquanto, ele ficava do lado de fora, sentindo a neve cair em suas bochechas para derreter logo em seguida, com o seu calor natural de lobisomem. Era um jeito seu de ter paz na casa dos Cullen — quantos anos se passaram até que ele começasse a odiar seu imprinting com Renesmee mesmo? — e fingir que não ouvia o barulho dos brindes no jantar. Fingir que só precisava andar mais um pouco até voltar a Reserva Quileute em Forks, onde seu pai o estaria esperando com um cobertor para jogar sobre seus ombros e uma caneca de chocolate quente. Ele ouviu a porta abrir e fechar atrás de si, mas continuou parado esperando que, quem quer que fosse, entendesse que ele não estava em um de seus melhores dias.
— Renesmee está procurando você — Edward lhe disse, com sua voz macia demais (que bella teimava em chamar de aveludada). Em algum momento da vida eles pararam de se odiar mutuamente e passaram a agir como dois humanos (o que nenhum deles era) civilizados. Jacob ainda odiava ficar do lado dele e sentir o frio emanando daquela pele branca como mármore, mas mesmo se quisesse, não podia ignorá-lo por tanto tempo.
— Espero que ela não me encontre — ele falou e o vampiro riu. Jacob observou seus lábios vermelhos contrastando com seus dentes brancos por um rápido segundo antes de desviar os olhos. — Você devia entrar. O frio de São Petersburgo pode afetar até mesmo você.
(você não consegue ver que já se espalhou pelos meus ossos?)
Os dois ficaram em silêncio. Talvez Edward estivesse cansado de fingir viver durante todos esses anos — seu rosto não denunciava nada que o estivesse incomodando, mas Jacob sabia (sim, sabia) porque o vampiro passava cada dia mais perto dele, como se ele precisasse de algo novo, algo que destoasse de sua família branca e rica e linda e imortal e perfeita. E Jacob, bem... Jacob era um lobisomem, certo? Ele vivia com os Cullen há meio século, mas sempre rejeitou as ofertas de se tornar parte da família. Ele rondava e rondava, primeiro esperando quando Renesmee estaria crescida o suficiente; depois, esperando algo que o fizesse sair dali.
— Nós devíamos entrar — Jacob disse, mesmo não querendo. As pontas de seus dedos já estavam começando a ficar dormentes.
— Dê-me dois minutos, Black.
Ele espera.
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Jacob presta atenção em cada palavra que ouve pelo alto falante do supermercado, se esforçando ao máximo para aprender a falar russo com um mínimo de decência — ele precisa de alguma coisa para fazer em todo o tempo livre que tem, então ele coloca alguns livros sobre como aprender russo em duas semanas no carrinho de compras, junto com o resto das coisas que Esme pediu que ele comprasse. Na maioria das vezes, ele fazia as compras sozinho e considerava aquele um de seus momentos de paz, misturando-se as pessoas ali que viviam e morriam sem saber dos monstros que habitavam o mesmo lugar que eles. Dessa vez, Edward estava ao seu lado, alcançando os produtos de limpeza que ficavam na prateleira mais alta.
— Ainda não entendo o que você está fazendo aqui — Jacob lhe disse, ainda um pouco contrariado porque o vampiro decidiu lhe fazer companhia pela primeira vez em, sei lá, quarenta anos?
— E por que eu não poderia vir ao supermercado? — ele perguntou meio debochado. Jacob odiiava quando ele fazia isso.
Ele pegou o carrinho e saiu dali, indo até o próximo corredor para comprar as frutas e verduras — que só ele comia. Talvez Edward conseguisse entender que, por mais que os dois conversassem de vez em quando, como no dia em que chegaram a São Petersburgo, isso não significava que eles poderiam virar amigos. Jacob não conseguia nem se imaginar sendo amigo de qualquer um daqueles vampiros — nem mesmo de Renesmee ou de Isabella. Mas Edward parecia decidido em fazer com que o lobisomem se odiasse para o resto de sua — eterna — vida, e continuou seguindo-o, puxando algum assunto sem sentido sobre o qual o moreno apenas murmurava monossílabos como sim, é, hmmmmm. Parecia ridículo para qualquer um que visse de fora, mas o vampiro parecia estar se divertindo com a relutância do outro.
— O que eu tenho que fazer para você parar com isso? — Jacob perguntou horas depois, quando os dois já estavam na fila do caixa, que por sua vez, estava enorme. Ele estava a dois segundos de agarrar Edward pelo pescoço, mas bem, achou que seria melhor fazer isso em lugar não tão cheio de gente como aquele.
— Parar de agir como se não quisesse ninguém perto de você.
— Mas eu não quero.
— Então você é feliz vivendo o dia inteiro sem falar com nenhum de nós, estando só de corpo presente durante todo esse tempo, desde que começou a viver conosco? Pensei que você contasse mentiras melhores.
— E desde quando você se interessa na minha felicidade?
— Eu não sei — ele respondeu e ficou em silêncio.
Jacob também não disse mais nada. Os dois ficaram assim até chegarem ao carro para descarregar as compras no porta-malas — Jacob sabia que Edward ainda se ressentia por ter trocado seu Volvo prateado.
— Só estou tentando ajudar você. — o vampiro disse quando entrou no carro. O moreno estava sentado no banco do passageiro, olhando pela janela afora. — Ou talvez eu esteja cansado de ter a mesma vida há quase duzentos anos. Talvez eu esteja tentando algo novo.
— Vai ser bom para você dar uma mudada na rotina.
— Vai ser bom para você também.
Jacob assentiu e voltou os olhos para a paisagem a sua frente, para a neve que não parara de cair desde o dia em que eles chegaram. Um tempo depois, quando olhou de soslaio para o vampiro ao seu lado, ele estava sorrindo. Jacob fingiu que não se importava.
Mas ele continuou olhando.
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Edward não desistiu da ideia. Aos poucos, ele começou a se aproximar de Jacob, geralmente quando ninguém estava prestando atenção nos dois. O lobisomem se sentia estranho perto dele no começo — ele odiou aquele homem por tanto tempo que era difícil vê-lo de um jeito que não como inimigo — mas Edward tinha 150 anos, e, como toda pessoa — inexistente — de 150 anos, ele tinha infinitas histórias para contar. Em julho, eles conversaram sobre a Segunda Guerra; em setembro, sobre a Revolução Russa; em novembro, Jacob lhe contou como era a vida que ele levava em Forks, como funcionavam as matilhas de lobisomens e as antigas lendas de seu povo. Em dezembro os dois enfeitaram a árvore de natal juntos, enquanto os outros Cullen estavam mais preocupados em decorar a parte de fora da casa.
Jacob mal sentira que já haviam passado um ano na Rússia. Agora, com o sol brilhando alto, ele olhava para fora pela janela de seu quarto e desejava que a neve voltasse a cair por apenas mais um dia. Ele dizia a si mesmo que não sabia o porquê disso.
Mas a verdade é que a neve o lembrava das mãos de Edward enquanto os dois conversavam, quando o vampiro queria lhe explicar algo e gesticulava e se aproximava de Jacob como se quisesse tocá-lo e fazer com que ele realmente entendesse, mas então ele hesitava e escondia as mãos nos bolsos do casaco e tudo o que o lobisomem podia sentir era a quase sensação da mão dele sobre sua pele.
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— Que bom que você e o pai estão se dando bem — Renesmee lhe disse um dia ensolarado, quando os dois estavam sentados lado a lado na sala de aula. Se tinha algo que Jacob terminantemente odiava sobre sua nova vida, era ter que ir para o colégio por toda a eternidade.
— Ele consegue ser suportável de vez em quando — ele disse. Eu gosto do jeito como ele sorri quando me explica o Manifesto Comunista, ele manteve em pensamento.
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É dia doze de fevereiro de dois mil e sessenta e três quando os dois se tocam pela primeira vez. É uma noite branca na Rússia e o sol da meia-noite brilha alto no céu, impedindo que Jacob consiga dormir.
— Isso não devia estar acontecendo, sabia? Noites brancas acontecem próximas do solstício de verão e nós ainda estamos em fevereiro — o vampiro disse em voz baixa mesmo não havendo ninguém próximo deles.
— Eu não acho que nada disso deveria estar acontecendo — e os dois sabem muito bem sobre o que ele estava falando. Edward não o contraria nem nada. Apenas deixa que a frase paire no ar como se fosse leve o suficiente para ir embora sozinha, para atormentar outras vidas que não as deles que continuarão para sempre na mesma monotonia a menos que eles ajam como se nada mais importasse agora.
Eles precisam de um dia para levar por toda a eternidade.
— Você não pode lutar contra o destino — o vampiro finalmente fala, olhando para o outro. Ele já havia tentado tantas vezes simplesmente para acabar se rendendo algum tempo depois.
Continuaram deitados na grama, vendo o sol brilhar no céu em plena noite. Jacob respira fundo e sente o cheiro familiar de vampiro inundando suas narinas, sente uma coceira em seu corpo e uma vontade se levantar e pegar na mão dele e sair correndo dali daquela casa daquela vida. Ele se pergunta se os lábios de Edward teriam gosto de sangue, afinal de contas.
Ele não se importaria em descobrir.
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E o fato é que ele descobre algum tempo depois.
As ruas da cidade ficam desertas às 3h, mas não é como se aquilo pudesse intimidar um vampiro acompanhado de um lobisomem. E Edward tinha algo para lhe mostrar.
Eles pararam em frente a uma estátua que representava um homem com uma coroa de louros em seus cabelos, montado num cavalo que tinha as duas patas dianteiras no ar. Jacob não conseguia ler o que estava escrito no pedestal então esperou que Edward lhe contasse o motivo de estarem aqui.
— Consegue reconhecer a estátua? — ele perguntou. Jacob negou com a cabeça, ainda observando cada detalhe da escultura. — É Pedro I, Imperador e Autocrata de todas as Rússias. Também é o fundador da cidade. E bem, lembra-se de quando eu falei sobre ele? Fingiu ser marinheiro, trabalhou de carpinteiro e aprendeu a retalhar gordura de baleia. Também tinha mais de dois metros de altura.
— Sim, eu lembro. Foi quando estávamos falando sobre a Revolução de Outubro e você explicou como o nome da cidade mudou para Leningrado.
— Mas eu não te trouxe aqui para te dar uma aula de história. — Edward apoiou as costas no pedestal e olhou fixamente para Jacob. — Pedro modernizou o país e também foi o primeiro Imperador da Rússia. Mas agora ele não passa de palavras em livros de história e uma estátua na praça chamada O Cavaleiro de Bronze. Ele é passado, Jacob. E o passado deve ser lembrado, deve ser celebrado, sim, deve. Mas não pode impedir que o presente continue.
— Como os palácios do Peterhof, certo? Eles são lindos e visitá-los foi uma das coisas mais legais que fizemos desde que chegamos, mas não é como se alguém pudesse viver neles.
— Exatamente.
Ele não percebeu muito bem quando foi que Edward saiu de onde estava e foi parar ao seu lado de novo, mas o que importava é que Jacob conseguia sentir o braço dele tocando o seu, conseguia ouvi-lo respirar — mesmo que ele não precisasse disso — sobre o barulho quase inaudível da neve caindo no chão. Pensou até ter ouvido o barulho de um coração batendo forte como um tambor, mas provavelmente era o seu próprio.
Os lábios de Edward não tinham gosto de sangue. Na verdade, Jacob não conseguia descrever muito bem — com licença, ele estava ocupado demais beijando um vampiro para prestar atenção nesse tipo de coisa. Eles eram frios, isso sim, mas o lobisomem tinha calor mais do que suficiente para dividir com o vampiro. Só precisava ter um pouco de cuidado quando aprofundaram o beijo. Não queria ferir a língua em um de seus caninos afiados e estragar tudo.
Estava nevando em volta deles, assim como nevava na Reserva quando Jacob era pequeno e só queria ficar brincando na praia.
Dessa vez ele também não quis voltar para casa.
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