Zootopia - Savage... Jack Savage
2 ... À luta pela sobrevivência...
Notas iniciais
— ... Cápsula de uivante...!
A noite se mostraria agitada naquela porção de Zootopia... A chuva deu uma breve trégua durante o crepúsculo de fim de tarde, porém, uma intensa tempestade estava se fortalecendo...
O galpão principal daquela área industrial se abria como uma catedral de concreto, com colunas metálicas sustentando um teto alto de vidro, aliado a vigas enferrujadas e porções já sendo invadidas por plantas do exterior. Cabos elétricos pendiam como vasos sanguíneos artificiais, brotando de algumas porções sem uso, enquanto algumas máquinas estavam paradoxalmente, em funcionamento, mesmo sem sinais de expediente fabril há muitos anos... A única vida ali presente consistia em três indivíduos que estavam chacoalhando aquele complexo cheio de ecos do passado...
Nicholas Wilde e Judith Hopps observavam estarrecidos ao super agente policial, Jack Savage, ter em suas mãos uma cápsula do extrato de uivantes, uma das mais potentes drogas conhecidas naquele mundo. O simples contato com o extrato processado em laboratório poderia fazer a vítima perder sua consciência e tornar-se uma casca selvagem, acabando com milênios de evolução.
A luta entre os dois policiais, ainda considerados novatos, e o agente com anos de serviço, mostrava sinais de reviravolta para o lado da coelha e raposa. Sinais da luta que valia o ingresso de Nicholas numa importante missão eram claros nas vestimentas rasgadas nor trajes táticos dos três e, por mais que Hopps e Wilde tenham recebido múltiplos golpes e já mostrassem sinais de cansaço, Jack Savage foi alvejado por um disparo da raposa, causando dano considerável. Pressionado a vencer, Savage necessitou apelar para métodos nefastos...
— Oficial Wilde...
A voz taciturna de Jack atingiu a alma do predador, que ofegou com mau pressentimento.
— ... Por que eu perderia tempo dando oportunidade para um recruta reprovado...
Jack colocou a brilhante e redonda cápsula azul na altura de sua boca.
— ... Se não fosse para mostrar quem aqui está no comando?
— SENHOR SAVAGE, NÃO FAÇ-
Judy Hopps não terminou sua frase a tempo da lebre morder a cápsula com extrato de uivantes, que estourou com um ruído seco.
— ... ‘Um coelho pode se tornar selvagem...!’
A voz de sua experiência ecoou na mente da oficial roedora. Chocados e intimidados, Nick e Judy encaravam cautelosamente o agente lebre mastigar a cápsula de uivantes… Plantas cujas tais foram responsáveis por trazer selvageria a muitos predadores em tempos passados, semeando pânico em Zootopia, tramoias orquestradas pela sociopata EX-Prefeita Bellwether...
… Porém, diante dos oficiais presentes, ali não era um predador qualquer...
— Ele engoliu…! — Murmurou Wilde, preparado para o pior.
... E sim, um agente secreto lendário.
— GAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!
Subitamente, Jack Savage lançou um poderoso urro selvagem, curvando-se contraído para frente. Sua roupa tática rasgou-se da cintura pra cima, revelando uma explosão muscular causada pela droga.
— Merda, merda, merda...! — Desesperado, Nick agarrou o braço de Judy — … Cenourinha, corre!!
Aterrorizada, a dupla afastou-se o máximo possível de Savage, escondendo-se atrás de uma grande caixa de madeira posicionada alguns metros adiante.
— Droga, ele fez mesmo… — Sussurrou a coelha, visivelmente abalada com os distantes grunhidos de Savage — Nick, me ajuda a pensar num plano...!
— Não, você vai me escutar alto e claro...!
Hopps fitou Wilde com certa surpresa, enquanto a raposa usou suas duas patas peludas de pêlo escuro para envolver a sua delicada pata direita.
— ... Cenourinha, eu preciso que você escape e chame reforços... — Lançou Wilde, num raríssimo lampejo de seriedade — Eu vou segurar as pontas por aqui!
— O-o quê!!?? — Nick nem mudou sua expressão com o choque de sua parceira, como se já esperasse tal reação — Sem chance, eu não vou deixar você pra trás, tira isso da cabeça!
— Cenourinha, nós não temos chance…! — Um olhar desesperado estava estampado na face da raposa — … Nós não podemos com ele em sã consciência, quem dirá agora que ele virou um... um…
Agoniado, Nick deu uma breve espiada para fora de seu refúgio, vislumbrando Savage ajoelhado, gritando em fúria com uma das patas pressionadas contra o rosto.
— ... um animal...!
— … Nick, escuta…!
E, dessa vez, foram as delicadas patas de coelho que envolveram a mão da raposa.
— … E-eu não vou te abandonar...! — Judy estava visivelmente emocionada — ... É pela sua carreira... É-.. É-… É por nós...!! Wilde e Hopps…!
A raposa queria ter o otimismo de sua parceira, contudo, de semblante preocupado, o canídeo deu uma breve lufada de ar — ... Judy… Não é pelo teste...
Disse cabisbaixo, erguendo a cabeça em seguida.
— ... É pela sobrevivência…
O peso da mensagem levou Hopps a baixar suas longas orelhas…
— … Ele vai nos matar, Judy... — Wilde proferia com uma tensão que visivelmente transbordava seu âmago — ... Ele é um super agente selvagem agora, sem consciência... Se ficarmos os dois aqui, os dois vão morrer em vão… Judy, e-eu ... E-e-eu ... Eu n-não posso deixar que... deixar que você...
Consternado, o emocionado raposo não conseguiu terminar, abaixando a cabeça.
— Busque reforços, Hopps... Por favor!
— ... Nick...
— ... Eu preciso te dizer uma coisa…
Mesmo com o emocional abalado, a raposa prestou atenção à sua companheira.
— … Lembra quando eu pulei da parede climática para te resgatar?
— Sim... — Murmurou o canídeo, olhando pra baixo — ... Você e o Gary... Apesar que aquela hora eu só vi um borrão cinza e outro azul.
— Então... Não, Nick...
— ... Fui apenas eu.
— Não, não, pera… — A raposa deu um olhar surpreso para a roedora — … Eram borrões, mas eu sei que o Gary que nos puxou para cima…!
— Não, Nick… — Judy colocou uma mão em frente à boca, começando a soluçar — … Eu não fazia ideia que o Gary iria me segurar... E-eu... Eu apenas...
— ... Precisava te alcançar...
Por sua vez, Wilde também não conseguiu conter a emoção por saber do sacrifício de sua parceira.
— … Eu precisava te alcançar, Nick…! Mesmo que isso significasse... Isso significasse... — Emocionou-se a roedora.
— … Cenourinha…
Sussurrando, Wilde colocou uma pata sobre o queixo de Judy, que retribuiu com um semblante determinado.
— ... E eu pularia novamente Nick…!
— … Pularia quantas vezes fosse necessário… Como agora!
Com o rosto cheio de lágrimas, Judy Hopps terminou com um olhar focado, pactuando que não abandonaria Wilde. Seu olhar púrpura encontrou o admirado olhar esmeralda de seu parceiro raposa… Um olhar que revelava proximidade…
... Com ambos os rostos se aproximando...
… Mais, e mais...
— O casalzinho já terminou??
Instantaneamente, ambos pararam sua investida e ergueram suas orelhas, virando-se para o lado da caixa para ouvir uma voz familiar... Quando, subitamente, tal caixa foi arremessada para longe sobre eles...
... Revelando um ameaçador e corpulento Jack Savage.
— Como que voc-
Nick Wilde não terminou sua frase... Com uma velocidade absurda, Savage golpeou Judy Hopps na barriga, tão brutalmente que a coelha foi arremessada para uma parede dezenas de metros ao longe.
— ... JUDYYY-
E Wilde mal teve tempo para esboçar reação, recebendo no rosto uma violenta pancada da costa da pata de Savage, também lhe jogando longe, em direção contrária.
Implacavelmente, o coelho de elite permanecia em pé entre os caminhos de Nick e Judy, após separá-los de modo brutal... Robustamente intimidante, Jack Savage estava estranhamente contido para alguém que havia acabado de ingerir uma cápsula de uivantes.
Ofegante e zonzo, Nick Wilde levantou-se com dificuldade... Uma das primeiras coisas que lhe chamou a atenção foi um gosto estranho inundando sua boca...
... O sabor de sangue... Seu sangue.
— Merda, isso não pode estar acontecendo...! — Balbuciou perplexo, vislumbrando Savage lhe encarando ao longe. E, mais distante, seu olhar encontrou Judy Hopps, caída e imóvel.
— JUDY!!!! — Gritou aflito o raposo, estendendo o braço direito.
— 'JUDYYY...! JUDYYY...!' HAHAHAHA!! — Savage debochou olhando para os lados — Que piada… Você é tão incapaz assim de fazer algo sozinho, sem ficar na sombra da Oficial Hopps??
— Como... Como que você...?! — Wilde, arfando, indagou com a cara fechada para Jack, tentando compreender aquela situação atípica.
— Você me subestima, raposa... Acha mesmo que minha mente sucumbiria ao extrato de uivantes? — Declarava rispidamente — Eu sou suficientemente fortalecido, mental e fisicamente, para extrair apenas o potencial físico dessas cápsulas...!
De fato, Jack Savage teve um considerável ganho físico... Tanto que, agora, o topo de sua cabeça estava quase na mesma altura da cabeça de Nick. Seu tórax desnudo revelava uma musculatura bem definida, combinada com um arsenal de cicatrizes, marcas de um claro passado sofrível e tempestuoso, cada uma representando uma batalha e uma falha… Assinaturas de momentos em que a lendária lebre pode ter titubeado a ponto de alguém lhe ferir, como a mais nova integrante de seu portfólio, uma ferida de bala cauterizada no seu flanco esquerdo, cortesia de Nicholas Wilde.
Contudo, o que chamava a atenção da raposa era algo mais assustador do que uma algazarra de cicatrizes... Era o semblante de Savage...
... Um semblante vazio, de pupilas quase puntiformes, focinho erguido e órbitas oculares profundas... Uma expressão primitiva, desprovida de qualquer resquício de empatia e piedade. Um claro indício de que Savage ainda não exercia bloqueio mental completo sobre o efeito da droga… Ele era uma casca selvagem que se julgava consciente.
— Então, você precisou apelar pra isso…! — Afrontou a raposa — … Achei que você fosse mais honrado, ‘Senhor’...
— Orgulho não vence batalhas, raposa… Força vence batalhas…! — Devolveu com profunda seriedade — … Eu não sou um fraco como você, Nicholas Wilde, eu-, eu sou melhor! EU SOU MELHOR!
E esse controle mental falho refletia-se claramente em falas psicóticas, proferidas entre tremeliques tenebrosos pela lebre.
Nick colocou-se em guarda, tentando transparecer confiança.
— Alguém aqui não passaria no teste toxicológico, então...
— Estou farto de suas piadinhas, raposa... — Savage nunca lhe chamava pela espécie, estas observações faziam calafrios percorrerem o corpo do canídeo — O que eu devo fazer para você calar a boca?
— Para seu azar, eu tenho um focinho grande... — Rebateu — Piadas são um mecanismo de defesa para quem deseja quebrar a cara de uma certa lebre drogada...
O agente fechou mais ainda sua expressão odiosa… Em silêncio, Savage virou seu rosto na direção da desacordada Judy Hopps...
... Retornando um olhar maligno à Wilde.
— Não...!
A raposa, estarrecida, baixou a guarda... Savage pegou em seu ponto fraco…
… E ele sabia disso, irrompendo na direção de Hopps.
— DEIXA ELA FORA DISSO!!!
Urrou Wilde, correndo agoniado para a mesma direção. Ao seu julgamento, Savage claramente iria cometer alguma atrocidade devido ao seu abalado estado mental.
Num momento de pensamento rápido, Nick usou uma de suas garras para cortar uma corda que segurava um grande caixote suspenso através de uma polia, com sincronia perfeita para que o enorme objeto caísse sobre Jack. A queda causou um enorme estrondo e um dano considerável sobre o chão de madeira.
Wilde continuou correndo, sem importar-se se acabou de esmagar seu superior. Contudo, ao passar pela grande caixa, o piso de madeira ao seu lado explodiu numa investida de Savage, quebrando o solo e lhe dando um poderoso direto no queixo, erguendo Nick ao ar... E, com ele ainda ao ar, Jack agarrou a cauda do canídeo, impulsionando o predador para uma violenta pancada contra o chão, sem que Nick pudesse reagir antes de receber um chute que o lançou próximo a Judy. Este último golpe fez Wilde soltar um grunhido agudo de raposa, coisa que o oficial evitava ao máximo fazer.
Aquela sequência implacável de golpes refletia o que era Jack naquele momento… A outrora elegância em refinado combate deu lugar à selvageria e brutalidade de um ser impiedoso, sedento de sangue, disposto à fazer sua ‘caça’ sofrer intensamente.
Com o último pontapé, Nick acabou caindo já próximo à Judy, indo prontamente ao seu socorro — Cenourinha!! Cenourinha, acorda! — Tateou a coelha, inicialmente desacordada e com o toque iniciou um lento despertar — Judy…! JUDY…!
— ... Ugh-... N... ick...? — Balbuciava lentamente a roedora de olhos entreabertos, visivelmente desorientada.
— Não, não, espera! Não se mexe! — O aflito raposo segurou os braços da sua parceira, com cuidado para não machucá-la — Você não tá bem, fica parada!
— Ele... me bateu de jeito, hein…! Cof-, cof-! — Murmurou a zonza coelha, sentada e fazendo grande esforço para se manter consciente. Sua condição não era boa, o que era enfatizado pela visível preocupação estampada no rosto de Nick Wilde.
— Hospital... — Balbuciou o canídeo — Nós temos que levá-la para o hospit-Ugh!
Wilde não terminou seu pedido, sendo subitamente levantado pelo pescoço por Savage, que o alcançou com uma velocidade absurda.
— Você acha mesmo que no campo de batalha o inimigo vai ter dar alguma trégua assim, seu idiota?
Rosnou irritado o vicioso agente, enquanto a raposa balançava suas pernas suspensas do solo e agarrava a mão de Savage em sua garganta, numa tentativa se desvencilhar.
— NICK!! — Desesperada, Judy gritou num breve lapso de consciência, em seguida procurando as armas em seu coldre, que haviam caído após o golpe que recebeu.
— Isso… é só um... Teste...! — Nick respondeu mediante muito esforço, com nítida dor causada por aquele sufocamento — ... Chega disso...!... Ela tá machucada e... precisa... de ajuda…!
A carranca de Savage foi substituída por um cínico sorriso, inclinando brevemente a cabeça enquanto vislumbrava o desesperado predador.
— Você é um fraco patético, Oficial Wilde... Não iria durar dez segundos num cenário re-
*CUSP*
Jack parou de falar e Hopps arfou no momento em que Nick acertou uma cusparada certeira no rosto do agente, que limpou o conteúdo asqueroso com as costas da pata esquerda. A raposa parou de se debater e permaneceu estático com o feroz olhar que Savage deu para a gosma em sua pata.
— Ah, você não fez isso...!
Então, com um rápido movimento circular, Jack Savage arremessou Wilde violentamente contra o chão metálico, levando a placa do solo a se entortar.
Com o choque, Wilde arfou junto de um grunhido de raposa, enquanto Judy, já alcançando sua pistola de munição letal no chão próximo, gritou desesperadamente pelo nome de seu parceiro.
O coelho ficou em pé ao lado de Nick, apreciando o sofrimento do canídeo que lutava pela vida através de uma pesada respiração. Contudo, de canto de olho, ele reparou que estava na mira de uma pistola. Como um relâmpago, ele chegou até Judy e bloqueou o gatilho da pistola usando um dedo, travando o aparato.
— Vai atirar em mim, Agente Hopps?... — Mesmo psicótico, Savage ainda lembrava da posição hierárquica da coelha — ... Pois bem...
Jack tirou o dedo do gatilho e, agarrando lentamente o braço de Judy, a fez apontar a arma para baixo de seu queixo, deixando-a chocada.
— Vai... Puxa o gatilho... — Desafiou a lebre para a estarrecida policial — Estoura os meus miolos e salva seu parceiro...!
Boquiaberta, Judy estava tão assustada com aquela insanidade que não conseguia esboçar uma reação contundente, enquanto Savage seguia com seu show de horrores nefasto.
— ... Só que aí... Você vai ser conhecida como a coelha traidora que acabou com o heroi de todos os coelhos… — Mesmo entre tremiliques de face, Savage permanecia cirúrgico em sua pressão psicológica. A enfraquecida Judy Hopps estava claramente relutante em puxar o gatilho — ... Você nunca matou ninguém antes... Vai querer mesmo que eu seja o primeiro?
Vagarosamente, Hopps abaixou a arma. Jack deu um peteleco no aparato que estava nas mãos frouxas da cabisbaixa coelha, deixando-o cair enquanto encarava a roedora com um curioso semblante decepcionado...
... E, com um discreto movimento de cabeça para trás, o agente evitou que um dardo tranquilizante atingisse seu rosto.
Vindo da perpendicular esquerda, o projétil cravou-se na caixa de madeira ao lado.
— Ah, você nunca desiste, não é...
Jack virou lentamente o rosto para vislumbrar um ofegante e exausto Nick Wilde, sob extrema estafa, mas que ainda tinha energia para levantar-se com a arma de tranquilizantes em mãos. O canídeo claramente estava com medo, porém, pitadas de determinação em proteger sua parceira transpareciam de seu ser.
Seriamente, Wilde firmou a mira novamente, disparando seus melhores tiros, enquanto Jack desviava plenamente, aproximando-se a cada disparo como se fosse uma entidade sobrenatural... Até que no último tiro de Nick...
— ... NÃO!!!!
A lebre posicionou-se quase instantaneamente ao lado de Wilde e direcionou seus braços para atirar contra Judy Hopps.
— NÃO!! NÃO, JUDY!!
A raposa gritou para uma estarrecida Hopps, enquanto Savage ao lado, com seus longos bigodes em contato com a pelagem arrepiada de Wilde, observava a cena com plena felicidade irônica em seu semblante. Nick soltou-se e correu até sua parceira já sonolenta, imediatamente retirando o dardo tranquilizante de seu quadril.
— JUDY!! JUDY!! — Gritava tateando os braços da roedora, em vão... O diminuto corpo de Hopps distribuía o entorpecente de forma extremamente rápida. Por mais que a coelha, ofegante e atordoada, tentasse dar o seu melhor para ficar de olhos abertos, sua consciência esvaía de modo irreversível.
— Minha nossa, Wilde, o que você fez??? — Savage gesticulava de modo teatral, com profundo sarcasmo — Atirou em sua parceira!! Caramba, por que que estou surpreso com esse tipo de traição vindo de uma raposa???
Ignorando aquela afronta, Nick vislumbrou cabisbaixo e impotente aos últimos momentos de consciência de sua parceira. Ele não se deu ao luxo de olhar para Savage... Profundamente abalado pela falha, a raposa apenas murmurou...
— Eu desisto.
Imediatamente, o deboche de Jack Savage transformou-se em seriedade.
— O que disse...?
— Eu disse que desisto, droga! Você venceu! — A raposa transpareceu nítida frustração, fitando a inconsciente Hopps — Não me importo mais com essa missão idiota, não me importo em conquistar algo tendo feito mal à ela no processo… Só me importo que ela esteja a salvo...!
A sisuda raposa colocava de pé — ... Eu não sei direito o que está acontecendo… Mas agora vamos parar com essa palhaçada e levá-la para atendimento méd-
Antes que pudesse se dar conta, Nick foi atingido por um poderoso chute na lateral do seu corpo, lançando-o para a beira daquele andar.
Desorientado, Wilde tentou colocar-se de pé, segundo erguido novamente pelo pescoço por Jack.
— Você disse o quê?? — Rosnou o agente.
— Que... desisto...! — Devolveu a raposa, com esforço — ... Não... vale a pena ela... morrer... por isso...
Descontente, Savage lhe deu um único murro no estômago, que fez Wilde cuspir sangue numa profunda arfada de ar.
— Desistir??? Você imagina quanta coisa eu deixei de fazer para vir perder tempo com dois oficiais fracos como vocês?? — Indagou ferozmente — … E, agora, depois de tudo isso, você me pede para desistir, Oficial Wilde???
A raposa chutava o peito de Savage com as solas dos pés, uma tentativa inútil de se desvencilhar... Jack era irredutível, era como golpear um bloco de concreto.
— ... Mas em uma coisa você está certo, raposa.
A lebre colocou seu cativo mais próximo de seu olhar.
— Não é mais um teste...
— ... É sobrevivência.
O olhar de Nick Wilde se petrificou, ao passo que Savage lhe deu outro profundo murro no estômago, arremessando a raposa para outra plataforma, à beira de um triturador.
— ... Argh...! — Gemeu Wilde, ajoelhado com uma mão no seu pescoço — ... Ele… realmente está maluco...!
— Talvez esteja.
Dessa vez, Savage pegou a raposa pela cauda, erguendo-a perigosamente sobre a mortífera máquina abaixo.
— Você quer que eu te solte, Wilde?
Perguntou cinicamente a lebre, vislumbrando o profundo terror no semblante do canídeo, que não conseguia responder e desesperadamente tentava segurar-se em qualquer suporte próximo, vislumbrando a morte diante de si nas engrenagens do potente triturador.
— Fique tranquilo, eu não vou te soltar…
— … Mas… De qualquer modo…
Nick virou seu olhar para encontrar os psicóticos olhos de Jack, acima.
— … Eu vou te matar, Nicholas Wilde.
Um terror puro estava estampado no rosto de Nick, que parou de se debater sobre o discurso gélido de seu algoz — … E não serei misericordioso de fazer de modo rápido, ah não…! Eu vou ter o prazer de te quebrar mentalmente e fisicamente, vingando milênios de opressão que os seus de sua espécie exerceram sobre os meus, durante tempos de primitivos e selvagens costumes…!
— Me solta, seu psicopata! — Debateu-se um raivoso Nick.
— Certo, como quiser.
Munido de seu sorriso alucinado, Savage abriu sua mão e deixou Wilde escorregar para dentro do triturador.
Num reflexo de sorte, a raposa conseguiu agarrar a borda metálica de dentro do aparelho, precisando erguer sua longa cauda que, por muito pouco, não foi agarrada pelas mandíbulas do triturador. Com certo esforço, o desconcertado canídeo ergueu-se de pé, equilibrando-se na fina borda da máquina... — ... Merda... Isso foi... peri-GAHHH!!!
Sem chance de evitar, Nick foi atingido nas costas por um tronco de madeira, arremessado como um míssil por Jack e causando a queda da raposa no andar abaixo.
Ainda tentando entender o que aconteceu, Wilde mal virou para trás e precisou correr para esquivar-se de uma chuva de vigas de metal e mais troncos que foram arremessados, um deslize ali poderia ser fatal.
— É, parece que você ainda tem uma chama interior que queima e te motiva a sobreviver e lutar... — Savage declarou ao alto, retomando sua postura após o lançamento dos objetos. Nick não lhe respondeu, apenas o encarou de modo ofegante, mas claramente irritado.
Então, o coelho lentamente voltou seu olhar para trás, para a direção da plataforma onde estava Judy Hopps, agora fora da visão da raposa.
— ... Por quanto tempo será que essa chama vai queimar?
— NÃO!!!
Nick gritou com uma pata estendida, como se seu subconsciente imaginasse que aquilo faria o psicótico roedor não ir atrás de sua parceira.
Savage sumiu de vista a passos lentos, enquanto Wilde desesperadamente tentava ganhar terreno para chegar à mesma plataforma.
— ... ‘Mas, você sabe, Oficial Wilde’…
Pulando através de caixas e de corrimões, a agoniada raposa tentava atingir seu objetivo...
— JUDY!!! JUDY!!!!! — Berrava Wilde entre as manobras. Foram dois, três, quatro, seis, oito, dez pulos e escaladas para chegar, enfim, à plataforma. Seu corpo que, já deveria estar dando claros sinais de desistência, utilizou força máxima de seu combustível, queimando em força máxima a sua fornalha de determinação...
— … ‘que um dia’…
... Porém, todo esse intenso esforço não foi suficiente.
— ... '... Você não vai chegar a tempo’.
— Não...
Um intenso trovão chacoalhou o complexo industrial ao mesmo tempo que Nicholas estampava profundo horror em sua face com a cena vislumbrar…
… Judy Hopps, suspensa no ar pelo pescoço, na mão de Jack Savage... Sua cabeça, pendendo para o lado, não parecia estar posicionada como a de alguém que estivesse... vivo.
— Está acabado, Wilde.
Desprovido de compaixão, Savage jogou a coelha ao solo como se fosse um objeto descartável, com ela caindo imóvel através de uma reverberação metálica.
Desacreditado, Nicholas Wilde sentiu que as cores do mundo se esvaíram com o espalhar daquele som seco.
Com nítido pânico em seu rosto, a raposa correu para o corpo de sua parceira...
— ... Não, não, não, NÃO!!! — Nick nem ligou para a presença de Savage, que até afastou-se um pouco após prover seu 'número' — Não!! Não!! Judy, acorda! Não…! Por favor, acorda...!! Judy…!
O desespero mostrava-se em vão... O calor abandonava o âmago de Judy Hopps, enquanto Wilde aflitamente tateava seu corpo com suas patas negras, desesperado por um mínimo de reação... Uma puxada de ar, um suspiro, um espasmo...
... Mas nada veio.
— Não... Não, Não…! Isso... Isso não pode estar acontecendo...!!
Balbuciou a raposa, puxando as próprias orelhas e ajoelhado sobre o corpo desfalecido de sua companheira.
— ... Ai, ai... É uma pena, Oficial Wilde... A Oficial Hopps tinha uma carreira tão promissora... — O psicótico coelho marchava para alguns passos à diante, provendo um discurso frio e maquiavélico — ... Uma vida tão próspera pela frente... E, num estalar de pescoço, tudo se acabou...
— ... E, sabe por que?...
Savage parou a alguns metros de distância e virou-se para a raposa.
— ... Porque você não sabe a hora de desistir, Oficial Wilde... Se você não precisasse fazer esse reteste, você teria ficado pra trás, mas a Oficial Hopps estaria viva...
Perturbado, Wilde queria ignorar aquela tortura... Mas a visão de Hopps morta diante de si, aliado à crueis palavras dadas por seu algoz, que lhe atingiam o coração como facas, causava um turbilhão de sentimentos em sua mente.
Nicholas desejava chorar... Ele esforçava-se para derramar lágrimas, que caíram timidamente, tilintando no piso metálico… Mas até ali suas mágoas internas o assombram… Incapaz de chorar, ele queria colocar tudo pra fora, frustrando-se com sua incapacidade de expressar sentimentos, de ser bem sucedido, de proteger sua parceira.
Aquela pobre raposa já escondeu em seu interior muita desgraça sofrida ao longo de sua vida e, agora, por sua causa, ele estava experimentando novamente a dor do abandono... Com a pessoa mais importante do mundo para ele deixando de existir.
Jack Savage, por sua vez, poderia facilmente acabar com Wilde ali mesmo, visto que o lamuriante canídeo estava totalmente indefeso... Contudo, a lebre maldita queria arrancar até a última gota de vitalidade que fosse possível da alma do predador, um desejo cego e cruel de 'reparação histórica'.
— ... Coloque-se em seu lugar, Nicholas… Isso faz parte da biologia… — Jack prosseguiu, fitando o quebrado predador — … É isso que acontece quando raposas adentram em tocas de coelhos...
Repentinamente, Nick Wilde começou a arfar, num ritmo que se tornava cada vez mais vigoroso...
... Seu turbilhão de sentimentos foi suprimido por um em específico:
— ... Nada espera-se além de desgraça.
A raiva.
— ... DESGRAÇAAAAAAADOOOOOOOOOOO!!!!
Rapidamente, a furiosa raposa pegou a pistola de Judy em seu coldre e irrompeu uma impetuosa rajada de tiros na direção de Savage, enquanto corria até a lebre. Eram tiros cegos, imprecisos e carregados de ódio, dos quais Jack conseguiu evitar com facilidade, embora um dos disparos desta saraivada raspou sua bochecha esquerda.
Após acabarem as oito balas da pistola, Wilde, ainda correndo, arremessou a arma como se fosse um último projétil, sendo facilmente defletido por Savage com uma pata.
— MALDITO!! MALDITO!!! NÃO PRECISA TER MATADO ELA!!!! — Urrava o predador, com lágrimas raivosas em suas pálpebras. Em sua corrida até o roedor, Nick jogava paus, pedras, metais, o que aparecesse em seu caminho... Pouco raciocínio, suprimido por intensa fúria.
— Ah, precisava sim... Você tinha que aprender que suas falhas e sua incompetência podem ter consequências irreversíveis, raposa inútil!
Por sua vez, Savage permanecia inabalado, apenas esperando que a raposa chegasse até ele desferindo golpes imprecisos e ineficazes.
— Lento. — Desviou de um soco pela direita.
— Lerdo. — Esquivou-se de outro para o outro lado.
— Leso… — Segurou a pata esquerda de Wilde, que direcionava-se para um murro em seu abdômen — É isso o melhor que pode fazer, então? Vingança cega, ataques à esmo?
Savage ergueu o braço de Nick, encarando-o o semblante furioso de dentes cerrados da raposa através de uma expressão cínica — Achei que com isso você ia me surpreender… Mesmo acabando com a Oficial Hopps, você continua sendo o mesmo inútil que sempre foi.
— VOCÊ... NÃO SABE NADA SOBRE MIM!!!
Então, Wilde levantou seu outro braço, mas não para um soco. Ele empunhou suas garras para um arranhão...
Não só isso chamou a atenção do coelho, mas a voz trêmula de Nick começou a ficar com um tom estranhamente grave.
Jack conseguiu se proteger da desferida agarrando o pulso do predador, imobilizando seus dois braços. Wilde olhou para o membro direito, em seguida encarou bufando o coelho, tentando um esforço inútil para se soltar. Estranhamente, Savage parecia focado, como se estivesse sofrendo um lapso de racionalidade, um lampejo silencioso e sério de sua alma entorpecida pelas uivantes.
A lebre, ainda segurando o predador, deu um pequeno pulo e atacou Nick com um pontapé duplo direto em seu peito, sem soltá-lo para intensificar ainda mais o dano. Um golpe violento e implacável, que Wilde claramente sentiu.
Mas, ainda sim...
... A raposa não tentou se afastar... Ao invés disso, olhou com mais fúria para Jack Savage.
— Tem algo errado...
Murmurou o roedor, antes de Nick lhe puxar e dar uma forte mordida no braço direito. A lebre não pôde esconder o susto que tomou, como se aquilo fosse uma amostra de primitivos hábitos dando novamente ares da graça.
— ME SOLTA!! — Savage finalmente largou os braços de Nick e balançou a raposa, um ato que fez com que os dentes do predador rasgassem sua pele.
Sentindo a dor de estar entre as mandíbulas da raposa, Jack lhe deu um murro no alto do crânio, fazendo Nick soltar o aperto por um instante breve o suficiente para Savage conectar um pontapé que lançou o canídeo para o chão.
E, ao se levantar, Nick estava realmente se comportando como um canídeo... O oficial raposa colocou-se em quatro patas, rosnando em direção ao coelho, que o fitava do alto com certa curiosidade, após conferir o dano em braço.
— Ele está...
— ... Selvagem.
Concluiu a lebre balbuciando pra si mesmo.
Focando novamente, Savage pulou e tentou uma voadora em Nick, que desviou pulando para o lado, rapidamente o predador atacando com uma poderosa mordida lateral, direcionada ao tronco do coelho. Jack evitou por muito pouco ao pular, deixando para trás apenas o som oco do fechar das mandíbulas de Wilde.
O agente pisou nas costas de Nick e, com outro pulo que impulsionou a raposa contra o solo, parou atrás dele e agarrou sua volumosa cauda, girando o predador e arremessando-o longe, acertando uma pilha de tablados de madeira.
— Isso... Hehehe…! Isso está interessante... — Savage balbuciou com um riso trêmulo e psicótico entre tiques — ... Vamos... Nick!
E, como um vulto mesclado de laranja e preto, Nick Wilde pulou da pilha de entulhos, correndo de modo bestial em ziguezague até Savage, que não sabia mais dizer se, aos olhos do predador, ele era um adversário de luta ou alimento.
A selvagem raposa deu um pulo alto na direção do coelho, que esquivou no último instante para fazê-lo chocar-se de cara contra o solo, rapidamente correndo para aplicar um mata-leão no descontrolado predador. Savage agarrou seu pescoço e fez com que Wilde ficasse curvado de barriga pra cima.
— Você está mostrando sua verdadeira natureza, Oficial Wilde? — Indagou enquanto fazia nítido esforço para conter a raposa que se debatia ferozmente. Curiosamente, parecia que Nick estava tentando falar algo no meio de seus grunhidos irracionais, enquanto Jack lhe arrastava para diante de uma placa metálica reluzente como um espelho.
— ... É essa imagem que você escondia da Oficial Hopps??
Subitamente, ao reconhecer seu reflexo, Nick Wilde cessou sua histeria.
Pêlos eriçados...
Pupilas em fenda...
Sangue em suas mandíbulas.
O que quer que estivesse ali, não era Nicholas Wilde.
— ... J-... J-Judy...!
O predador balbuciou o nome de sua parceira, ainda com certa dificuldade, mas lentamente recobrando a consciência e racionalidade.
Rapidamente, Nick piscou os olhos e chacoalhou a cabeça.
— Bem, Oficial Wilde, hora de você dorm- GAAAHHHH!!!!
Surpreendendo a lebre que lhe imobilizava, Nick atingiu fortemente seu rosto usando a nuca, o que lhe deu a oportunidade de escapar.
Olhando ao redor, Wilde ainda estava confuso, porém, ao ver o corpo de Judy ao longe, rapidamente ele avançou em sua direção, inicialmente ainda trotando em quatro patas, mas tentando reestabelecer desajeitamente o equilíbrio em duas patas.
— J-... udy...!! J-... UDY...!! JUDY…!! — Sussurrava o aflito canídeo, ainda num estado de transição mental.
— Droga... — Savage, ainda recuperando-se do baque, viu sangue sair de seu nariz — Vai pagar por isso, raposa...! — Declarou raivoso, irrompendo até Wilde que havia acabado de chegar ao corpo de sua parceira.
— Judy!! JUDY!!... — Wilde ainda tentava inutilmente trazer a coelha à vida, enquanto Savage perigosamente estava se aproximando — ... Droga...!
— WIIIIIIILLDEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE!!!
E tudo se esvaiu num clarão branco.
— Merda…! De... novo...???
Recobrando a visão, Jack Savage percebeu que seu adversário canídeo não estava mais presente. Olhou brevemente em volta e, por fim, ao corpo de Hopps.
— ... Muito esperto... Usou a granada de luz dela... — Lambeu o seu próprio sangue de sua face ao terminar, provendo um breve sorriso.
(...)
— Eu não vou conseguir escapar com ela se eu não neutralizar o Savage primeiro...
— ... Eu vou ter que dar o melhor de mim... Não sei se vou ter outra chance...!
— ... Mas...
— ... O que aconteceu comigo...? O-... O que foi aquilo...??
— E-e-eu... Eu não sou assim...! Judy, eu não sou assim...!
— … Judy…!
— ... Judy… Eu… prometo que vou levar você embora daqui...! Prometo que vou... Que vou...
— ... Dar tudo de mim para que sua despedida seja digna...! Eu... eu...
— ... Eu te amo… ! Pra sempre…!
(...)
— Eu já havia ouvido relatos... Mas não imaginava que fosse possível...
Os sentidos de Jack Savage estavam aflorados naquele momento. O corpulento coelho, entorpecido pela adrenalina do momento, sabia que Nick Wilde não iria fugir... Ele voltaria para terminar o serviço... Um sujeito honrado, com merecido reconhecimento pelo roedor.
— … A raiva pode então, realmente, tornar um animal selvagem… — Balbuciava enquanto sondava a presença da raposa pelos galpões industriais — … Heh... Evoluímos tanto, travestidos num teatro de civilização… Mas, no fundo, somos só isso...
— ... Animais selvagens.
Agora, era caça e caçador, ambos agindo de modo sorrateiro, como se o embate decisivo fosse iminente. Os instintos de sobrevivência do agente estavam aguçados, Jack Savage era um indivíduo acostumado a lutar para sobreviver, sendo seu ‘portifólio’ de cicatrizes uma prova cabal disso.
— Onde que se meteu essa raposa…? — Indagava a si mesmo na sua sondagem por Nick Wilde. A chuva torrencial do lado de fora, junto com o barulho de várias caldeiras de fundição à sua esquerda, causava ruído interferente em sua audição… Contudo, ainda sim…
— … Judy…! Droga, Judy…
… Savage ouviu um lamentoso soluço ao longe.
Com suas orelhas bem erguidas, Jack flanqueou a fonte do som por um container próximo. Um triste Nick Wilde, em prantos, lamentava-se por sua parceira.
— Devia ter sido eu… Devia ter sido eu, Judy…! — Seguía lamentando o perturbado raposo.
Agindo como um predador, o coelho avançava a passos silenciosos, como um animal sedento de sangue atrás de sua caça. Quando Savage vislumbrou a sombra de uma raposa projetada atrás de outro container, identificando ser, de fato, a fonte do choro, ele seguiu avançando sorrateiramente… Próximo de alcançar seu objetivo…
— Você é meu, Wilde…
*FLASH*
*TSHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH*
— O QUÊ??
Para azar do coelho, sua empreitada como caçador ainda não superava a experiência de um verdadeiro predador.
O acender de um potente holofote ligado em direção à sua cara, além de um jato de vapor vindo de uma válvula próxima, desorientou o super agente selvagem…
… Que não conseguiu evitar de ser brutalmente atingido por uma veloz empilhadeira conduzida por Nick Wilde.
— GAAAAAHHHHHHHHHHHHHHH…!!!
A colisão foi extremamente violenta e fez o corpo de Savage se chacoalhar com a pancada, prensando o coelho contra o container ao fundo, com Jack entre as 'presas' da máquina empilhadeira. Dano certo mas, para Nicholas Wilde, aquilo ainda não era suficiente.
A raposa cravou profundamente sua pata no acelerador da empilhadeira, esmagando ainda mais o selvagem agente. O ímpeto furioso de Wilde chegou a deslocar o container, causando um cenário infernal de pneus derrapando, borracha queimada e fumaça expelida daquele veículo posto ao limite.
E, não obstante, acrescentava os gritos furiosos de ambos os sujeitos ali envolvidos… Rugindo um ao outro, em bravata de gelar a alma.
Jack Savage, nitidamente assustado, gritava de dor.
Nick Wilde, em fúria intensa, urrava de ódio.
E naquele embate, a raiva de Wilde se sobressaía. Os dois pneus traseiros da empilhadeira explodiram, fazendo os aros rasparem num estouro de faíscas com o chão metálico. Ao perder aderência, depois de prensar e arrastar Savage por cerca de seis metros, Nick rapidamente desceu pela esquerda do veículo, aproximou-se da pilha de entulhos que tinha o seu formato e pegou uma familiar caneta de cenoura no chão, que ainda emitia a sua voz em prantos. A raposa lançou um olhar cansado para a lebre que tentava se soltar do aperto da empilhadeira, correndo para longe em seguida e revelando que próximo à eles haviam algumas caixas com identificações denunciando o conteúdo de nitroglicerina, incluindo as que formavam seu disfarce.
Nick não disse nada... A raposa correu para a direção em que Savage havia vindo em sua caça, apertando botões em frente à série de caldeiras de fundição em frente a eles, deixando a lebre para morrer num mar de ferro líquido. Mas aquilo não era a sua principal preocupação…
— Eu tô chegando, Judy...!
Murmurou enquanto já havia apertado cinco botões das caldeiras, com as primeiras já derramando seu conteúdo no solo. Os gritos de Jack Savage ao fundo foram completamente ignorados pelo raposo, que só queria chegar até sua parceira.
Ao apertar o sexto botão, Wilde subiu uma escada de metal para chegar à uma plataforma alta, da qual havia uma tirolesa que passava sobre o corpo de Judy Hopps... Claramente, um acréscimo feito pelo DPZ para algum tipo de treinamento.
Foi ao dar três passos após a escada que uma forte explosão chacoalhou o galpão, até mesmo destruindo parte do teto de vidro e permitindo que a chuva externa caísse sobre a mancha de lava metálica, gerando uma enorme nuvem de vapor. O encontro do material das caldeiras com as caixas de nitroglicerina teria claramente ceifado Jack Savage. Nick Wilde deu uma breve olhada para o cenário catastrófico ao fundo... Ele venceu a batalha mas, ainda tinha uma última missão honrosa pra cumprir.
— Eu só vou ter uma chance...
Ignorando seu medo de altura, o predador pulou para a tirolesa, concentrando-se para agarrar uma alça do uniforme de Judy no tempo certo... — ... Uma chance... Não posso falhar aqui...!
... E ele não falhou.
Ao passar por cima de Hopps, ele conseguiu erguer a coelha consigo... Ele temia errar a mira ou que a alça da roupa não aguentasse, o que catastroficamente faria o corpo de Judy Hopps derreter e perder-se para sempre naquela onda de metal incandescente.
Mas nem tudo era bonança... A nuvem de vapor que se formou com a chuva atrapalhou seus cálculos, fazendo Nick não encontrar o final da tirolesa. No momento em que esta chegou, ambos foram arremessados para uma passarela. Judy caiu e permaneceu, enquanto Nick quase foi arremessado para fora, precisando se erguer pelo corrimão.
O raposo deu um impulso e caiu para dentro da passarela... A mesma da qual Jack Savage havia começado aquele teste.
Desesperado, Nick correu para o cadáver de Judy.
— JUDY...! Judy, por favor...!
Numa esperança tola, o raposo ainda tentava algum despertar de sua desfalecida parceira. Mas, cruel e sem piedade, a realidade lhe caía de forma brutal.
— … Judy, acorda...! Por favor...! — Implorava aos prantos, apoiando o topo de sua cabeça sobre o delicado corpo da coelha — ... Eu não consigo sem você... Por favor...!! Por favor, volta…!
— … Uau… ! Isso foi bom, Oficial Wilde...!
... E o terror ressurgiu com o ruído de uma arma sendo engatilhada em sua nuca.
— … Devo dizer que fiquei até assustado... Mas depois do seu showzinho, agora é a vez de eu dar o troco…!
Nick Wilde, já parcialmente quebrado, praticamente nem se abalou. Sua fornalha de determinação estava somente em brasas fracas... Mesmo com o melhor que pôde fazer, Wilde não conseguiu acabar com Jack Savage. Sua parceira Judy Hopps estava morta, e ele também... Seu mundo se foi.
— … E o que eu vou fazer agora, raposa, eu vou gostar... Vou gostar muito...!
— Será que você não consegue ter a decência de, pelo menos, respeitar meu luto, seu psicopata filha da puta??
Cuspiu o predador, olhando melancolicamente para o lado direito, sem fazer questão de vislumbrar Savage, que fez uma carranca furiosa com a ofensa — Me chamou de 'Filho da puta', Wilde?
Jack deu um passo para trás.
— Levanta.
Sob a mira da pistola letal, Nick Wilde pareceu apenas ignorar... Ele estava acabado, apenas dando uma profunda respiração cabisbaixa, como se a vida tivesse perdido motivo.
— Eu disse 'levanta'.
A lebre tornou a rosnar... Sem sucesso.
— ... Não vai levantar, é...? Ótimo...
— ... Então, fica no chão!
*CRACK*
— GAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!
Sadicamente, Jack Savage deu um certeiro pisão no tornozelo direito de Nick, causando uma excruciante fratura que reverberou através de um aterrorizante ruído de ossos quebrando.
Wilde urrou para o alto, caindo com o corpo à esquerda de Hopps, observando com lágrimas o rosto desfalecido de sua parceira.
— Isso é para aprender a não desrespeitar um superior... — Terminou Savage, vislumbrando o canídeo soluçar de dor, enquanto se arrastava em intenso esforço, levando o corpo de Judy Hopps — … Olha só… Você desistiu do teste, mas não desiste de sua parceira até o último segundo iminente de sua vida...
Savage discursava observando a cena, com Nick novamente não lhe dando atenção — ... Pois bem...
*BLAM*
Subitamente, a raposa cessou seu esforço...
Um barulho alto a sua frente desviou sua atenção...
... O barulho de uma pistola caindo diante dele na passarela metálica...
— ... A decisão é sua, Nicholas Wilde.
A raposa entendeu que a viciosa lebre jogou o objeto. Ele não saberia dizer se era mais algum joguinho de Savage, porém, Nick já não tinha mais o que perder.
Suportando excruciante esforço, Wilde arrastou-se até a arma, a colocou em suas patas e deu tudo de si para erguer-se de pé, apoiando-se no corrimão da passarela. Savage assistiu sem interferir, dando todo o tempo necessário para a raposa.
Sob intenso tremor, Nicholas Wilde colocou Jack Savage em sua mira... Foi só nesse momento que a raposa conseguiu ver que a lebre estava com metade do corpo com pêlos chamuscados, com seu braço esquerdo claramente queimado... Sua empreitada teve algum impacto, realmente, mas longe de ser efetivo para uma derrota.
— ... Então, você escolheu lutar... Certo... — Declarou a lebre, apreciando o esforço do perturbado canídeo — ... Você pontuou 97 de 100 no teste de tiro, Oficial Wilde... Então...
Jack Savage baixou totalmente a guarda. A chamuscada lebre colocou-se de peito aberto e braços estendidos para baixo.
— ... Dê o seu melhor tiro!
E Nick Wilde o faria... Ele não tinha forças para sequer manter-se em pé, mas ele precisaria desdobrar a última fagulha de energia para aquele tiro.
Não era uma pegadinha, a arma estava carregada e pronta para o tiro... Era o disparo de sua vida. A mira era difícil, a dor em sua perna fraturada e o cansaço percorriam seu esguio corpo, enquanto seu semblante refletia todo o caos que ele suportava... Física e mentalmente.
Savage, por sua vez, parecia inabalado, por mais que também estivesse ferido. A diferença de resistência era nítida. O coelho estava pleno, entregue ao disparo iminente da destruída raposa.
Por um instante, sentindo que sua mira perfeita estava próxima, Wilde fechou os olhos fortemente, deixando escorrer algumas lágrimas que estavam contidas em suas pálpebras.
Quando ele os abriu novamente, com a cabeça de Jack Savage travada em sua mira... Seus olhos de tom esmeralda estavam focados em vencer!
E puxou o gatilho.
*BLAM*
— Eu acertei…!... — Balbuciou Wilde, ao ver que a lebre mudou de posição — ... Eu sei que acertei…! Eu… venci…??
E, de fato, no momento do disparo, Jack Savage sofreu uma leve mudança de posição. O coelho estava levemente virado pro lado direito, com a cabeça baixa e braços caídos... Ofegante, Wilde apenas aguardava que seu algoz finalmente desabasse ao chão...
... Mas, contrariando o que se aguardaria de um cadáver baleado, a lebre apenas estendeu seu braço esquerdo com a mão fechada, sem movimentar o resto do corpo... Um movimento sutil, que pareceu hipnotizar o exausto Nicholas Wilde...
... E, ao abrir os dedos...
... Um projétil metálico foi em direção ao solo… Atingindo-o com um seco ruído desolador.
— Não…!
Aquilo foi um 'Basta'... Era o fim.
Nicholas Wilde estava totalmente quebrado.
Observando o projétil que havia acabado de disparar, ele ofegava pasmo, com lágrimas nos olhos... Se nem aquilo poderia vencer Jack Savage, ele não saberia mais o que poderia.
Sem a menor chance de reagir, Nick recebeu uma repentina joelhada do coelho em seu peito, fazendo-o cair de costas e arremessar a pistola para longe, com Jack agarrando-a no ar. Prontamente, Savage aproximou-se e pisou no pescoço do predador.
— Desculpe a indelicadeza, eu precisava que você caísse virado pra mim para eu apreciar o brilho da vida deixar os seus olhos... — Jack Savage tirou uma única bala de um dos bolsos de sua cintura que ainda estava ali preso depois do intenso embate, carregando-a na pistola — ... Últimas palavras, Oficial Wilde?
Nick não tinha o que dizer... Restou-lhe fechar os olhos e esperar pela sua hora.
— ... Ou, você pode chorar, se quiser...
Savage apontou a arma para a cabeça de Wilde.
— ... Você tem muito o que botar pra fora... Essa é a hora, chore para mim, Wilde... Me dê suas lágrimas...! Não terá outra oportunidade!
De início, a raposa fechou mais fortemente os olhos... Mas, se ele iria partir, ele não deixaria esse gosto de vitória completa para Savage.
Nicholas tornou a encarar seu carrasco, com profundo desprezo.
— ... Você... não as merece...!
— ... Já chega, Senhor Savage!
Nicholas Wilde teve um microssegundo para processar aquela voz, antes que uma forte pressão da pata de Savage lhe desacordasse de vez... Com o reverberar do grito desesperado de seu nome protagonizar suas últimas centelhas de consciência.
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