Zurezurê
10 Capítulo 10
Notas iniciais
Lição 10: Ninguém é bonzinho! Todos são psicopatas
em potencial. Por isso, tenha cuidado!
Uma tensão tomou conta daquele lugar. Ninguém mais falava, ninguém mais se movia. Todos estavam preparados para a iminente batalha que poderia ocorrer e aguardavam as reações de Malik e Ebisu. Afinal, o confronto era deles. A decisão de começar mais uma batalha, também seria. Porém desta vez alguns fatores mudaram. Estavam somente eles na rua, não havia uma plateia, e consequentemente a preocupação de machucar alguém. Todos os comércios estavam fechados, e as casas bem trancadas e com as cortinas cobrindo as janelas.
— O que faz aqui? — Ebisu ingadou com ódio.
— Eu ainda sou o Rei Vermelho. Fui chamado aqui para ajudar na captura do fugitivo. Eu quem deveria perguntar isso. Não viu o anúncio da Forgotten Souls?
— Você fala como se estivesse aqui para proteger as pessoas, mas faz isso apenas por obrigação! — Ela já estava empunhando a sua arma.
Ai, que droga!, pensou Watanuki, com uma expressão que demonstrava o seu desânimo.
— Você acha que eu não quero proteger as pessoas dessa cidade? É isso mesmo que você pensa?! — Malik se irou. — Acha que tudo o que faço ou deixo de fazer é pela minha própria vontade?! Já estou farto de você, que não entende nada e age arrogantemente como se soubesse de tudo! Pense o que quiser de mim, se quiser lutar até a morte, nós iremos, mas não agora! Não tenho tempo para isso, preciso achar aquele criminoso antes que machuque mais pessoas. — Ele virou-se e começou a andar em direção à entrada da prisão que estava em pedaços.
O sangue de Ebisu fervia, ela precisava tomar uma decisão. Precisava escolher entre atacar Malik ou ir atrás de Bakudan. Não foi algo fácil, mas ela escolheu. Então partiu com velocidade em direção ao mago. Todos os membros da família ficaram a postos, se ela tentasse algo, seria alvejada. Watanuki também estava preparado para protegê-la de eventuais ataques. Ebisu se aproximou do Rei Vermelho com ferocidade, entretanto passou ao seu lado, sem atingi-lo, apenas lhe lançando um olhar de ódio. Ele entendeu que ela queria terminar aquilo depois.
Malik a observou desaparecer na escuridão da prisão.
— Que droga, Ebisu! — Watanuki reclamou ao correr atrás da companheira.
Ambos desapareceram daquele lugar.
— Mais complicação, pelo visto — Dexter comentou.
— Essas são as consequências de se tomar algumas atitudes — Malik disse.
— Você não pode mais ignorá-la e tentar fazê-la esquecer — Shinji falou. — Precisa tomar providências. Precisa matá-la. O Rei Vermelho não pode ter inimigos vivos!
— Você é um psicopata, Shinji. — Malik enfiou as mãos nos bolsos da sua calça negra. — Nem tudo se resolve com mortes.
Asuka se aproximou do Rei Vermelho.
— Não corra riscos desnecessários, Malik — foi o que disse ao pôr a mão sobre o ombro dele. — Ela é a única coisa que restou do Massacre. Talvez ela deva deixar esse mundo, assim como o humano. Aquela garota o amava. Você tirou tudo dela, não espere que um dia ela vá perdoá-lo, mesmo você mostrando que está certo. Mesmo tento feito isso para proteger as pessoas.
— Você tem razão, Asuka. Ela nunca entenderá. — Havia uma tristeza em seu coração, sentia-se triste por aquela garota, mas algo precisava ser feito. — Apenas não façam nada, deixe que eu resolvo.
— Malik... — Juri murmurou, preocupada.
O som de passos estalou sobre o asfalto. Um homem se aproximava do grupo. Ele tinha altura mediana, vestia botas, calça e jaqueta, todos feitos de material resistente, por cima do corpo estava um longo manto com capuz, que ia desde o alto da sua cabeça até os tornozelos, deixando todo o seu corpo oculto.
— Rei Vermelho — ele falou ao tirar o manto da cabeça, revelando seu cabelo cinzento e uma cicatriz vertical rubra sobre o olho esquerdo.
— Hakurai, o que faz aqui? — Malik indagou.
— Alguns presos escaparam. Está uma bagunça lá dentro. — Apontou com o queixo.
— Excelente! — Shinji proferiu, indo em direção aos destroços.
— Bem, vamos todos — Dex falou e o seguiu.
— Limpem tudo lá dentro — Malik ordenou.
Ao ver os membros da família desaparecer nas sombras, voltou sua atenção ao Mage Hunter. A expressão daquele rapaz era tão vazia quanto a de Juri. Somente quem presenciou horrores é capaz de sustentar tamanha seriedade. O jovem era alguns anos mais jovem, porém era portador de um enorme poder, poderia ter sido um dos candidatos ao título de Rei Vermelho, isto é, se tivesse interesse. Hakurai era um caçador devoto e obediente. Não se importava com muitas coisas além de capturar e eliminar aqueles que abalam a paz. Malik sentia pena dele, mas não havia nada que pudesse fazer.
— Haku, para que lado o Bakudan foi? — Malik olhou ao redor, esperançoso de que pudesse ver algum dos criminosos.
— No meio da confusão o perdemos. Os rastreadores estão o procurando. Eu estava cercando a área para ver se nenhum dos prisioneiros fugiriam. Bakudan foi o único preso que conseguiu. Os outros estão lá dentro, naquela sujeira.
— Quantos morreram?
— O que posso dizer é que foram muitos. — O semblante de Hakurai permanecia inexpressivo, mas os seus olhos exibiam a dor da perda. — Ninguém fugiu. Vou procurar pela cidade.
— Então venha comigo. Voando será mais efetivo — Malik proferiu ao parar sobre o tapete.
— Sim — Hakurai sentou-se ao seu lado.
Por onde quer que Ebisu passasse, tudo que conseguia ver eram destroços de pedras cinzentas manchadas de sangue e com restos mortais. Ela seguiu pelo terreno irregular, até que chegou à parte que estava intacta. Era um corredor de mármore cercado por celas de ambos os lados. Os presos daquela parte estavam com uma expressão de horror. Mal podiam acreditar que por pouco não perderam as suas vidas. Um luto silencioso tomava conta do local.
— Ebisu! — Watanuki vociferou ao chegar ao seu lado. — Mas que droga! De novo?!
— Eu não consigo me controlar perto dele! Então só quis sair de lá! Não reclama, não fiz nada de errado! — Ebisu estava com um olhar insano que só exibia quando falava de Malik.
— O ódio é algo realmente complicado — Watanuki comentou. — Precisamos dar um fim nisso, de um jeito ou de outro...
— Watanuki... — Ebisu olhou para ele, espantada.
— Que foi? Algo precisa ser feito. Decisões precisam ser tomadas — O garoto estava com uma expressão incrivelmente séria.
Enquanto corriam, se aproximavam cada vez mais de um grupo de dez prisioneiros.
— Vejam o que temos aqui! — bradou um dos prisioneiros.
— Devem ser os lacaios do Rei Vermelho! — disse um outro.
— Não encham o saco, seus merdas! — Ela continuou correndo.
— Watanuki! — A garota bradou. — Destroce eles!
Ebisu se aproximou do primeiro. Ele portava uma espada curta, com a destra desferiu um ataque na horizontal para cortar a garganta da sua oponente, que foi mais ágil e abaixou-se. O movimento do inimigo fez os seus cabelos se moverem. Dando continuidade, ela aproveitou a guarda baixa do prisioneiro, que estava com a lateral direita do corpo exposta e o atacou. O bastão enterrou-se no corpo do sujeito. As suas costelas arrebentaram. A carne afundou, esmagando um dos pulmões e o coração. Uma golfada de sangue saiu pela sua boca aberta. Seus olhos tremeram. Seu corpo não suportou tamanha dor. Com danos nos órgãos internos, aquele homem caiu sem vida ao chão.
A jovem apoiou o bastão sobre o ombro direito e ficou parada entre dois criminosos. Com um olhar insanamente sombrio, ela fitou os próximos alvos. Mas eles não ficaram parados, e atacaram, os dois ao mesmo tempo. Antes que Ebisu se movesse, duas fortes lufadas passaram por ela, uma de cada lado. Os homens pararam instantaneamente de se mover. Notavelmente uma linha vertical começou a surgir em seus corpos, indo do alto da cabeça, até logo abaixo do ventre. Com um barulho de esguicho engasgado de sangue os corpos deles se dividiram em dois. Ebisu e os outros puderam ver os seus órgãos internos perfeitamente, enquanto uma chuva de sangue fervente os molhava. Watanuki havia os neutralizado com rapidez e eficácia.
Restavam agora sete fugitivos. Seus rostos de medo assemelhavam-se ao de crianças. Eles tentavam controlar o desejo de fugir, mas no fim fora em vão. Lamentaram desesperadamente o instante em que saíram de suas celas. Mesmo que estivessem livres, aquilo era algo que não deveria ter sido feito.
— Rendam-se! — Watanuki ordenou ao aproximar-se deles. — Ajoelhem-se ou morrerão — a sua voz era firme. Ele falava de uma forma que Ebisu nunca tinha visto.
Prontamente todos obedeceram. Os criminosos se ajoelharam, estavam dispostos a voltar para a cela. Forgotten Souls era uma tortura, mas, pelo menos, estariam vivos.
— Muito bem, agora... — Watanuki não terminou a frase.
Lanças de madeira saíram do chão e perfuraram todos os prisioneiros, rasgando as suas carnes, destroçando os órgãos, moendo os ossos. Eles foram atingidos nas pernas, braços, tórax, dois deles até na cabeça. Sangue jorrava de seus ferimentos e escorria das suas bocas, encharcando o chão com o líquido. Repentinamente as lâminas retraíram-se, voltando para o solo. Os corpos esburacados daqueles homens tombaram uns sobre os outros.
— Não percam tempo com esses lixos — Shinji falou desdenhosamente. — O único que vale a pena enfrentar provavelmente não está aqui — findou, olhando ao redor.
— Não precisava ter feito isso! Eles haviam se rendido! — Watanuki declarou irritado ao se virar.
— Hum, como se eu me importasse. Não me venha pregar ética. Essas pessoas são lixos que mataram pessoas inocentes. Viveram tempo demais, até. A meu ver deveriam ter morrido no primeiro dia aqui. — Shinji encarava Watanuki com um olhar frio.
— O que mais se pode esperar do assassino do Rei Vermelho? — Watanuki possuía um olhar feroz.
— Cuidado garoto! Eu ainda não me esqueci que você me derrubou no Las Noches. Para a sua sorte eu tenho trabalho a fazer, mas assim que acabar, apareço para matá-lo! — Shinji passou por Watanuki sem o olhar no rosto. — Malik não se importará, desde que eu não toque nessa aqui. — E apontou para Ebisu.
Em seguida passaram Dex e Asuka, conversando, sem se importar com o que havia acontecido. As próximas foram Juri e Hanako, que encararam Ebisu com um olhar mortal ao passarem por ela.
— Parabéns! — Ebisu falou com ironia. — Acaba de conseguir um rival. Eu, pelo visto, tenho três. Ainda estou ganhando.
— Você não tem jeito!
— Quem é a garota de cabelo verde? — Hakurai indagou, sentado sobre o tapete, enquanto observava o solo. — Tenho a impressão de já tê-la visto em algum lugar.
— É a ex-namorada do humano — Malik respondeu.
— Agora que você falou, eu me lembrei. Ela está diferente — o tom de Haku continuava ponderado.
— Ela mudou muito desde o Massacre. Não podemos culpá-la — Malik falava com amargura.
— Esse evento foi horrível. Foi a única noite em que a Forgotten Souls fechou os seus olhos para o que estava acontecendo na cidade. Eu era apenas um garoto, mas me lembro de tudo.
— Todos eramos garotos, alguns até mesmo, inconsequentes — Malik olhou para o céu, como que buscando consolo. Estava nublado, nem mesmo o sol daria as caras naquele dia. — Fazia poucos meses que havia me tornado Rei Vermelho. Tive que tomar uma decisão difícil. O peso dessa escolha me persegue até hoje.
— Todas as escolhas que tomamos tem um peso. Simplesmente alguns são mais leves que os outros, mas se você fez o que era certo, sua alma pode ter paz, ainda que tenha um grande peso para carregar.
— É reconfortante ouvir isso. Obrigado — Malik sorriu para o seu companheiro.
Abaixo deles estava a Cidade Mágica, não como estavam habituados, com pessoas espalhadas por todos os cantos e com estabelecimentos abertos, mas uma cidade deserta, com um ar funesto e uma tensão indescritível. Era como se todos esperassem pela próxima explosão, enquanto torciam para que mesmo após isso, ainda estivessem vivos. Bakudan era um monstro incrivelmente poderoso, mas se fosse encontrado teria problemas, teria que enfrentar dois magos que se equiparam com o seu poder. O resultado desse encontro pode ser catastrófico.
Finalmente os olhos treinados de Hakurai o encontraram, e após um rápido aviso, Malik desceu o tapete mágico com incrível velocidade. Ambos saltaram do veículo após ele parar sobre o chão de asfalto. Eles estavam preparados para a batalha!
O lugar estava deserto, era um cruzamento. O asfalto estava sujo, com alguns papéis largados pelo chão. Haviam prédios de dois ou três andares de ambos os lados, também haviam casas e alguns estabelecimentos. Um beco ou outro aqui e ali. O dia estava cinzento, dando um ar melancólico ao local.
— Bakudan, — Hakurai falou com firmeza — eu como mage hunter da Forgotten Souls, declaro a sua sentença: eliminação!
— Não me faça rir! — o mago insano bradou ao se virar. — Olha só, você está acompanhado do Rei Vermelho. Não tenho certeza, mas acho que o último era melhor. — Ele colocou a mão na barba.
— Poupe suas cordas vocais, Bakudan — Malik proferiu sombriamente enquanto andava na direção do seu oponente. — Assim poderá gritar de dor por mais tempo. — Um sorriso sádico transpareceu em seu rosto.
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