al Chemist
4 Capítulo 3 - O Trio Assassino
Ka seguiu à oeste, indo em direção à uma pequena cidade-comércio. Havia somente um restaurante, uma loja de lembranças e um mercado.
Ele perambulava pelo deserto, com seu capuz à cabeça protegendo-o da tempestade de areia. Já estava com fome e sede. De alguma forma não havia encontrado o oásis que ficava na metade do caminho. Sem que percebesse, ele subiu em uma duna, mas de repente não havia mais duna. Ka pisou no nada e caiu em uma trincheira na areia, de uns cinco metros de profundidade. A trincheira era imune ao vento, pois a corrente de ar passava direto por cima e não entrava ali. Ele tirou seu capuz. E subiu de volta ao deserto. Chegando no topo, avistou ao horizonte, o semblante de sua cidade. Uma grande sombra de um gigantesco emaranhado de prédios tremeluzindo como um holograma.
Estou perto, finalmente. Parecia uma eternidade.
Sua cidade, a Cidade Máquina de Matel, contém grandes prédios inacabados de vigas de titânio. Foram assim durante anos. Um fato curioso é que, na entrada da cidade, há uma grande árvore rosada no topo de uma pequena montanha coberta de grama aparada a risca. –Cerejeira.– Aquilo era muito estranho por estar no meio do deserto.
Ao entrar na cidade, foi direto para casa. Chegando lá, entrou pelo portão e viu que a porta da sala estava aberta.
–Athena?– chamou Ka. –Você está em casa, Athena?– mas ela não respondeu. –Garota doida, sai de casa e deixa a porta aberta.– resmungou.
Athena Sakura era a irmã de Ka. Embora não sejam irmãos de sangue, são bem unidos. Ela é um pouco mais baixa que ele, tem longos cabelos preto-azulados e olhos azuis quase violeta. Ela costuma ficar em seu quarto, na internet, com música alta enquanto Ka dorme na sala. Diversas vezes não o deixa dormir, até que ele se rende e resolve jogar vídeo game com ela. Sua comida não é das piores, mas Ka sofre quando ela para de estudar e resolve cozinhar sozinha.
Ka jogou o molho de chaves na mesa de centro da sala e entrou no quarto de Athena para ver se ela estava dormindo ou estudando, mas não estava.
Onde será que ela está?, pensou.
Foi até a cozinha e ficou olhando o que havia dentro da geladeira.
–Cara, que fome.– ele disse. –Salvar donzelas em perigo não é mole não.
Ele pegou um pacote com pães de queijo e uma lata de refrigerante, abriu ambos, colocou os pães de queijo no microondas e digitou os minutos. Foi à sala bebendo seu refrigerante e o colocou na mesa de centro, depois se deitou no sofá com os pés cruzados no braço do mesmo, de olhos fechados e com as mãos para trás da cabeça. A visão do teto deixava seus olhos pesados, ele sentia seu corpo mais leve. Então uma explosão aconteceu ali perto, Ka despertou e foi correndo para ver o que era. Ele não se esquecera de levar o refrigerante.
–Mas será que eu não tenho descanso?!
Várias pessoas corriam para todos os lados desesperadas. Naquela parte da cidade as ruas eram bastante largas, o que amenizava um pouco a confusão das pessoas. Chegando ao local da explosão, ele se deparou com uma grande nuvem de poeira no meio da rua e quando ela se dissipou, viu um homem bem grande e musculoso erguendo Athena pelo pescoço, dentro de uma enorme cratera no meio da rua. Ele deixou a lata de refrigerante cair no chão.
–Athena!– gritou.
O homem olhou para Ka.
–Ei, Alpha. Ele chegou!!– disse alto para alguém. Sua voz era meio desfigurada, como um rugido de ogro.
–Acabe logo com isso!– respondeu a voz ecoante. Era uma voz grossa e as palavras saíram perfeitamente bem.
Quem disse isso?, pensou Ka, procurando em cima dos prédios.
O homem grande jogou Athena em Ka e eles foram lançados para longe. Ao parar, Ka se recuperou e tentou acordar a irmã. Ele a abraçava em seu colo.
–Athena, Athena! Acorde, Athena!!
Athena franziu sua testa e abriu seus olhos lentamente. Havia se despertado.
–Ka, você chegou.– disse com um sorriso de canto de boca.
–Sim, eu cheguei. Estou aqui.– respondeu.
–Fuja, Ka. Eles são muito fortes.– sua voz era de alguém que não tinha forças para acordar de manhã cedo.
–O que houve aqui? Quem são eles?
–Devoradores de Almas.
–Devoradores de quem?
–Ka... você se lembra de quando nos conhecemos?
–O quê? Do que você está falando?
Caramba, ela está delirando.
–Você lembra?
–É claro que sim. Como poderia me esquecer? Nos conhecemos em Rozen, a capital do leste. Éramos parecidos. Não lembrávamos do passado e não tínhamos família. Então eu disse que podia vir morar comigo.
Athena sorriu e uma lágrima abriu caminho no seu rosto coberto de poeira. Ka afastou uma mecha de cabelo que cobria os olhos dela.
–Você foi o melhor irmão do mundo.– disse Athena enquanto colocava sua mão no rosto de Ka.
–Espere, não vá! O que irei fazer sem você?
–Siga seu caminho e cumpra seu objetivo.– disse com a voz mansa. –Sempre estarei com você.
–Aguente, Athena!
–Eu te amo, Ka... meu irmãozão.– disse, acomodando seu rosto no peito de Ka e fechando os olhos.
Ao terminar de dizer isso Athena se transformou em um monte partículas brilhantes que subiram em espiral ao céu, até sumirem no ar. Ka permaneceu de cabeça baixa por um tempo.
–Athena!– ele disse como se ela ainda estivesse lá.
Ele colocou as duas mãos no chão e apertou um monte de terra com cada uma delas.
–Ganma, mate-o!!– disse Alpha, a voz de antes.
Ganma, o cara musculoso, correu em direção de Ka, mas ao chegar perto dele, um aura cor de vinho, quase negra, passou a sair de Ka e Ganma se afastou. Ka ainda estava de cabeça baixa e não dizia nada. Ele, então, levantou sua cabeça e olhou Ganma. Seus olhos não eram os mesmos, eles eram sombrios e estavam vermelhos como sangue à procura de mais sangue.
–Vocês acham que são malvados? Eu vou lhes mostrar o que é ser mau.– disse, se levantando.
–Ganma, o que você está esperando? Ele é só um...
Antes que Alpha terminasse o que ia dizer, Ka surgiu na frente de Ganma. Ele se movera tão rápido que parecia como se tivesse se teleportado. Havia pulado para ficar na altura de Ganma, que tinha quase dois metros de altura. Ka estava com sua mão direita no rosto de Ganma, que estava impressionado com a velocidade de Ka. Ele ainda estava no ar.
Ka olhava profundamente nos olhos de Ganma. Era um olhar assassino, que dava medo em qualquer um. Ka então, segurou firme o rosto de Ganma e o jogou de costas no chão. Sua mão de alguma forma queimava o rosto dele. Ele olhou para frente e lá estava Alpha. Um homem de aparência elegante, com cabelos cinza azulados penteados fielmente para trás. Ao lado de Ganma, Alpha deveria ter a altura de um pouco acima dos ombros dele. Posteriormente, Ka, correu e o arrastou-o na direção de Alpha. No meio do caminho Ka parou de correr e Ganma continuou sendo arrastado, mas Alpha parou-o com o pé.
–Ganma, pare de enrolar!!– disse Alpha , com as mãos nos bolsos.
Ganma se levantou tonto, com a marca da mão de Ka no rosto e a testa sangrando.
Se você me dissesse como desliga isso,ele pensou.
Ka deu um rugido e liberou tanto poder que os prédios a sua volta trincaram e fios de poeira desceram. Ele novamente se moveu velozmente na direção de Alpha, mas quando chegou à sua frente, foi erguido pelo pescoço.
–Acalme-se, humano tolo.– disse Alpha.
Alpha de alguma forma começou a absorver a energia espiritual de Ka, mas percebeu que aquilo era como um veneno para ele, então interrompeu. Ka voltou ao normal, porém Alpha, de joelhos no chão, gritava de dor, pois o poder de Ka fluía em seu corpo.
–O que é você?– perguntou Ganma a Ka.
–Nem queira saber.– respondeu Ka tossindo, sentado no chão e passando a mão no pescoço.
Ao se recuperar, Alpha se levantou sem perder a elegância.
–Interessante. Seu poder é mesmo extraordinário.– disse.
–Você não sabe o que diz.
Ka olhava intensamente nos olhos de Alpha, estes eram de um azul celeste, mas de alguma forma lembravam os de Athena. Ka se sentia perdido no meio do espaço. Alpha que o olhava penetrantemente fazia-o ficar paralisado com tais olhos.
Que olhos são esses?, Ka pensava.
Olhos jamais vistos por pessoa alguma. Olhos que sobrepujavam os seus próprios como quando estava com ódio agora pouco. Ka sentia que estava imerso numa piscina, mas não sabia onde era cima ou baixo.
–Você nunca vencerá esses olhos.– disse Alpha.
–Quem são vocês?– perguntou Ka.
–Você não deve ter ouvido sua querida irmãzinha, ou devo dizer nossa irmãzinha.
–O quê?!
–Sim, nós somos Devoradores de Almas. Como o nome diz, nós devoramos almas. Por quê? Ora, para ter vida eterna. Quanto mais almas devorarmos mais vitalidade ganhamos e mais fortes ficamos.
–Por que mataram a Athena?
–Porque ela nos traiu. Nós viemos de uma dimensão onde as trevas dominam o mundo. Ela, Betha, foi mandada aqui para matá-lo, mas nos traiu e não o fez. Então, fomos mandados para matá-la e a você também. Porém, pelo que vi –e senti– você não morrerá agora, seu poder nos virá a ser útil mais tarde.
–Útil?! Eu tenho maldição dentro de mim!! Se quiser, pegue-a. Não me importo.
–Não, ele não nos serve ainda. Vou deixá-lo viver... por enquanto.
–Mas... Alpha– discordou Ganma. –Ele não gostará disso.
–Não ligo para o que ele pensa. Vamos!
–Você é quem sabe.
Ganma rasgou o ar atrás de Alpha, criando um portal para sua dimensão. Ela parecia muito com o lugar em que Ka sonhara com o garoto de armadura vermelha na noite em que estava com Lulua. Ganma entrou no portal e Alpha estava entrando também.
–Os olhos de um Devorador veem tudo.– disse.
Alpha entrou no portal que estava se fechando. Ka se levantou e foi até o portal para tentar entrar também, mas já estava muito pequeno para passar.
–Vou devorar sua alma, humano.– disse Alpha a Ka. Virou-se e foi andando de encontro a Ganma que o esperava mais adiante.
–Ei, Alpha!!!– gritou Ka –Eu vou te procurar e vou te achar, nem que eu tenha que ir aos confins desse planeta. Quando eu te achar, vou chutar o seu traseiro tão forte que você vai precisar daquelas almofadinhas para hemorroidas e não me importa se os seus olhos tem visão de raio laser ou raio-x, eu vou socá-lo mesmo assim!!!
Alpha deu uma risada. O portal se fechou completamente e só o que restou foi o eco da risada de Alpha.
Mesmo que não demonstrasse, Ka estava muito triste com a morte de Athena, pois estava novamente sozinho no mundo, sem ninguém em quem confiar e a quem recorrer. Ela o deixara e o pior de tudo: havia morrido em seus braços. Ele sequer pode fazer algo.
Havia sido um dia claro, sem nuvens. O pôr-do-sol brilhava intensamente nos olhos de Ka.
–Pois é... mais um dia se passou.– disse a si mesmo. –Amanhã será um novo dia.
Ele, então, pegou a lata de refrigerante que estava no chão e voltou para casa.
Ah cara, meus pães de queijo devem ter esfriado.
***
Entrando em casa, retirou os sapatos na sala enquanto andava. Jogou a lata vazia no lixo da cozinha e abriu o microondas. Pegou um dos pães de queijo e comeu. Engoliu fazendo careta.
–Éca, borracha de queijo.
Tirou a bandeja do microondas e jogou as “borrachas de queijo” no lixo, pôs a bandeja de volta no microondas e o fechou. Pegou uma garrafa d’água na geladeira e foi bebendo para a sala. Passou pela porta do quarto de Athena e teve um devaneio.
–Como vai deixar seu quarto novo?– Ka disse à Athena. O quarto dela ficava na frente da casa, ao lado da sala. Eles estavam deitados no tapete que ficava no meio do quarto, olhando para o teto.
–Não sei.– ela respondeu. –Pensei em desenhar aquela árvore do parque e nós dois embaixo, naquela parede ali.– Na parede à direita deles, estava a porta e o guarda-roupas. À esquerda estava a cama dela, atrás estava a janela com uma mesa embaixo cheia de papéis e o notebook. Ela apontava para a parede à frente deles, que estava vazia.
Ka percebeu que estava sentado no tapete olhando a parede, que agora não estava mais vazia. O desenho da árvore de flores de cerejeira estava pronto, mas ainda faltava ele e a irmã. Ele se levantou, foi até a mesa embaixo da janela e pegou um estojo cheio de lápis de cor, procurou um lápis na mesa e uma borracha. Depois tirou o sobretudo, o jogou na cama e começou a desenhar. Ele deu traços vigorosos e concretos até tarde da noite.
Sua visão estava escura, se perguntava se os acontecimentos anteriores haviam sido um sonho. Abriu os olhos e, com sua visão ainda embaçada, viu a imagem de Athena. Então, se sentou e percebeu que era o desenho que havia feito. Acabara dormindo no chão do quarto. Os primeiros raios de sol do dia entravam pela janela e iluminavam a pintura. O desenho ficara tão perfeito e similar à realidade que era como se estivesse olhando por uma janela e vendo aquele momento congelado no tempo.
Queria que ela estivesse ali.
O funeral de Athena ocorreu alguns dias depois. Diante da lápide da irmã, ele sentia que sua alma estava em completa escuridão, não sabia se estava triste ou com raiva.
–Não fui um bom irmão pra você, Athena.– disse enquanto olhava a lápide. –Como irmão mais velho eu deveria protegê-la, mas falhei. Que grande irmão você tem.
Nesse momento um brisa soprou e Ka foi cercado por flores de cerejeira. Ele, que estava de cabeça baixa, levantou-a para olhar e saber de onde vinham. Sentiu que, de alguma forma, Athena dizia que não devia desistir.
Apertando seus punhos, rapidamente deixou a tristeza que o consumia e foi dominado pela determinação que sempre tivera.
–Eu vou trazê-la de volta, Athena Sakura!!– disse em voz alta. –Vocês duas!!– disse apontando para a lápide ao lado, que tinha um colar em cima. Era um rubi em forma de coração preso numa corrente de ouro 24 quilates.
Depois de dizer tais palavras foi embora. O porta-retrato que tinha uma foto de Ka e Athena sorrindo no parque, naquele dia antes de irem embora de Rozen, foi deixado em cima da lápide dela. Na lápide se lia: Aqui jaz Athena Sakura, uma irmã feliz.
Notas finais
---
Revisado por Magdalena Cunha
Fale com o autor