Zootopia - Trinta dias no paraíso

1 Um mês de descanso sem descanso...


Notas iniciais
Eaeee cambada, como que tá?? Tudo susse?? Passada a sinopse da fic, agora tô aqui pra conversar em tom mais coloquial com vcs... Primeiramente, o disclaimer de praxe: ** ESSA FIC CONTÉM SPOILERS IMPORTANTES DE ZOOTOPIA 2!!! ** E bota spoiler nisso!! Cronologicamente, ela se passa algumas semanas após o segundo filme, também se passando após minhas outras duas fanfics de Zootopia: "Eu só me importo com você" e "Savage... Jack Savage". Ela seta acontecimentos mais importantes em relação à segunda fic, se passando imediatamente após ela... Porém, não é 100% imprescindível ler 'Savage... Jack Savage' para mergulhar nessa Oneshot gigantesca, o começo dela já traz um breve resumo e situa o leitor no tempo... Ainda sim, recomendo a leitura para não perder os plot twists contidos nela. E falando sobre o tamanho dessa Oneshot, vai outro disclaimer... Realmente, pode parecer uma escolha peculiar um Oneshot de 30 MIL PALAVRAS, mas foi uma escolha artística para gerar impacto único, acredito que a serialização pode 'esfriar' um pouco a trama... Ainda sim, caso fique pesado para o leitor, ela estará saindo de maneira serializada no Wtt, com atualizações às sextas-feiras E essa fic é uma carta de amor, tanto para os fãs de Zootopia, quanto para a própria obra em si, tentando expandir e aproveitar ao máximo dos personagens da obra, com foco maior na parceria Wilde-Hopps, mas dando espaço para outros personagens que enriquecem a franquia. Mergulhe nessa história!


— TRINTA DIAS!!!??



— Hahahaha! Tô brincando, raposa boba! Não vai demorar trinta dias pra eu ir te ver... Quando eu terminar de me livrar de todo o trabalho por aqui eu prometo que vou, coisa de uns dez dias no máximo... Não vai demorar...!













— ... E, aliás...













— ... Por que que você pareceu tão preocupado, hein...?

























Primeiro dia.

















— ... Hmpf...! Coelha esperta...











Imerso em diálogos passados, um hospitalizado Nicholas Wilde mostrava-se reflexivo durante um translado de ambulância, a caminho além-fronteiras de Zootopia.



Em internamento de início há três dias, o oficial raposo se envolveu numa violenta batalha com seu superior em hierarquia policial, a lenda entre coelhos e super agente Jack Savage. Desenrolou-se uma luta que transcendeu limites físicos e emocionais e, após excruciante esforço, foi revelado o intenso combate foi uma simulação controlada para averiguar se Nick Wilde seria apto a integrar a equipe de agentes de elite de Savage, teste qual o predador foi aprovado com maestria, assim passando a compor o time no qual sua parceira Judy Hopps já era participante... Uma vitória completa.



Contudo, dado o ímpeto da batalha e a experiência maior da lebre, o raposo acumulou maior quantidade de danos, resultando numa hospitalização prolongada devido um pé direito fraturado e costelas trincadas. E, pelo exagerado sofrimento agregado em cima daquele pobre canídeo, seu outrora algoz lhe recompensou não apenas com o ingresso para a equipe de elite, mas também com uma estadia apropriada para recuperação pelas despesas do Departamento Policial de Zootopia, o DPZ... Trinta dias numa luxuosa pousada fora da cidade, em Koppenhöffen... Pousada Nova Lua de Mel.



Através de comerciais digitais e cartazes, Nick Wilde já conhecia aquele nome. E, pessoalmente, ele conhecia também o nome e local antigo, a 'velha' Pousada Lua de Mel... Infelizmente, em péssimas circunstâncias...



Mas a tempestade passou... Aquela raposa iria desfrutar de um mês numa das estâncias mais confortáveis da região, precisando agora apenas passar por uma viagem sacolejante de ambulância.









— Tá tudo bem aí atrás, pessoal? — O lobo paramédico na direção indagou por cima do ombro — Vão ser uns minutos em estrada de terra.



— Senhor Wilde, como se sente? — Lhe questionou uma paramédica capivara ao seu lado.



— Tá de boa, eu nem tô com vontade de vomitar...! — Respondeu sarcasticamente a raposa, visivelmente enjoado com o balançar do veículo.



— Tá bem, captado, Wilde! — O lobo na direção assentiu e diminuiu a velocidade avançando com mais cuidado, causando um chacoalhar brando em Wilde, quase como um bebê sendo balançado no berço — A chuva desses dias atrás detonou deve ter detonado esse trecho.



— É, acho que não foi só esse trecho que foi detonado... Ugh-!! — Gemeu em dor, sendo amparado pela roedora ao lado — A diferença que no meu caso foi um coelho mesmo...!





A dupla de paramédicos deu um breve riso, com Wilde se juntando para não pesar tanto o clima. Por estar imobilizado em uma maca, o raposo não conseguia mover-se suficiente para enxergar onde estava, apenas fitava o teto branco da ambulância, com focinho direcionado para cima. Mas raios de luz dourada que adentravam ao veículo denunciavam que era entardecer, refletindo em prateleiras e na lataria da ambulância, junto de sombras de múltiplas árvores.



O caminho de terra rangia sob o avançar de pneus, em estalos e chiados de ar interior, longe da civilização, aliados com um farfalhar arbóreo. E o faro de Wilde ainda era seu grande aliado, não seriam alguns ossos quebrados que iriam parar seu eficiente nariz. Por trás da atmosfera nosocomial daquela ambulância, o ar cheirava a musgo e madeira úmida... Nem mesmo o pouco poluente que escapava da combustão do motor estragava a pletora de aromas bucólicos que o circundava do lado de fora.









Nick Wilde não fazia ideia de onde estava...







... Mas estava tranquilo por imaginar ser lindo.

















— ... Muito bem, chegamos.



Anunciou o lobo, desligando o veículo e puxando o freio de mão. Ambos os profissionais desceram o acamado raposo para fora da ambulância, quando finalmente este conseguiu vislumbrar a belíssima paisagem florestal que circundava uma construção de madeira paradoxalmente moderna e rústica. Distantemente, Nick conseguiu até vislumbrar as ruínas de uma casa de madeira, pendendo sob um enorme paredão de pedra...









'... Judy, não vale a pena morrer por isso...!...'






'... Eu acho que... acho que...'







... '... somos diferentes.'















— ... Senhor Wilde...??




Lembranças ruins desconectaram o raposo da realidade.





— ... Hã, oi! Perdão!

— Tá tudo bem? — Indagou a capivara, enquanto subiam um pequeno elevador para acessar a pousada.


— Sim...! Eu... eu só... — Titubeou brevemente — ... tava pensando longe...





E, ao adentrar à Nova Lua de Mel, foi possível notar o requinte ímpar daquela estância... A composição era majoritariamente rústica, com troncos circulares de madeira compondo os alicerces e paredes do complexo, porém, filetes de luminárias que iluminavam o grande salão de recepção, além de uma bela fonte inspirada na 'Vênus de Afrodeerte' deixavam bem claro que aquele local era pra poucos.



A equipe que cuidava de Nick Wilde fez todos os trâmites burocráticos para sua estadia, com o próprio ajudando fornecendo alguns dados. Terminadas as formalidades, os profissionais da saúde levaram a raposa para suas acomodações, junto de uma zebra que explicava majestosamente todos os benefícios da pousada... Saunas, piscinas, banheiras de hidromassagem... A maioria, porém, fora do alcance do acamado canídeo, até que pelo menos a melhoria da sua fratura no pé direito.




— ... E o quarto do Senhor Nicholas Wilde é o aposento número vinte e três... — Disse a zebra, dobrando o corredor à direita, junto com os paramédicos e o moribundo raposo sendo levado na maca com rodas — Segundo quarto à direita, logo ali.


E os três visitantes ficaram boquiabertos ao vislumbre do quarto... Uma espaçosa suíte com uma belíssima claraboia que permitia uma vista externa para o bosque de pinheirais, preenchendo parte de parede e teto sobre a cama na qual Nick iria repousar. Havia televisão, videogame, uma biblioteca particular, poltrona massageadora, o banheiro com entrada à direita do quarto, entre outros mimos para garantir que aquele raposo passaria trinta dias no paraíso.




— A Cenourinha devia ver isso... — Murmurou fascinado, apreciando seu fabuloso quarto que parecia uma toca escura com o crepúsculo de uma noite que se aproximava... Ambientação perfeita para uma raposa, provavelmente uma escolha de hospedagem personalizada pela equipe da pousada.



— Aí, se eu pagar uns cem mangos pro Savage, será que ele quebra minha perna também? — Ironizou o lobo para sua colega capivara, nitidamente com inveja.



— Tenta a sorte, Lobato... — Interpelou-se o canídeo laranja — Provavelmente, você vai estar fazendo um favor pra ele e não vai ganhar essa regalia.



A capivara riu do canídeo emburrado. Wilde se despediu de ambos após ser colocado em sua cama, tão absurdamente macia que ele sentia estar deitado nas nuvens... Nunca aquela raposa das ruas havia sonhado em experimentar algo assim, mesmo em eventos tais quais adentrava de penetra... Ainda sim, ele estava sob cuidados hospitalares, invadido por equipos, eletrodos e bolsas de soro... Mas cuidados com previsão de terminarem em breve e libertarem a raposa para desfrutar do bom e do melhor.




— ... E, por fim, ao seu lado direito, há um painel com botões para solicitar qualquer serviço que seja necessário, além do controle para os eletrônicos do quarto... — Terminava a zebra com grande simpatia formal — ... Posso ajudar em algo mais, Senhor Wilde?



— Hmm, na verdade, pode sim...!


O raposo ergueu o indicador direito ao alto — Não foi falado sobre internet... Sabe, não que eu seja um viciado em telas, mas eu precisava mandar um ZooZap pra alguém...









E, com os cascos em frente a cintura, a zebra apenas deu um sorriso extremamente desconfortável...













— ... Vocês... têm Internet... não têm...?







... que também causou desconforto e aflição sobre Wilde.











A zebra fez uma rápida reverência, permanecendo curvada sob intenso vexame.


— ... MIL DESCULPAS, SENHOR WILDE!!







Declarou numa súbita humilhação — A tempestade de três dias atrás destruiu nossa torre particular de Internet, como ficamos distantes da cidade, precisamos de um equipamento específico que é importado e demora alguns dias pra chegar...



— Não... tem Internet...? — Balbuciou pasmo o canídeo.



— Por hora, infelizmente não... — Assentiu a zebra, pegando o controle da TV em seguida — Mas temos mais de quinhentos canais em rede interna e video game para seu entretenimento!



— Eu já devo ter assistido quinhentos e um em casa... — Resmungou Wilde — Quanto tempo você acha que demora pra esse aparelho de Internet chegar e ser instalado?




— Ah, uns trinta dias!




A raposa desmaiou.




— SENHOR WILDE! SENHOR WILDE, é brincadeira!!... — A zebra balançou um pano sobre a raposa que jazia com a língua de fora em seu leito — O material já foi solicitado e no máximo em dez dias já teremos Internet reestabelecida!



— Dez dias... ugh...! — Gemente, Nick despertou de volta de seu chilique com uma pata na cabeça — ... Tá, eu acho que aguento dez dias sem Internet...













... Duas horas se passaram depois que a zebra deixou Wilde sozinho em seu quarto.









— ... Eu não aguento mais...!







Concluiu a raposa, de olhar cravado para o teto envidraçado de seu quarto.










— ... Eu preciso... dar um jeito de falar com a Cenourinha... ugh...! — Esqueceu que estava moribundo e tentou se levantar do leito, lembrando-se do painel de botões ao seu lado direito. Wilde apertou um deles e jogou as costas ao colchão novamente, aguardando pelo seu socorro...





... Até ouvir reverberar de batidas na porta.



— Pode entrar!









— ... Com licença... Boa noite...!







E aquilo foi uma visão peculiar para os olhos verdes daquele raposo...



— ... Em que posso ajudar, Senhor Wilde?




Indagou uma raposa de olhos púrpuras com uniforme de enfermeira, transparecendo serenidade e profissionalismo ao entrar no quarto. Seu uniforme branco era fino e impecável, nada ultrapassado como trajes mais antigos, era nítida a sofisticação daquela indumentária, além do prumo da modelo que o trajava... Um espécime de raposa-vermelha assim como Nicholas Wilde, contudo, com extremidades de orelhas, cauda e patas na cor branca ao invés do pêlo negro de Nick.



— Éééé, moça... Desculpe, qual o seu nome? — Questionou um pouco encabulado no que a raposa se aproximou.



— Amber Raposina... Mas pode me chamar de Enfermeira Raposina. — Disse cordialmente com as patas de cima cruzadas em frente à cintura — É um prazer estar responsável pelos seus cuidados! Sou temporária aqui na Pousada, mas estarei por aqui durante a maior parte de sua estadia.



— Prazer, Nick Wilde! Escuta, por acaso tem alguma maneira de eu conseguir contato com o mundo exterior por aqui...? — Indagou por trás de um sorriso amarelo — Eu precisava trocar um lero com alguém...



— Eu achei que raposas eram animais solitários... — Raposina disse enquanto verificava uma prancheta que estava num acrílico ao lado da porta.



Wilde, por sua vez, apenas engoliu em seco... Ainda mais por parecer uma anedota familiar.





— Tô brincando, nós temos uma rede de telefone fixo que ainda funciona... — Continuou a enfermeira — ... Quer que eu traga?



— Telefone...? — Rangeu Nick por meio dum focinho torto...



Ele simplesmente detestava falar ao telefone, a não ser que fosse para atender a ligação de quem valesse muito a pena.





— ... Acho que vou passar por hoje, então... — Terminou desenxabido — ... Desculpa por te incomodar.



— Não foi incômodo... — A enfermeira devolveu a prancheta no acrílico — ... Vi que você tem dose dos anestésicos e do antibiótico pra daqui a uma hora...








— ... O que acha de tomar seu banho nesse meio tempo até lá?







A indagação de Raposina surpreendeu o canídeo, que levantou bem as orelhas.



— Vocês... tem algum aparelho especial pra isso? — Perguntou curioso com um dedo erguido — Quer dizer, eu ainda tô todo quebrado, eu não consigo levantar.



— Sim, aí que eu entro...! — A canídea replicou simpaticamente — Eu sou uma enfermeira, eu te ajudaria com o banho e não precisa ter o que temer... Eu já estou acostumada.


— Quê...?

A ideia de ter um desconhecido lhe tocando daquela forma causou arrepios nos pêlos de Nick. Durante a estadia de três dias na enfermaria do DPZ, antes de ir para a pousada, ele não conseguiu se banhar adequadamente, apenas se higienizando nas regiões mais críticas... E, quando necessitava de ajuda, somente uma certa coelha era 'autorizada' a tocá-lo.



Contudo, Nick era um pouco vaidoso e aquela falta de banho estava começando a incomodar...









— ... Olha... eu acho que passo o banho hoje também...!






... Mas seus paradigmas internos ainda falavam mais alto — Se puder me alcançar um lencinho umedecido, pelo menos...



— Como desejar... — Raposina entregou um pequeno pacote e deixou o quarto sob o olhar atento do raposo — ... Até depois, Senhor Wilde...






Nick fitou a enfermeira até o fechar completo da porta de seu aposento... Ainda um pouco abalado pela ideia de precisar ser banhado como uma criança, o que não lhe agradava... Porém, ao mínimo curioso e satisfeito por presenciar uma companheira de espécie não sendo renegada pela sociedade.





(...) Segundo dia.






— Ok, agora nem eu aguento mais...!






Cuspiu um descontente Nick Wilde ao apertar o botão do painel de serviços para chamar uma enfermeira até seu aposento.




O segundo dia de hospedagem de Wilde na Pousada Nova Lua de Mel foi agradável, marcado por algumas breves jogatinas de video game, principalmente 'Fur Cry' e 'Goat of War', uma farta refeição proteica em seu leito, com os melhores frutos-do-mar que já havia provado, ficando o raposo apenas na vontade de aproveitar os outros luxos que seu estado atual de saúde não permitia, como uma extravagante banheira de hidromassagem que praticamente sussurrava para o canídeo, agoniado de vontade de desfrutá-la.



E o tema ‘banho’ era o que mais agonizava Nick naquele momento… Ele já estava a um tempo sem higienizar-se de modo efetivo e o aporte de proteína daquele dia cobrou seu preço. Seu corpo exalava uma 'fragrância peculiar', oriunda do metabolismo do nitrogênio que escapava como aminas gasosas de cheiro pútrido por seus poros, o que exigia medidas drásticas…





— ... Sim, Senhor Wilde? — Indagou a enfermeira Raposina, vindo ao seu chamado.



— Eu vou aceitar o maldito banho hoje.



Replicou Nick com uma careta e a língua de fora, denunciando que já não estava mais aguentando o próprio cheiro. Raposina assentiu e solicitou que fosse preparado um novo colchão para troca.




Duas enfermeiras, uma tigresa e uma leoparda, trouxeram uma prateleira metálica com rodas, contendo uma bacia com água e materiais para banho. Wilde engoliu em seco enquanto Raposina o ajudava a tirar seu avental… Claramente desconfortável, mas suportável até onde estava indo…




… Até que…


— Ei-ei-ei, EI!






… Quando a enfermeira foi ajudar com a peça de baixo, Nick a interrompeu rapidamente.





— ... Aí não! — Segurou a enfermeira com a pata, extremamente envergonhado fitando-a com olhos arregalados — … Só… Não…!



— Certeza? Eu não consigo lavar com a roupa por cima. — Replicou profissionalmente, como se já estivesse habituada com aquele tipo de reação.




— Pode deixar, eu vou sobreviver... Vamos fazer só o restante hoje... — Wilde terminou com um olhar assustado. Se só de pensar em alguém o alisando, tocando nele, já era algo de lhe incomodar, quem dirá uma 'invasão' de suas privacidades.



— Ok, como quiser, Senhor Wilde… Se sentir qualquer dor, me avise — Lembrou a enfermeira, enquanto ajustava melhor seus travesseiros.



Raposina molhou um pano com água e produtos atóxicos de limpeza e começou a esfregar gentilmente o raposo, que franziu o rosto com os primeiros toques. Durante o banho, a cuidadora conversava de forma leve, perguntando se a temperatura da água estava boa, se Wilde sentia-se confortável ou se havia algum incômodo, principalmente quando o moribundo raposo precisou virar-se de lado para que ela completasse seu trabalho.



Nick sempre respondia que estava tudo bem, mesmo após alguns suspiros de dor de suas costelas. Era claramente só para que aquilo acabasse logo... 'De boa', 'Tudo bem', 'Tá susse', replicava roboticamente, enquanto seu tom de voz desenxabido e o aumento da frequência de ‘bips’ nos monitores conectados ao seus eletrodos eram elementos que claramente denunciavam o contrário... Ele se sentia como um bebê, estressado e frustrado por precisar de ajuda para algo que sempre fez de modo independente… Ele não podia se virar sozinho e aquilo lhe incomodava…








... Ele estava aterrorizado por estar vulnerável.









Ao terminar, Raposina ajudou-o a se secar, trocou os lençois e o colchão com o auxílio de suas colegas, e borrifou uma essência de lavanda com mirtilos no ar. Ao seu ver, por mais que não tenha sido um banho completo, Wilde era mais um paciente que aquela enfermeira raposa deixou renovado.



— Certo, daqui a duas horas vai ter dose de antibiótico… — Raposina comentava com uma colega enquanto analisava a prancheta em suas patas — … A adrenalina desse banho aumentou um pouco a pressão dele, mas acho que vai abaixar o suficiente para omitir o anti-hipertensivo que está como ‘se necessário’.



A raposa guardou a prancheta no acrílico — … Pronto, Senhor Wilde! Foi tranquilo, não foi…? — Sorriu cordialmente para o canídeo, que segurava fortemente suas cobertas com olhos bem abertos, ainda encabulado pela experiência — … Agora, é descansar. Qualquer coisa, é só chamar, que a Raposina vai estar aqui para te ajudar.




A enfermeira saiu do quarto, deixando um Nick Wilde desconcertado para trás…

Que... porra foi essa...? — Pensou o raposo, serpenteando seu olhar para os lados por um semblante agoniado... Ele não era banhado por outra raposa desde quando era apenas um filhotinho, não imaginaria que precisaria disso novamente sendo um homem crescido de mais de trinta anos... E, ainda por cima, quase sendo despido na frente de uma estranha, tomando parte como ultraje à sua dignidade...




... Porém, ao processar melhor o saldo daquela experiência, Nick percebeu que estava finalmente limpo... Farejando ao alto, o raposo sentiu melhor o aroma agradável que pairava seu quarto, trazendo paz higiênica após alguns dias sem um banho decente.


— ... Bom... Acho que valeu a pena... — Sussurrou com a nuca em repouso no novo colchão, deixando o ar de renovação lhe envolver...



... 'nós temos uma rede de telefone fixo que ainda funciona...'





— ... Hmm...!

Wilde fitou o painel de botões ao seu lado novamente.

Notando a recompensa depois de ceder à um de seus paradigmas, Nicholas estava percebendo que não precisava ter tanto medo das coisas...




*DING, DONG*




— ... Sim...? — Amber retornou cordialmente ao recinto, ao ouvir o chamado no alarme do corredor.



— Eu vou querer o telefone.













Assim que a enfermeira trouxe o telefone fixo, Nick discou imediatamente para um número decorado, já gravado em sua cabeça.


— Vamo lá... — Por mais que não fosse sua praia ligar assim para alguém, ele reuniu coragem para tal... E, a cada chamar de telefone, sua ansiedade em receber o 'alô' daquela pessoa aumentava ainda mais...






— Vai, atende...!



Rosnava aflito ao chamar interminável do outro lado da linha... — ... Tá, eu vou tentar de volta.


Nick repetiu seus passos com o aparelho... Contudo, apenas para uma nova rodada de chamadas intermináveis... — Caramba, olha o celular, criatura...!


E o canídeo tornou a refazer o processo... Muito incomodado, pois ele sabia que aquela pessoa certamente estaria em acordada naquele horário. — Será que ela tá tomando banho...?


Após outra tentativa falha, ele decidiu aguardar um tempo para ligar novamente, poderia ser uma indisponibilidade temporária...





... Mas, mesmo assim...



— ... Por que você não atende...?



Foram alguns minutos de tentativas frustradas sem resposta até que o raposo desistisse de vez, lançando-se desanimado ao seu colchão e fitando novamente a noite pelo teto envidraçado...






— ... Caramba... Eu vou ter que tentar de volta amanhã...






— ... Tsc...!






— ... Mas que droga, hein... Judy...!





(...) Terceiro dia.













— Ei, você tem uma pequena visita!





— Sério?! — Atônito, Wilde finalmente saiu de seu transe e conseguiu colocar-se sentado na cama.



Será que...? — Pensava o canídeo com um semblante sorridente e até abanando a cauda, enquanto Raposina olhava para alguém de baixa estatura que iria aparecer diante da entrada do quarto...










... até surgir um pequeno e mal-humorado feneco bege de meia-idade.








— Ah...!



Imediatamente, seu rabo caiu sobre o colchão e Wilde desmanchou o sorriso na hora ao fitar Finnick.




— Nossa, nem na quebrada eu já fui tão mal recebido... — Cuspiu o rabugento raposo trajado de jaqueta de couro sintético preto e óculos escuros do tipo aviador em sua testa, dando a volta pra trás — ... Quer saber, acho que tô vaz-



— NÃO, NÃO, NÃO GRANDALHÃO, DESCULPA...! FOI MAL!



Por sua vez, Wilde gritou com um braço estendido — Vacilo meu... Fica… Por favor…!





Finnick parou seu retorno e voltou para o quarto, com Raposina deixando os dois de seus 'parentes' raposos à sós.



— Eu só voltei porque ver você pedindo desculpa por algo é uma grande novidade pra mim... — Declarou a pequena raposa emburrada — … Curioso pra saber o que mais vai me surpreender por aqui!



Nick sorriu em retorno, mais tranquilo — Mas ainda sou eu, então, você só vai ouvir isso uma vez por década!



— Claro, claro... — Finnick subiu numa banqueta próxima pra ficar na altura da raposa maior — … E admito que tava com saudade do meu parceiro de negócios também... Cacete, tu tá um caco, hein!



— Como você sabia que eu estava aqui? — Indagou um curioso Wilde, afinal, aquilo devia ser apenas de conhecimento dos seus colegas de DPZ.



— A Cenourinha me contou... — Explicou guardando seus óculos na gola da camisa — ... E, como eu vim buscar uma encomenda em Koppenhöffen, aproveitei para dar um pulo...



— O que que é? Tá se envolvendo em coisa errada, grandalhão? — Indagou por uma expressão desafiadora.



— E se eu tiver, vai me prender assim nesse estado, 'Oficial Wilde'?... — Devolveu com sarcasmo — ... Relaxa o pêlo, senhor ‘puliça’... São só mirtilos Koppenhöffen para o novo Patolé de mirtilo.



— Hmm, que orgulho do meu sucessor...!



— É, mas diferente de você, eu não sonego imposto.



Nick engoliu em seco, mas assentiu com seu erro crasso, enquanto o feneco continuou — ... E então, que rolê foi esse? Você tá destruído, nem parece a raposa astuta que evitava ao máximo sofrer qualquer arranhão! Cadê o Nick Wilde que eu conheço??



— Bem... É uma longa história... — Wilde fez um beicinho numa careta besta e aproximou um indicador para a cara de Finnick — 'Votê góta de histolinha, góta éééé'-*NHAC* AIII!!!!



— Devo lembrar que não estamos encenando, né... — Provocou o feneco após uma bela mordida no dedo de Nick, que olhou brevemente as marcas de dentículos na pele preta de suas digitais e depois fitou aborrecido o pequeno canídeo que lhe sorria presunçosamente — ... Mas sou todo ouvidos para sua 'histolinha'...





Wilde bufou, mas prosseguiu a contar toda sua epopeia contra Jack Savage. Finnick ouvia atenciosamente, sendo possível vislumbrar até certo orgulho no olhar do feneco.





— ... E, por fim, depois de uma luta extremamente equilibrada, na qual uma hora Savage me batia e em outra eu apanhava, eu fui aprovado na equipe... — Wilde lhe deu uma breve cotovelada no peito, que quase fez Finnick cair do banco — Quem diria, né, velho... Essa raposa trambiqueira aqui, virando um agente secreto...!



— Hunf... Se tivesse me contado isso a alguns meses atrás, eu juraria que você teria só caído da escada e teria inventado tudo isso... — Disse enquanto descia da cadeira para sentar-se numa pequena almofada azul próxima, que para ele era quase uma cama — ... Mas tem uma coisa que tenho observado em você que me diz que é verdade.



— É, quer observar uma outra coisa aqui??? — Nick fez um gesto obsceno óbvio.



— A coelha.






Finnick ignorou a provocação e lançou esse dado detrás dum semblante convencido, sendo mais eficaz para afetar o canídeo laranja.







— O Nick Wilde que conheço jamais se arriscaria tanto por alguém... Vish, mas nem de perto...! — O feneco dizia orgulhosamente e entusiasmado sob o olhar atento de Wilde — ... Desde aquele encontro na sorveteria, depois de enganá-la pra conseguir o Picolé Jumbo, o tanto que você ficou falando que a Cenourinha era fofa, uma graça e coisa e tal, ah, bicho… Ali eu já sabia que ela tinha te fisgado...!



— Ah, qualé, eu só falei uma vez... — Nick deu de ombros com um semblante mal-humorado — … Talvez duas...



Wilde encontrou o olhar presunçoso de Finnick.



— ... Tá, vai, umas quatro...



— No mínimo, rapaz...! — Finnick aproximou-se novamente — ... Você realmente tá mudado, cara... Você se importa tanto com a Judy quanto era com… com...





O raposo maior arfou brevemente e murchou sua expressão, virando o rosto para o outro lado… Suficiente para o feneco perceber entrar acidentalmente em assunto delicado.



— Ei, amigão... — Encostou um pata em seu ombro — ... Foi mal… Sério, eu me passei com isso…



— Não, tá de boa... — Nick botou uma pata em frente aos olhos e balançou a cabeça, como se estivesse enxugando lágrimas — ... Grandalhão, eu... eu-eu... eu só não sei como prosseguir, sabe...! Eu sou uma raposa e ela é uma coelha, como que... como que...



— Ei!





Wilde encontrou o olhar castanho sereno de Finnick.





— Foda-se.






O palavrão repentino fez Wilde arquear as sobrancelhas... Porém, não foi uma ofensa em mau sentido.





— ... Simplesmente, foda-se, Nick... — Dizia tranquilamente, uma calma extremamente atípica para aquele velho mal-humorado — ... Eu falo isso como companheiro raposa viúvo... Somos estritamente monogâmicos...






Finnick olhou para sua mão, claramente fitando seu anelar vazio — ... Não importa quem seja... Quando uma raposa escolhe alguém, até os seus últimos dias, será esse alguém para sempre...












— ... E você claramente já escolheu a Judy.










Relutante por alguns segundos, Wilde tranquilizou-se e assentiu com Finnick.




— Eu tenho muito orgulho de você, garoto... — Sussurrou a raposa clara — … Por tudo.




A serenidade do feneco emocionou a raposa, que raramente vislumbrava aquela faceta de seu antigo parceiro de negócios... E ali que Nick se deu conta que Finnick foi um dos responsáveis por ajudá-lo a trilhar todo seu percurso até ali... Mais que um parceiro de negócios... Um verdadeiro amigo.



— Olha, eu sei que você não vai deixar, mas... — Wilde enxugou o rosto e deu um sorriso — ... que tal um abraço 'no papai'?




E, para sua surpresa, Finnick apenas abriu os braços, deixando o raposo laranja impressionado.



— Uau, isso é novo pra mim!



— Mas ainda sou eu, então você só vai receber isso uma vez por década...! — Lançou numa simpatia rabugenta — Vem logo, garoto, antes que eu mude de ideia…!





E no que Finnick pulou para a lateral da maca, as raposas trocaram um caloroso abraço, com o feneco quase sumindo na pelagem laranja da raposa maior... Wilde estava plenamente emocionado com aquele ato quase paternal…





(...)




… O abraço escamoso ainda era um pouco estranho ao sensorial daquela raposa, mas seu histórico com aquele sujeito mostrava que não havia ao que temer, talvez fosse apenas seu instinto biológico distantemente alerta nas profundezas de seu âmago por estar envolvido por um réptil. Mesmo assim, alguns resmungos de dor escaparam pelas mandíbulas do canídeo.



— Ai, dessssssculpa, eu te machuquei...???



Perguntou um aflito Gary enquanto desenrolava seu esguio corpo do redor de Nick Wilde.



— Não, minhas, ugh, costelas estão de frescura, só... — O canídeo disse enquanto se posicionava novamente em sua cama, com breves gemidos — ... Mas tá de boa, carinha.



— Massssss nossssssa... — Ainda sim, o réptil lhe observava com certa aflição — ... Sssssse você ssssssaiu relativamente ileso da luta contra o Patalberto que eu já havia achado intenssssssa, nem quero imaginar o quão horrível foi a luta contra esssssse tal Ssssssavage que deixou você assssssim...!



— O Patalberto era só um almofadinha... Eu só de ter saído vivo da luta contra o Savage que é uma grande conquista...! — Wilde deu um olhar de cima à baixo em Gary, reparando em sua vestimenta — Aliás, diferente de mim, cê tá na pompa, hein!



— Ah, obrigado...! — O réptil usou a ponta de sua cauda para ajeitar o chapéu marrom de estilo cauboi que repousava em sua cabeça, dando breves tapas em seu terno marrom que sobrepunha uma camisa branca — Ssssssabe como é, sssssse eu quero viver por Zootopia, eu tenho que usar roupassssss... Além de que...




Gary olhou rapidamente para os lados e aproximou-se de Wilde com parte do corpo bloqueando a lateral da sua cabeça que tinha uma presa em crescimento, dando um olhar desconfiado como se quisesse esconder um segredo.









— ... Eu tenho um encontro hoje!






— AHH, BOA MOLECOTE ATACANTE...! — Wilde deu um soco no 'peito' da cobra, costume que, aparentemente, estava pegando de alguém. Gary ficou ligeiramente em choque com a comemoração — ... É com a Nibbles, não é?



— É...! — Corando em sua face, Gary enrolou partes do seu corpo ao redor de suas próprias bochechas, apertando-as como um bobo apaixonado — ... Ela é tão linda... Ahhh...!!



Ai, o amor é cego… — Wilde quis comentar, mas sabia que era maldade com aquele sujeito tão puro.



— ... Ah, mas hein...!



Rapidamente, Gary voltou pra realidade.


— ... Eu precisava pegar dicassssss com você... Do que mamíferossssss gosssssstam, o que que eu posssssso falar, o que eu devo fazer...! — Ia pontuando gesticulando com a extremidade de seu corpo — ... Quem melhor pra sssssse falar disssssssso do que você que já tem exxxxxxperiência com a Judy!



Por sua vez, Wilde lhe franziu o rosto, levando o réptil a dar um 'facepalm' com a cauda — ... Ai, merda, eu fizzzzzz de novo...!!



— Não, tá tudo bem... — Tranquilizou depois de um suspiro — ... Na verdade, Gary, antes desse garanhão aqui te dar aulas de conquista, eu queria te perguntar uma coisa...



— O que será que é 'garanhão'...? — Gary sussurrou extremamente baixinho olhando para o lado.



— ... O que faz pensar que eu e a Judy somos um casal?



— Bem, eu... Eu-eu-eu-eu... Ssssss...!



Um tanto aflito, o réptil olhou com um semblante travado para o canídeo, dando um pesado suspiro antes de escolher suas palavras — ... Bem... pra começar, dessssssde quando vi vocêssssss pela primeira vez, vocêssssss ssssssempre esssssstavam juntossssss... — Começou com uma ‘mão’ no queixo, pensativo.



— … Na realidade, quando cheguei em Zootopia, vocêssssss já apareciam juntossssss em noticiáriossssss e panfletossssss... E esssssstavam juntossssss no baile do Zootenário, na Feira do Brejo, pularam juntossssss numa linha de tubossssss perigosa, se encontramossssss novamente na pousada antiga...



— Ah, nem me fale... — Wilde franziu o rosto em referência aos tubos e à pousada, momentos críticos de sua parceria com a coelha.



— ... Massssss aí me veio a prova cabal... Ou melhor, prova 'cobral'... — Nick esboçou um sorriso com o trocadilho do réptil — ... A parede climática... O ssssssacrifício que ambos fizeram pelo outro...




Ligeiramente surpreso, Wilde franziu o rosto, sentindo que já sabia onde aquilo iria parar… E Gary aproximou-se como se fosse contar outro segredo.



— ... Eu não ssssssei sssssse devia esssssstar te falando issssssso, massssss... Quando apliquei o antídoto na Judy Hoppssssss, ela ssssssimplessssssmente apenassssss correu ao sssssseu ressssssgate... Não teve plano, não teve pisssssscar de olhossssss... Ela... Ela ssssssimplessssssmente...-

— Precisava me alcançar...





Estarrecido, o raposo balbuciou para completar a narrativa de seu amigo escamoso — ... É o outro lado da história...




— Sssssse eu não me toco e não rasssssstejasssssse atrássssss para puxá-la... — Gary assentiu e prosseguiu, ficando um tanto consternado ao vivenciar aquela situação novamente — ... Eu-eu-eu... eu não ssssssei o que poderia...




A cobra fechou os olhos fortemente e balançou rapidamente a cabeça.




— ... Eu possssssso esssssstar equivocado, massssss ali eu tive plena certeza que um ssssssacrifício daquele tamanho, não sssssseria um feito para ssssssimplessssss colegassssss de trabalho.



O canídeo esboçava um discreto sorriso satisfeito, embora seu semblante estivesse imerso em reflexões...



— ... e dali em diante, eu também obsssssservei o modo como vocêssssss sssssse olhavam… Bem, na verdade…


(...)




— … Eu…





— … já…





— … percebi…





— … naquela…





— … primeira…





— … vez…





— … no…





— … departamento…




— … de…





— … trânsito…





— … Nenhum… amigo…





— … olha… pro outro…





— … daquele… jeito.











Uma pausa maior para que a preguiça de roupas formais desse uma piscada de olho vagarosa ao raposo, que aguardava respeitosamente sua vez de fala.






— Ah, Flecha, Flecha, você nunca dá brecha! — Vencido, Wilde deu um soquinho no braço do seu tranquilo parceiro.





— … De… fato…!





— … Eu…





— … posso… ser…





— … uma… preguiça…





— … mas…





— … não… sou lento… não…!... Haa… ha… ha… ha… ha…!





— Essa foi boa, amigão…! — A raposa riu junto, aproximando-se em seguida — … E, falando nisso, como vão as coisas com a Preguiscila? Soube que noivaram, parabéns meu parça!!




— … Estamos… na mais…




— … boa… paz… e… felicidade… — A calma com que Nick apreciava o ritmo de Flecha era louvável, um claro sinal de respeito por parte do canídeo — … À… propósito…




— … eu… tenho… uma… coisa… para… te… entregar…





À sua velocidade, Flecha foi até sua maleta de escritório e alcançou um pequeno envelope branco com detalhes em relevo, demorando cerca de cinco minutos no processo até entregá-lo à Nick, que ficou estupefato com o conteúdo — Não brinca…!!





— … Será… uma honra…





— … ter você… e a Judy…








— … como padrinhos… amigão…!









Ligeiramente emocionado, Nick virou-se e abraçou seu companheiro vagaroso, aguardando pacientemente a retribuição.






— … Vocês… formam um casal lindo…! — Lançou o raposo ao fitar melhor o convite, que continha uma imagem de Flecha e Preguiscila elegantemente trajados e com um semblante que emanava felicidade, por mais que fosse a expressão tranquila típica de uma preguiça.





— … O… brigado… Nick…





— … E eu… vou te… dizer… uma… coisa…






Flecha aproximou-se gesticulando com uma garra para contar um segredo.





(...)





— Eu nunca pensei que cobras beijavam tão bem…!!






De olhos arregalados, Nick Wilde pareceu um pouco consternado por aquela informação inesperada fornecida pela castora.







— … Assim, no começo parecia que eu tava sendo engolida, mas quando a gente se ajeitou, foi mágico… Aahhhhh, aquela língua bifurcada era tão-


— Detalhes demais, Nibbles…! Detalhes demais… — O constrangido raposo interrompeu a apaixonada roedora botando o indicador tapando sua boca.



— Ah, como se a Judy não sofresse pra beijar essa sua línguona que você usa pra ficar suando!


— NIBBLES!!!


Castanheira fitava um Nick Wilde extremamente envergonhado e corado que lhe encarava de cenho fechado e corpo rígido.






— Você que começou… Ai, ai… — Suspirou a roedora blogueira — … A Judith tava certa, você envergonhado é muito engraçado…


— Sim, claro… Agora as comadres ficam de conluio sobre mim, então…? — O raposo cruzou os braços.


— ‘Isso se chama golpe, querido…’


— Ah, e ainda roubam minhas frases! — Claramente, a alfinetada de Nibbles atingiu o canídeo.


— Que foi, vai me pedir pra falar ‘T M’ ou ‘Marca registrada’ no final?


— Ah, sua marmota…


— ‘Ah, vá, cê sabe que me ama…’


— PÁRA, CARAMBA!!

— HAHAHAHAHAHAHA… Ai, ai, eu amo vocês, cara… — Nibbles riu dando de ombros, tirar Nick Wilde do sério era um dos seus grandes prazeres.

— Mas que droga... Esse rolê dos beijos era pra ser segredo, até isso a Cenourinha te conta?


— Ela é uma mulher apaix-... Er... 'encantada', Nicholas, claro que ela vai contar.






O claro corte do termo 'apaixonada' deixou Wilde pensativo, de orelhas erguidas.





— Nibbles...




Em seguida, o raposo as abaixou, demonstrando incerteza.





— ... Você acha que... a gente...






— ... daria certo...?






— Nick, por favor... — A roedora fechou a cara para seu amigo — ... Eu sou uma castora saindo com uma COBRA! Que moral você acha que eu tenho pra dizer que uma raposa e um coelho não dariam certo??



Era um excelente ponto… Wilde retribuiu um singelo sorriso e um breve aceno de cabeça.



— … Aliás, falando em Judy, o que ela achou daqui? — Questionou a roedora, desbravando os cacarecos do quarto — … Ela tá tão atarefada que nem tenho trocado ideia com ela…





— Ela... ainda não veio...



— MENTIRA...!!! — Chocada, a castora deu uma enorme puxada de ar e virou-se — ... Pois a Nibbles Castanheira aqui vai dar um belo puxão de orelha naquela coelha pra ela largar o vício em trabalho e v-


— Não, Nibbles...!






Wilde lhe interrompeu, um tanto desanimado — ... Não precisa... Não quero que ela pense que eu sou só um raposo carente...




— Nick, posso te contar uma novidade...?



O canídeo ergueu as sobrancelhas e orelhas.




— ... Você É um raposo carente.







Confrontado, Wilde fechou a cara e até esboçou uma resposta...




... Que não veio... Ele calou-se... Consentiu.








— ... Mas enfim, a resenha tá bacana, mas eu tenho que puxar o carro... — Nibbles falou olhando pra um relógio, dando dois tapinhas numa das patas negras do raposo — ... Desculpa qualquer coisa, amigão.


— Obrigado por vir... — Devolveu o canídeo com um semblante tranquilo... Tirações à parte, ter Nibbles ao seu lado representava uma valorosa amizade.


— Eu acho que ainda dá tempo de pegar os shoppings abertos... — A roedora coletou sua grande mala de alça numa poltrona próxima, fazendo esforço para posicioná-la em seu ombro — ... Abriu uma rede de lojas de coisas de répteis, quero ver se acho uma meia comprida... Cê sabe, né?



Terminou dando um piscar de olhos para o raposo, que assentiu com a cabeça. Ao que a roedora acenou e saiu de vista, Amber Raposina surgiu na porta do recinto.



— Nossa, mesmo sendo nova por aqui, poucas vezes eu vi um quarto tão badalado assim...! — Declarou caminhando sob o olhar receptivo de Wilde — ... Ainda mais, sendo de uma raposa.


— É, foram alguns dias bem agitados para este Vulpes vulpes aqui... — Nick já demonstrava clara confiança em sua enfermeira — ... Hora do banho, então?



— Sim, senhorito... E, depois, você tem exame de raio-X pra ver como estão essas costelas.





E, de fato, cada banho se tornava mais tranquilo, sendo que a recuperação da saúde de Wilde lhe devolvia pouco a pouco sua performance para ser independente... Raposina ajudava mais nas pernas do agente canídeo, que ainda não conseguia se dobrar plenamente para alcançá-las, além de suas costas, para evitar forçar suas costelas trincadas. O restante de seu corpo esguio, Wilde já dava conta.




— Vai querer o telefone hoje, Nick? — Indagou a enfermeira.



— Imagine se não… — Replicou Wilde — Eu ando preocupado com a Hopps, mas acho que nada ruim deve ter ocorrido… Afinal, eu já estaria sabendo, notícia ruim vem à cavalo…


— Certamente, está tudo bem! — Amber fez adotou a vertente mais otimista.


— Ah, foi mal… Pessimismo meu… Você percebeu o quanto eu me importo com a J-... Com a Hopps, né…?


— Imagine se não... — Raposina deu um riso simpático, que ainda sim corou o agente raposo.


— Quer dizer, é-é que eu-eu nunca tive uma amizade como a dela... — Balbuciava evitando contato visual — E, assim... De raposa pra raposa, eu-eu-eu...









Após relutar, Nick finalmente encontrou o semblante de Amber.








— ... queria saber se você acha que uma raposa e um coelho podem ir em frente...







Por uns segundos, Amber Raposina fitou Wilde com um sereno semblante, parecendo encantada por aquele questionamento tão puro de um sujeito acostumado a ter um estigma ardiloso.









— Nick...







A enfermeira ajeitou sua postura e colocou as mãos cruzadas em frente à cintura, mas foi interrompida por uma justificativa do acamado raposo — … Eu acho q-



— É que assim, nós somos espécies diferentes, obviamente... — Wilde voltou a falar olhando para várias direções — ... E eu raramente tenho a oportunidade de ter outra raposa pra conversar sobre, eu fico assustado de estar criando cenários fantasiosos com a Hopps e de acabar colocando tudo a perder com um passo em falso… Desculpa, eu te interrompi, né?



Amber sorriu rapidamente para responder o rosto envergonhado de Nick — ... vocês podem até ser diferentes, de fato...













Arqueando o corpo, Raposina aproximou seu rosto para próximo de Nick









— ... Mas o diferente é fascinante... Não concorda?







O contraste de equilíbrio mental entre as raposas soava praticamente poético. Nick Wilde recebeu o recado em bom tom, assentindo com tranquilidade, e voltando a se dispôr para que Raposina terminasse seu trabalho de ‘petshop’... No meio do cuidado veterinário, algumas colegas de Amber passaram no quarto, comentando brevemente sobre um caso de dois guepardos que se tornaram selvagens na Praça Saara na tarde daquele dia, incidente atribulado à remanescentes da gangue da EX-Prefeita Bellwether. Wilde foi sabatinado sobre como funcionava o esquema da gangue de ovelhas, por ser seu primeiro grande caso, ainda como ‘detetive estagiário’.








— Prontinho, novo em folha... — Após o banho com direito à uma resenha jornalística, Raposina borrifou a cheirosa fragrância num revigorado Nick Wilde de pelagem laranja brilhando e reluzindo, que recebeu contentamente o mimo, com a enfermeira logo após indo para a saída do quarto — Descanse um pouco que viremos te buscar daqui a pouco para a radiografia.





— Ei, Amber...!







A enfermeira parou segurando uma pata no batente da porta e voltou o olhar para o quarto.







— ... Muito obrigado.









'... Por cuidar de mim', queria completar o raposo, que ainda trabalhava como ter plenitude para expressar seus sentimentos... Ainda sim, aquilo foi suficiente para arrancar uma expressão alegre da enfermeira raposa, que assentiu com um sorriso sereno.






(...) Sétimo dia.






— Uai, sô, que estradinha mais capenga essa... Tem tanto buraco que parece que eu tô na lua!







Uma van de pintura rosa estabelecia seu contraste em meio à uma estrada de terra coberta por copas de enormes árvores, traçando seu caminho aos solavancos — Tá tudo bem aí, Judy??




— Vamo lá, toca o barco, Gideon!







Declarou a coelha Judy Hopps, segurando uma alça na porta do passageiro da van de serviço da raposa Gideon Grey, um confeiteiro de pata cheia... Ambos num caminho já a poucos minutos da Pousada Nova Lua de Mel.



— Tá, eu só vou darr uma segurada no ritmo porr causa dos equipamentos e dos produtos... — Gideon reduziu a velocidade para limitar o balanço — Se a minha encomenda cai lá atrás, essa muriçoca vai virar um furrdúncio danado!




— 'Furdúncio'... Hahaha... ! —Hopps riu brevemente com a frase da raposa, termos diferentes por trás de um sotaque claramente caipira.



— Que foi? A coelha da cidade desacostumou com a prosa do campo?? — Grey indagou de semblante presunçoso, desviando dos buracos maiores na estrada.



— A vida em Zootopia é tão diferente... — A coelha respondeu vislumbrando a paisagem, fitando os grandes paredões de pedra à direita, notando até ruínas de uma casa familiar à ela pendendo na beira de um precipício ao longe — ... Eu tive que ser a coelha desgarrada porque eu tinha um sonho... Mas, admito que, nada supera a cordialidade do campo, Nick...



— Hm...? — Gideon Grey franziu o rosto.



— GIDEON! QUERO DIZER, GIDEON!! GAHHH!! — A desconcertada coelha soltou seu apoio e, no meio de seu engano, foi arremessada para frente do banco ao que o veículo chacoalhou devido um grande buraco.



— Ei, cê tá legal??


O motorista estendeu um braço pra ajudar a erguer uma zonza Hopps, que assentiu voltando ao seu banco — ... Tô sim... Desculpa.


— Uai, desculpa por quê?


— Que deselegância a minha errar seu nome, Gideon...


— Ah, acontece... — A grande raposa deu de ombros — Você deve estar com saudade do seu parrceiro.



Hopps apenas assentiu com um sorriso... Mas era uma profunda verdade. Na realidade, a coelha guardava um certo arrependimento de ter focado tanto no trabalho nos últimos dias, abandonando seu valoroso amigo à mercê do lento ritmo de recuperação, embora ela também sentisse estranhamento pela ausência de tentativas de contato do raposo.







— ... Ocê é realmente uma coelha especial, Judy...







— Hm?



A policial lhe deu um olhar curioso, segurando-se após novo solavanco.



— ... Nunca vi algum outro coelho serr tão amigo das raposas... — Prosseguiu o companheiro, já tendo a pousada em vista adiante — ... Na verrdade, o seu exemplo fez com que as raposas e coelhos de Bunnyborrow ficassem mais unidos como jamais deve terr acontecido...




Hopps pareceu encantada com aquela informação, ao passo que Gideon parou a van ao chegar na pousada e lhe deu um olhar sereno.









— ... Que orrgulho dessa primeira policial coelha.







Lágrimas se formaram no singelo rosto de Judy, que tentou segurar o choro, dando um repentino abraço no seu conhecido de infância, agora, amigo.



— Obrigada, Gideon…! — Agradeceu recebendo uns tapinhas do raposo.



— Bem, vamo lá então...! — Gideon desceu da van, seguido por Hopps, que aproveitou a deixa para para agradecer pela carona.



— Não foi nada, Judy... Como eu poderia recusarr se já iria virr para Koppenhöffen...? — Dizia enquanto pegava uma torta quente cheirando à mirtilo num forno do baú do veículo — ... E sua ideia de trazerr a torta aquecida foi muito boa, o Nick vai adorarr!



— Vamos lá comigo pra você conhecê-lo...! — A roedora deu um soquinho no raposo que fechava a caçamba da van — Vai fazer bem pro Nick ver outra raposa!



— Será? — Gideon pareceu meio indeciso, com a dupla subindo a rampa de acesso à pousada — ... Raposas costumam ser solitárias...



— Vai por mim... ESSA, definitivamente, não é.








Judy lhe deu um piscar de olho e Gideon se rendeu, concordando em conhecer um companheiro raposo. Ambos ficaram deslumbrados com a grandeza e sofisticação da Nova Lua de Mel ao adentrarem na mesma, porém, Hopps precisava priorizar sua 'missão principal'.








— ... Prontinho, Senhorita Hopps...! — Lhe disse a panda na recepção, após cadastros burocráticos — Quarto vinte e três, pode virar a direita, seguir até o final do corredor e virar à direita novamente, é o terceiro quarto à esquerda.



— Obrigada!


— Judy, pode ir na frente...! — Gideon parecia um pouco atrapalhado com as formalidades, procurando documentos em frente à uma onça — ... Eu consigo me encontrarr e levo a torrta...



E a raposa confeiteira se aproximou para um cochicho.







— ... Um tempinho a sós cai bem pra vocês, não, sô?







A coelha corou e deu um sorriso amarelo, mas não tinha o que negar. Animadamente, Hopps foi a passos ligeiros para a direção instruída.






— Eu espero que esse cachorro laranja tenha uma ótima explicação pra não responder minhas mensagens… — Murmurou a si mesma no caminho, contudo, em ‘falso descontentamento’, ela estava empolgada demais em rever seu parceiro — ... Vire a direita e é o terceiro quarto... — Balbuciou já visualizando seu destino…







— ... Hmm, tem...






— … Tem mais alguém...?


















— ... Nossa, Nick, hoje você foi muito bem...!






— Eu sou uma máquina, né! Ah, desculpe se eu te molhei, justo sua roupa pessoal!


— Relaxa, é raro mas acontece muito!


— Eu te falei, eu tenho cócegas atrás das orelhas...! Ali é um lugar que você tem que tomar cuidado pra mexer...


— Você é um garoto danado, isso sim! E não me venha com 'hehehe' de raposa, hehehe!


— Hehehe!


— ... Ai, ai... Então, até amanhã para a próxima, Nick!


— Até amanhã, Amber!













Petrificada, Judy permanecia atônita atrás de uma coluna próxima, ouvindo todo um estranho diálogo vindo do quarto 23. Então, com o ranger de portas, ela vislumbrou uma raposa elegantemente trajada deixando o quarto onde deveria estar Nicholas Wilde. Seu focinho tremia enquanto fitava a canídea de pêlo laranja afastar-se, dando seus passos rápidos para chegar aos aposentos de Nick... E vislumbrar este sentado numa cama, abotoando uma camisa branca de hospital.





O raposo deu uma olhada ligeira de canto de olho e logo percebeu quem estava ali — ... J-JUDY!!!!




A felicidade de Nick Wilde era tão genuína que até sua cauda saiu do controle, balançando-a como um cachorro bobão. Porém, quando o acamado raposo notou que outro de sua espécie havia se aproximado, ele controlou-se e ligou o modo formal — ... D-digo, Hopps, que agradável receber sua visita!



Gideon Grey apareceu sorridente num primeiro instante, porém, ele esperava que sua amiga adentrasse primeiro ao recinto, um claro gesto de cavalheirismo...







... Contudo, Hopps parecia uma estátua.





— Cenourinha, pode entrar! 'Mi casa és su casa'! — Sem soros conectados ao corpo, Wilde parecia tentar levantar-se da cama, porém, a falta de muletas próximas não permitia que ele conseguisse chegar até Judy, que o fitava com um olhar desconfortável — ... E eu tô sentindo um cheirinho tão bom de torta...

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E Nick notou que sua parceira estava com o outro de sua espécie — Ah, você tem uma raposa de estepe…! — Fez um comentário ácido, que causou um tremelique no rosto de Judy — … Espera, você é o... Gideon Grey...?




A raposa maior apenas lhe deu um sorriso amarelo, em seguida dando uma leve cotovelada no corpo de Judy, que permaneceu imóvel.




— ‘Raposa de estepe’? Como… como se atreve?




— ... Ce... nourinha...?







Então, finalmente a ficha de Nick Wilde começou a cair...





— J-Judy, e-eu estava brincando, e-eu-





— Agora eu entendi porque você não respondia minhas mensagens…



— O-o quê…?






— ... Vejo que... você está sendo bem cuidado.







— ... J-... Judy...??









... Algo não estava bem.










— Acho que foi um erro vir aqui... — Hopps murmurou de rosto baixo, palavras ardidas e sofridas — ... Você não precisa de uma coelha te atormentando enquanto você tá no 'bem-bom'...


— Cenourinha, não é o que você tá pensando…! E você também não estava atendendo minhas ligações!


— Ah, claro que não… E eu não recebi nenhuma ligação sua!


— Judy, por fav-


— Eu deveria ter ficado no trabalho…








Wilde estava sem palavras... Boquiaberto, ele fitava a expressão insatisfeita de sua parceira… Uma temida expressão que ele já conhecia, de episódios passados ali naquela região, inclusive.



— … Vamos, Gideon.




— Não...!



Nick sussurrou estarrecido quando sua parceira lhe virou as costas e saiu de seu campo de visão pela direita.




— Mas, eu deixo a torrta?


— VAMOS, GIDEON!


— CENOURINHA, ESPERA...!!



O confeiteiro também deixou o raposo policial para trás, enquanto este fez um grande esforço para se levantar, esboçando passos desajeitados com sua única perna boa — HOPPS! FOI UM MAL ENTENDIDO, ESPERA!! JUDY, AI-






Debilitado, Wilde foi ao chão, uma queda que com certeza lhe machucou...





— JUDYYYYYYYYYY!!!!!!!!









... Porém, não lhe machucou mais que o abandono.






— ... O que está aconte-... Ai, minha nossa, Nick...!!



Amber Raposina, que passava novamente por ali em direção à saída, desesperou-se ao ver seu paciente esparramado ao chão — ... O que aconteceu?? Vem cá, deixa eu te ajud-


— NÃO!!!







O urro frustrado de Wilde lhe congelou, junto com um olhar repleto de mágoa.






— ... Você não me ajuda em nada!







— Nick...?



Raposina ficou sem entender, enquando Wilde se arrastava sob muito esforço para voltar até sua cama — ... Me deixe sozinho... Anda!






A carinhosa enfermeira não compreendeu, mas atendeu cabisbaixa à ordem, secretamente solicitando que uma colega equidna fosse atender o ferido raposo.






— Merda...! MERDA!!



Assim que Wilde deitou-se novamente, sentindo suas costelas gritarem, ele esmurrou a parede ao seu lado, furioso...






... até as primeiras lágrimas brotarem em seus olhos.










— … Isso não pode estar acontecendo…!... Iii…!






— … Iii, iii…!!





Ele ganiu em tristeza, o ruído canino mais triste possível, soluçando com as patas cobrindo o rosto… Evento raríssimo para a vida daquela raposa, exacerbando uma agonia profunda.




Wilde não tinha muito o que fazer, invalidado daquela forma… Após alguns minutos em seu luto sentimental, restou à Nick apenas escrever o mais puro possível pedido de desculpas para sua parceira, explicando a situação por palavras profundas que destoavam totalmente do clima irreverente que ele costumava ter com a coelha e torcer para que a Internet da pousada voltasse para entregar a mensagem ao destino antes do pior…







(...) Oitava noite.








*CLAC*






— Hã, o que…?













— … J-... Ce-Cenourinha…??!
















Desorientado, o raposo despertou no seu aposento em plena madrugada, acordado por um estalar seco de algo envolvendo seu pescoço — … J-Judy, você… O que… o que é isso??





Por sua vez, a coelha permaneceu observando o aflito predador de modo taciturno, envolta na escuridão daquele recinto sombrio, dotada de um semblante igualmente lúgubre.




— Cenourinha, o que é isso…?? — Em temor constante, Nick Wilde tracionava o objeto rígido de plástico que envolvia firmemente seu pescoço, contendo um caixa semelhante à uma tornozeleira — … Cenourinha, fala alguma coisa!! JUDY!!!







— É necessário para predadores como vocês.






Disse uma voz masculina ao fundo.









— O quê…?




Ao que Wilde balbuciou, a calada coelha moveu-se lentamente para a direita, revelando a silhueta de Amber Raposina, juntamente com outra pequena imagem sombria que não era iluminada pelo luar que atravessava o teto de vidro. A enfermeira, munida de semblante sofrido, usava um mesmo colar igual ao que havia sido posto em Nick.





— … Os casos de Síndrome de Selvageria Idiopática entre predadores estão aumentando, Agente Wilde… Dizem que é a gangue de Bellwether, mas isso é baboseira da mídia... Controle de massas de manobra.

—Quem é vo-

— Já não é mais seguro para as presas que vocês continuem em risco constante de surto… — Interrompeu a silhueta menor, parada em seu microambiente obscuro como uma entidade de orelhas grandes em seu território sombrio — … Não é mais seguro para a Agente Hopps.



— Mas… Mas-mas o quê…? — Subitamente, Nick se viu imobilizado em sua cama, imobilizado por correntes que envolviam braços e pernas — … Judy, O QUE ESTÁ ACONTECENDO???





— Eu sinto muito, Nick…





Finalmente, quando a coelha falou, sua voz pesada deixou o raposo estarrecido… Ficando ainda mais apavorado quando ela pegou um pequeno controle remoto em seu bolso e olhou na direção de Amber.





— Vocês predadores não podem mais ficar soltos por aí… — A silhueta masculina começou a caminhar para frente, lentamente o luar iluminando o sujeito…







— … Com o risco de acontecer com outros o que você fez comigo!









… Até revelar um desfigurado Jack Savage.




— Você…!!!






O super agente coelho apresentou-se de terno e gravata, saindo lentamente da escuridão… Sua vestimenta e voz elegantes, destoavam completamente do aspecto grotesco da metade esquerda de seu corpo desfigurada em carne viva, lhe faltando o olho esquerdo ausente na cavidade ocular e parte de sua mandíbula à mostra por debaixo da pele destruída.



De fato, Nicholas havia queimado parte do corpo do roedor durante seu combate, contudo, aquele nível de ferimento que estava diante de si era quase incompatível com a vida… Era monstruoso.



— E-e-e-eu-eu-eu não fiz isso…!! Judy, você viu ele no hospital, eu não fiz isso…!! — Wilde estava desesperado sob o olhar sisudo de Savage, Hopps e Raposina — EU NÃO FIZ ISSO!!




— Você fez… Ficou selvagem, Agente Wilde… — A fala saindo do rosto desfigurado de Jack arrepiou toda a pelagem do raposo, que parecia estar vendo uma assombração — … Por causa disso e de todo o terror que está acontecendo em Zootopia…






Judy Hopps apontou o controle para Amber Raposina, enquanto Savage se aproximava da coelha.










— … Vocês deverão ser eliminados.





— NÃO!!!!



Wilde debateu-se violentamente na cama, sem importar-se se o esforço lhe prejudicaria a recuperação dos ferimentos — JUDY, PÁRA!!!! NÃO FOI CULPA DELA, PÁRA!!!!! JUDY!!!!






— Apenas… faça.



Induziu a lebre deformada, enquanto Raposina permanecia apática em sua posição, como se já tivesse aceitado seu destino… Porém, Hopps, tremendo, relutou em apertar o botão em sua pata.





— … Eu sabia…





Desprovido de qualquer piedade, Savage tomou o controle e apertou o botão, causando um violento choque elétrico em Amber, que caiu imóvel ao chão, inanimada.




— NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!!!!!!!!!!!



Com lágrimas nos olhos, Nick furiosamente se debatia, lutando inutilmente contra suas amarras — … Não… não…!!





— … Você se compadeceu demais por ela… Não, Nick?










O chamado seco da coelha fez o arfante Wilde congelar, vendo o mesmo controle diante de seu focinho, novamente nas mãos de Judy Hopps.







— Judy…! Por favor…! — Nick lacrimejava ao fitar a expressão sem alma de sua outrora ‘alma’ — … Você não é assim…








— Me desculpe, Nick…






A coelha fechou fortemente os olhos…







— … Não, Judy…!




… E Wilde balançou-se novamente.




— … JUDY, PÁRA!! POR FAVOR!! JUDY!!!



























— JUDY!!!!!!!!!!!!





Profundamente alterado, Nick Wilde despertou aterrorizado de um horripilante pesadelo, voltando para a realidade em seu leito de hospedagem durante uma manhã em que os raios de sol invadiam seu aposento através da claraboia do quarto.



Não foi a primeira vez que o predador havia tido aquele tipo de sonho... Entretanto, certamente esta havia sido a pior delas.




— … Não… Não…!! Puf- ... Judy...!...



Ofegava pesadamente o raposo, ainda num estado de transição. Seu olhar apavorado serpententeava sem direção, ele suava intensamente, mas não como um cachorro bobo e sim como uma pobre alma atormentada por não poder escapar da tortura de sua existência, nem mesmo em seu refúgio mais seguro que deveria ser sua mente. Cada arfada de ar parecia inútil, a sensação de sufocamento causada pelo pavor era brutalmente opressora... Era como se a morte ainda estivesse naquele recinto.






—... Senhor Wilde...! Senhor Wilde, tá tudo bem...!




Um resíduo de voz era perceptível, mas não notado. Wilde segurava a coberta em sua frente com tanta força que suas próprias garras estavam lhe machucando, demorando para perceber que outra pata lhe tocava ao seu lado...






— ... NICK!!



— ... GAH...!!





Quando finalmente percebeu a pata de Amber Raposina delicadamente lhe confortando, Nick soltou um breve grito em espanto e afastou-se, deixando a enfermeira inicialmente sem reação. E, ao que Amber fitou o semblante profundamente repleto de pânico de Wilde, a vista lhe cortou o coração.



Nick estava com as pupilas puntiformes, lhe encarando com profundo esforço para respirar... E, por mais que ele repelisse a raposa enfermeira, a expressão de Wilde claramente implorava por 'SOCORRO', mas apenas arfadas de ar suprimiam seu pedido... Era como não ter boca e precisar gritar.




— Nick, tá tudo bem agora... — Compadecida, Raposina tentou outra gentil investida — ... foi apenas um pesadelo, você está seg-



Novamente repelida por Nick, que afastou-se ainda mais, dessa vez olhando Amber com o rosto levemente fechado.






— Eu... entendi...




Melancolicamente, Raposina afastou-se e se levantou.




— ... Eu... vou chamar outra pessoa pra te ajudar...




A enfermeira virou-se e dirigiu-se para a saída do quarto...










— AMBER, ESPERA!!









E a raposa ergueu suas orelhas triangulares ao agoniado chamado de seu paciente.







— ... Fica... Por favor...!





Com certa relutância, Raposina tornou o olhar à Wilde, que ainda estava com indícios de estar emocionalmente alterado, contudo, já recobrando a racionalidade.







— ... Não foi sua culpa...!




Murmurou o raposo, com a outra de sua espécie retornando próximo à ele — ... Não foi sua culpa... — Repetia, tentando colocar ordem entre sua respiração e seus pensamentos — … Não... é justo com você...!




— Foi um 'timming' ruim... não foi?





Wilde surpreendeu-se ao captar a mensagem subliminar em entrelinhas, com Raposina continuando sob seu olhar incrédulo — ... Ela estava aqui ontem, não é? Eu bem que senti um aroma de noz-moscada com laranja...



— 'Noz-moscada com laranja'...? — Nick pareceu um tanto incrédulo com aquela coincidência, este cheiro era compatível com o que outro coelho sentiria, como foi explorado anteriormente pela lebre Jack Savage se referindo à Judy — ... E-espera, como é que você sent-


— Ah, eu aprendi isso na faculdade! — Raposina claramente desconversou, o que foi percebido por Wilde que era mestre em leitura pessoal, contudo, ele deixou estar — ... Para nós raposas, os coelhos têm um cheiro trufado com notas metálicas, não é...?



— Sim... — '... E é um cheiro tão bom!', queria completar o raposo, apenas restringindo-se a concordar cabisbaixo.



— Senhor Wilde...





Em nova tentativa, Raposina encostou uma pata no ombro do arisco canídeo que, dessa vez, não fugiu do contato — ... Eu me sinto péssima por ter lhe causado mal dessa forma, mesmo que não-intencionalmente...



— Não fale assim… — Já mais tranquilo, Wilde recobrou-se com decência, ainda cabisbaixo — … Não foi sua culpa… Foi só uma coincidência infeliz…




Os olhares dos predadores se encontraram e Amber corrigiu a postura de sua coluna, voltando-se para a saída do quarto — Bom... De qualquer modo, vou designar seu cuidado para outra enfermeira, para evitar mais problemas assim...





— Não...!



A rápida negativa de Wilde lhe surpreendeu — ... Não faça isso...!




O olhar esmeralda do raposo estava finalmente sereno.





— ... Podem até me trocar a enfermeira... Mas não podem me trocar uma amiga.







Um semblante de verdadeira satisfação preencheu o rosto de Amber, aquele reconhecimento era o combustível que alimentava a paixão pelo seu ofício.



A enfermeira assentiu com a cabeça, porém, ela ainda estava em expediente — Vou pedir ao plantão um calmante, você ainda está com os batimentos e pressão alterados.




— Um copo d'água, apenas... — Nick não era o cara mais propenso a tomar remédios, dizendo de indicador erguido — … Obrigado.



— Nem mesmo um comprimido sublingual de nitroglicerina...? — Barganhou a outra raposa, com astúcia no olhar — ... Tem gosto de mirtilo.



— Isso é remédio?? Você vai me explodir de vez…! — Nick mostrou-se pensativo com uma pata sob o focinho — … E eu já fiz muita arte com nitroglicerina ultimamente...



— Sua pressão não vai baixar sozinha... — Replicou Amber com as patas na cintura, já conversando no ritmo que estava acostumada com seu paciente — Eu tô vendo daqui a sua aorta pulsar por baixo da pele.



— Fica tranquila, eu consigo voluntariamente abaixar e aumentar a minha pressão a meu bel prazer!



— E por que você iria querer aumentar sua pressão voluntariamente?



— Pra poder abaixar depois.






A piada arrancou uma risada genuína da enfermeira, com Wilde rindo logo em seguida.



— Hahahahaha…! Ai, ai... Alguém aqui assistiu 'The Zooffice' pelo visto... — Amber vislumbrou os monitores de Nick após rir — ... Não sei se o 'Senhor Dwilde' está abaixando voluntariamente a pressão, mas pelo visto está dando certo...



— O humor é o melhor remédio... — Disse Nick após rir do trocadilho de sua enfermeira, seguido por um momento de vislumbre entre a dupla.









— Você é um sujeito bom, Nick... Grata por ser sua enfermeira...







— ... E pela Judy ter alguém como você.










Ouvir o nome de sua parceira baqueou levemente o raposo, contudo, esse tornou a sorrir e assentiu com a outra raposa.




— Ah, acho que você vai precisar abaixar sua pressão novamente...






Raposina lançou a meio caminho de sair do quarto, dando um último olhar por cima do ombro.




— ... Sugiro dar uma olhada no seu celular.







Estarrecido, Wilde imediatamente alcançou o aparelho numa gaveta próxima — Será, será...? — Murmurava enquanto revirava a tralha que havia deixado ali, trazendo seus costumes de casa para a pousada, incluindo o óculos de leitão que havia feito usucapião, achando o telefone embaixo de alguns gibis.



Ao desbloqueá-lo com um padrão em forma de X, notificações inundaram sua tela principal, era quase como uma engrenagem que rolava sem parar... Ele estava novamente conectado ao mundo.





E, por mundo, ele precisa ir atrás do seu.





— Cenourinha, Cenourinha, Cenourinha...! — Balbuciava aflito enquanto tentava chegar até a conversa com sua parceira, travando uma breve luta contra as notificações de atualizações atrasadas de alguns dias.






— ... Não...!



Ao abrir a aba da coelha no Whatszoop, seu mundo caiu.







O contato de Judy estava sem foto, apenas com um ícone cinza, bloqueado para envio de mensagens. Além disso, haviam várias mensagens apagadas da coelha, conteúdo misterioso e indecifrável. As mensagens que continham os pedidos de desculpas de Wilde acabaram ficando no limbo.




— Ah, Cenourinha...!



Nick jogou-se de costas no colchão, esticando os braços de modo frustrado... Talvez, o raposo já esperasse algo assim, contudo, era sofrido passar pela experiência de ser bloqueado pela pessoa que você mais admira.






— ... Espera aí...







‘... Pois a Nibbles Castanheira aqui vai dar um belo puxão de orelha naquela coelha!’...




— ... É ISSO!







O Nick Wilde de algumas semanas jamais imaginou que iria voluntariamente atrás da ajuda daquele castor.



























— ... AHHH!!!!!!






Próximo da meia-noite do mesmo dia, Wilde despertou de outro pesadelo em seu aposento.




— Nem tentando dormir cedo eu consigo dormir bem... — Reclamou recobrando a consciência e coçando o pescoço, jogando-se novamente contra o colchão e vislumbrando o teto estrelado.



A vista era belíssima, contudo, ele não conseguia aproveitar... Faltava algo… Faltava alguém.







— Droga...





Nick fechou a cara, percebendo que perdeu o sono. E, se conhecendo bem, sabia que quando isso acontecesse, ele ficaria num grande marasmo.



Por um breve instante, ele teve o impulso de pegar o celular para mandar uma mensagem para sua parceira Judy, porém, intenção que logo caiu por terra... Foi quando ele se emburreceu de vez e Nick Wilde decidiu tentar algo diferente:



Ele tirou um equipo conectado ao acesso em seu braço e levantou-se de sua cama.



Naquele momento, suas costelas já estavam boas e as sessões de fisioterapia nos dias anteiores já permitiam que ele fizesse curtas caminhadas com a ajuda de uma muleta para poupar seu pé direito que ainda se recuperava. O fato é que, naquele instante, ele precisava espairecer.



A curtos passos, Nick ia cambaleando pelos corredores da pousada, encontrando um ou outro transeunte abastado ou funcionário do estabelecimento. Normalmente, a ardilosa raposa tentaria fazer média com todos pelo caminho, contudo, naquele momento, Nick apenas restringia-se a sua marcha melancólica, não valia a pena mais esforço.



Ao chegar num elevador que levava ao gazebo citado anteriormente pela recepcionista, o ascensor em subida parou no seu andar com dois linces e um guaxinim em seu interior. A vista lhe deu certo arrepio, principalmente porque os altos felinos também olharam a raposa moribunda com estranhamento, mas Wilde deixou estar e adentrou ao elevador.



Ao que as portas se fecharam, um dos linces apertou o botão de parada no próximo andar.



— Ei, a gente não ia até o gazebo? — Indagou o outro felino.



— Não vamos mais... Eu deixei algo no apartamento — Replicou o outro, em tom cínico. Wilde sabia perfeitamente o que estava havendo, mas ele não queria desdobrar esforços para algo tão baixo.



Os linces desceram no próximo andar, um deles sendo arrastado pelo outro, deixando raposa e guaxinim no elevador, que prosseguiu até o último andar.



— Parece... que eles tão guardando algum tipo de 'mágoa', pelo visto, hehe!



Desenxabido, o guaxinim com roupa de serviço tentou quebrar o gelo, claramente reconhecendo o famoso primeiro policial raposa de Zootopia.



— Problema deles.



Wilde replicou com uma secura intensa, deixando o colega de elevador cabisbaixo.



— ... Foi mal... — O raposo notou o vacilo — ... Eu... só não tô muito no clima...



O guaxinim assentiu e seguiram em silêncio até o andar do gazebo.






— ... Parabéns pelo bom trabalho.



O trabalhador fez um último contato, erguendo um punho fechado em direção ao raposo, que assentiu com um sorriso e retribuiu o gesto, com ambos seguindo caminhos diferentes após saírem do ascensor... Aquele tipo de reconhecimento até calhou para aliviar a situação constrangedora que o canídeo passara.



Ao vislumbrar o terraço, apenas três animais estavam por ali, um trio de antílopes que claramente começou a falar de Wilde em agitados cochichos, ignorados pelo raposo. Desalentado, Nick aproximou-se do parapeito baixo, numa tentativa de ignorar sua melancolia e apreciar a beleza daquela noite... Grandes paredões de pedra que se erguiam de forma quase infinita, circundando o tubo da Linha Vermelha que era iluminado em azul como uma veia sanguínea que supria aquela paisagem pitoresca. Pequenos bosques compostos de grandes pinheiros e sequoias colossais preenchendo com verde o espaço daquele bucólico vale de rocha cinzenta, e todos os atores daquele teatro paisagístico iluminados por um holofote espacial, uma fenomenal lua cheia... Provavelmente, o elemento natural que mais mexia com Wilde naquele momento. Taxonomicamente, ele era um parente distante dos lobos, contudo, ainda sim era um canídeo, algo naquela gigantesca e distante esfera espacial despertava algo intrínseco em seu âmago... Um sentimento indescritível de atração, mas sem definição possível, era como imaginar uma nova cor...





... Entretanto, se a lua era o elemento natural de maior destaque, um distante elemento artificial que foi o responsável por tomar de vez a atenção do raposo...
















'... O que que você tem que não consegue ter uma conversa normal?'





'Você precisa de uma enorme migração de terapeutas animais!'




'Nick, nós precisamos resolver o caso!'





'Judy, não vale a pena morrer por isso...!'

















'... Eu acho... Eu acho que...'








... '... somos diferentes.'

















— … Tsc…!




Nick deu um breve resmungo ao fitar as distantes ruínas da Pousada Lua de Mel original.




A existência daquele lugar era como uma enorme farpa cravada em sua alma... Era a fonte de um medo irracional, alimentado como uma besta selvagem que se deleitava da vulnerabilidade do raposo, devorando cada resquício da alegria que o canídeo sentira nos últimos meses...













... Contudo...















... esse monstro estava na mira de um predador astuto.









Ainda desgostoso em sua expressão, Nicholas pegou seu celular, que lhe chamou por uma notificação de mensagem.





NIBBLES: 'Tá, ela vai'



NIBBLES: 'Mas você tem muito a que se explicar...'









Calado, Wilde apenas restringiu-se a abaixar o telefone e tornar a encarar as ruínas ao longe... Fechando ainda mais o rosto, o raposo apertou suas patas com tanta intensidade que quase podia quebrar seu celular...












... Nicholas Wilde cansou de ter medo.














(...) Nono dia.











— Então, ela vai vir hoje de volta?




— Sim... Espero conseguir ter uma conversa racional...













Amber Raposina seguia responsável pelos cuidados de Nick Wilde, nesta manhã retirando, finalmente, os acessos venosos que eram quase como correntes médicas lhe imobilizando.




— Eu... ajudo você em alguma coisa nisso? — Indagou enquanto posicionava os materiais hospitalares usados numa bandeja aos cuidados de uma panda.



— Melhor não... — Nick lhe retribuiu um olhar desanimado — ... Ela não me responde desde aquele dia, não sei exatamente como ela está... Mas acho que eu sei como posso lidar.



— 'Acha...?'




Wilde deu um profundo suspiro.



— ... Espero...







Raposina assentiu, dispensando a panda do quarto com os acessos sangrentos de Wilde — Bom, uma corrente a menos, Nick! Em breve, a última sairá também! — Terminou apontando para o gesso no pé da raposa.




— É... na verdade...





— ... ainda tenho muitas outras correntes para se quebrar...







— ... NICHOOOOOOLAAAASS WIIIIIIIILDEEEEEEE...!!!!






Ao chamado familiar, o canídeo deu um olhar cansado para a porta, embora esboçando um leve sorriso... Aos poucos ele se acostumava com o jeito expressivo de Nibbles Castanheira, embora Amber tenha se assustado discretamente.



— Bom dia pra você também... — Lançou o raposo, sendo amparado por Raposina que limpava seus curativos...









... e foi quando, por detrás da castora, uma melancólica coelha de olhos púrpuras deu o ar de sua graça.





— … Cenourinha…!



Impactado, Wilde balbuciou ao seu olhar aflito encontrar a expressão neutra de sua parceira... O canídeo havia juntado muita força para aquele momento, mas vislumbrar aquele semblante desanimado que, costumeiramente, era repleto de alegria, quebrou todo o seu preparo… Ele detestava ver aquele rosto imerso em tristeza, ele faria de tudo para garantir que a depressão jamais invadisse aquela face novamente.




— Uia, então tiraram o doguinho das correntes! — Castanheira aproximou-se, com um assentimento de Amber, ao passo que Judy permaneceu cabisbaixa na entrada…




... e nisso, foi quando a raposa enfermeira acenou de cabeça para Wilde, que arrepiou-se.



— ... Não...!











— ... Então, você é a famosa Judy Hopps...! Encantada em conhecê-la! Sou Amber Raposina, enfermeira do Senhor Wilde...!




Contra o sugerido por Nick, Amber aproximou-se da retraída coelha, tomando a sua atenção por trás de um olhar de estranhamento. O raposo observava aterrorizado, temendo que tipo de desfecho aquela investida inesperada poderia mostrar.




Sob a visão atenta e de guarda erguida de Hopps, a enfermeira puxou uma das patas da coelha, colocando-a delicadamente próximo ao rosto da roedora, envolta em suas mãos de pêlo branco — ... Vocês formam uma dupla incrível... É um privilégio estar com o 'Time dos Sonhos' por aqui!




Nibbles e Nick alternavam o olhar entre eles e a dupla de coelha e raposa, enquanto Judy pareceu reparar um detalhe específico numa das patas de Raposina — Não... deveria estar de aliança... — Judy murmurou com estranhamento — ... É uma enfermeira, não é...? Adornos...




Aterrorizado, Wilde arregalou os olhos, porém, Raposina pouco se abateu com a alfinetada, devolvendo-a com um riso gentil.



— ... De fato, falha minha... — Soltou a pata de Hopps — ... Vou deixá-los à sós... Ah!...







Amber aproximou um pouco o rosto de Judy, que ainda lhe fitava com desconfiança.










— ... Adorei seu perfume de noz-moscada com laranja...!







Amber corrigiu sua postura, fitando a surpresa coelha por uma expressão sagaz. Ao que fez seu caminho para o corredor, Raposina fez uma última anedota para a estarrecida coelha.






— ... Perceba o perf-


À Wilde e Nibbles, a discreta observação da enfermeira tornou-se apenas um ruído indecifrável, a audição de Wilde até era boa, porém, a de Judy era melhor, sendo a única que escutou claramente aquela mensagem... E, pela reação da coelha, não pareceu ser boa.



Perplexa, Hopps lançou um olhar para o apavorado Wilde, parecendo farejar algo com seu delicado focinho...







... Então, ela correu para fora do quarto, na mesma direção de Raposina.






— JUDY!!!



Wilde estendeu um braço, mas foi imobilizado pela castora ao seu lado, que deixou de ser gentil.




— O que é que você pensa que tá fazendo, seu animal???



Uma furiosa Nibbles indagou por um sussurro irritado, agarrando o predador pelo colarinho da roupa.



— É isso que eu tô tentando explicar, sua marmota! — Devolveu Wilde na mesma intensidade, junto dum semblante irritado, puxando mais para uma conversa séria entre dois amigos com relativa intimidade.



— Me chama de marmota de novo pra você ver se sobra algum dente na tua boca…! — A castora puxou Nick para perto de si com relativa facilidade — Escuta, seja lá o que você fez ou tá fazendo, a Judith tá sofrendo muito, então seja verdadeiro com ela!



— Mas eu tô tentando! Tentei várias vezes, Nibbles!...! — Retrucou gesticulando com os braços — Foi um grande mal entendido que tentei explicar pessoalmente, tentei ligar, mandei mensagem e é como discutir ao vento! Eu já tô sofrendo tanto com isso que você não faz ideia, saber que ela sofre também só piora a situação!!



— … Aff…! Vocês dois, hein…! — Castanheira soltou Wilde e colocou uma pata na testa em frustração — … Tá… Eu vou junto contigo pra te ajudar a explicar, nem deveria estar metendo o bedelho nisso, mas é porque eu amo vocês e tu é meu amigo…



A castora deu o ombro para o raposo usar de apoio para levantar-se da cama — Eu só peço que você tenha a decência de ser realmente verdadeiro com a Jud-


— Nibbles, deixa o Nick aí.







Um chamado sério da coelha policial chamou a atenção da dupla. Nibbles e Wilde se entreolharam de orelhas caídas.



— Todo seu, Judith! — Soltou a pata do aflito raposo que tentou segurar seu ombro — Boa sorte, campeão!




Terminou com uma alfinetada e um olhar sagaz por cima do braço, fechando a porta e deixando o quarto com um apavorado Nick Wilde de orelhas caídas e Judy Hopps séria, de braços cruzados e batendo a pata esquerda no chão.






— Judy, e-eu-



— Me responda duas coisas:



A ordem da coelha era dura, por trás de um semblante implacável.




— … Você usou algum perfume hoje??








— O… quê…? — Wilde balbuciou extremamente confuso.



— Só responda, ‘sim’ ou ‘não’.



— Não…! Não, não usei…!



— Certo… Outra:




— … Como estão suas costelas…?



Indagou a coelha em lenta caminhada ao escutar o clique da porta atrás de si.





— Estão… boas… Eu acho… — Wilde se acomodava sentado, cuidando para não cair da cama, ao mesmo tempo que tentava não deixar a coelha emburrecida sair de seu campo de visão.




— Você ‘acha’?



— Eu… não sou médico, né… — Disse por um sorriso amarelo claramente assustado — O maior estrago foi no meu pé, afinal…




— Ok, vou assumir que estejam boas, então.




— … Por… quê? Judy, o que isso tem a ver com perfume e com… com…



Questionou indeciso quando Hopps chegou perto o suficiente, o fitando com um olhar fulminante que o fez engolir em seco…










… Para então receber um apertado abraço da coelha.





— … C-... Cenou… rinha…?




— Nick, eu sou tão idiota…!!




A raposa sentiu sua pelagem sendo encharcada pelas lágrimas de Judy.




— … Idiota, IDIOTA, IDIOTA, IDIOTA!!!



Hopps gritava afundando o rosto no peito de Wilde, que permanecia estarrecido e sem reação frente aquele surto — … E-ei… calm-


— O QUE QUE EU TAVA FAZENDO??



Subitamente, Hopps começou a esmurrar o raposo, principalmente peito e braço… Golpes cegos de um semblante choroso de olhos profundamente fechados, sem intenção de machucar, mas de aliviar uma pesada carga — O QUE EU TAVA FAZENDO, O QUE EU TAVA FAZENDO, DROGA!!!

— AI, AI, AI, EU SEI O QUE VOCÊ TÁ FAZENDO AGORA, TÁ ME ESPANCANDO, PÁRA!! — Finalmente, Wilde segurou sua descontrolada parceira com os braços, que ainda tinha espasmos tentando mais golpes — Judy, o que tá acontecendo?? Cê tá me assustando…




Entre suspiros e limpadas de rosto, Hopps tentou começar a falar sob o atencioso olhar do canídeo.




— Eu pensei tanta besteira nesses dias, Nick… Tanta idiotice, por causa de um mal-entendido besta… — Justificava-se de semblante baixo — … Eu fiquei com muito ciúme da sua enfermeira, tanto ciúme que nem me toquei que ela está aqui pra cuidar de você, independente de também ser uma raposa ou não…! E, no final, escutei uma conversa que era só sobre um banho, porque você não conseguia se locomover…



Hopps encontrou o olhar de Wilde, que ainda era aflito, mas deixava margem para que a coelha seguisse desabafando.



— Eu esperava a todo momento um contato seu, mas você não conversava comigo porque estava fora do alcance de Internet… E foi me mostrado que você tentava ligar pra mim todo dia pelo telefone da Pousada, mas meu celular bloqueia números desconhecidos… — Justificava-se entre prantos — … Eu não sabia disso e só achei estranha sua ausência… Quando cheguei aqui, achei que ela tava dando em cima de você, e ver você tão feliz depois disso fez que eu pensasse que… que… Nossa, como que você ainda consegue me aturar, minha nossa…! Bufou com uma pata na cabeça — … Então, eu percebi a aliança… Foi de propósito, ela quis mostrar que é casada sem precisar falar, uma enfermeira nunca estaria usando uma aliança assim… E o elogio sobre o meu perfume fez eu pensar racionalmente… Não era meu perfume, eram os feromônios que Savage havia falado… E quando ela disse que você estava com um cheiro de madeira molhada, eu tive que ir atrás dela…!




— Cheiro de madeira molhada…? — Por mais que o raposo estava deixando sua parceira desabafar tudo o que precisava falar, Wilde não compreendeu aquela informação pontual.




— É o cheiro que os coelhos interpretam feromônios de raposa… — Disse cabisbaxia — … É o cheiro que sempre sinto perto de você, é o tal ‘perfume’ que ela falou que você estava exalando quando cheguei… Essas informações jogadas me pareceram confusas, eu precisei ir atrás dela…



— E… o que você fez…? — Questionou Wilde com a sobrancelha arqueada — Não me diga que você espancou ela que nem fez comigo??



— Nicholas, cala a boca…! — O raposo obedeceu de prontidão, ajeitando a postura — … Eu fui atrás dela pra entender e ela me explicou tudo isso… Pelas coisas horríveis que pensei, pelo showzinho que fiz aqui… E ela também tinha coisas pra me dizer…







Hopps encontrou novamente o olhar esmeralda do raposo.








— … Que eu tenho muita sorte de ter um parceiro como você…!







Nick Wilde ficou ligeiramente boquiaberto com a declaração da roedora.




— … E que todo dia você fala sobre mim e tenta me ligar… — Hopps começou a chorar novamente — … E que até dormindo você fala o meu nome!



— P-pera, o quê?




Nick ficou estarrecido, enquanto Judy seguia balbuciando seu discurso andando em círculos, sob seu olhar atento e ligeiramente mais tranquilo — … E quando ela me elogiou sobre o perfume de noz-moscada e laranja eu me toquei que não tinha passado perfume e que eram feromônios, a aliança dela também mostrava que ela não estava dando em cima de você, aquele dia era só um banho por causa dos seus ferimentos, mas isso não importa porque tudo isso que pensei é besteira, quando ela disse sobre o cheiro amadeirado eu liguei os pontos que raposas sentem feromônios de raposa de outra forma, aquilo foi específico para um coelho, eu definitivamente preciso aumentar a quantidade de sessões com a Doutora Fuzzby, issonãoésaudável, nãopossoficarobrigandovocêaaguentarumacoelhabarulhentaeciumentaquesaifazendoescândaloporqualq-



Subitamente, o raposo agarrou a tagarela coelha e a imobilizou contra seu corpo, tapando sua boca.








— Você está pensando demais… Está se repetindo… Está colapsando.





— Hmmm…!! — Hopps parecia ainda tentar falar, mas Nick intensificou o aperto, com cuidado para não machucar a coelha.







— … Saiba… que eu adoro uma coelhinha ciumenta…








Aquilo foi o suficiente da parte de Nick.





Hopps foi capturada pelo predador…





… Mas, ao invés de fugir… Ela retribuiu, relaxando seu neurótico corpo sobre o esguio tórax do raposo.








— Já passou, tá…? Respira fundo… — Wilde sussurrou com o focinho ao lado do rosto de Hopps, que fechou os olhos e se entregou ao abraço do raposo — … Passou…?











— … Eu…






















— … O… brigada.




































— … Ah, esses dois…






Do outro lado da porta do quarto, um castor espionava através do vidro da entrada, estando sobre uma pequena escada de metal, emprestada por uma certa alguém que trabalhava ali…





— … Raposa esperta!





Nibbles declarou com um semblante orgulhoso para uma astuta Amber Raposina, apoiada numa pilastra próxima.






(...) Décimo dia.







— ... Sério... Por quê??








Uma manhã ensolarada iluminava o bucólico salão para refeições da Pousada Nova Lua de Mel. O reverberar de conversas aleatórias de indivíduos iniciando seus dias, junto do barulho de uma televisão ligada durante um noticiário e o tilintar de pratos e talheres ambientava aquela cacofonia matinal que, apesar da orquestra ruidosa, soava bem aconchegante.




E numa das mesas mais afastadas daquela cantina, posicionada ao lado de uma grande vidraça que dava vista ao bosque externo, raposa e coelha desfrutavam da primeira refeição do dia, disposta elegantemente em pratos finos sobre uma toalha branca de cetim com bordas douradas.



Contudo, a atitude da raposa não era tão elegante quanto a finesse daquele lugar, deixando Judy Hopps perplexa ao canídeo mexer em seu prato.






— Cenouras com barbecue? Quem foi a mente nefasta que teve a ideia desse combo radioativo...? — Reclamava Nick Wilde com visível nojo em sua cara, segurando com dois dedos um pedaço de cenoura que pingava um molho marrom.



— E você vê com as mãos agora, seu folgado?? — Hopps lhe fitava incrédula por encostar daquele modo em sua comida.



— Sim, os olhos não são suficientes para acreditar nisso... — Jogou novamente o vegetal no prato de Judy, que ficou boquiaberta — Sério, como é que vocês conseguem comer isso??



— OH...! — A estarrecida coelha alternou um olhar pasmo entre a cenoura e sua companhia reclamona, rapidamente pegando a mesma cenoura e jogando no prato de Wilde — Da mesma maneira que você vai comer a cenoura que você meteu a patona!!



Numa surpresa ligeira, Nick olhou com asco a cenoura que respingou barbecue no seu prato com filé de salmão e um sanduíche recheado com geleia de mirtilo, tornando a encontrar o olhar de Hopps, em expressão rigorosa e braços cruzados.



— Nem ferrando...! — Murmurou o canídeo, seriamente.



— Nick, come! — Ordenou a roedora, irredutível.



— Não. — Por sua vez, Wilde também cruzou os braços e virou o rosto igual um filhote mimado.







— Nicholas... Piberius... Wilde...








O canídeo apenas abriu os olhos, assustado.












— ... Come.












Nem mesmo em sua infância o raposo havia presenciado uma expressão maternal tão ameaçadora. Dando o braço a torcer, ele voltou a pegar o pedaço de cenoura, encarando o vegetal com mais nojo do que quando teve que comer larvas na Feira do Brejo.



— Pode ser só uma lambid-


— TUDO!




Com o grito, Wilde meteu o vegetal pra dentro. O semblante de repulsa do canídeo era impagável, dando um sorriso amarelo enquanto seus dentes davam conta de quebrar ruidosamente a cenoura, todo processo observado rigidamente pela coelha.



— Hmmmm, nossa...! — Ironizava de dentes cerrados entre tosses de nojo — ... Eu tô-cof! adorando, que delícia, hmmmmmmmmmmmmm...!! Cof-!




Subitamente, Nick fez uma expressão surpresa e apontou um indicador para trás de Judy — ... OLHA, É A GAZELLA!!!



E o raposo ligeiramente virou o rosto para baixo, porém, Hopps não.



— Cenourinha, é a Gazella, bem ali...! — Insistia para que a roedora olhasse — Você vai perder-cof-essa vista!



— Eu já estive no camarim dela no Bichanimal Fest, nada que eu já não tenha visto. — Arguiu claramente não caindo naquele joguinho.





— ... *Gulp*... Aaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhhhhh...!!



Vencido, com muito esforço Wilde sofridamente engoliu a massaroca em sua boca, provendo um careta com a língua de fora para Judy...








— ... Ha…!





— ... Hahahahahahahahahaha...!!








... Que caiu no riso com toda aquela cena... Mas não era uma gargalhada histérica, apenas uma celebração por ter um parceiro como Nick.



Foram dias conturbados para o ‘Time dos Sonhos’, uma sequência de maus-entendidos que quase colocou meses de ‘bens-entendidos’ à perder.



Porém, aquela experiência provava que a amizade de Hopps e Wilde não morreria facilmente… O que não mata, torna mais forte… E, dali pra frente, eles ficariam mais fortes juntos.








— Que saudade que eu tava desse sorriso... — Retomando a compostura, Wilde lançou de modo sereno para a alegre coelha.



— Mas fica a lição, nunca mais meta a mãozona no meu prato.



— Pra ver esse sorriso de volta, eu colocaria... Eu devoraria um pomar de cenouras...!



— Cenouras não dão em árvores, elas dão no solo!



— Você entendeu... E é mais um motivo pra eu ter nojo.







'... E vamos para os últimos desdobramentos sobre o Caso Linceslei:'






Uma manchete de jornal televisivo tomou a atenção da dupla de raposa e coelha.




'O Supremo Tribunal Animal, o STA, anulou a condenação à prisão de Caíque e Kátia Lincesley, por falta de correlações com a Conspiração da Patente das Paredes Climáticas...'



— Ah, isso é inacreditável... — Nick protestou.



— Calma! — Sussurrou a roedora, aguardando o resto da manchete.



'... Porém, a soltura só ocorrerá mediante pagamento de fiança milionária e prestação de serviços comunitários, voltados principalmente para reintegração da população réptil em Zootopia.'



— Tá, é o copo meio cheio... — Judy concordou de cabeça com a anedota do raposo.



'... O julgamento de Milton Lincesley foi adiado pelo STA, com nova data ainda a se definir.'



No que a âncora onça-pintada passou a reportagem do estúdio para o repórter lobo nas ruas, Nick virou-se novamente para Judy — ... E o que aconteceu com o Patalberto? Eu tenho percebido que o noticiário nunca fala dele...



— O Patalberto... — Hopps deu um profundo suspiro desanimado — ... foi declarado com sequelas psicológicas e designado a um hospital psiquiátrico...



— Ah...! — O raposo ficou genuinamente surpreso.



— O STA determinou que sua integridade fosse preservada por ser um paciente psiquiátrico, por isso que os noticiários não mencionam ele...





E uma notável melancolia atacou Judy Hopps... Uma aura de 'fracasso'.



— Judy, isso não é sua culpa...



— ... Sabe... Eu… eu não consigo dizer que o Patalberto é inocente... — Murmurava com cautela, como alguém pisando em ovos, sob o olhar atento de Wilde que havia tirado uma mordida de seu sanduíche — ... Mas ele... ele...















— ... Ah, deixa pra lá... — Desistiu a roedora — ... melhor não entrar nesse tipo de mérito.




O raposo até aguardou por alguns segundos, mas logo deu de ombros.



— Eu não mereço uma alma tão boa quanto você, Cenourinha...




Hopps encontrou o sereno olhar esmeralda de Nick, que claramente sabia que a coelha se compadecia com a pressão social a que Patalberto Lincesley foi submetido… Pelo seu companheiro, ela retribuiu a serenidade.





'... E agora, direto do DPZ Central, o ladrãozinho mequetrefe Duke Doninha novamente preso, desta vez pelo primeiro aspirante a policial cobra de Zootopia!'.




A chamada em pauta chamou novamente a atenção da dupla, principalmente a de Nick — ... Espera, é o...?



— 'Duke permanece sentado em posição fetal em sua cela após ser preso por venda de produtos falsificados pelo estagiário Gary A'Cobra...'.



— Olha só, ele tá levando 'à ssssssério!' — Silvou a raposa piadista.



— Tá mesmo... AH, MINHA NOSSA!!!



E, repentinamente, Hopps começou a juntar seus penduricalhos — Eu esqueci que tinha prometido pro Gary que ia com ele na inauguração da subdelegacia do distrito florestal hoje!!



— Subdelegacia? — Indagou o canídeo, acompanhando o desespero de sua parceira.



— Sim, o Gary inclusive tá alocado na Subdelegacia do Deserto, recém-inaugurada... — A coelha disse colocando sua mochila — O Prefeito Cavalgante determinou a descentralização do DPZ para atender melhor a população.



— Espera, mas... — Uma súbita aflição acertou o raposo — ... tem chance da gente...?


— Não, não tem...!




Rapidamente, Judy confortou seu parceiro — ... Chefe Bogo me garantiu...! Nós somos o ‘Time dos Sonhos’... Não é?




Wilde sorriu em retorno.



— A não ser que a gente dê motivos... — Complementou a sorridente roedora — ... Tchau, vejo você amanhã de noite!



— Espera, eu vou com você até lá pra deixar os pratos!



— Certeza?



— Sim... — Nick pegou suas muletas — ... eu já ia pegar mais suco de mirtilo.





E, na fila para o pagamento da refeição da coelha, a dupla seguiu sua conversa matinal, era um bom meio para tirar o atraso de alguns dias sem se falarem.





— Nossa, como eu sou sem noção... — Judy deu-se conta, enquanto Wilde enchia um copo com refresco de mirtilo e menta — Tudo bem eu vir amanhã de noite, né? Só saí me convidando...



— É óbvio que sim... — Terminou de se servir na suqueira — ... Mas assim... Se for ficar muito trabalhoso pra você ficar vindo pra cá, pode vir em visitas mais espaçadas, podemos nos falar por celular agora que a Internet voltou... — Tomou uma breve golada do refresco — … Koppenhöffen fica onde o vento faz a curva, de tão longe!



— Uhhh, você está me dispensando, então...? — Provocou sob o olhar sisudo de quem nunca a dispensaria — Relaxa o pêlo, Nick... Eu ando usando a Linha Vermelha, hoje mesmo inclusive, aí fica muito tranquilo pra vir!



— Ah, claro, a Linha Vermelha... — Tomou um grande gole de suco...









— …GNN!!! PFFFFTTTTTTTTT!!!!





... cusparado como um chafariz sobre Hopps após uma expressão aterrorizada.



— LINHA VERMELHA???! — Exclamou Wilde, que ainda tinha gotas roxas escapando por suas mandíbulas.



— Ai... Sorte que eu já ia me molhar mesmo... — Reclamou encharcada, logo recebendo as patas do raposo em seus ombros.



— Judy, não me diga que você tá entrando naquilo de volta!! — Perguntou o canídeo com intensa agonia em seu rosto, segurando a roedora que lentamente pegou algo em sua mochila.




— Saca só...!



Judy apresentou uma diminuta máscara de mergulho, acoplada com um pequeno cilindro que era pouco maior que uma lata de refrigerante — Supre a respiração de um coelho por cerca de uma hora! Comprei na Zhopee! — Ainda que Hopps fizesse a propaganda, o ofegante Nick parecia ainda não demonstrar confiança em imaginar sua parceira desacompanhada naquele tubo de terror.



— Além disso, o Prefeito Cavalgante determinou melhorias nos tubos de transporte, como instalação de câmeras de monitoramento e áreas de escape ativadas remotamente… — Delicadamente, Judy Hopps segurou uma das patas do apavorado raposo.








— ... Não precisa ter medo...!









— ... Medo...









Piscando pesadamente, Nick finalmente se recompôs e deu crédito, entregando um tecido próximo para Judy se limpar de sua trapalhada.



— Só tenta me avisar quando entrar e sair dessa Linha Vermelha, pelo menos... — Negociou o canídeo, fechando negócio com um assentir de Hopps.









— ... Eeee... Bem...















— ... Como você vai vir aqui amanhã de noite, então... Já tenho um lugar perfeito pra gente ir...







(...) Décimo primeiro dia.









— ... Bem... Chegamos! Vou estacionar aqui.









Noite estrelada nos arredores arbóreos de Koppenhöffen.










As ruínas de um antigo casarão pendiam na beira de um gigantesco precipício... Pouco restava, na realidade, daquilo que já havia sido uma das pousadas mais aconchegantes da região, agora, apenas um fantasma em entulhos, cercado por alguns cavaletes que desencorajavam a exploração daquele lugar abandonado.





Mas entrar ali não era a intenção de raposa e coelha, que posicionaram-se a alguns metros para apreciar a paisagem do vale naquela belíssima sinfonia noturna.





— Eu confesso... que essa não foi a sua pior ideia...!



Judy Hopps declarou uma anedota familiar, admirando aquela pintura natural diante de sua vista — ... Que noite linda...! Até me faz lembrar as noites em Bunnyborrow…!



O espaço estrelado refletia em seu olhar púrpura, sentindo-se privilegiada por também fazer parte daquela obra.



Já o acompanhante Nicholas Wilde, por sua vez, parou sua marcha com muletas e deu um pesado suspiro...










— ... Eu odeio esse lugar.











— ... Pera... O quê?



A coelha foi tirada de seu vislumbre pelo resmungo da raposa, tomando uma postura confusa — ... Como assim 'odeia'? Então, por que quis vir aqui?






— Porque… — Suspirou novamente — … Porque eu precisava enfrentar meus medos, Cenourinha.





Wilde replicou com grande serenidade, embora, era notável pitadas de desconforto na postura do raposo — ... Eu odeio tanto esse lugar, porque... Ugh-...! — Hopps percebeu que Nick queria sentar-se ao chão, ajudando-o dando-lhe apoio devido ao seu pé direito ainda em recuperação — ... Porque eu quase te perdi aqui... Muitas vezes...





De modo compreensivo, Judy sentou-se ao lado de seu parceiro, ambos com as costas erguidas e braços posicionados sobre os joelhos dobrados. A roedora estava ficando boa em decifrar os padrões daquela raposa... O convite para a antiga Pousada Lua de Mel não era só um passeio qualquer...









... Era a luta final de um brutal enfrentamento interno.








— ... Eu quase te perdi naquele tubo... Quase te perdi na escalada... — Nick murmurava com intenso pesar e melancolia, olhar baixo enquanto repentinas lufadas de vento balançavam sua pelagem laranja — ... e, eu senti que... que... quando você disse que éramos diferentes...
















— ... eu senti que eu perdi você.






Compartilhando da mesma expressão melancólica, Hopps abaixou o olhar que vislumbrava o raposo... Mas permaneceu passiva ao desabafo do canídeo.




— ... E tudo isso que aconteceu nesses dias de agora, eu-eu senti que... que havia perdido você novamente... — Prosseguiu colocando a cabeça apoiada para baixo, com a testa em seus braços — ... E nesse estado de vulnerabilidade, eu mergulhei novamente no meu maior pavor...






— ... O medo de ser rejeitado outra vez… O medo de não ter mais o meu grupo.







O raposo tornou a apresentar o rosto novamente.




— ... E eu adoeço com esse medo... Eu não consigo dormir, eu não consigo viver... — Seu tom de voz pesado mostrava que Wilde carregava aquele fardo por muito tempo — … Estar vivo não torna-se prazeroso, torna-se apenas...







Nicholas deu um profundo suspiro carregado.










— ... 'existir'.










Abatido, Wilde baixou outra vez sua cabeça.








— Eu cansei de ter medo, Judy... — Balbuciou — ... Eu cansei de existir refém de algo que está dentro de mim...






E voltou um olhar para as ruínas à sua direita, que alimentavam a fonte de seu medo.




— ... E eu queria começar tentando ver o copo meio cheio, o lado bom das coisas... — Apontou com o olhar irritado para a fantasmagórica pousada — … Começando por aqui, tentando ver o lado bonito disso!



Era notável o asco que Wilde tinha daquele lugar, seu focinho ondulado em raiva denunciava que Nicholas gostaria, de verdade, varrer aquele lugar da face da Terra para poder ter paz... Como ele não tinha poder para tal, apenas lhe restou pegar uma pedra próxima e arremessar em frustração na direção da pousada.








— ... Ver o lado bonito… Mas… eu não sei se consigo...









— Nick...




A coelha finalmente rompeu seu silêncio, confortando o canídeo com uma pata — Você não precisa mais ter medo... Eu tô aqui...!




— Sim, mas e se não fosse assim, Judy?! — Wilde resmungou estendendo as patas e lhe dando um rápido olhar agoniado, prosseguindo em frente com a fala pesada e emocionada — E se você não tivesse?? E SE você não saísse daquele tubo? E SE você passasse me odiar por quebrar a caneta que você me presenteou com tanto carinho? E SE nunca mais pudéssemos ser uma dupla novamente...??






Nick Wilde fechou pesadamente os olhos... Uma tentativa falha de impedir que raras lágrimas de raposa escapassem por suas pálpebras...







— ... E se… E se…






... E os abriu estreitamente, sob um semblante de sobrancelha cerrada, profundidade abatido.









— ... E se você tivesse caído daqui e a última lembrança sua que eu tivesse fosse você dizendo que nós éramos diferentes??









A pressão foi insuportável para o pobre canídeo, que escondeu o rosto encolhido ao corpo para evitar mostrar suas lágrimas, por mais que seus soluços denunciassem o pranto.




Compadecida, Judy Hopps trouxe a chorosa raposa para perto de si, acalentando aquela pobre alma... Era um vislumbre extremamente raro, não pelo fato do pranto... Mas por ele não estar escondido atrás de sua habitual muralha emocional...




... Judy estava presenciando o verdadeiro Nicholas Wilde.






— ... Desculpa... — Nick balbuciou com a voz arrastada, limpando seu rosto e afastando-se da coelha — ... Você não deveria ser obrigada a ser babá de um raposo chorão...




— Nick... Eu n-


— Foi uma péssima ideia ter vindo aqui... — Então, o canídeo tentou levantar-se sozinho, com certo esforço — ... Vamos voltar para a Pous-


— Não, espera...!





Judy segurou um braço do raposo com suas duas patas superiores, puxando-o novamente para o solo.



— ... Foi uma ótima ideia... — Declarou de modo reconfortante, delicadamente botando Wilde sentado ao seu lado novamente — ... Só… vamos tentar fazer as coisas de um modo diferente...




Com cuidado, a coelha foi manejando Nick para sentar-se novamente, fazendo com que as costas de Wilde fossem lentamente de encontro ao chão.



— Cenourinha, o que você tá-


— Só confia em mim... — Empurrava gentilmente o raposo para o chão, com uma pata em seu peito, sentindo o coração de Nick bater com avidez — ... Isso, deita assim, assim mesmo... Não, pode tirar essa pata daí, bota a nuca no chão... — Puxou rapidamente a mão de Wilde, que parecia relutante em sujar seus pêlos com a poeira do solo — ... Isso, fica assim agora, quietinho...




Imitando seu parceiro, Judy também deitou-se completamente de costas no chão ao seu lado, apenas com joelhos levemente dobrados... E ali permaneceram, a coelha com um sorriso radiante e o raposo um pouco incerto do que estava acontecendo.




— Cenourinha, qual que é a ideia disso...? — O afoito raposo tornou um olhar para as ruínas ao seu lado.



— Não, não olha pra pousada...! — Puxou brevemente o rosto de Wilde para cima novamente — Esquece a pousada, só fica com a cabeça pra cima e fecha os olhos... A única coisa que você vai se concentrar é na minha voz...




E Nick o fez... Meio a contragosto, mas tentou relaxar, ainda de semblante em amargor.



— Como você está se sentindo...?



Indagou Hopps por um doce tom.



— ... Não sei... Ansioso... talvez?




— Então, vamos trabalhar nessa ansiedade!



— Hmpf...! Olha só QUEM está me falando sobre ansiedade...



A alfinetada do raposo poderia ser incômoda em outros contextos, mas ali era um sinal que Nick Wilde já estava ficando um pouco mais à vontade... Ela estava no caminho certo.



— Nós vamos parar de falar e vamos continuar de olhos fechados... — Murmurou a coelha, como se não quisesse que sua voz interrompesse a cacofonia local — ... Esvazie a sua mente e você vai apenas se concentrar nos sons que está ouvindo aqui e na sua respiração...



— Cê tá parecendo aquele hippie do clube de nudismo...




Hopps assentiu com um breve riso e calou-se. E, nisso, Nick Wilde de fato imergiu numa pletora curiosa de ruídos... O uivo do vento que causava o farfalhar das árvores próximas, sons urbanos bem distantes, apenas como resíduo auditivo, ambos barulhos que aumentavam conforme sua ruidosa respiração aflita tornava-se mais tranquila, acompanhando o acalmar do seu coração... Rolando o sangue pelo seu corpo, perdendo a pressa...

























... E assim ficaram...































... por alguns minutos...



































... Parecia apenas um cochilo ao céu estrelado...


















































... Mas estava mais para uma sessão de meditação...















































… Uma experiência que Nick Wilde jamais iria esquecer.






























































— ... Como você se sente agora...?




Outra bufada do raposo.











— ... Relaxado... talvez?












Judy deu mais alguns segundos de reflexão para seu parceiro.




















— ... Tá… Sem mexer a cabeça, pode abrir os olhos, Nick.










— … O… Uau…!




E ele obedeceu... Para deixar um oceano estrelado invadir sua visão.





— O que você vê?







— Estrelas... — Murmurou o canídeo, definitivamente deslumbrado — ... Muitas estrelas...







E, de fato, aquela vista do espaço era magnânima... Uma fenomenal qualidade de visibilidade que permitia o espetáculo que era aquela festança cósmica de pontos reluzentes, com raposa e coelha observando de camarote… — … E… e…













— ... É... lindo.











... e, emocionado, Nicholas Wilde sabia que deveria apreciar aquele show.










— É assim que o céu noturno se parece numa noite clara sem interferência da poluição luminosa... — Judy explicava calmamente, apreciando o mesmo espetáculo — ... Eu amo Zootopia, mas não nego que esse tipo de coisa que estamos presenciando é um privilégio para quem vive fora da cidade...!




— Então, pra Fazendeira, isso era comum? — Nick indagou com genuína curiosidade.




— Sim... Por várias vezes na infância fui agraciada por noites assim... — Replicou com um ar nostálgico — ... E dizem que pode ficar ainda melhor... O Papai e a Mamãe diziam que em terras ao extremo norte, ocorre um espetáculo de luzes no céu, parecido com grandes cortinas balançando ao vento no espaço...




— Você acredita nisso? — Cerrou o rosto o canídeo.




— Não sei... E se eu te contasse sobre o que você está vendo hoje, você acreditaria sem ter visto...?





Nicholas entendeu o recado, tornando a apreciar os pequenos pontos cintilantes que preenchiam o céu.





— Sabe, Nick... — A coelha apontou um dedo ao espaço — Eu e meus irmãos ficávamos desse jeito que estamos agora, tentando achar padrões e constelações nas noites de céu limpo... Consegue ver alguma?




— Hmmm... — O raposo pareceu indeciso — ... Eu acho que não sou muito suscetível assim à pareidolia...




Hopps riu brevemente — Olha só, se você se esforçar, tem algumas que são fáceis... — Foi apontando para as direções, orientando o raposo — … Tem duas em formato de panela… São a Ursa Maior e a Ursa Menor… A Constelação de Centauro em forma de cavalo, nunca entendi de onde que veio esse nome ‘centauro’ na verdade… E tem várias não oficiais, eu tô vendo uma que parece um besouro… Uma libélula… Um lagarto…




E então, Judy notou que Nick parecia bem abstraído... Ele ainda era um sujeito difícil de ler, ainda mais com a expressão neutra em sua face.





— Bom... Talvez eu esteja só forçando um pouco... — Deu o braço a torcer, controlando sua avidez astronômica — ... São só devaneios de uma coelha bob-


— Aquela parece um tigre…







E, imediatamente, Hopps ergueu um olhar esperançoso para seu parceiro canídeo, que apontava ao céu — … Consegue ver, Hopps? Segue a ponta daquela árvore maior sozinha na pedra, você vai parar bem no focinho dele!




— É… é verdade, um tigre! Encontrei!




— E à direita dele tem uma cobra! Tá vendo, bem comprida… Um ‘Gary espacial’!



— Hahahaha! Verdade!



— Achei o besouro que você falou… — Wilde ia apontando para o céu, deslumbrado pelos padrões… — Perto dele também tem um peixe… Um lobo… Um alce…





E a coelha deslumbrava-se com o que estava presenciando… Diante de Judy, estava um pequeno raposo esperançoso. Nick Wilde, sendo um livro como um todo, era difícil de ler... Um sujeito complexo, reservado e cauteloso.



Contudo, aquela página atual deste complicado livro era claramente legível, facilmente compreensível estar de guarda baixa, desfrutando de uma experiência que poderia ter marcado sua infância... Ali, aquela raposa de mais de trinta anos de idade era, na realidade, só um esperançoso filhote, desbravando e apreciando as maravilhas do mundo ao seu redor, com satisfação refletida no inocente sorriso em seu semblante…






— E olha lá!... — Apontou com empolgação o canídeo, observando Judy de canto de olho — Tem uma em forma de raposa!




— Ué, eu nunca vi uma constelação em forma de raposa... — Hopps procurou com os olhos cerrados.



— Talvez... seja nova... — Wilde deu de ombros com um sorriso amarelo.



— Não tem como, estrelas não surgem assim de uma hora pra outra.



— Eu tava brincando, não tem não… Só queria me sentir incluído também!




Os dois riram brevemente, seguido de um momento puramente calmo, em que até a brisa, de maneira poética, deu uma trégua para que raposa e coelha tivessem um elemento a menos de distração...
























— ... Ei… Nick...
























Sem deixar de satisfatoriamente apreciar o céu, a raposa deu um leve direcionar de orelhas para a roedora.



















— ... O que... você acha que elas são...?










— O quê...? — Wilde murmurou com dúvida — ... As estrelas?









— Isso...! — Judy fitava o céu brilhante refletido em seus olhos púrpuras, munida de uma aura curiosa — ... O que acha que são...?







— ... Bom... Segundo a ‘Zoopédia’, são objetos astronômicos de plasma que possuem luz própria, esféricos e grandes, mantidos íntegros pela gravidade e pressão de radiação! — Dissertou a raposa.




— Ah, tá bom, nerd... — Bufou Hopps com um sorriso desafiador — Isso É o que elas são, mas eu quero saber o que VOCÊ acha que é...!





— Bem... — Nick encolheu-se sob seus ombros... — ... Objetos astronômicos de plasma...?




Disse por um sorriso amarelo que fez Hopps revirar os olhos — ... E-eu não sei, Cenourinha, e-eu nunca pensei nesse aspecto mais abstrato da coisa...!









Wilde deu um olhar agoniado para sua parceira, mas tornou a fitar o espaço acima.


































— ... Eu... sempre achei que fossem farois...













— Hm?







Curioso, Nick virou suas íris esmeraldas para a nostálgica coelha.












— ... Bilhões de farois, numa constante festa no céu...










Nick deu um breve arregalar de olhos, deixando Hopps prosseguir sua crônica nostálgica — ... Era a única explicação que minha cabecinha de filhote conseguia formular para essas luzes piscando lá em cima... Farois! Farois sinalizando suas luzes para os outros...





O raposo tornou a observar o céu, com um semblante reflexivo.



— ... Quando eu perguntei pro papai o que eram, ele também confirmou que eram farois... E disse que cada animal daqui tem um farol pra ir, quando nossa missão aqui acaba… E não seria diferente comigo… Um dia, eu seria amiga de um deles!






Nick sorriu, entretido pela narrativa.






— ... Mas que não era pra eu ter pressa... — Prosseguiu Hopps — … Porque os melhores farois, eram reservados para quem mais fez o bem por aqui...







Hopps e Wilde trocaram um olhar sereno.








— ... Pra garantir que não fosse uma despedida... Para garantir que a vida continuasse em festa lá em cima...







— ... E para... para...






Judy deu breves soluços, tocada em seu âmago.












— ... E para garantir que tudo aqui embaixo tenha valido a pena...!










A emocionada coelha enxugou algumas lágrimas em suas pálpebras — ... Desculpa…! Eu... fiquei um pouco nostálgica...




— Será que não foi essa história que fez você querer ser uma policial coelha...? — Questionou o canídeo.





— Às vezes, eu me pego pensando nisso... — Concordou brevemente — … Mas, não sei...




Wilde deu um suspiro e seguiu — Bom... Eu tenho certeza...




Judy lhe lançou um olhar intrigado.





— ... Pra mim, essa é a explicação canônica do passado dessa heroína que faz esse mundo melhor... — Judy sorriu com a declaração do raposo...




— ... E, inclusive...








... que também lhe retribuiu um olhar emocionado.










— ... Ser o farol que iluminou minha vida…













— … ‘Oficial Judy Hopps’. — Terminou Nick Wilde.












Estarrecida, Judy deu um breve suspiro e fechou os olhos tranquilamente.




— ... Como que eu poderia não ter salvo... Se você também me salvou várias vezes...




Nick continuou com o olhar atencioso.




— ... Sabe... — Levantando as costas, Judy colocou-se sentada no chão novamente — … Quando a gente se encontrou aquela segunda vez, eu fiquei com tanta raiva de você ter me enganado... Eu fiquei furiosa e... Ai... haha…! — Riu a coelha com a pata na testa — ... A primeira vez que você me chamou de 'Cenourinha', eu fiquei com vontade de te esganar, você não faz ideia...!




— Isso seria abuso de autoridade... — Ironizou Nick, ainda deitado no chão.




— Seria mesmo, por isso me segurei… Foi o que salvou a sua vida aquela vez. E aí, toda hora era 'Cenourinha pra cá', ‘Oficial Tchoo-tchoo pra lá...'! — Wilde deu uma risada genuína com o 'tchoo-tchoo' — E eu ficava, 'Poxa, eu já te falei meu nome, caramba!'...











— ... E aí, veio o primeiro 'Oficial Hopps'... Lá no teleférico do Distrito Florestal...









— ... E então, algumas horas depois disso... Depois que fugimos do sanatório...







Wilde fez uma expressão um pouco mais séria.








— ... O primeiro 'Judy'.










E o raposo ergueu-se também, com surpresa no semblante.




— Ahhh, coelha esperta...! — Deu um soquinho — ... Então, você escutou...




— Não foi proposital... Eu caí mais fundo do que imaginava que cairia... — Justificou-se a roedora — ... Mas sim, eu escutei... E foi naquele momento que eu percebi de vez que você era diferente...



— ‘Ah, agora eu sou diferente…’ — Nick disse num tom familiar que arrepiou os pêlos de Hopps, que lhe deu um olhar assustado para encontrar a típica face cínica de Wilde.



— Ah, que susto, seu… 'Raporoso'... 'Rapo-ranporoso'... Hã...? — Judy fez um gesto girando a palma com dois dedos erguidos junto de uma cara abobalhada.



— Nooooooossa, Hopps...!! — Wilde cobriu o rosto em sofrimento auditivo — Noooooooooooooooossaaaaaaaaaaaaaaaa...!!!!



— Tá, essa foi tenebrosa, hahahahahaha!! — Riu por um sorriso amarelo do drama do raposo — ... Mas o fato é que, por mais que por um lado eu ficasse furiosa por você não me levar a sério...







— ... Por outro, eu estava admirada com a sua inteligência...




— ... É basicamente uma via de mão dupla... — Judy discorria sob um sorriso satisfeito do raposo — ... Eu teria simplesmente morrido na praia com o caso do Senhor Lontrosa... Você me ajudou com tantas pistas, com sacadas que eu jamais teria pensado sozinha... Quando eu disse que você daria um ótimo policial, não foi só da boca pra fora... Eu não podia desperdiçar aquele talento, eu precisava ter ele do nosso lado...!






E a coelha tornou a encontrar o semblante de seu parceiro.






— ... E eu sei que você poderia ter me deixado para morrer com o Senhor Manchas... Você conseguia pegar aquele teleférico... — A fala mórbida, porém, necessária, causou certo desconforto em Nick — E você se colocou entre mim e o Chefe Bogo, salvando a carreira policial dessa coelha insegura...








— ... Mas foi quando você finalmente disse meu nome que eu me decidi... Eu PRECISAVA ter esse cara do MEU lado.




Um momento de vislumbre mútuo sucedeu aquela declaração pura da coelha... Foi o suficiente para Nick Wilde perceber que deveria retribuir à altura.










— Faço de suas palavras as minhas... — Começou com o olhar para o céu estrelado — ... Realmente, foi uma via de mão dupla... Quando você começou a me chantagear com a caneta, eu fiquei furioso mas, mesmo assim, não queria quebrar minha muralha sentimental... Só entrei na sua dança pra ver até onde ia dar...




— De fato... Tinha horas que você fazia caras que eu achava que você ia me morder...




— E eu queria... — Assentiu o predador — Eu tinha meios para sumir de vista e você nunca mais me encontraria, o mundo jamais iria ouvir falar novamente de Nicholas Wilde por sua causa... E a cada vez que você antecipava meus passos, eu pensava 'Ah, coelha filha da p-'


— HAHAHAHAHAHAHAHA!! — Hopps gargalhou com a frustração de Wilde.




— ... Mas aí, eu percebi que aquela guardinha de trânsito tinha um peixe grande na mão... E ela estava determinada em resolver aquele desaparecimento, mesmo que fosse necessário dar de dedo na cara do maior chefão do crime de Tundralândia...





Wilde virou o rosto para a admirada Hopps.






— ... Eu precisava ajudá-la... Eu precisava fazer parte disso... Eu estava finalmente ajudando alguém, eu-eu... eu nunca...






E voltou um olhar emocionado para o céu.









— ... Eu nunca tinha me sentido tão vivo…









Tornou o rosto para baixo — Assim como você diz que eu poderia ter subido no teleférico para fugir do Senhor Manchas, você também poderia ter escapado ao invés de algemá-lo... — Prosseguiu — ... Eu já era praticamente um petisco de raposa...




— Nick, nem ferrando... — A coelha pareceu incomodada, enquanto Wilde apenas lhe riu brevemente.






— ... Sabe porque eu gritei pelo seu nome aquela hora...?





Judy engoliu em seco, aguardando a resposta.






— ... Porque você me ensinou a confiar... — Voltou a observar o céu — ... Você abriu meus olhos para ver que o mundo nem sempre veria uma raposa como traiçoeira e não confiável... Que vale a pena se esforçar para ser um animal melhor… E eu queria saber o que mais poderia aprender com aquela guarda de trânsito…




— Idem… — Adicionou a coelha — … Que bom que essa nossa aposta de um no outro rendeu bons frutos…



— Eu que o diga… Finalmente, eu faço parte de um grupo… — Nick Wilde proporcionou um olhar extremamente sentimental ao céu — … Tenho alguém que ficaria orgulhosa disso…





Hopps não precisou perguntar quem era, captando nas entrelinhas através de experiências passadas compartilhadas pelo raposo.





— Seu treinamento na academia do DPZ… — Murmurava a roedora — … O caso com os Lincesleys…



— A luta contra Savage… — Colaborou o canídeo — … Caramba, foram meses muito corridos…!



— Algumas mancadinhas aqui e ali, convenhamos… — Hopps lhe deu um sorriso amarelo.



— Deixa estar… — Wilde deu de ombros — … Depois de refletir sobre tudo isso que passamos, não quero pensar nas ‘mancadinhas’…







— … A única coisa que eu consigo pensar agora, é que aquela coelha fofa que me salvou do ostracismo, me deu motivos para viver... E não apenas sobreviver...















— ... Obrigado... Minha Judy...!









— Ah, eu não acredito...! — Boquiaberta, a coelha lhe deu um olhar estarrecido — Dessa vez você não tem como falar que é mentira!!



— Dessa vez, realmente não... — O raposo respondeu com expressão tranquila, apontando um indicador para a coelha — Mas daquela vez que você tanto fala si-


— Nick, têm metade do comando de prova...! — Ambos começaram uma repentina discussão sobre algum episódio distante — Aquela desculpinha de 'ainn, você tava sonhando, Cenourinha' não cola!



— Primeiramente, A: eu não falo assim, minha voz é mais 'sexy'... — Corrigindo sua imitação, Nick colocou-se sentado — E B: Vocês todos estavam sonhando.



— Aaahhhh, sonho coletivo então, é?? — Judy deu de ombros — Pra cima de mim, cachorro laranja??



— Efeito Gazela, então! Se não estavam sonhando, é Efeito Gazela...!





Ambos riram com a repentina discussão, um bem-vindo momento descontraído para uma noite tão reflexiva.








— ... A diferença...




O raposo prosseguiu, fitando Judy refletida em seus olhos esmeraldas e lentamente aproximando-se da coelha.






— ... É que eu não estou sonhando agora.






Hopps repetiu o mesmo olhar, também vislumbrando o raposo refletido em seus olhos púrpuras e atraindo-se até ele...






— É, mas pra desencargo de consciência:


— AAUUU!!!!






... E Judy tacou um repentino beliscão no braço de Nick, que deu um sonoro uivo de raposa.




— É, não está sonhando, AHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!!



A roedora ria histericamente batendo seus pés no chão, enquanto o irritado canídeo coçava a região do beliscão... — HAHAHAHEHEHEH-AAAAAIIIIIII!!!!!!!


... Devolvendo uma merecida pinçada no pequeno rabinho da coelha, direcionada cirurgicamente num nervo para garantir maior dano possível.



— É, você também não... — Provocou orgulhoso enquanto a emburrada coelha lhe dava múltiplos soquinhos no braço, mas logo divertindo-se também com aquela palhaçada...





... Seguida por outra troca de olhares... Mais uma rodada de flerte, com Wilde fechando seus olhos e arqueando os lábios pretos para fechar aquela noite com chave de ouro...








— Ah, nã-nã-nã, calma aí, raposão...!



... Para ser surpreendido com um dedo posto em frente à sua boca.



Com olhar estrábico, Nick fitou surpreso ao indicador, em seguida para a sorridente Judy em sua frente — ... Eu quero isso tanto quanto você mas, antes, só tem mais uma última coisa que quero pedir...




Nick corrigiu sua postura, aguardando pelas instruções.






— ... Olhe novamente para a pousada.







E foi quando o canídeo se deu conta... De fato, ele tinha até esquecido estar do lado daquelas desprezíveis ruínas. Wilde relutou, mas fez após um assentir de cabeça de Hopps.



E ali elas estavam, inalteradas... Continuavam exatamente a mesma pilha sombria de entulhos, nada mudou...





— ... Como você se sente?












... mas, ao mesmo tempo...














— Eu... eu-eu...













... tudo mudou.



















— ... gosto daqui.












Foi a primeira vez que Nick Wilde conseguiu demonstrar alegria ao olhar aquele lugar.




O raposo observava sorridente aos resquícios daquela casa abandonada, que provavelmente foi fonte de felicidade para muita gente em tempos passados… E, mesmo destruída, acabou de ser figurante de um dos momentos mais agradáveis de sua vida… Nick retornou este mesmo olhar sereno para sua parceira, que assentiu e preparou-se para o aguardado beijo...



























— YA, VOCÊS GOSTAR MESMO DESSA LUGAR, HEIN!







... Interrompido novamente.




— Ah, eu não acredito...! — Bufou o raposo ao ouvir aquela voz familiar.



— Oii, boa noite! — Hopps, por sua vez, tomou uma conduta mais simpática com a cabra montanhista.



— Ya, boa noite! Vocês fazer um estrago aqui aquela dia, ya? — Disse o cabrito apontando para as ruínas da pousada, deixando ambos desconcertados.



— Éééé... Na verdade, não foi só a gente... — Judy falou por um sorriso amarelo, enquanto Nick permanecia corado de braços cruzados, olhando emburrado pro lado.



— Ya, não estavam sozinhos? — Ele coçou a barba — Essa juventude de hoje é mesmo animad-


— AAHHH, CALA A BOCA!! — Wilde berrou em intenso vexame.



— Ei, e, a propósito... — De olhar para a cabra de andador, Hopps apoiou uma pata no peito do envergonhado raposo — ... Onde está o seu parceiro...?




— Ah, ele finalmente descansar, ya...




Coelha e raposa ficaram estarrecidos com a informação, se entreolhando com ligeira angústia.




— Eu... sinto muito... — A roedora murmurou enquanto a caprino mastigava um ramo de flores-do-amor que estava próximo.




— Ya, obrigado... — Disse desajeitadamente de boca cheia, um pouco discrepante com a expressão triste de Hopps e Wilde — ... Mas isso que acontece quando ele não me obedecer!



— Como é? — Ambos lhe olharam confusos.



— Eu falar que não tem como subir a montanha sem descansar... — Resmungou olhando para trás, como se tivesse esperando alguém — Ya, finalmente você chegar! Da próxima vez, vê se não tentar subir tudo de uma vez!



— Ya, ya, você estar certo! — O outro bode de bengala chegou ao local após alguns pulos — Ya, olha, é o casal que detonar a pousada aquela dia!



— Ah, vão se f-



(...) Décimo segundo dia.




— ... Eeeee, tome outro Animality!






Manhã na Pousada Nova Lua de Mel... Um massacre ocorria no quarto 23.




— Ah, não é possível isso!!



— Realmente, não achava possível alguém ser tão ruim em video game...







Nick Wilde vangloriava-se da sua décima segunda vitória seguida sobre Judy Hopps, sendo implacável contra a coelha na jogatina de Mortal Wombat.




— Olha, olha só como que o Scorpion fatia o Reptile! Que daora!! — O animado raposo apontava para a televisão.



— Ah, cansei desse jogo...! — Cuspiu a emburrada coelha, de cara fechada e braços cruzados.



— É como eu te disse em Tundralândia quando eu era só um estagiário... — Apontou cinicamente para a roedora — Você não sabe perder!



— MAS DOZE VEZES??! — Exclamou com as patas ao alto, após batendo-as em suas coxas.



— Treze... — Wilde fechou o olhar e gesticulou com o braço em direção à Judy, como se a puxasse com uma corda — 'GET OVER HERE!!!'




E a coelha entrou no teatrinho, sendo 'puxada' para a beira da cama de Wilde — Sabe...








— ... Perder assim até que não é tão ruim...












*TOC TOC*




— ... Ah... — Bufou o raposo — Pode entrar!



O pequeno clima se desfez com a ronda rotineira de Amber Raposina, com ambos coelha e raposa disfarçando estarem só conversando.



— Olá para ambos...! — A enfermeira adentrou edudacamente — Nick, vamos trocar o seu gesso?



— Bora! — Concordou o canídeo — Já vai ser a retirada do gesso? Eu quero estrear logo a minha Jeguzzi!



— Ainda não, mais uns três ou quatro dias!



Wilde bufou como uma criança mimada.



— Esse gesso não pode ser molhado, Amber? — Indagou Hopps.



— Este não... Se não, ele perde a capacidade de proteger a patinha desse mocinho aqui! — Wilde ergueu as orelhas em desconforto com a fala de Raposina.



— Ah, pobrezinho do doguinho, 'omedeuso'...



Judy afagou a testa de Nick, que se afastou revoltado — Querem parar de me tratar como um bichinho de estimação??



— Ele fica uma graça quando tá envergonhado, né? — A coelha comentou empolgada para a enfermeira, fingindo que Nick não estava ali.


— Ei!


— É que você não viu quando eu borrifo o 'Chettah Número Cinco' aqui, ele finge que não gosta, mas depois fica farejando com uma carinha de paz, hahahahahaha!!


— Hahahahahahahaha!!!


— Grrrrr...!!! — Wilde enfiou-se rosnando debaixo de suas cobertas, sabendo que não poderia vencer o florescimento daquela amizade entre duas mulheres com um gosto em comum: lhe atazanar.



— Amber, você é um doce de raposa... A gente precisa marcar de tomar um café juntas algum dia...! — Declarou a empolgada coelha com uma pata em seu ombro — Daria até pra chamar o seu marido, pro Nick e eu conhecermos ele...



— Ah, tipo um encontro de casais?



— Isso, tipo um encon… tro... de… ca…-



Concordando acidentalmente, Hopps corou intensamente com a provocação intencional de Raposina, evoluindo até um intenso vexame.



— HÁ, tomou papuda! — Nick teve sua desforra, saindo rapidamente debaixo de sua toca improvisada.



— É, parece que não é só o Senhor Wilde que fica uma graça quando envergonhado... — Lançou a enfermeira.



— Raposa esperta! — Wilde e Hopps disseram em uníssono.



— ... Mas, agradeço o convite ao meu marido, porém, creio que não será possível... — Gentilmente, Raposina pareceu desanimada em ter que recusar — Ele… é um homem muito ocupado.



— Que pena… — Judy abaixou suas orelhas em desânimo.



— Mas vamos marcar entre nós antes do Senhor Wilde receber alta… Pode ser por aqui mesmo, uma tarde no refeitório! — Disse indo para a saída do quarto — Vou buscar os materiais para trocar do gesso!








— Que amor de raposa... — Suspirou Judy.



— Ah, eu vou ficar com ciúme, hein! — Provocou o canídeo piadista, com um olhar entediado da coelha — E aí, no que vai querer continuar perdendo agora?



— Na verdade, eu que vou propor um jogo pra você agora... — A roedora apontou para o rosto de seu parceiro — Assim, eu garanto que se você ganhar é porque você é bom mesmo, e não porque tá trapaceando!



— 'Quá-quá-quá-quá-quá' pra você, patinha! — O raposo gesticulou uma mão com seus dedos, recebendo um tapa na mesma — E qual seria?



— Se chama C e S... Eu jogava com meus irmãos quando era filhote... — Falou Judy com um certo ar nostálgico — ... Conhece?



— Nunca ouvi falar... — Retribuiu Nick, por meio de sua tradicional expressão debochada — Você está querendo jogar uma brincadeira de criança com esse marmanjo de trinta e poucos anos, coelha boba?



— Ah, Nick, eu joguei seus jogos e tomei uma sova... — Retrucou a coelha — Entra no clima...



E quando Nick lhe fitou com um olhar de superioridade bem familiar, Hopps copiou aquele semblante — ... Já sei...!




— ... Você tá com medo de perder pra mim num jogo de criança, né?




Wilde ergueu as orelhas.



— Eu ganho de você em QUALQUER jogo... — Frisou um pouco de seriedade em sua anedota — E não preciso provar que sou capaz disso.



— 'Pópópó, póópópó!' — Hopps fingiu ciscar pelo quarto, alfinetando o raposo que rangia os dentes.



— Tá, vamo lá...! — Deu-se por vencido — Mas que fique claro que eu não caí no seu joguinho mental, eu só quero provar meu ponto! Quais são as regras?



— Tá bem, 'Nicocoricó' Wilde! — Lhe deu um soquinho — A gente tem que falar palavras únicas, uma de cada vez, e que tenham relação direta com a palavra anterior, sem repetir palavras e sem falar palavras que começam com C ou com S!



— Que joguinho de criança... — Rosnou entediado o canídeo por entre dentes cerrados.



— A primeira palavra é livre! — Hopps escolheu apenas ignorar a rabugenta reclamada — Eu começo!:




Planta! —



Wilde revirou os olhos, mas entrou na brincadeira.



— Grama.

Árvore! —



— Folha.

O raposo falou com mais rapidez.



Galhos! —



— Tronco!



Madeira! —



— Móveis!

Nick parecia estar tomando gosto pelo jogo.



Armário! —



— Prateleira!



PRATOS! —



— Facas!



Garfos! —

Judy fitou o raposo prevendo cair em sua armadilha.



— Louça!

Wilde piscou para a coelha, que bufou prevendo claramente um 'colheres'.



Hunf… Pia. —



— Detergente.



Esponja! —



— Banho.



Chuveiro! —



E então, Nick fitou confuso à Judy, que se tocou ter perdido o jogo.


— Droga! É com C! — Bateu em sua própria coxa — Pra um joguinho de criança, até que você foi bem...



— E agora...? — Nick indagou olhando para os lados, enquanto Raposina voltava com alguns instrumentos hospitalares para manutenção do seu gesso — ... O que acontece?




— Nós vamos de volta! — Hopps estava radiante, empolgada com a brincadeira — Você ganhou, você começa! Qualquer palavra sem C e S.





— Hmmm... — O raposo matutou com a pata em frente ao focinho — ... Gesso!



Pata! —



— Pernas!



Pés! —



— Quebrados!

Wilde já conseguia sorrir com a escolha de palavras, por mais que Judy tenha murmurado um 'que horror' para o raposo.



Hospital! —



— Não tem muito a ver com 'quebrados', não? — Questionou o canídeo.



Mas tem a ver com 'ossos quebrados' —



— Mas você não tinha dito que era só a última? Dá pra combinar em contexto então?



Ah, tá, vai, 'vidro' então — Bufou a roedora — Trapaceiro... —



Wilde lhe deu um sorriso malicioso — Quebrar.



'Quebrar' já foi! — Exclamou Judy, que parecia já estar se arrependendo daquela ideia —



— Não, senhora, 'QUEBRADOS' já foi... — Nick estava desfrutando daquilo — Vai, 'quebrar'...



Ossos... —

Judy queria quebrar os ossos daquela raposa.



— Engessar.

Hopps puxou ar para protestar, mas o olhar astuto de Wilde já mostrava que ele estava um passo à frente… Apenas ‘gesso’ havia sido citado.



Maldito... —



— 'Maldito' não tem a ver com 'engessar'...

Nick brincava com o perigo.



Quieto!... Hospital! E nem vem, hospital engessa! — Judy claramente tinha um apartamento alugado em sua cabeça, com Wilde apenas

concordando —



— Enfermeira.

— Nick apontou para Raposina, que só lhe deu uma olhada de canto.



RAPOSA! —

Judy aproveitou a deixa, empolgada.



— Ué? — Nick, por sua vez, lhe observou de semblante cínico.

— O que raios 'raposa' e 'enfermeira' tem a ver?



Ué, você tem literalmente uma raposa enfermeira, jumento! — Apontou com as duas mãos abertas na direção de Amber —



— Então, qualquer profissão eu posso falar qualquer animal, supondo que vai ter um animal naquela profissão? — Hopps parecia querer estrangular o raposo — Xeque-mate, Cenourinha, você perdeu mais uma! Vamos lá:



— Raposa!

Nick apontou um polegar para si.



Coelha! —

Judy fez o mesmo, e Nick só lhe encarou para que ela se desse conta — AAAAHHHHHHH, ISSO NÃO VALE!!! —



— Não vale? — Wilde fingiu um drama com uma pata no peito — Oh, o que eu fiz?



Você me induziu ao erro! — Hopps lhe apontou um dedo em frente ao focinho —



— Negativo, você errou porque é uma coelha boba! — Ele abaixou o braço da roedora — Vai lá, 'Boba'!



Trapaceiro... —



— Golpe.



Patolés...! —



— Tá, essa foi boa...! — Admitiu o canídeo — Gelado.






E prosseguiram por algum tempo, enquanto Amber Raposina divertia-se silenciosamente com a sintonia daquela dupla... Por mais que o jogo tenha ficado um pouco competitivo demais em certo ponto.






— Estou saindo... Até! — Raposina disse levando seus utensílios, com Wilde acenando tranquilamente enquanto Judy Hopps tinha um olhar sanguinário para o raposo, após perder outra rodada.



— Não fica assim, Oficial Tchoo-Tchoo...



Coçou o papo da coelha com um dedo, logo sendo retirado pela furiosa e bufante roedora — ... Começa... Logo...! —



— Hmm... ENTRANDO!



Saind- AAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHH!!!!! —



— HAHAHAHAHAHAHA!! — Wilde caiu na gargalhada enquanto Hopps pegou uma das suas próprias orelhas para roer em frustração — HÔHÔ, esse é o melhor jogo que já joguei na vida!! Hehehe, vamo pra outra, vamo, vamo!



Não, eu cansei desse jogo também! —





Com semblante tranquilo, Nick Wilde observava a má perdedora coelha de braços cruzados e fazendo beiço.




— ... Tá, então, que tal isso: — Apontou um indicador o canídeo — Todo dia vamos jogar um rodada de C e S, se você me vencer até o dia que acabar minha estadia aqui...






Tremendo o focinho, Judy Hopps tornou um olhar curioso à raposa.






— ... Você ganha um prêmio.







Terminou o antigo golpista das ruas com a pata esticada — ... Aceita esse acordo, 'Trudy Couveflores'?



— E... se eu não ganhar...? — Indagou a meio caminho de aceitar, ainda indecisa.



— Eu não tinha parado pra pensar nisso, mas... — Nick fez um olhar pensativo com uma pata no queixo — ... Bom, já que você ofereceu, você lava minhas roupas por um mês... Topa?



— Clichê, hein, 'Rick Wilde'? — A roedora apertou sua pata selando a aposta — Aceito esse acordo... Vai lá, começa!



— Pera, já??



— É claro! Por 'jogar todo dia' eu entendo por 'a partir do dia que fechamos a aposta', o que acabou de acontecer... — Lhe apontou um indicador — Toda chance é válida, então, pode começar...!



Wilde lhe retribuiu um breve sorriso e deu início...



— Terminar.



C-... Iniciar! —




A raposa assentiu com o escape de sua armadilha pela coelha... Manter aquela aposta poderia não ser tão fácil...










(...)





— Teclar!


Discar! —


Ligar! —

Ch-... Atender! —



— Quase, hein…! — Telefone!

Celul… —



— Opa!!


Não! Eu não terminei! —



— Você falou a maior parte, perdeu outra, Cenourinha!



… Trapaceiro… —




(...)



Outro dia… Outra tentativa.

Mochila! —


— Mala.

Alça! —


— Levar!

Judy claramente esperava um ‘carregar’.

… Bagagem… —


— Rodas!


Ca-... PNEUS!! Pneus…! —



Nick deu um olhar desconfiado para a coelha, que tinha um semblante agoniado — … Tá, essa passa… Rodar.

Girar —


— Girassol!

Girassol?? —


— Girassol gira… Tá até no nome…


Hmm… Flor…! —


— Margarida.

Violeta! — Judy deu uma piscada violeta —


— Lavanda!

Roxo! Vai, fala logo o que você quer falar… —


— MIRTILO!! AEEEEEEE!!!

Ai, ai… Fruta… —


— Uvas!


Ca-... Vinho — Hopps quase deixou escapar um ‘cacho’ —



— Alcoólico… — Wilde deu um piscar de olhos — … Coelha bêbada…


Cerveja… —




… AAAAAAAHHHHHHHH, MERDAAAAA!!! —





Nick nem se deu o trabalho de comemorar… Era como se estivesse predestinado àquela vitória.



— Ahhh, que droga… — Judy bufou largada na grande almofada azul do quarto de Nick — Eu cheguei tão perto dessa vez…!



— Fofa, você foi muito bem… — Hopps claramente foi fisgada pelo ‘fofa’ — … Porém, ‘chegar perto’ é forçar a barra… Melhor sorte amanhã!






(...)



NICK:

Sério mesmo??



CENOURINHA:

Sim… Desculpa, eu não consigo recusar um favor pedido pelo Chefe Bogo…





Tarde fria em Koppenhöffen… Nick Wilde estava envolvido numa conversa por Whatszoop com sua parceira, com seu semblante demonstrando certo desânimo com a pauta em questão, a ausência de uma prometida visita de Judy Hopps naquele dia.





NICK:

Ah, como se eu não soubesse disso!



NICK:

Que crocodilagem ele fazer isso assim de sopetão…



CENOURINHA:

Ele disse que precisava sair… Bem estranho, na verdade…



CENOURINHA:

O Chefe sempre é tão dedicado pelo DPZ…



NICK:

É? Que saia então…



NICK:

Eu queria que aquele búfalo bafo de peixe aparecesse agora na minha frente pra ele ver o que é bom!





— OFICIAL WILDE!!




— GAAAAAAAHHHH!!!!!!




O desejo de Nick realizou-se como se fosse um pedido para uma estrela cadente. O búfalo Bogo surgiu repentinamente na porta de seu quarto, fazendo a raposa jogar o celular longe e encolher-se enquanto seu chefe aproximava-se com cara de poucos amigos.




— C-Chefe, que visita agradável…! — O canídeo sussurrava de ombros encolhidos, encarando o grandalhão que aproximava-se entre bufadas mal-humoradas…







… Aproximando-se o suficiente para estender uma pata.







— É bom ver que meu cadete está inteiro.









A atitude gentil surpreendeu o assustado Wilde, que logo retribuiu o aperto de patas, mais tranquilamente, vislumbrando seu colega Benjamin Garramansa chegando ao quarto acabando-se em rosquinhas — Wiiiilde, amigão! Cê tá vivo!!





Os três policiais trocaram breves resenhas sobre os últimos dias, Nick desfrutou bastante daquele aspecto mais informal de seus colegas de trabalho, por mais que Garramansa e Bogo estivessem com a farda do DPZ.





— ‘Trudy Couveflores’ e ‘Rick Wilde’? Hahahahaha!! Minha nossa, de onde vocês tiram essas ideias?? — Questionou Bogo, rindo das peripécias elaboradas por coelha e raposa para capturar a fugitiva EX-Prefeita Bellwether.



— Ah, nem te conto… — Não poderia mesmo, provavelmente o chefe de Nick não ficaria muito contente em saber que dois de seus oficiais possuem laços estreitos com a máfia, de onde receberam seus peculiares pseudônimos… — Mas a Cenou-... Hopps, mandou muito bem com o trabalho de investigação para chegar até a Bellwether… Tenho certeza que ela continua mandando benzaço pelo DPZ!





E foi então que Bogo e Garramansa se entreolharam com expressões ligeiramente sérias, o que foi percebido pelo raposo — … O que… foi, Chefe…?




— Olha, Wilde... Eu vou te falar uma coisa não como Chefe Bogo... Mas sim, como Hodari Bogo…




Disse serenamente o bisão, na altura do rosto de Wilde.




— ... A Judy Hopps é uma das agentes mais dedicadas que já conheci nos tempos de DPZ e, aliado ao fato dela amar o que faz, a torna uma das policiais mais fantásticas e promissoras de Zootopia...










— ... Porém...








Bogo colocou uma pata sobre o ombro esquerdo de Nick.









— ... Há uma coisa que ela ama mais que a carreira policial...










A raposa ficou levemente boquiaberta.








— ... E ela ficar distante dessa coisa, apesar de não comprometer seu desempenho profissional, nitidamente, tira o brilho que normalmente está presente em seu rosto...








Nick Wilde estava desacreditado.




— Chefe Bogo, isso... Isso é...-








— O Chefinho tá querendo dizer que ele está 'shippando' vocês dois, Wilde!



— GARRAMANSA!!!







O búfalo rapidamente voltou ao seu estilo rígido, claramente desconfortável com a observação do guepardo, que se encolheu com as patas em frente ao corpo.



— Ma-ma-mas foi você que falou, Chefinho...! — Garramansa apontava um dedo para os dois agentes presentes no quarto — Vo-vo-você até falou que eles eram tão 'piticos' e-


— CALABOCA, GARRAMANSA!! — Interrompeu Bogo, apontando um dedo de seu casco para o felino e suspirando em seguida — ... Ah...! ... Olha, Wilde... É como eu já disse para a Agente Hopps quando houve aquele incidente do Zootenário... Eu tento não sentir empatia por vocês, mas... Eu já tenho...







— ... E o que me preocupa, é que já não é nem mais empatia... E, sim, simpatia.





A raposa proveu um discreto sorriso humilde de satisfação — Chefe, isso é... Muito amável de sua parte... Pera aí, você me chamou de 'coisa'?? — Mudou repentinamente o tom para indignação, causando breve riso em seus colegas.



— Nicholas... — Bogo abaixou-se novamente, de semblante sereno... — Você às vezes é um calo no meu pé, tagarela muito e enche o saco... — A raposa se encolheu numa cômica expressão desconcertada.



— ... Mas, pelos feitos que ajudaram Zootopia a se tornar um lugar melhor, e pelo bem que você faz para a Agente Hopps, eu devo dizer...






— Mesmo tendo menos da metade da minha altura, você é um grande homem.




Primeiramente surpreso, Nick logo esboçou um sorriso ligeiramente envergonhado — Uau, isso... Isso significa muito...! — Disse o canídeo coçando a nuca — E olha que nem escovei os dentes hoje...!





Bogo assentiu... E então, seu semblante tranquilo subitamente transmutou-se numa carranca rígida.



— Certo, eu te falei essas palavras como Hodari Bogo, agora, vou te falar uma coisa como CHEFE Bogo — Enfatizou sua posição de superioridade, colocando-se de postura ereta.




— Ihhh, tava bom demais... — Nick fez uma expressão entediada.



— AGENTE WILDE!!... — A raposa arregalou os olhos, atenta após o urro do búfalo — Por mais que eu torça por você e pela Agente Hopps, eu tenho que lhe recordar que o ambiente de trabalho não é um local adequado para troca de carícias...!!




Desconcertado e com as orelhas abaixadas, Wilde estampou um tosco sorriso amarelo em seu focinho — ... Hehe...! ... Doooo queeee... você tá falando...??? — Murmurou entre os dentes cerrados e cabeça encolhida pra dentro dos ombros.




— 14 de maio, cerca de doze dias atrás... Por que que dois agentes estavam animadamente agarrando-se dentro da sala do arquivo no subsolo 2B do DPZ???




A indagação do búfalo fez Wilde suar frio — O-o-olha, se f-for o que eu tô pensando, a Judy escorregou e caiu e-



— Dias 30 de março, 6 e 25 de abril e 3 de maio ela também escorregou??




A raposa engoliu em seco, sem ter mais artimanhas para se defender, enquanto Garramansa estava com as mãos fechadas próximo ao queixo, parecendo animado com a exposição.






— Há câmeras em todo o DPZ, Agente Wilde... — Continuou o búfalo — E espero que essa informação seja o suficiente para vocês dois controlarem seus feromônios.



— Sim, e isso que vocês só ficaram nos beijos... — Garramansa não resistiu a pontuar sobre — Imagine se vocês se empolgam um pouco mais e resolv-


— GARRAMANSA!!!!



Búfalo e raposa furiosamente calaram o guepardo, com Bogo suspirando novamente — ... Agente Wilde... Eu tenho que zelar pela ordem no departamento... Vocês são uma excelente dupla, mas não vou mais tolerar esse tipo de conduta... Fui claro??






— Puxa, Chefe... — Encurralado, Nick Wilde desceu o rosto, numa rara ocasião de guarda baixa — ...Certo... E-eu... Eu só queria pedir... Só queria pedir...



— Não precisa pedir desculpas, Agente Wilde... — Bogo disse num tom mais tranquilo — ... Só não voltem a repetir isso.










— ... Eu só queria pedir se você não teria alguma gravação do dia 29 de abril, no porão das caldeiras!... — Nick ergueu o rosto e tirou o seu óculos de leitão debaixo da coberta, colocando-o cinicamente no rosto — ... Modéstia à parte, esse dia o pai aqui estava um ANIMAL!
























— Enfermeira...! Enfermeira, ah, querida...! Puf, puf-...



Ofegante, Benjamin Garramansa encostou-se ao lado de uma certa raposa enfermeira que trabalhava por ali.




— Não querendo incomodar, mas um búfalo acabou de atropelar uma raposa no quarto 23...






(...)




— O CHEFE BOGO SABE!!!










Uma aflita e desesperada Judy Hopps berrou ao aparecer repentinamente no quarto de pousada de Nick Wilde, assustando tanto o canídeo, quanto a castora que jogava baralho com ele naquela manhã.



— BOM DIA PRA VOCÊ TAMBÉM, JUDITH!! — Gritou Nibbles Castanheira, afastando seu carteado do olhar do trapaceiro raposo.



— Sabe do quê, Cenourinha?? — Indagou o raposo com uma pata contra o peito.



— Ele sabe que… Err… — Hopps parecia um pouco incerta em continuar, dando olhares afoitos para a dupla — … Sabe que… que…



— Ih, já sei…! — Nibbles pulou de sua banqueta e se dirigiu em direção ao banheiro — É segredinho… Castanheira, hora de tirar água do joelho!



— Ei, você precisa levar suas cartas também?? — Resmungou a raposa.



— Lógico, senão um certo trapaceiro vai espiar! — Exclamou já da porta do lavabo.



— Como se eu precisasse disso pra ganhar de você, PATONA! — A castora bateu a porta pouco antes de Wilde terminar sua provocação, indo em direção ao vaso com a sinfonia de uma discussão distante ao fundo.





‘... Ele sabe do quê, Cenourinha??’



‘Ele sabe que a gente tá se pegando no DPZ, caramba!’







— Uhhh, se fosse só ele… — Murmurou a roedora, apreciando a fofoca.





‘Ah, ele sabe mesmo…!’



‘Ah, e você fala isso assim com essa cara lavada, como se fosse qualquer coisa? Nick, ele fez eu assistir aquele dia da sala das caldeiras, onde que eu enfio minha cabeça depois que eu vimos a gravação de você me lambendo como se eu fosse um bife??’






— Caraca, quem te viu, quem te vê, hein, Nicholas…!






‘Hehehe, verdade, um bifão!’



‘Não me vem de ‘hehehe’, cachorro laranja…! Nick, a gente precisa dar um jei-Opa!’



‘Ah, Cenourinha! Olha só que bagunça! Não precisa me puxar assim!‘



‘Ai, desculpa! Mas também, por que esse monte de cartas na tua manga??’





— Ah, Nicholas, seu filho da…





‘Enfim, não interessa as cartas, só me ajuda aqui… E a culpa também é sua por insistir tanto, coelha!’



‘Ah, pronto! Você é literalmente, “Nick, vamo?”, “Não”, “Mesmo…?”, “Beleza, vamo”, eu nem preciso insistir’




Olhando ao redor, Nibbles Castanheira encontrou alguns gibis largados.




‘E se a gente encontrasse um lugar sem câmeras?’



‘Você já viu algum assim por lá?’



‘Ah, achei que você ia sugerir pra gente parar, coelha esperta…’





— … Hmmm… Até… que isso aqui é interessante…






‘Ai, cala a boca, Nicholas… Eu só não quero que-’







A castora abstraiu da discussão e estava verdadeiramente entretida com o quadrinho em suas patas.



— Tenho que admitir, esse lado ‘nerd’ do Nicholas é de bom gosto… — Declarou ao terminar o que foi fazer — … Que estranho, ficou tão quieto lá fora…





Castanheira limpou o banheiro e abriu a porta pra sair…



— Gente, vocês ainda estão aq-





… Para dar de cara com raposa e coelha de bocas grudadas num beijo insano.














— … Hmmm…! Hmm-HM??



— ELE-

— ELA-

— TROPEÇOU E CAIU!!!





Ambos exclamaram sob intensa vergonha ao olhar de queixo caído da castora…


















Tropeçar! —


— Desequilibrar!


Estabacar! —



— Boa, hein… — Deu o braço a torcer — Espatifar.


Bater. —



— Pancada.


Soco!... —




… NÃO, NÃO, CHUTE!! —





— Nem um, nem outro… ! Perdeste, orelhuda!


Wilde provocou sob socos de sua algoz.





(...) Décimo sétimo dia.




*Tic… tic… tic…*





— … e levar o Duke Doninha pro DPZzzzzz foi fácil… Acho que ele ficou assssssssusssssstado de ser capturado por uma sssssserpente e colaborou muito ficando petrificado, rssrssrssssss!








Décima sétima noite de estadia de Nick Wilde na Pousada Nova Lua de Mel… Duas visitas aqueciam o gélido ambiente que sofria de uma falha no sistema aquecedor do quarto, aliado à uma frente fria numa combinação quase hilária de tão absurda. Para sorte dessa raposa, seu amigo réptil era dotado de inesperados conhecimentos em mecânica e elétrica.



*Tic… tic… tic…*



— Incrível, Gary…! — Exclamou Judy Hopps, sentada numa chique poltrona numa das arestas do quarto, com Amber Raposina ao lado, recostada na parte alta do móvel — … E pensar que o Duke também foi minha primeira prisão por aqui!



— Esssssssse é um ótimo sinal, então…! — A cobra tornou a concentrar-se em seu ofício — … Ssssssse for pra começar assssssssim e chegar até onde você chegou…!



— Muita gentileza sua, Gary…









*Tic… tic… tic…*






— Fazia tempo que eu não via uma cobra…!


Foi um sussurro que tomou a atenção de Hopps.



— … Pera, você já tinha visto uma cobra antes??






A observação afoita da roedora mobilizou ambas as raposas do quarto e até a víbora, que direcionaram olhares para uma constrangida Amber — … A-ah, eu achei que só tinha pensado alto…! A enfermeira coçou a própria nuca, atrás de suas orelhas — … Mas sim, eu já estive além-fronteiras nessas minhas migrações…



Um pouco curiosa, Hopps trocou um distante olhar com seu parceiro laranja, que tornou a dedilhar irritantemente com as garras um recipiente de vidro em sua cama… *Tic… tic… tic…*



— … Bem, peço licença para buscar a troca de cama do Senhor Wilde… — Amber aproximou-se do réptil — … Gary, vou confirmar a disponibilização do quarto para o senhor.



— Ora, não precisa…! — Respondeu a víbora-de-fosseta, manuseando as ferramentas com destreza.



— Por favor, eu insisto, em nome da Pousada… — Amber barganhou serenamente — … Não seria justo depois de fazê-lo trabalhar em nossas instalações.



*Tic… tic… tic…*



— Bem… Não foi bem um trabalho, mexer nessssssas maquininhassssss que já ssssssalvaram muitassssss ssssserpentessssss já é normal pra mim… — Dizia enquanto apertava um parafuso com uma chave de boca com a ponta de sua cauda — Eu assssss conheço como conheço a palma das minhassssss mãossssss… Aliássssss, eu não assssss tenho, rsssrsssrsssrsss!



Judy forçou um riso e ajudou na barganha — Fica, que amanhã você toma café com o Nick! — Olhou brevemente para o raposo que seguia cutucando a garrafa de vidro, apoiando a cabeça com a outra pata… *Tic… tic… tic…*




— Bom… Já que inssssssisssssstem… Eu aceito!



Gary deu de ombros, ou daria, se tivesse. As moças comemoraram, com Amber saindo do quarto com o gesso recém-retirado de Wilde, Gary voltando ao trabalho e Judy indo finalmente averiguar o comportamento taciturno de seu parceiro raposo.




*Tic… tic… tic…*




— E você, cachorro laranja…? — Questionou preocupada — Que bicho que te mordeu? Você devia estar feliz por estar sem o gesso!



Ele pareceu despertar, puxando-a para perto pela cintura e sussurrando com um sorriso travesso — Cenourinha, chega mais!



— O quê…?! — Judy mal pôde esconder o rubor em seu rosto — O que deu em você, criatura?



— Repara: a língua do Gary aparece a cada três segundos.



— Ai, ai... — Judy encostou a pata direita na testa em desaprovação, mas decidiu observar a peripécia do canídeo.



— ‘Tic, tic, tic…’ Língua! Viu só? Hehehehe! — Riu dando uma leve cotovelada na coelha.



— Isso é certamente alguma ofensa às serpentes… — Murmurou ela, tentando conter o riso — … Nem deixe-o ouvir.



*Tic… tic… tic…tic* — … Ué? Quatro agora…? — As orelhas de Nick se levantaram em curiosidade.



— Raposa boba! — Judy acabou rindo, aliviada... Apenas mais uma das ‘raposices’ de seu parceiro.



— E que tal isso:



Fitando Judy em seu olhar cínico, Nick imitou o balançar de língua de Gary.



— NICK...! — 'Gritou baixinho', segurando o focinho do raposo com uma pata — QUE IDEIA É ESSA…!??



— Ssssss…!! — De olhar provocante, Wilde silvou de boca contida.



— Err... eu… esssssstou interrompendo alguma coisa, pessssssssoal?




O momento de bobeira foi vislumbrado por um envergonhado Gary, sendo observado por olhares constrangidos de raposa e coelha.



— ‘Vochê’ ‘conshertou’? Porque acabou de ficar ‘quenchi’ aqu-AI! — Wilde tentou falar com o focinho imobilizado, sendo golpeado no braço pela roedora.



— Ssssssim! Consssssertado, pesssssssoal — Comemorou Gary após o fechar da maleta de ferramentas, orgulhoso ao ver o aquecedor funcionando sem problemas.



— Valeu Gary, você salvou a noite dessa raposa friorenta! — Judy declarou olhando para o emburrado Nick, que coçava o braço na região em que foi golpeado.



— Bem… Eu vou rasssssstejar por aí e conhecer o meu quarto para deixá-lossssss à sóssssss, rssrssrssrssrss!



E novamente, Gary deixa a língua para fora ao sair, dardejando e mapeando o ambiente atrás de odores — … Uhh, mosssssscadeira!





E, ao ficarem a sós como prometido, Judy adotou uma postura pensativa.



— Aquilo foi muito estranho… — Refletia com uma pata no queixo, enquanto Nick Wilde, num surto de bobeira, ficava dardejando como seu amigo réptil, tentando captar os odores daquele local e fazendo um ruidoso ‘pffttt!’ com a língua.


*pffttt*


— … São poucos mamíferos que já viram uma cobra…!



*pffttt*



*pffttt*?



A ‘raposaconda’ farejou uma presa coelha, aproximando-se lentamente aos dardejares para o bote.






— Nick, você não acha que a Amber está-

*PFFTTT!*



E o dardejar do raposo finalmente tirou Judy do sério — NICK, PÁRA! — Com direito a um tapa em sua língua e uma bronca no espivetado canídeo.



— Ai, qual foi, ‘Chenourinha’…? — Wilde resmungou dolorosamente com a língua estendida, dando um olhar apavorado para a roedora — Ah, nãonãonãonãonão, eu conheço esse olhar, não vai me dizer que cê tá c-


— Não, não é ciúme, Nicholas…! — Interrompeu seriamente — … Eu só acho que… não sei… Você não acha que a Amber às vezes…










— … Não, esquece… Besteira minha… — Abstraiu — … C e S então?



— Faça as honras, Trudy Couveflores! — Garboso, Nick estendeu uma pata.



Cobra! —




— … Sério que isso foi uma tentativa…?




(...)





— Mensalmente!



SemanalmeeeeeAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHH QUE ÓDIO!!! —



— Ai, ai… Já vou pensando quais roupas que a coelha boba vai lavar por primeiro!



Vai sonhando… Ainda tem doze dias até a aposta acabar, eu vou ganhar esse seu prêmio! —





(...)





— Merda…




— … O que que eu vou dar de prêmio para a Cenourinha…?






Nicholas Wilde perguntava-se com aflição, andando livremente pela Pousada Nova Lua de Mel, como se tivesse desbloqueado todas suas capacidades após tirar seu gesso, embora ainda precisasse das muletas para andar.



O raposo havia ido até a recepção localizada no enorme átrio da pousada, entregar a chave da sauna, que foi uma das primeiras regalias que havia aproveitado para experimentar… Agora, sem o incômodo gesso, ele poderia suar à vontade. E, não só pelo calor, mas para pensar como poderia cumprir a sua parte, caso Judy Hopps o vencesse na maratona de C e S. Era inato daquela raposa envolver algum estratagema trambiqueiro em suas atitudes, dessa vez, prometendo algo sem saber se iria cumprir… Provavelmente, pelo entretenimento… Ou, por ter um plano B em mente…



— Certo, muito obrigado, Senhor Wilde! — Agradeceu a iguana da recepção, um bom sinal que os répteis estavam sendo reintegrados naquela sociedade.





Nick assentiu e virou-se para iniciar o caminho de volta ao seu aposento…









— … Olha só, o Senhor Lontrosa chegou com a nossa encomenda!







— Senhor Lontrosa…?



Erguendo suas orelhas, Wilde virou-se para trás, vendo que uma pequena lontra chegava com alguns ajudantes, carregando enormes vasos com flores magníficas, provavelmente novas integrantes do paisagismo da pousada… Porém, o que lhe chamou a atenção foi aquele nome familiar… O ‘responsável indireto’ pela sua parceria inseparável com Judy Hopps.





— Eu ainda vou buscar mais no caminhão, só um momento! — A lontra disse para as recepcionistas, voltando para a saída acompanhado de outra lontra mais jovem.




— Eu disse que ele era um florista de mão cheia…! — Nicholas ouviu de relance as funcionárias cochichando no balcão, apreciando as belíssimas plantas…






— ... É isso!











… Foi o estalo que ele precisava.












— Ei, Senhor Lontrosa!




O florista olhou na direção do chamado, reconhecendo o raposo — Oh, Oficial Wilde!!



— Sam, leve para o caminhão, por favor! — Emmett deixou o vaso que carregava com sua ajudante lontra e foi até o canídeo, lhe dando um breve abraço que causou rápido estranhamento à Nick, ainda desacostumado àquele tipo de afeto.



— Que agradável encontrar você por aqui! — Disse a lontra com entusiasmo — Quem diria que aquele vendedor de Patolés salvaria Zootopia e a minha vida!



— Ah, então você lembra? — Nick surpreendeu-se com a memória do florista.



— Claro que sim... — Deu uma breve cotovelada — E também lembro que alguém quase deixou a gente à deriva na Feira do Brejo...



— Hehehe, ups...! — Wilde riu por um sorriso encabulado, coçando a nuca.



— Relaxa, são ossos do ofício... — Emmett estava tranquilo com aquilo — Mas e então, o que faz por aqui? Uh, você está disfarçado? Acho que é melhor eu não atrapalhar seu traba-



— Não, não, eu não estou trabalhando! — Segurou a lontra que já estava dando de costas — ... Na verdade, eu...












— ... Precisava de um favor seu.





(...) Vigésimo dia.






— ‘Ducks say quack… And fish go blub… And the seal goes ow ow ow’...










A noite envolvia a Pousada Nova Lua de Mel…








— … ‘But there’s one sound… That no one knows!’...








… Enquanto um astro do pop de pelagem laranja, animadamente soltava a voz no banheiro do quarto 23.















— … ‘WHAT DOES THE FOX SAY!!??’






Desfrutando de um banho quente de um tecnológico chuveiro com duchas anguladas em teto e paredes, Wilde vibrava ao som de sua própria melodia, ensaiando passos e usando seu esfregão verde como uma guitarra improvisada — ‘Ring-ding-ding-ding-dingeringeding! Gering-ding-ding-ding-dingeringeding! Gering-ding-ding-ding-dingeringeding…!’








— … WHAT DOES THE FOX SAY??!!!



Terminou a performance com os joelhos dobrados pra frente, a ‘guitarra’ numa das patas e o outro braço levantado pra cima, com dois dedos erguidos em forma de chifre. Uma explosão performática das duchas atrás do raposo carimbou o fim de seu show... Era revigorante poder tomar banhos normais novamente.




— Ah, como é duro ser famoso… — Tirando o excesso de água de seus pêlos, Nick percebeu que havia esquecido sua toalha e troca de roupa para fora do quarto — … Perderia a cabeça se não fosse grudada… Bem…



Com uma expressão soberba, Wilde ergueu os braços e bateu duas palmas, iniciando um forte vendaval vindo dos chuveiros, com ele fechando os olhos enquanto tomava a lufada de ar.



— Ai, que vida sofrida… Se isso é estar na pior, o que será que é estar bem… — Ironizava diante de luxo inigualável a qualquer momento de sua vida. Uma vez seco, ele poderia sair para o seu aposento… Era seu quarto privado, ele não teria que ter receio de estar nu…















— … OLHA SÓ PRA MIM, EU SOU UM BONECO DE POSTO!!









… Até descobrir que sim, deveria… Nunca poderia ser dito quando uma coelha iria invadir seu aposento e vestir suas roupas.






— … VENHAM ATÉ O LEBRESSO!! TEMOS AS MELHORES PROMOÇÕES…!!! — De costas ao banheiro e virando-se lentamente, Judy Hopps balançava vigorosamente o corpo e braços, esvoaçando as compridas mangas da camisa de Nick Wilde que envolvia seu pequeno corpo quase como uma manta — … VENHAM, VENHAM, GASOLINA DE GRAÇA!! ESTAMOS ATÉ DANDO A NOSSA-AAAAAAAAAAAAIIII TÁ PELADO!!!!




— Hã, o q-MERDA!!!



Rapidamente ao vislumbrar o raposo nu, Hopps cobriu seu olhar com as mangas da camisa de Wilde, selando a vista com as orelhas em frente ao corpo, enquanto Nick cobriu sua cintura com a cauda eriçada — CENOURINHA, QUE IDEIA É ESSA???



— VESTE SUAS ROUPAS, CRIATURA!! — Gritou abafada pela camisa de Nick.



— EU VESTIRIA SE VOCÊ NÃO TIVESSE USANDO!! — Replicou enquanto segurava seu rabo, de orelhas caídas em extremo rubor — DÁ ELAS AQUI!



— VAI, TÓ, ANDA…!! — Virada contra o raposo, Hopps se desfez das grandes peças de roupa de Nick… Pra sua sorte, ela havia vestido-as por cima de sua própria roupa — … Pega logo, vai!!



— Coelha maluca…! — Bufou ao alcançar sua indumentária…




















… Reparando pelo reflexo do espelho do banheiro que a mesma espionava seu corpo por um discreto olhar entre as patas.




































— Banheira.


Jeguzzi! —



— Pode falar marcas?


Jeguzzi não é uma marca, ué! —



— Claro que é! É tipo ‘Coala-Cola’ ou ‘Xeroarx’


Desde quando Xeroarx é marca?? —



— O produto é ‘fotocópia’, criatura… Xeroarx é uma marca de fotocopiadoras.


Nem ferrando! —


— Pesquisa, então… E veja que Jeguzzi é uma marca de banheiras de hidromassagem… Se eu tiver certo, que é claro que estou, você perdeu.





Judy Hopps nem disse nada… Apenas fechou a cara ao ver a informação estampada na sua pesquisa Zoogle.






(...)




Glacê! —


— Bolo!


Torta! —


— Reta!


Como assim ‘reta’? O que que isso tem a ver com bolo?? —



— Mas a última palavra foi ‘reta’! Linhas tortas, linhas retas…


Grrrrrrrr… Então, CURVA! —





— PFFFFTT!!!!



— EU VOU TE MATAR, NICHOLAS WILDE!!!!!!

















— Ah, às vezes eu passava pelo rancho e via aquela coelhinha tentando carregar cenouras maiores que ela, tropeçando e se quebrando toda, hahahahaha!!



— Nem olhe assim, Cenourinha, eu já tinha dito que 'Fazendeira' era um bom apelido.



— Grunf...! Raposas...







Judy Hopps fechou a cara com a sabatina de seus amigos canídeos Nick Wilde e Gideon Grey, ambos finalmente tendo um tempo agradável depois de um conturbado primeiro encontro... Porém, a coelha parecia estar se arrependendo de promover aquilo após ter caído na berlinda.




— Ei Gideon, saca só isso aqui! — Wilde mostrou seu celular, com uma foto dele posando com um polegar em pé ao lado de Hopps emburrada com vários cones presos em pernas, braços e cabeça, como se fosse uma estrela — Ela perdeu uma aposta, hahaha!!



— HAHAHAHAHAHAHA!! Bão demais!!



— Ai, vocês são insuportáveis...! — Hopps bufou e levantou-se, indo em direção ao sanitário — Gideon, antes da gente ir, vou usar o banheiro rapidinho...!




A coelha bateu a porta, enquanto o raposo confeiteiro pegava seus pertences, incluindo a travessa vazia que outrora continha uma torta de mirtilo trazida de presente ao raposo policial, devidamente devorada.



— A Judy tem razão... Ocê é mesmo um cara batuta...!



— Não faço ideia do que seja 'batuta', mas suponho que seja bom... — Wilde lhe estendeu a pata esquerda para cumprimento de despedida, coisa que deixou Gideon um pouco atrapalhado, pois ele achava que Nick era destro — ... É bom conhecer outras raposas como você...!



Quando Grey retribuiu o cumprimento de pata, ele reparou na cicatriz que Wilde carregava nas costas da mão — Eita, isso parece que foi feio... Foi o tal Savage que fez isso também? Questionou observando as três marcas de arranhão que se estendiam paralelamente por cerca de oito centímetros.



— Não, isso foi cortesia de Milton Lincesley, durante a Conspiração das Paredes Climáticas... — Respondeu Nick, ainda mantendo a aperto de pata, por mais tempo do que seria o usual...



Quando Gideon entendeu a origem daquilo e tentou desfazer o aperto, Nicholas o firmou ainda mais.







— Elas combinam com as que a Judy têm no rosto...







Wilde intensificou o aperto, falando tranquilamente enquanto encarava um desconfortável Gideon — ... Eu fico imaginando quem teve a capacidade de fazer uma crueldade dessas com aquela coelha fofa... Gostaria muito de ter ele cara a cara comigo...



Por sua vez, a raposa maior engoliu em seco, desviando o olhar.



— Oh, shh, shh, shh, shh...! — Percebendo o desconforto do raposo confeiteiro, Nicholas colocou o braço direito ao redor de suas costas, pousando a pata em seu ombro esquerdo e soltando o aperto de patas — Calma, é claro que não foi você, Gideon... — Sussurrava após sibilos, numa simpatia extremamente hostil — Mas sabe, a última vez que alguém fez mal pra Cenourinha, eu prensei o infeliz com uma empilhadeira e explodi metade do corpo dele...





O semblante agoniado de Grey contrastava com a face calma e discurso contraditoriamente pesado do policial raposo.






— ... Se alguém voltar a fazer mal pra Judy...




Nick Wilde mostrou uma de suas garras e passou pela horizontal sob seu pescoço, cerrando brevemente os dentes e encarando psicoticamente o raposo caipira, aterrorizado de rosto franzido.







— Há! Todo mundo erra um dia...!



E então, Wilde lhe deu uma breve pancada amigável na barriga, voltando ao seu padrão relaxado usual ao ouvir a porta do banheiro abrindo novamente — ... Fica em paz... E obrigado pela torta!




— Pronto... — Hopps declarou ao ressurgir no recinto — Podemos ir, Gideon!



— N-na verdade, agora eu que preciso ir no banheiro...!!




Apressou-se desajeitadamente, batendo a porta sob o olhar confuso de Hopps.



— Tá bom, o que foi que você fez?



— Nada, acho que ele só se assustou com a minha cicatriz...






(...)




— Pneu.

Ônibus! —


— Limousine!

Moto! —


— Habilitação!


Documento! —


— Identidade!


Ficha! —


— Fichário.


Pasta! —


— Macarrão!


Boa, hein! Espaguete!! —


— Ravioli!


Talharim! —


— Penne!


Fusilli! —


— Lasanha!


Pizza! —


— Abacaxi!


Ah, vá a merda né, Nick! —


— Você come pizza com cenoura, que que cê tá falando?? Vai, abacaxi!


Abacate! —


— Melancia!


Laranja! —


— Maracujá!


Flor! —


— Rosa!


Alcachofra! —


— Alcachofra??


Alcachofra é uma flor, fofo! —


— Claro que não!


Então, é o quê? —


— Alcachofra é... Ééé... É alcachofra, ué!


Eu era nota 10 em botânica, sei o que tô falando... Vai, alcachofra! —


— Tá bom, fazendeira... Hmm, plantação!


Fazenda! —


— Rancho!


Horta! —


— Legume!


Rabanete! —


— Nabo! Estamos no tema LEGUME então...


Legume... Cenoura! AH, DROGA!!! VOCÊ ME INDUZIU DE VOLTA!! —



— HAHAHAHAHAHA!! Que maravilha ganha de você justo com ESSA palavra, 'CENOURINHA'...





(...)




— Buraco.


Toca! —


— Fala ‘coelhos’, Tio Nick!


— Ninhada! Tá tudo sobre controle, criançada! ‘Dexa co pai’!


Ninhada… Hmm… —


— Coelhada, Judy!!!


— COELHADA!! COELHADA!!


Quietos, isso é entre eu e ele!! Grrrr… Ninhada, ninhada… —



— ‘TEMPO PARA JUDY HOPPS!’... ‘Tic, tac… Tic, tac… Tic, tac…’


— COELHADA JUDY!!


Sem essa de tempo!! —


— Cinco segundos…


Ahhhhh, espera!! —


— COELHADA!!


— … Dois segundos… ‘Tic, tac…!’


Nnnngggg… COLETIVO! —



— ERROU!!



A ninhada de coelhos lamentou em uníssono, com a coelha maior enfiando as patas na cara.



— O Tio Nick arrebentou, hein!

Cê tá do lado de quem, Louis?? —



















— ‘CORRAM PELAS SUAS VIDAS!!! É O RAPOSILLA!!!!’






Uma atmosfera tenebrosa rondava o quarto de hospedagem de Nick Wilde… O aposento envolto em escuridão abrigava apenas uma discreta fonte de luz, circundada por meia-dúzia de pequenos coelhos, atônitos ao conto do raposo…





— … E o monstruoso kaiju peludo iniciou sua onda de destruição por Pequena Rodência, semeando caos e terror…! — Nick narrava com uma lanterna ligada abaixo de seu focinho, interpretando uma história para os irmãos de Judy que o observavam atônitos — … Seus passos afundavam o asfalto, sua poderosa cauda esmagava prédios e nada era páreo para aquela besta faminta!!



Ao longe, recostada na escuridão, Hopps vislumbrava orgulhosa a habilidade do raposo em prender a atenção dos filhotes.




— … E sua fome era IMPLACÁVEL…!! — Ele fez um súbito aproximar salientando suas presas para um dos filhotes, junto de um olhar sanguinário — Quem não acabava entre as suas mandíbulas, não tinha sorte de descer vivo por sua garganta até o estômago… A radiação do corpo do Raposilla fazia eles virarem CHURRASQUINHO ANTES DISSO!! — Repetiu o mesmo gesto pra outro filhote, passando um dedo sobre o próprio pescoço



— E a cidade não se defendia, Tio Nick?



— Ah, eles tentavam… Mas para Raposilla, era como enfrentar uma frota de carrinhos de brinquedo!! Os tiros de canhão eram como pequenos pedregulhos batendo em sua pele, aumentando ainda mais sua ira… — Wilde estava claramente se divertindo com aquele teatro — … Tanto, mas TANTO, que ele decidiu usar sua principal arma… O urro atômico!!!



— Faz o urro, Raposilla…! — Hopps lançou ao longe, chamando a atenção do colossal monstro laranja para si — … Faz o urro!




— Você quer o urro, coelha boba…?




Nick sorria psicoticamente, devorando a alma de Judy com seu olhar, avançando à lentos passos como um espírito com íris esmeraldas até a coelha que o aguardava com um semblante presunçoso — … O urro do Raposilla pode apagar da existência a alma de quem o escuta…





Wilde desligou a lanterna.






— … Você vai se arrepender.





















*... GRRRAAAAAAAAAAAAA- COF, COF COF,COF…!!!*






Ao ligar a lanterna e gritar ferozmente contra Judy, a raposa se engasgou pateticamente, precisando bater o punho contra o peito.



— Cof, cof…!! Tinham ratos entalados na garganta do Raposilla…! — Arfou sob pancadas, com risadas da ninhada ao fundo.




— Eu acho que o Raposilla só esqueceu sua bomba de asma dentro da toca… — Sacaneou a coelha.




— Ele não precisava disso… — O raposo tornava o olhar para os filhotes, desligando novamente a lanterna no caminho — … Ele era mal… Cruel… Faminto e indomável!! Ele era o…!!!!
















— … RAPOSILLA!!!!!!!!!!!





— ÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊ!!!!!!!!!






Ao que Wilde se esforçou para sua melhor careta, os filhotes simplesmente comemoraram aos aplausos, deixando o predador confuso.



— Tá, não era bem essa reação que eu esperava… — Lançou intrigado de canto de focinho para Hopps que se aproximou.



— As crianças de hoje em dia são diferentes… — A coelha disse enquanto apreciava seus irmãos contentes com a história do ‘Raposilla’ — … Elas gostam mais de ‘Zoopastas’, coisas do tipo ‘Ouriço.exe’ e etcetera…




— Tio Nick, Tio Nick…!! — Um dos filhotes puxava sua camisa — Posso contar minha história de terror agora?? Posso, posso???




— Beleza, manda ver, Louis… — Fez um positivo com a mão para o coelhinho, embora o raposo parecia meio descrente de entreter-se a assustar-se mediante uma crônica de um meigo filhote de coelho…































— … E então, é chegada a hora… Três e trinta e dois da manhã, a hora exata em que você, dentro do banheiro e sozinho dentro de casa, deve apagar a vela e ficar em escuridão total…!
















O filhote de camisa rosa de abotoar, Louis Hopps, narrava sua história com a lanterna ligada sob seu rosto, uma combinação de terror e ternura extremamente agridoce.




— … E assim você permanece, IMÓVEL, de costas para o espelho… Até o momento em que o relógio virar três e trinta e três da madrugada, que é quando você deve VIRAR para o espelho!!






E o pequeno filhote apagou a luz…









— … Você saberá que é o Matuto, porque seu reflexo irá virar um pouco depois de você…













E a ligou novamente — AAAAAAAAAAHHHHHHHH!!!



— AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!!!






— Tá bom, tá bom gente, vamos se acalmando…! — Acendendo a luz do quarto, Judy tentou aquietar os ânimos, enquanto o cronista caía na gargalhada — … Chega de histórias de terror, senão vai ter gente que não vai dormir hoje!




— Aaaaaaaaaaaaaa Judy…!!! — Os coelhos lamentaram em coro.




— Judy, a gente tá acostumado!



— Sim, a gente adora essas histórias!



— Vai ser de boa pra gente dormir, sério!

— Aff...!

A coelha bufou com a mão na testa — … E quem disse que eu tava falando de vocês…?





Entediada, Hopps apontou a pata para a cama do recinto…





… a qual havia um raposo tremendo absurdamente enfiado sob o móvel, apenas com os pés e a grande cauda eriçada pra fora — … C-C-CE-CENOURINHA, N-NÃ-NÃO M-ME DEIXA AQUI SOZINHO COM O MATUTO, P-PO-OR FAVOR…!!!





(...)




Vento! —


— Refrescar


Picolé! —


— Palito!


Madeira! —


— Floresta!


Bosque! —


— Pomar!


Frutas! —


— Verduras!


Legumes! —


— Rabanete!


Você realmente vai tentar isso de volta? —


— Evidentemente que sim.


… Ai… Pepino… —


— Picles!


Conserva! Ah, vai se f- —



(...) Vigésimo quinto dia.




— … ‘... E foi quando finalmente consegui adotar essa pobre raposa no orfanato, que percebi que minha vida havia retomado o sentido… Como você poderia negar um picolé para estes olhos…?


— Olhos cegos, inclusive!



— Ah, verdade, olhos cegos! Bem lembrado, grandalhão…!




Sentados numa mesa de madeira com quatro lugares, Wilde, Hopps e Finnick tomavam café no gazebo da Pousada, compartilhando vivências da época de malandro das ruas da raposa vermelha.



— … E, foi assim que conseguimos suprimentos para Patolés na sorveteria dos rinocerontes.



— Caramba, Nick…! — Incrédula, Hopps colocou as mãos na cintura, virando-se para Finnick ao seu lado — … Dá pra acreditar nessa raposa safada??



— É, ele é bem safado mesmo…! — O feneco concordou lançando um olhar presunçoso para Wilde, claramente escondendo algo nas entrelinhas.



— Bom, era um esquema milionário… — No meio da sua fala, Nick deu um chute em Finnick por debaixo da mesa, que sentiu e disfarçou o golpe — … Próspero… Até, uma certa guarda de trânsito cruzar o meu caminho…



— Ah, então você preferia não ter cruzado comigo… — Indagou Hopps munida de semblante provocativo, par perfeito com a expressão pretensiosa do raposo golpista.



— Nah, até que eu tô melhor hoje… — Wilde fez um gesto com a pata e virou o rosto — … É como eu sempre digo: eu-


‘Te amo, parceira.’








O raposo congelou em sua fala. Já Judy e Finnick gargalharam com a expressão desconcertada de Wilde ao ser antecipado pela sua temida nemêsis… A caneta gravadora.



— BOOOAAAAAA, CENOURINHA…!!! — O feneco e a coelha deram uma batida de patas, enquanto Wilde permanecia emburrado e tomando um dedo na frente de seu focinho — ELA TE PEGOU BONITO DE NOVO!!!!



‘Te-te-tete-te-te te amo, pa-pa-papa-pa-pa parceira’, com direito à uma hilária melodia pelas patas de Hopps, a desforra pelo ‘remix’ do raposo.



— Eu odeio vocês.





(...)



NICK:

Interior!



CENOURINHA:

Exterior!



NICK:

Fora!



CENOURINHA:

Dentro!



NICK:

Ih, lá ela, hein!



CENOURINHA:

NICK!



NICK:

KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK



NICK:

Cê sabe que me ama



CENOURINHA:

Muito mais do que você imagina





O raposo arregalou os olhos, boquiaberto, até aquela anedota sumir por trás de um ‘MENSAGEM APAGADA’.



NICK:

Eu não vou dormir hoje e a culpa é sua



NICK:

Tome responsabilidade



CENOURINHA:

Raposa esperta



CENOURINHA:

É sua vez… Minha ‘Cenoura Para Um’ está pronta aqui, eu vou comer rapidão!



NICK:

Bom banquete pra você, não se engasgue!



NICK:

Espero você voltar pra não chorar que eu estou trapaceando ;D






Wilde largou seu celular de lado e relaxou-se dentro de sua Jeguzzi… Ele não poderia ir embora daquele lugar sem desfrutar do grande ofurô que tanto namorou por algumas semanas.





(...) Vigésimo sétimo dia.



— Dançar!


Discoteca! —


— Danceteria!


Baile! —


— Gala!


Elegante! —


— Terno!


Gravata! —


— Paletó!


Flanela! —


— Pano!


Tecido!... —

















Um clima agradável rodeava uma das mesas mais isoladas do refeitório da Pousada Nova Lua de Mel, onde duas moças conversavam alegremente sob a luz de raios do sol do entardecer, com elas praticamente ignorando o raposo junto delas que estava com a testa enfiada no tampo da mesa.





— ... E aí esse dia eu consegui fazer ele beber de verdade... — Judy Hopps dizia para sua amiga Amber Raposina, que a observava tomando suco de mirtilo num copo — ... Porque toda hora que a gente saía pra beber, ele ficava fazendo fazendo graça por eu ficar baqueada antes... Fotos, vídeos de eu dando vexame, tava na hora da desforra!



— Mas provocar ele dizendo que era o que menos bebia dali foi golpe baixo, hein! — Fora de expediente, Amber, em trajes informais ao invés de seu uniforme, observou apontando um indicador — Pelo que você me falou, ele estaria 'competindo' com tigres, rinocerontes, hipopótamos, ursos...



— Amber, teve um dia que eu acordei com as orelhas amarradas!! — Argumentou agoniada com uma pata ao peito — Eu precisava ver isso aqui uma vez na vida... Ah, e ele tava exatamente assim! — Deu um tapa nas costas do caído Wilde, que só deu uma gemida rabugenta e abafada em retorno, claramente já tendo ouvido essa história muitas vezes.



— É, quem procura acha... — Raposina tomou outro gole de suco.




— E quando o pessoal percebeu o jeito que ele tava, caído assim, começaram 'Cenourinha, seu amigo é meio fraco', 'Cenourinha, não é melhor levar o Nick pra casa', 'Cenourinha isso', 'Cenourinha aquilo'...! — Narrava simulando revolta — E foi meio que um Efeito bola de neve, porque somente uma certa raposa boba me chamava assim! — Deu outro tapa no 'pseudo-desmaiado' Nick.



— 'Cenourinha', haha... — Amber riu brevemente — Esse apelido é tão fofo.



— Agora eu também acho fofo, mas a primeira fez que ouvi eu fiquei ó: — Fechou a cara e um punho em frente ao peito — Enfim, e nisso o 'Belo Amortecido' finalmente conseguiu levantar, depois de quase uma hora! Todo molenga e com cara de poucos amigos, mas se levantou!



E, não sabe-se por coincidência ou se pra engajar o mérito da história, Nick também ergueu sua cabeça naquele instante, dessa vez apenas de olhar entediado ao invés de embriagado.



— Tipo assim? — Indagou a outra raposa apontando um dedo pro calado raposo.



— Quase assim, ele tava mais 'ãããã...' — Fez uma careta de sono — Mas ele se levantou quieto olhando devagar em volta, enquanto o Lobato disse que a gente ia roubar o apelido que ele deu pra mim e a Francine que não era pra ele ficar com ciúme!



A cara de tédio atual de Nick era impagável, apenas olhando para frente em breves bufadas desconcertadas, com as orelhas baixas como um cão amargurado.




— ... E foi nesse momento, Amber, que finalmente aconteceu:



Judy gesticulou, preparando a narrativa para algo grande.



— Ele olhou pra todos com uma cara de enjoado, cambaleou brevemente, para os lados... E caiu apoiado em cima de mim, de olhos fechados novamente! — A coelha fez questão de providenciar uma reconstituição teatral dos gestos do raposo, incluindo o apoiar de corpo em seu parceiro — TODOS, inclusive eu olhando preocupados...






— ... E aí, ele simplesmente resmungou:







— '... É minha... Judy...!'






— Oooooowwwnnnnnnnnnn!! — Raposina derreteu-se de amores com as patas entrelaçadas ao lado do rosto, fitada pelo sorriso satisfeito de Judy e pelo semblante carrancudo de Nick — Gente, isso foi muito fofo!





— Parabéns, agora você também compartilha deste Efeito Gazela também! — Wilde finalmente falou com desdém, dando um olhar sisudo e apontando um indicador para sua parceira — Já que é assim, eu vou falar daquela vez que você p-


— Opa, espera um pouco gente!



Amber interrompeu com uma pata, olhando surpresa a tela de seu celular.



— Tenho que ir... Meu marido chegou!




Declarou com certa tristeza pela despedida de seus amigos, que também ficaram chateados.



— É uma pena que você tenha que ir embora da cidade… — Judy lhe deu um carinhoso abraço de despedida, aproveitando para pedir para que a enfermeira lhe mandasse lembranças... E então, Raposina lançou o olhar e aproximou-se para perto de Wilde.



— Bem... Em quase trinta dias, aprendi que você não é muito de contato... — Amber lhe estedeu a pata — ... Acho que isso será suficiente... Foi um prazer, Nick!




O raposo vislumbrou a mão de Amber, alternando o olhar entre a pata estendida e o rosto de sua companheira de espécie... Então, vislumbrando um breve acenar de cabeça de Hopps pelo canto de olho... Quase como uma 'autorização'...







... E lançou-se para um abraço em Amber.






— Obrigado por tudo! — Disse emocionado enquanto a enfermeira mostrou genuína surpresa com o contato inesperado daquele complexo raposo... Contudo, logo ela sorriu e retribuiu... Satisfeita por ter feito a diferença.



Ambas fizeram um trabalho de equipe com Nicholas, praticamente sem perceber... A coelha, ensinou o raposo a confiar. A outra raposa, o estimulou a praticar esse aprendizado.






— Ei, não querendo ser intrometida, mas... — Judy pontuou ao fim do abraço das raposas — A gente não poderia conhecer seu marido? Só um ‘oi’, que seja...



— Ah... Infelizmente, não... — A resposta chateou a dupla, mas eles foram totalmente respeitosos em não insistir.










— ... Até porque...














Chamando a atenção da dupla, Raposina lhes deu um olhar astuto enquanto ajeitava uma pequena bolsa marrom em seu ombro.
















— ... Vocês já o conhecem.













— Eu adoraria ficar pra ter um tempo agradável com meus amigos...











Aquela voz masculina de timbre extremamente característico, vinda à meia distância por trás, arrepiou a dupla de agentes.









— ... Mas, ainda vamos ter bastante tempo juntos.







Judy Hopps e Nick Wilde ficaram boquiabertos assim que aquele conhecido posicionou-se ao lado de Amber Raposina, a mesma despedindo-se com um piscar de olhos e acompanhando seu companheiro até a saída do refeitório... Um belo casal, de fato, porém, claramente bem discreto... Aquela modéstia já colocada em pauta pelo agente Jack Savage, que pouco falou até deixar o recinto com a sua esposa.





(...)




— Policial!


Agente! —


— Oficial!


Departamento! —


— Operações!


Matemáticas! —


— Números!


Multiplicar! —


— Acrescentar!


Retirar! —


— Esconder!


Encontrar! —



(...)



— Lagartos!


Répteis! —


— Iguanas!


Tartarugas! —




(...) Trigésimo dia






— Parceria!



Amigos! —



— Namorados!


Apaixonados! —



— Beijar!


Gostar! —



— AMAR!


NOIVAR! —



— CASAR!





CASAR É COM C!!!! —







A coelha mal podia acreditar no que havia acabado de acontecer.





GANHEI, UHUUUUUUULLLLLLL!!!!!!!! GANHEI, GANHEI, GANHEEEEEEEEIIIIIIII!!!! —





Em polvorosa, Judy Hopps celebrava a suada e esperada vitória contra Nick Wilde, pulando cambalhotas e esbravejando comemorações.



Num certo momento, ela deu um giro pra frente, para reinvidicar sua taça ao raposo... — E aí, qual que é o meu presen-


... Que veio na forma de um inesperado e apaixonado beijo, mira certeira que garantiu uma surpresa e imediata reciprocidade da coelha.




A vitória, era de Judy Hopps...








... Contudo, ambos ganharam.







— Uau... — A coelha suspirou em paixão numa breve pausa, posicionando suas patas nas bochechas sorridentes de Wilde — ... Se eu soubesse que esse era o prêmio, teria me esforçado bem mais...




— É...? — Nick lhe devolveu um breve selinho — ... E quem disse que esse era o prêmio...?



Indagou antes de uma segunda rodada... Feromônios farfalhavam por aquele recinto.




— Sempre um passo à frente... — Judy sussurrou em nova pausa — ... Então, raposa esperta, qual é?




Nick lhe fitou com um olhar apaixonado que, para vislumbres alheios, parecia apenas o seu típico semblante vigarista... Para anônimos, poderia até ser mas, para Judy Hopps, sempre foi um rosto apaixonado.



A raposa se levantou e pegou um objeto colorido atrás da cortina num canto do quarto...




— Táá-dáááá!!





— N-Nick, i-isso são...








Quando Wilde virou-se, a revelação causou genuíno espanto na roedora.







— ... Uivantes...??!






Com um olhar astuto, Wilde confirmou, parecendo desfrutar do ligeiro pavor de sua companheira.



— N-Nick, c-cuidado... C-com cuidado... — Hopps ia gesticulando com a voz trêmula — ... Coloca... elas... no...




Então, Nick Wilde fechou os olhos e deu uma profunda aspirada sobre o buquê azul.



— NÃO, NICK!!!!







— ... Aahhhhh...!




... e expirou o ar com tremenda serenidade, por trás dum pacífico suspiro.




— ... Pera... O quê...?




— São uivantes, de fato... — A raposa aproximou-se, com Judy afastando-se discretamente das flores índigo — ... Mas são o que chamam de 'Uivantes-frias'... Cortesia de Emmett Lontrosa.





A roedora estava ligeiramente boquiaberta com a situação, deixando Wilde prosseguir — São uma estirpe de uivantes que não produz o componente alucinógeno, após múltiplos cruzamentos selecionados entre os indivíduos que apresentam quantidades menores de toxinas, até níveis praticamente insignificantes... Fáceis de diferenciar das 'uivantes convencionais' pela quantidade de pétalas, duas a mais nas uivantes-frias... Ufa...! — O canídeo proveu um suspiro ao terminar a explicação — ... Achei que nunca ia decorar a explicação do Senhor Lontrosa...




— Então... elas são inofensivas...? — Hopps pareceu perder o medo das plantas.




— Inofensivas... — O raposo entregou o buquê para sua parceira — ... E extremamente cheirosas.




Com as uivantes-frias em mãos, Judy Hopps finalmente conseguiu apreciar a beleza daquelas flores que emanavam um azul brilhante, outrora extremamente temidas pela população. Ligeiramente emocionada, a coelha confiou em seu parceiro e imergiu na intensa fragrância daquelas plantas.





— Minha... nossa...!






Declarou a estupefata coelha — ... Que... cheiro maravilhoso...! — Admirava a beleza do buquê roxo, alternando o olhar entre as aromáticas flores e seu confiante parceiro raposo — ... E, vendo agora... Elas são tão lindas...!




— Mas não de perto quanto você.





A roedora lhe vislumbrou com um doce semblante tenro — ... Por que que eu acho que esse ainda não é o presente principal...?




Diante da leitura certeira, Wilde deu uma breve risada, ajudando Hopps a posicionar o buquê de uivantes-frias num móvel próximo — Você realmente já está calejada comigo...




— Raposa esperta... — Judy admirava o canídeo, que parecia tomar preparo para dizer algo grande.



— ... Bem... Cenourinha...







O raposo pegou uma única flor de uivante-fria, posicionando-a concentrado em frente ao corpo. Visivelmente nervoso, Nick Wilde bufou para o alto e fechou os olhos.



— ... Este último mês foi um período em que sanei incertezas que, na realidade, não eram tão incertezas assim, eram só coisas da minha cabeça...




Nick deu um olhar profundo para Hopps, que ouvia atentamente.





— ... Foram trinta dias de altos e baixos... Porém, por você estar comigo a maior parte do tempo...






— ... Asseguro e estou certo em dizer que foram trinta dias no paraíso.





— Oh, Nick...! — Derreteu-se a coelha, emocionada.




— ... E, agora que eu não tenho mais incertezas, eu gostaria de saber...









Então, Wilde estendeu a flor para Judy.









— ... Você... aceita namorar comigo??










Primeiramente estarrecida, Hopps fitou a flor e, depois, o semblante esperançoso do antigo golpista de Patolés, que anseava a resposta...








— ... Pfff...






—... Ha... ha, hahahahahahahaha...!!





... E, inesperadamente, Judy Hopps deu uma bufada e começou a rir.





— Hahahahaha...!! Ai, Nick... — Hopps até batia batia nos próprios joelhos, um ataque de riso que fez o raposo murchar calado em espanto.




— ... Ce...nour...-


— ... Hahahah-Ah, AH NÃO, NICK!!!



E, imediatamente ao perceber a indelicadeza de gargalhar frente a um pedido tão puro, Judy correu para acalmar o raposo com um ligeiro beijo, que Wilde recebeu de olhos arregalados.




— ... É claro que aceito, Nick...! — Pausou a roedora, fazendo um delicado carinho ao redor da cabeça do raposo.




— Então... por que você riu...? — Indagou preocupadamente o predador, com um semblante triste.




— É que... — Hopps suspirou.












— ... Você não acha que a gente já não namora...?






O raposo foi pego de surpresa pela constatação, enquanto Hopps pegava a flor de suas patas.





— A gente compartilha uma vida, sai junto, passa perigo juntos, dizemos 'eu te amo' um ao outro, sentimos ciúme... — Encontrou novamente os lábios do raposo para um rápido selinho — ... nos beijamos... Basicamente, a única coisa que ainda não fizemos é... Bem, cê sabe, né...





— Mas... Cenourinha... — Era Nick dando claros indícios de perder o rumo ao ser antecipado — ... nunca foi feito um pedido...




— E precisa...? — Com Hopps astutamente conduzindo uma virada de jogo — ... Eu vou dizer uma coisa, Nick...






Judy aproximou-se de um dos cantos da claraboia do quarto, vislumbrando o céu estrelado.







— ... Eu também tive muitas incertezas durante esses trinta dias... E, provavelmente, algumas eram as mesmas que as suas... — Declarava serenamente, em tom reflexivo — ... E, para entender melhor os sentimentos tomei a iniciativa de aprender mais sobre as raposas...





Hopps limpou uma lágrima intrusa que brotou em suas pálpebras.




— ... E foi quando eu li uma coisa, que torna esse momento agora um dos momentos mais especiais da minha vida...









Curioso, mas ainda parado distante, Wilde indagou o que era.





E então, mais lágrimas correram pelos olhos de Hopps, que fez esforço para parar de soluçar, sob o atento olhar do raposo.




— ... Quando... Quando uma raposa escolhe alguém, até os seus últimos dias...







— ... será... esse alguém para sempre...!



Completou Nick, que estava ficando igualmente emocionado, indo ao auxílio de sua companheira.




— ... E-e-e eu-eu... Eu tenho que dizer, Nick...! — Balbuciava a chorosa roedora — ... te relembrar o meu... meu outro lema...









— ... 'Se você quer fazer algo... faça o mais rápido possível...!'





Observando Judy, Wilde parecia um tanto confuso enquanto confortava a coelha — ... A... que ponto você quer chegar... Judy...?






— ... Eu... imagino que você queira fazer as coisas na ordem certa... — Dizia Hopps, já com certo controle em sua emoção — ... Mas, por que esperar por algo que podemos fazer agora...






— ... Se, você já me escolheu como namorada... Mesmo que, tecnicamente, já fôssemos...











— ... Então...



















Aquilo caiu como um meteoro sobre Nick Wilde, que soltou suas patas do corpo de Judy, profundamente em choque.





— ... Não... brinca...







Consternado, ele botou as duas patas no alto de sua cabeça — ... J-Judy, p-por favor... Não brinca com isso...





— Eu não estou brincando... Nicholas...



A coelha lhe retribuiu um olhar profundamente emocionado.





— Eu estou pronta...!








Transtornado, Wilde estava atônito sobre como prosseguir. Ele ofegava e dava relutantes passos para trás, olhando para diversas direções, até fatalmente encontrar novamente o semblante de Judy.





— J-J-Ju-... Judy, vo-... você t-tem... c-certeza...??



Gaguejava intensamente o canídeo, num turbilhão sentimental jamais experimentado.






— Absoluta... Vamos, juntos, trabalhar o melhor possível para conseguir o melhor farol!



Assentiu a lacrimejante roedora, erguendo um dedo indicador em frente ao corpo em seguida — ... Mas, apesar disso, você ainda tem que fazer o pedido.





Terminou firmemente, com Nick lhe fitando com incerteza — Ma-mas... E-eu não tenho uma... uma...




— Aqui...!



Rapidamente, Judy arrancou o pequeno lacre azul de uma garrafa plástica de água e entregou o objeto circular nas mãos do raposo, fechando-as com suas patas.



— ... Usa isso... — Deu uma piscada e afastou-se novamente, posicionando-se com as patas esticadas em frente ao corpo — Depois nós fazemos com uma de verdade.




Abrindo sua pata para observar o pequeno anel plástico, o raposo lançou um olhar novamente para a esperançosa Hopps, ainda incrédulo que aquilo estava acontecendo.




— ... Apenas... Faça.





Sobre pesada respiração, Nick Wilde respirou profundamente ao alto, sentindo o nervosismo atravessar seu corpo esguio. Porém, ele não poderia desistir... Era o seu momento de brilhar, de conquistar tudo o que sempre quis... Ele só precisava da iniciativa.





— Ok... vamo lá...! Hehe...! — Extremamente encabulado, Wilde fechou fortemente sua pata ao redor da aliança improvisada. Ofegante, ele nervosamente puxava ar por vigorosas baforadas, enquanto preparava-se para o ato mais importante de sua vida.



Nicholas finalmente teve coragem para fitar Judy, que aguardava ansiosamente. O raposo bufou, apertou a mão do anel plástico em frente ao corpo e começou...







— ... Judy Hopps...








A coelha colocou uma pata ao rosto e desabou alegremente em lágrimas ao ouvir seu nome.





— ... Eu... Nicholas Wilde...






Nick fechou os olhos e colocou rapidamente uma mão em frente ao seu rosto abaixado.




— Caramba... Eu tô muito nervoso...! — Balbuciou consternado, através dum gigantesco sorriso desenxabido.



— Eu também! Eu também! — Exclamou a ansiosa coelha, balançando vigorosamente as patas como leques e franzindo seu rosto choroso.








Porém, eles precisavam avançar.




Nicholas deu uma última profunda respirada, tomando respeitável compostura para aquele momento.






— Judith Laverne Hopps...








‘... Tá bom, seu… Meliante! Você tá preso!...’






‘... Uma raposa que ganha a vida vendendo picolés falsos!...’





‘... Corta essa de fofa! Entra no carro!...’






‘... Qual é o seu problema? Quer me ver falhar para dar alegria a essa sua vida triste e miserável??...’





‘... Não! Eu sou uma policial!...’





‘... Raposa esperta…!...’






‘... VAI!!!...’






‘... Você… não fica inseguro…?’






‘... Yohoo, inteligente, hein!...’






‘... Sabe… Eu acho que você daria um ótimo policial…!’






‘... TEMOS QUE LEVAR PRO BOGO!...’






‘... Você devia subir lá comigo… Fizemos isso juntos…!...’






‘... Pode me culpar… Eu realmente, sou só uma coelha boba…!...’






‘... Confia em mim… Acelera!...’





‘... Armamos pra você, querida… Bum!...’






‘... Você acha que isso vai funcionar…?...’






‘... Quanto antes provarmos que uma raposa e um coelho podem ser parceiros, melhor!...’






‘... 24 horas… Se não conseguirmos nada, a Crudy Couveflores ganha!...’
















‘... Você é o único da minha vida que já acreditou em mim…’












‘... Você é o único parceiro que eu quero na vida…!...’






— Eu... Nicholas Piberius Wilde...









‘... Se chama Golpe, querida…!...’







‘... Ninguém se importa com você ou com os seus sonhos…’







‘...Você só pode ser o que já é!...’






‘... Não é um lugar indicado pra uma… coelha fofa…’






‘... Coelha, eu fiz o que você me pediu! Não pode ficar no meu pé pra sempre!’






‘... Deviam ter chamado um policial de verdade pra investigar…’






‘... Eu sei de quem é esse carro, vamo saí daqui!...’






‘... Ah, então, você sabe sobre as uivantes…!’







‘... Cenourinha! Salvou minha vida…!’







‘... Nunca se mostre tão insegura…!’







‘... Até… que você é esperta…!’






‘... Tá legal, se liga nessa dica que eu vou dar!:...’







‘... Fica tranquila… Deixo você apagar… Em 48 horas…’







‘... Será que eu posso fazer um ‘Tchoo-Tchoo’?...’






‘... Ah, vá, cê sabe que me ama…!...’







‘... Você disse que precisava de um flagrante… Então, segue o plano!...’






‘... Ou, talvez a gente não precise provar nada pra ninguém…’






‘... Eu confesso… que essa não foi a sua pior ideia…!...’






‘... Você tá bem??...’
















‘... Olha, eu não-eu não ligo que… somos diferentes…!...’
















‘... Você é a melhor coisa que já aconteceu na minha vida…!...’














— ... Gostaria... de saber se você...
















‘... Você é a minha coelhada…!’


‘... Meu grupo é você…!’











— ... daria a honra de me conceder a sua pata em casament-



Wilde não conseguiu terminar antes de ser atacado por um beijo de Hopps, retribuindo envolvendo a coelha em seus braços e experimentando o que foi, certamente, o melhor beijo de sua vida...









— Não tem como ter outra resposta além de 'sim', raposa boba.













... O beijo que selaria eternamente a união daquele casal.

























Eu cansei de ter medo, Judy…














A determinação de alguns dias atrás brotou na mente do raposo durante o beijo… Nick Wilde interrompeu o afeto e olhou apaixonado para sua, agora, noiva…







— E aí…









— … Quer eliminar outra coisa daquela lista que você disse?










Estarrecida, Judy Hopps lhe vislumbrou boquiaberta, correndo em direção à porta de saída… Um reflexo que assustou brevemente o raposo…










… Apenas para certificar-se que esta encontrava-se devidamente trancada.







— … Eu achei que você nunca ia pedir…





Hopps lançou sob flerte, indo em direção à cama com Wilde.



— Coelha esperta…!





— Nã-não… RAPOSA esperta… Eu sei que você deixou eu ganhar de propósito…





— Será que eu sei… É…









— … Eu sei mesmo.


Notas finais
Eeeeeeeee é isso! Que jornada, hein minha gente!! Espero que tenham apreciado e que a fic tenha cumprido seu papel como dedicatória aos fãs dessa franquia magnífica! Sintam-se a vontade para comentar, darem feedbacks e até mesmo sugestões para a versão serializada, às vezes conseguimos fazer um bem bolado! E sigam tanto o @Tokoyame, quanto alguns dos artistas que tiveram obras referenciadas aqui na fic: Aar0nJay: https://www.deviantart.com/aar0njay GreenPurrpleD: https://www.deviantart.com/greenpurrpled Foi uma grande jornada de 30 dias!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!