conversa de beco

10 tempestade de verão


eu ainda lembro daqueles verões

quando eu tinha 8 anos

uma tempestade

a chuva no telhado

os cães no piso da cozinha

as luzes todas apagadas

as velas à mesa

o silêncio

eu sinto falta do silêncio

o silêncio era calma

na maioria das vezes, pelo menos

às vezes era só uma distração

antes da tempestade de verdade começar

aquela tempestade

eu só sumia

ou tentava sumir

minha mente sumia

ele vinha

e eu acordava

com o rosto quente, molhado

marcas vermelhas

se tornavam arroxeadas

esverdeadas

e todo mundo me dizia

que eu exagerava

que aquilo era amor

amor

amor

amor

a gente repete a palavra até não fazer mais sentido

eu nunca sabia quando a tempestade ia começar

hoje eu sei

foi há pouco tempo

que eu prometi à mim mesma que aquela tinha sido a última vez

que eu te deixava encostar em mim

e Deus te ajude

se tentar de novo

eu fugi

não pra me proteger

mas pra não te machucar

porque eu não sou como você

a rua escura à meia noite

gritou pra mim:

“nunca mais”

o ponto de ônibus onde eu dormi

gritou pra mim:

“nunca mais”

o posto de gasolina,

os postes de luz,

o meu estômago embrulhado,

machucado

os hematomas,

o sangue,

tudo gritou pra mim:

“nunca mais”

nunca mais.