(crônica) - Magia

1 Capítulo 1 - São Paulo


Na minha humilde opinião, magia não é tirar um coelho da cartola, ou escapar milagrosamente de um tanque cheio de tubarões com as mãos amarradas por 5 cadeados nas suas costar. Magia é aquilo que transforma pequenas coisas imperceptíveis em grandes belezas.

Hoje, eu, uma paulistana emigrante já faz 4 anos, consegui enxergar a magia na minha pacata e pequena cidade. Estava no trânsito, garoando do jeito que há muito não garoava tipicamente. E foi sim, um momento mágico: as luzinhas que estavam no horizonte brilhavam como pequenas e milhares de estrelas, que refratavam nas gotículas de chuva de modo que elas pareciam piscar, ir para perto e para longe, numa dança louca de luzinhas de casas e carros.

Alguém menos romântico diria que eu estava vendo beleza em um congestionamento, e em velas que brilhavam de uma favela. Eu prefiro somente pensar que eram vagalumes e pequenos diamantes, nada mais. O momento é meu, e eu idealizo e fantasio o que a minha mente me manda.

Existem algumas outras coisas que pensando bem, também são mágicas e que você só percebe se já tiver morado aqui. Como por exemplo, padarias.

Em São Paulo existem muitas padarias, e elas para mim evocam um sentimento de aconchego. Você entra e vê uma infinadade de pães, docinhos, doções, de cores e sabores variados. As pessoas, sentadas no balcão soltam \"Me vê um café com leite e um pão na chapa.\", para o qual o atentente replica \"É pra já senhor.\" Do lado, uma pessoa que está vendo um dos clássicos paulistanos na TV de 17 polegadas pendurada no teto solta \"Ah, mas esse time está muito ruim!\". E sim, isso basta para mais umas duas pessoas no mínimo se entrometerem no \"pensamento alto\" do distinto senhor e comecarem todos juntos uma mesa redonda.

Ah, eu acho isso mágico. Simplesmente a padaria tem o poder de juntar pessoas. E você realmente só percebe esse fenômeno quando você volta para São Paulo, depois de uma \"temporada\" em algum outro lugar do Cosmos.

A garoa, única e isolada, também é mágica. Tanto que apelida a cidade, e é imortalizada em muitos sambas tradicionais. Apesar de andar sumida nesses últimos tempos, ela não está menos encantadora. Hoje mesmo, eu senti a garoa na pele enquanto andava (para uma padaria). A garoa que mesmo muitíssimo fina ainda pode ser sentida, gota por gota, na pele, e que não deixa você molhado, mas úmido, grudento. Ah, mas dá uma imensa vontade de ficar sentindo as gotículas baterem na sua pele, e olhar para o céu, e sentir, só sentir o delicioso spray de água divinamente abençoada pela noite.

A noite, sim, parece que traz magia para a cidade em si. Ela, a noite, ganha vida própria. As ruas grandes se enchem de letreiros, carros, motos, ônibus, lotações, pedestres, moradores, espectadores, prostituras, vendedores ambulantes... As alamedas e ruelas, ficam escuras e macabras, silenciosas e aparentemente mortas. Mas em uma cidade onde nada para, nada está morto. As ruas estão vivas, as luzes estão vivas, em uma dança que nós humanos fazemos diariamente em nossas pacatas rotinas, um a um, sem ao menos saber.

E tudo isso, TUDO é mágico.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.