der Bruch

1 Capítulo Único - der Bruch


Notas iniciais
Olá, olá, essa história é um presente. Um presente um pouquinho muito atrasado para a Dora-kun, mas, ainda assim, um presente! *.* E, sendo um presente, é meio estranho que seja uma Angst... Rs! Mas, bom, é, então fica o aviso: tem drama. Drama e, bem, spoiler. Então, se não tiver visto o último episódio da temporada mais recente de Durarara, aconselho fortemente a não ler, já que a história se passa justamente nesse episódio. A quem for ler, recomendo a música "I found", do Amber Run pra acompanhar. ^^ É isso pessoal! Espero que gostem! beijo, beijo, =* Yuki



der Bruch

Ikebukuro era, naquele dia, sua meretriz. Pintando-se com noite como a queria, as exatas cores, as exatas formas, as exatas luzes. Recebendo-o em seu seio como se a ele pertencesse, sussurrando em seu ouvido todas as verdades que já sabia. Tornando-se, pela primeira vez em anos, a zona que desejava que fosse, moldando-se em reflexo a seus tabuleiros, dobrando-se à sua vontade.

Um homem desavisado – uma provável de suas peças – teria dito, ao lembrar-se do momento no qual foi recebido com tais braços abertos, que deveria ter desconfiado. A Orihara Izaya, entretanto, o titereiro, não havia desconfiança alguma. Ele sabia, sabia sem dúvida ou hesitação alguma: aquela era a noite de sua ruína. Muito antes de seu primeiro passo para dentro daquele distrito que o recebia com malícia tão maior do que a tentava manter firme em seu intocável sorriso o informante já sabia que, naquela noite falsa, cairia.

A predição, entretanto, não atrasava seus passos. Orihara Izaya procurava, sob os holofotes de anúncios coloridos, mais uma vez – uma última vez – por seu monstro. Correndo para ele, armando para ele, provocando-o, obrigando-o a seguir sua profecia de ruína. Tremendo de excitação, de empolgação, de medo, tremendo como se o distrito perdido eclodisse aos seus pés, enquanto assistia Heiwajima Shizuo deixar-se conduzir para baixo, aproximando-se inexoravelmente do chão, debatendo-se na tentativa de puxá-lo junto.

A seriedade em seu rosto não era respeito. Não, ao menos, pelo esforço do monstro. Não o respeitava, nem mesmo sabendo que seria ele, também, aquele a derrubá-lo. Tampouco era – e o informante lamentava por isso – convicção. Talvez teimosia, talvez orgulho, talvez alguma forma suja de fé, a seriedade em manter-se de pé apenas como recusa em ser o primeiro a cair. Ainda que, inegavelmente, ambos fossem fazê-lo naquela noite impostora, independentemente de quem fosse o primeiro.

Ao primeiro soco, contudo, notou que já não mais fazia a ele diferença a ordem das ruínas. E, mais do que pelos louros que jurava desejar, ou por orgulho teimosia ou fé que ainda acreditava possuir, ele esperava que Shizuo caísse primeiro apenas para que pudesse assistir sua queda ainda de pé. Ao menos assim, diante daquele público tão fajuto quanto o palco, ainda poderia representar seu papel até a descida das cortinas. Fingir que sua queda não começara há muito mais tempo, que cumpria seu mandato de herói com retidão até o fim, até enterrar com força a lâmina no peito do monstro e derrubá-lo.

E, então sim, irremediavelmente, ruir. A queda correta de um herói. A destinada a ele no momento de sua proclamação. Porque aquela, ao lado de tantas informações que possuía a contragosto o informante, era outra das coisas que sabia. Conhecia demasiada histórias de heróis para fingir não saber que proclamar-se um era selar também o momento no qual deixaria de ser um. O herói, ele sabia com cada fibra agora dolorida de seu corpo, é aquele que deixa de ser necessário no exato instante no qual é nomeado e recebe seus louros. O ápice e o declínio em um só golpe. A derrota do monstro sendo, inexoravelmente, também o fim para aquele que empunha a lâmina.

Sua queda viria, portanto, e ele sabia disso antes mesmo de Ikebukuro recebê-lo sussurrando profecias ao pé de seu ouvido. Bastava a ele lutar para que seu público acreditasse que era apenas naquele momento que ela ocorrera.

Não era.

Sua queda começara muito antes daquela noite que brilhava somente eletricidade.

Talvez quando escolheu sua arma, espada tão pequena que podia retrair-se. Talvez quando escolheu defesa ao invés de ataque. Talvez quando correu pela primeira vez. Talvez – talvez – quando escolheu o monstro que o levaria ao trono. Quando percebeu que nutria por ele sentimentos que heróis não podiam nutrir. Porque seu monstro, aquele por escolha consciente eleito, como que conhecedor de ser quem traria seu fim, passou a lhe roubar, pouco a pouco, bem devagar, dia a dia, o heroísmo.

Aquele que salva, que guia, que ama. Aquele que ele deveria ser e aquele que ele deveria ter sido também para Heiwajima Shizuo. Um herói, afinal, pode permitir que o odeiem. Aceitava que essa fosse, talvez, exatamente sua função. Odiado e rejeitado como remédio amargo.

Um herói, contudo, nunca pode permitir-se odiar.

Mundano demais, impuro demais, humano demais.

O monstro, entretanto, como prenúncio de sua ruina, obrigou-o a odiá-lo. Obrigou-o a ruir paulatinamente, a perder um pouco por dia do heroísmo que devia perder apenas no fim. Envenenando-o, afundando-o cada vez mais em escombros. Como Eva, seduzido pela serpente. Sem redenção. Decaído. Fazendo-o ciente de sua vergonha. Ciente de sua nudez.

Nudez.

Porque junto a sua vitória, seu heroísmo, seu amor, o monstro arrancou-o também as roupas. Provando a ele que morder a maça era sentença de fome eterna. E ele, o herói, percebeu-se faminto, a boca mergulhada em saliva e os dentes ansiando cada nova mordida.

E devorou-o, mesmo enquanto percebia que cada mordida consumia uma parte sua. Devorou-o com cada centímetro de seu corpo nu. Desfazendo-se de seus louros. Desfazendo-se de suas promessas de salvador. Desfazendo-se de seu trono. Desfazendo-se.

Afundando-se, então, em pedaços, na mistura de ódio que contaminava de passionalidade cada centímetro de seu amor incondicional a todo aqueles que, naquela noite adulterada, se reuniam para assistir sua queda no centro de Ikebukuro.

Por eles, apenas por eles, respirou fundo uma, duas, três vezes, gemendo baixinho enquanto tentava forçar ar para dentro do pulmão que parecia recusar-se a funcionar. Uma costela quebrada talvez. Talvez todas. Em seguida um sorriso nos lábios, também por eles, na tentativa de disfarçar na língua o gosto já forte dos destroços.

Quando, entretanto, pôs-se mais uma vez de pé diante do monstro e envenenou a língua com o insulto que parecia pertencer mais a ele mesmo do que a Heiwajima Shizuo, o fez por si mesmo.

Aquele não era, afinal, o cenário que desejava. Uma nova traição de Ikebukuro.

O público não o olhava, como se sua ruína contaminasse também a eles. Os poucos ainda vívidos, ainda atentos, ao invés de esperá-lo com louros mantinham os olhos no monstro. Olhando-o como se fosse ali luta dele. Dele, não de Orihara Izaya.

— Então faça isso, seu monstro.

A voz não soou certa como deveria soar, tampouco sua lâmina permaneceu empunhada. As últimas palavras que escolhera para dizer enquanto herói eram, vergonhosamente, justo as únicas palavras que ainda o prendiam a seu papel. Poderia ainda sê-lo, ainda poderia roubar os olhos para si, ainda poderia ganhar seus louros, ainda poderia conquistar ruína que parecesse imediata se Heiwajima Shizuo, seu monstro eleito, agisse como tal. Ele poderia continuar herói enquanto Shizuo continuasse seu monstro.

Então, se depois os olhos ainda permanecessem no monstro, seria apenas para reconhecê-lo como tal, para temê-lo. Talvez conseguisse que odiassem-no como o odiava. Seu ódio, ainda que inadequado, permanecendo como herança a aqueles que veriam como tentara salvá-los, como lutara com o monstro com sorriso no rosto até o fim.

O monstro, entretanto, não cumpriu o contrato. Ignorando sua profecia como sempre parecia fazer.

Protegido. Disfarçado. Convidado. Poupado. Botaram-lhe pele de cordeiro como se pertencesse a ele.

Vestiu-lhe tão bem, no fim. Como no fundo Orihara Izaya sabia que vestiria.

Quando olhou-o uma última vez, o monstro parecia-lhe tanto com quando ousara dizer que o que fazia quando arrancava-lhe o heroísmo era amor que não pode fazer nada que não aceitar que nunca poderia ter caído naquela luta. Nunca poderia ter caído quando, desde o princípio, não estivera de pé. Não quando já não estava em pé há muito tempo.

Naquela noite fingida, forçadamente tingida de preto, Orihara Izaya percebeu, pouco antes das cortinas fecharem-se, que havia uma forma diferente de queda, uma que informação alguma, leitura alguma ou experiência alguma haviam deixado-o prever, uma que doía-lhe mais do que preparara-se para suportar: quando um monstro deixa de ser monstro, também o herói deixa de ser herói.

Ikebukuro, inegavelmente, o traíra novamente.

Notas finais
Olá, olá de novo! Espero que tenham gostado! Se gostou, me deixe saber do quê. Se não gostou, me deixe saber também. (quem sabe não gostamos/desgostamos das mesmas coisas?! A gente pode se juntar pra me xingar ou pra trocar figurinhas! ♥) Eu meio que não tenho muita experiência escrevendo Angst e, acho que, é a primeira vez que escrevo algo com tantas metáforas e drama acumulado! Rs! O que quer dizer que foi uma experiência bastante legal... (ando escrevendo muito amorzinho Shizaya, estava meio que precisando de um Xablau sofrido). Além do mais, fazia MUITO tempo que não escrevia com foco em Izaya e, rs!, não é o tipo de coisa que uma shipper pode se permitir fazer. Sobre o título da história: é a palavra alemã para um monte de coisa que eu quis colocar na história. O primeiro significado é fratura, mas pode ser também uma ruptura, um fragmento ou uma violação de contrato. =D (Não aguentei quando vi que escreveria uma "angst" e tive que colocar o título em alemão pra combinar, rs!) Espero, do fundo do meu coração, que tenham gostado! beijo, beijo, =* Yuki
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!