Estava sentado no sofá de casa, os olhos voltados para a janela, onde as pesadas gostas de chuvas batiam com barulhos secos. Mais uma vez a chuva castigava São Paulo, e não seria surpresa abrir o jornal no dia seguinte e dar de cara com imagens de ruas alagadas e notícias trágicas de pessoas mortas. Nunca mudava. Sempre tudo tão igual.

Ligou a televisão depois de um tempo, se encolhendo no sofá e abraçando as pernas. A luz vinda do aparelho se tornava a única fonte de luminosidade na sala escura do apartamento. Fazia um tempo que estava assim, e não conseguia ver pra onde fugir. Talvez fosse, e muito provavelmente é, a única solução era voltar atrás. Baixar a cabeça e implorar perdão.

Mais uma vez mudou o canal para o de vídeo, ligando o DVD e esperando a leitura daquele disco que não saíra mais dali. O arquivo de fotos não demorou a abrir, e seu tormento pessoal teve início. As fotos passavam uma a uma, lentas, como se quisessem esfregar em sua face o que tivera e abrira mão. Seu maior erro. Perdera o sorriso mais lindo que já vira, e pior de tudo é que perdera por algo tão desnecessário que hoje em dia só lhe causava repulsa.

Não sabia definir o que sentia vendo tudo aquilo, toda noite, por horas a fio. Doía demais, mas ao mesmo tempo era reconfortante ver o sorriso de Thominhas a seu lado. A lembrança breve de uma epóca feliz, se fazia suficiente em contrapeso às horas de dor que vinham depois. Sempre que a realidade voltava, que assimilava que não o teria mais, que o corpo quente do menor não estaria mais sobre o seu nos finais de semana.

E tudo o que sobrava era o frio e o vazio. Na cama, no coração, ali no sofá. Numa noite de chuva em que poderia ter enfrentado todo o trânsito da marginal tiête escutando o loiro reclamar que queria ter um avião, em que poderia depois deitar nesse mesmo sofá com ele e o atrapalhar enquanto o mesmo via algum filme, em que poderia o confortar na cama no meio da madrugada quando o mesmo acordasse de um pesadelo por conta do filme de terror. Numa noite assim, o que tinha no momento era apenas o apartamento vazio e o sofá frio. E estava assim a quase dois anos.

O sono não demorava a vir, ele costumava chegar antes das lágrimas se tornarem torrenciais. E vinha sempre imperceptível, como um abraço que não se espera, e que te protege de algo muito ruim. Se pudesse, passaria vinte horas por dia dormindo, as quatro que sobrassem seriam usadas para ficar olhando aquele DVD. Por que já não tinha vontade de nada. Para si, agora tudo tanto faz.

O dia amanhecia cinza, mas isso não fazia diferença. Tudo ficara cinza depois dele, mesmo que dissesse que havia superado, as cores não voltaram depois que ele se foi. Pegava o metrô, sentando-se num dos bancos no fundo, encostando a cabeça contra a parede oca e colocando o capuz. Não queria ser visto, queria ser invisível. Os fones estavam nos ouvidos, e a música era tão alta que impedia até que pensasse, e era exatamente isso que queria.

Desceu na estação, deixando-se levar pela multidão, só querendo sumir ali entre as pessoas preocupadas com seus horários. Não tinha mais horário, tanto fazia se chegasse às sete da manhã ou às duas da tarde. Era como se o mundo tivesse deixado de girar, e tudo passasse lentamente, e só queria gritar. Gritar para sufocar a dor.

Entrava no prédio da gravadora, os passos arrastados o guiando até o estúdio, onde entrava sem falar com ninguém. Sim, estava bem, não se preocupe, era apenas sono. Quantas vezes já falara isso? Quantas vezes mentia pra todos eles, principalmente quando puxavam aquele assunto. Eu já superei. Falara tantas vezes que convencera ao mundo, menos a si mesmo. Não tinha superado merda nenhuma, e se não fosse tão orgulhoso já estava de joelhos na frente dele implorando para o ter de volta.

- DH! Você tá me escutando, mano?! – Era sacudido pelos ombros por alguém que nem notara que estava ali.

- Oi? Ah! Foi mal, Dash... Acho que dormi sentado aqui... – E sorria sem graça, suspirando baixo por ter se perdido mais uma vez.

- Porra, meu! Tô falando aqui tem um tempão! – E ele parecia revoltado por ter sido deixado nadando no vácuo.

- Foi mal, velho... Não tenho dormido direito. Mas, diz aí... O que foi? – Não estava interessado no que ele tinha pra falar, até por que os assuntos da banda já tinham deixado de fazer parte de seus pensamentos. Que lhe desculpassem seus fãs.

- Eles. – Estendia o cartaz do festival de música que estavam programados pra tocar no dia seguinte. Mas, o cartaz estava mudado. No fim, logo abaixo de Móveis Coloniais de Acaju estava...

- Restart! – Os olhos castanhos[?] do vocalista se arregalavam, e ele puxava o cartaz da mão do outro. E lá estava a foto do Pê Lanza, com seus óculos gigantes e calças azul turquesa. – S-Sério...?

- Olha.. A gente não precisa tocar... Se eles vão tocar, já tem uma banda teen, podemos inventar uma turnê do nada. Ou eu posso fingir que tô com dor de barriga! DH... A gente faz alguma coisa, velho... Prometo!

- Ei, mano! Se controla, meu! – Negou, deixando o cartaz de lado. – Eu já superei, canso de falar isso pra vocês. Mas, pensei que eles tinham show em Santo André...

- Bem, eles tinham... Só que a chuva estragou alguns equipamentos do palco e o show deles foi remarcado pra daqui a duas semanas, parece... Aí chamaram eles pro festival.

- Tudo bem, velho... Vamos ensaiar. Temos que repassar as músicas pra esse show. – E ele levantava, se espreguiçando e indo pegar o microfone. Não se permitiria jamais falhar na frente dele.

Depois de horas de ensaio, saíam pro almoço. Era no meio da tarde, mas iam almoçar ainda assim. Caminhavam pela calçada em direção a um pequeno restaurante de comida caseira em que sempre iam, conversando sobre passagem de som e se iam mesmo tocar aquelas músicas. Tinha uma ali que nem todos estavam seguros, por que significava muita coisa para o vocalista, e com Thomas na coxia, aquela música ia ser um inferno.

Mas, DH queria tocá-la. Justamente por ELE estar ali, a escutando. Iria tocar, pra ver se olhando pra cara do outro e cantando aquela letra, adquiria coragem pra ir acabar de vez com esse sofrimento. Já estava louco com isso, por que porra! Tinha se revoltado, é.

Sentaram numa mesa no canto, fazendo os pedidos de sempre. Iam ali de segunda a sexta, muito provavelmente as pessoas que trabalhavam ali já sabiam de cor o que comiam e bebiam. Era mais uma coisa que nunca mudava. E, na onda de revolta em que estava, começou a mudar a rotina. Coragem se adquiri aos poucos afinal.

- Eu quero spaghetti ao molho sugo... – Disse o vocalista depois de ler o cardápio algumas vezes. Não era fã daquilo, mas dera uma vontade surtada de comer aquele prato. Talvez estivesse enlouquecido de vez.

Claro que o pedido foi estranhado, mas nada foi dito, afinal ninguém tinha que se meter na comida do outro. E o almoço seguiu tranquilo, com a sempre presente falta de voz de DH, que apenas comia pensativo. Os amigos tinham aprendido a respeitar. No começo, logo que ele e Thominhas terminaram, ficavam perturbando ele. O levavam para baladas, apresentavam meninas. E bem no começo isso parecia ter adiantado de algo, até que o vocalista raciocionou que não, o loiro não iria perdoar e voltar pra ele dessa vez. Aí eles tiveram que aprender a respeitar a dor do outro.

Voltaram para o estúdio afim de terminar logo de uma vez aquele dia. Todos estavam ansiosos por causa do festival, e não iam sossegar enquanto o mesmo não chegasse. Se despediam em frente ao estúdio, cada um rumando para seu destino. DH voltava a descer as escadarias do metrô, novamente se misturando às pessoas cansadas e apressadas, dessa vez para poder chegar em casa e finalmente relaxar.

No fim, eram todos iguais. Viviam cada um em seu mundinho, com suas preocupações e esperando sempre uma brecha pra fugir daquilo. Presos dentro de suas próprias mentes, sem escapatória, destinados a seguir aquilo. Não dava pra fugir das armadilhas que sua própria cabeça te prega, você sempre acaba pego por elas.

E foi o que aconteceu consigo, por que não tinha tido força o suficiente pra não cair nas armadilhas da fama. Não soube resistir às tentações que vieram junto com a fama da banda. E isso tinha acabado com sua vida, tirando seu amor de seus braços. Sabia que tinha vacilado, sabia que Thominhas só tinha ido embora por que tinha deixado. Mas, era praticamente um adolescente, que tinha ficado louco com a facilidade que agora tinha de ter sexo fácil. Sim, se deixou levar por algo vazio, e agora estava pagando por isso.

Entrou no vagão do metrô lotado, segurando num dos ferros do teto. A outra mão catava o fone, colocando-os nos ouvidos e apertava o botão do aparelho, fazendo com que a música alta voltasse a esmurrar seus tímpanos. O corpo se movia suavemente com as partidas e paradas do metrô, e os orbes fechados impediam que visse as pessoas descendo em suas estações, porque não lhe interessava. Apenas contava as paradas até que chegasse à sua.

Saiu do vagão, novamente deixando-se ser levado pela multidão apressada, porque para si tanto fazia, só queria chegar em casa para poder deitar no sofá e ligar a TV. Mesmo que o apartamento parecesse grande demais para si, ainda tinha o cheiro dele, o jeito dele. Os copos de vidro continuavam arrumadinhos do mesmo jeito que ele sempre colocava, intercalando vermelhos e azuis no cantinho do armário. Sempre deixara que Thomas mexesse no que quisesse, trocasse o que fosse de lugar. A casa era dele também, deixara isso claro pra ele desde o início.

Andava pela rua completamente alheio ao mundo, a cabeça baixa, o capuz cobrindo qualquer visão que pudesse vir a ter do que vinha pela frente. Ah, que saíssem da frente se não quisessem ser atropelados. Gostava de andar sozinho de noite, como se tudo fosse nada, e só o vento frio batendo contra o rosto existisse. Por isso não escutou quando berravam seu nome, tanto por se desligar do mundo quanto pela musica extremamente alta nos ouvidos.

- Porra, DH! – Exclamou aquele que o chamava, empurrando o ombro do garoto que andava tao desligado.

O vocalista da Cine deu um pulo, virando de uma vez para quem o tinha chamado dessa maneira toda delicada. – Pê Lanza?! – Arregalou os olhos, tirando os fones.

- Porra, meu! Te chamando tem séculos, velho! – Exclamou irritado, cruzando os braços.

- Tô de fone, mano... Foi mal. O que tu quer? – Guardava os fones no bolso em que o aparelho de música estava, tirando o capuz e o olhando.

- Conversar com você... Sobre teu lance com o Thominhas. Não, mano. Cansei de vocês dois ficarem nesse doce... – Disse ele quando viu que o outro fechava a cara.

- O que você quer, velho? Me deixar pior do que eu tô?

- Ao contrário! Quero que você fique melhor! Você e ele! Por que só vocês dois não se tocam que se gostam, mano! Caralho, velho! Como conseguem ser tão lesos?!

- Thominhas não gosta mais de mim, Pedro. Você sabe disso, meu... Sua raivinha de mim tá tão grande que veio até aqui só pra me deixar mais pra baixo?

- Que raivinha, mano?! Puta que pariu, velho! Vou ter que te provar que ele ainda te quer?! Que ele ainda é louco por você?! Vou, mano?!

- Vai! Se você conseguir alguma prova, me mostra, velho! Por que eu não acredito nessa merda!

- Então eu vou te mostrar! Amanhã, mano! Depois do teu show! Vou te mostrar que ele ainda é louco por você.

E soltando fumaça pelas orelhas, o vocalista da Restart ia embora, reclamando do quanto os dois eram teimosos, e que se não gostasse muito de ambos já os tinha atirado na frente de um ônibus. DH negou de leve, não se compadecendo da indignação do outro. Não acreditava naquilo, por mais que fosse lá implorar para tê-lo de volta, não conseguia acreditar realmente que o loiro ainda sentia algo que não mágoa pela sua pessoa. Era difícil demais acreditar naquilo depois de tudo.

Terminou o percurso para casa sem nem notar, se jogando na cama mesmo sem banho, apenas querendo dormir. Não conseguia não ter uma pontinha de esperança pelas palavras do outro vocalista, mesmo que se recusassse a acreditar na existência de algum sentimento do baterista por si. Na verdade, queria e não queria acreditar em tudo, por que não queria sofrer, mas também não queria ser enganado. No fim, dormir era a melhor opção, e logo o fez, apagando sem sonhos na cama vazia que já deixara de usar havia um tempo. O sofá se tornara a melhor opção.

Acordou com o som do despertador, se arrastando para o banheiro para finalmente tomar um banho e se limpar da sujeira da rua. Não se demorou muito, logo se arrumando e seguindo para o encontro dos amigos. Hoje era dia de show, e nisso ainda conseguia manter certa pontualidade. Não queria ser o próximo Tim Maia e deixar as pessoas esperando e talvez nem chegar a aparecer. Respeitava seus fãs.

O trajeto para o estúdio foi feito na mesma moleza dos outros dias, simplesmente se deixando levar pela orda de pessoa, desanimado como estava todos os dias. Já fizera o favor de esquecer o encontro com Pê Lanza, decidido a só pensar nisso depois da apresentação, por que não queria correr o risco de errar alguma letra numa das músicas. Não iria acabar com sua carreira musical assim, não é mesmo?

Entrava no estúdio, encontrando os amigos reunidos no centro, todos ansiosos com aquilo. Era um público grande, principalmente por ser em um local aberto. Se apresentariam com grandes bandas, o que os deixava levemente inseguros, por que queriam fazer o melhor do que sabiam. Mas, aprendera a lidar com o nervosismo ao longo da carreira, e hoje em dia sabiam disfarçar muito bem o que estavam sentindo, mesmo que os joelhos tremessem e a voz falhasse.

Passaram o pedaço da manhã ensaiando algumas músicas, apenas por falta do que fazer mesmo. E músicos quando não tem o que fazer, tocam até cansar ou achar algo pra fazer. Entraram na van que os levariam para o Ibirapuera, onde algumas bandas já se apresentavam desde o dia anterior*. O percurso para o parque foi tranquilo, mesmo com o natural trânsito paulistano, não demoraram muito para chegar lá. Desciam na área restrita aos artistas, correndo pro camarim para se arrumar. Mesmo que fossem tocar apenas no começo da noite, se arrumariam cedo para não se atrasar nem um segundo.

A tarde transcorrera com uma letargia irritante, que apenas aumentava a ansiedade das bandas que ainda estavam para tocar. A medida que as bandas iam se apresentando, as outras se reuniam na coxia para aproveitar o show. Foi quando a Restart subiu no palco que DH saiu do camarim como se fosse bala, indo se esconder nas sombras dos equipamentos para assistir o baterista que fazia seu coração acelerar.

Foi no refrão de “Pra você lembrar” que os olhares de ambos se cruzaram. Como se sentisse que estava sendo observado, Thomas voltava os olhos na direção de DH assim que Pê Lanza cantava “Vou te mostrar,que falta muito pouco,pra eu olhar no teu olho e dizer: amo você...”. Os olhares se encontraram, e por muito pouco Thominhas não errava a música, mordendo o lábio inferior e virando o rosto. Foi o suficiente para que o vocalista da Cine se retirasse dali, engolindo as lágrimas que queriam sair. Não podia dormir agora.

Logo depois de Cachorro Grande, Cine subia ao palco, sob os gritos dos fãs e algumas vaias que não importavam muito. Estavam ali pelos fãs, não por aqueles que não gostavam. Se tivesse apenas um que os quisesse escutar, tocariam com todo o amor. As músicas iam passando, acompanhadas pelo coro da platéia, o que os deixava realizados, por que significava que gostavam de seu trabalho.

Na hora da última música, os integrantes da banda se entreolharam, e com suspiros baixos, puxaram o começo de “As cores”, mesmo que não a quisessem tocar. Respirando fundo, DH reunia coragem para cantar. Não ia passar vergonha na frente daquele público imenso, e principalmente do loiro que estava ali na lateral do palco.

Começou a cantar, como se fosse apenas para ele, indo um pouco mais para o fundo so palco, de forma que o pudesse olhar diretamente, mas sem que a platéia percebesse aquilo o que fazia. Thominhas mantinha os olhos fixos no maior, o piercing preso entre os dentes indicava nervosismo.

- Mas, eu só queria suas mãos nas minhas... Revelar as fotos que tiramos e ninguém sabia, ah... – E essas duas frases foram ditas com mais sentimento do que todos podiam perceber, por que esse sentimento era direcionado para uma só pessoa, que não aguentava e saía dali.

O show terminou de forma calma, e depois de se despedirem do público que pedia por mais, seguiram para o camarim. Nem se arrumar DH se deu ao luxo, logo indo atrás do vocalista da banda colorida que tocara umas horas antes de si, por que agora queria saber das malditas provas que ele dizia que tinha.

Por não saber onde ele estava, foi até o camarim da banda do mesmo, encontrando a porta entreaberta. Viu pela fresta o baterista loiro agarrado com uma ruiva e gelou. Negou várias vezes, se afastando alguns alguns passos e acabando por derrubar alguns pedestais de microfone. Escutou a voz de alguém se aproximar da porta de madeira, parecia ser Koba. Virou, saindo correndo pelos corredores pra longe, e pode escutar o guitarrista gritar seu nome.