até em Meu Trabalho Você Me Persegue!
22 A Pequena Elesis
Notas iniciais
– Tá certo, então vamos tentar de novo: Você estava na minha frente...
– Não, idiota! – a menina grunhiu, repetindo pela centésima vez – Eu estava em casa e do nada você jogou uma fumaça vermelha e apareceu na minha frente! Eu já disse que não gosto de palhaços!
– Aham, agora do início. Na parte que você estava na minha frente.
Elesis lhe desferiu um soco raivoso no queixo, mas que este segurou. Não prestava exatamente atenção nela, mas no pôr-do-sol do horizonte, perguntando-se se tomara algo suspeito esta manhã. A menina, irritada, lhe deu as costas, saindo da sorveteria, mas Sieghart segurou sua mão antes que ela completasse o ato.
– Vamos, vou te levar ao médico.
– Eu não quero ir no médico, eu quero ir no parquinho agora – ela protestou, tentando se desvencilhar da mão duas vezes maior que a sua.
– Legal, mas nós vamos ao médico.
– EU NÃO QUERO... – Sieghart arregalou os olhos com o súbito volume e de repente estava no meio de diversos olhares – IR NO...
– Ei – repreendeu – Tá doida? Vão pensar que eu...
– AAAAAAAAAAAAAAAH! – ela berrou e os sussurros ao redor deles tornaram-se audíveis.
– Será que ele está sequestrando?
– Acho que ele bateu na menina.
– Maltrato infantil...
– Abuso sexual.
– É um estuprador?!
– Parque, oba vamos ao parque – Sieghart forçou um sorriso ao virar de frente para a menina. Apertou sua bochecha com um carinho um pouco mais forte que o normal – Agora pare de chorar, tá, anjinho?
Elesis pressionou os olhos, agora séria. O rapaz jurou, entretanto, ter sentido certo sadismo vindo do sorriso que ele mesmo fazia ao puxar sua bochecha. Ela estava no poder e sabia disso.
– Tambêm quero algoudão douce – falou com a boca distorcida.
– É claro... Tão amável – balançou a bochecha – Mas sabe por que eu estou na vantagem, ruivinha?
– Pourquê?
– Porque eu sei que você odeia gatos. E também sei que um dia você vai me pedir filhos. A cada pedido, espere três gatos em casa – sorriu falso – Fofinha.
**
Elesis pulava na cama elástica do parque enquanto Sieghart esperava deitado no banco da praça, olhando-a de cabeça para baixo de tempos em tempos. Buscou o relógio no pulso mais uma vez, mas o ponteiro dos segundos apostava com ele que não daria uma volta completa antes de três minutos de aquecimento.
– Oi – Sieghart ouviu alguém dizer. A voz era manhosa, feminina. Ele ergueu a cabeça só até ver quem era, voltando a abaixá-la. Não conhecia.
– Desculpe, tem outro banco ali se você quiser sentar.
– Ah – ela deu um risinho – É que eu queria sentar do seu lado.
Sieghart suspirou discretamente – É que também tô guardando lugar pra minha namorada, ela vem já já.
Sieghart voltou a encarar o brinquedo, o tempo da menina que pulava junto de Elesis acabou e ela foi substituída por um garoto. Sieghart franziu a testa, ele jurou que a ruiva seria a próxima dessa vez.
– Ah, mas ela deve tá longe ainda, né? – a moça se aproximou. Usava uma saia florida de babados, ciente que suas coxas eram o ponto forte de seu corpo. Deu um discreto andar pro lado, indo do quadril ao tórax do rapaz.
Essa peste estava enganando ele, Sieghart tinha certeza. Fincou os olhos no brinquedo, de braços cruzados. Já era a segunda vez que ela não trocava com alguém.
– Ei, você não tá me notando? – falou manhosa, dando mais um passo pro lado.
Ao longe, um menino furioso a encarava. Era seu namorado, o traidor desprezível que a morena se vingava agora. Ou tentava. O seu alvo era mais difícil do que ela imaginou, devia ter escolhido alguém menos bonito, mas agora já era tarde demais.
E foi aí que Sieghart viu. O idoso dono do brinquedo finalmente chamou Elesis com a mão. Ele prendeu a respiração, finalmente.
– Ei! – a garota tentou de novo, com a voz mais derretida. Sieghart arregalou os olhos surpresos para as súbitas coxas ao lado de sua face e se ergueu.
– Desculpe, mas eu estou... – começou um pouco severo com a insistência dela, mas arfou em um segundo susto quando viu Elesis apontar o punho para o velho enquanto puxava sua gola, lançando ameaças. O idoso indefeso ergueu as mãos em inocência, apertando os olhos – Pelo amor de Deus. – Desviou da menina e caminhou até lá imediatamente – Elesis, pare já com isso. Eu tô criando alguma selvagem lá em casa por acaso?
Elesis o fulminou com o olhar, apontando o indicador – Não me dê ordens!
– Não me dê ordens – repetiu de forma infantil – Eu sei que você tava me enganando, pestinha.
– Ei!
Ele a pegou à força, mas a menina se prendeu de uma forma impossível nas arestas da cama-elástica.
– NÃÃO!
– Arg, eu devia te deixar aqui, sabia? Ruivinhazinha irritante – puxou-a, logo encaixando o abdômen dela no ombro para ter mais estabilidade. Parou para respirar – Não é possível que você tenha mais força agora que quando crescer, minha nossa senhora.
– NÃÃÃO!!
E ele conseguiu tirá-la de lá.
– Seu idiota! – vociferou ela, batendo os pés, mas Sieghart cuidou de segurá-los.
Ao longe a morena assistia a cena, prendendo um sorriso. Que irônico, depois daquilo seu interesse, antes interesseiro, criara bases sólidas.
– Já acabou com essa palhaçada, gata? Vamos embora – falou seu namorado autoritário, fazendo-a bufar.
– Vá tomar no [CENSURADO].
**
Ele tinha cabelos grisalhos, a tez era marcada por rugas profundas de expressão e o jaleco branco se mostrava impecável ao que o homem alisava o queixo molenga, os olhos pressionados e a boca entreaberta em dúvida. O que quê esses dois estão falando, senhor?
– Olha, pode parecer loucura – Sieghart se explicou ao médico – Mas eu juro...
– Eu não gosto dele – Elesis admitiu e cruzou os braços.
– Certo – respondeu o doutor, se esforçando para entender a situação – Vamos pegar daí. Porque você não gosta dele?
– Porque ele é insuportável.
Sieghart jogou a cabeça para trás, irônico – Há! Eu. Mas não é isso...
– E você, rapaz, gosta dela?
Sieghart suspirou. Apenas queria que o médico resolvesse o recente problema de idade que a ruivinha adquiriu inexplicavelmente de uma hora pra outra, mas sob aquela chance de desabafo ele abriu uma brecha.
– Sinceramente, – fulminou-a com o olhar – isso é a única coisa que me mantém aqui. Eu – apontou pro peito – sou um cara de comprometimento. E não importa o que aconteça, eu ainda amarei esse micróbio vermelho.
Elesis encarou-o imediatamente, arregalando os olhos que por um segundo Sieghart tinha esquecido a inocência que continham – Você conhece um micróbio vermelho?
– Aham – ele prendeu um sorriso quando as órbitas dela ficaram maiores, curiosos.
– Eu nunca vi um micróbio... Eu não sabia as cores deles.
– Bom, tem de várias cores. Os vermelhos são os mais chatos, só que são os mais bonitinhos também.
– Eu quero ver...
– Bom – o médico sorriu, batendo as palmas – Problema resolvido, 500 reais.
– Quê? – Sieghart franziu o cenho – Você não resolveu nada, ela ainda continua criança.
– Ora, rapaz, espere alguns anos que sua irmã vai crescer. Eu sou um conselheiro familiar e resolvo problemas, vocês estão com os problemas resolvidos então já podem me pagar.
Sieghart bufou, incrédulo. Na placa dizia doutor e o indivíduo usava um jaleco. Balançou a cabeça negativamente – Francamente... Conselheiro? Pff... – se ergueu – Vamos, ruivinha.
– Espera aí, você tem que pagar.
– Você vai me mostrar os micróbios?
– Aham – segurou a sua mão e a guiou pela sala – Os mais legais.
– Ei! Meu dinheiro, seu vagabundo!
**
Sieghart suspirou frente à fila de sorvetes. Elesis havia pedido para ele comprar enquanto esperava-o no balanço. A noite caía sobre o parque e o cansaço de ser pai por um dia exauriu o moreno. Por mais impossível que parecesse, seus irmãos eram bem mais fáceis de se lidar. Pestinhas... Pelo menos Elesis era mais... Pensou em calma, simpática, amável... mas preferiu manter a frase no ar.
– Tem de chocolate, morango e creme.
– Um de morango.
E enquanto o moço fazia o sorvete, Sieghart deu uma rápida olhada no celular. Não tinha internet ali.
– Dois reais – disse o homem e Sieghart o pagou, voltando até a ruiva.
– Toma – mas a menina não conseguiu parar o balanço e bateu a cabeça na mão do mais velho. O cabelo dela não molhou com o sorvete graças ao desviar dele, mas o choque não deixou de acontecer.
– Ai! Cuidado! – disse ela.
– A culpa é sua por ter uma cabeça tão grande.
– MINHA CABEÇA NÃO É GRANDE! A SUA É QUE É!
– Ah é? Quer medir? – ele parou seu balanço enquanto lhe entregava o sorvete. Ela agarrou o alimento, se esquecendo do seu arredor assim que pôs a boca nele.
Sieghart sentou-se no balanço ao lado, olhando o céu. Ainda não sabia como isso fora acontecer, no seu interior ainda esperava que aquilo fosse um sonho. Como Elesis tinha ficado daquela forma?
– Eu menti – disse ela, chamando a atenção do mais velho.
– Em que?
– Até que eu gosto de você.
Sieghart soltou um riso nasal. – Você é muito interesseira mesmo, não vou te comprar mais nada hoje, ruivinha. Esteja avisada.
A menina riu. Era um som alegre e divertido e de uma hora pra outra Sieghart se viu cativado pela essência apaixonante que tanto lhe chamava a atenção na ruiva. Tanto criança como moça, ele sentia que algo os ligava, algo muito além da idade.
– Quer um pouco? – ela ofereceu, estendendo.
– É claro, quem não gosta de um sorvete babado, não é mesmo? – e ele se inclinou para provar. Elesis franziu o rosto infantil, divertindo-se.
– Eeeecaaa.
– A baba é sua, tá com nojo por quê? – ele limpou o sorvete da boca, rindo do riso dela.
– Eu ainda quero ver os micróbios vermelhos que você disse que já tinha visto.
– Eu também menti – admitiu – Não eram micróbios, era algo mais parecido com... um anjo.
– Um anjo? – ela arregalou os olhos.
– É, mas é uma anja caída, ou seja, uma demônia – Ele se ergueu, estendendo a mão pra ela – Vamos, vou te mostrar assim que a gente chegar no esp... no seu quarto.
– Tá.
Sieghart conteve um risinho. Seus irmãos já tinham passado daquela fase inocente. Ele quase tinha se esquecido do quanto era adoravelmente divertida.
**
– O efeito só dura algumas horas, não é? – perguntou Rey, examinando as unhas da mão. Dio encarava a janela de braços cruzados.
– Sim.
– Certo, por enquanto dá pro gasto. Comece a pensar em algo melhor, essa menina ainda vai sofrer muito em minhas mãos. Humfp.
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