Notas iniciais
Esta fanfic foi escrita para a coletânea do tumblr desafiosparaficsdehetalia. Para aqueles que ainda não o conhecem, eu recomendo que deem uma olhada. A coletânea em si está realmente incrível. Bem, indo ao que interessa, inicialmente meu objetivo era retratar a vida das mulheres que eram forçadas a abandonar seus lares, suas vidas, e arrastadas pelo tráfico para uma vida de prostituição. Não são todas que são arrastadas para tal situação, mas eu preferi focar naquelas que foram. A prostituição é uma profissão marginalizada e desprezada pela sociedade desde que o mundo se entende por mundo, mas ninguém faz nada pra mudar a realidade de nenhum dos envolvidos - além de alguns gestos particulares, nada muda, elas ainda estão lá. Elas ainda existem, quer você - ou elas mesmas - queira, quer não. Bem, o personagem do Francis inicialmente tinha um papel secundário, mas em algum momento ele se tornou um dos - se não o - protagonista da história, porque o trabalho dele, e todos os riscos envolvidos, é real. Existem jornalistas que colocam as vidas em risco, que estão nas linhas de frente, que se infiltram em organizações criminosas, e fazem qualquer coisa por seu trabalho. Eles são incríveis, e merecem respeito por isso. Eu sinceramente espero que gostem da história tanto quanto eu gostei de escrevê-la. Boa leitura. Gin-chan

O som de estática evidenciou o início da filmagem.

Subitamente, o tecido estampado de uma gravata aparece em frente à câmera, que é ajustada no tripé, antes de se afastar junto com o resto do corpo do loiro que a usava em volta do pescoço, revelando também o quarto de hotel atrás dele. Ele não parecia o tipo de cara que usaria uma estampa de super heróis, mas ainda assim ajustou seriamente a gravata do Homem de Ferro e encarou as lentes com um par de fascinantes olhos azuis. Quando falou, o sotaque francês ficou evidente.

— Meu nome é Francis Bonnefoy e sou um jornalista de produções independentes. Este documentário é, eu suponho, sobre o amor e sua inexistência. – Abriu um sorriso cansado, passando a mão pelos cabelos e acrescentou. – Mas não se deixem enganar pelo nome romântico. – E a tela ficou preta novamente.

De repente, uma voz feminina falou em uma língua desconhecida. Seu tom não passava de um sussurro e lentamente uma única palavra apareceu no meio da tela, Vietnam, e desapareceu assim que a voz se calou. Após a primeira voz, uma segunda, terceira, quarta e sabe-se lá quantas vozes se seguiram, uma após a outra, cada uma falando a mesma frase, em diversos idiomas – como se pode notar mais tarde. Seus países apareciam um atrás do outro na tela, Liechtenstein, Ucrânia, Bielorrússia, Hungria, os nomes apareciam e desapareciam da tela rapidamente, Egito, Brasil, Rússia, Espanha, França, Itália— que ressoou um par de vozes juntas, e dois nomes em vez de um. Grécia, Turquia, China, Bélgica.

Por fim, uma voz clara como água falou em inglês, seguida rapidamente pelas palavras Estados Unidos da América.

— Meu nome é Amelia Jones, e este é um documentário sobre o amor, e sua não existência.

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Após um momento, a tela negra e o breve silêncio que seguiram aquelas palavras foram substituídos pela imagem trêmula de uma câmera em movimento entrando em foco. O som da música pode ser ouvido – a batida eletrônica agitada – e as luzes de festa se moviam sob uma nuvem de fumaça que cobria o teto. O ambiente cheio, as pessoas que dançavam e se moviam de um lado para o outro com bebidas, algumas ainda firmes, outras cambaleantes. Ao que tudo indicava, uma boate.

De todos os lugares do mundo que o jornalista francês visitara ao longo dos vinte anos de trabalho, logo uma boate. A câmera seguiu para o bar, abrindo caminho pela pequena multidão que se amontoava na pista de dança. Atrás das prateleiras de bebidas do bar havia um grande espelho, no qual a câmera captou Francis em seu terno, usando um par de óculos vermelhos. Ele ergueu a mão, ajustando a armação e consequentemente movendo a câmera, abrindo um sorriso para sua imagem.

Escorregou para uma das cadeiras dispostas ao longo da bancada do bar e ergueu o braço, chamando pelo barman. Assim que o mesmo se aproximou, Francis abriu a carteira e puxou de dentro uma quantidade generosa de dólares e um cartão de visitas em um tom vermelho, oferecendo ambos ao homem atrás do balcão que, com um sorriso debochado, o indicou com um movimento de cabeça a porta lateral, empurrando de volta o cartão que lhe fora oferecido.

O jornalista ergueu-se, seguindo para o local indicado e passando sem problemas pelo segurança que supostamente deveria guardar a porta, mas estava chapado demais para se importar com sua presença. A sala onde entrou estava quase que completamente vazia, e bem menos poluída, com uma decoração típica de motéis. Enquanto ele olhava ao redor um homem calvo se aproximou, já com seu pagamento em mãos.

— Uma hora reservada, estou correto? – Francis concordou com a cabeça, balançando a câmera sem querer. – O senhor tem alguma preferência?

— Só que me deixem sozinho.

— Estava me referindo à sua acompanhante. – O homem acrescentou, num tom que fez Francis se sentir estúpido. Hesitou por um momento.

— Francês. Alguém que fale francês.

Foi conduzido por um corredor e deixado em um dos últimos quartos. Assim que se viu sozinho retirou a parte de cima do terno, jogando-a sobre a cama, e rapidamente ele seguiu para a porta, esticando-se para instalar uma pequena câmera sobre ela.

Houve um corte na imagem, e pode-se ter uma visão de todo o quarto, que consistia basicamente em uma cama de casal, uma porta para o banheiro e uma janela coberta por cortinas cinza-escuro. O francês recuou e observou seu trabalho, tirando os óculos e colocando-os junto ao casaco, em cima da cama, com um sorriso.

Estava tirando a gravata quando finalmente a porta se abriu para receber uma jovem de cabelos loiros curtos e olhos azuis, com um vestido branco colado no corpo magro. A expressão era quase tão gelada quanto a noite lá fora.

— Boa noite – foi sua primeira fala perante a moça, em um francês que foi traduzido para o inglês pelas legendas. Ela revirou os olhos e não o respondeu. Passando direto por ele, seguiu até a cama, onde sentou-se e começou a, lentamente, retirar as próprias roupas.

— Minha cara — ele se aproximou rapidamente, ainda falando em francês, e segurando-a pelos ombros, interrompendo sua ação de remover a parte de cima do vestido – apesar de eu ter certeza de o quão bela é, não vim aqui para isso.

A moça recuou para longe dele, franzindo o cenho em confusão.

—... Você não veio aqui – e indicou o quarto – para isso? – e apontou para si.

— Exato. – Francis abriu um sorriso, sentando do outro lado da cama e observando a jovem se erguer e afastar-se dele, desconfiada.

— Entende que estamos em um prostíbulo, certo?

— Sim, é claro.

Por um momento ela o encarou como se fosse louco e, quando decidiu que não era o caso, erguendo os braços como se pedisse iluminação divina, fazendo uma careta.

— Eu juro que vou chamar os seguranças se não se explicar em três, dois-

— Sou um jornalista. – Ele respondeu tranquilamente, o sorriso ainda no rosto. – Meu nome é Francis Bonnefoy, e estou aqui porque quero ajuda para fazer um documentário. Sobre vocês.

—... Jornalista? Quer dizer... Documentário? Aqui? E vocês quem?

— Sim, sim, sim, e “vocês” seria você e qualquer uma das garotas que estiver disposta a uma entrevista.

A menina se sentou, como se o ato a ajudasse a processar as informações que recebera.

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Houve um corte, e a imagem mudou para ela de pé, caminhando de um lado para o outro, lançando olhares desconfortáveis na direção da câmera da parede enquanto o francês permanecia na mesma posição de antes, observando-a. Ela parou e respirou fundo algumas vezes, fechando os olhos e esfregando o rosto. Murmurou algo incompreensível, que a legenda traduziu como “eu não acredito que vou fazer isso”.

— Ok. O que diabos espera que eu faça? – Ela perguntou finalmente.

— Pode começar me dizendo o seu nome – foi a resposta tranquila do jornalista.

— Nome? – Murmurou, balançando a cabeça. – Não acho que tenha um. Mas por aqui, me chamam de Bélgica. – O apelido não pareceu intrigar o francês, que concordou com a cabeça, abrindo um sorriso.

— Vai ser Bella, então. – E acrescentou antes que ela pudesse reclamar – Quantos anos você tem?

— Dezoito. Não, dezenove. Acho... Isso vai pra televisão?

— Sim, se eu conseguir o patrocínio que quero. Sabe me dizer como chegou aqui, há quanto tempo?

— Não sei. Minha mãe ela... Trabalhava nisso... Era uma prostituta, quero dizer. Eu não sei como conseguiu esconder a gravidez, acho que meu pai fazia parte do grupo, ou algo assim. Ela morreu quando eu tinha sete, acho que era contagioso porque matou pelo menos mais dez das meninas. Depois, me tiraram de onde eu estava, na Bélgica, e eu acabei... Aqui. Onde quer que seja.

— Sabe o nome dela, da sua mãe?

Bélgica abaixou a cabeça, como se tentasse se lembrar.

— Lilian? Algo assim... Eu não me lembro muito bem, desculpe. Tem certeza de que vai usar isso? Não é lá muita coisa.

Ele a ignorou, continuando as perguntas.

— Isso é comum aqui? Vocês engravidarem?

Bella se encolheu, remexendo-se e voltando a andar.

— Não... Quer dizer, sim. Acontece de vez em quando. Só que eles abortam assim que percebem. Já perdemos algumas meninas por isso. – Ela não parecia querer falar sobre o assunto.

— Como assim?

— Depende, acho. Algumas simplesmente estão fracas demais, outras reagem e se recusam a abortar.

— Por que recusariam o aborto?

— Elas se apaixonam. – Bella abriu um sorriso sem graça, encolhendo os ombros. – As vezes, nos apaixonamos. O cara pede sempre a mesma menina, diz que ama ela, diz que vai nos tirar daqui. E aí ele some, porque é o que todos eles fazem. E você se toca que foi idiota em crer que ele te amava também. E aí descobre que está grávida. E você nem sabe se é mesmo dele porque... Bem, mas é sua única esperança, entende? É... Sei lá.

Os dois acabaram num silêncio desconfortável. Francis abriu a boca algumas vezes, mas não conseguiu terminar nenhuma das frases que lhe vinham a mente. Quaisquer que fossem as perguntas que pretendia fazer, se perderam. Novamente, a gravação foi cortada para uma na qual Bélgica estava sentada na cama, de costas para o francês, encarando o nada. O silêncio foi mantido até o jornalista erguer o braço, conferindo o relógio, e soltar um xingamento baixo.

— Nosso tempo está acabando. Preciso que me indique alguém confiável.

Mas ela não parecia estar com pressa.

—... Como sabia que eu era confiável?

— Não sabia. Rápido, tenho dez minutos.

Ela hesitou, apertou os lábios, franziu o cenho e entortou a cabeça, pensando. Por fim, observou-o colocar de volta o casaco e os óculos e abriu um sorriso.

— Peça por Hungria. Acho que ela vai gostar de conhecer você.

Francis a encarou por um momento, devolvendo um sorriso antes de correr até a porta e arrancar a câmera da parede, desfocando a imagem por um momento, e desligando.

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Estavam de volta ao quarto de hotel, Francis em frente à câmera, com os óculos/câmera no rosto. Ele usava as mesmas roupas de antes, mas o cabelo loiro estava solto, caído até os ombros. Ele passou a mão pelos fios, tentando mantê-los longe do rosto enquanto falava.

— A primeira vez que ouvi falar sobre aquele... lugar foi quando cheguei em Vegas. Minha ideia inicial era conversar com prostitutas da cidade inteira, mas nunca passou pela minha cabeça que este documentário teria apelo internacional. Não foi exatamente fácil conseguir um cartão – ele soltou uma risada – conheço gente que daria os rins por um. Basicamente, eles sequestram ou compram meninas de todos os lugares do mundo, prendem elas naquela boca de fumo que chamam de boate e as exibem como animais exóticos, e o que mais me irrita é que são famosos por isso. Conheci garotas dos cinco continentes habitáveis. Algumas delas não tinham idade nem pra dirigir quando chegaram lá... Se isso não é o suficiente pra chocar, bem, espere para ouvir o resto.

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A imagem mostrava agora um quarto em muito semelhante ao anterior, mas que possuía uma poltrona em um dos cantos, onde o francês estava sentado, de pernas cruzadas, os olhos atentos na direção da porta. Ouviu-se um clique e a porta se abriu apenas o suficiente para permitir a entrada de uma jovem de cabelos longos e castanhos. Ela deu um ou dois passos, parou e ergueu o olhar para a câmera, fixando nela os olhos de um tom mais claro de castanho. Depois de um momento, sua atenção voltou para o jornalista.

— Quem é você?

—... Francis Bonnefoy. Você é Hungria, certo?

— Porque diabos pediu por mim? – Ela prosseguiu, ignorando a pergunta que lhe fora feita e deixando claro que não estava acostumada a receber tanta atenção. – Tenho certeza de que nunca fui pra cama com você.

Francis se remexeu, claramente desconfortável com a atitude arisca da moça.

— Ahn... Não? Bella me disse que você concordaria em fazer a entrevista. Já fazem dois meses, tempo o bastante pra terem discutido o assunto.

— Quem é Bella? – Hungria se aproximou, fazendo o jornalista se encolher levemente para longe. Era difícil dizer qual dos dois estava mais confuso.

— Bélgica.

Bélgica. O nome se repetiu nos lábios de Hungria. Ela recuou até a parede oposta a dele, escorregou para o chão, e abraçou os joelhos. Bélgica. Seus olhos ergueram-se para encará-lo.

— Ela conversou com você? Disse pra me chamar?

—... O que... – A pergunta congelou. Ele piscou, correspondeu o olhar da morena, apenas por um momento, e abaixou a cabeça. Quando olhou-a de novo, era como se pudessem vê-lo lutando contra as palavras, o exemplo vivo da expressão "com o coração na garganta". – Ela morreu. – Não era uma pergunta, mas a moça concordou com a cabeça mesmo assim. – Por quê?

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Um corte, sabe-se lá de quanto tempo. As posições mudaram apenas o suficiente para que se percebesse uma diferença no tempo.

— Ela se apaixonou. Simples assim.

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— Eu sinto muito por sua perda.

Aconteceu algo como uma inversão de posições, Hungria na cadeira, o jornalista caminhando freneticamente pelo quarto, fazendo um círculo contínuo. Ela o observava com o mínimo interesse, o rosto apoiado no braço.

— Vai continuar o que quer que seja que veio fazer aqui? – Ela perguntou depois de um momento, fazendo-o parar e voltar a encará-la.

— É claro. Se vocês ainda toparem.

A húngara abriu um sorriso divertido.

— Não poderia ter arrumado um momento melhor para procurar um grupo de garotas revoltadas.

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— Então, qual o seu nome?

— Hungria.

— Não, o seu nome de verdade. Ou não tem um também?

—... Olhe isso é... Bélgica era um caso especial. Ela... Quando eu cheguei, eu tinha dezenove. E ela ainda era só uma menina. É... Completamente diferente.

— Então, pode me dizer seu nome?

— Pra que você quer saber, afinal?

— Nomes são importantes. – Os olhos claros se encolheram na direção dele, e ela bufou antes de responder.

— Elizabeta, é o meu nome. Quanto ao apelido, acho que era Liz, ou Eliza... Algo assim.

— Então vai ser Mademoiselle Elizab-

— Liz. – Interrompeu-o com um aceno aborrecido. – Ou Hungria. Esse nome traz mais memórias ruins do que boas.

— Certo. – Pigarreou. – Como sua, ahn, amiga, não pode explicar antes, eu vou me apresentar corretamente. Meu nome é Francis Bonnefoy, e estou aqui pra fazer um documentário.

Definitivamente, aquele era um dia cheio de surpresas, para ambos os lados.

— Que tipo de documentário? — Ela perguntou, por fim.

— O nome vai ser “about love, and it's non-existence” e é sobre o tráfico de mulheres. Por isso escolhi este lugar. Só preciso que me conte sua história: como acabou aqui, quantos anos tem... Essas coisas.

Lentamente, Liz se ergueu da cadeira e sentou-se no chão, à frente dele. Encolheu as pernas junto ao resto do corpo e espiou-o por cima dos braços onde apoiara a cabeça, as orbes verdes cheias de um sentimento profundo demais para ser posto em palavras. Ela tremia.

— Quando quiser começar, senhor Francis.

O jornalista concordou levemente com a cabeça, puxando do bolso de trás da calça um bloquinho de anotações, conferindo algo antes de começar.

— Então, pode dizer “Eu sou Elizabeta, e este é um documentário sobre o amor, e sua não existência”, na sua língua natal?

—... Elizabeta vagyok, és ez a dokumentumfilm a szeretetről, és a hiánya... Só isso?

— Sim, obrigado. Agora, vamos começar do começo. Você disse que chegou com dezenove anos, como era a sua vida antes daqui?

— Meus... Pais fizeram de tudo pra me dar a melhor educação possível. Sonhavam que eu me tornaria uma embaixadora. Eu aprendi inglês, alemão e espanhol. Pretendiam me mandar para a Alemanha quando eu terminasse o ensino médio, e sabe-se lá mais pra onde. Era... Tediosa. É, acho que a palavra é essa. Ao menos é o que eu pensava.

—... Desde quando está aqui?

— Eu não sei dizer quanto tempo faz, mas chutaria sete anos.

— E como acabou aqui?

Hungria demorou a responder, hesitando como se estivesse tentando se lembrar. Ela passou os dedos pelo cabelo, abaixando o rosto e escondendo-o da visão da câmera por um momento. No curto silêncio, eles conseguiam ouvir o som que vinha dos outros quartos, os rangidos das camas, os gemidos em vozes femininas. De repente, as paredes pareciam finas demais. O jornalista se remexeu no lugar, aparentando desconforto.

— Eu... Era jovem demais, boba demais. Me apaixonei pelo cara errado. Ele me disse que nós fugiríamos juntos pra... Sei lá. Eu desisti de tudo por ele, e acabei sendo vendida – a voz dela falhou e, apesar de manter o rosto impassível, não tinha como não perceber o quanto devia ter sido difícil para ela. – É meio humilhante admitir que eu andei metade do caminho até o abismo por conta própria, e só precisei de um empurrão.

— Mas você não foi a única a chegar aqui por esse motivo, foi?

— Não fui a única a ser levada, mas fui uma das poucas a chegar viva, sim. Do meu país, sou a única, é como decidem quem vai ficar com o apelido.

—... Sabe quantas são, mais ou menos?

— Não muitas, éramos sessenta e poucas no início do mês. Depois de... Bem, eu não sei.

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— Você disse que... Que ela se apaixonou. O que isso significa, exatamente?

— Bem, ela ficou grávida, e não queria perder o bebê. E teve a infelicidade de participar de um dos nossos leilões.

— Pardon? – Ele piscou, percebendo que tinha errado na língua, e se corrigiu. – O que são esses leilões?

—... Bem, alguns dos nossos clientes também se apaixonam por nós. Acontece. Eles são induzidos a um “leilão” – ela fez as aspas com os dedos – onde tentam comprar a menina que querem. E depois de entregar o dinheiro, eles são mortos.

A narrativa prática fazia aquilo parecer tão simples. O jornalista estremeceu levemente, abaixando os olhos para suas anotações e hesitando um momento antes de fechar o bloquinho.

— Já aconteceu com você?

— Não. Eu não costumo chamar atenção. – Ela parecia bastante orgulhosa daquele feito. – Por isso fiquei surpresa quando você me chamou. Ahn, desculpe pela reação exagerada.

— Tudo bem, sem problemas.

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Houve uma pausa, que Liz aproveitou para esticar as pernas e se sentar na beirada da cama, cruzando as pernas novamente e apoiando-se nos braços enquanto esperava Francis pensar na próxima pergunta.

— Seus pais, tem alguma informação deles? Depois de ter vindo para cá, quero dizer.

— Eles acham que eu estou desaparecida... Na verdade, acho que já fui declarada morta. Tudo que sabemos são as coisas que nos desencorajam a fugir.

—... Gostaria de voltar para eles?

Os grandes olhos claros abandonaram a parede para onde olhavam até o momento e encararam o jornalista.

— Não. Eu não traria tanta vergonha para minha família.

— Vergonha?

— Bem, uma filha morta é melhor que uma filha prostituta. – E, antes que ele pudesse dizer qualquer outra coisa, acrescentou com um suspiro – Faz um bom tempo desde que falei tanto. Foi um prazer conversar com você, Francis. Obrigada por ouvir. Espero que seu projeto dê certo.

E, com isso, Hungria ergueu-se e saiu do quarto. Após um momento, Francis se levantou, e a câmera foi desligada.

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De volta ao quarto de hotel, Francis esfregava a palma das mãos, o cabelo desalinhado e o rosto pálido. Parecia animado.

— Faz um mês e não consigo mais falar com Hungria, e não sei se posso me dar o luxo de chutar uma garota qualquer outra vez e torcer que ela não seja uma dedo duro. Então, eu descobri que uma vez ao ano eles fazem uma festa na boate, apenas para os clientes do prostíbulo, que é quando as meninas com apelidos podem sair do buraco onde vivem, pra serem exibidas por aí. – Ele hesitou, e abriu um sorriso irônico. – Não sei se isso é bom, mas sei que Hungria vai estar lá, o que significa que nós também vamos. – E com uma piscadela dele para a câmera, a imagem foi cortada.

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Estavam de volta à boate, mas o ambiente era diferente do normal. Mesas estavam dispostas ao redor de um palco onde antes era a pista de dança. Havia um grupo de mulheres dançando pole, e algumas outras caminhavam entre as mesas, com bebidas e drinks.

A câmera não se preocupou em esconder o rosto das pessoas por quem seu portador passava. Francis rodou o lugar até encontrar uma mesa vazia, onde se sentou e passou a buscar a figura da húngara por entre as moças. A atenção do francês foi, porém, tomada pela garota que se aproximara do poste à sua frente, subindo os dois degraus em um salto quinze, a roupa azul justa no corpo esguio. O cabelo loiro era longo e estava preso em um rabo de cavalo baixo, e os olhos verdes se fixaram nos de Francis por um breve momento, carregados de um ódio que provavelmente seria dirigido a qualquer um que tivesse sentado ali. Ela ergueu tranquilamente a mão e soltou os cabelos, permitindo-se esperar enquanto a música acabava e as doze dançarinas dispostas ao redor da sala voltavam ao chão.

Ao ritmo da música que acabara de começar, as doze dançarinas se posicionaram, corpos femininos se encaixando na barra e a mão escorregando da linha da cintura até o mais alto possível. Com as primeiras batidas, rebolaram, lançando os cabelos de um lado para o outro em sincronia. O peso foi trocado de uma perna para a outra e elas se lançaram em conjunto para cima, toda a força em um braço, rodando rapidamente para o outro lado do cano de metal, escorregando até o chão, só para subirem logo depois, lentamente.

A loira começou a caminhar em torno da barra, como se esperasse o momento certo para tomar impulso e prender as pernas em torno do poste, fazendo uma série de movimentos difíceis, escalando o poste só para se curvar lentamente para trás, permitindo-se manter o peso do corpo todo nas pernas, até que as costas quase encostassem no cano, abrindo um sorriso enquanto escorregava lentamente para baixo, colocando ambas as mãos no chão e se permitindo “cair” para trás, o corpo se movendo como o de um gato.

Francis provavelmente teria continuado a babar sobre a dançarina pelo resto da noite, esquecido de seu objetivo, se não fosse pela mão que segurou seu ombro, chamando sua atenção para a presença de Hungria ao seu lado, um sorriso gelado nos lábios carmesim. Ela passou por ele, sentando-se na cadeira ao lado da sua e cruzando as pernas. Os olhos, que por culpa da iluminação ruim tinham um tom escuro, o encaravam como se ele fosse uma fonte de problemas, não uma solução para eles.

— O que está fazendo aqui?

—... Eu estou… Ahn… Assistindo uma ótima apresentação de pole dance. Quem é ela?

— O nome dela é Alice. É inglesa. Não mude de assunto. Você sumiu por um mês, nenhuma das meninas veio falar comigo sobre-

— Bem, é claro que não. Não sabia com quem eu poderia falar sem ser delatado.

— Não se preocupou com isso quando veio ver Bélgica.

— Eu tive que arriscar, mas não gosto de forçar muito a sorte.

— E o que te garante que eu já não te dedurei?

— Ainda estou vivo, não estou?

Ela suspirou.

—... Do que precisa?

— Alguém que vá me dar uma audiência. Alguém que vai fazer o público chorar, alguém que mova o governo e destrua esse lugar.

Hungria o encarou por alguns segundos, surpresa com a ferocidade das palavras do jornalista. A câmera captou um dos seguranças se aproximando pela direita, provavelmente com o objetivo de oferecer Hungria, e Francis pareceu perceber também, pois se curvou para frente e passou a mão pelos cabelos dela, puxando-a para mais perto e sussurrando

— Mande sua escolhida me trazer um vinho. – E então, voltando a posição original, apoiou o rosto na mão, passando a assistir a dança da inglesa.

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Não precisou esperar muito até uma taça de vinho ser posta à sua frente, trazida por uma menina de cabelos curtos e olhos quase tão azuis quanto o céu. Ela parecia dividida entre bater nele com a bandeja que carregava e escutar o que ele tinha a dizer. O francês se ergueu tranquilamente, observando o vinho por um momento antes de passar o braço pela cintura dela e virar-se com o único intuito de seguir na direção dos quartos, mas sua atenção foi tomada por um acontecimento curioso. Em cima do palco, Alice parara de dançar.

Assim que percebeu a atenção da outra sobre si, Francis parou e encarou-a, só então percebendo que ela olhava na direção da menina ao seu lado, com uma expressão preocupada. A inglesa fez menção de ir na direção deles, mas um dos seguranças se aproximou rapidamente e ela recuou na direção do poste, desviando o olhar.

A menina não olhou na direção do palco nem por um momento enquanto andavam, e esperou obedientemente enquanto ele tirava o dinheiro do bolso e entregava ao homem parado junto à porta que levava ao prostíbulo. Não pode deixar de notar os olhares surpresos que recebia ao escoltá-la pelo corredor até o quarto que lhe fora indicado, e deduziu que ela não era do tipo dócil. O que provou-se verdadeiro quando assim que se viram sozinhos, sua mão foi afastada com um tapa e a menina saiu de perto de si, recuando para a cama.

— Quem é você? O que quer comigo? Como conseguiu ganhar a confiança de Hungria? Porque me chamou aqui? – Ela o bombardeou com perguntas, sem esperar as respostas, e tudo com um sotaque texano típico, deixando mais que óbvia sua nacionalidade.

— Sou Francis. – Ele respondeu tranquilamente. Houve um corte no qual ele explicava a situação à moça, e agora estavam ambos sentados na cama, ele finalmente perguntando – Qual é seu nome, mademoseille?

— Amélia Jones, eu... Me chamam de América, mas eu não gosto.

— Entendo... E a senhorita que dançava, quem era?

Amélia se encolheu levemente, abaixando a cabeça.

— Inglaterra... Alice. Ela toma conta de mim.

— Oh, então o apelido é dela... Ela era uma dançarina antes de vir pra cá?

— Eu não sei?... Quando eu cheguei ela já estava aqui, e fazem só sete... meses... – A voz dela foi diminuindo aos poucos até que se calasse. O fato de ter usado "só" para definir sete meses de pesadelo era... Bem. De repente ela parecia muito interessada em analisar o laço do sutiã amarelo que usava. Francis suspirou.

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Eles provavelmente tiveram uma conversa, porque Amelia o olhava atentamente, e com um que de respeito nos olhos.

— Sua família, como é?

— Nós somos quatro. Eu, meu pai, minha mãe e a Madeline… Ela é minha irmã mais velha, ela é… – A voz da garota falhou por um momento. – Eu sinto falta dela. Muito.

— Você quer me contar como chegou aqui?

Ela se encolheu um pouco, mas concordou com a cabeça antes de começar a falar.

—... É... Eu fugi de casa, tinha brigado com meus pais, por uma besteira, tipo notas ruins na escola ou algo assim. Acho que ia pra casa de uma amiga, esfriar a cabeça, sei lá... No meio do caminho um carro começou a me seguir, e o motorista me ofereceu uma carona, e eu recusei, e ele insistiu e, depois de um tempo, cansou de ser “legal” e me arrastou pra dentro… – Ela limpou os olhos com as costas das mãos. – Pra ser sincera, eu preferia ser estuprada, ou morta, sei lá. Qualquer coisa além disso. – E ela apontou para si mesma, claramente enojada.

Francis se moveu, e pode-se ouvir o som de tecido. Depois de um momento, o jornalista oferecia a jaqueta que usava para ela. Não era muito, verdade seja dita, e ele teria que pegar de volta depois pra não levantar suspeitas, mas fez ela voltar a chorar e murmurar um obrigada realmente sincero.

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— Eu não perguntei a sua idade, pode me dizer?

América tinha parado de chorar, e estava brincando com as mangas da blusa. Ela encolheu os ombros, pensativa, e respondeu automaticamente.

— Dezessete. Fiz no mês passado.

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Corte. De repente estavam novamente no quarto do hotel, e Francis balançava as pernas de modo rítmico, nervoso.

—... Dezessete anos de idade. – Ele sussurrou em francês, suas palavras só sendo estendidas graças às legendas. – Ela deveria estar na escola, no time de líderes de torcida ou em alguma festa, ou vendo um filme com os amigos, sei lá, em qualquer lugar, mas não ali.

Francis se curvou, e sussurrou alguns palavrões em francês, que não foram traduzidos, enterrando a cabeça nas mãos, saindo do foco da câmera por um momento.

Mais um corte, o jornalista parecia ter se acalmado, mas a mão estava enfaixada, e as orelhas ainda estavam vermelhas, indicando que ele acabara de ter um acesso nervoso, ou fora muito desastrado. Francis soltou um suspiro.

— De qualquer forma, antes de qualquer coisa, as explicações. Hungria me contou que quando América chegou, no inicio do ano, ninguém achou que fosse durar muito. Verdade seja dita, ninguém aguentava ela, era mimada, barulhenta, tinha- e tem- complexo de herói, e é naturalmente rebelde, o que pelo que eu entendi já acarretou em punições severas. As outras preferiam ficar longe, evitar o problema, mas Inglaterra decidiu colocar a menina debaixo das asas, e como vocês bem viram, pretendia se oferecer no lugar dela — ou me bater, o que funcionasse melhor. E eu meio que entendo porque ela faria isso.

Ele encolheu os ombros, passando a mão boa pelo cabelo, uma mania que vinha se mostrando cada vez mais forte com o decorrer das filmagens.

— América parecia acreditar que ia livrar o mundo da tirania, e pretendia começar por aquele lugar. Depois de um tempo ela meio que perdeu a fé, e isso é triste. Crianças deveriam poder acreditar em super-heróis e finais felizes. Ela deveria poder acreditar que podia salvar aquelas mulheres. Eu só quero ajudar no processo.

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— Então, você é do Texas?

Ela ergueu os olhos azuis, que ficaram mais acentuados por causa do contorno vermelho.

— Como sabe?

— Você tem sotaque de lá.

—... Você é francês, certo? Há quanto tempo vive na América?

— Quase dez anos.

Amélia piscou, parecendo surpresa.

— Quantos anos você tem? – Perguntou, arrancando uma risada do jornalista.

— Nem pensar, mocinha, a entrevistada é você. Então, posso te pedir um favor antes de você ir?

— Já acabou? – Ela parecia ansiosa, lançou para ele um olhar de cachorro sem dono, fazendo bico. – Não pode ficar mais? Não quero voltar lá pra fora.

— Eu sei. Se eu pudesse-

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Ela tinha um sorriso triste no rosto, mas seus olhos mostravam uma determinação de ferro.

— Tudo bem, o que precisa?

— O óculos, quero que entregue para Hungria. Ela sabe fazer funcionar, e essa é a última vez que eu vou vir aqui durante um tempo. Tem carga o bastante pra uma ou duas semanas, então use sabiamente.

Amélia o avaliou por um momento antes de erguer-se e retirar o casaco, devolvendo para seu dono e mantendo a mão esticada, aguardando os óculos com um sorriso rebelde. Francis tirou-os, ofereceu a ela, que os colocou.

Ele tinha um sorriso semelhante ao dela no rosto, os olhos brilhando com desafio. O jornalista ergueu a mão e tampou momentaneamente a câmera, e então a desligou.

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— Tudo bem – alguém sussurrou, a câmera ainda sem mostrar nada – quem vai ser primeiro? – Uma grupo de vozes discutiram entre si em murmúrios. Enquanto isso, os óculos foram erguidos e colocados sobre o rosto de alguém, risadinhas e comentários deixando clara a população feminina.

O ambiente ao redor era simples e sem muitos atrativos, as paredes brancas com rachaduras na pintura, muitos colchões, espalhados pelo chão, ocupando quase todo o espaço disponível, os cobertores e travesseiros espalhados e, é claro, as meninas espalhadas por todo o ambiente, algumas já deitadas, outras mais afastadas, agrupadas em um ou outro canto, e um grupo maior delas sentadas em volta da câmera, nem um pouco discretas, discutindo entre si quem seria filmada primeiro, mas sendo logo interrompidas pelo tom imperativo de Liz.

— Daisy, Feliciana, vocês podem vir primeiro. – Ouviram-se reclamações, seguidas de chiados e "calem a boca"s. – Andem, eu já liguei.

Duas das meninas se destacaram das outras, aproximando-se e sentando em frente a húngara. Eram gêmeas, quase idênticas uma a outra se não pelos tom de pele e dos cabelos. A da esquerda sorria nervosamente para a câmera, cutucando a outra, que parecia lutar contra a franja que caía nos olhos.

— Daisy – a primeira sussurrou – anda logo.

— Espera, caramba, quase lá... Você me arrastou pra fazer essa besteira, eu quero pelo menos parecer bonita- Como está? – Perguntou depois de um momento, olhando na direção da câmera.

— Ótimo, vamos logo. Se apresentem para a câmera, por favor.

— Você acabou de nos chamar, por-

— Meu nome é Feliciana Vargas, mas por aqui me chamam de Itália. Tenho vinte anos e sou a gêmea mais nova!

—... Sou Daisy Vargas. Sou, obviamente, a mais velha. Chamam nós duas de Itália.

— Ah, isso, desculpe...

— Antes de falarem mais um pouco, tem que dizer a frase- shiu, todo mundo quietinha- em italiano, a que falei pra vocês mais cedo.

Uma olhou para a outra, um sorriso se abrindo lentamente no rosto moreno de Daisy.

— Pronta?

— Um, dois, e-

— Abbiamo Daisy/Feliciana Vargas, e questo un documentario sull'amore, e la sua assenza.

E todas as outras explodiram em risadinhas. Depois de um momento, uma segunda onda de “shii”s voltou a colocar ordem no local.

— Então, a história de vocês duas?

— Não podemos pular essa parte? — Daisy resmungou, sendo ignorada pelas outras duas.

— Bem, nós chegamos aqui...

— No inferno-

—... Há três anos. Não fale assim, Daisy.

— Inferno. É verdade mesmo. De qualquer forma, não importa como-

— É claro que importa! Foi-

— Estúpido, irritante e assustador. Continua sendo. Fim.

— Daisy, se não quer contar deixe a Feli falar.

A gêmea da direita bufou e resmungou um "que se dane" antes de se levantar e sair de perto. Apesar de parecer irritada, deu pra vê-la chorando de seu colchão, alguns metros dali. Feliciana ergueu-se e murmurou um "sinto muito" apressado, seguindo logo atrás. Hungria soltou um suspiro, e algumas das meninas começaram a murmurar entre si, reclamando sobre como Daisy estragara o clima.

Mas é claro que, com a sorte que tinham, a situação ainda podia ficar pior, e foi o que aconteceu. A porta do salão, que estava trancada até um segundo atrás, abriu-se com violência, chamando a atenção geral.

— Eu posso saber o que esta acontecendo aqui? – Uma voz masculina, alta e enrolada, soou da porta do salão, e o grupo de meninas ao redor de Hungria se desfez quase tão rápido quanto tinha se formado.

O segurança era grande e estava claramente bêbado. O problema é: ele era do tipo que ficava violento quando aborrecido, e ficava aborrecido quando bêbado. Ele passou os olhinhos pequenos e cruéis pela sala, fixando-se em Hungria por uma razão desconhecida. Deu um ou dois passos na direção da morena, que se encolheu e recuou um pouco.

Foi quando, para o choque e surpresa geral , Inglaterra se ergueu do colchão que dividia com a americana e se aproximou da húngara, pondo-se entre ela e o brutamontes em forma de humano.

— As meninas ficaram empolgadas com os óculos que América roubou de um cliente, só isso.

Enquanto a atenção dele estava desviada, a morena retirou os óculos do rosto, empurrando-o para debaixo dos colchões. Por um momento ainda foi possível escutar as vozes abafadas. Houve um silêncio, e a imagem foi cortada.

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— Tá, tá, eu sei. Calma, só tenho que achar onde ele foi parar- Ah, aqui.

A imagem finalmente voltou a ficar em foco, o rosto de Hungria aparecendo bem à sua frente, os olhos atentos em busca de algum arranhão. Quando decidiu que estava tudo bem, voltou a colocá-lo sobre o rosto, proporcionando a surpresa de ver Alice sentada bem a sua frente, com um olhar carrancudo e de braços cruzados. Um dos lados do rosto estava vermelho, provavelmente consequência da cena anterior.

— Então – Hungria começou – por que não se apresenta?

— Meu nome é Alice Kirkland, e eu não queria estar aqui.

— Nenhuma de nós quer, meu bem – uma voz tranquila vinda da direita disse, e a câmera virou levemente para captar a visão de uma loira, a alguns colchões de distância, de cabelos curtos e busto avantajado. Ela acenou para a câmera, e a voz de Alice voltou a ser ouvida

— Eu estava me referindo à posição em frente a câmera, não ao- Ah, tanto faz. De qualquer forma, meu apelido é Inglaterra porque eu sou inglesa, duh; tenho vinte e dois anos. Estou aqui desde... – Ela hesitou, franziu o cenho, entortou a cabeça como se fizesse as contas. – Uns seis anos, acho. Foi logo depois de você, Hungria, certo?

Os óculos foram balançados em concordância.

— Ah, opa, quer dizer, sim. Algo por aí.

—... Bem, eu e as Vargas temos algo em comum: no meu caso me ofereceram o emprego de dançarina em Chicago. Não preciso dizer que nunca cheguei lá. – Ela lançou um olhar para as gêmeas, hesitando ao acrescentar – Elas vieram como atrizes, acho. Só isso?

—.... Acho que sim. América, o que mais ele perguntou pra você?

A segunda parte foi dita em um tom mais alto de voz, e de seu colchão Amélia ergueu o corpo, esfregando os olhos e resmungando

— Sei lá, sobre a minha família? – Bocejou e murmurou algo mais antes de voltar a dormir. Inglaterra revirou os olhos.

— Não tenho uma família. Eu vivia sozinha em Londres, sempre vivi. Se é só isso, vou pra lá. Tome cuidado Hungria.

— Pode deixar.

Alice se ergueu e foi para perto da americana, deitando-se ao lado dela e cobrindo o corpo todo, desaparecendo do campo de visão da câmera. Hungria soltou um suspiro e ergueu o rosto, filmando o teto por uns dois segundos antes de desligar a câmera.

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— Achei que não fosse filmar mais, não depois do tapa que Inglaterra levou. – Uma voz desconhecida, mas claramente feminina, comentou, e a imagem foi clareando aos poucos, voltando a mostrar o dormitório.

— Aquilo foi um descuido, e não pode nem vai se repetir. – Hungria respondeu. – Mas também não vai atrapalhar a melhor chance que eu tenho pra sair daqui em anos. Você vai gravar, Natália?

— Nem pensar. Ucrânia também disse que não quer fazer parte, ela está com medo. Você sabe o que aconteceu da última vez que tentamos alguma coisa.

— Tudo bem, eu entendo. Acha que Vietnam vai topar?

— Duvido, depois da morte da Bélgica ela anda muito mal. As meninas acham que está grávida.

—... Se esse for o caso...

— Vão colocar ela em um leilão. – Bielorrússia completou, com um suspiro. – Seu jornalista consegue nos tirar daqui antes do fim do mês?

A câmera balançou num movimento negativo.

— Impossível. Ele só vai voltar aqui em um mês ou dois, e América disse que editar um documentário é difícil e-

Se calou, girando os olhos para focar na saída da sala. Na verdade, todas elas se calaram, olhos e ouvidos pregados na porta do salão. Pode-se ouvir o movimento do lado de fora, pessoas gritando e passos vindo na direção da entrada do dormitório. As garotas que estavam mais próximas da porta se encolheram junto as outras na parede oposta.

Hungria foi parcialmente escondida entre outras três garotas, entre elas a que estivera ao seu lado conversando consigo até o momento, Bielorussia. A loira de cabelos curtos, Ucrânia, sentou-se ao lado da irmã. Como era menor que Hungria, não bloqueou a visão da câmera, que gravou o exato momento em que a porta de madeira foi aberta com um chute violento e um grupo de cinco ou seis homens entrou na sala num circulo fechado. Entre eles, duas meninas se apertavam uma contra a outra, choramingando de medo. Os dois homens da frente se afastaram apenas o suficiente para empurrá-las para dentro.

A que estava mais perto de Hungria, do lado esquerdo, era morena e um pouco mais alta que a outra, um corpo bonito deixando mais que óbvio o motivo de ter sido escolhida. Ela tremia da cabeça aos pés, mas o medo não a impediu de virar-se e berrar algo na direção dos traficantes em sua língua natal, cuspindo no mais próximo assim que terminou. Todas as outras prederam a respiração e se encolheram, e a câmera pareceu tremer com a força da bofetada que ela recebeu em resposta.

Ucrânia soltou um lamento baixo, e a loira chamada Natália apertou sua mão, pedindo silêncio. Uma das meninas se ergueu e se destacou do resto do grupo, e Hungria tremeu novamente ao ouvir Inglaterra sussurrando desesperadamente o nome da protegida, que tinha corrido até perto da moreninha, que agora estava no chão.

Amélia a puxou para longe da linha da fúria do homem, que a encarou como se estivesse mais que disposto a puxar a arma da cintura. Por algum milagre, o segundo deles interviu com uma tranquilidade absurda.

— Já chega. – E para as garotas – Essas são Seicheles e Liechtenstein, seja lá como se pronuncia esse maldito nome. Divirtam-se. Abrimos em quatro horas. – E, escoltando o colega esquentadinho, voltou a fechar e trancar a porta do dormitório.

Assim que as portas fecharam, Hungria desvencilhou-se de suas protetoras e correu na direção de América, ignorando o olhar chateado da menina e passando por ela para aparar a queda da novata da direita, que acabara de desmaiar.

— Alguém me traga um pouco de água, rápido! – Ordenou o mais alto possível, sabendo que só assim seria atendida.

Agradeceu quando uma das meninas, Vietnam, aproximou-se com um pano úmido e um copo com água supostamente limpa. Inglaterra apareceu um pouco depois, com um frasquinho de perfume, e agachou-se do outro lado da menina, abrindo-o ale passando debaixo do nariz da mesma.

Esperaram por alguns segundos, nos quais Hungria se virou e entregou o pano úmido à América, que o colocou no rosto da morena com delicadeza. Lentamente, os olhos verde água da loirinha em seu colo se abriram, e ela piscou algumas vezes, absorvendo o ambiente ao redor e, quando percebeu que não fora tudo um pesadelo, voltando a chorar.

Liz hesitou, sem saber o que fazer, e quando ergueu os olhos viu em Alice a mesma expressão hesitante e perdida.

—... Deixamos ela chorar? – Os lábios dela se moveram sem fazer qualquer som.

Hungria olhou em volta, perdida, e soltou um suspiro de alívio ao ver que Vietnam vinha na direção delas outra vez. A jovem sentou-se do lado da loira – Liz cedera espaço para ela – e puxou-a para seu colo, acariciando os cabelos curtos gentilmente enquanto a pequena chorava.

Alice se afastou na direção de América, que conversava com Seychelles numa tentativa de acalmar a menina.

— Seu nome, qual é?

— Michele...

— É um nome muito bonito. Eu sou Amélia, e essa é Alice. Não se preocupe, nós vamos cuidar de você.

— Eu quero ir embora – ela murmurou chorosa, limpando as lágrimas dos cantos dos olhos.

Todas se silenciaram, e por um momento o único som era o de Liechtenstein chorando. Amélia lançou um olhar na direção da húngara, uma súplica silenciosa pela resposta certa. Infelizmente, tal coisa não existia, e por fim quem respondeu foi Bielorussia, de seu colchão.

— Todas queremos.

Michele apertou os lábios, os olhos castanhos voltando a se encher de lágrimas.

A imagem foi cortada.

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Duas meninas dançavam juntas sobre os colchões. A menor era a gêmea mais velha das Vargas, Daisy, e era guiada por uma segunda moça, de cabelos castanho-claros presos em um coque simples.

Ela cantava em espanhol, provavelmente uma música de bailes, considerando como dançavam. Sua voz não era perfeita, e mais de uma vez ela interrompeu a melodia como se não se lembrasse mais, mas em momento nenhum elas pararam de dançar. Elas moviam-se quase no mesmo lugar, quase que numa brincadeira.

A maior fez Daisy girar, rindo levemente da vermelhidão na face da Vargas, voltando a apoiar a mão na cintura da mesma. Não pareciam muito interessadas em parar a dança, e provavelmente continuariam enquanto a moca maior pudesse cantar.

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— Hola. – A morena que dançara com Daisy estava parada em frente à câmera, os olhos esmeralda refletindo seu sorriso tranquilo. – Desculpe por não ter vindo antes, Hungria.

— Tudo bem, eu fico feliz por você ter concordado. Pode começar se apresentando.

— Sou Carmen Fernandez Carriedo, ou Espanha, tanto faz. Eu estou aqui a uns dois anos… – Ela parou por um momento, pensativa. Atrás delas, alguém murmurou que andassem rápido. Por toda sala as meninas pareciam se preparar para a abertura da boate. Carmen hesitou antes de perguntar – Podemos pular pra frase?

— É claro, pode ser.

— Soy Carmen, y este es un documental sobre el amor, y su inesistência... Apesar de eu não acreditar nela.

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A próxima imagem mostrava Hungria em seu colchão a alguns metros. Liechtenstein tinha a cabeça em seu colo, e ela cantarolava uma melodia simples enquanto fazia uma trança no cabelo curto da menina. Liz tinha um sorriso carinhoso no rosto e os olhos, de um tom claro entre o marrom e o verde, estavam fixos na menina.

—... Silêncio, meu amor, agora não chore, tudo vai ficar bem. Feche seus olhos e viaje nos sonhos… E descanse num sono pacifico. – Ela parou por um momento, soltando uma risada baixa. – Desculpe, Lily querida, acho que esqueci o resto.

A loirinha ergueu a cabeça alguns centímetros, abrindo um sorriso para a mais velha, murmurando em sua voz infantil.

— Só comece de novo.

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— Tudo bem, qual seu nome?

— Brasil. – A moça em frente à câmera, uma morena alta de quadris largos, cintura fina, cabelos cacheados num tom acobreado e com olhos castanho-escuro, abriu um sorriso sem graça.

— Não, não, seu nome de verdade.

—... Você pode escolher. – Ela deu de ombros. – Já me chamaram de tanta coisa que Brasil é mais meu nome do que a maioria deles. Tem Marina, Ana Paula, Natasha, Cátia, Maria, Carolina… – Ela foi contando nos dedos, sendo parada por Hungria com um aceno da mão.

— Ahn, tudo bem. Vai ser Brasil. Quantos anos você tem?

— Dezenove. Faço vinte em setembro. – A brasileira abriu um sorriso animado.

— Como chegou aqui? Quando foi?

O sorriso desapareceu do rosto dela, dando lugar a uma expressão pensativa.

— Sei lá? Eu cheguei junto com a Bélgica, na verdade um pouco depois. Eu nem sabia inglês na época… Como? Ahn... Eu fui vendida, basicamente. Meus pais não tinham condições de cuidar de mim, eu era a mais nova de sete irmãos, e a mais dispensável, então eles foram pagos pra me “dar” a uma “família” rica. – Brasil fazia as aspas com os dedos. – Eu não quis ir, então me arrastaram pra fora. No aeroporto eu consegui fugir, mas os seguranças não acreditaram em mim, e me levaram de volta ao casal que supostamente cuidaria de mim… – Ela soltou uma risada. – Não sei de quem tenho mais raiva. Eles me levaram pros Estados Unidos, mas depois de uns dois meses se cansaram de mim e eu fui parar na adoção. – Uma pausa, a morena abaixou os olhos e soltou um suspiro, franzindo o cenho. – Eu tive quinze pais e mães. Cada um deles me deu um nome diferente, e eu fui obrigada a rodar de mão em mão, como se eu fosse um cachorrinho ou algo assim, até que fui parar em um bairro barra pesada em Chicago, e de lá vim parar aqui.

Brasil finalizou, erguendo os olhos escuros e encarando a câmera por alguns segundos antes de abrir um sorriso, esticando o braço e limpando o rosto da outra.

— Sem motivos pra chorar, Hungria. Todas nós temos histórias tristes.

— Como você consegue ser tão… Animada, num lugar desses? De onde tira esses sorrisos?

—... A vida te dá limões, faça uma limonada. Não sou feliz aqui, mas sinceramente? Prefiro esse lugar às casas onde vivi até agora. Gosto de vocês, e gosto de ter conhecido vocês. Não sinta vergonha do que você é, Liz. Do que te forçam a fazer, sim, mas não do que você é. Precisa de mais alguma coisa, querida?

— Ah, a… A frase.

— É claro. No três? Um, dois, três… Eu sou Brasil, e você está assistindo ao Disney Cha-

Alguém jogou um travesseiro nela, e a morena gargalhou, passando a mão pelo cabelo, tentando arrumar a bagunça que fora feita. Alguém gritou em espanhol, e ela soltou mais algumas risadas, respondendo em português.

— Tá, desculpe, de novo. – Ela respirou fundo, lutando contra a vontade de rir – Eu sou Brasil, e este é um documentário sobre o amor, e sua possível inexistência.

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Vietnam estava encolhida, chorando, ao lado de Hungria que, mais uma vez, não estava em posse da câmera. Algumas outras meninas, estavam em volta da asiática, a maioria chorando baixinho.

— Alice – a voz de Amélia sussurrou, deixando claro quem filmava; a inglesa estava sentada ao seu lado, e virou-se para olhar para a câmera ao ouvir seu nome – o que aconteceu com ela?

— Ela está grávida.

— Ah caramba... E o que vai acontecer com ela agora?

Alice encolheu os ombros e abaixou o olhar para as mãos cruzadas sobre as pernas.

—... Ela vai abortar, acho. Ah, Hungria.

A câmera virou-se para filmar a aproximação da morena, que sentou-se em frente as duas loiras, escondendo o rosto nas mãos por um momento. Algumas das outras garotas se aproximaram, as gêmeas e Bielorrússia entre elas, curiosas quanto ao motivo da comoção.

— O que ela disse? – Natália perguntou, chamando a atenção da húngara, que abaixou os braços e encolheu os ombros antes de responder

— Vão fazer o leilão, no natal. Já era.

Todas se calaram. Amélia voltou a olhar para Vietnam, encolhida e chorando. Com um suspiro, ela tirou os óculos do rosto e passou-os para Hungria, esquecendo-se de desligá-los.

— Francis tem que aparecer.

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— Então, qual o seu nome? — A menina sentada em frente à câmera estivera claramente chorando até recentemente, mas não parecia nem um pouco desanimada. Pelo contrário, ela parecia tremer com a fúria contida nos olhos cor de ouro.

— Lien Chung, e aqui, Vietnam.

— Vamos... Vamos só pular pra frase, ok?

— Ok. – Ela respirou fundo – Tên tôi là Liên Chung, và đây là một phim tài liệu về tình yêu và sự tồn tại của nó không.

— Obrigada por ter concordado em gravar, Vietnam.

A asiática encarou a câmera. Ela não parecia nem um pouco com a menina encolhida chorando da gravação anterior.

— Você tem que fazê-los pagar, Hungria. Não importa como.

Ela se levantou e se afastou ao mesmo tempo que a porta do salão se abriu para permitir a entrada de um segurança. Ele vasculhou o salão até encarar o canto onde Liz ainda estava sentada, com medo demais de remover os óculos e ser notada.

— Hungria, quarto oito agora. – Ergueu-se, hesitante, lançando um olhar para América que estava claramente ansiosa.

— Por favor, por favor, – ela sussurrou enquanto seguia para fora – por favor que seja ele. – Desceu a escada íngreme acompanhada por um dos armários de terno que fez questão de escolta-la até a porta do quarto de número oito. – Francis.

Ela abriu a porta do quarto e entrou, virando-se para fechá-la atrás de sim dando uma boa visão de seus dedos trêmulos. Liz virou-se com uma lentidão quase teatral, a câmera capturando o corpo esguio do homem que estava parado, de pé, ao lado da cama.

Não era Francis.

Ele era moreno, tinha olhos azuis que pareciam violetas na luz, usava óculos e parecia um membro da aristocracia. Quando viu a expressão dela, encolheu-se e recuou um passo, remexendo desconfortavelmente na armação dos óculos que, agora ela pode notar, era exatamente igual a sua.

— Você... É amigo de Francis?

Ao ouvir o nome do Francês, o moreno soltou um suspiro aliviado e ergueu o olhar.

— Por um momento pensei que tivessem mandado a garota errada. Sou Roderich Edelstein, um... Colega de trabalho de Francis. – Ele aproximou-se, oferecendo a mão que foi ignorada pela húngara.

— Onde está Francis? O que aconteceu com ele?

Roderich recolheu a mão com um suspiro, tirando os óculos do rosto e os oferecendo a húngara, que os trocou pela câmera, passando a ser filmada.

— Eles descobriram que ele era jornalista e acabou no hospital por isso. Por sorte, as filmagens não foram comprometidas. Tudo que precisamos era do óculos. Obrigado por sua ajuda, senhorita Elizabeta.

—... Francis tá bem?

— Ele estava se recuperando em casa, mas fez questão de vir comigo. Está esperando na boate.

— Entendi... — Ela hesitou por um momento, parecendo não saber o que fazer. Por fim, seguiu para a cama, sentando-se e batendo no lugar ao lado do seu. — Bem, Roderich, você tem pelo menos meia hora de espera então sugiro que se sente e aproveite.

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Os óculos foram ajustados e as portas duplas se abriram para captar o ar da noite. Estava escuro do lado de fora, a lua escondida atrás das nuvens. Francis e Roderich desceram tranquilamente as escadas, as cabeças baixas, e atravessaram a rua. Um taxi passou e o francês fez sinal para o mesmo, murmurando um agradecimento em francês quando o carro realmente parou. Ele se jogou no banco de trás, sendo acompanhado por Roderich de uma forma um pouco mais digna, afrouxando a gravata e soltando um suspiro.

— Aeroporto, por favor.

— Pode deixar, chefe. – O taxista, um senhor de idade, respondeu abrindo um sorriso. Ele manobrou o carro e fez a volta, passando em frente à boate novamente. Francis ergueu os olhos para a janela, o letreiro em neon brilhava a palavra Round em vermelho. Ao seu lado, o moreno puxou o celular do bolso, atendendo com um resmungo aborrecido de "O que foi agora?" em alemão, traduzido pelas legendas. – É sua primeira vez em Vegas?

— É, viemos para ver algumas amigas, mas tenho que voltar pra casa.

— E a noite, foi divertida? – Ergueu os olhos, percebendo que era observado pelo retrovisor, e a câmera captou um sorriso do loiro quando este respondeu

— Nem tanto... Fumaça demais pro meu gosto.

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As luzes vermelhas e azuis, vindas dos carros de polícia reunidos ao redor do prédio grande da boate Round, iluminavam o asfalto rachado, os prédios ao redor e a cena que se passava à frente. Policiais correndo de um lado para o outro, ordens sendo gritadas e sussurradas, o cordão de isolamento mantendo a imprensa o mais afastada o possível, com a única exceção de Francis Bonnefoy que, parado ao lado de uma das viaturas, tinha os olhos atentos nas portas da boate.

Havia uma linha de policiais completamente armados e posicionados para agir caso qualquer coisa desse errado, mas era possível ouvir os sons do conflito que já ocorria do lado de dentro. O jornalista francês se movia de um lado para o outro, resmungando sobre como qualquer um com um colete poderia ter entrado lá, e recebendo olhares gelados de alguns policiais por isso.

A câmera estava posicionada em um tripé, e o loiro ainda virou-se mais uma vez para conferir se a mesma estava bem encaixada antes se posicionar na extrema esquerda, liberando o campo de visão da câmera, sua atenção sendo tomada pelo súbito silêncio que tomara o prédio. A tensão preenchia o ar como estática e era quase palpável. Francis pode ser visto afrouxando a gravata, esfregando o rosto, tentando manter as mãos trêmulas ocupadas, os lábios se movendo em uma prece silenciosa.

As portas se abriram com um estrondo, um comando fazendo com que todas as armas fossem erguidas uniformemente. O rádio de alguém chiou, e de repente a equipe médica atravessou a linha, entrando no prédio ao mesmo tempo que os policiais desfaziam o cerco e davam espaço às ambulâncias.

Os primeiros a sair foram dois policiais, um deles com uma moça no colo. Francis a reconheceu dos vídeos, é claro, e não pode evitar um xingamento ao vê-la não só gritando, mas sangrando. Ele avançou, sendo bloqueado e forçado a observar enquanto a equipe média colocava Vietnam em uma maca e se apressava até a ambulância mais próxima, as portas sendo fechadas e a sirene ligada com um lamento escandaloso, afastando-se na direção da rua principal. O jornalista agora discutia aos berros com um policial, exigindo poder ver as outras garotas, mas sendo barrado “para sua própria segurança”.

— Francis!

A câmera gravou a expressão de alívio que tomou o rosto do jornalista quando este reconheceu a voz que chamava por si. Ele afastou o policial com mais violência do que o necessário, ligando a câmera nos óculos enquanto corria.

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A próxima imagem que tiveram foi de Hungria correndo ao seu encontro, enrolada em um cobertor, permitindo-se ser abraçada pelo jornalista, que fez questão de conferir cada canto do rosto dela em busca de ferimentos. A morena soluçava, chorando e rindo, sussurrando agradecimentos ao loiro, limpando o canto dos olhos com as mãos.

— Meu Deus... Você não faz ideia do que fez, Francis. Não faz a mínima ideia.

Suas palavras, ditas em uma voz trêmula e baixa, foram sobrepostas pelo grito dado por uma das meninas. O som alarmou a todos, por um momento, até todos identificarem as gargalhadas de Amélia, que erguia Alice no ar e a rodava.

— Nós estamos do lado de fora, Iggy! Acabou!

Sua alegria parecia se espalhar pelos grupos, e as moças estavam todas sorrindo, a câmera de Francis sendo capaz apenas de captar algumas poucas cenas. As gêmeas abraçadas a um canto, rindo entre si; Nathália sentada no chão ao lado de Ucrânia, a pequena Lily sendo levada até uma das viaturas, um celular em mãos, as lágrimas caindo dos olhos; Carmen puxando Daisy e agarrando-a pelo pescoço, arrancando gritos e palmas das outras meninas quando beijou a italiana; Hungria se afastando e correndo até as outras gritando palavras que não puderam ser entendidas em meio ao barulho.

E finalmente todas elas, cada par de olhos presente, fitando Francis, todas sabendo exatamente quem ele era, e o que fizera por elas. Uma última vez, a tela ficou negra.

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"Em memória de Bella, Lien Chung e seu filho, Hien; de todas as garotas que nunca chegaram lá, e daquelas que nunca puderam sair."

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.