“Bella!”

“Olha aqui! Bella, um sorriso!”

“Bella, o que achou do roteiro?”

“Quanto tempo para o filme ficar pronto?”

Os flashes a cegaram assim que ela saiu do carro. Era algo novo – paparazzis a segundo não era algo com a qual ela teve que crescer tolerando –, mas a frequência com que era atacada recentemente a deixava completamente atordoada e farta.

Os lados negativos de ser uma das autoras mais famosas do mundo, ela supunha. Desde que seu livro teve os direitos comprados para ser transformado em um filme, sua vida virou de cabeça para baixo.

“Não pare para entrevistas hoje, Bella,” sua agente lhe havia orientado mais cedo.

“Vai ser difícil o programa então, Angie,” Bella brincou no telefone.

Engraçadinha. Quis dizer no percurso. Apenas sorria e siga em frente,” Angela continuou, e depois hesitou, antes de continuar. “Bella, sobre os outros convidados…

E então aconteceu. As coisas que lhe aconteciam desde sua adolescência, as coisas que a fizeram se mudar de Phoenix para uma das cidades mais chuvosas dos Estados Unidos.

Ela pegou no sono.

Literalmente. Sem exagero.

Bella simplesmente dormiu.

Ela sofria de uma condição não muito comum chamada narcolepsia. Mas não como os pais se referiam brincando sobre seus filhos adolescentes – “o tanto que esse aí dorme, deve ter narcolepsia!”, eles bradam em festas de família, sorrindo enquanto os jovens reviram os olhos e rolam a tela do celular para o próximo vídeo do TikTok.

Não. A narcolepsia de Bella era do tipo que ela dormia doze horas por noite, e ainda precisava de cochilos durante o dia. Pelo menos um. Era do tipo que, às vezes, ela apagava. No meio de uma frase, ou até mesmo em pé.

Uma hora funcionava, outra não.

Verdade, ela tinha conseguido controlar bem nos últimos anos. Mas era uma condição que tinha influência da psique, e com todo o estresse de ser uma nova famosa, com paparazzi a seguindo, tendo que dar entrevistas (ela, entrevistas!)... bem, ela não era de ferro. Voltara a sentir muito sono durante o dia, e tivera um ou dois episódios de ataques de sono.

Aquele era o segundo ou terceiro.

Como nos outros, não demorou muito. Alguns segundos. Mas definitivamente perdeu algumas informações que Angela lhe passou. Ela não sabia quanto, mas certamente eram coisas importantes. Angie não hesitava por besteiras.

Tudo bem mesmo, Bella?” Angela perguntou quando ela acordou. Bella tinha duas opções nesse momento: podia admitir que tivera um novo ataque, ou…

Ou…

Ou podia fingir que nada acontecera. Que ela não dormira. Que estava tudo bem, e encarar a falta de informação.

A segunda opção claramente foi a escolhida. Ela não podia contar para Angie que voltara a ter ataques – Angie faria com que ela parasse com a divulgação, e ela não queria isso, definitivamente. Ela queria continuar a promover seu grande orgulho, o resultado de sua frustração, de sua história de vida.

“Sim, sim, claro, Angie,” ela respondeu.

Obviamente, depois disso, ela dormiu por uma hora e meia. E depois se concentrou em se arrumar para o programa, o que incluía uma pessoa para lhe vestir, uma para maquiar e outra para o cabelo. Muito além do que estava acostumada. Mas claramente era sua nova realidade, e claramente era positivo, pois quando ela se olhara no espelho, mal se reconheceu.

E aparentemente, não era a única que apreciara, julgando pelo furor dos paparazzi que praticamente lhe impedia de passar para a porta do estúdio que lhe esperava. Quando Bella finalmente atravessou a porta, um funcionário lhe esperava para encaminhá-la à sala de espera dos convidados.

Ela murmurou junto com a música que tocava no elevador, como sempre sentindo a fisgada familiar no peito que acompanhava a melodia familiar. Três andares e uma conversa por educação depois, eles saíram num corredor longo, seguindo até o final onde uma porta estava aberta para uma ampla sala, bem iluminada. Nos cantos, mesas com algumas comidas, bebidas e café. Havia poltronas espalhadas, mas todos os convidados estavam de pé, em pequenos grupos espalhados pelo cômodo. O funcionário lhe sorriu, indicando a porta, e logo voltou pelo mesmo caminho.

Bella olhou ao redor, tentando identificar algum conhecido no grupo e falhando. Talvez Angie tivesse tentado lhe avisar justamente disso: que ela não conheceria ninguém naquela noite.

Não teria problema. Ela estava mais acostumada ao anonimato do que à fama. Sem chamar atenção, ela se encaminhou para uma das mesas que tinha café e estava vazia. Ela tinha dormido de tarde, sim, mas era sempre bom garantir um pouco mais de estímulo.

Pouco tempo depois, café num copo e um canapé na outra, duas mulheres se aproximaram, tendo a reconhecido. Bella ficou grata por também saber quem eram – faziam parte da banda do programa, e ela havia estudado isso após confirmar sua participação.

Não ficaram conversando demasiadamente; logo ela o programa começou e ela era esperada na poltrona do estúdio principal. Não estava sozinha com o apresentador – havia um influencer fitness de um lado, e uma atriz do outro.

Bella tentava fingir normalidade, mas obviamente estava nervosa. Era um programa ao vivo, e a ansiedade a fazia ficar preocupada em ter um ataque de sono – o que seria ruim, considerando que isso ela não conseguiria esconder de Angie.

“Bom, para ser honesta, eu nunca esperava que esse livro fosse sair do meu computador,” Bella disse quando lhe perguntaram de como surgira a ideia. “Tenho que agradecer a minha agente, Angela, por isso. A verdade é que eu tenho narcolepsia, e isso me causou diversos problemas quando eu era adolescente.”

Hoje em dia, ela não tinha mais problemas em falar sobre sua condição. Muito pelo contrário; ela aproveitava esses momentos para educar mais e mais pessoas sobre o assunto.

“A narcolepsia me frustrava muito na adolescência, porque atrapalhava meu desempenho na escola, e destruía minha vida social. Felizmente, tive a sorte de ter uma consulta com uma especialista, participar de um estudo e depois controlar melhor a doença. Consegui estudar Letras numa faculdade que tinha o curso noturno,” ela continuou, e olhou para a plateia. Conseguiu perceber olhares admirados; a maioria das pessoas não sabia que ela tinha feito faculdade, “e Angela estudava comigo. Um dia ela pegou meu computador emprestado e achou o arquivo. Ela me convenceu que era uma história que valeria a pena, depois de uma boa revisão. Juntas, revimos tudo, acrescentamos algumas coisas, tiramos outras… e daí surgiram os vampiros que não dormem.”

Quando ela se virou para o apresentador de novo, ela jurava ter visto um tom de cobre familiar, mas ignorou. Provavelmente era apenas impressão, sua imaginação lhe pregando peças – falar sobre seu passado definitivamente trazia ele à tona.

Com tanta coisa acontecendo, isso ficou jogado no fundo de sua mente. Não era nada. Bella se concentrou em responder as perguntas que lhe faziam, em rir na hora adequada e em interagir com os outros convidados.

Quando o apresentador anunciou que teriam um convidado musical especial, ela ficou animada – talvez era isso que Angie queria lhe dizer. Talvez fosse uma banda que ela gostasse!

O começo da melodia familiar não fora o suficiente para lhe fazer entender de imediato; da mesma forma que a música tocara no elevador, ela supôs que fosse apenas para entreter o público enquanto o convidado não aparecia.

Mas quando ele se levantou da plateia, cabelos cor de cobre espalhados desordenadamente, olhos verdes fixos nela e um meio sorriso mesmo enquanto cantava as palavras que descreviam perfeitamente o casal do seu livro – pelo simples motivo de terem tido a mesma inspiração para duas formas de arte diferentes.

Bem, ela tinha uma leve impressão de que o que Angie na verdade queria lhe dizer que o maldito convidado surpresa era Edward Cullen.

*o*o*

Bella se mudou voluntariamente. Aos dezesseis anos decidir ir morar com o pai em outro estado não era uma decisão fácil.

Geralmente.

A narcolepsia tinha dizimado o pouco de vida social que ela tinha em Phoenix, e até sua mãe – que geralmente não conseguia se concentrar o suficiente para notar coisas – havia percebido.

A mudança em si havia sido simples; duas malas pequenas, dois aviões e uma longa viagem de carro a deixaram na pequena casa em que Charlie, seu pai, morava desde sempre.

Renee havia se preocupado com a mudança. Ela temia que Bella não fosse se adaptar com o clima frio, chuvoso e completamente nublado de Forks, uma cidade minúscula em comparação ao que estava acostumada; que morar com Charlie depois de tanto tempo fosse deixá-la mais nervosa; que não fosse conseguir amigos do mesmo jeito; que o tratamento não fosse fazer efeito.

Como na maioria das vezes, sua mãe se preocupou sem motivos.

Bella precisou comprar poucas peças de roupa para complementar seu guarda-roupa, e depois que adquiriu o hábito de sempre sair com um casaco ou capa de chuva, o clima não lhe incomodou muito. Antes da narcolepsia, talvez a chuva lhe atrapalhasse de dormir – mas agora ela mal notava.

Morar com Charlie, na realidade, não era algo ruim. Ele e Bella tinham personalidades muito similares, e a introversão de ambos fazia com que

De fato, o tamanho da escola fora um baque logo que chegara – em seu ano em Phoenix tinha a mesma quantidade de alunos que todo o corpo acadêmico de Forks. Isso significou que a chegada de Bella foi comentada amplamente, e por onde ela passava, podia ouvir falando dela.

O primeiro a se apresentar foi Mike. Ela não estava acostumada com a atenção que ele parecia estar pronto para oferecer. Logo em seguida, Eric fez algo similar. Angela e Jessica também a acolheram na hora do almoço, e Jess se encarregou de lhe repassar tudo que podia – incluindo aquela família que chamava a atenção de todos.

Eric e Mike maneiraram em suas investidas, mas ainda assim Bella sentia a intenção de ambos. Sua amiga de verdade era Angie. Elas eram muito parecidas – em seus interesses, os livros que gostavam, os filmes que viam, como gostavam de ficar em silêncio e conseguiam apreciar a presença da outra.

Pela primeira vez, Bella não sentia que era a pessoa com menos amigos na escola. Os Cullen viviam isolados na maior parte do tempo – Bella reconhecia quando alguém propositalmente se colocava distante de outras pessoas, porque ela fazia exatamente isso em Phoenix. Não como se ela fosse ser popular, caso não tivesse escolhido ficar sozinha. Mas sempre ter um kindle em sua frente e fones de ouvido não eram convidativos para novos amigos.

Ela também sabia que se eles quisessem, os Cullen estariam rodeados de pessoas. Eles eram muito bonitos para o contrário, e pela quantidade de olhares na direção daquela mesa no canto da cafeteria, o resto da escola concordava.

Se Bella dissesse que não imitava o resto dos colegas, estaria mentindo. Desde o primeiro momento em que Bella viu Edward, se percebeu presa pelos olhos verdes e cabelo cor de bronze. Desde o primeiro momento, ela não conseguiu esconder o quanto Edward lhe intrigava.

Jessica ria, informando que ela não era a primeira a demonstrar esse interesse, e provavelmente não seria a última, mas Edward não se interessava por ninguém.

“Nem garotas, nem garotos,” Jessica lhe disse, com um sorriso irônico. “Já vimos muitos dos dois lados tentarem sua sorte, mas ele não deu muita bola. Aparentemente, só um piano lhe interessa.”

O tom de voz de Jessica fez Bella pensar que talvez a própria já tivesse, talvez, sido rejeitada pelo garoto.

Devido à introdução que Jessica fez, Bella esperava que a parceria deles na aula de biologia fosse ser, no mínimo, desconfortável. Ele estava sentado sozinho – um mau sinal – desenhando distraidamente no caderno à sua frente. Bella suspirou antes de se sentar ao seu lado, nada ansiosa pela próxima hora.

Mas ela se enganara. Edward fora completamente educado. Mais do que isso, quase amigável, se ela se atrevesse a dizer.

“Sou Edward Cullen,” ele se apresentou, os olhos verdes não deixando os dela em nenhum momento. “Você é…Isabella Swan?”

“Só Bella,” ela respondeu de imediato. Edward ergueu as sobrancelhas e sorriu.

“Só Bella, então,” ele replicou. “Sinto muito que tenha tido que fazer dupla com a sobra.”

Foi a vez de Bella erguer as sobrancelhas. Ela não chamaria ele de ‘sobra’.

“Eu que sinto muito por ter tido que ajudar a novidade,” ela replicou timidamente.

Ele abriu agora um meio sorriso, seus olhos ainda fixos nos dela.

“Garanto que não é nenhum sacrifício,” ele murmurou de volta. Bella desviou o olhar para o cabelo cor de bronze, a expressão divertida e o brilho nos olhos.

E ali ela percebeu que nunca esqueceria daquele sorriso.

Conversando com Angela, ela descobriu que parte do motivo pelo qual os Cullen eram tão excluídos era pelo tanto que se importam com música. Os cinco irmãos eram adotados (apenas Jasper e Rosalie eram irmãos de sangue – gêmeos), e como parte do processo para se adaptarem, foram colocados em aulas de música.

Isso fez com que todos tocassem algum instrumento – porém eram instrumentos de orquestra, não os populares. Faziam parte da Seattle Youth Symphony, então por vezes faltavam aulas para treinos e até mesmo concertos.

Além de serem bonitos (como era possível que cinco adolescentes adotados para a mesma família fossem tão bonitos?!), eram talentosos e promissores.

Ao fazer dupla com Edward na aula de biologia, Bella também descobriu que ele era um excelente aluno. Segundo Jessica, o mesmo era o caso dos demais irmãos, o que não os deixava nenhum pouco mais queridos para o restante do corpo estudantil.

“São nerds, gostam de música do século passado,” Jessica continuou, “não me espanta ficarem tão isolados. Aposto que só falam de música clássica e como são importantes.”

Como Bella descobriu, isso não era verdade. Edward, na realidade, nunca sequer mencionou que era um musicista talentoso em todo o tempo em que estavam juntos nas aulas de biologia – e em todo o tempo fora delas.

Foi justamente numa aula de biologia que a narcolepsia atacou Bella pela primeira vez em Forks. Naquele dia, a atividade envolvia tipagem sanguínea. Bella já não estava animada – não gostava nada de sangue – e isso a deixou cada vez mais ansiosa e nervosa.

Edward ao seu lado, sorrindo e lançando olhares furtivos nada furtivos em sua direção, não tornava nada fácil.

Num segundo, ela estava ali, alerta.

No outro, escuridão.

Quando ela acordou, estava sendo carregada por Edward. Sentiu o rosto esquentando de imediato.

“Graças a Deus você acordou!” ele exclamou, preocupado. “Deveria ter avisado que tem tanto medo de sangue.”

Medo de sangue. Uma desculpa dada de bandeja.

“Eu…eu não sabia que iria desmaiar,” ela balbuciou. Edward revirou os olhos, mas um meio sorriso ocupava seu rosto.

“Imaginei. Gosto de pensar que você tem um senso de auto-defesa melhor do que isso.”

Edward ficou com ela na sala da enfermeira até ela se sentir melhor. Seu rosto traía sua preocupação, mas suas palavras eram leves.

Não que tivessem conversado coisas profundas ou muito pessoais, mas foi o suficiente para que se conhecessem um pouco.

“Posso te levar em casa, se quiser,” Edward ofereceu quando o sinal bateu e ele a ajudou a escapar da aula de educação física.

“Já estou bem,” Bella garantiu. “Além do mais, não quero que sua família fique sem ter como voltar.”

Ele sorriu.

“Certeza que está bem? Você apagou meio do nada.”

Bella garantiu que sim, e ela sentiu o olhar dele a seguindo até entrar no seu carro.

Não que isso fizesse diferença, nada disso.

A primeira vez que eles saíram não foi planejado, um mero (e feliz) acidente.

Por chegar no meio do ano letivo, Bella não percebeu de imediato que haveria um baile de primavera até Jessica perguntar quem ela convidaria.

“Baile?” Bella respondera em confusão.

“Baile da primavera,” Angela explicou.

“Sim, é daqui a dois sábados,” o tom de Jessica não era de muita paciência. “As garotas chamam os garotos. Quem você vai chamar?”

Bella sentiu o rosto corando ao pensar em quem ela gostaria de chamar – mas que nunca faria por não gostar de bailes, e por ter medo do seu probleminha com dormir atrapalhar.

“Eu não sabia que ia ter um baile,” Bella confessou, “e honestamente não é o tipo de coisa que seja a minha praia.”

Bella demorou muito tempo para convencer Jessica que ela realmente não iria, que ela não se incomodaria se Jessica chamasse Mike, e que ela não tinha um nome em mente para caso surgisse o desejo.

“Ninguém aqui te interessou?” Jessica desafiou. O rosto de Bella se avermelhou novamente e Jessica sorriu. Elas estavam na fila do almoço, aguardando a sobremesa.

“Deixa ela, Jess,” Angela disse.

“O quê? É uma pergunta inocente. Se ela não se interessa por Mike ou Eric, fiquei curiosa,” Jessica disse, dando de ombros.

Bella ia responder que na realidade não tinha nenhum interesse, mas nessa hora Edward passou do lado delas, deu um sorriso e uma piscada em direção a Bella, jogou sua garrafa no lixo e saiu.

Claro que Jessica não deixou isso barato, e Lily ouviu a respeito o dia todo – para calá-la, decidiu aceitar ir com as duas ajudar a comprar vestidos para o baile no dia seguinte.

A condição era ela passar em casa e deixar comida pronta para Charlie, o que era uma mentira – ela na verdade precisava dormir antes de sair ou arriscaria cair no sono na frente das duas e ter seu segredo revelado.

Jessica não demorou muito para chegar na casa de Bella após ter passado para pegar Angela, e elas foram ouvindo uma rádio animada enquanto Jessica tagarelava sobre Mike e seus planos para o baile. Angela mantinha a conversa com mais facilidade do que Bella, mas ambas se distraíram por todo o caminho até Port Angeles.

Bella não estava acostumada a esse tipo de saída com amigas; ela fazia compras com Renee antes, e com a narcolepsia descontrolada, nem mesmo se ela gostasse desse programa, ela poderia.

Ela não tinha amigas antes.

“Então, Bella,” Jessica começou quando elas foram para o departamento de sapatos, “parece que você conseguiu fazer com que Edward Cullen tirasse os olhos do piano por mais de cinco segundos.”

Bella sentiu o rosto corando. Ela imaginou que talvez isso fosse ter amigas: provocações e brincadeiras.

“Hm, talvez,” ela respondeu simplesmente, desviando a atenção para um par de sandálias brilhantes que ficaria perfeita com a roupa que Angela tinha escolhido.

“Tem certeza que não está rolando nada ali?” Jessica insistiu.

“Ele só foi gentil,” Bella replicou. Jessica bufou e ergueu uma sobrancelha.

“Mike disse que ele te carregou no dia do sangue.”

“Ela estava desacordada, Jess,” Angela interrompeu. “Olha esse aqui, o dourado vai ficar ótimo com o preto.”

A distração de Angela funcionou e Jessica logo focou novamente nas compras.

Algum tempo depois, Bella decidiu que iria procurar algum livro diferente para se distrair. Angela lhe mostrou o caminho da livraria local e ela foi sozinha.

Rapidamente percebeu que não acharia algo que lhe interessasse – nada contra esoterismo – e achou uma boa ideia explorar a cidade.

Mas obviamente, não foi.

Primeiro porque o seu celular acabou a bateria, e ela se perdeu em poucos minutos. Segundo porque estava ficando escuro, e cada vez mais…assustador. Ela tinha a impressão de estar sendo seguida, então acelerou o passo, olhando de um lado para o outro, até que…

“Meu Deus, me desculpe!” Ela balbuciou ao se chocar contra alguém na calçada. O encontro tinha sido tão forte que ela só não caíra porque um par de mãos fortes a seguraram pelos braços.

“Você está bem?” Edward perguntou, cenho franzido com preocupação. Bella assentiu, sentindo o rosto arder.

“Hm, sim,” ela replicou. “Bem, tirando o fato de que praticamente em todas as vezes que nos falamos você pergunta se estou bem, claro.”

Edward riu e sacudiu a cabeça.

“Talvez seja culpa minha, então,” ele brincou.

“Ou talvez eu seja um ímã de problemas,” Bella sugeriu. Ele exibiu um meio sorriso de tirar o fôlego, e ela fingiu não se afetar com isso.

“O que faz por essas bandas de Port Angeles sozinha?” Edward continuou enquanto eles caminhavam. As ruas agora estavam mais abertas, mais pessoas andando. Bella obviamente apenas estava seguindo o caminho que ele fazia.

“Eu vim com Angie e Jess para ajudá-las a comprar vestidos,” ela explicou, “e resolvi tentar achar uma livraria. Claramente meu senso de direção é ainda pior que o meu equilíbrio.”

Edward riu de novo e apontou para a rua que iriam atravessar quando o sinal ficasse vermelho.

“Não é difícil se perder em uma cidade desconhecida,” ele apaziguou. Bella ergueu uma sobrancelha.

“É Port Angeles, Edward. É difícil se perder numa cidade com aproximadamente vinte ruas,” ela comentou quando começaram a andar de novo. Bella conseguiu ver o cinema numa rua mais distante, e reconheceu a entrada lateral da loja que estava antes. Edward ainda parecia estar se divertindo.

“Sim, mas escureceu. De qualquer forma, não está mais perdida. Imagino que tenha sido aquela loja em que faziam compras?” Edward corretamente apontou para a entrada.

“Sim, mas as meninas já saíram e meu celular está sem bateria,” Bella explicou. A expressão de Edward se tornou pensativa e logo em seguida, ele abriu um sorriso.

“Eu tenho uma proposta,” ele anunciou, “que tal se acharmos um lugar para carregar o seu celular, e enquanto ele carrega, nós aproveitamos para comer?”

Bella sentiu o coração acelerar; seria aquilo um convite para sair? Um honesto convite para sair? Do tipo… encontro romântico? O rosto de Edward era completamente inocente, mas ela conseguia sentir o calor se espalhando pelo seu.

“Acho que pode ser uma boa,” ela conseguiu replicar sem gaguejar. Edward sorriu novamente e indicou o caminho. Eles foram andando e conversando até o restaurante (Bella tentou não rir do nome).

A cara da maitre ao ver Edward ao lado de Bella foi impagável. Bella entendia – ela era completamente ordinária, e Edward era possivelmente o garoto mais bonito que ela já vira – mas ela supôs que a maitre pudesse ser mais discreta.

Edward pediu uma mesa que tivesse tomada próxima para que Bella pudesse carregar o celular, e era um pouco mais escondida. Edward pediu Coca-Cola para os dois e uma cesta de torradas enquanto Bella colocava o celular.

“Típico,” ela disse bufando, “descarregou tanto que precisa de uns minutos antes de ligar.”

“É o tempo que comemos,” Edward sorriu.

“Então,” Bella falou, “ouvi dizer que você é uma estrela musical.”

Edward se engasgou com a Coca-Cola e Bella não soube dizer se a vermelhidão em seu rosto foi causada pelo comentário ou pela tossida.

“Exagero,” ele replicou rapidamente.

“Não é verdade que você toca numa orquestra num conservatório?” Bella desafiou. Dessa vez ela tinha certeza que fora a culpada pelo rubor que contrastava tão bem com os olhos verdes de Edward. A resposta dele foi interrompida pela garçonete, que parecia concordar plenamente com Bella quanto ao efeito do rosto corado de Edward.

“Aqui estão as torradas. Prontos para pedir o jantar?” A pergunta claramente era direcionada apenas para Edward.

“Hm, eu quero o cordeiro,” ele replicou, sem desviar o olhar de Bella, e indicou ela com a mão.

“Ravioli de cogumelo,” ela escolheu após uma rápida olhada pelo cardápio. A garçonete sorriu para Edward e se retirou. Eles ficaram se olhando em silêncio por alguns segundos, até que Bella ergueu as sobrancelhas e ele suspirou.

“Sim, eu faço parte de uma orquestra. Mas não significa que eu seja uma estrela,” ele replicou.

“O que você toca?”

“Piano,” ele respondeu de imediato. “Na verdade, eu toco mais instrumentos, mas na orquestra, toco piano.”

“Quais outros instrumentos?”

“Violão. Guitarra. Baixo. Bateria. Flauta.”

“E ainda tem coragem de dizer que não é uma estrela,” Bella replicou. Edward negou com a cabeça.

“Tenho o mesmo talento que meus irmãos,” ele disse.

“Não duvido. Mas os rumores são claros, Edward…” Bella informou. “Piano numa orquestra é algo a mais, não?”

Ele deu de ombros e desviou o olhar. Depois olhou de novo para Bella.

“É que…bem, eu nunca falei pra ninguém, mas na verdade, eu prefiro outro tipo de música.”

Bella ergueu as sobrancelhas. Isso a fofoca de Forks não falou – provavelmente porque era um segredo.

“O que você prefere?”

A resposta foi interrompida pelo toque do celular de Bella: Angela estava ligando. Bella atendeu rapidamente, explicando que estava bem e que tinha encontrado com Edward e onde estavam.

Quer que a gente te espere?” Angela ofereceu. Edward fez que não com a cabeça – aparentemente conseguia ouvir a conversa toda.

“Eu te deixo em casa,” ele garantiu.

“Er, Edward me leva, podem ir,” Bella disse. O silêncio do outro lado só não foi mais alto do que o grito de Jessica quando Angela repetiu a fala.

Você tem que chamar ele pro baile!” Jessica exclamou. Bella sentiu o rosto corando e rapidamente desligou o telefone.

“Er…o que você prefere tocar, então?” Bella falou, convencida de que poderia fazer o telefonema desaparecer.

O sorrisinho de Edward lhe dizia que não.

Ele foi interrompido pela chegada dos pratos, e pediu mais bebidas. Bella rapidamente se ocupou em começar a comer, interessada em tentar tirar aquele tema da pauta da noite.

“Você mencionou que veio para Port Angeles para ajudar Angela e Jessica a escolherem vestidos pro baile,” ele começou.

“Sim, elas queriam mais uma opinião,” Bella respondeu.

“Isso significa que você já tem um vestido?” ele continuou, inocentemente, até que ergueu uma sobrancelha, “ou não vai?”

Dissimulado.

“Não vou,” Bella disse. “Eu não danço.”

“Você não dança?”

“Não.”

“Sabe,” ele disse, divertindo-se, “isso é quase ofensivo para um músico.”

“Eu não tenho a coordenação motora para dançar, e você deveria saber disso. Já me viu tropeçar mais de uma vez.”

“Tudo depende do seu par,” ele disse misteriosamente. Ficaram em silêncio mais alguns segundos até que… “então você estará livre no dia do baile?”

Os olhos verdes prenderam os castanhos como ímãs; Bella conseguia contar os pequenos e raros pontos castanhos que coloriam as írises perifericamente, conseguia ver quão longos eram os cílios dele, conseguia admirar a curva dos lábios dele, conseguia notar a pequena cicatriz em seu queixo.

“Sim,” ela respondeu finalmente.

“Se quiser,” ele começou, e limpou a garganta, “caso esteja interessada, eu digo…bem, eu posso lhe mostrar o tipo de música que eu gosto de verdade.”

Bella apenas assentiu. Isso era melhor do que qualquer convite de encontro. Isso era conhecê-lo de verdade, e ela estava ansiosa por isso.

O silêncio só foi quebrado quando a garçonete chegou oferecendo sobremesa. Bella sacudiu a cabeça e tentou esconder um bocejo. Edward apenas entregou uma nota de cem dólares, recusou o troco e se levantou, puxando a cadeira para Bella fazer o mesmo.

Ela sentiu a mão dele em suas costas quando a direcionou para o Volvo prata brilhante estacionado na próxima quadra.

O carro se encheu com as notas familiares.

“Claire de Lune?” ela questionou.

“Conhece Debussy?”

“Sim, minha mãe colocava para mim,” Renee achou inicialmente que a narcolepsia estava ligada a muita música clássica – mas quando Bella começou a dormir enquanto comia, percebeu que o problema era maior.

“Vai ser o próximo concerto,” Edward disse.

“Quando será?”

“Final do ano letivo. Em Seattle,” ele respondeu e limpou a garganta. “Se quiser, posso te avisar.”

Bella sorriu.

“Adoraria.”

Bella se concentrou nas notas doces, lembrando de uma vida longínqua em uma terra quente e colorida… e de repente, Edward sacudia seu ombro gentilmente.

“Bella, chegamos,” ele anunciou. Bella se afastou do encosto, se xingando mentalmente por ter dormido no carro.

“Como você sabe onde é minha casa?” Ela perguntou. Edward lhe deu um meio sorriso.

“Todo mundo sabe onde o chefe de polícia mora,” ele respondeu. Bella assentiu e recolheu suas coisas.

“Bem, obrigada pela carona. E pelo jantar, ” ela disse. Edward sorriu mais.

“Obrigado pela companhia.”

Ela foi, claro, atacada por Jessica no dia seguinte – ela tinha certeza que Bella estava mentindo sobre ela e Edward não estarem saindo. Claro que Bella negou, mas sentiu o rosto corando quando, ao olhar para trás, notou o garoto em questão com um pequeno sorriso. Jess lhe garantiu que os fones de ouvido que ele usava o atrapalharam de entreouvir a conversa; a piscadinha que ele lançou dizia o contrário.

Foram longos dias até a data do baile. Jessica sempre perguntava a Bella sobre Edward, Bella sempre tentava desconversar, Angela perguntava algo sobre Jessica para conseguir desviar o assunto, e conseguiam falar sobre a última piada que Mike contara, deixando a vida pessoal de Bella privada como ela queria.

Até o dia que Edward decidira se sentar sozinho.

Bella sempre olhava direto para a mesa dos irmãos Cullen; nos últimos dias, Alice acenava para ela antes que ela conseguisse desviar o olhar. Os outros não pareciam tão amistosos.

Naquela quinta-feira que antecedia o baile, Edward não estava com os irmãos no almoço. Bella estranhara, mas supôs que talvez ele tivesse numa apresentação sem os irmãos. Ou talvez com febre. Ela bem sabia o que era faltar aula devido a algum problema de saúde.

Tentando disfarçar, ela seguiu seu caminho enquanto Jessica tagarelava em seu ouvido e Angela ouvia educadamente. Elas sentaram na mesa de sempre, Mike olhando para Bella com um enorme sorriso que obviamente incomodara Jessica.

“Edward Cullen está olhando pra você,” Jess lhe informara. Bella levantou a cabeça tão rápido que sentiu os músculos do pescoço protestarem. “Estranho estar sentado sozinho.”

Sim, era estranho. Uma das coisas que ele lhe falara no jantar (encontro?) era como ele e os irmãos eram unidos e geralmente faziam tudo juntos – um dos motivos para o isolamento social.

“Não tinha notado,” Bella replicou, retornando o olhar para sua comida (o que era a mais completa verdade).

“Ele está te chamando,” o tom de surpresa de Jessica era levemente insultante, mas ela estava certa. Bella mal acreditou quando o indicador de Edward a convocou a se unir a ele.

“Hm. Talvez ele tenha alguma dúvida em biologia,” ela murmurou, se levantando e levando sua bandeja consigo. Ela sabia que estava sendo observada – um Cullen saindo da companhia dos demais realmente era algo diferente.

“Achei que podíamos almoçar juntos hoje,” ele anunciou quando Bella tomou a cadeira ao seu lado.

“Seus irmãos não vão sentir sua falta?” o tom era de brincadeira, mas ela realmente tinha curiosidade. Edward deu de ombros.

“Eles sobrevivem a um dia sem mim. Além do mais,” ele continuou, “hoje vamos a Seattle para um ensaio especial. Eles ficarão saturados com a minha presença.”

Bella ergueu as sobrancelhas; se ele iria para Seattle naquele dia…

“Não se preocupe,” ele disse ao perceber a expressão da garota, “estarei aqui no sábado. Passo na sua casa às quatro da tarde.”

Bella considerou um horário peculiar, mas quando ela mencionou, ele apenas deu seu meio sorriso e ela apenas aceitou. Eles caminharam juntos para a aula de biologia, e Bella conseguia perceber que os passos eram observados atentamente pelo resto do corpo estudantil.

Edward saiu da aula com sua mochila, garantindo que não se atrasaria no sábado. Quando ela questionou sobre o que deveria vestir, ele riu.

“Não comprou um vestido para o baile?” Ele caçoou, e novamente riu quando ela revirou os olhos. “Nada de especial. Confortável. Você não precisa de nada diferente,” e com esse comentário, ele continuou seu caminho até Alice e Jasper, que o esperavam no final do corredor.

Bella chegou atrasada na aula de educação física, ainda levemente aturdida com a fala de Edward. Se alguém notou, não falou. Se alguém falou, ela sequer percebeu.

Ela sabia que ele não estaria na escola na sexta-feira, mas ainda assim, tolamente procurou Edward pelos corredores. Quando estava na aula de biologia, sentiu o celular vibrando no bolso.

Número desconhecido

Está anotando tudo para mim?

Ela demorou um pouco – seu coração se acelerou ao chegar à conclusão – até perceber quem era.

Bella Swan

Não sei se você merece

Edward Cullen

Ora, vamos. Não seja assim

Eu salvei a sua vida no dia da tipagem sanguínea

Bella segurou uma risada – a aula já havia começado

Bella Swan

Como você conseguiu meu número?

Edward Cullen

Alice tem o número de todos

Não sei como

Apenas tem

Bella Swan

E seu primeiro instinto foi me mandar mensagem?

Edward Cullen

Eu preciso garantir notas, não preciso?

Bella Swan

Você não deveria estar ensaiando ou algo do tipo?

Edward Cullen

Você não deveria estar tomando notas ou algo do tipo?

Ela definitivamente deveria estar tomando notas, mas conversar com ele era infinitamente mais interessante.

Edward Cullen

Ok, me arrependi

Não precisa tomar notas

Bella Swan

Shhh

Estou tomando notas ou não vou prum show amanhã

O emoji em resposta fez Bella alargar o sorriso. Ele parou de mandar mensagem durante a aula, mas teve que parar quando realmente voltou a ensaiar. Eles se falaram mais à noite, enquanto Bella sentava no sofá ao lado de Charlie, algum jogo de algum esporte de alguma liga passando na televisão.

“Então, Bella,” Charlie começou, tirando Bella do mundo do celular, “você não comentou do baile amanhã.”

“É porque eu não vou,” ela respondeu.

“Por que não? Ninguém te chamou?”

“Pai,” ela respondeu calmamente, o rosto avermelhado, “era escolha das garotas.”

“Ninguém te interessou para ir ao baile?”

“Não,” ela replicou com honestidade. “Além do mais, não é uma boa ideia eu ir para um evento de noite. A chance de eu ter uma crise é grande.”

Charlie concordou com um grunhido.

“E,” Bella continuou, “eu não herdei meu desequilíbrio de mamãe. Você deveria saber disso.”

Ele bufou e bebeu um gole de cerveja.

“Bom, eu tinha planejado ir pescar com Billy amanhã, mas se você vai ficar…”

“Pai. Vai pescar com Billy. Não se preocupe comigo,” ela ordenou.

“Você fica muito tempo sozinha, Bells,” Charlie expôs sua real preocupação. Bella sentiu o coração aquecendo.

“Eu fico bem sozinha. Além do mais, amanhã vou numa apresentação musical.”

Charlie ergueu as sobrancelhas.

“Vai?”

“Sim. Os Cullen vão tocar,” o que não era mentira. Ela só não sabia o que. Ou onde. Charlie ficou em silêncio por um momento.

“Certo, então. Mas se quiser…”

“Eu sei, pai. Fica tranquilo.”

Ele deve ter ficado, pois não tocou mais no assunto. No dia seguinte, Bella fez comida suficiente no almoço para que ela e Charlie pudessem também jantar. Ela não sabia exatamente como seria a programação com Edward, então decidiu comer um pequeno lanche antes de se arrumar.

E se arrumar realmente foi um problema; ela decidiu que uma calça jeans com uma camisa preta e seu All-Star básico seriam adequados para a maioria dos ambientes. Ela se recusava a acreditar que Edward a levaria num teatro ou algo assim sem aviso prévio.

Às quatro da tarde em ponto, a campanhia tocou. Bella respirou fundo e abriu a porta. Edward estava com uma camisa clara, uma jaqueta de couro preta e calça jeans. Ele sorriu quando a viu.

“Estamos combinando,” ele anunciou. Bella olhou para si e riu também, enquanto eles caminhavam após ela fechar a porta

“Que bom. Porque estava começando a ficar com medo de chegar numa apresentação de orquestra sinfônica vestida assim.”

Ele riu e abriu a porta do carro para que ela entrasse.

“Eu jamais faria isso,” Edward prometeu. “Estamos indo para um local muito mais divertido.”

Bella, claro, ficou curiosa, mas ele se recusou a passar mais informações. Até porque, ele disse, eles já iriam chegar de qualquer forma.

E realmente, não demoraram muito. Bella ficou confusa ao descer do carro, e provavelmente isso transpareceu em seu rosto. Edward só respondeu com seu meio-sorriso, indicando o caminho para ela.

O caminho para um lar de idosos.

“Eu conheci esse lugar há uns dois anos,” ele explicou enquanto andavam juntos, “procurando atividades extracurriculares. Eles sempre precisam de distrações, apresentações. Desde então, venho aqui a cada dois meses para tocar um pouco.”

Bella digeriu a informação lentamente. Não era justo, com o resto do mundo, que ele pudesse ser tão bonito, talentoso, inteligente e ainda tocar para idosos em um abrigo.

Não era justo.

E ela não entendia exatamente porque ele estava perdendo tempo com ela.

Quando eles chegaram no saguão que continha diversas cadeiras ocupadas por idosos, e um palco improvisado, Bella percebeu algumas coisas

Todos ali conheciam Edward. Quando ele passou com ela em direção ao palco, todos o cumprimentaram; moradores e trabalhadores, todos tinham um sorriso para ele.

Edward adorava estar ali. Ele cumprimentou todos de volta, fez algumas perguntas pessoais, respondeu outras, e apresentou Bella (“minha grande amiga Bella”, ele disse, fazendo o coração dela disparar).

Edward guardara um lugar na frente pra ela. Uma cadeira tinha uma placa com seu nome escrito à mão; como se ela fosse uma convidada de honra naquele dia (“não saia daqui, sim?” ele dissera quando a depositou no lugar e correu para as escadas do palco).

Eles estavam alguns minutos atrasados. A banda que tocaria com ele estava pronta no palco, todos com roupas similares à dele, guitarras, violão, baixo, bateria e piano a postos.

A baixista era apaixonada por ele.

Era fácil perceber essa última na verdade. Ela tinha longos cabelos loiros, com alguns traços ruivos, e olhos azuis penetrantes. Os olhos seguiram Bella quando ela chegou, e ficou fixada na mão de Edward que segurou a de Bella por alguns momentos antes dele subir no palco. Os olhos também acompanharam Edward durante todo o show, e Bella sabia que era algo além de admiração porque a própria olhava para ele da mesma forma.

A voz de Edward era incrível. Sua habilidade na guitarra também chamava atenção, mas o que fizera o estômago de Bella se revirar, era a voz. Era doce, ritmada e afinada, quase uma carícia, grave porém sem dissonar quando forçava um agudo. Era quase egoísmo esconder aquela voz do resto do mundo.

Ele sorrira quando começara a cantar e o queixo de Bella caiu. Edward olhou para ela diversas vezes durante o show (mais do que para a baixista, ela ficou feliz em notar), fazendo o coração dela bater mais rápido.

A banda toda era boa, na verdade. Claramente todos adolescentes, mas todos habilidosos. As músicas eram covers de bandas antigas – aparentemente, bandas da época do público alvo.

Os idosos estavam em deleite; sacudindo a cabeça, cantando junto, balançando as mãos… quando um deles acendeu um isqueiro, um funcionário rapidamente tomou antes de algum acidente acontecer.

No final, alguns dos idosos se levantaram e começaram a dançar.

Bella observava tudo encantada e atônita. Edward controlava o público como se ele tivesse décadas de experiência no palco, ao invés de ser um adolescente.

E ela tinha de admitir, ele tinha química com o resto da banda.

A banda era composta por quatro garotas e outro rapaz além do próprio Edward, que tocava a bateria. Os demais instrumentos era comandados pelas meninas – e como feminista, ela fica extremamente feliz em ver uma banda de maioria de mulheres.

Quando o show chegou ao fim, Bella se levantou rapidamente para aplaudir, sorrindo. Edward a achou rapidamente, a felicidade estampada em todos os centímetros do seu rosto. Eles agradeceram a todos e saíram do palco, enquanto uma caixa de som dava continuidade à festa.

“Você é nova aqui,” uma voz lhe informou. Bella olhou para o lado e uma senhorinha, menor do que ela, cabelos brancos e jaqueta de couro. Bella estimou que ela tivesse por volta dos oitenta anos.

“Sim, sou. Prazer, me chamo Bella,” ela se apresentou. A senhorinha sorriu.

“Imagino que o jovem Edward lhe trouxe?”

Bella gaguejou e não conseguiu responder.

“Meu nome é Elizabeth,” a senhora falou, “eu estou aqui há 10 anos. Sou a moradora mais antiga. Edward começou a vir há pouco tempo, mas ele foi um dos jovens que mais se animou com nossa pequena vila. Ele sempre traz pessoas novas.”

Bella conversou com Elizabeth por alguns momentos; a senhora contou como acabou ali, como era a vida, como o lugar era bom, e como tardes como aquela eram importantes. Bella ouvia com atenção – a história de Elizabeth podia virar um livro.

A conversa estava tão boa que ela quase não percebeu quando Edward surgiu atrás dela, mas aparentemente ela já estava se acostumando com ele – de repente ela sentiu um formigamento em sua nuca e ao se virar, lá estava ele.

Edward estava com o cabelo molhado, como se ele tivesse jogado água em sua cabeça depois do show. A camisa branca estava molhada (provavelmente de suor), mas ele mantinha a jaqueta de couro. Ele tinha um brilho no olhar que Bella não tinha visto ainda.

Ele estava absurdamente bonito.

“Edward,” Elizabeth cumprimentou, “deveria ter me avisado que traria uma amiga. Eu teria feito companhia a ela durante o show.”

“Desculpe, Liz. Ontem tive que ensaiar e esqueci de lhe mandar um email,” ele pediu, agora exibindo um meio-sorriso. Elizabeth ergueu uma sobrancelha.

“Ele me ensinou a usar um computador,” a senhora explicou, “e desde então nos comunicamos por email.”

O coração de Bella deu uma fisgada imaginando Edward pacientemente sentado ao lado de Elizabeth, lhe ajudando a criar um email e como usar a ferramenta para falar com ele.

“Só desculpo porque Bella é adorável,” Elizabeth terminou. Edward desviou o olhar para Bella e ela sentiu o rosto corando ao encará-lo de volta.

“Ela é,” Edward concordou, “se importa se eu roubá-la por um instante?”

Elizabeth cedeu ao pedido e Edward indicou uma das mesas com bebidas para Bella segui-lo. Ele serviu um copo de refrigerante para Bella e um para ele mesmo.

“Então o que você realmente gosta é de ser um rockstar?” Bella perguntou. Edward gargalhou e ela teve de sorrir em resposta; ele nunca parecera tão leve, tão alegre.

“Suponho que sim,” ele concordou.

“Sorte a sua que você é tão bom nisso, então,” ela comentou. Edward sorriu mais ainda – se é que era possível, e apontou para a direção do palco.

“Vamos ali, quero te apresentar para a banda.”

Bella acenou, não exatamente animada em conhecer a loira com mechas ruivas, mas sabendo que era importante para Edward. Os outros músicos estavam na beira do palco, todos com bebidas em suas mãos, rindo e brincando.

“Esses são Eleazar, Carmen, Irina, Kate e Tanya,” Edward falou, apontando um a um – deixando a garota que claramente gostava mais dele por último. Todos ergueram as mãos em saudação, e Bella os imitou. Ela sentiu o olhar de Tanya lhe avaliando, e provavelmente ficando pouco satisfeita com o olhar que Edward lançou a Bella em seguida, “pessoal, essa aqui é Bella.”

O olhar que Eleazar e Carmen trocaram ao ouvir o nome de Bella fez o coração da garota acelerar um pouco, e o descontentamento de Tanya corroborou.

“Prazer, Bella! Ouvimos falar bastante de você,” Kate foi a primeira a falar, um grande sorriso no rosto.

“Eu gostaria de dizer que também ouvi falar de vocês, mas Edward fez questão de deixar tudo surpresa,” Bella replicou, enquanto ele exibia um meio-sorriso, “mas admito que valeu a pena. Vocês são muito bons, de verdade.”

Eles ficaram conversando por um tempo. Bella achou todos bastante simpáticos, e se divertiu bastante. Até mesmo Tanya, que ela achou inicialmente que não gostaria dela, participou da conversa ativamente.

Eles também conversaram muito com os moradores, e Bella percebeu que aquele show era relativamente comum, e que todos os integrantes da banda conheciam os moradores bem.

Quando o céu começou a mudar anunciando que a noite estava chegando, Edward apontou para um jardim externo com a cabeça, e Bella o seguiu enquanto observada a beleza da cor do crepúsculo iluminando as flores e árvores ao redor – e de quebra deixando o tom acobreado do cabelo de Edward ainda mais pronunciado.

Eles sentaram numa pedra aparentemente usada para isso há muito tempo. Eles ficaram em silêncio por alguns momentos.

“Qual o nome da sua banda?” Bella perguntou. Edward virou o rosto, erguendo uma sobrancelha.

“Não pensamos nisso,” ele admitiu.

“Talvez Alaska,” Bella sugeriu, “já que foi lá que vocês se conheceram.”

“Gostei do nome. Vou passar adiante.”

“Não se esquece de mim quando estiverem lotando estádios,” ela brincou. Edward sorriu, mas depois ficou sério novamente.

“Acho que não tem a menor possibilidade de eu esquecer você, Bella,” Edward sussurrou. Bella sentiu o rosto corando, uma mecha teimosa caindo na frente de seu olho. Edward se aproximou mais dela, sua mão direcionada para a parte do cabelo que escondia parte do rosto da garota.

Seus dedos não se afastaram após terminar a tarefa; pelo contrário, acharam um local aconchegante próximo da mandíbula de Bella e resolveram estacionar ali, com uma leve carícia cujo calor se espalhava para toda a face.

Ela não percebeu que estava se aproximando dele até sentir a respiração de Edward em seu rosto, seus olhos se fecharam automaticamente e a leve hesitação dele tornou a espera ainda melhor.

Quando os lábios de Edward encontraram com os de Bella, foi como se o mundo tivesse parado. Era verdade que ela nunca tinha beijado alguém antes, mas ela tinha certeza que era diferente porque era ele.

Era Edward que segurava o rosto dela com firmeza e delicadeza. Era Edward que virava seu corpo para que ficassem ainda mais próximos. Era Edward que delicadamente convidava sua língua a explorar um pouco. Era Edward que segurava seu cabelo. Era Edward que a fazia sentir a cabeça rodando, o estômago rodando e o coração pulando.

Edward que exibia o maior sorriso que ele podia enquanto ele puxava Bella pela mão para que eles levantassem.

*o*o*

Agora não tinha mais como negar que eles estavam tendo um romance, mesmo que Bella quisesse. Na segunda-feira, Edward foi buscá-la em casa com seu carro, e a chegada deles na escola deu o que falar.

Os garotos olharam de modo estranho. Jessica quase pulou em cima de Bella quando ficou sabendo (“eu sabia que tinha algo a mais! Sabia, sabia, sabia!”).

Jessica, por outro lado, foi calma, como sempre era. Sorriu quando viu os dois juntos, mas continuou a amizade com Bella como sempre.

Bella apresentou Edward a Charlie – num final de semana em que eles tinham planejado uma pizza, Bella levou Edward para casa. Surpreendentemente, ele tinha bastante conhecimento de futebol americano, e conseguiu manter uma boa conversa com Charlie.

Ela também foi conhecer a família Cullen. Os pais dele eram simplesmente adoráveis – Carlisle, mesmo extremamente ocupado, tirou um tempo para conhecê-la melhor; Esme era simplesmente a pessoa mais adorável da face da Terra.

Os irmãos adotivos dele Bella já conhecera na escola. Emmett com seu jeito brincalhão, Jasper mais retraído, Rosalie um tanto quanto antipática e Alice…

Alice rapidamente virou amiga de Bella. Junto com Angela, as três se divertiam horrores na escola e fora dela. Alice era a melhor amiga de Edward também, então as saídas com eles eram frequentes. Claro, ela e Edward iam a encontros sozinhos – todo final de semana, na verdade – e ela não sabia como não começar a se apaixonar por ele.

Um mês e meio depois do show, tudo parecia estar indo melhor do que Bella podia sonhar.

E então ela teve um novo ataque.

Ela e Edward estavam na biblioteca, estudando para um projeto de biologia. Bem, eles já tinham terminado de estudar na verdade, e estavam conversando mais do que qualquer coisa, os livros esquecidos na mesa em frente, e as gargalhadas abafadas pelas mãos. Mais uma tarde comum para os dois.

Edward estava falando sobre uma atividade que ele estava planejando fazer para a casa de repouso. Ela estava não apenas prestando atenção, mas também colaborando com ideias para acrescentar.

Num momento, eles estavam conversando.

No outro, escuridão.

Bem, mais ou menos.

Quando ela acordou, ela estava nos braços de Edward, num canto da biblioteca. Angela e Alice estavam ao lado dele, os três com rostos de extrema preocupação. Bella suspirou e rapidamente garantiu que estava bem.

“Eu estou pensando se te levo ao hospital ou se falo com seu pai,” Edward lhe informou. Bella suspirou. Bem, o segredo já era. Pelo menos a biblioteca estava vazia.

“Não precisa. Eu…bem, eu tenho narcolepsia.”

Então ela contou toda a sua história para os três: sobre como sua vida estava impossível, sobre como a medicação que usava não era completamente eficaz, sobre como a vida em Phoenix estava péssima e ela decidira ir até Forks…

“Só não entendo porque esconder de nós…” Edward murmurou, uma mão acariciando o rosto de Bella.

“Porque eu não…isso atrapalha demais a minha vida. Eu não consigo sair à noite sem dormir na volta, não consigo ficar sem dormir durante o dia. Eu estava tendo uma vida quase normal antes disso. Não queria perder essa vida.”

Edward sorriu de leve e depositou um beijo fugaz em sua testa.

“Eu quero qualquer vida ao seu lado, Bella,” ele lhe informou. “E não me incomodo em esperar um pouco até você acordar.”

Ele estava com o meio-sorriso que encantara Bella desde o primeiro dia; um simples repuxar de lábios que mal mostrava os dentes, mas que carrega diversos sentimentos – todos compreendidos por Bella.

“Ou então te cutucamos,” Angela acrescentou.

A partir daí, a vida de Bella ficou mais fácil. Não precisar esconder das pessoas mais próximas quando ela precisava dormir, que quando ela parava de responder de noite provavelmente tinha tido uma crise aleatória, que antes de sair após um dia de aula, ela precisava cochilar.

E quando Edward falou com seu pai, ficou ainda mais fácil. Carlisle tinha uma grande amigo da faculdade que era especialista em narcolepsia, e conseguiu uma consulta com ela para Bella, que sem essa indicação nunca seria possível – maldito sistema de saúde dos Estados Unidos.

Mas essa especialista conseguiu alocar Bella num estudo, e ela tinha a impressão de que estava recebendo o remédio novo e não o placebo, porque desde a primeira dose do pequeno comprimido ela nunca mais teve um ataque.

Esse pequeno fato fez Charlie ficar tão agradecido a Carlisle (mesmo que quem tenha colocado Bella no estudo tivesse sido Dra. Siobhan que tivesse conseguido o estudo para Bella) que absolutamente ninguém poderia falar qualquer coisa sobre a família Cullen – todas as datas comemorativas ele fez questão de passarem juntos (aniversários, Natal, Ano Novo…)

Bella estava cada vez mais feliz com a sua decisão de se mudar para Forks. Estar com Edward, ter amigas como Alice e Angela – era exatamente isso que queria ao sair de Phoenix; uma adolescência normal (mesmo que superando suas expectativas).

Pelo menos uma vez ao mês ela acompanhava Edward e a banda nos shows na casa de repouso. Bella acabou ficando próxima de todos os integrantes da banda, e até mesmo Tanya parecia ter se acostumado com a presença de Bella. Edward finalmente criara coragem de contar para seus pais sobre querer tocar mais músicas de rock do que clássica, e querer seguir carreira musical. Como Bella imaginara, Carlisle e Esme não viram nenhum problema, e apoiaram ele. A banda começou a ensaiar com mais afinco, e até mesmo a fazer pequenos shows locais.

No dia em que Edward e Bella completaram um ano de namoro, Edward estava decidido a fazer o dia especial – o mais especial possível. Então quando ele foi pegá-la em casa para a escola, trazia flores em sua mão. Ele levara um almoço especial para os dois, finalizando com chocolate. À noite, eles foram para Port Angeles, e jantaram no mesmo restaurante da primeira vez. Uma noite perfeita, que antecedeu uma notícia ruim.

O estudo que Bella fazia parte foi encerrado, o que significava que ela iria parar de receber a medicação, e regredir em seu tratamento até que o remédio fosse de fato autorizado e ela pudesse comprar a medicação.

Não apenas a qualidade de vida dela estava comprometida, mas até os planos para o futuro. Bella queria fazer faculdade de literatura, mas sem a medicação, um curso diurno integral estava fora de cogitação. Ela achou um curso noturno na Costa Leste, longe de Forks e de seu pai – mas Charlie entendera e apoiara sua decisão.

Edward também compreendera o pensamento dela, e estava procurando um curso de música na mesma faculdade. Charlie já não ficara tão feliz com essa notícia, porém não podia negar que era melhor que ela fosse acompanhada para o outro lado do país.

Até o dia em que todos os planos mudaram.

Bella estava com Angela e Alice na plateia de um dos shows da Alaska, a banda de Edward. Era num sábado, em Seattle, e eles voltariam para Forks no dia seguinte. O show estava ótimo, como sempre. Eles tocaram uma mescla de músicas originais e covers famosos, e Edward sempre fazia questão de colocar algumas das favoritas de Bella.

No fim do show, Edward foi direto para a direção de Bella, sorriso largo no rosto, e segurou o rosto dela com as duas mãos antes de lhe beijar primeiro nos lábios e depois no rosto todo.

“Eu amo namorar uma estrela do rock,” ela lhe disse, abraçando a cintura de Edward firmemente. Ele gargalhou e lhe beijou de novo.

“Eu amo ter você como namorada,” ele sussurrou em seu ouvido. Ele ia falar mais alguma coisa, mas foi interrompido pela chegada do resto da banda.

“Edward, cara, tem um cara que quer falar com a gente…” Irina chamou. Edward se afastou um pouco de Bella e virou para os amigos.

“Um cara?”

“Acho que é um agente,” Eleazar falou, um sorriso no rosto. Edward sorriu de imediato, e as que não faziam parte da banda o imitaram. Bella estimulou que ele seguisse o resto da banda.

Elas esperaram por cerca de vinte minutos, até que todos voltaram. Eles não estavam mais sorrindo – na verdade, eles pareciam exasperados e decepcionados. Tanya parecia verdadeiramente irritada e Edward estava com a cara fechada, pensativa.

Bella sabia que era melhor esperar que estivessem sozinhos. Estavam todos no mesmo hotel; Bella dividia o quarto com Angela enquanto Edward ficava com Alice.

Antes de irem dormir, Bella e Edward se encontraram na área da piscina, um pacote de Pringles e duas Cocas.

“Quer falar sobre o que aconteceu?” Bella perguntou calmamente. Edward suspirou e encostou a cabeça na dela. Eles estavam deitados em espreguiçadeiras lado a lado, de mãos dadas.

“Era um agente de fato. Ele queria fazer um teste com a gente.”

“Edward, mas isso é uma excelente notícia!” Bella replicou. “Por que vocês não estavam felizes?”

“A gravadora é aqui em Seattle, eu teria que ficar aqui.”

“Ah,” Bella disse, sentindo o estômago despencar. Ela engoliu em seco, e continuou, “Edward, você não negou nada, certo?”

“Não. Eu só disse que precisava pensar. Por isso os outros estavam tristes. Eles queriam concordar pro teste na hora.”

“Bem, vocês deveriam fazer o teste amanhã. Aproveitar que já estão aqui.”

Edward se afastou de Bella para olhá-la nos olhos.

“Se der certo, eu não irei mais com você para a Costa Leste.”

“Se vocês não forem pro teste, sempre vão se perguntar ‘e se?’, e seus amigos talvez não te perdoem.”

Edward ficou calado por alguns segundos.

“Eu não quero ficar longe de você,” ele murmurou.

“Eu também não,” Bella disse, com um leve sorriso, “mas não quero te impedir de realizar seu sonho. E seus amigos definitivamente não me perdoarão. Faça o teste amanhã por mim.”

E assim ele fez. Ele conversou com o agente naquela mesma noite. O resto da banda parecia aliviado com a notícia.

Bella sabia, desde o momento que Edward dissera que tinha uma proposta de um teste com um agente, que eles sairiam com uma proposta. Ela sabia que a qualidade da banda era acima do comum, e sabia que o agente seria louco de não oferecer nada. Eles teriam que responder em uma semana – como eram jovens e até menores de idade, o agente concordou que eles deveriam conversar com os pais a respeito.

Como esperado, Carlisle e Esme ficaram radiantes e orgulhosos, assim como os outros irmãos Cullen. Rosalie, ainda purista quanto a música, torcera o nariz, mas estava no jantar que Esme fizera questão de organizar para todos da banda.

Jasper e Alice ficaram vigiando Bella durante todo o jantar. Ela sabia que os dois estavam notando algo de errado com ela.

O que tinha de errado: ela sabia que ali chegara ao fim. Bella sabia que o relacionamento não sobreviveria a distância e as diferenças de rotinas dos dois. Ela também sabia que Edward estava percebendo o mesmo.

No dia seguinte à assinatura do contrato, Edward levou Bella para a casa de repouso, para que eles pudessem visitar o jardim escondido.

“Eu sei que você está pensando o mesmo que eu,” Edward disse finalmente.

“Sim,” Bella concordou, fazendo ele suspirar.

“Nenhuma alternativa?”

“Edward, são vidas muito diferentes. Eu preciso seguir o meu plano, e você precisa seguir seu sonho.”

“Eu sei. Mas você é mais inteligente que eu, estava torcendo para ter uma solução.”

Eles sorriam um para o outro, mãos dadas e olhos marejados.

“Ainda temos até o fim do ano letivo,” Bella disse. “Quando você se muda para Seattle com os outros?”

“No domingo depois da formatura,” ele replicou, e depois sorriu, “no dia seguinte ao baile. Carlisle e Esme vão me levar.”

“Ainda temos um tempo,” Bella disse.

“Temos. E…”

“E?”

“Eu queria ir no baile,” Edward falou, ainda sorrindo mesmo com Bella erguendo as sobrancelhas, “não. Na verdade, eu quero te levar no baile. Uma última despedida.”

E mesmo que Bella não quisesse, ela não conseguiria dizer não.

Nos dias que antecederam o baile, eles não se separaram. Estudaram juntos para todas as provas, foram para casa um do outro todos os dias, foram em encontros em outros dias. Charlie geralmente não deixaria tanto, mas Bella havia lhe contado sobre a situação e Charlie ficara complacente.

Até que o dia tão temido chegou. Alice e Angela foram se arrumar na casa de Bella com a garota. Angela iria com Bella para a Costa Leste, e elas iriam morar juntas na faculdade. Angela e Alice estavam focadas em Bella – ela era a estrela da noite.

O vestido azul que Alice levara ficou deslumbrante em Bella, e Angela tinha mãos mágicas com a maquiagem. Bella nunca se sentira tão bonita na vida quanto quando olhou no espelho – a expressão de Edward quando ela desceu a escada lhe dizia que não era a única com essa opinião.

Alice tirou várias fotos, e até Charlie pediu o celular de Bella para fazer registros. Ben e Jasper estavam com Edward, e eles seguiram juntos com uma limousine contratada pelos Cullen.

Eles chegaram no ginásio rapidamente, e os outros casais saíram. Edward saiu primeiro, pronto para dar a mão e levar Bella quando aconteceu.

Outro ataque.

Desde que ela parara o remédio, os ataques tinham voltado. Edward estava com ela na maioria dos casos, então ele sabia o que fazer: esperar ela acordar.

Quando Bella recobrou os sentidos, estava nos braços de Edward dentro da limousine. Ele estava acariciando o cabelo dela, tocando nela com a maior gentileza que tinha e que sempre reservava para ela.

O que a assustou era a luz do sol nascendo.

“Oi, minha Bella Adormecida,” ele cumprimentou, meio sorriso no rosto.

“São que horas?” Bella perguntou.

“Pouco depois das cinco da manhã,” Edward respondeu. “Avisei a Charlie o que aconteceu.”

“Eu dormi a noite toda do baile,” ela constatou. Edward assentiu, ainda com a mesma expressão. “Eu estraguei a nossa noite de despedida. Mais uma vez essa maldita doença… Edward, eu–”

Então ela começou a chorar e Edward a abraçou e a consolou e chorou também. Eles choraram juntos abraçados, por mais tempo do que eles pensaram – choraram por tudo que passaram juntos e por tudo que tinham planejado e nunca se realizaria.

As luzes do amanhecer, iniciando o novo dia, sinalizaram o fim de outros dias que nunca aconteceriam.

*o*o*

“Vocês se conheciam?”

Bella soltou uma risada incrédula. A pergunta do apresentador, no programa ao vivo, lhe pegou desprevenida. Edward também sorriu e a encarou.

“Digamos que,” ele respondeu. “nos encontramos no passado.”

“Então não foi ao acaso a escolha da música para o filme?”

“Na verdade, foi,” Bella conseguiu responder, “foi um achado uma música que se encaixasse tão bem no filme.”

“Você gosta da banda Alaska, Bella?”

Os dois riram.

“Conheço eles desde o comecinho,” Bella respondeu.

Ela não se lembrou de tudo que ocorreu naquela noite. Logo a entrevista com eles acabou, e novos convidados chegaram. Os olhares trocados com Edward, os dois ansiosos pelo fim de tudo quando eles poderiam se falar sozinhos.

Quando o programa acabou, os convidados foram levados para uma outra sala. Edward e Bella se olharam em polos opostos, e isso foi suficiente para combinarem de se encontrarem no meio da sala.

“Você deveria ter me avisado disso,” Bella falou de cara, fazendo Edward rir.

“Apesar de muito tentado em fazer surpresa, eu avisei a Angela,” ele respondeu. “Mas fico feliz em saber que a mensagem não chegou. A sua reação foi impagável.”

“Você pode me culpar?” Bella desafiou.

“Não. Na verdade, eu–”

Eles foram interrompidos. Bella reconhecia aquele tom de loiro, reconhecia a mão talentosa que segurou o bíceps de Edward chamando sua atenção.

“Oi, Bella! Quanto tempo!”

“Oi, Tanya,” Bella cumprimentou, menos alegre. Depois de todos esses anos, ela tinha certeza que Tanya tinha conseguido sua intenção do ensino médio – apesar de nunca terem confirmado.

“Edward, precisamos ir,” Tanya convocou, “amanhã saímos cedo.”

“Pode ir na frente,” Edward falou, sem desviar os olhos de Bella em nenhum segundo. Tanya saiu como sugerido, e Edward sorriu de novo. “Eu tenho um show beneficente na Europa essa semana, mas volto no sábado. Posso pegar seu número?”

“Você quer meu número?”

“Bella,” Edward praticamente cantou, e a garota sentiu o tom em todo o seu corpo, “não há nada no mundo que eu queira mais que seu número.”

Ela sentiu o rubor em seu rosto, e sabia que ele tinha notado – a expressão dele clamava isso. Ela esticou a mão e ele depositou o celular. Bella colocou o contato dela e ele gargalhou quando leu.

“Sim. Bella Adormecida,” ele concordou, e olhou intensamente para ela, “eu lembro. Eu lembro de tudo. Vou te mandar mensagem, Bella.”

Ele não mandou mensagem até a noite do dia seguinte. Ele explicou que era por causa da viagem. Bella estava receosa – ela não tinha ficado muito bem no passado após o término. Angela concordara em parte com a cautela, e ralhou com ela por não ter contado que tinha tido uma crise.

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Contudo, ele não deixou Bella pensar muito na cautela. Edward mandava mensagem a todo momento. Ele contava um pouco de tudo que tinha feito no período longe: tudo que fora divulgado, e o que não estava sob holofotes.

“Eu amo os shows. Eu amo a energia da plateia. Eu amo me conectar com tanta gente.”

“Elizabeth morreu ano passado. Eu fui ao funeral. Estava lotado. Eu queria mandar uma mensagem para lhe avisar, mas não tinha seu número. Eu chorei feito um menino.”

“Eu sei que você sempre teve ciúmes de Tanya, mas eu juro que nada aconteceu. A realidade, Bella, é que nada relevante aconteceu. Você sempre foi a pessoa mais relevante da minha vida.”

Ela sentia vontade de jogar a cautela no lixo, obviamente. Como não se iludir com uma mensagem desse tipo?

Em troca, Bella lhe contou sobre como seu livro surgiu. Sobre ela ter voltado a escrever na faculdade. Sobre escrever a história deles para conseguir absorver e processar. Sobre ter conseguido manter um bom relacionamento com Charlie. Sobre como ele ficara orgulhoso quando ela formou, e que tinha chorado ao ler o livro dela.

Sobre como ela tinha ficado depois daquele fatídico dia.

No sábado seguinte, ela não tinha planos para a noite – apenas comida chinesa. Edward tinha parado de responder na última hora, e Angela estava fora com Ben. Ela estava ansiosa para chegar o seu pedido e quando a campainha tocou ela exclamou ‘finalmente’ e se levantou, colocando um roupão por cima do seu pijama e abriu a porta.

“Não sabia que você gostava tanto de yakissoba,” Edward comentou, segurando a embalagem grande de comida em sua mão, uma mala na outra. “Ou estava esperando visita?”

Bella ficou calada momentaneamente. Tentou falar, mas nada saiu. Com um suspiro, tirou o yakissoba da mão de Edward, puxou ele pela camisa e fechou a porta. Ele a olhava com seu meio-sorriso, observando enquanto ela depositou a comida na mesa, tirou a mala da mão dele e se posicionou diretamente em sua frente, seus corpos a poucos centímetros.

“Oi,” ela disse.

“Oi,” ele respondeu. Ele levantou a mão e delicadamente tocou o rosto de Bella com o dorso da mão. “Estou atrapalhando?”

“Não tinha planos. Não ia receber visitas. Pedi o grande pra sobrar pro almoço.”

Edward riu e segurou o rosto dela com as duas mãos. Encarou ela, ficando sério de novo.

“Tenho um convite a te fazer,” ele falou.

“Um convite?”

“Eu tenho uma viagem a fazer. E quero que você venha comigo.”

“Uma viagem? Para onde?” Bella perguntou erguendo as sobrancelhas.

“Ah. Surpresa,” ele respondeu, agora sorrindo.

“E como vou poder responder então?”

“Angela preparou a sua mala,” Edward disse, “é aquela que estava na minha mão. Ela também me garantiu que o tempo planejado não vai lhe prejudicar. E me disse para lhe dizer para ignorar o que ela te disse na segunda-feira. Que ela não me disse o que era.”

Bella riu. Pensou.

Jogou tudo pro alto.

Edward eu cinco minutos para ela se trocar – disse que iriam de carro, então não tinha problema em ser algo confortável (o que ela entendeu como autorização para usar seu All-Star preto).

Ele colocou a mala dela no fundo do carro, abriu a porta para ela com um sorriso e eles seguiram. Se ele não tivesse dito que era em direção norte, ela não saberia nem isso. Mas também não estava preocupada. Ela confiava em Edward, e sabia que a viagem era mais importante do que o destino.

Aquelas horas eram fundamentais para eles se reconectarem – conversaram sobre o passado, sobre o que poderiam ter feito de diferente. Era como se eles tivessem voltado anos atrás, pela forma como se comportavam.

Ele tinha deixado um cooler com comidas e bebidas para a noite toda. De manhã, pararam numa lanchonete para comer, e Bella aproveitou para comprar uma lembrança para Angela. Edward imitou e comprou o mesmo para Alice.

“Perdi uma aposta para a baixinha irritante,” ele explicou.

Seguiram viagem rapidamente. Bella se ofereceu para dirigir um pouco, mas ele disse que estava tudo bem – que dormira durante o dia anterior para isso.

“Além do mais,” Edward concluiu, “você não sabe o caminho. E eu gosto de ver sentada no meu banco do carona.”

Bella rira.

Eventualmente Edward segurava a mão dela, e duas vezes chegou a tocar em seu joelho. O coração da garota acelerava com esses contatos casuais – eram carícias de um passado longínquo que seu corpo clamava por mais.

De repente, ela reconheceu uma parte da estrada – as montanhas à frente, os pés dela no porta-luvas.

“Seattle? Estamos indo para Seattle?”

Edward sorriu.

“Na verdade não.”

Ela franziu o cenho, e depois sorriu.

“Você está me levando para Forks?”

“Quando você me disse quanto tempo tinha que não via seu pai, sabia que tinha de fazer algo a respeito. Além do mais, Carlisle e Esme vão adorar te ver,” Edward falou, e ao ver o rosto dela, riu abertamente. “Só temos duas paradas antes.”

Ele a levou para uma casa antiga, e saiu do carro com uma mochila para ela, e uma para ele.

“Aqui tem uma roupa para a nossa próxima parada. Dez minutos, Bella. Não durma,” ele brincou.

Bella revirou os olhos, mas fez como ele sugeriu. Ela tirou a roupa da mochila. Parou. Olhou de novo. Ele não…

“Você está me levando para o baile!” Bella acusou para o outro cômodo. Como resposta, apenas uma gargalhada. Ela se vestiu rapidamente, aplicou o pouco de maquiagem que havia na mochila e saiu do quarto – mas ainda vestia o All Star.

Edward a esperava – o terno era muito parecido com o daquela noite, mas ela sabia que não era o mesmo pois ele estava mais forte do que na época do ensino médio.

E ainda mais bonito.

O sorriso que ele lhe deu era o mesmo. Ele ofereceu seu braço, que Bella aceitou com prazer e alegria.

“Você está estonteante. Não sabe o quanto senti a sua falta,” ele murmurou em seu ouvido. Bella corou e o acompanhou. “Vamos antes que nos atrasemos.”

Ele abriu a porta do carro para que ela entrasse e correu pro outro lado.

Dessa vez, ele não soltou a mão dela.

Ela não sabia o que esperava para esse baile falso – mas reconheceu o caminho e arfou. Edward sabia que ela tinha entendido, por isso pegou a mão dela e depositou um leve beijo. Ela não entrava no abrigo há anos, mas era ainda extremamente familiar. Bella achou que ele fosse levá-la para o mesmo salão que sempre faziam os shows, mas caminharam juntos até o jardim – o mesmo jardim em que se beijaram, e o mesmo jardim que terminaram (e, cá entre nós, o mesmo jardim que dois anos depois seria o palco do casamento deles).

Bella estava tão emocionada que só notou o resto da Alaska quando a música começou.

Era Sleepy Head, a música que Edward escrevera sobre eles.

Edward lhe ofereceu a mão, e ela aceitou sem pestanejar.

“Você gosta de dançar agora?” Ele perguntou com um meio-sorriso.

“Eu gosto de qualquer coisa que envolva você,” Bella respondeu, cansada de ser cautelosa. Cansada de ter cuidado.

Ele parecia se sentir do mesmo jeito. Edward se afastou, segurou o rosto dela com as duas mãos e a olhou intensamente.

“Bella, eu quero você de volta. Eu prometo que vou te amar melhor do que fiz no passado. Eu sei que eu arruinei nossos planos. Eu sei que fui eu que mudei nossa rota. Fui eu–”

“Edward. Sim.”

O sorriso devastador que tomou o rosto dele foi o suficiente; Edward a puxou para si e a beijou como se sua vida dependesse disso – e possivelmente, uma parte dela dependia. Bella sabia que a dela dependia.

Dependia do deslizar suave dos lábios dele. Do roçar da língua dele na sua. Das mãos em seu cabelo, segurando, puxando, acariciando. Dos fios delicados sob as mãos dela. Dos suspiros que escapavam. Do calor que lhe tomava.

Do amor que voltava a encher seu peito.

Por quanto tempo eles ficaram se beijando, ela não sabia. Mas pra sempre iria lembrar do olhar de Edward nela enquanto a música que ele escrevera para os dois tocava no fundo, a luz do crepúsculo sinalizando o fim de um dia, e o início de toda uma vida.


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