.borboletas de inverno

1 .você quer ir comigo?



As mãos de Harry Potter suavam frio. Aquela era certamente uma péssima ideia, péssima o suficiente para ele dizer a si mesmo que era melhor nem contar a Rony e Hermione. Talvez ele devesse repensar, podia se concentrar em sua aula de poção, e fingir que não estava desidratando de nervosismo. Seria o mais prudente a fazer, a vozinha que ele costumava ignorar todas as vezes que se metia em encrenca — geralmente chamada de consciência -, chiava como um grilo dentro de sua cabeça.

É uma péssima ideia. Uma péssima ideia, lamentava enquanto mexia seu caldeirão sem prestar atenção nenhuma no que fazia.

— Senhor Potter, se considera poções uma matéria tão entediante para um campeão do Torneio Tribuxo, receio que deveria retirar-se da sala de aula o quanto antes. – Snape chamou sua atenção, fazendo as orelhas de Harry esquentaram ao ouvir a risadinha feminina logo mais a frente.

É uma péssima ideia, Harry dessa vez estava realmente afirmando.

Draconia Malfoy o odiava. E lá estava ele, o idiota refletindo se deveria convidá-la para o baile de inverno. Ele devia ter enlouquecido depois daquele dragão, não havia explicação mais plausível. Draconia Malfoy e ele tinham desavenças atrás de desavenças desde o primeiro ano, quando Harry recusou-se a apertar a mão da menina, selando uma amizade; ela havia falado mal dos Weasley, uma família que ele imediatamente tomou simpatia (que permanecia até hoje), e desde então, um sabotava o outro.

Contudo, nas últimas semanas desde que retornaram a escola, Harry passou a observar a Malfoy de maneira diferente. Ele não sabia ao certo que palavra usar para descrever essa mudança, diferente parecia suficientemente bom. Ninguém havia notado (bom, talvez Hermione ou os gêmeos, mas até agora não tinham comentado nada), e que bom, pois Harry já havia brigado com seu melhor amigo devido a súbita entrada no torneio, não queria brigar com ele por, só um exemplo que certamente não configura nenhum tipo de realidade, apenas uma hipótese – favor, frisar hipótese, pois certamente não aconteceu –, sonhar estar beijando a sonserina em questão.

Rony morreria de desgosto, Harry sabia que sim. Imagine só, seu corpo frio diante dele e Harry tendo de explicar aos irmãos e aos pais dele o motivo para o rapaz ter tido um piripaque aos catorze anos.

Eu não vou fazer isso. Harry decidiu assim que a aula terminou, abriu um sorriso tranquilo e aliviado, e saiu andando com os livros embaixo do braço. Ah, sim, ele não faria isso de maneira alguma! Tolice e pensar em algo tão insano. Evitaria fazê-lo novamente, talvez devesse convidar Cho Chang ao baile, era muito mais pru-

— Você tem dois minutos antes de eu azará-lo, Potter! Por que está me seguindo? -dente... espere, um segundo.

— Como? – Harry estava completamente desacreditado consigo mesmo.

— Está me seguindo desde que saímos da sala – resmungou, claramente irritada, cruzando os braços e batendo repetidamente um de seus pés sobre o chão –, a menos que tenha me confundido com a Granger, o que me deixaria profundamente ofendida, imagino que não tenha motivo para isso.

Céus. Harry era completamente idiota. Completamente! Enfrentar um dragão certamente afetava o funcionamento sadio de sua cabeça. Pare de considerar isso. Pare de considerar isso. Você para, Harry Potter!

— Eu, hmm – Harry mordeu a língua para não falar o que pretendia, pois sabia que seria imediatamente rejeitado. Oh, Deus...

— Consegue ser mais patético que seu amiguinho Weasley – provocou – Desaprendeu a falar, foi?

Ela era tão irritante! O que ele via nela? Tudo bem, que ela parecia ainda mais bonita que nos anos anteriores (não que ele já tivesse parado para reparar nisso, tsc, seria ridículo) – os cabelos batiam no meio das costas, mas estavam presos para trás através de uma trança, com apenas alguns fios claros caindo delicadamente sobre a face extremamente pálida, os olhos cinzentos estavam elegantemente ornamentados pelos cílios não tão longos, porém muito cheios, e agora Draconia Malfoy usava gloss, deixando seus lábios rosados sempre brilhantes e com um aspecto úmido que fazia Harry sentir coisas estranhas que ele não sabia explicar. Mas ainda era Malfoy, a garota mais babaca que Hogwarts já viu, a que fazia questão de fazer cara feia toda vez que ele ou seus amigos passavam.

Nunca que Harry ia convidá-la, ia só dar meia volta e ir embora como se nada tivesse acontecido.

— Quer ir ao baile comigo? – espera...

— O que?!

— O que?

— O que você falou!

— O que foi que eu falei?! – Oh, Oh! Escapuliu! Sua maldita boca!

— “Quer ir ao baile comigo?” – Harry demorou um pouco para processar que ela estava repetindo o que ele falou, e não convidando-o para ir com ela.

— Ah... – Harry encarou os próprios pés, corado e mordendo o lábio inferior pelo constrangimento – Eu, er, já vou – disse dando as costas para ir embora antes que as piadas começassem a surgir, não estava em condições para aquilo.

— Você é muito estranho, Potter – ela bateu a mão na própria testa – Você não deveria esperar a minha resposta?

— Mas eu já sei a sua resposta – Harry rebateu, voltando a olhar para Draconia.

Ela estava corada também. Muito mais que ele. Mas Harry imaginou que isso se devesse a palidez da garota, então nem deu muita atenção. Os punhos dela estavam cerrados, os braços paralelos um ao outro, e ela mudava compulsivamente o peso do corpo de uma perna para a outra a cada três segundos. E sim, ele contou.

— Já, é? – Estranhamente, aquele não era o tom sarcástico e jocoso de sempre.

Harry assentiu, estranhando aquele comportamento.

— Olha, Malfoy, eu te convidei, sim, e daí? – Já estava todo ferrado mesmo, que diferença faria falar o que queria? – Mas eu não estou nem a aí se você não quer, foi só um pedido idiota para um baile idiota. Eu não ligo! – resmungou.

Draconia balançou a cabeça negativamente, e então revidou os olhos.

— Mas eu ia aceitar.

— Está bem, esta bem! Eu não ligo para o que você pensa, eu já estou indo embo- como é?! — Ele ouviu direito? Não era possível! Até se aproximou mais dela para ver se não era algum tipo de ilusão – Você quer ir comigo?

Ela encarou os próprios pés, lamber os lábios e engoliu a seco.

— Sim... – sussurrou, mas logo levantou a voz – Mas não pense que é porquê eu gosto de você ou algo assim! Eu ia com o Blaise ou o Theodore, mas os dois já tem par e eu me recuso a ir com Crabble ou Goyle!

Harry deu um sorriso idiota, e algo dentro dele se remexeu, como se lagartas se tornassem borboletas dentro de seu estômago. Estranho, meio nojento, mas curiosamente bom. Ele coçou a nuca, bagunçando ainda mais os cabelos indomáveis, e ajeitou os óculos.

— Então... a gente se vê lá? – perguntou receoso.

— Pode ser – ondulou a ponta da trança com o dedo, mas logo soltou para apontar para Harry – E é bom que você saiba dançar bem, pois não quero passar vergonha! E outra: é bom não usar nada ridículo! Se aparecer com uma daquelas gravatas toscas de bolinhas eu enforco você com ela, entendeu bem?!

Harry balançou a cabeça positivamente, rindo, quase gargalhando, as borboletas pareciam fazer festa em seu estômago, e então ele saiu correndo dali, ao notar que se atrasaria para a próxima aula. Despediu-se da sonserina com um aceno de mão e um grito bastante informal de “tchau”, com um sorriso radiante estampado em sua face.

Harry estava tão disperso com seus próprios pensamentos, que nem notou o sorriso tímido desenhado no rosto fino e aristocrático de Draconia Malfoy, que, com os olhos cintilando, deu meia volta e seguiu seu próprio caminho.

Ambos não podiam estar mais felizes e satisfeitos (ainda que não admitissem em voz alta), e só lhes restava uma única preocupação que ignoraram o quanto fosse possível: será que Ronald Weasley ia realmente morrer quando descobrisse?