Zugzwang

1 Capítulo 1 - Desde que você se foi


Notas iniciais
Espero que gostem. ♥

https://www.youtube.com/watch?v=EYNHDyq8iVQ

Tiro cego - Scalene

São noites como essa que eu não consigo dormir. A luz fraca que entra da rua, o tique-taque incessantemente do relógio, os livros bagunçados, nada disso me impede de dormir.
Mas algo no peito cresce, cresce muito, abre uma fenda, faz um vazio. Como se eu não tivesse alma. Apenas uma casca, um corpo inútil vagando entre a sala e o quarto. Um corpo que não sorri, que não ri. Um corpo que não come, que não consegue levantar da cama, que perdeu todos os motivos. Maeve eram meus motivos.
Eu perdi tudo quando ela se foi.
Me sinto um adolescente apaixonado novamente, a diferença é que eu não sou mais adolescente e que não era uma paixão. Cada dia dessa inútil vida eu sinto falta dela.
Não vou mais o trabalho. Hotch me deu folgas por tempo indeterminado. Ele sabia que eu não iria aguentar voltar a BAU, aguentar e conseguir trabalhar. Não posso me concentrar. A imagem de Maeve me vem na cabeça a todo momento. Quase que como uma dor chata de dente.
Eu não sou ninguém sem ela.
Soquei a cama entre as lágrimas que começaram a cair. A raiva sobe pelo meu corpo como um diabo a ser exorcizado, arranco os lençóis, jogo o travesseiro longe, quero bater em tudo que eu possa tocar. Derrubo a luminária, cai e quebra. Os cacos de vidro em minhas mãos. A sangue por todo lado, cortei minha palma por causa da força que fiz.
Soluçando, me arrasto até a janela e tento levantar me segurando nas cortinas, elas rasgam, mancham e eu não consigo sair do chão. Me encolho esperando que a dor interna passe. Fecho os olhos mas não consigo parar de chorar.

Essa manhã acordei no chão do meu quarto. Minhas mãos doíam e meu corpo também. Só depois que deixei minha visão se acostumar com a luz que percebi o que havia acontecido: havia pingos de sangue por todo o lado, o abajur quebrado e os cacos no chão abaixo do meu corpo, a cortina rasgada e suja. Era uma cena dos casos que eu resolvia na BAU.
A diferença é que não houve assassinato. Era apenas a consequência do meu surto. Da dor que Maeve me causava (ou que eu causava a mim mesmo?)
Quando entrei no chuveiro aquela manhã não regulei a água. Queria ela fria, bem fria. Queria acordar daquele pesadelo que minha vida se tornou sem Maeve.
Meu cabelo estava a dias sem sentir a água ou o toque de uma escova. Molhado e embaraçado ele caía sob meu rosto. Meu corpo tremia com os pingos gelados. Em um momento eu já não sabia mais o que eram lágrimas ou água.
Só eu. Apenas eu sentado no chão do banheiro gelado. Sozinho.
O suco havia acabado assim como o macarrão, mas eu não me importava com isso. Eu nem queria comer. Servi o leite numa tigela, depois os cereais e me sentei à mesa com uma colher em mãos.
Encarei a tigela vermelha. O cereal flutuando no leite, alguns já imersos.
Soltei um suspiro e levei uma colherada a boca. Senti o enjoo me subir a garganta, regurgitei, não sabia o que fazer com aquilo em minha boca. Engoli de má vontade e deixei a louça na pia, ainda com a comida dentro.
Deitei no sofá e lá passei o resto do dia. Tentava ler algumas páginas de livros, olhava pela janela. Ouvia o telefone tocar. Sentia a falta dela.
Agora estou aqui, a frente da mesa, com uma caneta em mãos e uma folha de papel em branco. Li em um livro de auto-ajuda que escrever ajuda a aliviar os sentimentos. Eu não estou certo disso, mas eu sempre me sinto melhor depois que escrevo para mamãe, mas hoje a carta não é para ela.

"Oi, Maeve
Desde que você se foi minha vida se tornou o caos que nem a BAU conseguiu tornar. Tem andado tudo muito difícil para mim.
Desde que você se foi eu não me importo mais com as coisas, eu sei que devia me preocupar, é um sintoma de depressão, mas eu não me importo mesmo. Porque é só isso que eu faço: sentir a sua falta.
Eu sinto muito por não ter conseguido te salvar, eu sinto tanto a sua falta, você não imagina.
Desde que você se foi eu não durmo mais, quando durmo são poucas horas e sempre sonho com você e quando tudo acabou. A sua imagem sempre me vem a cabeça. Eu não como mais, eu não consigo engolir, sentir o gosto, ter vontade de comer. Eu não consigo mais nada, Maeve.
Não tenho ido trabalhar. Não atendo a porta ou o telefone. Não quero ver mais ninguém além de você.
Maeve, eu ainda te amo.
Spencer Reid."