— Cala a boca!
Essa criança não vai ficar quieta? Acho que conheço ela, quem é? Não para de gritar, ta, quebrou a perna, mas quem manda ser idiota a pular da árvore? Até parece eu com quatro anos quando quebrei minha perna. Eu pulei da árvore por causa de uma aranha. Odeio aranhas. Uma daquelas peludas que nem tem veneno, mas são nojentas. Aquela que subiu pela minha perna foi a pior, o idiota do Giuliano esmagou ela dentro da minha calça e ela mordeu minha perna. Essa criança é surda?
— Já mandei calar a boca!
Droga, onde eu to? É meu avô? Tenho certeza de que ele ta morto. Faz quase dois anos. Eu não tava no elevador agora a pouco? E agora ta o meu avô aqui do lado brincando com aquela criança chorona. Espera, o elevador caiu. Será que eu morri? Eu me lembro disso. A criança sou eu! Caralho, eu to morrendo e vendo minha vida? Eu to morrendo, droga? Num elevador? Por que num elevador? Eu devia mesmo ter pulado do prédio, ia ser mais legal. Vai que eu voava? Meu Deus, que bizarro, simplesmente apareço em outro lugar? É assim? Onde é aqui? Parece o colégio que estudei. Nossa, eu me lembro desse dia! Eu e o pessoal da sala tacando coisa no ventilador. Foi bizarro, a tesoura voou no-
-AAAAAAAAH!
No braço do Fábio. É. Se me lembro bem arrebentou um tendão. Eu só vi tanto sangue junto na vida quando vi o cavalo sendo atropelado. Será que vou ver isso aqui? Foi nojento. E agora? To indo pra onde? Parque... É, é um parque. O que aconteceu nesse parque mesmo? Achei, sou eu! Doze anos acho. Não acredito que usava o cabelo assim. Que ridículo. Pior é saber que to mesmo morrendo. Como será que descobriram que da pra ver a vida assim antes de morrer? Alguém voltou por acaso? Há, nossa, foi o dia do meu primeiro beijo. A Helen mordeu minha língua. Ia sangrar pra caralho se ela tivesse mordido forte. Tem muito sangue e... Porra, isso é um cavalo? MEU DEUS, O CAMINHÃO DE NOVO! Não acredito que apareceu isso mesmo! Haha, olha eu vomitando. Estranho, eu não to passando mal, mas aquele ali está. Deve ser porque nem tenho corpo mais. Merda. Mas meu Deus, que nojento esse cavalo morrendo.
Elevador? Ah, eu no elevador.
— Obrigado.
Ah, o cara me agradecendo. Nossa, a cara de idiota que eu fiz. Fiquei tão feliz assim pra fazer essa cara de idiota? Certo. Agora eu espero, subimos e caímos. Daí eu morro. Ótimo. Dezenove. Vinte. Vinte e um. Vinte e dois, é agora. Porra, não da pra não se assustar com isso. Pelo menos só o outro eu bateu a cabeça dessa vez. A sensação é até boa. Pular de pára-quedas não deve ser tão diferente. Talvez a parte do “pára.” É. Vou morrer mesmo. Legal, tem sangue meu voando. Tomara que não doa.
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