é algo que eu não devia ter feito

é o que eu penso
(tarde da noite
no ponto de ônibus)

(com a vergonha queimando a garganta
mais ainda que o cigarro)

é algo que eu não devia ter feito

que ninguém devia fazer
mas que se faz com tanta frequência

(a gente nunca sabe
até estar lá)

o instinto de me defender pula assim
que nem um bicho no estômago

o instinto de justificar
de falar que a culpa é sua
que a culpa é da solidão
que é culpa da falta de atenção
que a culpa é do mundo inteiro exceto minha

(quando foi que eu me tornei essa criatura
que trai)

é, a palavra é essa

traição

me soa tão feia
e é feia sim
horrível

mas o ato é ainda pior

a vibração que eu ainda tenho na pele
as ligações dele que eu tenho no registro do celular
é tudo pior do que esses mil pensamentos
pior do que essa palavra assustadora

(eu me lembro do tempo em que a palavra amar era o que assustava a gente)

mas trair
ah, esse é o monstro de verdade
mas tem um ainda pior
que por enquanto eu me recuso a pronunciar

é aquela que faz a gente tremer
é a que dá um calafrio que sobe da base da coluna até a ponta da língua

mentira.


o ônibus não chega.
acho que o último já saiu.