e de novo e de novo até o infinito

1 De novo osso, tendão e memória


Notas iniciais
PARABÉNS PARA A DITE ♥ escrevi queer queen porque sei que você ama, apesar de sinceramente não ter talento pra escrever femmeslash, sinto muito. contente-se com isso aqui mesmo HUASHUSA

se cada possível universo existe em algum lugar da infinidade do espaço e tempo, então deve existir um mundo onde eu tenho as mesmas memórias até o momento em que morri nessa terra, mas onde não morro. Eu continuo vivendo, e nem sei que dúzias de mim já morreram, usando esses pensamentos para acalmar seus últimos instantes.

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Sansa esperava com seu melhor vestido, o azul com detalhes dourados na saia e no busto, enquanto tamborila inquietamente os dedos nas grades de sua janela. O sol está alto no céu, mas o dia está surpreendentemente ventoso; é outono afinal, e se as palavras não causassem-lhe tanta dor, ela se atreveria à dizer em voz alta: o inverno está chegando.

(ela pode senti-lo nos ossos)

De qualquer maneira, algum guarda Tyrell logo viria para acabar com sua impaciência. Margaery prometera-lhe um passeio pelos jardins, mais uma vez, e estar com ela era a única alegria que ainda continuava, teimosa, a existir nos dias de Sansa — além de montar estratégias de fuga com Ser Dontos. As aias foram dispensadas há muitas horas, e agora tudo o que restava era continuar a esperar e esperar, imaginando os belos cachos de Margaery emoldurando seu belo rosto — belo, tudo é belo em Margaery; divino, glorioso.

Talvez porque foi ela quem salvara a garota Stark. Ela quem sorrira para uma menina com medos espalhados pelo corpo como hematomas, vermelhos, azuis e roxos, marcando seus braços e coxas. Margaery é a salvação pela qual Sansa tanto rezou no bosque sagrado, seu cavaleiro em armadura radiante, acompanhada do sempre presente cheiro de rosas e orvalho da manhã; de lábios mais macios do que sedas de Myr.

(ela nunca tocou nos lábios da tyrell, verdade seja dita — não que ela lembre-se —, mas ela conhece-os; toda vez que margaery sorri sansa sente algo quente correndo por suas veias, como se as duas se conhecessem de outro mundo

de outro sonho)

Três batidas na porta fizeram-na correr tão rápido como o vento do lado de fora. Pela última vez, ela passou as mãos no vestido para disfarçar os pedaços de tecido que tinham se amarrotado graças ao tempo que passou sentada. Respirou fundo uma, duas, três vezes e abriu a porta no momento em que o guarda levantava a mão para chamá-la novamente.

Não era Loras, não dessa vez, mas não havia diferença. Qualquer um que viesse para levá-la à Margaery era um enviado dos deuses para escoltá-la até o paraíso e seu anjo mais divino. Depois de curvar-se em saudação, o homem virou-se e começou a andar em direção ao jardim, com Sansa correndo em seu encalço, sem parar de contar impacientemente os segundos que se passavam — cada um deles um instante a menos que ela passaria com Margaery, um instante a menos para sorrir e para sonhar.

(e ela sonhava tanto. sonhava sobre estar dormindo há tanto tempo que seus cabelos tocavam seus calcanhares e logo logo seu músculos começariam a atrofiar-se e então o sonho mudava de rumo e ela abria seus olhos, apenas para ver o rosto de margaery tão perto do seu

e então acordava)

No momento em que os dois chegaram aos jardins da Fortaleza Vermelha, a garota Tyrell logo a viu e foi, quase correndo, em direção à ruiva. O guarda retirou-se dali, a pedido da futura rainha de Westeros, mas Sansa mal presta atenção no que esta fala. Tudo o que existe ali são os lábios de Margaery e como Sansa tem a certeza absoluta de conhecê-los, de que não há nada melhor do que traçar o arco de cupido da morena com as pontas de seus dedos.

(num sonho — numa realidade)

— Não vem, Sansa? — Margaery perguntou-lhe, segurando a risada. Já estava vários passos a frente da Stark, que ficou um bom tempo parada, perdida em seus devaneios, e teve que correr para alcançar a outra.

— Eu sinto muito, muito mesmo. Parei para admirar as rosas e— Margaery interrompeu seu pedido de desculpas com seu dedo indicador repousando levemente nos lábios de Sansa, o que não ajudou em nada a separar o que era real e o que era fantasia.

— Esqueça as desculpas, Sansa querida. Não teremos muito tempo juntas a partir de amanhã. — Ela disse, forçando um pequeno sorriso. Amanhã seria o dia no qual (doce) Margaery iria subir corajosamente os degraus do Septo de Baelor, para entregar-se ao (monstro) Joffrey e deixar que ele jogasse seu maldito manto vermelho e dourado em suas costas. E então, Sansa pensou, toda uma vida de sofrimento.

(chega a ser engraçada a maneira como nada nunca termina do jeito que ela imaginava)

— Vamos, Sansa. Quero logo mostrar-lhe o novo canteiro de rosas azuis. Só tome cuidado com os espinhos dessa vez.

Espinhos, rosas, agulhas; tudo misturava-se — girando e girando incessantemente — quando ela estava perto de Margaery, daquele brilho em seus olhos que lhe era tão familiar quanto neve de verão.

x

A música alta fazia com que os dois cristais que repousavam na mão de Margaery tremessem. A cada minuto — a cada rajada de coragem — ela estendia lentamente a mão para o grande cálice dourado, de onde ela e Joffrey tomavam o vinho dourado da Árvore, e quase jogava ali dentro as pequenas pedras que segurava. Algo sempre a impedia na hora — a garganta de repente seca, a cabeça de repente girando sem parar. Ao seu lado, sua avó tamborilava impacientemente os enrugados dedos da escura madeira da mesa e esperava.

(e esperava)

— Não temos toda a noite, querida. Lembre-se do que eu lhe disse. — Olenna sussurrou-lhe pela terceira vez durante o banquete. O plano só daria certo se o anão estivesse próximo ao cálice na hora, e Tyrion Lannister parecia querer escapar dali na primeira oportunidade.

— Eu vou perdê-la de novo, vó. Depois de tanta procura, só vivi até hoje para ter que vê-la partir hoje e amanhã e de novo e de novo. — Margaery disse, quebrando em migalhas sua fatia da torta de pombo.

Doía demais ver o padrão repetindo-se imutável, era após era. Logo agora, quando ela encontrou Sansa há tão pouco (e já a amava tanto), a Stark seria obrigada a fugir.

(mas era bom, não? a inocente sansa estaria livre da rainha agora, livre de porto real e seus nobres repulsivos

eram sempre as coisas boas que machucavam margaery)

— Já deveria estar conformada com isso, minha neta. Não é assim seus sonhos sempre se desenrolam? Primeiro você voa até a janela de uma garota ruiva e leva-a para uma ilha onde você nunca cresce; depois ela nada pelas águas com sua cauda feita de sal e espuma marinha e você estende-lhe a mão mesmo quando ela não tem voz. Ou então essa vez é a sua preferida, quando você chega onde incontáveis cavaleiros em armaduras brilhantes não conseguiram, só para encontrar em uma garota adormecida.

(mas ela acorda, vó. eu dou-lhe um beijo e ela acorda, juro)

Sua avó chega mais perto dela e, colocando uma mecha dos cabelos castanhos da neta atrás da orelha dessa, suspira.

— A hora de sonhar acabou, Margaery. Queime a bruxa.

(queime a bruxa)

Margaery abre a mão e, sem tremer, deixa que os dois cristais caiam dentro do cálice.

(nós podemos salvar sansa ou podemos salvar você de joffrey, querida, mas não podemos salvar as duas)

Notas finais
a frase que eu usei no começo da fanfic foi encontrada lá nos primórdios do a softer world (e eu traduzi). é a número 92, pros curiosos de plantão.DITE PARABÉNS EU TE AMO VOCÊ É UMA HTA SENSUAL e tá aí sua queer queen porque você é muito chata e me pede muita fanfic (já basta a jasico que ainda tô escrevendo pra você) ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!