Zootopia - Eu só me importo com você
1 O pós-presente...
Notas iniciais
“Te amo, parceira.”
Ressoou a voz da primeira raposa policial de Zootopia, a partir da caneta-gravador em formato de cenoura.
— Empresta aqui um pouquinho... — Pediu um envergonhado e surpreso Nick Wilde, estendendo o braço para tentar alcançar a caneta das mãos de sua parceira coelha, Judy Hopps.
A roedora, contudo, tinha plena noção do tesouro que continha em suas patas, astutamente afastando o gravador do raposo, enquanto mostrava um provocativo semblante alegre.
— Só depois do nosso próximo caso! — Declarou a oficial.
— Uh, então vai ter um próximo caso? — Indagou Nick, que ainda queria a caneta, seguindo-a com o olhar.
— É claro... Afinal, quando você saiu da cadeia, você soltou cerca de duzentos presos perigosos! — Judy percebeu a aflição e balançava a cenoura propositalmente;
— Mas valeu... — Balançando os ombros, deu-se por vencido o raposo — Alguma ideia de por onde começar…?
— … E, afinal...
— ... porque estamos falando de trabalho logo agora??
A indagação de Nick era válida… O “Time dos Sonhos” de coelha e raposa havia acabado de desvendar uma conspiração centenária envolvendo a nobre Família Lincesley que, de nobre, não havia nada... Todo o seu império, cultivado sobre décadas de manipulação, custou anos e anos de sofrimento e preconceito generalizado sobre a população de répteis que outrora habitava Zootopia. E, provando seu valor como uma grande equipe, Wilde e Hopps, com a ajuda de alguns amigos, trouxeram a justiça para aquela comunidade injustamente marginalizada.
Após degelo da porção 'invadida' pelos linces, a merecida reinauguração do Bairro Réptil de Zootopia foi celebrada com muita festa! Mamíferos e répteis eram novamente membros de uma mesma sociedade, como era há cem anos atrás. Várias residências abrigavam celebrações dos indivíduos escamosos, que reconquistaram sua merecida terra. Não diferentemente, era a mesma situação na casa da Família A’Cobra, na qual uma agitada festa estava à toda, contando com a presença de vários animais que tiveram sua participação na resolução deste caso. Diversos bichos das mais diversas espécies, refletindo vivências e compartilhando risadas, passos apressados dos mais jovens, e conversas animadas que se misturavam no ar... Comidas para todos os gostos eram servidas, consistindo rico intercâmbio culinário e agradando à todas as espécies que poderiam estar naquela residência.
— Bem…
De volta ao Time dos Sonhos, Judy Hopps direcionou um olhar para a caneta cenoura em suas patas — … O DPZ vai cuidar da situação por hora, pra cobrir a folga que o Chefe Bogo nos deu...
A coelha levantou o olhar para Nick, com um misto de esperança e ansiedade.
— ... Você sabe que eu quero logo voltar para a ação...
— Evidentemente, 'Trudy Couveflores'...! — Brincou o canídeo com um semblante capcioso — ... a maior 'workaholic' que já vi...
— … Mas...
Serenamente, Judy direcionou seu olhar para um canto específico da festa que vibrava ao seu redor, até vislumbrar seu novo amigo Gary A' Cobra, confraternizando com sua família de víboras.
— ... Mas um amigo me ensinou que eu não posso colocar o peso do mundo em meus ombros...
— Cenourinha...
Enquanto refletia, a coelha sentiu uma mão peluda envolvendo sua pata direita...
— Cenourinha, o que você decidir...
... A pata de Nick Wilde que, delicadamente, levantou a pequena mão de sua parceira.
— … Saiba que estarei contigo para te apoiar.
A declaração amena de Wilde, com o olhar de ambos se encontrando, ilustrava um claro momento poético, digno de nota por ser uma rara demonstração de sentimento por parte do canídeo. Seu semblante calmo encontrou-se com a expressão deslumbrada da coelha que, em seguida, abaixou o rosto com tranquilidade...
— ... Te amo, parceiro...
Para levantar-se novamente, radiante.
— … Obrigada.
— É como eu sempre digo, tamo junto 'raposeada'!
— Ai, você insiste nesse trocadilho...
O breve momento de serenidade foi interrompido pelos rotineiros surtos de descontração de Nick... Ele ainda era um piadista, afinal de contas. Mal Judy recebeu aquele trocadilho e algo atrás de Wilde chamou a atenção da coelha — … EI, VOCÊS SEIS!!
E, subitamente, a expressão de Judy foi de um riso bobo para uma careta séria, direcionada para o fundo da casa — ... NÃO SUBAM NO VENTILADOR DE TETO!! — Ordenou rigidamente para meia dúzia de filhotes de coelhos que estavam levando suas brincadeiras para, literalmente, patamares mais altos.
Nick riu enquanto sua parceira pulava para alcançar seus irmãos, como se estivesse colhendo uma árvore de roedores. Aliás, o ambiente familiar ainda era uma vivência curiosa àquele raposo. Contemplar e estar próximo de uma família tão grande era atípico para ele, que passou quase toda uma vida sendo uma típica raposa solitária.
— Esses pequenos são cheios de energia, hein! — Observou de braços cruzados enquanto Judy se aproximava com um cacho de alvoroçados coelhos em mãos.
— Sim, até demais...! — ofegou a coelha — ... E eu tenho certeza que algo mais dev-
*CRÁS*
— ... estar acontecendo... — Terminou frustrada, sabendo que deveria socorrer outro canto da casa.
— Ei, olha...! — Um dos coelhinhos celebrou ao olhar pro raposo — É o Tio Nick!!
— Nossa, "Tio" aí você está querendo me prejudicar... — Wilde foi simpático através de um sorriso brincalhão, reconhecendo o pequeno de uma visita longínqua ao apartamento de Judy, de tempos pré-academia policial.
— Minha nossa, olha o tamanho dos dentes dele... — Murmurou assustado um dos outros coelhos, que ainda não havia tido contato prévio com o predador. De fato, vários rostos ali eram novos, o raposo não fazia ideia de quantos irmãos Judy tinha... Na realidade, até sua parceira já havia brincado que até mesmo ela também não sabia.
— Mas ele é de boa! — Declarou outra animada coelhinha, da metade dos filhotes que estava tranquila com a presença de Wilde — Judy, deixa a gente brincar um pouco com o Tio Nick, deixa, deixa???
— O-o quê...!?
Wilde sussurrou espantado, disfarçadamente acenando em negativa com a cabeça pra coelha. Esta, por sua vez, acenou disfarçadamente em afirmativa como retorno, com malícia em seu rosto e seus irmãos comicamente em suas patas alternando os sinais de afirmativa e negativa com a cabeça, com um deles até acenando em diagonal — … Cenourinha, você não ous-
— PENSA RÁPIDO!!
Subitamente, Judy jogou a coelhada sobre Nick, que até tentou segurá-los de forma estabanada, mas falhou, desequilibrou-se e, pelo menos, teve a sorte de cair sentado num sofá atrás dele.
— Quebra esse galho pra mim, "Tio" Nick... — Divertiu-se a coelha policial e se afastou através de um aceno, com seus irmãos imediatamente já caminhando e escalando pelo corpo do raposo.
— Você me paga, Cenourinha... — Rosnou Wilde.
— A Judy está te devendo, Tio Nick? — Perguntou inocentemente um dos coelhos, enquanto a raposa mexia suas orelhas para evitar outro dos roedores que tentava agarrá-las.
— Bom, 'se tá no inferno'... — Wilde bufou e acomodou-se mais confortavelmente no assento, cuidando para não amassar outro dos coelhinhos que estava tentando pegar sua cauda. À frente dele, o filhote que reparou em suas presas tentava afastar-se de fininho, aterrorizado.
— ... Na-na-ni-na-não, vem cá danadinho…! — Nick inclinou-se para frente para agarrar o pobre roedor, que parecia petrificado ao ser colocado sentado sobre a perna direita do raposo — Nenhum coelho a menos... Qual é o seu nome, carinha?
— É-é-é R-R-Ri-Rick... — Cochichou tremendo como uma gelatina, com um fixo olhar apavorado para Nick.
— Uau, é quase meu xará! — Sorriu para o aterrorizado filhote.
— ... N-n-não me devora Tio, p-p-p-por favor...! — Balbuciou com as patinhas juntas.
— Hahahaha! Ah, esses coelhos… — Wilde deu uma rápida gargalhada, apavorando ainda mais o pobre roedor ao salientar suas presas, em seguida fazendo um leve cafuné no arisco coelho — Por que você acha que eu faria isso?
— É-é que... Ouvi falar q-que está no 'diná'... — Murmurou Rick.
— Você quis dizer 'DNA'... E esse aspecto já desapareceu da nossa 'programação' faz muito, muuuuuuuuuuito tempo...
Wilde colocou o coelho em pé sobre sua perna, segurando-o para ajudar no equilíbrio.
— ... E, independentemente de sermos predadores ou presas, o que mais importa é nos preocuparmos em ser animais melhores, e não em antigos hábitos alimentares... — O coelho Rick engoliu em seco e parou de tremer, mas ainda fitando os olhos esmeraldas de Wilde —... Neste mundo, infelizmente ainda existem animais ruins, que podem ser predadores ou presas…
— Por isso, a diferença pode ser feita por você…!
O raposo apontou um dedo para o peito do coelho, que já não parecia mais tão assustado.
— … através do que você tem aqui.
— O-o-... o meu pulmão…?
Nick riu novamente — Seu coração, bobinho.
— Ooooooooooohhhhhh...!
A ninhada ressoou deslumbrada em uníssono… E, aos poucos, os roedores que ainda estavam desconfiados, começaram a se soltar mais próximo à Nick, até mesmo alguns coelhos alheios pela casa aproximando-se do raposo.
— Tio Nick, por que você tem um focinho tão grande?
— Tio Nick, você já prendeu algum bandido?
— Tio Nick, você tem mais Patolés??
— Tio Nick, por que que o seu rabo é tão grande?
— Tio Nick, olha o desenho que fiz da minha casa!
— Tio Nick, é verdade que você morava debaixo da ponte?
— Caramba, vocês têm muita energia! A Judith era assim quando pequena também? — Indagou para os olhares curiosos daquelas crianças. Porém, por mais que o raposo não fosse acostumado com esse tipo de contato familiar, ele até poderia dizer que estava gostando daquele momento.
— … E falando no diabo…
Enquanto tentava controlar os atacados coelhos com seus "Tios Nick" pra cá e "Tios Nick" pra lá, o olhar de Wilde vislumbrou brevemente Judy Hopps em outro cômodo da casa, abaixada e sussurrando algo para Finnick, seu antigo parceiro de golpes... Quando Nick notou que a oficial lhe apresentou a caneta cenoura, ficou claro que ele estava sendo exposto.
— Ah, eu mereço... — O raposo sabia que ia ouvir muita tiração nas saídas para beber com o feneco, que ria junto de sua parceira roedora.
— E-ei... Tio Nick...?
Um chamado sereno e tímido vindo de baixo, juntamente de um delicado puxão na ponta de suas calças, chamou a atenção de Wilde, enquanto ele agarrava um dos coelhos que estava quase caindo do topo de sua cabeça para botá-lo em segurança no chão;
— Ei, belas roupas, carinha!... — Apontou para o coelhinho que usava um familiar conjunto composto de camisa rosa de abotoar, com calças brancas e uma singela gravatinha verde — ... Esse bom gosto é coincidência?? — Questionou curioso pelo espelho de sua indumentária;
— N-não, Tio Nick... — O coelhinho mexia timidamente um dos pés, murmurando baixo e evitando contato visual direto... Porém, essa relutância não parecia de uma presa com receio de um predador...
... E sim, timidez.
— ... E-... E-eu q-quero ser um policial que nem você...!
A pureza daquelas palavras fez o raposo ficar de orelhas em pé, sendo surpreendente que sua carreira e feitos estivessem inspirando futuras gerações, até mesmo de outras espécies.
— Ora, seu danadinho, vem cá!... — Colocou o mancebo em pé sobre sua perna esquerda, que precisou pender-se levemente para se equilibrar, com o auxílio da pata de Wilde — ... E você já sabe o que precisa pra ser um policial?
— B-bem... Uma arma?
Nick deu uma risada sincera — ... Esse é o menor dos detalhes… — Apontou um dedo giratório pro coelho e franziu o rosto — ... Ééééé...?
— L-Louis...! — Exclamou o roedor, entendendo que Wilde queria descobrir seu nome — ... Louis Hopps!
— Certo… Louis… — Fez um amigável cafuné — … Você será um policial sim... Porque aqui é Zootopia…
O olhar do Raposo encontrou o distante olhar de Judy Hopps, que estava com seus colegas de DPZ... Com direito à um piscar de olhos recíproco.
— … E em Zootopia, você pode ser o que quiser.
— Uaaaauuuuuu…!! — Um uníssono cômico e meigo ressoou da ninhada de coelhos diante de Wilde, que focava o olhar em seu ‘Doppelganger’ de vestimenta. Imediatamente, num comportamento de manada, os filhotes começaram a discutir sobre as carreiras que gostariam de seguir. Advogados, médicos, astronautas, pilotos de corrida, banqueiros, vendedores... Reflexos de olhares puros e esperançosos causados pela sabedoria daquele sorridente raposo.
— E então Louis, como você deve agir para ser um policial? — Voltou-se para seu pequeno clone... E, subitamente, uma expressão confiante preencheu o semblante do coelho
— B-bom... E-eu devo ser…
— … bravo...
— … leal...
— … prestativo... e-e-...
— … confiável...!
— Bravo... Leal... Prestativo... e confiável...!
Wilde sentiu um inesperado impacto mental... Aquelas palavras tão familiares acenderam uma chama que estava apagada dentro do seu coração de raposa. Foi ali que, Nick Wilde, se deu conta que ao inspirar outros a serem como ele, seu sonho de ser escoteiro tornou-se, com algumas licenças poéticas, uma realidade.
— Bravo... Leal... Prestativo... e confiável...!...
Sussurrou o raposo, sentindo uma súbita emoção em seu peito… Distante em seu passado, Wilde chegou até a produzir uma lágrima. O sentimento súbito de realização era uma reparação histórica em seu passado trágico…
— Tio Nick, você e a Judith são 'namolados'??
— Ah, sim, claro...
— ... P-p-pe-pera, O QUÊ??!
O predador foi puxado de volta de sua nostalgia de infância por uma pergunta tão absurda que ele não tinha certeza de ter ouvido certo, mas mesmo assim o fez corar por baixo de seus pêlos, dando um olhar consternado para os filhotes em seu colo.
— 'Namolados', Tio! É quando, tipo, um casal se gosta muito, sai junto, beija, vai no cinema e até mesm-
— E-eu sei o que é namorar, criatura...! — Interrompeu constrangido, tapando a boca do tagarela filhote com um dedo — ... Você que não deveria saber disso, é muito novo! E não, não somos namorados!
— 'Mais' eu já tenho 'dejoitcho' 'djias', 'Chio'! — Respondeu do modo que conseguia falar;
— Mas vocês vão namorar né?
— Ihh, o Tio Nick gosta da Judy…!
— Mas a Judy também gosta dele!
— Sim, ela sempre fala do Tio Nick!
A pergunta de outro coelho e o interesse crescente e repentino naquele assunto fez a raposa se encolher e dobrar as orelhas para trás, um pedido corporal de "socorro"... Em certo momento, até iniciou-se um coro repetindo 'namorados, namorados' sob aplausou ritmados.
— Tio Nick, você já devorou um coelho antes? — Indagou uma coelha que estava mexendo em seu focinho;
— Ah, essa sim é uma boa pergunta! — Tentando ignorar a cantoria que já estava chamando a atenção de alguns adultos próximos, Wilde viu nessa a deixa que precisava para sair daquela situação, tomando um semblante malicioso — … Não...
Nick levantou-se lentamente do sofá, com os coelhos lhe dando espaço.
Olhou fixamente para o roedor que lhe fez a última pergunta e lambeu os beiços.
— ... HOJE, ainda não.
*GRAAAAAUR!!!*
O predador deu uma leve avançada com uma careta e as garras "empunhadas", que espantou a ninhada de coelhos para longe dele.
— Ufa, deu certo...! — O raposo decidiu que teve bastante de interrogatório por ali, mas a cena cômica dos filhotes fugindo até lhe divertiu, com um deles até tropeçando no corpo serpentuoso de um dos parentes de Gary.
— Ei... Senhor Wilde?
E um chamado um tanto familiar vindo de sua esquerda lhe tomou a atenção... Tratava-se do pai de sua parceira Judy, junto da mãe da coelha. Imediatamente pego no flagra, Nick abaixou as orelhas e coçou a parte de trás de sua cabeça, envergonhado.
— O-o-oi, d-desculpe S-Senhor e Senhora Ho-Hopps... — Gaguejou evitando contato visual aos velhos coelhos em sua frente — ... E-e-eu não resisti, m-mas eu só estava brincando com eles e-e-e-
— Está tudo bem, Nicholas...
— Hã...?
De fato, estava tudo bem… O semblante dos dois era de tranquilidade, Wilde estava tão certo que ia tomar uma bronca que não havia reparado.
— ... Na verdade, nós íamos pedir para as crianças te deixarem em paz, mas parece que você deu conta do recado... — O pai lhe deu uma leve batida amigável com o cotovelo — ... Além do que, você faz muito sucesso com as crianças desde que começou a aparecer nos noticiários como o parceiro da Judy! 'Time dos Sonhos', não é...?
— O-ora, muita bondade de sua parte, Senhor Hopps! — Aliviado, o raposo baixou a guarda ao perceber que não tinha dado uma bola fora — ... Ah, e pode me chamar de Nick, vamos evitar os preciosismos! — Apontou simpaticamente com um dedo.
— Bom, Nichol-... Nick... — A mãe deu um passo à frente e um cesto em suas mãos chamou a atenção de Wilde — ... Queremos que aceite este presente feito com muito carinho por nós do Rancho Hopps.
Surpreso, o raposo cautelosamente pegou a cesta de palha, que estava envolta por um plástico transparente e continha diversos produtos roxos e brancos em seu interior, parecendo ser alimentos.
— É uma seleção inteira de nossos melhores produtos à base de mirtilo... — Declarou a matriarca, enquanto Nick contemplava o presente — ... Tem geleia de mirtilo, doces de mirtilo, biscoitos com recheio de mirtilo, mirtilos em natura...
— E tem até, olha só!... — Senhor Hopps bateu com a pata duas vezes sobre uma chamativa garrafa que estava na cesta — ... Vinho de mirtilo, somos o único rancho que produz essa belezinha!
O raposo olhava feliz e emocionado para aquele gesto afetivo que era tão incomum em sua vida.
— E-eu... Eu não sei como agradecer...! — Balbuciou consternado o canídeo — ... Mas... Por quê?
— Bom, a Judy nos disse que você gosta muito de mirtilos... — Constatação verdadeira por parte da Senhora Hopps — ... Mas essa é uma forma de agradecermos e pedirmos desculpas, Nick!
Wilde, por sua vez, apenas deu um olhar confuso.
— Nós tivemos nossas diferenças antes, filho... — Senhor Hopps botou uma pata no ombro do raposo — ... Mas sua parceria com nossa Judy nos abriu os olhos sobre não julgar os outros pela sua espécie...
— Inclusive, estas tortas de mirtilo que estão sendo servidas nesta festa, são frutos de nossa parceria com uma raposa...! — Declarou alegremente a coelha mãe, apontando para um forno do qual uma cabra estava tirando as tais tortas — Uma pena que o Gideon não pôde vir pessoalmente entregá-las, você adoraria conhecê-lo!
— O tal do Gideon Grey... — Murmurou Wilde — Cenourinha me falou sobre ele...
— Isso mesmo!...
Então, Senhor Hopps parou ao lado do raposo policial, virado para a mesma direção que este — … Mas nosso agradecimento principal, Nick...
— ... É por cuidar tão bem do nosso tesouro.
Os olhares de Nick e do casal de coelhos se voltaram à uma alegre Judy Hopps, que confraternizava distante junto com a castor Nibbles Castanheira e a preguiça Flecha, segurando dois de seus irmãos coelhos nos braços.
— Não… Senhor e Senhora Hopps...
— ... É ela quem cuida de mim.
O emocionado raposo proferiu serenamente, profundamente tocado por toda a aventura que sua vida virou desde que Judy Hopps cruzou seu caminho... Ela, inconscientemente, havia salvado a vida dele mais vezes do que havera percebido. E, naquele instante, Nick Wilde notou o quão bonita era aquela festa toda... Ele nunca imaginaria estar reunido com tantos amigos e entes, principalmente considerando seu passado trágico e marginalizado nas ruas...
... E no centro de tudo, o âmago daquela confraternização... Sua parceira coelha, alegre e contente… Era tudo que ele desejava para sua melhor amiga...
— Cenourinha…
Murmurou para si mesmo…
… Apreciando, ao longe, a existência de sua parceira.
— Nicholas...
— ... Vá em frente...
Então, novamente Wilde foi puxado para a realidade.
— ... Em... frente...? — Indagou curioso.
— Sim... — Lançou emocionado o patriarca coelho — ... Você tem nossa benção e a benção da grande cenoura!
— Espera, em frente pra quê...? — Nick demonstrava estar bem alheio ao que os pais de Judy estavam tentando dizer... Talvez, ele preferisse continuar alheio...
— ... Bom... Estamos prontos para ser avôs de alguns 'rapoelhos';
Diante da inesperada constatação, Nick fez uma careta extremamente envergonhada, abaixando totalmente as orelhas e corando tanto que sua pelagem laranja ficou praticamente vermelha.
— O-o-o-olha, é-é-é muito amável da p-p-parte de vocês, m-mas eu preciso ver se os p-peixes estão com sede! — Balbuciou desajeitadamente, fazendo um gesto com a pata de como se estivesse abaixando a aba de um chapéu imaginário em sua cabeça — Obrigado pela cesta, aproveitem a cidade! Licencinha para a raposinha!
E, duro como um pedaço de madeira, Nick afastou-se trotando de modo cômico, quase fumaçeando de vergonha.
— Eu hein, que família mais precoce, bicho... — Murmurou a si mesmo enquanto procurava um refúgio para sua cesta e para si também.
E o constrangimento da raposa tinha um certo fundamento… O relacionamento interespécies ainda era considerado um tabu em Zootopia, ainda que, entre espécies de famílias próximas taxonomicamente falando, já era algo bem mais aceito na metrópole animal. Contudo, o relacionamento entre presas e predadores, este sim, era extremamente raro... Não necessariamente algo repreendido, mas que era realmente atípico de acontecer.
Wilde chegou ao canto da casa em que havia guardado sua bolsa, para deixar a cesta de produtos de mirtilo que havia acabado de ser presenteado. O raposo chegou a ficar até ofegante com as investidas dos coelhos sobre um relacionamento entre ele e sua parceira roedora.
— Namorados... Tsc... — Bufou enquanto se abanava com sua gravata florida, que foi um presente de Judy... E, falando novamente na dita cuja, o olhar de Wilde tornou a encontrar sua parceira roedora pela festa, desta vez, conversando alegremente com seus pais.
Era uma 'caçada' visual que parecia acidental...
... Mas, seu subconsciente dizia outra coisa...
... Ele desejava ver... deslumbrar... apreciar a visão da sua parceira feliz...
... E ele queria ser feliz com ela...
"Vocês são namorados...?"
Refletiu Nick, fitando Judy abraçar seus pais e receber um pedaço de torta de um de seus irmãos.
“Ninguém mais no mundo todo, importa mais pra mim… do que você.”
As sentimentais palavras proferidas após uma experiência de quase morte ressoaram em sua mente… Provavelmente, a ação mais corajosa da vida daquela raposa.
— Não...
O Raposo abaixou as orelhas, adotando um semblante indeciso.
— ... Eu não... eu… eu-eu não...
Consternado, Wilde abaixou o olhar.
Não.
Eles não eram.
Este tabu ainda era grande demais para uma simples raposa das ruas.
Sua sincera declaração para Judy sobre a muralha da Parede Climática de Tundralândia, provavelmente foi desencadeada por um pico de adrenalina, por estar tão perto da morte pelas mãos de Patalberto Lincesley.
Após aquilo, esta raposa ainda tinha uma grande propensão covarde a esconder seus sentimentos...
... Contudo...
Nick encontrou Judy novamente com seu olhar.
... Seu subconsciente implorava por um ato de coragem.
— AÍ NICHOLAS WILDE, TAVA BATENDO UMA RESENHA COM O SOGRÃO, HEIN!!!!
O grito repentino fez a raposa dar um pulo que quase foi parar no teto.
Arfando com a mão no peito, ele voltou-se consternado para a Capitã Javalice e Benjamin Garramansa sorridentes em sua frente.
— JAVALICE, CALA A BOCA! — 'Gritou baixinho', colocando desesperadamente um dedo erguido em frente ao focinho — NÃO TEM ESSE NEGÓCIO DE SOGRÃO, NÃO INVENTA!
— Olha só, pegamos o grande Nicholas Wilde de guarda baixa...! — Vangloriou-se a capitã javali, dando uma leve batida de cotovelo em seu colega leopardo ao seu lado.
— É sério, Javalice! — Aproximou-se o raposo, de orelhas encolhidas — Dependendo de quem escutar isso, pode dar treta!
— E que tipo de treta isso poderia dar, Wilde? — Questionou a suína.
— Nós somos só... — Abaixou a cabeça — ... bons parceiros.
Javalice curvou-se para frente, com uma expressão cínica.
— Você não engana ninguém, raposa…!
Nick fez uma careta mal-humorada, enquanto Garramansa cutucou sua colega — Ei, ei Javalice! Como você acha que eles vão ser? Coelhos laranjas com caninos ou raposas cinzas com orelhas compridas?
— Ah, vão ver se eu tô na esquina...! — Resmungou e afastou-se Wilde, dando de ombros enquantos seus colegas policiais gargalhavam.
— … Pelo amor de Deus, o que que botaram na água desse lugar hoje? — Reclamou irritado e emburrado, caminhando pela casa réptil.
E, falando em réptil, um emaranhado de cobras repentinamente cruzou o seu caminho, fazendo-o cambalear brevemente — Ei, olha ssssssó, pesssssoal...!
Ali estava Gary A' Cobra, liderando um grupo de cinco víboras, chamando a atenção para Nick.
— Esssssste é o Nick Wilde, um dossss ressssponsáveis por me ajudar à recuperar a patente da bisa Agnessssss...! — O réptil virou-se alegremente para a raposa — Nick, esssssssta é minha família!
— Nicholas Wilde, ao dispôr de vocês! — Desmanchando sua careta irritada, ele cordialmente estendeu a pata, ficando surpreso ao receber quatro apertos das caudas das serpentes, com Gary posicionando parte de seu corpo esguio sobre o ombro direito da raposa.
— ... E ele é o namorado da Judy Hoppsssss!
Nick apenas cruzou os braços e fechou novamente a cara num hilário descontentamento, percebido por Gary — Visssssssssh, falei besssssteira... né...?
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— Devo lembrá-la que você insiste em não me deixar dirigir?
— Devo lembrá-lo que dirigir alcoolizado é uma infração gravíssima?
Tarde da noite em Zootopia.
A cidade estava silenciosa e tranquila, já era hora da maior parte dos animais estarem aninhados em suas residências. As ruas nevadas de Tundralândia, iluminadas pelos postes de luz amarela, estavam quase totalmente vazias numa melancólica atmosfera de início de madrugada, o que era esperado para aquele horário…
… Quase, não fosse por uma coelha e uma raposa que regressavam de um dia de festa.
— Alcoolizado? — Nick Wilde, sentado no banco de carona da apertada viatura de Judy Hopps, perguntou indignado — Corta essa, Cenourinha… Você inventa cada uma!
— E esse bafo de vinho de mirtilo vindo da sua boca, é invenção? — A observação certeira da coelha fez o raposo corar.
— Suco de mirtilo não fermentado, aliado ao meu charmoso aroma natural! — Wilde passou lentamente a pata por cima de sua cabeça.
— Ah, como se eu não fosse reconhecer o cheiro do vinho que o papai produz com tanto esmero…
Judy revirou os olhos, mas ficou serena em seguida — … Bom, pelo menos isso mostra que eles acertaram no presente.
— É, foi uma baita evolução… — Nick olhava ao redor, observando as silenciosas ruas de Tundralândia — … Principalmente depois de quase ser eletrocutado por um taser de raposa.
— Não me diga que você ainda guarda mágoa disso? — Ironizou Judy — E você diz que nós coelhos que somos sentimentais…
— Raposas são melhores em tudo, inclusive em sentimentos…
De olho em sua parceira, Nick provocou cinicamente — … E, coloque nesse tudo, direção melhor, então, passa esse volante 'po pai'! — Apontou uma pata para a frente da coelha.
— Raposas são melhores em tudo, sério mesmo?… — Judy botou um dedo em frente a boca, pensativa — … Então, por que você não tenta dar exemplos melhores e desistir de dirigir embriagado, OFICIAL Wilde?
A réplica da coelha com ênfase no fato dele ser um policial deixou Nick inibido e de braços cruzados, o que foi percebido pela roedora.
— Ei, eu tô brincando, Nick! — Disse através de um rápido riso — Quer dizer, mais ou menos, você ainda não vai dirigir… Não hoje, pelo menos…
— … Você fica uma graça quando está envergonhado, sabia?
Observou a coelha, ficando próxima do raposo e batendo em sua barriga levemente com o cotovelo.
— Hunf… Você fala demais para alguém que faria parte da minha cadeia alimentar… — Bufou Wilde, ainda emburrado com os braços cruzados.
— Uuuuuuiiiiii, que 'mediiiinhuuu' do predador! — Mantendo uma das patas no volante, com a outra Judy coçou vigorosamente o abdômen de Nick, fazendo cócegas provocativas pelo espaço entre os botões de sua camisa rosa.
— NÃO, NÃO COMEÇA CENOURI-HAHAHAHAHAHA!!
— HAHAHAHA, QUEM QUE É O CACHORRINHO LARANJA...?? — Gargalhava alegremente a sádica coelha, divertindo-se com o desespero de Wilde.
— PÁRA CENOURINHA, HAHAHA, PÁRA, SÉRIO! — Chacoalhava-se o canídeo, com a coelha rindo da situação — VOCÊ SABE QUE MINHA BARRIGA É SENS- CUIDADO!!
— MERDA!!!
Por muito pouco, o automóvel da dupla não bateu de frente com um dos poucos carros que cruzavam por eles naquela madrugada.
— TIROU CARTA PELO CORREIO, COELHA LOUCA???
Judy corrigiu sua trajetória em tempo, mas não ficou sem receber uma buzinada… e uma merecida bronca do motorista zebra.
— Não fale um piu, Nick.
— Raposas não piam…
— … piu.
Apesar do momento sinistro, a noite envolvia tudo com um ar suave e acolhedor, e o caminho de volta não era apenas um trajeto, mas um momento de extensão da festa do Bairro Réptil: mais calmo, mais íntimo… Guardado só para eles.
— Olha… Devo reconhecer que foi muito amável e inesperado da sua parte a ideia de ajudar o Gary a arrumar a casa depois da festa… — Observou a coelha, agora mais focada na direção.
— Pera, pera aí! Primeiramente, ele aparentemente estava precisando de uma ‘mãozinha’ — Wilde fez aspas e uma careta boba, com Judy soltando uma arfada controlada — E, segundamente, 'amável, OK! Agora, inesperado? O que é isso, eu sou algum tipo de porco agora?!
— Não é mesmo, os porcos costumam ser mais organizados... — A coelha pegou o celular no porta-luvas do carro — ... Lembra disso aqui?
Na tela do aparelho, estava uma foto de um lugar familiar ao raposo… Seu apartamento, refletido numa desordem catastrófica.
— Ei, eu não tinha destruído o celular com essa foto na base da martelada? — Wilde questionou indignado.
— Sim, mas existe uma coisa chamada ‘Zuuvem’! — Rebateu sagazmente a coelha.
Nick bateu a pata em sua testa — Porcaria…! — Praguejou.
— Nisso eu concordo, porcaria mesmo! — Judy debochou enquanto olhava a foto do apartamento — Sério, por que que você tem um balde de bolas de tênis, 'cachorro laranja'?
— Não sei, não quero saber e tenho dó de quem sabe…! — A raposa aproximou seu focinho das orelhas da motorista — … E agora, somos uma dupla de infratores de trânsito, pois a motorista está distraída com um celular ao volante.
Judy Hopps surpreendeu-se, corou e jogou o celular de volta no porta-luvas, dando um belo sorriso amarelo ao seu passageiro.
— Raposa esperta…
— Coelha boba…
— Ah, vá, você sabe que me ama…
Acidentalmente, a dupla estava re-encenando um diálogo de suas primeiras patrulhas pelo DPZ…
— … Nick…?
Contudo, Nick Wilde, aparentemente, perdeu a próxima fala, ficando distante com a última frase.
Esperando a deixa, a coelha deu uma cotovelada no flanco esquerdo do raposo.
— Ai! — Voltou a realidade fazendo uma careta de dor.
— Achei que você ia falar algo...
— Ah, sim... — Wilde disfarçou com uma mão no queixo — ... Então, qual é o ponto, você vai usar essa foto pra me chantagear também?
Hopps bufou brevemente com a troca de assunto.
— Bem... Quem sabe…? — Piscou para Nick, numa cinicidade que era até charmosa — De qualquer forma, um pouquinho de organização não faria mal…
— É o meu cafofo, Cenourinha, é o meu estilo de conforto… — Nick resmungou como estivesse precisando repetir uma informação óbvia — ... Além do mais, eu já te disse que raposas são animais solitários.
— Olha… Na festa você não pareceu solitário...
A raposa, atenta, virou uma de suas orelhas para a direção de Judy.
— ... Você estava bem sociável... — Continuou a coelha, enquanto estavam parados em um sinal vermelho — O papai e a mamãe até mesmo disseram que você transmitiu uma energia muito boa pra todos ali...
— Eu... não fiz nada demais... — Wilde replicou cabisbaixo.
— Não seja tão modesto, Nick... Meus irmãos te adoraram, mesmo você assustando eles... — A raposa engoliu em seco com a observação de sua parceira — ... Eu não imaginava que você teria esse lado tão... Tão paternal.
O semáforo abriu, com Nick mantendo um olhar distante ao passo que sua parceira acelerava a viatura.
— Anos e anos nas ruas fingindo que o Finnick era meu filho... — Murmurou o canídeo — Devo ter absorvido alguma coisa intrínseca com isso...
Judy Hopps não pôde deixar de reparar o ar reflexivo de seu parceiro predador... Observando-o de canto de olho, a coelha percebeu um padrão raramente visto em Wilde...
… Ele estava de guarda baixa.
E ela indagava-se, 'por qual motivo'?
Tristeza?
Medo?
Cansaço...?
... Indecisão?
Ao constatar este ar melancólico, Hopps recordou-se do passeio de gôndola na Zona da Mata, a cerca de um ano atrás, quando ela ainda era uma policial novata e Nick ainda era uma raposa trambiqueira das ruas…
"Eu nunca deixaria novamente alguém ver o que fizeram comigo..."
Hopps precisou parar novamente em outro semáforo que, de certa forma, lhe veio a calhar. As profundas palavras de seu parceiro proferidas naquela instância passada ressoavam em sua mente... Como uma imatura coelha, Judy jamais poderia imaginar que uma raposa poderia ter que enfrentar, sozinha, tantos demônios internos...
... E, naquele momento de um ano atrás, em que aquela raposa finalmente havia baixado a guarda e aberto seu coração, algo também mudou no coração de Judy…
… E a coelha sentia estar revivendo aquele momento... A expressão distante do, agora, Oficial Nicholas Wilde, era um claro 'dejavù'...
“Nunca será uma policial de verdade…”
“Não é um lugar recomendado para uma... coelha fofa…”
“Cenourinha… Salvou minha vida…!”
“Ela não vai devolver esse distintivo...”
“Até... que você é esperta...”
“Presta atenção, nessa dica:”
"Fica tranquila, deixo você apagar... Em quarenta e oito horas”.
“Eu não vou deixar você pra trás, tira isso da cabeça!”
... Lembranças de sua jornada com o raposo ecoavam em sua cabeça…
“Cenourinha… Você ainda quer uma raposa como parceiro policial?”
“E-eu… puf, puf…! Não a-... guento… fazer… du-… zentos… puf-... a… dbo… minais… Ce… nourinha…!”
“Parece que eu tenho uma mira melhor que você, Cenourinha…”;
"Hahahaha, tu desligou com DUAS cerveja só, Cenourinha?? E cerveja sem álcool ainda??"
“Desculpa te ligar de madrugada, Cenourinha… Eu tive um sonho terrível…!”
“Coelha boba, não é ciúme, só que… O que esse tal Jack Savage tem que eu não tenho?”
“Falta só uma semana… Daqui em diante, será ‘Oficial Wilde’ para você…”
"O nosso primeiro caso... Esse... é o presente mais bonito que já ganhei..."
“Eu confesso… Que essa não foi a sua pior ideia…!”
“Judy, não vale a pena morrer por isso…!”
— … Ei…!
"Ele disse que você tinha..."
— ... Cenourinha...?
"... Eu só me importo com você..."
— Ei, Cenourinha...! Tá aberto!
“... Te amo, parceira”.
*BIII BIIIIIII*
— EI, TÁ DORMINDO AÍ NA FRENTE!!!???
— HÃ, O QUÊ, ONDE...???
Absolutamente abstraída, Judy não notou que o sinal já estava verde para eles, até mesmo os toques de Nick em seu braço não ajudando. Foi necessário a buzina de um guaxinim caminhoneiro atrás deles para que a roedora arrancasse.
— Foi mal aí!! — Gritou acenando com a pata.
— Cenourinha, tem certeza que não quer me deixar por aqui? — Indagou preocupado o raposo — Você parece cansada e vai desviar muito de seu caminho.
— Largar você aqui, à essas horas? — Replicou rigorosamente — Nem ferrando, e para onde vão minhas cinco estrelas na Zuuber?
— ... Eu tenho a malícia dessas ruas desde os doze, bobinha — Nick olhou de canto de olho — … Eu vou sobreviver.
— Vai sim, porque eu vou te deixar na porta de casa! — Judy lhe golpeou no lado do corpo, como parte de suas rotineiras pancadas amigáveis em Nick. À propósito, as reações de surpresa do raposo com essas situações sempre lhe divertiam silenciosamente...
… Contudo, algo ali estava diferente...
... Nick Wilde permaneceu irredutível... Ainda distante.
— Ei... Te machuquei? — Questionou a roedora, de modo preocupado
— Oi?! — Wilde parecia ter despertado de um transe — Não, não, tá de boa...
— Você... tá mais estranho que o normal, Nic-
— Olha só, o Wild Times tá à toda hoje! — O raposo ligeiramente apontou para um tipo de clube, de onde era possível ouvir "Zoo", o novo sucesso da grande estrela Gazelle.
— Está mesmo... — Concordou a motorista, vendo a danceteria de canto de olho.
— ... E aí, o que pensa em fazer amanhã? — Questionou Judy.
— Hibernar, a partir de hoje.
— Hibernar? Como assim hibernar? — Judy franziu o rosto — Desde quando raposas hibernam?
— Desde quando eu, sendo uma raposa, decidi que ia hibernar — Replicou Wilde, vendo a paisagem urbana que já fazia parte de seu bairro.
— Raposas não hibernam! — Judy disse através de um riso — Ursos hibernam, isso que você está fazendo é apropriação animal!
— Não estou me apropriando, estou… pegando emprestado. — Referiu de indicador erguido.
— É? E se eu desse meia volta para Tundralândia pra perguntar pro Raymond e pro Kevin se isso procede...? — Brincou Judy com um semblante cínico — Nossa, então é assim que é ser uma policial corrupta…?
— ... E você, Nick... Não é corruptível...?
Hopps estava claramente flertando...
— Estamos chegando.
... Não sendo correspondida pelo apático raposo.
O ‘ponto final’ seco da raposa foi praticamente um basta para Judy Hopps.
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— Finalmente, casa!
Pensou Nick Wilde, quando sua parceira Judy Hopps estacionou a viatura em frente ao seu apartamento sob a academia de elefantes. Era o fim de uma extenuante jornada, mas não cansativa fisicamente e, sim, mentalmente…
— Cenourinha… Eu queria muito poder te falar…
“Ihh, o Tio Nick gosta da Judy…!”
— … Muito, MUITO mesmo…!
“Você não engana ninguém, raposa…!”
— … E-eu não c-consigo…
“Você tem nossa benção e a benção da grande cenoura!”
— ... Você é um covarde, Nicholas Wilde…!
— Obrigado pela carona…
Wilde pulou da viatura e pegou a sua cesta de variedades de mirtilos na diminuta caçamba do veículo — Manda um Whatzoop quando chegar em casa… — Acenou de costas para Judy, já indo em direção a sua escada.
— ... Nicholas!...
— Merda…!
Ele parou de orelhas erguidas, demonstrando clara relutância em virar-se para trás.
— … O que que tá acontecendo?
Sentada na direção da viatura, Judy Hopps indagou seriamente, com pitadas de preocupação em seu semblante.
— ‘Nicholas’... Se você me chamou pelo nome, deve ser sério mesmo… — Desbaratinou a astuta raposa.
— Nick, é sério…! — Replicou a roedora — … Você está tão… tão...
— ... Distante, eu não sei… — Era nítida a preocupação no rosto de Hopps — ... Que bicho que te mordeu?
— Felizmente, nenhum muito grande… — Nick usufruiu de seu melhor artifício de blindagem emocional, o humor — … Apesar que lembrei que um dos seus irmãos me deu uma dentada.
— 'Piadas são um mecanismo de defesa para quem teve uma infância traumática'...
Wilde surpreendeu-se, estabelecendo contato visual direto.
— … Soa familiar? — Judy seguia firme — Nick, se algo estiver te atormentando, você sabe que pode contar comigo.
Para desgraça da raposa, a coelha lhe antecipou com maestria.
Nick abaixou as orelhas e fechou profundamente os olhos, para em seguida deixar sua cesta de mirtilos no chão e iniciar uma lenta marcha em direção ao carro da sua parceira.
— Judy… O que acontece é que…
Nick Wilde respirou profundamente.
— … Eu estou apaixonado…!
— … Eu estou cansado…!
— … Muito…!
— … Apaixonado…!
— … Cansado…!
— … E eu apenas…
— … Sou covarde demais para te falar…!
— … Quero chegar em casa e descansar…!
— … Eu te amo…!
— … De verdade mesmo.
Com uma pausa ao fim da fala do raposo, Judy deu uma breve lufada de ar com a boca, soltando sua postura rígida.
— Você... jura...?
— Você vai me fazer jurar cansaço, Cenourinha?
A coelha bufou novamente, percebendo que poderia estar sendo um tanto tóxica.
— Bem… Se realmente for só cansaço, eu fico mais aliviada…! — Deu-se por vencida — ... Então, bom descanso, Nick.
— Boa noite, Cenourinha.
Nick acenou com a cabeça e virou-se de volta em direção à sua casa.
— Nicholas, fale agora! Vire-se e fale pra ela!...
— … Não fuja! Esse é o momento…!
A melancólica raposa desceu as escadas de frente de seu apartamento;
— … Não fuja, não esconda!!
Encaixou a chave, girou-a na fechadura e abriu a porta.
Nick pegou novamente a cesta do chão ao seu lado, preparando para entrar no seu covil.
A meio caminho dentro da porta, a raposa parou, segurando-a. Seu olhar voltou-se para a discreta mesa à direita da entrada, onde ele costumava repousar sua preciosa caneta cenoura, agora estando apenas o recorte de jornal sobre a resolução da conspiração da ex-Prefeita Bellwether, o primeiro caso que ele solucionou com sua parceira, Judy Hopps… E ele ainda era um ‘estagiário’.
— Heh…!
O predador soltou a porta e caminhou para dentro de seu apartamento… Bagunçado, como havia provocado sua parceira coelha, mas era seu porto seguro, a toca de uma solitária raposa.
— … Você é um idiota, Nicholas Wilde…
— … É, você é um idiota mesmo.
Erguendo as orelhas, a raposa virou-se para trás… Normalmente, sua porta teria fechado sozinha, mas a voz que completou sua frustrada conclusão tomou-lhe a atenção.
Ao vislumbrar a entrada do recinto, Wilde notou algo segurando sua porta… Um pé de coelho.
— M-mas o q-
— … Bom, eu até tinha esperança que você ia tomar a iniciativa de me chamar pra entrar dessa vez... Mas fui correta em perceber que você ainda tem dificuldade em expressar seus sentimentos…
Judy Hopps deu um empurrão na porta e adentrou à toca do predador.
— C-Cenourinha, o que v-você est-
— Tomando iniciativa! — Interrompeu, aproximando-se de Nick — Se você tem essa dificuldade, estou aqui para dar um empurrãozinho.
— Judy, p-por favor! — Wilde, agoniado, deixou a cesta de mirtilos no chão e colocou-se em frente à coelha, usando sua cauda peluda para tentar esconder a anarquia que era sua residência — O-o apartamento está uma bagunça e-e-e e-eu-eu-
— Eu não ligo…
Serena e confiante, Hopps interrompeu o anfitrião ‘forçado’, passando para adiante de Wilde, entretanto, sem tirar o mesmo de seu olhar.
— … De verdade, eu não ligo mesmo…
Então, ela aproximou-se do canídeo.
— … Parafraseando uma das coisas mais bonitas que eu já ouvi na minha vida…
Judy agarrou a gravata de Nick;
— … Eu só me importo com você.
— J-Judy… Isso… Isso é…
Ligeiramente consternado, Nick ainda tentava negociar, enquanto a coelha lhe puxava pela gravata até próximo ao sofá do centro do apartamento, subindo de pé sobre o mesmo para ficar na mesma altura que o raposo.
— Nick, pare de tentar se enganar… — Sussurrou — … Se você está preocupado por ser um tabu, e daí? O que temos a dever satisfação para esse mundo…?
Então, ela aproximou-se de uma das orelhas de seu parceiro.
— … Você quer isso tanto quanto eu.
Era o fim. Nick Wilde perdeu…
… Porém, ao mesmo tempo venceu.
— Heh…
O raposo abdicou de suas preocupações e fechou os olhos por um instante…
… Para retornar com o característico semblante confiante que Judy Hopps conhecia.
— Coelha esperta…
Sussurrou, aproximando-se do rosto da coelha.
— Raposa boba…
Replicou a coelha, preparando-se para um gelado toque de focinhos…
… Mas não gelado o suficiente para impedir o quente encontro dos lábios de presa e predador.
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