mel

minha língua anseia por mel,

por doçura,

por vida

minhas mãos tremem,

minhas pernas vacilam,

minha cabeça gira

e gira

e gira

em torno da mesma meia dúzia de pensamentos

em que eu me fixo o dia todo

diminuir,

sumir,

desvanecer

minha carne já é fraca de tanto implorar por carne

minha pele já é pálida de tanto implorar por cor

e minha cabeça já cansou de tanto implorar por paz

não tem um momento no dia

em que eu não esteja pensando nele,

no bicho cinza

enjaulado pelas minhas costelas:

ele rosna,

dói,

se contorce

e parece que as vezes

ele escala pela minha garganta

tentando sair

pobre bicho

morro de medo dele

mas também morro de pena

sozinho lá dentro, vazio

perecendo aos poucos

levando o meu corpo junto

não é culpa dele

bicho querido,

eu juro que vou tentar fazer as pazes contigo

assim que eu descobrir como parar de te maltratar

você foi minha primeira casa,

e é a única que eu tenho

não desiste de mim

algum dia essas mãos finas e ásperas

vão parar de tremer

algum dia esses pulsos translúcidos,

de rios azuis e roxos

vão ganhar outras cores

algum dia eu vou ficar de pé sem perder a visão,

vou passar os dedos pela cabeça sem perder o dourado,

caminhar a cidade inteira sem perder o fôlego

prometo