—Legal, você sabe tocar piano!

Essa foi a primeira coisa que ela me disse. Depois de tantos anos, eu ainda lembro do sorriso que ela abriu, os dois dentes da frente superiores faltando, os olhos castanhos brilhando, o cabelo ruivo dividido em duas tranças, uma em cada lado da cabeça.

Minha missão seria fácil: acompanhá-la e impedí-la de cruzar os limites do terreno da mansão.

Em meio a tantas qualidades que meu pai dissera na hora da entrevista com os pais dela, o que mais chamou sua atenção foi que eu tocava um instrumento musical.

—É, eu posso te mostrar — apontei para a direção do piano de cauda que vira quando entramos na mansão. Ele ficava no centro da sala de estar não muito longe do escritório em que estávamos.

—Sim! — e antes de mais nada, ela me puxou pelo pulso, não de uma forma mandona, mas de uma forma que estivesse ansiosa demais para esperar um segundo mais sequer, e me guiou pelo mesmo caminho que eu tinha imaginado na cabeça.

Quando chegamos ao lado do instrumento, ela esperou que eu sentasse de um lado do banco para que ela se juntasse a mim do lado oposto.

Suas pernas balançavam de empolgação, e se as minhas não tivessem que estar preparadas para pisar nos pedais, elas admitiriam que eu estava tão empolgada para conhecê-la quanto ela.

Posicionei os dedos nas teclas e Nocturne, de Chopin, começou a resooar pelo ambiente, e me deixei ser absorvida pela música, sem nem pensar onde meus dedos estavam e para onde deveriam ir, pois eles já iam sozinhos, como se flutuassem no ar.

Minutos depois, quando a música acabou, abri meus olhos que nem sequer havia percebido que os fechara em algum momento, e meu olhar foi direto para a minha companhia.

Sua boca estava aberta de surpresa e os olhos sorriam, como se estivesse vendo um unicórnio.

—Isso foi tão legal! Você podia me ensinar, né? Pai, mãe, deixa ela ficar! Deixa, deixa! — ela correu do banco e segurou as mãos dos pais que apareceram ali provavelmente no meio da música. Meu pai estava logo atrás, esboçando um olhar de aprovação.

Eu tinha deixado ele orgulhoso.

—Bom… — o pai dividiu o olhar com a parceira antes de ter certeza do que iria anunciar — Nós não vemos porquê não.

E desde então, minha vida jamais foi a mesma.

♤♡♤♡♤

Um ano depois, ela me mostrou sua coleção de livros na biblioteca da mansão. Ela havia me dito anteriormente como gostava de viver as aventuras dentro dele, e que almejava um dia viver uma aventura tão memorável como aquelas que ela lia.

A biblioteca em si era algo que eu nunca tinha visyo. Uma abóboda de vitrais decorava o centro, o que nos dias ensolarados deixava um show de cores lindo no chão de ladrilhos. Não apenas isso deixava a luz do sol entrar, como também havia uma grande janela que dava para o quintal da frente, com cortinas púrpuras que iam até o teto.

Dezenas de prateleiras preenchidas com livros variados tornavam dela um labirinto do qual nunca consegui me achar, mas Farah de alguma forma conseguia, como se fosse uma bagunça que ela entendia.

Até porque ela nunca havia saído da mansão, tinha razões do porquê ela saber tão bem de onde as coisas ficavam por lá.

—Este aqui parece ter uma história parecida com a minha, olha! — ela me estendeu a capa do livro com uma menina ruiva como ela, admirando a vista de uma janela que parecia ser de uma cabana.

—Janelas de Cristais? — eu pronunciei o nome depois de passando algum tempo tentando lembrar que letras eram aquelas. Tínhamos 9 anos, afinal.

—É! Minha mãe diz que é sobre uma menina que vive numa casa parecida com a nossa, só que as janelas são coloridas, uma de cada tipo de cristal. Então é como se ela vesse o mundo em cada janela de uma cor! Não é o máximo?

—É sim. Mas não tem algum livro aqui com uma personagem parecida comigo? — perguntei. Eu não queria ser deixada pra trás, mesmo que ler não fosse o meu passatempo favorito como o dela.

—Hmm — ela emitiu pensativa, a mão no queixo posicionada de uma forma cartunesca — Eu nunca tinha pensado nisso. Podemos procurar! Vai ser nossa aventura do dia!

E com isso, passamos o dia todo em busca de um livro com uma história parecida com a minha.

♤♡♤♡♤

Dois anos depois, Farah teve a ideia de me botar em um de seus vestidos. Eu, uma criança como qualquer uma que também já sonhou em ser uma princesa, aceitei. Além disso, tínhamos a altura e tipos de corpo parecidos.

Ela vestia um vestido branco solto sem mangas, com um laço verde na cintura. Para mim, ela me ajudou a escolher um azul claro, também sem mangas e com várias camadas, que começava curto na frente e ia ficando mais longo atrás.

Era um dos únicos dias no mês que estava fazendo calor e o sol tinha dado as caras. Era primavera, e o campo de flores na pequena elevação perto de sua casa estava todo coberto por tulipas das mais variadas cores.

Decidimos ir para lá depois de brincar de pega-pega até cansar, para observarmos as nuvens que apareciam e que indicavam que dali não muito tempo o sol desapareceria de novo.

Nos deitamos no alto da colina, com as tulipas nos fazendo companhia e começando nossos palpites.

—Aquela ali parece um pato pirata num barco de papel — ela indicou e eu logo direcionei o olhar para onde ela havia apontado.

—Hmm sei não, pra mim parece uma mariposa, se ver desse ângulo — eu inclinei a cabeça para o lado e ela fez o mesmo.

—Para mim continua sendo um pato pirata.

—Você parece gostar bastante de piratas — comentei, o que arrancou um sorriso dela.

—Eu gosto. Imagina poder explorar o oceano todo, saqueando navios inimigos e bebendo muita cerveja — nós nos encaramos por um segundo e rimos.

—Mas o navio deve feder a peixe também.

—Ah com certeza, mas isso a gente releva.

Eu gostava de como ela sempre preferia ver o lado positivo em tudo.

—Você não iria sentir falta de casa? — questionei.

Isso pareceu deixá-la num estado contemplativo.

—Não sei… Talvez? Não é que eu não goste daqui… Eu só acho que ia gostar mais ainda do mundo lá fora.

Eu lembro que fiquei sem saber o que dizer, e ela também. Ficamos um tempo em um silêncio constrangedor até voltarmos a dar nossos palpites sobre o formato das nuvens.

Pouco tempo depois, tivemos a brilhante ideia de descer o morro deitadas. Sem nos preocuparmos com nossos vestidos, nos deitamos horizontalmente e após uma contagem de 3, descemos a elevação atropelando algumas tulipas pelo caminho.

A velocidade que adquirimos foi suficiente para sermos jogadas no lago lamacento. Nós não nos importamos, e começamos a gargalhar.

Levamos uma bronca colossal depois, mas aquilo valeu cada segundo.

♤♡♤♡♤

Três anos desde que nos conhecemos, estávamos fazendo coroas de flores na beira do lago da propriedade da mansão.

—Qual você acha que combinam mais? — ela me estendeu quatro flores de diferentes tipos e cores, duas em cada mão — Margaridas e crisântemos, ou aster e gérberas?

Mordi o lábio, pensando.

—Essas — apontei para a mão direita, com as flores laranjas e liláses.

—Aster e gérberas, então! — ela me passou as flores do mesmo tipo e uma raiz forte que seria a base da coroa.

Com folhas longas e menores, ela trançava as flores na coroa.

E eu tentava, miseravelmente, imitá-la.

Quando notou que eu estava com dificuldade, ela largou sua coroa e pôs suas mãos sobre as minhas.

—Assim — ela guiou meus dedos segurando a folha ao redor da coroa e do caule da flor, fazendo um nó firme antes de me soltar — Para alguém que toca piano, achei que tivesse dedos mais ágeis — brincou.

—Eu tenho um problema com nós — admiti, e nós rimos.

Após concluirmos de fazer nossas coroas, brincamos que éramos fadas sem asas, salvando insetos e pássaros que pareciam precisar de ajuda pelo jardim.

Não muito tempo depois, fomos a plataforma de madeira no lago que dava para um gazebo bem em sua extremidade, imaginando que aquele era nosso castelo.

Fantasias vão, fantasias vem, cansamos da brincadeira e ficamos observando a água calma do lago, as vezes se agitando por causa dos peixes e sapos que ali viviam.

—A natureza é linda, né? — ela disse, com os braços descansando no guarda-corpo do gazebo.

—É sim — eu estava com as mãos segurando no guarda-corpo e os pés firmes perto dele, enquanto meu corpo pendia para trás.

—Como será que deve ser a natureza em planetas muito, muuuito distantes do nosso? — ela observou o céu rosado de fim de tarde.

—Bom, as plantas podem ser roxas, e os animais também serem só de uma cor, tipo amarelo!

—Interessante. Qual seria o nome do seu planeta?

—Hmmm… Sephir — lembro de ter lido algo parecido em algum dos livros da biblioteca.

—Não seria Zephyr?

—Não. Sephir com o S do meu nome.

—Gostei — ela sorriu e eu inclinei a cabeça para cima, me achando o máximo.

—E o seu?

—Farout, porque seria bem, bem, bem longe daqui, e também tem a primeira letra do meu nome!

Nós rimos, mas algo não saía da minha cabeça. Ela vinha de uns tempos para cá falando em querer sair de casa, se aventurar mundo afora. Não que isso fosse errado, mas minha missão era protegê-la desse mundo e não deixá-la sair.

Ela sabia disso? Se descobrisse, ela iria ficar chateada comigo e fugiria mesmo assim?

Agitei a cabeça levemente para dispersar os pensamentos, e quando voltei ao presente, ela já falava de outro assunto com uma empolgação que só ela conseguia ter.

♤♡♤♡♤

Cinco anos depois, tínhamos 13 e estávamos brincando na cozinha da mansão. Só a cozinha conseguia ser maior que todos os apartamentos que eu e meu pai vivíamos.

Ela era no estilo clássico, com armários brancos, uma geladeira da mesma cor e um fogão de 5 bocas charmoso, provavelmente devia ser muito antigo e bem preservado.

Eu analisava um livro de receitas de sobremesas enquanto ela preparava as louças e ingredientes que iríamos usar.

—Podemos fazer um pão de ló com recheio de creme de baunilha e geléia de frutas vermelhas, o que você acha? — perguntei e indiquei a receita na página aberta para ela.

—Boa! Eu estava esperando por um bolo mesmo — ela me deu uma piscadela, o que me fez corar sem perceber.

Ela não pareceu ligar, pois foi logo juntando os ingredientes sem nem precisar olhar as medidas.

— O que eu posso ir fazendo? — indaguei.

— Você pode ir mexendo a massa, eu vou fazendo o creme — ela me passou a vasilha que estava mexendo até então e pegou outra semelhante.

Não pude deixar de dividir meu olhar entre a tarefa e ela, que parecia igualmente concentrada. Em alguns momentos, eu até a flagrara com a ponta da língua de fora, os lábios pressionados. Totalmente focada.

Era o que eu achava, até uma nuvem de farinha vir em minha direção, se espalhando por todo meu rosto e cabelo.

— Você não fez isso…

Ela me olhava com um sorriso travesso, mostrando os dentes levemente tortinhos.

— Fiz sim — ela provocou.

Farah também não esperava quando eu a acertei com outra nuvem de farinha. Seu cabelo ruivo se tornou branco em um instante.

— Agora você vai ver! — ela avisou, e começamos a correr uma da outra pela cozinha, rindo sem parar.

É claro que levamos outra bronca pela bagunça que causamos. Dissemos a eles que aquilo não se repetiria, mas nós sabíamos que isso não podíamos prometer.

♤♡♤♡♤

Quando fizemos 15, meu pai decidira que eu era grande o suficiente para acabar com as brincadeiras e ser uma guarda de verdade. Eu discordava dele, porém eu não poderia dizer o que eu sentia porque ele poderia acabar me afastando da Fay.

Então, eu joguei o seu jogo.

No começo, Farah não entendeu o porquê. Nós não dividíamos mais as roupas, não almoçávamos nem jantávamos juntas, as festas de pijama haviam acabado.

A partir de um momento, ela pareceu desistir de tentar. Por mais que eu a seguisse onde fosse, ela não mais puxava assunto nem mexia comigo.

Eu me senti horrível. Era ainda pior ver uma pessoa tão radiante como ela perder o brilho dia após dia.

Por minha culpa.

Ela passava boa parte do seu tempo na biblioteca vivendo suas aventuras de livro em livro, ou no jardim perto do lado alimentando os patos ou observando o bosque do outro lado do corpo d’água.

Uma vez ela me disse que pretendia fugir por ele. Pegar um barco, remar a toda velocidade até o outro lado e atravessar a floresta até que chegasse na estrada e pudesse recomeçar.

Ela não sabia, mas chegou um momento que passei a pensar nisso também. Em fugirmos juntas.

Era noite e estávamos na sacada de seu quarto. Ela estava sentada no parapeito com um livro aberto que não lhe pregava mais a atenção. Em vez disso, ela observava o céu limpo e estrelado acima de nós.

Eu permanecia próxima da porta da varanda, alguns metros distante.

— Lembra daquele livro da menina com a casa de janelas coloridas? — ela perguntou de repente.

— Lembro — tentei manter a naturalidade. Já fazia um tempo que não nos falávamos que não fosse cumprimentos do dia a dia.

Ela fechou o livro em seu colo e mostrou a capa para mim.

— Eu estava relendo. Não é nada como minha mãe tinha me dito — sua voz deixava claro que estava decepcionada.

— Como assim?

— A menina não pode sair da casa. Está presa nela. Se ela sair, seus olhos caem. É isso que ela faz no final do livro, ela está cansada de ver o mundo em uma cor só, então ela passa a planejar um jeito de sair e tentar enganar a casa. Não funciona, e assim que ela põe seus pés no jardim, seus olhos começam a sangrar. A casa a convence a ficar, só que agora ela nem sequer vê mais.

— Uau. É… — ela me olha com expectativa, a área ao redor dos olhos um pouco inchada — É terrível, não parece nada com o que a capa mostra.

— É. — Ela parece pensar nas palavras que vai dizer em seguida — Acha que meu irmão está lá encima? — ela apontou para o céu.

Ela nunca havia me dito de nenhum irmão.

A confusão estampada no meu rosto a fez continuar.

— Antes dos meus pais contratarem você e o seu pai, nós tínhamos o Finn. Ele era meu irmão gêmeo e só lembro que fazíamos tudo juntos. Quando tínhamos seis, estávamos brincando no quintal e eu me perdi dele — ela deu uma pausa para enxugar uma lágrima que caiu em sua bochecha. — Nós nunca encontramos o corpo.

— Farah, eu…

— Tudo bem, eu já sei o que vai dizer. Depois que ele desapareceu e fizemos de tudo para tentar saber onde ele estava ou o que tinha acontecido com ele, meus pais acharam que seria bom eu ter alguma companhia da minha idade, e aí você veio. Fim de história. Eu não lembro muito dele de qualquer forma… — ela desistiu de enxugar as lágrimas que caíam — Mas… como que a gente pode sentir saudade de uma pessoa que a gente mal conheceu?

O olhar que ela me deu foi algo que eu nunca tinha visto naqueles olhos antes. Era tristeza, mas não daquelas de quando ela derrubava seus doces na grama e as formigas os levavam embora, era um olhar de perda. Angústia.

Eu corri pra abraçá-la, sem me importar com o mundo acontecendo ao nosso redor. Ela me abraçou de volta e desabou. Começou a chorar e soluçar, ao ponto de uma hora começar a tremer nos meus braços.

Deixei que ela chorasse tudo que precisava para fora, e quando os soluços diminuíram, achei que estava na hora de dizer algo que eu também não tinha contado a ela.

— Quando meus pais se divorciaram, minha mãe ficou com a guarda da minha irmã mais nova e a levou embora. Nós nunca nos vimos de novo. É como se tivessem sumido do mapa — as lágrimas vieram sem que eu pudesse impedir e minha voz já estava embargada. — Eu só queria poder vê-la mais uma vez.

Farah ergueu a cabeça para me olhar nos olhos e seu olhar tinha mudado para compreensão.

—Qual é o nome dela?

—Brooke.

—É um nome bonito, igual o seu — ela disse com um sorriso — Vocês vão se encontrar de novo um dia.

Eu abri um sorriso fraco.

—Me desculpa por ter parado de falar com você, de fazer as coisas que sempre fazíamos. Eu não devia ter feito isso, eu…

Ela colocou as mãos uma de cada lado do meu rosto.

—Ei, tudo bem. Não foi sua culpa, eu não devia ter sido tão imatura também.

—Mas você não foi… — eu comecei, mas ela colocou o indicador sobre minha boca.

—Fui sim. Nós duas erramos, ok?

Eu assenti, e ela sorriu mais uma vez.

—Amigas? — ela me estendeu a mão, e eu logo a apertei.

—Amigas.

♤♡♤♡♤

Nove anos depois, e o aniversário da Farah tinha chegado mais uma vez.

Ela adorava seu dia, e por mais que fosse só seu, ela fazia de tudo para todos estarem felizes.

Eu havia mudado, e agora eu era tanto sua guarda quanto sua amiga. Meu pai não ficou muito feliz com a decisão, mas eu não me importei.

Eu ficaria com ela até o fim.

—Qual cor você acha melhor? Amarelo ou verde? — ela estendeu dois cabides, cada um com um vestido de uma cor.

— Acho que o verde cai muito bem em você.

— Obrigada. Será verde como mademoiselle pediu! — ela correu para seu closet e eu esperei na porta do quarto como sempre.

Não fazia muito tempo desde que começamos a flertar uma com a outra. Era na brincadeira, sem compromisso nenhum. Ou pelo menos eu achava que era. Eu gostava da Farah, isso eu não poderia negar. Agora se ela gostava de volta, era outra história.

Por medo de ser rejeitada, eu preferia não levar nada a sério.

—O que achou? — ela apareceu com o vestido florido e leve.

—Está linda, de verdade — admiti.

—Me diga… — ela se aproximou e colocou as mãos ao redor do meu pescoço — Por que acha que verde combina comigo?

—Bem… Eu… — senti as bochechas avermelharem — Acho que o verde combina com seu cabelo… tom de pele também.

Ela me analisou por um segundo.

—Sabe, eu acho que azul combina com você.

—Eu estava pensando nisso esses dias, e se eu pintasse meu cabelo de azul? — sugeri, e o olhar dela se iluminou.

—Ficaria maravilhoso! Não que você já não seja — ela elogiou com um sorriso — Mas eu acho seu uniforme anterior mais bonito — brincou, ajeitando a gola do meu uniforme, nas palavras dela, menos bonito do que eu costumava usar antes.

Eu sorri sem jeito. Era estranho eu me sentir nervosa quando estávamos muito próximas, sendo que fazíamos isso o tempo todo quando crianças.

Quando que isso mudou?

—Quais seus planos para hoje, aniversariante? — desviei de assunto. Não que eu não quisesse continuar ali, mas eu meio que temia o que poderia acontecer se ficássemos ali mais tempo.

—Você podia tocar piano pra mim. Sabe, seria como seu presente — ela falou sem relutar.

—Claro. Por que não? — me juntei a sua ideia, e ela me pegou pela mão e corremos até o piano, ainda no mesmo lugar de sempre.

Apesar de não ser minha função, muitas vezes eu cuidava dele para evitar que alguma tecla desafinasse ou qualquer visita o estragasse. Isso o manteve intacto por bastante tempo até então.

—Qual música você quer que eu toque, minha ruiva?

O apelido a pegou desprevenida, o tom de pele das suas bochechas ficando vermelhos.

—Qualquer uma de sua escolha, minha pianista — ela aveiu um sorriso travesso, porque sabia que me dar um apelido também ia me desconcertar.

Pela intuição, comecei a tocar “Parabéns pra você” num estilo diferente. Era mais lento e as notas mais amenas.

Quando terminei, Farah tinha um sorriso de orelha a orelha.

— Muito obrigada Skye! — ela se aproximou e me beijou na bochecha.

Meu cérebro pareceu pifar. Eu não conseguia formar uma palavra sequer.

— Devíamos roubar alguns doces do jantar de mais tarde lá na cozinha. Topa? — ela me ofereceu a mão assim que se levantou do banco.

— Sabe que não posso, Farah — eram as regras, tanto minhas quanto de meu pai. Mesmo assim, eu daria de tudo para me divertir com ela sem ter que me preocupar com tudo isso.

— Você é tão sem graça. Só hoje! E aí amanhã e todos os outros dias você pode voltar a ser sem graça — ela juntou as mãos, implorando.

Eu pensei por um instante. Talvez eu pudesse mesmo ter um dia de aventuras com ela.

Só mais um dia.

Eu sorri, e ela soube na hora que eu tinha aceitado. Novamente, ela pegou minha mão e fomos para a cozinha não muito longe dali.

O cômodo estava cheio de cozinheiras e criados que seus pais haviam contratado para a festa que teria mais ao anoitecer. Um verdadeiro caos.

Ela foi na frente, se esgueirando pelas pessoas que passavam apressadas do seu lado. Rapidamente notei sua mão capturando um bolinho de frutas de uma das bandejas que eles preparavam no balcão da ilha.

Ela se virou discretamente e piscou para mim, como se dissesse que agora era a minha vez.

Eu segui seus passos, e, com graça, ninguém percebeu.

Nos reunimos de novo no quintal dos fundos, e encontrei ela rindo de sua travessura.

—Somos demais — ela ergueu a mão livre.

Antes que eu tocasse, abri ambas as mãos que seguravam cada uma um bolinho.

—Ei, como você fez isso? — seu olhar denunciava que estava maravilhada.

— Treinar exaustivamente para ser uma guarda tem suas vantagens — eu retornei a piscadela, e ela sorriu sem jeito.

Eu dividi o terceiro bolinho, e colocamos tudo na boca, os bochechas cheias como de esquilos. Começamos a rir de novo.

—Ei, você nunca me disse quando é seu aniversário — ela comentou assim que engolimos a comida.

— Não é importante…

E ainda mais, não era numa data festiva como o dela.

— Para mim é! — ela esboçou uma expressão que se assemelhava a raiva, mas não um raiva genuína.

— 27 de setembro — eu me rendi.

— O que? Seu aniversário foi mês passado e você não me contou? — ela parecia se sentir traída. Um bico emburrado se formou em seus lábios e cruzou os braços.

— Ei, Fay — eu toquei seu ombro, mas ela não reagiu. — Farah, desculpa. Eu não imaginei que você ficaria tão chateada…

Ela não aguentou manter a pose e sorriu.

—Tudo bem, aceito suas desculpas. Mas agora estou te devendo 17 presentes.

—Não está não, juro, eu…

—Skye, você me preveniu desse direito. Agora arque com as consequências.

Eu demorei um segundo para processar, e assenti. Farah não era de dar ordens, mas ela conseguia ser bem firme quando precisava.

—Ei, podíamos ir na canoa! Faz um tempo que a gente não anda nela — e antes que eu pudesse dizer algo mais, ela me puxou mais uma vez pelo caminho de pedras, até que chegássemos a beira do lago onde uma canoa e dois remos descansavam.

A canoa costumava ser do pai dela, que ele usava para pesca. Com o tempo, ele parou de usar e deixou que a gente utilizasse como lazer. Ela já estava meio antiga, mas ainda executava sua função sem mujtos problemas.

Nós a empurramos juntas até estar totalmente flutuando no lago, subindo nela em seguida.

Farah se ofereceu para remar junto, mas eu neguei. Era o aniversário dela afinal.

Comecei a remar nos distanciando da beira. Quando me pareceu uma distância boa, parei de remar e ficamos em silêncio, observando a natureza ao nosso redor.

Era primavera, as flores tinham desabrochado e muitas das árvores que ficavam a beira do lago estavam cheias de folhas. Pássaros cantavam aqui e ali, e podíamos vez ou outra flagrar umas borboletas e libélulas voando acima do lago.

—Skye — ela chamou — Obrigada por ter estado sempre aqui comigo.

—Disponha, na verdade, sou eu quem tenho que te agradecer.

Ela me olhou com um semblante confuso.

—Se não fosse por você, eu e meu pai estaríamos falidos e provavelmente sem um lugar para morar agora. E também… — eu soltei os remos e os deixei de lado para segurar uma de suas mãos — Eu não teria conhecido minha melhor amiga.

Ela sorriu e entrelaçou os dedos nos meus.

—Sobre isso… — ela virou a cabeça para analisar se alguém nos via. Quando se certificou que não, voltou a me olhar e selou os lábios nos meus.

Subitamente o mundo parou. Éramos só nós duas naquele instante.

Farah tinha um gosto doce, e não era só pelo doce anterior.

Ela em si era a pessoa mais doce que eu já conheci.

Quando nos separamos, o tempo ainda parecia lento, estávamos ambas tentando processar o que tinha acabado de acontecer.

E eu particularmente estava um pouco descontente de ter acabado tão cedo.

—Eu já vinha pensando em te dizer isso faz um tempo, mas eu nunca encontrei um jeito melhor que esse, então eu achei que…

E eu a beijei de novo. E de novo, e de novo.

Deuses, por que eu tinha demorado tanto?

A canoa balançou, e nos desequilibramos.

—Se continuarmos vamos cair — ela avisou, sorrindo.

Não era um sorriso comum. Eu conhecia aquele tipo de sorriso muito bem.

—Farah, não.

Era tarde demais, ela balançou a canoa para o lado e mergulhamos na água gelada no lago.

Quando emergimos, joguei um esguicho de água nela.

—A gente vai levar uma bronca de novo!

— Mas vai ser por um bom motivo, não?

Não tinha jeito. Em hipótese alguma eu ficaria irritada com ela. É como se ela tivesse uma magia sobre mim que eu não fazia ideia de como vencer.

E na verdade, eu nunca quis.

♤♡♤♡♤

Doze anos depois, os pais de Farah decidiram comemorar os 20 anos de casados com um baile de máscaras.

Era noite quando a festa começou, e os convidados chegavam aos montes. Garçons rodeavam o salão de festas da mansão segurando bandejas com champagne caro e petiscos refinados dos quais muitos eu mal sabia o nome.

Os pais estavam reunidos em um canto do salão, conversando com alguns membros da família. Farah parecia ansiosa ali, como se a qualquer momento fosse implodir. Os parentes diziam algo a ela e ela retribuía com um sorriso não genuíno.

O sorriso e os olhos eram as únicas partes vísiveis do seu rosto. A máscara de raposa escondia todo ele da metade do nariz para cima.

O vestido que usava também remetia a uma raposa pelas cores, era de um laranja voltado para o bronze, com as camadas de baixo se tornando mais claras.

Eu a analisava de longe, em uma das portas fechadas que davam acesso ao restante da casa. Sabia que eu deveria manter a posição, pois meu pai também estava ali em algum lugar.

A única coisa diferente em mim era minha máscara de lobo, de formato semelhante ao dela.

Não demorou para que ela se enchesse e me fizesse um sinal de longe, indicando que estava saindo do salão. Assim que ela saiu pela porta da outra extremidade do lugar, eu saí pela minha e a procurei pela casa.

Ela estava do lado de fora, escorada em uma das paredes.

—Eu estou exausta. Juro! Eu, Farah Jenkins, admito que preciso de um tempo para respirar.

Não consegui evitar de sorrir.

—Nossa, nunca imaginei que estaria viva para escutar isso — brinquei.

Ela me deu um soquinho no braço.

—Está meio frio, não é? — ela abraçou a si mesma.

Não resisti, e quando vi estava estendendo meu casaco do uniforme para ela, que aceitou sem pestanejar.

—Não é tão bonito, mas é quentinho — brincou. — Você me disse que não poderia mais vestir minhas roupas, mas ninguém disse que eu não poderia vestir as suas — ela sorriu, divertida.

—Tem razão — concordei, e ela se aconchegou mais no agasalho.

—Será que vai ser assim em todas as outras comemorações? — indagou, observando o céu acima de nós.

—É provável.

—E você vai estar comigo em todas elas, né? — ela se posicionou à minha frente e segurou meu rosto com ambas as mãos.

—Com certeza — sem que eu percebesse, minhas mãos pararam em sua cintura.

Ela me beijou com calma, como se tivéssemos todo o tempo do mundo só para a gente.

Eu não tinha certeza do que tínhamos desde a primeira vez em que nos beijamos, mas com certeza apenas amizade já não era mais suficiente para definir.

—Foge comigo — ela sussurrou, temendo que as paredes ouvissem.

—Farah, eu…

—Não diga que não pode. Isso eu já sei. Mas não era você que me disse que onde eu estivesse, você também estaria?

—Sim mas… — eu suspirei. Talvez a hora de revelar tinha finalmente chegado. — Eu estou aqui justamente para te impedir disso.

Seu semblante rapidamente se tornou sério.

—Como assim?

—Seus pais me contrataram não só para te fazer companhia, como para te impedir de fugir também. Sinto muito por não ter te contado, a questão é que… Eu jamais te impediria e eu faria de tudo para ir com você.

—Então vamos. Vamos hoje à noite, quando meus pais forem dormir. Você distrai os guardas, eu saio e você vem logo depois, e ninguém mais aqui vai nos ver de novo — ela não parecia mais abalada. A vontade de sair dali era tanta que nada mais importava.

—Acho que devemos planejar melhor nossa fuga antes.

Ela ponderou por um momento.

—Tudo bem, mas assim que estiver tudo acertado partiremos.

—Fechado.

Mais tarde na mesma noite, eu quase dormia na guarda do quarto dela quando ela abriu a porta e me puxou para dentro.

Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, ela me guiou até a cama e adormeceu ao meu lado.

♤♡♤♡♤

O plano para nossa fuga demorou um pouco mais do que o esperado.

Dois anos após o baile, estávamos prontas para colocá-lo em ação.

Durante esse tempo, mantivemos não levantar nenhuma suspeita e passar os últimos dias na mansão que, de certa forma, foi o meu lar por muito tempo também.

Ela decidira não levar nada além das roupas do corpo, e eu optei pelo mesmo. Nós estaríamos recomeçando nossas vidas, e seria bem longe dali.

Passava de meia noite quando Farah saiu do quarto, vestindo um vestido simples e os cabelos soltos. Ela assentiu, e partimos para a próxima parte do plano. Eu fui na frente, passando pelos outros guardas e mentindo que eles eram necessários em outra parte da casa. Quando não havia mais ninguém, acenei para Farah que observava escondida.

Juntamos as mãos e corremos até a canoa, desesperadamente a jogando na água, como se não aguentássemos um segundo mais sequer naquele lugar.

Estava acontecendo. O dia que a gente mais esperara por tanto tempo tinha finalmente chegado. Fay não conseguia evitar de sorrir, e eu, vendo ela mais feliz do que jamais esteve, sorria também.

Nós seríamos livres, só eu e ela contra o mundo.

Todas as vezes que ela me disse que planejava sair daquela casa passaram na minha mente como um flash. Quando ela disse que queria atravessar os oceanos, que queria ir aos lugares mais remotos do planeta, porque ela dizia que lá poderiam ter tesouros escondidos.

Quando disse que queria se sentir em casa com um outro povo, degustando de comidas com temperos que mal sabia pronunciar. Estudar idiomas que ela nem conhecia, simplesmente pela vontade de aprender.

Ela queria conhecer Londres, Tóquio e Cairo, tudo ao mesmo tempo, mesmo sabendo que teria todo o tempo do mundo.

Quando passamos do limite do lago que costumávamos ficar nos nossos passeios, Farah começou a tossir.

Ela nunca tossiu. Farah jamais ficou doente desde que nos conhecemos.

—Tudo bem? — perguntei.

—Tudo, deve ser só o frio.

Eu parei de remar por um momento para oferecer meu casaco para ela, que aceitou sem relutar.

Quando chegamos no lado oposto do lago, desembarcamos e deixamos que a canoa fosse levada com a água.

Um vento forte soprou, e a canoa logo desspareceu de vista. O lago se agitou, e por um momento, pensei tê-lo escutado sussurrar para voltarmos.

E por um segundo, eu concordei.

Fay tossiu mais um pouco, e dessa vez pude notar o sangue que se acumulava na palma da sua mão.

—Farah você está sangrando! — ignorei todo pensamento que me ocorreu para fingir que estava tudo bem, porque não estava — Não acha melhor…

—Não — interrompeu e linpou o sangue fresco no vestido — Quando chegarmos na estrada partiremos para um hospital. Por enquanto, vamos continuar. — Ela tomou a frente, sem nem me olhar nos olhos.

Eu não tinha notado que em algum momento da nossa fuga começara a chover. A terra se tornava lama, o que dificultava andarmos sem correr riscos de escorregar. O som das corujas havia cessado. O chiado das gotas era a única coisa que ouvíamos.

Com cuidado, chegamos a uma clareira, e dali podíamos ver que era somente mais uma fina parte de floresta antes da estrada.

É como se eu estivesse sendo atraída por ela. Como se chamasse por mim.

—Estamos chegando Fay! Estamos quase… — eu virei para trás para comemorar com ela, quando a notei no chão e meu coração por um instante parou. — Farah!

Corri para ajudá-la e a apoiei no meu colo. Ela parecia ter desmaiado, tendo em vista que ela parecia mais pálida do que costumava ser.

Ela acordou com dificuldade, os olhos não conseguindo se abrir completamente.

Foi quando notei seu nariz começando a sangrar, seus ouvidos e seus olhos logo em seguida, como se estivesse chorando sangue. Os olhos estavam tão vermelhos que era difícil identificar onde começava a íris.

Eu fiquei sem reação. Eu tinha treinamento de prontos socorros em caso de uma emergência, mas eu nunca tinha visto algo assim.

Coloquei a mão sobre sua testa.

—Deuses Fay, você está ardendo em febre.

Fay continuou tossindo, mais fracamente, como se seu corpo não tivesse mais forças para isso. Sua respiração também desacelerava.

—Farah — chamei, mas ela não reagiu. Ela olhava fixamente para seus pés na grama — Farah, você precisa ficar comigo, está bem? A gente está quase chegando — enxuguei algumas de suas lágrimas de sangue.

Ela continuou parada. Parecia doloroso para ela até mover o olhar.

—Dói — ela murmurou, a voz fraca. Seu corpo começava a dar indícios da febre, suando e tremendo — Faça parar, por favor.

O sangue escorrido já começava a manchar seu vestido.

—Eu vou te levar até o hospital, ok? Mas preciso que continue acordada — ela assentiu brevemente, e eu reuni toda a força do meu corpo para pegá-la no colo.

Ela era leve, e isso ajudou para que atravessássemos a clareira mais rápido.

—Skye… Não vai dar — sua voz já estava rouca.

—Vai dar. Olha, a estrada é logo ali, chegar e pegar uma carona até o hospital vai ser rápido, só precisamos…

—Tudo bem, a gente tentou.

—Não é assim Farah. A gente não vai desistir. Nem eu, nem você.

—Pode me colocar no chão? Por favor, estou com frio.

Eu ajoelhei e apoiei seu tronco no meu colo, enquanto as pernas descansavam na terra.

—E se isso aconteceu com o meu irmão?

As lágrimas desciam pelo meu rosto. Eu não sei em que momento elas começaram.

—Ele deve ter se sentido tão sozinho… Deixado para morrer…

—Não temos como ter certeza disso, Fay — soluçei.

—Aquela casa deve ser mágica. Se eu e ele não tivéssemos saído, podíamos crescer lá e ter superpoderes, você não acha? — ela levantou a cabeça para me olhar.

Mesmo naquela situação, ela não deixava de ser criativa.

Mesmo naquela situação, ela continuava sendo positiva.

Seu olhar expressava algo que eu não sabia dizer o que era. Talvez minhas lágrimas dificultassem que eu observasse melhor também.

Eu amo você — disse com um sorriso fraco.

Seu peito parou de subir e descer e seu olhar parou, uma última lágrima escorrendo do seu olho direito sendo enxugada pela chuva. Seu corpo parou de tremer e ficou rígido.

E eu chorei. Chorei tudo aquilo que eu evitei todos esses anos sem que percebesse. Para parecer forte para ela, para meu pai, para mim.

Eu nunca achei que merecesse ser amada, e a prova contrária disso estava em meus braços, sem vida.

E não havia nada que eu pudesse impedir. Ou havia?

Tinha sido minha culpa. Ela morrera por minha causa.

—Me desculpa, me desculpa, me desculpa… — eu pedi, encostando minha testa na dela, já muito mais fria do que estava minutos atrás.

Os anos anteriores passaram pela minha mente como um filme, lembrando-me de todos os momentos que compartilhei com ela.

De todas as vezes que cozinhamos juntas e fizemos um estrago na cozinha. De quando tocamos piano juntas e eu tentei ensiná-la, sem sucesso. Das festas do pijama em que pulávamos na sua cama até cair de sono. Do seu aniversário de dez anos quando ganhou uma orquídea e chorou por uma semana porque tinha esquecido de regá-la e ela havia morrido. Da vez que dei uma das flores do jardim para ela, e ela colocou acima da orelha e deixou lá até que a flor murchasse.

De quando ela me ensinou a dançar na biblioteca, a luz do sol nos vitrais fazendo parecer que estávamos em um teatro. Das vezes em que ficávamos a tarde inteira lá enquanto ela me contava as histórias dos livros que leu naquela manhã.

Eu me lembrei do livro que ela me contou, da garota com a casa de janelas de cristal, e de como ela achava que era parecida com a protagonista.

Uma sensação estranha passou pelo meu corpo.

É como se, todo esse tempo, o livro fosse um aviso.

E nós o ignoramos, porque parecia absurdo demais.

Eu finalmente entendi o receio dos pais dela, do porquê a ideia de sair além do quintal os assustava.

Aprendi isso da pior forma.

Ela havia morrido sem saber que eu a amava tanto quanto ela, que eu a amava tanto que chegava a doer.

E ter a perdido doía mais que qualquer outra coisa.

—Eu também te amo — admiti, mas era tarde demais, e minhas palavras voaram com o vento.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!