Zootopia - Savage... Jack Savage

3 ... Para a merecida glória.


Notas iniciais
E aeee cambada!! Aqui estamos pro término dessa bagaça aqui... E achei que ia ser uma capítulo mais curto, mas me empolguei de volta, kkkkkkkkkkk Esse capítulo contém elementos do segundo filme, contudo, não tem spoilers, ou então estão extremamente fora de contexto, sendo totalmente 'Spoiler Friendly'... Depois de tanto sofrimento, acho que isso aqui vai dar uma aquecida em vossos kokoros... Boa leitura!












— DEPRESSA, ELE ESTÁ EM ESTADO CRÍTICO! Saturação está caindo, chegando a setenta por cento! O leito já está livre??







Onde… eu estou…?






— Aumente a vazão de Norepinefrina, quero trinta mililitros por hora! Acrescente Hidrocortisona e prepare Azul de Metileno, já pensando em choque hipotensivo refratário!


— Doutor, a rede venosa dele é muito ruim! Temos Midazolam para manter a sedação?? Só Cetamina não está mantendo! Se ele acordar, ele pode…


— Não vai ser feito Midazolam, será usado Dexmedetomidina! Raposas não podem usar benzodiazepínicos, além disso, ele está sob bloqueio neuromuscular com Rocurônio… Se nem tudo isso não resolver, o acionamento do seu colar resolverá… Anda, cadê o quarto livre para o Senhor Wilde??








O que… está havendo…? O que… é isso apertando meu pescoço…??







— Leito cinco, depressa!







… Espera… Onde… Onde você…?






— Rápido, entrem com a raposa e comecem a infundir cristaloide! Vou chamar os residentes para discussão.

— O concentrado de hemácias já está aqui na UTI?






… J-... Judy…? O-... Onde você…?







— Testaram o tipo sanguíneo dele antes? O sangramento foi intenso, mas se colocarem o tipo errado, a gente perde ele de vez!

— Espera, ele não tem que receber só concentrado, ele precisa de sangue total com plasma! Ele teve hemorragia, não uma anemia! Por favor, em que buraco foi que vocês se formaram, gente?? Enfermeira, quero o cristaloide infundido lentamente até a entrada dessa bolsa de sangue!






Judy…? Judy…?




— Gente, batimentos cardíacos estão aumentando... Escala RASS em aumento nítido!

— Isso é impossível!

— Não é não... Doutor, e-eu acho q-que… ele está acordando…!











— … JUDY!!





— ELE ACORDOU!!

— RÁPIDO, ACIONE O COLAR!!

NÃO...!!!















— NÃO!!!
















O repentino grito do raposo deu uma leve estremecida naquele silencioso nosocômio.






Aflito, Nicholas Wilde acordou sob a luz branca e fria de um quarto com paredes de tons claros, o seu coração ainda disparado pelo sonho que se desfazia aos poucos de sua mente. Ofegante, a raposa fechou os olhos e colocou a mão em seu pescoço.

— Ah… Outra vez esse pesadelo idiota… — Suspirou, ainda sentindo o miocárdio esmurrar seu peito por dentro. Ao abrir os olhos, viu o teto da enfermaria, ouviu o apito ritmado dos aparelhos se normalizando e sentiu o cheiro de antisséptico — … Um… Hospital…? Não foi… tudo um sonho…? — Murmurou a si, notando algumas bandagens e equipos de infusão em seu corpo, até que…






— … Oh, minha nossa, NICK!!






— J-... JUDY…!!!






E, por um breve instante, seus batimentos cardíacos aumentaram de frequência novamente.

Vislumbrar sua parceira Judy Hopps entrando no quarto foi a melhor visão que Nick Wilde poderia ter naquele momento. Com sua memória ainda nebulosa, o canídeo já não sabia dizer o que foi real e o que não foi daqueles instantes infernais… O que importava é que aquele quarto frio, agora já não parecia mais tão gelado.

Num ímpeto de chegar à sua amiga, Wilde tentou se levantar… — JUDY, VOCÊ EST- AHHHHHHHHH…!! — … um ledo engano que lhe causou dor intensa no corpo todo, principalmente em seu pé direito que estava fraturado.

— Não, Nick, fique parado…!! — Sinalizou a coelha, que estava com uma porção da cabeça enfaixada, mas aparentando bom estado geral — … Eu vou até você, raposa boba…!

E, escalando a maca de Wilde, Hopps conseguiu chegar até o canídeo e lhe dar um vigoroso abraço, mesmo que Nick soltasse alguns grunhidos e gemidos de dor corporal generalizada, suportáveis por ter sua parceira viva em suas patas…

— O que aconteceu? Eu ouvi você gritar...

— Foi só aquele pesadelo idiota de sempre... Não importa agora...







— … Ora, ora, você acordou mais rápido do que a equipe médica achava que ia acordar…











… E quando a raposa ouviu aquela voz e fitou aquele sujeito adentrar ao seu quarto, todo o pesadelo que havia acabado de passar desabou novamente sobre sua mente.

Rapidamente, Nick Wilde agarrou a pistola do coldre de Judy, aprontando-a para Jack Savage ao mesmo tempo em que usava o braço esquerdo para proteger sua parceira. O coelho apresentava metade do seu corpo 'mumificado' num eixo vertical, além de um grande chumaço de bandagens em seu flanco esquerdo no abdômen.

— O QUE VOCÊ QUER AQUI?!!

— NICK, NÃO, ESPERA...!


Wilde gritou furioso com Savage em sua mira, enquanto a aflita Hopps tentava apaziguar os nervos. Jack, sereno e inabalável, apenas proveu um breve riso — ... Reflexos rápidos para alguém que está acamado... Muito bem...

— ME DÊ UM MOTIVO PARA NÃO METER UM BALAÇO NA SUA CARA, SEU DESGRAÇADO!! — Por sua vez, Nick pareceu ficar ainda mais irritado com o que parecia ser outra provocação de Jack, fechando ainda mais o seu semblante e mostrando dentes cerrados.

— NICK, CALMA…! — Judy, com uma pata no ombro do raposo e outra tentando abaixar a pistola, tentou suavizar o embate, enquanto Savage posicionava uma sacola branca num móvel atrás dele — … Tá tudo bem, sério...!

— COMO QUE TÁ TUDO BEM??... — O confuso canídeo alternava o olhar entre os roedores — EU ACABEI DE VER ELE TE MATAR, E ENT-... Então…




Subitamente, o corte de seu discurso irado mostrou que as sinapses do raposo haviam funcionado. Ainda com Jack em mira, Wilde olhava confuso para a dupla de coelhos enfaixados, com ambos lhe vislumbrando com semblantes tranquilos.


— Confie em mim, está tudo bem, Nick... — Hopps tocou delicadamente a mão do predador, com a outra mão pegando sua pistola de volta — … Mas... eu sei que devo explicações...



— Sim, que bom que você sabe.





E a expressão incrédula de Nicholas corroborava essa necessidade. Suas sobrancelhas cerradas deixavam claro seu descontentamento e confusão naquela circunstância, mas o desconfiado raposo ainda tinha a decência de permitir a defesa de sua colega.


— Bem…




Fechando os olhos e aproximando-se da maca de Nick, Judy Hopps respirou fundo antes de começar. Suas orelhas estavam levemente baixas e ela parecia estar escolhendo cada palavra com cuidado, enquanto Wilde pareceu momentaneamente tentar se afastar da coelha.

— … Eu... Eu já sabia como que ia ser o teste do Senhor Savage para você entrar na missão conosco, Nick… — Iniciou uma justificativa cabisbaixa, com Wilde já ficando surpreso com a primeira informação — ... Eu sei, você deve estar pensando que eu deveria ter te falado, mas foi cobrado sigilo total, o vazamento dessa informação poderia acabar de vez com suas chances… Mas, sim… Eu sabia…



Após o primeiro argumento, Judy Hopps ergueu o rosto para cruzar olhares com um descontente Nick Wilde… O mesmo olhar de quando ela quase perdeu a valorosa amizade de seu parceiro, após um surto preconceituoso durante uma coletiva de imprensa…




… Ela não só conhecia aquele tenebroso olhar…


… Ela tinha profundo medo dele… Era uma expressão que denunciava que ela arcaria com pesadas consequências.






— Q-quer dizer, não sabia totalmente... — Hopps desviou o rosto e continuou sua defesa — … Quando Savage falou comigo sobre isso no DPZ, eu estava tão focada em adiantar os relatórios pro Chefe Bogo, para não prejudicar o departamento na minha ausência durante a missão, que eu nem percebi que a gente estava falando do que seria o seu teste...


— … Inclusive, peço desculpa pela minha desatenção, Senhor... — Acenou melancolicamente para Jack, mas ainda sobre o olhar fulminante de Wilde — ... Eu não imaginava que as coisas sairiam tanto do controle, não esperava nem mesmo as uivantes novamente... Eu fui pega de surpresa tanto quanto você...!



Era nítido que Judy Hopps parecia carregar pesada culpa em seu âmago. Sua voz, usualmente delicada e doce como um campo de mirtilos, tornava-se pesada e carregada, arrastada… Ao término de sua fala, a coelha encontrou os olhos verdes de Wilde, ainda a fitando com rigor.


— Você sabe que isso é o de menos, Hopps... — Balbuciou o predador, provendo fulminante julgamento — … Saber ou não desse teste não me importava, eu não tô nem aí pra isso… Eu só me importo com você e o que aconteceu contigo lá naquele lugar… Eu… Eu…












— ... Eu chorei sobre o seu cadáver, droga...!











Evidenciado pela película de lágrimas que surgiu em seus olhos, Nick Wilde não suportou o peso do medo que carregava em seu peito, sofrimento também repercutido em Judy Hopps. Jack Savage, por sua vez, apenas abaixou o olhar, um gesto respeitoso quase inútil após causar tanto sofrimento.


— ... Você não respirava, estava fria… Morta...! Que... merda foi essa...??


— Eu... coagi ela...


Savage tentou falar, mas Nick o devorou com um olhar severo de raiva, apontando o dedo para Hopps... Um recado silencioso, mas claro, ordenando que o agente ficasse calado e deixasse toda a explicação para a coelha.


— ... Eu, de fato, desacordei por causa do dardo tranquilizante… Até o último instante de consciência, eu implorava pra poder te ajudar, mas falhei… — Prosseguiu a coelha, limpando as lágrimas dos olhos — E, naquele fatídico momento, o Senhor Savage me aplicou adrenalina direto no coração, o que me despertou por um momento — Nick ergueu as sobrancelhas, surpreso — … e me pediu pra eu ficar tranquila e apenas fingir-me de morta, não importa o que acontecesse, até que ele ordenasse cessar...



Novamente, coelha e raposa encontraram seus olhares.




— … Porque você estava indo muito bem...




Hopps começou a soluçar, enquanto Wilde estava perplexo, de queixo caído.


— ... Você sabe... Coelhos e outras presas conseguem entrar num estado de cataplexia e fingir-se de mortos, uma herança de tempos passados… Você sabe bem, isso já aconteceu outra vez, mas como brincadeira…


A roedora deu um riso amarelo, uma tentativa inútil de amenizar a situação…


— … Só que... Só que eu... eu...





… Riso que se transformou em choro.




— ... Eu fui tão idiota, Nick...!


A coelha cobriu o rosto com as patas.

— ... Eu não devia ter seguido com essa história... Eu fui uma idiota, egoísta, que não levou em consideração os seus sentimentos e as suas vontades...! — Jack entregou um lenço para a chorosa Hopps, que aceitou e seguiu — ... Eu só... Eu só... só pensei em mim e nesse desejo cego que você fosse pra missão comigo, porque eu pensei apenas que EU queria você lá como meu parceiro e mais ninguém, seja de que modo fosse e sem pensar o que você queria de fato, sem pensar o quanto você sofreria por isso...



Hopps soluçava em forte emoção, sob um olhar de Wilde que já não era mais tão raivoso.


— … E-eu sou uma egoísta e hipócrita, Nick...! Eu quero tanto a sua parceria, mas não entendo os seus sentimentos… Eu sou uma péssima amiga… E-eu... Eu... sinto muito... muito mesmo...!








Ao término de sua justificativa, a coelha caiu em pranto intenso, cobrindo novamente o rosto com as patas. Era a vez de Nick Wilde, que a fitava com um misto de tristeza e indignação.







— … Judith…







O chamar melancólico do predador fez a coelha abaixar o rosto em tremendo vexame, prevendo uma dura réplica de seu parceiro.


— … Eu deveria, e com razão, ficar muito irritado e decepcionado com você…




A coelha deu um profundo soluço, pressionando ainda mais as patas ao rosto e lentamente balançando a cabeça para os lados.



— … Você foi uma das únicas pessoas que me fez abrir meu coração, que me fez confiar em você e baixar a guarda, tentando ignorar as promessas que fiz a mim mesmo para não voltar a topar novamente com os demônios do meu passado…

Discursava o cabisbaixo raposo, em sutil seriedade, com os ambos não tendo coragem de trocar olhares.

— … E, dito isso, você deveria saber o quanto eu sofro por me sentir vulnerável… Por ser enganado… E por me fazer achar que tudo estaria acabado…


Debaixo de atípica austeridade, Nick finalmente olhou novamente para sua parceira, que não tinha forças para encará-lo após tremendo vexame.


— … Eu confiei em você, Hopps… Depositei minha alma em você… Pra então, você armar pra cima de mim com esse aí?? — Wilde deu um aceno de cabeça na direção de Savage, que apenas o observou por um olhar também cabisbaixo… Por mais que sua posição hierárquica fosse muito mais alta, o coelho sabia que deveria ficar por baixo, patentes não importam naquele momento.




E então, Nick proveu um pesado suspiro.



— … Eu te vi morta, Hopps…! Você tem ideia do quanto isso mexeu comigo??






Abriu-se o raposo, sob profunda emoção, com Judy chorando intensamente em arrependimento — … Foi a pior visão que tive na minha vida, pra agora você vir me dizer que era encenação…??

— ... N-... Nick...!

— … Eu, realmente, devia ficar muito brabo contigo…

















— … Só que…










Um lampejo sereno de Wilde fez com que a coelha erguesse o olhar, atenta.








— … Eu tô tão feliz que você está viva… que eu não consigo.













Um delicado sorriso estampou o rosto emocionado de Wilde, reconhecendo que o orgulho não deveria se sobrepor à felicidade de ter Judy Hopps, agora radiante, com vida ao seu lado.










— Oh, Nick…!

Numa explosão de alegria, a coelha enxugou suas lágrimas e pulou para um abraço em Wilde — RAPOSA BOBA!!

— AI, AI, AI, AI, COSTELAS, COSTELAS, COSTELAS, COSTELAS…!! — Arfou rapidamente o canídeo moribundo.

— Ai, desculpa…! — Envergonhada, Judy logo soltou o aperto, descendo da maca e lhe observando com tranquilidade.


— … Eu fui uma idiota, Nick… Prometo nunca mais fazer você sofrer desse modo novamente… Prometo…!


Hopps declarou com um olhar verdadeiro.

— É, não sei se o meu coraçãozinho de raposa aguenta outro tranco desses… — Retribuiu o predador, arrumando os equipos que invadiam seu corpo — Pra ser justo, eu paro de te morder fingindo que tô selvagem.

— Não, não precisa se moldar assim por causa de uma mancada minha…! — A coelha o tranquilizou com um toque de pata…







— … Na verdade, pra ser sincera…








Hopps lançou um curioso e inesperado olhar interessado para as mandíbulas do raposo.







— … Eu até gosto disso.









A raposa corou com a flertada, encolhendo-se sobre seus ombros — G-g–gosta, é…?



— 'Ahem...'!




E interrompendo aquele clima, Jack Savage tossiu com uma pata em frente à boca — ... Muito bonito tudo isso mas, por favor, manerem um pouco nos feromônios...


O coelho disse de modo simpático, deixando Judy ligeiramente envergonhada.



— … Ei...!

Contudo, Nick Wilde não levou a brincadeira na esportiva.


— ... Eu relevei esse deslize da Hopps pelas boas intenções e por ela ser a melhor coisa que já aconteceu na minha vida...! — Apontava o dedo de modo agressivo para Savage, reclamando por uma carranca irritada — … E, como você mesmo disse, você a coagiu a isso, foi culpa sua! Eu não passei no seu teste idiota e mesmo que eu passasse, eu não me importo quem você seja, as coisas que você me fez e me disse foram as maiores escrotices que já tive que suportar...!

Judy Hopps fitava aflita ao seu parceiro dando um merecido sermão a um surpreendentemente cabisbaixo Jack Savage, uma cena que a coelha jamais imaginaria presenciar.


— ... Eu desconheço algum cenário no qual seja possível eu te perdoar… — Prosseguiu o irado raposo — … Então, se você tem o mínimo de decência, o que eu já deveria saber que não têm, você deveria vazar daqui!

Wilde terminou sua bravata apontando para a porta do quarto, encarando furiosamente a lebre — Anda, vai embora! — Reforçou, quando os olhos azuis de Savage encontraram seus olhos verdes.

— Nick, espera…! — Hopps tentou apaziguar, segurando o braço estendido da raposa — … Eu sei que você está profundamente abalado, mas o Senhor Savage também tem o que falar... Muito mais do que eu, inclusive...

— É mesmo, é? O que mais, Hopps...? — Questionou indignado, tornando o olhar para o desenxabido roedor — Jogar na minha cara novamente que eu sou um inútil?? Que a maior parte da minha vida foi um inferno? Que eu sou um predador malvado trazendo desgraça na vida dos outros? Como se eu já não fugisse disso o suficiente?? Será que ele não quer aproveitar e quebrar minha outra perna também??!!

— Nick, por favor, se acalm-

Com um breve aceno de mão, Jack silenciosamente interrompeu a interferência de Judy Hopps, voltando um olhar melancólico para o ofegante raposo.

E, lentamente, Jack Savage abaixou-se até o solo, curvando-se com o rosto sobre suas patas no chão...



— Eu entendo que você não queira me ver ou ouvir... Mas sinto-me no dever de pedir desculpas, do fundo do coração...



Disse o coelho com pesar em sua voz, voltada para o piso do quarto. Hopps ficou incrédula com o ato, enquanto Wilde não pareceu valorizar.

— Ah, tá bom… Quando você quebra um vidro, você pede desculpa pra ele e ele volta ao normal…?? — Lançou rigorosamente o predador, de braços cruzados — Ele ‘desquebra’, como você acha que está fazendo comigo?

— Nick, por favor... — Hopps tocou em seu ombro esquerdo — ... Escute ele... Por favor.

A fechada carranca do raposo encarou o semblante tristonho da coelha, em seguida fitando o enfaixado coelho ainda abaixado em súplicas no chão.

Wilde deu uma bufada… Revirou os olhos… e então cedeu — ... Ai, cacete… Vai, fala logo então...

Judy suspirou aliviada, enquanto auxiliava Savage a se levantar do chão.

— Ugh...! Obrigado...! — Savage deu uma leve gemida, segurando o flanco esquerdo de seu corpo ao levantar — ... Bem, Wilde... Tudo o que fiz e falei foi na intenção de te levar ao limite, para assegurar que conseguiria prezar pela sua segurança num cenário real…


Nick lhe deu um olhar incrédulo, pronto para retrucar a observação — ... Porém, eu admito que passei, e muito, do limite do aceitável para apenas um teste...

Pausou a lebre, de modo cabisbaixo, sob o olhar implacável da raposa.

— ... Wilde, num cenário real, seus inimigos não vão ter piedade... O que você deixar de lacuna para te quebrarem, eles vão usar para te quebrar… — Prosseguiu o agente, de modo empático — … E eu não quero arriscar levar alguém para a missão para ser oferecido de bandeja como um petisco pronto para o abate...

— Não precisa mesmo, você já se aproveitou disso... — Cuspiu raivosamente o predador, olhando para as bolsas de soro que estavam penduradas à direita do leito — ... Só tem as sobras do prato principal aqui...

— Eu entendo sua raiva e quero novamente me retratar pelo meu exagero... — Continuou o coelho, com um mão no peito — ... Inclusive, estou disposto a me retratar publicamente e sofrer as sanções necessárias por te infligir tanto sofrimento, de acordo com a sua vontade...

— Se retratar? Sofrer sanções? Ora s-, argh-! — Num ímpeto raivoso, Nick tentou novamente se levantar, sentindo uma intensa fisgada de dor e sendo amparado por Judy — Você... Olha, a única sanção que eu consigo imaginar é você jamais ser permitido de fazer novamente com alguém o que você fez comigo! Não, e o pior não é nem is-, ugh!

Hopps segurou o alterado raposo com uma pata, mesmo ele mostrando-se irredutível.

— ... Merda...! O pior não foi o que você fez aqui!... — Apontou primeiro para seu pé quebrado e depois apontou o mesmo dedo para a cabeça — Foi o que você fez AQUI!

— Sim, eu fui um facínora covarde, Nicholas! — Rebateu Savage, com agonia no olhar — Eu não me orgulho disso e estou aqui para sofrer as consequências...!

Por 'consequências', Jack Savage deixou nas entrelinhas que Nick Wilde poderia escrachá-lo o quanto desejasse, era a desforra por tanto sofrimento infligido ao raposo... E Savage iria aguentar sem retrucar.

— Ah, que bom que você sabe que foi um covarde... Cápsulas de uivantes, sério mesmo cara...?? — O canídeo expressava profunda indignação em seu rosto — ... Eu não sei o quanto você queria dificultar nossa vitória, mas precisava ter que apelar pra isso?? Eu já vi com meus próprios olhos o estrago que essa porcaria faz em civis extremamente pacatos e aí você simplesmente come uma dessas apenas pra não deixar a gente vencer?? Que PORRA que foi essa, um de nós podia ter morrido!

— Profunda irresponsabilidade de minha parte... — Murmurou cabisbaixo o agente — Apenas sou grato que nada pior aconteceu...

— Irresponsabilidade, pois bem... Isso não importa agora, o estrago já foi feito, meu chapa... — Nick fez um gesto com os dedos em sua testa — Por acaso está escrito 'OTÁRIO' aqui? Todo aquele papinho sobre eu ser um inútil, sobre feromônios e os caralhos, você acha que eu não percebi que tinha um fundo de verdade naquilo tudo? Que todo esse tempo desde que você chegou à Zootopia, você tem sondado pela melhor maneira de me prejudicar?? Pra você vir me falar agora que era parte do teste?? Você... Você...


Wilde fechou fortemente os olhos, cerrou o punho direito em frente ao rosto e apertou sua mandíbula tão intensamente que seus caninos quase perfuraram sua própria boca.




— ... Você me fez ver a Hopps morta, droga!!!





O semblante da coelha mostrou-se agoniada pelo sofrimento mental infligido ao seu parceiro, enquanto Jack Savage permanecia cabisbaixo e de orelhas caídas — ... Você me fez a ver morta…


Wilde respirou profundamente, com uma pata pressionando seus olhos.

— ... Como se desgraça pouca não fosse bobagem, embora isso não melhorasse muito as coisas, eu nem cheguei a te vencer pra passar nessa porcaria de teste... Foi tudo literalmente à toa...!










— ... Bom...







— ... Não foi à toa.







Nick Wilde providenciou um olhar intrigado ao coelho, enquanto viu ao longe algumas pessoas chegando em risadas para próximo da entrada de seu quarto.


— Olha só, então este aqui é o camarote do cara que quebrou a cara do Savaaaaaaaaa-

Adentraram aos risos no quarto os Capitães Javalice e Tufão, juntamente dos Zebros, todos em intensa alegria em celebrar com o hospitalizado raposo, até perceberem que a lebre da berlinda também estava no canto do recinto, congelando todos no flagra da gozação.

— ... -ge... — Completou a javali, através de um sorriso amarelo — B-b-bom dia, senhor...!

Savage apenas acenou através de um cumprimento de cabeça, com Nick permanecendo curioso com aquela invasão repentina e Judy Hopps parecia até estar se divertindo com a saia justa de seus colegas.

— A-a-a-a gente v-veio ver se… — Tomando a frente, Javalice parecia um disco quebrado — … Se-se vo-vo-vocês p-precisavam de alg-

— Ei, pessoal...!


Então, o Capitão Tufão sussurrou aos policiais próximos — ... Acho que ouvi o Chefe Bogo pedindo pra alguém dar água pros peixes dele, inclusive, preferencialmente que fossem duas zebras e dois javalis...!

— Ei, somos duas zebras e dois javalis! — Disse um dos equinos, em entonação de alguém que fez uma grande descoberta.

— Fechou, vamo lá, mano! — Retribuiu a outra zebra, com uma batida de casco.

— Licencinha, senhores...! Javalice e os demais deixaram o quarto numa vergonha cômica, deixando um estarrecido Wilde para trás.



— Viu só... Não foi à toa... — Savage apontou sorridente para a porta que ainda batia com a saída dos policiais — ... Você, de fato, acabou comigo, hahahah- ugh-!!



E colocando as patas em seu flanco ferido por um tiro, a lebre contraiu-se através de um suspiro dolorido, se ajoelhando brevemente, sendo amparado por Judy — … Mesmo com as uivantes... Você foi muito bem, Oficial Wilde... — Prosseguiu com certo esforço — … Se você e a Agente Hopps…puff-... já eram bem respeitados pelo… excelente serviço que prestam à Zootopia, resolvendo casos grandes que não eram pra qualquer um... — Savage fez um gesto em direção à parte queimada de seu próprio corpo — ... Agora, com essa sua façanha...




— ... Você será ainda mais respeitado pelo seu grupo.





— O meu... grupo...!



Balbuciou o raposo, munido dum olhar distante.


Num conflito de sentimentos, Nick Wilde parecia um tanto confuso sobre como se expressar... Ele ainda tinha muita raiva de ter sido enganado e submetido ao sofrimento extremo, porém, aparentemente, o copo meio vazio estava se tornando um copo meio cheio.


— Senhor Savage... — Dessa vez, Judy Hopps assumiu a palavra, de modo cauteloso — ... Eu entendo suas intenções, porém, eu também fico um pouco ressabiada com o uso das uivantes...

Dizia a coelha, num tom repreensivo, mas como se estivesse ‘pisando em ovos’. Wilde atentou-se à sua parceira, fitando-a de modo interessado durante seu posicionamento.

— … E-eu realmente não esperava isso no teste, Senhor… E, tipo, não que eu vá te prender agora, mas devo lembrar que a posse e uso dessas cápsulas se enquadram como graves crimes federais e a lei tem que servir para todos… — Tomou força para encarar os olhos azuis de Jack… — … E acho que demos muita sorte que isso não virou uma tragédia...


… Então, a coelha direcionou um semblante preocupado para seu parceiro canídeo, que ainda estava agoniado, mas parecia estar mais contido.




— ... Se isso cair em patas erradas, não acho que podemos ter essa mesma sorte...

Terminou a roedora, com uma mão no peito e profunda preocupação.




— De fato, compreendo sua preocupação, Agente Hopps... — Pontuou a lebre chamuscada, posicionado uma pata em seu ombro esquerdo — ... Ah, a propósito!


Savage voltou-se para trás e pegou dentro da sacola branca que havia posicionado atrás de si ao entrar no quarto uma pequena cesta de palha, na qual era possível ver um conteúdo azul em seu interior.




— ... Aceitam mirtilos...?



Ofereceu com uma inesperada simpatia — … Estes são da variedade Koppenhöffen, são frutos de décadas de cruzamentos selecionados...! — Dizia empolgadamente enquanto pegava um dos frutos para apresentar em seus dedos — ... Vejam como eles são bem grandes e redondos... E a alta concentração de antocianinas faz com que eles tenham esse azul bem vívido! — Entregou a esfera vegetal azulada para Judy, sobre os olhares atentos e intrigados da dupla de raposa e coelha.


— ... E além disso...


Savage colocou outro grande mirtilo em sua boca, passando a falar de modo arrastado — Elesx xão tão carnudox que *PLOC* eshplofem em xua boca...!



Inicialmente, a dupla de oficiais de menor patente não compreendeu o ponto daquela aleatoriedade... Contudo, após alternarem o olhar para o mirtilo na mão de Hopps e o semblante tranquilo de Savage que os encarava, subitamente Hopps e Wilde ficaram boquiabertos e de olhos arregalados, trocando um olhar incrédulo entre eles e depois para a lebre.



— Ah, qualé, xente...! — Jack engoliu, pegando outro mirtilo para si e jogando outro para Nick, que pegou no ar com a pata direita — ... Vocês acham mesmo que eu, justamente EU...! — Comeu o outro mirtilo — … Iria uxar um entorpexente como exe??





Raposa e coelha ainda estavam desacreditados... Eles caíram em sua própria artimanha.


— Isso se chama 'golpe'... 'Bum'!

Jack Savage apontou outro mirtilo, de modo astuto.





— Eu não acredito... — Fechando os olhos, Hopps suspirou frustrada, porém, tranquila.


— Pera...! — Encarando o fruto em sua mão, Wilde por sua vez parecia mais intrigado — Então, se era só um mirtilo, quer dizer que tudo aquilo... Tudo aquilo, os músculos, a insanidade, era só...?


— Força bruta? Sim... — Completou Jack, vendo Hopps experimentar a fruta — ... Aliado com um pouco de atuação, de fato...


E Savage adotou uma expressão ligeiramente mais séria.


— ... E eu exagerei no teatro... Porém, não teve risco de vida… eu estava com tudo no controle.

No recinto, Hopps estava de semblante tranquilo com o retratamento do super agente…








— … AaaaaaaAAAAAAAAHHHHHHHH!!!!

… Contudo, subitamente Wilde jogou-se de costas em seu colchão, apertando as patas escuras em seu rosto e gritando em frustração.





— N-Nick...!? — Aproximou-se preocupada a coelha — O-o que foi??


— … Eu... A-a gente... Nós… Nós nem chegamos perto de vencer, Cenourinha...! — Dizia ainda com as mãos pressionando os olhos — Eu dei o melhor de mim para sobreviver contra um animal selvagem e, no fim, ele estava só encenando, enquanto eu estava quase me matando...!!




O mirtilo escapou por entre os dedos do indignado raposo.

— ... Eu não faço ideia de como poderíamos ter saído vitoriosos disso...!




Sob o olhar cabisbaixo de Hopps e amparado pela mesma, Wilde baixou os braços e terminou com um semblante frustrado, sem saber o que falar sobre seu fracasso.








— ... E quem disse que você não saiu vitorioso?







Numa repentina reviravolta, Nick Wilde piscou pesadamente e ergueu o olhar para um sereno Jack Savage, junto de sua parceira coelha.

— ... Quer dizer, claro, vocês não conseguiram me vencer... E eu já esperava que nem conseguiriam, nem com dezenas de anos de treinamento…


A lebre aproximou-se mais da raposa — ... Eu já sou um agente de elite desde quando você ainda vendia Patolés, Wilde… — O predador ficou surpreso com aquele aspecto do seu passado em pauta — … Sim, eu sei dessa informação, e não é nem pela Agente Hopps...

— ... Então, com a minha experiência em serviço, eu realmente não imaginava que vocês iam me derrotar... — Savage abaixou-se para pegar o mirtilo que Nick havia deixado cair — … Pense, com a velocidade que eu tenho, eu poderia simplesmente desmaiar vocês dois com um golpe na nuca, no primeiro segundo de combate...!


— Então, se a gente não tinha chance, tudo isso foi só pra você brincar conosco... — Lançou um entediado Wilde, enquanto a lebre se levantava.



— Negativo...


Raposa e coelha tornaram a olhar para Savage.


— ... Foi para ver até onde vocês chegavam... E, devo dizer, chegaram longe... — Apontou para os ferimentos em seu corpo — … Bem longe… Tanto que, em certo ponto, quando a sincronia de vocês se firmou, eu comecei até a ficar preocupado...


— E aí você precisou apelar, né? — Hopps incitou enquanto comia um mirtilo da cesta, com Savage assentindo com a cabeça.

— ... E foi nesse momento que o Agente Wilde começou a brilhar.



Nick lhe observou com a cabeça inclinada pro lado, curioso. A coelha tentou entregar outra fruta para o canídeo acamado, que recusou brevemente por estar bem atento ao que estava se desdobrando.


— Seu ímpeto em proteger sua parceira foi algo louvável, um diferencial que busco em quem integra minhas equipes... — Jack colocou uma pata no ombro de Hopps, que mastigava a fruta azul — Não só pelo senso de time, mas pela índole...





— ... E sua perseverança não me decepcionou, Nick...


O raposo lentamente estava ficando boquiaberto, principalmente com o agente lhe chamando pelo seu típico apelido, isentando-se de formalidades.





— ... Ao nunca desistir da Agente Hopps, você foi mais do que um bom agente...


— … Você foi um homem.



Savage declarou com uma expressão inspirada para o estarrecido raposo, que alternava um olhar pasmo para o roedor e para sua radiante parceira.



— ... E digo mais... — Continuou o agente — ... Aquele seu plano da empilhadeira... Como foi que pensou naquilo sob tanta pressão??


— ... Eu... não sei... — Wilde respondeu de sobrancelhas cerradas — ... Na verdade, eu... sinto que o que aconteceu pouco antes daquilo está muito nebuloso em minha cabeça… Parece que recortaram parte da minha memória…


— Ah, claro, você ainda deve estar bem baqueado... — Jack encostou um pata no ombro de Nick, que estranhou por um momento... Usualmente, aquele predador não gostava de contato físico de quem ele não confiava, mas permaneceu apenas atento — ... Mas eu confesso que aquilo me pegou de jeito... Na verdade, eu nem me lembro a última vez que isso me ocorreu, mas... eu te juro...



















— ... Minha vida chegou a passar diante dos meus olhos.










Perplexos, Hopps e Wilde encararam a lebre, em seguida trocando olhares entre si. A felicidade de Judy já era clara, enquanto Nick ainda estava no processo de baixar a guarda.



— ... Pra quem havia começado o teste achando que ia ser fácil, isso é um baita reconhecimento!

Judy deu um leve soquinho no braço esquerdo de Nick, com Savage concordando de cabeça.



— Isso... É recompensador ouvir isso, não nego... — Ainda sim, o canídeo ainda permanecia um tanto relutante — ... Apesar de tudo isso eu não te venci, e isso aqui… — Apontou para a pata quebrada, enquanto Jack comia outra fruta — … provavelmente vai prejudicar muito minha carreira na polícia...



— Fique tranquilo, eu golpeei xirurgicamente para garantir que xeria uma fratura faxilmente reverxível... — Savage engoliu o mirtilo — ... Em menos de dois meses você vai estar de volta a ação

— Ah, que ótimo, era só que o faltava… E só porque achei que ia garantir uma 'raposentadoria'...

— Aaaaaaahhhh, pelo amor, Nick, vai se ferrar!... — A coelha resmungou ao alto enquanto Wilde parecia orgulhoso de seu trocadilho — … Essa foi simplesmente PÉSSIMA!

— Ah, nem vem que essa foi ABSOLUTE PIADOCA! — Retrucou o canídeo.

— Sim, claro… Tem que ser muito imbecil pra achar isso engraçado... — Devolveu a roedora.





— ... Pffttt...!!




E, subitamente, Wilde e Hopps direcionaram um olhar bobo e um lento apontar de dedos em direção ao agente coelho que lutava para segurar a risada.

— QUIETOS, EU AINDA NÃO TERMINEI!

Irrompeu Savage retomando a seriedade, enquanto os dois oficiais novatos disfarçaram assobiando.


— 'Caham!'... Retomando... — Tossiu brevemente — ... Na verdade, devo me corrigir que não vai ser uma volta à ação...










— ... E sim, o início dela...








Incrédulo, Nick Wilde inclinou a cabeça em direção ao super agente, que lhe estendeu a pata.










— ... Seja bem vindo à equipe... Agente Wilde.










— Mas... Eu não venci...

— E nem precisava... Quem em sã consciência dispensaria uma perseverança como a sua?

Enfim, não havia sido em vão... Wilde relutou por um breve instante, mas finalmente baixou totalmente a guarda. E ele retribuiu emocionado ao cumprimento de seu, agora de fato, superior.


— Será um prazer tê-lo conosco, Nicholas! — Savage firmou o aperto de patas.

— Obrigado, Senhor. — O predador devolveu um olhar confiante de seus olhos esmeraldas.




— AHHHH, NICK!!!

E, sob intensa empolgação, Judy Hopps pulou para um caloroso abraço em seu parceiro canídeo.

— AHHHH, COSTELAS, COSTELAS, COSTELAS...!!!

Arfou dolorosamente o raposo…

— AHHH, DESCULPA!! — A coelha o soltou e tentou se afastar...


... Porém, Wilde a segurou e tornou a apertá-la contra seu corpo.


— N-não, fica...! Pode ficar, Cenourinha…!















— ... Por você, eu aguento...!






























































— ... 'Func, func'...! Hmm…








— O que foi, Senhor Savage...?

Indagou uma curiosa Hopps, ao perceber que Jack estava pensativo farejando algo.


— ... Bem…




A lebre fitou seriamente a dupla de coelha e raposa e proveu um sorriso.

— ... Já que ainda temos um pouco de tempo aqui… Eu preciso confessar mais uma coisa...



E, enquanto Savage aproximava-se da porta do quarto, o Chefe Bogo adentrou o recinto.


— Ei, olá! Estão bem acordados, pelo visto...! — Declarou o búfalo, enquanto Hopps descia envergonhada da maca de Nick — ... Ah, Senhor Savage, já solicitei ao departamento de compras do DPZ a aquisição de dinamite pronta ao invés de nitroglicerina... Foi uma boa sacada!

— Muito bem... E desculpe novamente pelo prejuízo! — Acenou o roedor com um dedo.

— Ah, e o Senhor…? — Bogo apontou um dedo pra raposa enquanto olhava para a lebre — … Jáááá…?

— Já sim, Chefe Bogo. — Assentiu a pergunta oculta em entrelinhas com a cabeça, enquanto Judy ao fundo jogava dois mirtilos ao ar para Nick, que agarrou as frutas com a boca como um cão adestrado.

— Perfeito… Wilde…!





De boca cheia, o raposo ergueu as orelhas, atento ao chamado do búfalo.









— ... Meus parabéns!








Nick agradeceu com o mesmo gesto de cabeça que Savage acabara de fazer — Grato, Chefe! — Soltou de mandíbulas azuladas com mirtilos.

— Bem, acho que interrompi algo... — Bogo murmurou olhando os presentes, deixando o quarto — ... Com licença!


O trio assentiu e o búfalo saiu, com um clique da porta.

— Bogo ficou irado quando soube que você acabou com os estoques de nitroglicerina do DPZ... — Jack explicou enquanto aproximava-se novamente da porta do quarto — ... 'EU VOU PEGAR AQUELA RAPOSA E FAZER UM ESFREGÃO COM A CAUDA DELE!!'... — Ironizou com uma voz grossa para simular o que havia escutado, enquanto trancava o recinto e fechada as viseiras da porta.


— Não parexia que ele estava irado… — Wilde engoliu as frutas — Eu até ganhei um parabéns!

— ... Então, eu aliviei sua barra e disse que foi culpa minha.

— E... ele...? — Nick perguntou curioso.

— 'Ah, eu já ia trocar aquelas garrafas, foi um baita dum favor se livrar daquela tralha, Senhor Savage!'... — A imitação causou risos no trio — ... Chefe Bogo é um homem rústico, preferia fabricar a própria dinamite com medo de deixar estoques prontos para meliantes que possam desviar... — Jack aproximou-se de volta da maca de Wilde — Até faz sentido, mas hoje isso é facilmente rastreável... Enfim, esqueçam o simpósio sobre explosivos...



— ... Eu fechei a porta porque fomos interrompidos num assunto um tanto 'particular-barra-íntimo'...


Wilde e Hopps se entreolharam atônitos.


— ... Lembram do que eu falei sobre feromônios?



— Ah, eu queria não precisar lembrar... — Hopps soltou rispidamente, aparentemente corando com a inserção daquele assunto em pauta novamente, ao passo que o raposo proveu um olhar entediado.


— ... Então... Também foi uma mentira branca.


— Outra? Caramba, você é um mentiroso compulsivo! — Cuspiu a raposa.

— Realmente, tá até parecendo o Nick! — Hopps acrescentou.

— Pera, o quê?? Você tá do lado de quem, criatura?

— Eu não tenho lados... E você é um baita dum mentiroso, sabe muito bem disso, vendedor de Patolés!

— Ah, falou a outra que vive mentindo pros pais que não tá se envolvendo em perigo e depois eu que preciso dar meus pulos quando eles vêm me perguntar! Eu deveria ganhar honorários por ser advogado de coelha!

— Você é praticamente a personificação da mentira, Nick! Nunca ouviu falar que 'a mentira tem pernas curtas'?

— Vai se foder, Hopps!

— EI!!!





Um impaciente Jack Savage interrompeu a atrapalhada discussão.


— ... Enfim... Retomando... — Balbuciou com uma pata na testa — ... Quando eu disse que coelhos sentem os feromônios de outros com facilidade, isso realmente procede... Afinal, eu sendo o único coelho além da Agente Hopps aqui no DPZ, consigo perceber isso muito facilmente...

O assunto em pauta claramente desagradava Nick Wilde, que observava de braços cruzados, enquanto Judy estava com o rosto cerrado e focinho tremendo.

— ... E, volta e meia, sinto um certo odor de noz-moscada com notas de laranja... Claramente, feromônio de coelho!

— Ei, mas eu não controlo is-

— Não controla... — Savage interrompeu Hopps e também Nick, que estava disfarçando uma carranca e prestes a intervir — Exatamente, é automático… É um aspecto animalesco e fisiológico liberado automaticamente quando você tem interesse em alguém…

— E-e-eii, mas e-e-eu não tenho interesse em-

— Em mim? Claro que não…! — O contraste do discurso atual de Jack com seu discurso durante o embate era digno de curiosidade — … Mas eu sinto estes feromônios com facilidade por ser um coelho... E eu já percebi exatamente quando eles estão no ar…








— ... e é quando uma certa raposa está presente.






A dupla de roedora e canídeo proveram outra troca de olhares, com intensa vergonha.


— Wilde, você é um canídeo… — Savage indagou com as mãos nas costas — Seu excelente faro nunca denunciou algo diferente com a Hopps?

— E-e-eu... O-olha, eu só acho que eu... E-eu...

— Ei, espera aí!!...

A coelha interrompeu o gaguejante raposo.


— ... Foi por isso que você ficou quase um mês inteiro me perguntando se eu tava usando um perfume novo, até eu precisar falar que sim, só pra você parar de perguntar???

— Então, não era um perfume???

— ... E 'Bum!', novamente.


Jack Savage vislumbrava satisfeito aos dois parceiros intensamente corados, com Judy fitando o raposo que escondeu o rosto avermelhado debaixo de suas cobertas.


— Ai ai, essas raposas... Tão sentimentais... — Suspirou a lebre.


— Ei, cê tá me estranhando, meu chapa??!...

E Wilde rapidamente revelou uma carranca novamente.

— Nick! — Judy o repreendeu, sem notar que era uma brincadeira.






— ... Mas falando sério agora, Savage...









— ... Você não fala isso das raposas à toa... Qual foi?








— É, Agente Wilde...

Em retribuição, Jack lhe deu um olhar astuto…

— ... Sua capacidade de leitura de indivíduos é realmente algo singular…





… E alcançou um pequeno objeto circular em seu bolso esquerdo de suas calças…





— … De fato, se eu friso que raposas são animais sentimentais, é porque tenho propriedade pra falar isso…







… E encaixou o utensílio dourado em seu dedo anelar.














— … Por ter escolhido passar a minha vida ao lado de uma.












Estarrecidos, Wilde e Hopps arregalaram os olhos, junto de um sorriso de verdadeira surpresa. Jack Savage, por sua vez, fitava serenamente a aliança posicionada em seu dedo.




— … E não menti quando disse que a biologia impõe suas regras… — Prosseguiu, ainda observando o símbolo de seu matrimônio — … Mas ela também denuncia que vocês dois não são só colegas de trabalho, ou simples amigos…





Jack Savage virou o rosto para os presentes.








— … Não tenham medo de ir em frente.








Com o ‘aval’ de seu superior, coelha e raposa trocaram um olhar sereno… E, quando se deram conta, já estavam próximos o suficiente para que seus lábios se encontrassem.


Em respeito ao gesto de intimidade, Jack Savage virou-se de costas para a dupla, de braços cruzados e semblante satisfeito. O tilintar dos aparelhos conectados à Nick Wilde denunciava o como aquele beijo era intenso, com seus batimentos cardíacos acelerando com tal prova de afeto… Terapeuticamente falando, poderia até parecer algo grave, porém, definitivamente, não era… Aquele raposo não poderia estar melhor.






— … Por que que eu acho que não foi a primeira vez que vocês fizeram isso, hein…? — Savage entreolhou por cima de seus ombros ao fim do beijo, vendo de canto de olho uma Judy de sorriso encabulado e um orgulhoso Nick que proferiu um breve ‘hehehe’ de raposa.


— Não esperava algo assim vindo de um cascadura como você… Isso que eu chamo de bom gosto, senhor! — Brincou o canídeo.

— Nossa, o puxa-saquismo com o novo chefe começou rápido, hein? — Hopps recebeu uma tentativa de ‘dedo do meio’ da raposa, que só tinha quatro dedos em cada pata.



— Bom… Acho que é mais do que justo deixar vocês a sós, depois de tanta emoção que passaram… — Savage disse depois de uma breve risada — Daqui a pouco as enfermeiras vão precisar me passar alguns remédios, então, melhor eu voltar para o meu quarto…








— … Mas, antes, eu só gostaria de falar mais duas coisas…




— Somos todos ouvidos! — Judy disse de orelhas bem erguidas, gesto copiado por seu parceiro raposo.



— Wilde, você vai ficar só uns três dias por aqui, nessa enfermaria… — A raposa abaixou as orelhas — … Eu vou solicitar ao Chefe Bogo a sua transferência para recuperação num lugar adequado…





— Eu vou logo pra casa, então? — Questionou o curioso raposo.

— Por ‘casa’, você quer dizer aquele seu apartamento chechelento, Nick? — Judy lhe alfinetou sarcasticamente.

— Nem parece que vive querendo ir lá, né, Hopps?... — Nick devolveu de modo prepotente — … E ele não é chechelento, aquilo lá é personalidade!






— … Trinta dias na Pousada Nova Lua de Mel em Koppenhöffen, desfrutando de tudo que podem oferecer.

— Meu apartamento é chechelento sim, confia.




Judy Hopps ficou encantada com o presente que Savage deu para seu parceiro, que prontamente aceitou de bom grado.

— Eles possuem uma ala para cuidados médicos, com quartos equipados para te atender nessa fase mais aguda do tratamento… — Continuou a lebre — … Agente Hopps, vou pedir folga pra você também… Assim, vocês dois descansam antes de partirem para a missão.

— Ah, boa sorte, senhor… — Cuspiu o raposo — Essa aqui é ‘workaholic’ ao extremo.

— Eu não sou ‘workaholic’, eu só sou atarefada! — Reclamou a coelha.

— Cenourinha, esses dias atrás você estava até lavando os pratos do refeitório! — Dessa vez, Judy quem mostrou um dedo do meio.


— Mas, Agente Hopps… Esse tempo com o seu parceiro iria ajudar tanto a recuperação do Agente Wilde, mas também as coisas entre vocês… — Intrigado, Savage barganhou — … Você vai recusar?

— Permita-me, Senhor — Intrometeu-se a raposa — … Mas eu sei que essa criaturinha aqui não consegue ficar longe do trabalho… Ela ia sofrer muito, deixa que sobra mais pousada pra mim!

— Eu sofro mais ficando longe de você, raposa boba… — Wilde corou com a alfinetada — … Senhor, eu quero aceitar, só preciso dar um jeito de conciliar.

— Ok, organize suas tarefas então… — Jack ergueu dois dedos — E a segunda coisa…




— ... Quantos quilos vocês dois pesam?




A dupla de raposa e coelha franziu a testa com aquela pergunta tão aleatória.


— É sério, quantos quilos?


— Eu tenho uns trinta e seis quilos... — Nick deu um sorriso de deboche para sua parceira — ... Hooooooppssssssss...??

— E-eu não sei se quero responder essa pergunta... — Balbuciou envergonhada, sem estabelecer contato visual.

— Bom, pela sua estatura, estimo que deve estar entre catorze e quinze quilos… — Cravou o coelho — … Estou certo?

Judy ergueu rapidamente as orelhas em surpresa, logo abaixando-as junto com seu rosto corado. Uma piscadela de Nick para Savage serviu para confirmar o chute — ... Ok, vocês dois juntos então pesam uns cinquenta quilos...

— M-mas Senhor... — Murmurou uma desenxabida Hopps, enquanto Savage destrancava a porta para ir embora do quarto — ... Qual é o ponto disso...?


— Bem… Isso aqui tem que ser considerado um ‘Segredo de Estado’… — A lebre calmamente retirou sua aliança, devolvendo-a para o repouso em seu bolso — ... Me esforço muito para não deixar aspectos da minha vida pessoal se tornarem públicos, principalmente para proteger minha esposa… Não é segredo nenhum que eu tenho muitos inimigos, não é?

— É, quase ganhou mais dois… — Ironizou Wilde.


— Enfim… Se eu compartilhei isso, é porque vocês tem minha simpatia e minha confiança...


Jack Savage lhes deu um olhar sereno.



— … Talvez, posso até considerar o que chamam de 'amigos'...






Nick e Juddy trocaram um olhar alegre...










— ... Quebrem essa confiança e eu juro que vou preparar cinquenta quilos de nuggets de carne mistos de coelho e raposa.





... Que, rapidamente, virou um olhar apavorado.

Com direito a Nick Wilde rapidamente erguendo sua coberta para verificar algo.

— ... C-Cenourinha... Acho que vou precisar trocar o colchão...











Notas finais
Eeeeee é isso!! Chegamos ao fim, com ânimos apaziguados e um Nick Wilde vencedor!! Agradeço pelo apoio de quem acompanhou essa pequena fic, e uma notícia bacana é que essa saga do Nick em recuperação na Pousada Nova Lua de Mel será retratada no One-Shot "Trinta Dias no Paraíso", que sairá dentro de algumas semanas... Agradeço o apoio novamente e eu fico por aqui!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.