be my eyes
6 Capítulo 5 - Só naquele minuto
Notas iniciais
— Você veio Harry! – Todos abraçavam ele surpresos e felizes.
Já era noite quando voltamos para encontrar todos.
— Vocês estavam juntos? – Lyla perguntou.
— Acabamos nos encontrando na cidade, e a acompanhei pelos afazeres dela.
— Entendo... – Ela parecia desconfiar, mas preferiu deixar para lá e pegar o braço de Harry o puxando para o acampamento.
Estávamos agora em uma montanha mais afastada da cidade movimentada, com um acampamento em frente a uma casa.
— Bom... Já que está muito frio, preferi alugar uma casa para apenas dormir. Ai a gente passa os dias aqui fora. – Carol explicava para todos – Agora vamos ficar na fogueira para jantar.
...
— A Lyla não desgruda do Harry desde que chegou. – Grace comentava enquanto fazia uma salada.
— Coitado, mal chegou e ela já o quer todinho. – Carol ria.
— Eu imaginei que ela tivesse um namorado. – Falei.
— Não, a Lyla não é muito comprometida com homem. Ela pega um e enjoa no dia seguinte, nesse tempo que eu fiquei com ela, o máximo de tempo que ela ficou com alguém foram 14 dias.
— Ela parece muito interessada no Harry. – Sem perceber eu já procurava os dois com o olhar.
E lá estavam eles, ela mostrando suas tatuagens na nuca se aproximando mais para ele observar melhor.
— O que foi Mia? – Carol perguntou me tirando do transe.
— Nada, nada. É só que ela nunca pareceu se interessar muito nele na escola.
— Ah, mas era porque ele não era muita coisa para ela. Você lembra, ela só pegava garotos populares. Agora ele bonito assim e com um jeito mais maduro que a maioria daqui, era de se esperar já.
Suspirei, estava tão divertido quando ele ficou comigo mais cedo. Distante assim acabou perdendo toda a graça do dia e aquilo me irritava um pouco. Ele tem namorada, não devia se entregar assim para Lyla, poxa.
— Mia, me ajuda a levar a comida até a mesa lá fora.
— Pode deixar.
— Ah, e pega mais um casaco. Você está com uma roupa muito fina para esse frio.
...
— Harry, o que você tem feito na vida desde que saiu da escola?
Estávamos todos em volta da fogueira enquanto apenas Thomas e Grace ficavam na churrasqueira.
— Fui aceito na Universidade de Washington em Direito e estou trabalhando como promotor. – Ele respondeu um pouco tímido.
— Uau, um promotor. Você é incrível mesmo. – Lyla ao seu lado passava as mãos em seus braços.
— Eu escutava muito isso da Mia... – Ele falava rindo olhando para mim.
— É, eu sempre achei você desse jeito... – Comentei com um sorriso fraco.
— Você não está com frio?
— Estou bem, Carol. Não se preocupe, já estou bem aquecida com o fogo. – Sorri.
— Aliás, você não contou direito sobre como você está Mia. – Thomas falava enquanto distribuía a comida para todos.
— Ah, eu estou bem em Roma. É um lugar agradável e tranquilo, tenho um trabalho que me sustenta bem. Acho que estou satisfeita.
— O que você faz? – Harry perguntava interessado.
— Bom, quando terminei o curso de cinema. Fui convidada a trabalhar na produção de algumas séries locais e pequenos filmes...
— Mentira! Você já está trabalhando nos filmes? – Grace me olhava maravilhada.
— Não é nada demais. Como me especializei mais na fotografia, eu acabo ajudando o enquadramento e cores das cenas. – Olhei para a fogueira na minha frente – Mas o que eu queria fazer parte mesmo é da direção, mas isso vai demorar ainda. É a área mais importante num filme. Mas estou feliz por fazer parte de tudo isso, é bem emocionante.
— Eu imagino! Sempre quis visitar cenários dos filmes e ver como é a produção!
— Sério? Bom... Eu posso te levar para visitar alguns estúdios em Roma, tem muitos filmes famosos que são filmados na cidade.
— AH NEM FALE! Eu adoraria! – Como sempre Grace esbanjava felicidade.
— Aí, eu quero também!!! – Lyla se animou.
— Podemos marcar uns dias para vocês me visitarem... – Comentei sem pensar.
— SIM, vamos vamos. – Carol deu seus pulinhos, uma característica marcante sua.
— Ei ei, eu quero ir também. – Thomas implorou com um olhar triste.
— Se eu fosse a Mia começaria a cobrar pela hospedagem. – Lyla riu.
— Mas é sério, podemos combinar alguma vez para vocês irem. Claro, o meu apartamento é pequeno, mas eu dou um jeito.
— Você mora sozinha?
— Não, tenho uma colega de quarto. Ela é bem simpática, vai adorar vocês.
— Ai, já estou toda animada! – Lyla sorria.
— Você não vai comer Mia? – Thomas mostrou o prato da carne assada.
— A Mia é vegetariana. – Olhei para frente e me surpreendi pelo Harry saber disso.
— Oh, sério? Perdão haha, é melhor eu tirar isso da frente.
— Você tem uma ótima memória. – O olhei ainda surpresa.
— Como falei, dez anos para mim não foi tanto tempo assim... – Sorriu.
E ficamos nos olhando por uns segundos, ele realmente era adorável. Foi então quando Lyla tirou minha concentração para puxar ela até a casa pedindo para ajudá-la em algo.
— Sabe o que seria perfeito agora? – Daniel falou pela primeira vez – Um chocolate quente e cobertas, que nem fazíamos antigamente.
— Perfeito! Nem lembrava mais disso. Você ainda toca? – Carol pergunta.
— Faz tempo que não faço música, mas acho que ainda lembro de algumas coisas.
— Ótimo, vou pegar um violão e Mia... Você pode fazer aquele chocolate quente que você sempre fazia para todos?
— Claro! – Levantei e fui até a casa, caminhando para cozinha.
Eu era famosa por fazer o melhor chocolate quente daquela formatura, fazíamos toda noite antes de dormir. Peguei todas as canecas e coloquei no balcão, comecei colocando o leite em uma panela no fogão, o processo era demorado. Então sentei na pia olhando para a janela enquanto mexia o chocolate, só conseguia ver o campo todo escuro com neve em poucos lugares, e sem querer acabei ouvindo uns risinhos vindo do corredor. Já imaginando que seria Lyla, tentei ignorar cantarolando alguma música.
— 'Cause I've had... The time of my life – Era a única música que vinha à mente, e cantando baixinho eu lembrava de mais cedo.
Um dos momentos mais adoráveis que eu tinha passado nos últimos anos. Onde eu consegui me soltar como uma criança, e sem ter medo do tempo, sem ter medo de crescer, apenas a felicidade por estar vivendo ali. Por que era tão difícil viver um momento assim?
— O chocolate vai queimar desse jeito... – Pulei da pia pela voz rouca no meu lado.
— Que susto! – Ajeitei minha roupa amassada e voltei a mexer a panela.
— Desculpa... Foi sem intenção. – Daniel pegava um copo com água rindo.
— Vou perdoar dessa vez. – Tentei não encarar ele, mas senti seu olhar em mim.
— Eu não tive a oportunidade ainda de falar com você... – Falou se encostando na pia.
— Foi...
— Mia... Eu...
— Daniel, está tudo bem. Não precisa se esforçar e se sentir incomodado com nada. Faz dez anos já. – Então decidi jogar meu olhar nele.
Pela primeira vez pude ver o que mudou nele, sua altura, seu cabelo que está bem maior, sua postura mais frágil e com um ar mais calmo. Diferente das suas características fortes do passado, musculoso e definido, cabelo padrão de adolescente famosinho e ar determinado.
— Tem certeza?
— Como assim?
— Você parece desconfortável...
— Oi? Eu? Não não, não estou.
— Mesmo? – Ele se aproximava procurando uma expressão em meu rosto – Não parece.
— É sério Daniel. – Ele mudou até demais, assim eu não o reconhecia muito. Mas seu jeito ainda parece o mesmo – O que você está...
Ele passou o braço por mim ficando centímetros do meu corpo, com sua altura eu acabei ficando com o nariz em seu peito, respirando fundo um pouco nervosa.
— O que foi? – Ele olhava para baixo – Não queria que você queimasse o chocolate.
Foi então que eu vi sua mão com a colher mexendo na panela atrás de mim.
— Não precisava se aproximar tanto... – Passei por de baixo de seu braço, escapando da aproximação.
— Você ainda fica nervosa facilmente.
— Não fico não. – Tirei a mão dele da panela e voltei a mexer aquilo.
— Até parece... – Ele continuava rindo.
— E você? Ainda gosta de provocar as pessoas? – Brinquei, mas sem o encarar.
— Na verdade, sempre fiz isso só com gente que me deixava perdido... – Sua voz calma balançava meu estômago.
Olhei para ele e naquele momento... Só naquele minuto, eu senti falta. Saudades das noites em seus braços, saudades do calor dos seus braços que me envolviam. Saudades do encaixamento perfeito dos nossos corpos.
Mas só naquele minuto...
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