Zul
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Em meio a um jardim de flores multicoloridas, uma jovem garota desperta de seu descanso temporário e se levanta muito confusa enquanto observa os arredores, uma leve brisa faz os fios de seu cabelo prateado dançarem elegantemente e chama a atenção de seus curiosos olhos de cor de safira azul para um corredor com um chafariz de pássaros de mármore e água cristalina jorrando de seu topo. Ao ver seu reflexo na água, a jovem garota não se reconhece.
— Quem sou eu?
Caminhando até o fim do corredor, ela se vê na beira do terraço de um edifício tão alto que a vertigem quase a fez cair.
— Pela graça de Elena! — o enorme susto desperta palavras subconscientes da jovem garota.
Assim que recobra o equilíbrio, ela olha para baixo e visualiza um humilde vilarejo, sua vista segue até encontrar incríveis montanhas púrpuras no horizonte e logo em seguida pousa em um céu azul celeste com nuvens translúcidas. É um cenário magnífico e cercado de magia, pássaros sobrevoam suavemente no céu enquanto são banhados pelo brilho de um sol cor violeta.
— Que lugar mágico. — sua voz emana uma energia revigorante.
— Então foi aí que você se escondeu, minha querida Zul.
De repente, um ser antropomórfico surge entre os inúmeros pássaros no céu e fica planando com suas enormes asas brancas acima da incrédula garota. É um ser de pele rosa claro, com um cabelo ondulado que vai até o ombro e de cor tão azul quanto os seus olhos, seu corpo magro está coberto por uma penugem de cor lilás. Aos raios violeta do sol, ele parece angelical e sereno.
— Quem…, quem é você? — pergunta a perplexa garota.
— Não vai me dizer que já se esqueceu do magnífico Zenit, o conquistador dos céus infinitos.
— Eu…, você está voando mesmo?
— Mas é claro que estou — disse o sorridente Zenit. — Nesse mundo só não voa quem não quer.
— Então quer dizer que até eu…
Quando terminava a frase, a garota sente emergir de seu interior uma aura que materializa enormes asas brancas em suas costas e, num movimento natural, as espreguiça em sincronia com o seu corpo. Ela bate as asas suavemente, levando-as para a frente de seu rosto e recolhendo-as para que suas mãos sintam a maciez e a pureza delas. É uma cena mágica de autodescobrimento.
— Parece até que você nunca viu suas asas. Se bobear, não sabe nem para que serve mais. — Zenit brinca com a cara de surpresa da garota.
— Eu não lembro de ter asas. Aliás, eu não lembro de você…, Zenit. Eu não sei nem quem eu sou — a garota desabafa enquanto abraça as enormes penas de suas asas recém descobertas.
— Você é a Zul, pelo menos é o que me disse quando nos conhecemos. Poxa vida Zul, nem brinca com isso.
—Zul? — disse a desconfiada garota.
— Vai me dizer…, vai me dizer que aquela história…
— Que história? Do que você está falando?
— Pelos Deuses, agora eu entendi o que você quis dizer. — Zenit demonstra uma grande tristeza nos olhos enquanto pousa no terraço.
Ao tentar se aproximar, a garota se afasta de Zenit e fica bastante assustada com o que está acontecendo.
— Que história? Que história?
— Zul, um dia você me disse que chegaria o momento em que precisaria ir embora antes que tudo terminasse, que tudo se tornasse um grande vazio.
— Eu disse isso? — A garota arregalou seus olhos cor de safira azul como se estivesse ouvindo uma mentira.
— Mas, agora percebi que você estava certa. Você se esqueceu de nós, completamente.
Nesse momento, Zenit tenta novamente se aproximar da garota de cabelo prateado, mas ela se afasta de forma tão brusca que acaba caindo entre as perfumadas flores do jardim e, de suas asas brancas, escapa uma brilhante pena dourada que paira no ar até cair suavemente em suas mãos.
— Zul, você está bem? Se machucou?
— Você tem razão — disse a conformada garota de cabelo prateado e olhos de safira. — Eu me chamo Zul, e eu conhecia vocês.
Em suas mãos, a pena dourada demonstra ter magia tão bela e encantadora quanto triste e melancólica. A jovem garota, de nome Zul, não contém as lágrimas que se libertam enquanto observa as desconhecidas imagens desenhadas na pena que vão se alternando magicamente entre lugares fantásticos e seres antropomórficos, mas nem a nitidez das imagens são capazes de fazê-la recordar de algo. E Zul se depara com uma frase que dispara ainda mais o seu coração aflito:
“Sentirei saudades. Mesmo que não consiga me lembrar, sei que guardarei o tempo em que éramos uma família.”
E a brilhante pena dourada se desfaz em chamas etéreas.
— Tantos lugares e pessoas. A pena dourada guardava as minhas memórias, elas eram as minhas memórias! E por que elas não estão na minha cabeça? — Zul demonstra um sentimento de revolta.
— Eu não sei, mas não vamos deixar você nos esquecer!
Inconformado com a situação, Zenit resolve agir instintivamente e, aproveitando a distração de Zul, pega a sua mão e a puxa até a beira do terraço.
— O que está fazendo? Me solta.
— Eu não vou permitir que você se esqueça da gente — disse o determinado Zenit. — Vou te levar para o nosso vilarejo.
E assim, os dois caem do terraço do edifício. Zenit busca incentivar a Zul a todo momento, tentando fazê-la recordar de suas memórias.
— Vamos, Zul! Você consegue se lembrar! — Zenit persiste na tentativa e se afasta de Zul. — A gente confia em você.
Sentindo o vento forte no rosto e sem acreditar no que aconteceu, Zul está em uma queda livre destinada a encontrar o chão. Ela precisa reagir, e rápido.
— Eu preciso acreditar!
Zul encontra coragem em seu coração. As suas enormes asas angelicais despertam novamente e ela se inclina para fazer uma esplêndida curva no ar, subindo mais alto que o próprio edifício. É como se ela nascesse para voar naquele céu irradiado de esperança.
— Por Deusa Elena e sua divina sabedoria! — Zul abre um sorriso contagiante e agradece a alguém que parece tão próxima a ela quanto suas próprias asas.
— Você conseguiu. Eu sabia que conseguiria. — Voando em piruetas enlouquecidas, Zenit não esconde a alegria.
A sensação de liberdade deixa o corpo de Zul leve como as nuvens translúcidas que se dissipam ao seu toque. Ela voa entre os pássaros e paira no ar para apreciar a paisagem exuberante.
— Esse não é um prédio comum. — Zul percebe a magnitude do prédio em que estava.
— É a Torre Hexagonal dos Deuses, de vez em quando eles aparecem no vilarejo.
— É sério? Os Deuses existem mesmo?
— Mas é claro que existem. Agora, me siga.
E assim, os dois sobrevoam o céu até finalmente pousarem em terra firme, em meio a um vilarejo rico em vida. Enquanto recolhe suas asas, ela observa as pessoas-pássaro em frente às suas casas de madeira e com telhado oval de folhas verdes, elas conversam harmoniosamente com distintos seres antropomórficos. Por alguma razão, Zul se sente reconfortada e segura.
— Oi Zul! Oi Zenit! — crianças-pássaro correm gritando.
— Zul, Zul. Hoje eu vou tentar de novo. Você vai me ajudar, né? — diz uma criança-pássaro de olhos esmeralda.
— Claro..., sim, pode contar comigo.
A criança-pássaro pula de alegria, dá um abraço aconchegante na Zul e corre em direção às outras crianças-pássaro.
— Que legal, você se lembrou da Celestine — disse Zenit.
— Eu não lembrei, apenas senti que era o certo a dizer.
— Você não se lembra de ajudar a Celestine? Ajudá-la a superar a perda dos pais?
— Ela perdeu os pais?
— Sim, e você ajudou ela a voar novamente. As asas dela estavam presas na tristeza eterna.
— Eu…, eu não me lembro.
— Mas como você… — Zenit percebe o olhar triste de Zul. — Tudo bem, vamos andando.
Os dois seguem em direção ao hotel central do vilarejo para encontrar os amigos de Zenit quando algo chama a atenção dos habitantes.
— Cuidado, é um Breu! — gritos desesperados se espalham pelo vilarejo. — Voam, rápido!
Um ser antropomórfico, semelhante a um abutre, surge das sombras. Seu corpo distorcido e com asas rasgadas apresenta uma coloração roxa e preta, cheio de vórtices espaciais que desencadeiam luzes alaranjadas. Ele se arrasta pelo vilarejo com arregalados olhos vermelhos e parece procurar por alimento.
— Celestine! Sai daí! — gritos desesperados tentam alertar a assustada Celestine, que está imóvel.
O homem-abutre avança com voracidade em direção à pequena Celestine. Em pouco tempo, chegará nela e absorverá toda a sua energia vital. De repente, um vento forte atravessa a frente do homem-abutre e resgata a pequena criança-pássaro.
— Você me salvou! — Celestine agradece ao ser resgatada pela corajosa Zul.
Zul abraça forte a criança-pássaro enquanto observa o homem-abutre do alto.
— Zul… — uma voz estridente sai das entranhas da criatura-abutre.
— O que você disse? Você me conhece? — pergunta a confusa garota de cabelo prateado.
Pousando suavemente no chão, Zul pede que Celestine busque proteção ao lado de Zenit e depois resolve encarar a criatura de olhos vermelhos.
— Cuidado, Zul. Esse monstro absorve a energia dos vivos — Celestine se preocupa com sua amiga.
— Eu tomarei cuidado. — Zul sorri para Celestine.
— Zul… — o homem-abutre repete as palavras enquanto arregala ainda mais seus olhos de cor vermelho-sangue.
— Você me conhece? Quem é você? — Zul tenta conversar com a criatura.
Nesse momento, uma luz celestial emana da Torre Hexagonal dos Deuses e surge no céu a Deusa Elena, com sua esplendorosa beleza e imensas asas com penas roxas, lilás, rosas, azuis e brancas, um verdadeiro arco-íris místico.
— Como ousa invadir o meu vilarejo, ser repugnante? — disse a Deusa Elena. — Volte para as sombras das montanhas se não quiser aumentar o seu tormento.
— Zul… — Com seus arregalados olhos vermelhos, o homem-abutre observa a garota de cabelo prateado antes de desaparecer magicamente ao primeiro vento.
Com a elegância sublime de uma verdadeira Deusa, Elena pousa em terra firme, recebe a energia positiva de todos os habitantes do vilarejo e, lentamente, caminha em direção à Zul.
— Precisamos conversar — disse a Deusa Elena, ao pé do ouvido de Zul.
— Tudo bem.
Uma luz divina faz as duas desaparecerem do vilarejo e aparecerem no imenso jardim da Torre Hexagonal dos Deuses.
— Hoje é o primeiro dia da sua vida, Zul. — Deusa Elena demonstra serenidade em seu delicado rosto lilás. — E, como combinamos, irei esclarecer todas as suas dúvidas.
— Eu gostaria que você me explicasse melhor tudo isso.
— Quantas vezes eu já ouvi essas mesmas palavras. Mas, enfim…
Com o olhar melancólico e a voz doce, Deusa Elena cria projeções astrais para contar uma história muitas vezes repetida.
°°° Um amor ilusório, capaz de quebrar os laços verdadeiros. E assim, iniciou a sua perdição.
Ele chegou prometendo o céu e a Terra, o mar e as estrelas, e você acreditou tanto que rompeu as conexões familiares e amigáveis. Concentrou todo o seu amor em um ser que enganou, roubou e a deixou sem chão, e sem asas.
Não restou nada além de um vazio, escuro e frio. E sua vida perdeu a luz para sempre.
Mas, por alguma razão, você não desistiu. Clamou por mim, pediu uma salvação.
Você não conseguia esquecê-lo, mesmo ele não merecendo.
Nós, Deuses, não temos o costume de interferir em suas vidas, mas podemos realizar desejos. E o seu desejo foi esquecê-lo para sempre, não importando as consequências.
A mente dos mortais é complexa até mesmo para os Deuses, não temos o poder de apagá-la, mas podemos iludi-la.
E assim, você desejou esquecer tudo, ao fim do sétimo dia a partir do hoje. E assim, se repetirá até o fim de seus dias. °°°
— Você está dizendo que eu só guardo uma semana na memória e depois esqueço tudo?
— E é assim, repetidas vezes.
— E quantas vezes isso já aconteceu?
— Você já me fez essa mesma pergunta todas as 24 vezes.
Por um breve momento, o silêncio contempla o jardim de flores.
— E tudo isso por causa de um amor idiota? — Zul se revolta.
— Um amor que não existe mais. Infelizmente, as consequências ocuparam o seu lugar.
— E quantas vezes eu perguntei sobre a pena dourada?
— Essa é a primeira vez. Nas outras vezes eu sempre tive que mostrá-la a você.
Entre as várias perguntas, a Deusa Elena explica que a pena dourada é outra consequência do esquecimento, é uma reação natural do corpo da Zul que começou a materializar as memórias recentes em uma pena dourada, todos os lugares visitados e seres de importância são guardados, porém, essa pena dourada não dura muito tempo fora das asas da garota de cabelo prateado.
— Eu não quero viver esquecendo tudo a cada semana até o fim da minha vida! — disse a inconformada Zul. — Deve ter alguma solução.
— Essas palavras são novas. Normalmente você iria se conformar com a situação. Aconteceu algo que a fez reagir diferente?
— Eu não sei, mas não posso desistir — a determinação toma conta de Zul.
— Muito bem. A pureza dos sentimentos é o que nos faz acreditar em vocês. Siga até as montanhas púrpuras e se encontre com o Deus Arsemi.
— Ele terá a cura para a minha desmemória?
— Ele será o fim do seu caminho. O mais importante serão os meios que você viverá até chegar nele. E, talvez, ele possa te ajudar.
— Arsemi é o Deus que tudo vê. Por quê eu não esqueci de vocês?
— Nós somos a essência da vida, somos imunes ao esquecimento.
Após as suas últimas palavras, a Deusa Elena desaparece numa luz branca e aconchegante que se irradia no imenso jardim de flores. Zul respira fundo, abre as suas enormes asas e voa em um lindo céu azul de nuvens translúcidas.
— Tenho poucos dias antes que a minha determinação se transforme em chamas etéreas.
Continua…
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