ascensorista (fluxo de Consciência)
1 Ascensorista
Quatro. Cinco. Seis. Ficar vendo os números subindo é tão chato. Elevadores são tediosos. Abriu a porta, e entra mais um maldito dizendo “nono andar”, só pra que quando o elevador chegar lá, o cara saia como se eu fosse um robô de apertar botões de elevador. E o elevador não para, desce, sobe, sempre entrando pessoas metidas em ternos, dizendo o andar em que querem chegar como se fosse uma ordem, e eu apenas uma maquina. Queria tomar café. Não tem café no elevador. Às vezes um desses cretinos entra com um copo de café ou cappuccino. Faz meses que não tomo cappuccino. Ou como uma trufa. Trufas são tão boas. Mas eu tinha que inventar de trabalhar de ascensorista. Subindo e descendo o elevador. Isso me lembra poços. Poços d’água. Tinha um no sítio do meu avô. A gente costumava ir lá. Mas ninguém vai no sítio desde que vovô morreu. O idiota não queria ir pro hospital. “Ah, é só um machucado”. Simples machucados não deixam sua mão podre, dolorida e fedida, sem contar roxa, em menos de um dia. Também não começam a apodrecer sua boca, garganta e estomago só porque você roeu um pouco de pele. Gangrena gasosa. É uma bactéria meio bizarra, faz você apodrecer vivo. Matou meu avô em menos de dois dias, só porque a anta roia a unha. E a unha podre, literalmente. Até câncer é mais suave. Até me lembro do dia em que achei que estava com um tumor. Maldito pedaço de pipoca preso na garganta. Dizem que pipoca engrossa a voz. Porque prende na garganta por acaso? Que idéia besta. Não de que engrossa a voz, de que faz isso por prender na garganta. Eu não sei quanto a voz. “Térreo”. Mais um engomadinho de terno, tomando café e carregando uma trufa. Depois que eu sair daqui vou atrás de uma trufa. “Obrigado”.Foi a primeira vez que alguém me agradeceu. Ele bem que podia ter me dado a trufa. Mas ele me agradeceu. Talvez as coisas melhorem hoje. Estranho, o elevador está parado. Ninguém chamando ele. Trinta e três. O último andar do prédio. É um lugar legal. Mas sempre me chamam quando eu estou quase chegando lá, e eu tenho que descer. E então reclamam da demora do elevador como se fosse minha culpa. É minha culpa, eu subi até o trigésimo andar, mas vocês não sabem disso. Ficam me culpando sem saber. Vai que tinha alguém me chamando no trigésimo andar? O pessoal do vigésimo sétimo pra cima só sobe de manhã e desce no fim da tarde. Nem pra almoçar eles descem. Será que eles tem um cozinheiro? Nenhum cozinheiro subiu no meu elevador, mas tem o de serviço, que não tem ascensorista. Talvez eles vão por lá. Também tem o heliponto no topo do prédio, mas duvido que cozinheiros usem ele. Eu nunca andei de helicóptero. Deve ser muito legal. Eu nunca nem voei de avião. Queria pular de pára-quedas. Ou talvez asa delta. Qualquer coisa que me ajudasse a voar. Quero voar um dia. Vai ser bem legal. Seria bem legal ter asas também. Pra ir embora eu poderia ir até o trigésimo terceiro andar e pular de lá, e sair voando. Imagine se eu aprendesse a voar agora? Ia ser uma péssima coisa, eu ia bater a cabeça no teto. Dependendo da força, eu ia desmaiar e a galerinha de terno ia reclamar que o ascensorista está com defeito e precisa de um técnico. Mas talvez eu não desmaiasse e só ficasse com um galo na cabeça, e depois ia voar. Voar deve ser realmente muito bom. Acho que seria difícil pousar pela primeira vez. Eu mal saberia voar, ainda teria que pousar. Talvez eu quebrasse as pernas, mas nem teria importância, eu saberia voar, não precisaria muito delas. Caralho, o elevador ta caindo, vigésimo segundo andar e essa porra ta caindo, o que eu faço, merda? Ótimo, eu pensando em voar e bater a cabeça no teto do elevador, e o elevador cai e eu bato a cabeça no teto. Droga, ta sangrando. Não deve ter muito mais prédio até chegar no poço. Tomara que não doa. Merda.
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