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3 Terceiro
III
O sol era de rachar naquela tarde. Com o pessoal entrando na rotina de estudar novamente, o centro da universidade ficava quieto só de noite. Enquanto isso, os moradores da 12 estavam bem quietos, o calor não estimulava a falação.
Derick, em frente ao espelho, estava retocando a base em cima do olho roxo, como fez uma semana atrás. Esperava que ninguém tivesse percebido, mas sua maior preocupação no momento era sair lá fora e ter a maquiagem derretida no mesmo instante.
Além da aparência não convencional, tinha o hobby de se maquiar as vezes. Sua mãe ainda o condenava por isso até hoje, mas fazer o que, gostava disso e ponto.
Como tinha esquecido de trancar a porta do banheiro, alguém entrou repentinamente, dando um susto nos dois. Elliott, que o pegou no flagra, pediu desculpa baixinho e saiu dali sem graça.
Foram poucos segundos, mas suficientes para quase darem um mini ataque cardíaco no rebelde. Ele sabia que Elliott era pau mandado do Theo, que não poupava em se intrometer na vida dos outros apenas porque era o líder. Isso na visão de Derick, claro.
Se lembrava da última vez em que chegou com um braço quebrado na república, parecia até que estava sendo interrogado por um advogado.
Foi terminando o acabamento de qualquer jeito, indo pro quarto rápido. Deitou na cama e deixou o ar-condicionado no 17, o calor estava insuportável.
Como era sexta e não tinha aula a tarde, tinha nada para fazer, com tédio. Mas se lembrou da "Red" que ocorreria. Todo início de ano tem essa festa dos moradores para celebrar a entrada dos novos membros, que acontece num galpão aberto alugado.
Cada república contribui com um pouco, seja na organização, aluguel ou bebida. No total são quinze, mas a doze e a quatorze se destacam das demais. As duas, além de abrigarem beldades, tem um histórico de rixas e intrigas antigo. Os boatos correm pelas faculdades, indo de brigas de família até traições.
Essa é uma das poucas coisas que o rebelde não gosta da república, o preço de ser famoso entre os estudantes. Qualquer polêmica envolvendo eles, se espalhava como fogo pelo campus.
Derick, pela primeira vez, tentaria fazer as coisas direito, com um planejamento. Levaria Matthew pra festa, pediria desculpa e seria perdoado, curtiriam a desta e transariam bastante, fim. Estava com fé de que não tinha como dar errado seu pensamento.
Do outro lado do gramado, na república vizinha, Matthew tentava se concentrar na matéria, mas toda hora lembrava da discussão de antes.
Durante os dias que passaram, ignorou seu pseudo-namorado o máximo que pôde, teve até uma vez em que correu pro outro lado da rua. Se arrependeu um pouco de ter agido infantilmente assim e no máximo suas brigas bobas duravam algumas horas, mas aquela seria diferente.
Ponderou bastante, mas estava decidido: Aquela era a última vez que brigariam, era o término do namoro. Só não teve coragem de falar isso pro Derick naquele momento.
E falando em Derick, quando Matthew olhou a janela, o viu sentado na cama pelo vidro, mexendo no celular. De onde estava, conseguia ter uma boa vista do quarto dele.
Ficou encarando ele por um tempo. O idiota ficava só de cueca, perto da janela e sem fechar a persiana. Qualquer um que passasse ali podia ver ele seminu. Uma faísca de ciúme acendeu em Matthew. Era inacreditável como até em coisas bobas ele se sentia assim, gostava do rebelde até demais.
Resolveu fazer uma pausa na leitura pra refrescar a mente de todo esse conflito interno. Foi até o andar de baixo comer um sanduíche, e acabou vendo uma cena desagradável.
Os namorados mais famosos da república estavam aos beijos, no meio do cômodo. Beijos entre aspas, claro, porque parecia mais é que iriam transar ali mesmo, ele estava praticamente tirando o sutiã da garota.
Matthew passou direto despercebido, indo pra cozinha, irritado. Odiava quando inventavam de fazer qualquer lugar da casa de motel.
Nicholas e Noah entraram na república, e também presenciaram a cena. Nick nem deu muita atenção, sendo que estava acostumado. Já o loiro, ficou encabulado e surpreso. Impulsivo como era, deixou a língua solta.
— Isso daqui não é filme pornô não, credo. — Disse sem pensar. Ele perdia a timidez nas piores horas.
Quando os dois pombinhos perceberam eles, trataram de ajeitar as roupas e se recomporem. A mulher foi pedindo desculpa pelo que tinha acontecido, afirmando que se envolveram tanto que nem perceberam onde estavam.
Na hora em que bateu o olho no homem, Noah lembrou de já ter visto ele antes. Era o cara de mau humor na lanchonete, onde tropeçou nele no primeiro dia.
E pelo visto ele também se recordou, porque que olhava com cara feia para o calouro. O comentário desnecessário dele também não ajudou em nada.
— E o que você tem a ver com isso? Nem é dessa república. — Respondeu ignorante.
Ignorando a provocação para evitar problemas, a dupla foi pro quarto de Nick logo, escapando da situação constrangedora. Se bem que, de culpa, eles não tinham nenhuma.
Mal entrar no quarto e Noah já perguntou quem eram os tarados da sala.
— Seth e a namorada dele. É normal esse tipo de coisa acontecer por aqui. — Disse num tom normal, pegando os materiais na mochila.
Um tanto perplexo, ele continuou a questionar.
— Por que o líder de vocês não faz nada?
— Mas ele é o líder. — Respondeu, o cortando logo. — Vamos começar logo a pesquisa? Quero encerrar esse assunto. — E um pouco grosso também.
Percebendo o desconforto do outro, parou de insistir no assunto, por hora. Noah ainda tinha muitas coisas pra falar e a garganta coçava.
Eles começaram a fazer o trabalho, mas depois de dez minutos, o novato não se aguentou, e fez outra pergunta.
— Vocês tem rixa com a minha república? — Parou de escrever e olhou para Nick.
— Isso é antigo, quando Oliver tava aqui. — A palavra-chave escapou sem querer, e a curiosidade do novato só aumentava. — E quem é esse tal do Oliver? O que esse cara tem?
— Ai, Noah. Olha, vamo mudar de assunto, por favor. — Suspirou, fechando o livro, começando a ficar nervoso.
— Mas é injusto eu não saber dessas coisas. — Falou emburrado. Tentou novamente, mas é interrompido por uma pessoa na porta, que entrou antes de bater.
— Oi oi, desculpa o incômodo, só queria dar um recadinho! — A namorada do líder apareceu, aparentando ser simpática. — Você é o novato da 12, né? Eu sou a Summer, desculpa de novo por lá em baixo.
— Tá. — Nada simpático, o loiro foi simplista na resposta, deixando a ruiva sem graça. Nick segurou o riso, a cara apática que o Noah fez foi muito icônica.
— Então... — Tossiu. — Vai ter uma red das repúblicas daqui a algumas semanas, e eu sou a responsável, esqueci de te contatar. Mas enfim, Noah, espero que possamos nos dar bem no ano letivo, e sermos ótimos amigos. Tchauzinho! — Disse tudo sorrindente e saiu avoada, do mesmo jeito que entrou.
O discurso meia-boca ensaiado que a garota disse não convenceu muito o loiro. Ela parecia uma Barbie com o sorriso carimbado na cara, e deixou Noah sem saber o que diabos era uma Red. Somando com tudo isso, também tinha a impressão de que ela exalava certa falsidade no ar.
A partir daí eles se concentram de verdade na pesquisa, deixando de lado os outros assuntos. Falar sobre intriga era interessante, mas a física os chamava.
∆
Cole abotoava a calça, estando vestido novamente. O seu parceiro, que o nome era irrelevante, o ofereceu um cigarro após a transa, mas recusou.
Saiu da república alheia, na qual nem lembrava qual era o número. Mas não fazia diferença, também. Para ele, o que importava era o sexo e pronto.
Teve que tampar os olhos com a mão ao pisar na grama aparada, a claridade era muito forte. Tudo o que queria era voltar pra sua república e tomar um banho gelado.
Chegoucomo se tivesse acabado de sair da água, mas era tudo suor. Foi direto pro banheiro, e entrou debaixo do chuveiro.
Durante o banho, passou a mão no pescoço e percebeu que o cara tinha deixado um monte de marcas.
Praguejou pra si mesmo, Cole tinha avisado bem claramente que não era pra fazer isso. E a transa nem tinha sido tão boa assim, pra início de conversa.
Demorou um pouco ali, não ligando em economizar água pro planeta. Era um mal hábito, tinha que se lembrar de parar de fazer isso.
Com a toalha amarrada na cintura, passou por Theo no corredor, indo até o quarto em que dividia com Owen.
Ele estava deitado, virado para a parede. Pensando em fazer uma surpresa, o moreno trancou a porta, indo até a cama, sorrateiro.
Montou em cima dele num salto, passando a beijar seu pescoço, esperançoso para o que viria a seguir. Mas, surpreendente, Owen negou fogo, dizendo pra ele sair de cima dele.
E ele obedeceu, sem entender direito.
— Que foi? — Disse confuso.
— Não se faça de desentendido. — Respondeu, tentando manter a calma.. — Você acabou de transar com uma outra pessoa, e vem fazer isso comigo, como se fosse a coisa mais normal do mundo?
— Ué, mas a gente não é namorado. E eu já tomei banho. — Fortificou seu ponto.
— Mesmo assim! Eu disse que não gosto disso, mas você repete a mesma coisa toda a vez. Nunca vai aprender a me respeitar? — Sabendo que se ficasse ali mais um minuto perderia a cabeça, saiu de lá apressado, longe de Cole.
— Ei, ei! Espera! — Tentou ir atrás dele, mas nem a pau que iria cruzar o campus inteiro só de toalha.
Quando pensava que tudo estava indo bem, não estava. Owen uma hora parecia ser o cara mais ponderado e calmo do mundo, e então ele tinha seus "surtos" emotivos, como esse. Era complicado Owen, e Cole também. A teimosia do último apenas dificultava.
Porém Cole, de fato, se sentiu babaca por ter pensado que perdeu mais uma transa. Owen, além de tudo, era seu melhor amigo, não um boneco pra satisfazer desejos. Foi vestindo suas roupas, enquanto o remorso batia forte nele. Pensava que em questão de horas, as coisas se resolveriam por si só, e voltariam ao normal. Típico pensamento Derickiano.
O celular em cima da escrivaninha vibrou, e ele foi responder. Era uma mensagem de um dos seus ficantes, perguntando se iria para a famosa red.
Chateado por ser tratado daquele jeito por Owen, Cole enviou que iria, e até ousou combinar compromisso com mais duas pessoas diferentes.
Foi inconsequente no calor do momento, e poucos minutos depois se deu conta de que isso iria só piorar sua situação com o parceiro.
Ele incrivelmente resolveu não desmarcar, já que tinha jogado a merda no ventilador, iria ficar assim.
O ano letivo mal tinha iniciado, e o drama já assolava a maioria dos membros. Mas os dias de maré alta não estavam nem começando para os da república 12. A forte tempestade ainda os aguardaria.
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