azul escuro

1 a arte de fazer nada e nascer do sol não visto


Notas iniciais
olá, olá! antes de prosseguir nessa fic, há algumas considerações para não causar qualquer confusão: 1. hakama é um tipo de vestimenta tradicional japonesa usada na parte inferior do corpo, pode ser como uma saia ou dividida como uma calça. basicamente é o que o gentaro usa no design oficial; 2. o rei tem apartamentos tanto em shinjuku quanto shibuya; 3. o óculos só tem grau em uma lente porque rei é cego de um olho; 4. isso não é relevante para a narrativa, mas o gentaro é trans nessa fanfic. talvez isso seja mencionado posteriormente na história; posto tudo isso na mesa, te desejo uma ótima leitura!

Gentaro Yumeno é um observador natural que curiosamente encontrava-se na posição de ser observado.

Enchendo a sala do apartamento, o som repetitivo das teclas ecoava suavemente. Na pequena mesa, o escritor tentava terminar de dar vida à novela em que trabalhava nos últimos tempos. As feições delicadas iluminadas pelo monitor do notebook ganharam o aspecto da exaustão. Ainda assim, persistia. E parecia doar a própria vitalidade para cada letra, cada palavra, para tecer com fio de alma mais uma história.

Era um tipo de trabalho estranho, porém interessante de se ver. O modo que ele movia as mãos, mexia a boca para narrar sem nenhum som, como parecia tentar invocar as palavras e o coração dos personagens. Havia as partes mais sutis também, tais eram o franzir das sobrancelhas em concentração, os lábios crispando-se, então as pausas para avaliar os manuscritos e o que já havia sido transferido para o digital, sempre buscando buscando buscando. Como melhorar, como polir essa pedra para o melhor estado dela?

Rei não sabia se havia nome para quem observa um observador, mas sabia que ele era esse tipo de pessoa quando Gentaro vinha para o apartamento dele a fim de terminar o bruto do livro para edição antes do prazo final. Nessas épocas, quer seja em Shibuya, quer seja em Shinjuku, Yumeno-sensei irrompia para dentro como um furacão silencioso, usando pressa, nervosismo e determinação na bainha da escura hakama.

Então, como parte do pacto entre eles, Rei o cumprimentava com poucas palavras e nada mais. Gentaro assumia seu posto na mesa para o trabalho, Rei fazia qualquer coisa que não fosse atrapalhar. O resto era isso: quietude. Não importava quando esse costume nasceu, quando esse pacto não dito foi estabelecido, importava que acontecia e isso já bastava.

Importava a companhia. E importava a quietude, até não haver mais ela.

— Gentaro, daqui a pouco sai fumaça da sua cabeça. Dá um tempo — Amayado advertiu, ao mesmo tempo que colocava o próprio notebook de lado e estalava os dedos, depois esticou a coluna.

— Você me olha demais para quem devia estar fazendo o próprio trabalho — disparou em resposta, sem tirar a atenção dos textos. Deu uma risada curta antes de comentar: — Lembra quando — e outra risadinha — você disse a mesma coisa para mim um dia, então fui mergulhar na sua pia?

— E ainda me pediu pra manter sua cara na água? Vou te dizer, ‘cê vem com cada uma que me deixa mais surpreso que a outra.

— Quem, eu? Surpreendendo o grande Rei Amayado, desvendador da vida? Pare de lisonjear-me, não vê que fico com as maçãs do rosto vermelhas? — para ilustrar, colocou as mãos sobre as bochechas. Não estava envergonhado. — Farei uma meta de deixar-te cada vez mais admirado.

interrupção:
algumas coisas de escritor excêntrico
que yumeno gentaro já fez para terminar uma história no prazo

mergulhar a cabeça numa pia cheia de água, como afirmado anteriormente; andar pelo apartamento como se estivesse passeando por praça; rezar para deuses em que não acredita; dançar na sala e exigir que seu editor o acompanhe;

Rei deixou escapar uma risada baixa diante da graça que Gentaro fazia. Não chegou a comentar do epíteto que lhe foi dado, apesar de desvendador da vida soar bastante elegante. Assistiu o escritor deslocar-se para o sofá onde estava, sentando ao lado dele para o fazer companhia. Sem hesitar, Gentaro tirou os óculos de Rei, os de grau que usava para trabalhar, e colocou no próprio rosto. Fez uma careta de desconforto os usando.

— Só tem grau em uma lente — ele explicou antes que Gentaro falasse algo. — O que quer fazer dessa vez?

O rapaz mais novo tomou uma pausa para refletir, pôs uma mão no queixo até estalar os dedos como se tivesse tido uma epifania.

— Fazer sua barba, Rei Amayado. Mostre-me onde está o barbeador.

— Ah, isso não — franziu o cenho, depois passando uma mão pela barba sem nem perceber. — Escolhe outra coisa.

Gentaro riu e devolveu os óculos ao rosto de quem os pertencia.

— Era uma mentira — disse simplesmente. Recostou no sofá, o olhar mirando algum horizonte que existia na parede. — Nada. Quero fazer nada, porém gostaria de fazê-lo com companhia. É razoável o suficiente?

— É razoável o suficiente — Rei ecoou em confirmação, sorrindo entretido. Cruzou os braços e mimicou Gentaro em recostar-se e fitar coisa nenhuma na parede cor de creme.

A quietude retornou para a sala. Amayado até tentou manter a mente vazia em alguma espécie de meditação ou seja lá o que Gentaro pretendia com isso — talvez realmente pretendesse nada — mas sua mente voltou ao estado de sempre: pensou nas coisas que ainda faria, as que poderia fazer e as poucas pendências que tinha, na novela que editaria e nas vendas da anterior, nos telefones do governo recebidos...

Se fazer nada envolvesse pensar em nada ou pouca coisa, ele já não era muito bom nisso. Ademais, mexia uma perna discretamente, irrequieto. Olhou de canto para o companheiro para espiar o desempenho dele. Até mesmo vendo só o perfil de Gentaro podia dizer que ele estava cansado, as marcas escuras debaixo dos olhos contrastando com a pele alva. Notou que ele estava absorto em contemplação, no profundo dos pensamentos.

Entretanto, emergindo para a realidade, o novelista devagar virou o rosto para Amayado e sorriu divertido.

— Não está fazendo um bom trabalho em fazer nada. Seus olhos sobre mim são como mãos de fantasmas, sinto-os — Yumeno denunciou calmamente. — O que há tanto em mim para se ver?

— Ninguém nunca te disse que você é interessante de observar?

Esquisito, Rei. Soa como um stalker — revirou os olhos. — Está a chamar-me de excêntrico ou de bonito?

Rindo e alcançando um maço de cigarros na calça, Amayado tirou um e segurou-o nos lábios apenas para perceber que não tinha isqueiro algum.

— Do que ‘cê preferir. Não pense muito sobre isso — ele continuou tateando os bolsos das calças com certa esperança até desistir. — Tem algum isqueiro aí?

Gentaro pensou por um momento antes de começar a tatear a hakama, depois as meias, o peito e por fim achou um dentro das mangas do kimono. O editor não perguntou sobre isso.

Acabou por dividir um pouco do começo do cigarro com o mais jovem até que fosse de fato encerrada a sessão de fazer nada e, portanto, o intervalo das atividades. Cada um retornou para o próprio ofício, desta vez ambos mais focados.

O Sol nasceu para mais um dia e nenhum deles viu, mesmo que a pequena sacada do apartamento estivesse bem ali. Após muita dedicação e xícaras de café, às cinco da manhã, Gentaro finalizou a história e os arquivos de backup. A recompensa foi em forma de saírem a pé para café da manhã no restaurante ali perto — tudo pela conta de Amayado.

A verdade é que o escritor só voltou para sua casa no final da tarde do mesmo dia após um longo cochilo no sofá alheio. Durante a despedida, Rei o parou na porta para adicionar mais uma coisa.

— Ei. Acho que ‘cê é excêntrico e bonito.

O outro cruzou os braços enquanto sentia o rosto ficar mais quente. Também nunca tinham o dito isso, ao menos não desse jeito. Erguendo o queixo e encarando as lentes escuras com toda a dignidade que possuía, com vigorosa confiança que coexistia com o embaraço, respondeu:

— Oh, cale sua boca.

E semelhante com a forma a qual entrou no apartamento na noite passada, Gentaro foi embora em silêncio. Porém usava um sorriso no rosto que estranhamente combinava com o de Amayado.

Notas finais
muitíssimo obrigada por ler até aqui! pretendo continuar atualizando a fanfic... juro