Zona Morta
7 Capítulo 7
Notas iniciais
Fillipe foi o primeiro a cair no sono. Estava escorado ao lado da mesa da cozinha quando do nada tombou a cabeça em cima do próprio ombro e apagou. Depois de tanto chorar, o garoto apenas ficou com uma expressão vazia e calada. Na realidade, ninguém estava falando muito naquele momento. Fernanda foi a última a se render ao cansaço. Quando se deu conta que era a única acordada no local, um arrepio percorreu-lhe a espinha – sentia que a solidão do outro lado das janelas havia entrado ali e a envolvido. Resistiu a dormir, mas por fim suas pálpebras de colaram.
Quando Fillipe abriu os olhos horas depois de maneira tímida e enjoada, deparou-se com algo que não esperava. As janelas estavam vivas. Luz entrava por elas.
Era uma iluminação fraca, como a de um dia muito nublado de inverno, mas a escuridão não estava mais colada nos vidros. O garoto levantou-se de supetão e conferiu o outro lado, olhando pelas vidraças de cima de pia. Conseguiu ver com clareza a área cheia de flores que havia naquele corredor externo. Seu coração palpitou forte e ele rumou até a porta da cozinha, abrindo-a sem hesitar.
Otto estava próximo da porta, então acordou assustado com o barulho. Quando viu Fillipe passando por ela, se remexeu feito um gato assustado para afastar-se dali e não ser atingido pela nuvem negra, mas fração de segundos depois notara que conseguia ver pelo portal a sala de TV e a escada com extrema nitidez. Ficou arfando no chão enquanto Fillipe correu para a sala.
O garoto de cabelo cacheado foi aos tropeços desesperados até a porta que dava para a área externa. Encarou-a arfando. Estava quebrada exatamente como seu irmão fizera, mas não havia nenhum sinal dele.
Ele ficou algum tempo olhando para aquele vazio e depois a empurro, indo para fora. Também não havia ninguém lá. Até mesmo os corvos haviam desaparecido, deixando para trás pequenas manchas de sangue por todo lado. Suas pernas fraquejaram e ele caiu de joelhos no chão, retornando a chorar. Dessa vez não era medo, nem tristeza. Era a mais pura raiva.
Otto veio logo em seguida, mas não mexeu com o amigo. Ficou olhando-o pelas costas com pena. Caminhou calmamente para não ser notado. Olhou para o céu curioso. Estava completamente nublado. Era uma única massa de nuvem que preenchia todo o céu, mas era menos escura, tinha um tom de cinza levemente escurecido. Olhar para ela causava certo receio. Parecia que iria escurecer totalmente e cair novamente a qualquer momento, mas ela estava estável, parada e imóvel.
O frio ainda era soberano. Parecia fazer mais ou menos uns quinze graus Celsius, algo completamente incomum para aquela época do ano. Miguel e Clarice apareceram pela porta e foram até Otto para terem uma visão do céu também. Ficaram admirando-o por uns instantes.
— Será que acabou? – Clarice perguntou ansiosa, mas não havia muita crença em sua voz.
— Espero que sim – respondeu Otto.
Fillipe ficou sentado no sofá, vidrado, insistindo no funcionamento do telefone e da TV, mas eles apenas chiavam. Miguel havia verificado o rádio do carro de Léo, mas transmitia apenas silêncio. Com Clarice e Otto, Miguel foi até a rua. Estavam com um medo leve, mas a curiosidade falava mais alto.
A rua estava completamente vazia. O silêncio ondulava pelo ar. Foram até as duas extremidades do quarteirão, onde em uma delas havia uma pequena avenida. Não havia nenhum sinal de vida por lá, apenas carros parados no meio do caminho, como se tivessem sido abandonados.
— Se vocês vissem uma nuvem escura descendo do céu, sairiam correndo loucamente? – Otto perguntou.
— Acho que sim – Clarice e Miguel responderam fitando os carros. Procuraram dentro de alguns, mas estavam todos vazios e a maioria com as janelas abertas.
Retornaram para a rua da casa de Fillipe cabisbaixos. Estavam tensos e com medo.
— Se tivessem pessoas aqui, também já teriam saído para a rua, não? – Clarice questionou baixo.
— Não sei, mas parece tão... vazio — Otto respondeu. Afirmar aquilo fez a sensação de vazio crescer dentro dele.
— E o que a gente faz? – Miguel perguntou desencorajado.
— Acho que a única opção é procurar por pessoas. Ficar aqui não vai adiantar de muita coisa.
— Podemos ir até minha casa – Miguel sugeriu. — Tenho quase certeza que meus pais não saíram de casa ontem à noite. Bom, espero que não. Eles podem estar lá.
— É uma boa. É a mais perto.
— Acham que realmente existem chances de ter mais gente por aí? – Otto perguntou. Não queria perguntar, mas perguntou.
— Não sei – respondeu Miguel. De qualquer forma, acho melhor não criarmos expectativas – dizer aquilo era assumir a terrível possibilidade de não encontrarem as pessoas que gostavam, principalmente a família.
Voltaram em silêncio até a casa e encontraram Fernanda com Fillipe no sofá. Ele estava mais calmo naquele momento, mas totalmente calado. Não encontrava o olhar de ninguém. Todos menos eles foram até a cozinha comer algo, mas deram apenas algumas bocadas no pão que encontraram. Os três compartilharam com Fernanda a ideia de ir até a casa de Miguel e procurar por pessoas no caminho e ela concordou, mas estava nitidamente incomodada. Fernanda puxou Clarice para o canto e disse discretamente:
— E se a gente encontrar o homem do facão?
— Calma.
— Mas tudo que eu sonhei antes disso aconteceu. Toda vez que me lembro da imagem desse homem uma sensação horrível sobre na minha cabeça.
— Eu sei... Não consigo imaginar aflição que você sente, mas a gente não pode ficar aqui esperando, entende? A gente precisa de ajuda. Se ficarmos aqui vamos ser dominados pelo medo, sei lá.
Fernanda a encarou insegura.
— Por favor – Clarice continuou -, está sendo difícil para todos nós. Tente enfrentar isso. Eu estou do seu lado.
— Tudo bem.
Convencer Fillipe a sair dali foi mais fácil e descomplicado que imaginaram. Miguel tinha certeza de que ele resistiria por pura teimosia, mas ele apenas mexeu a cabeça concordando. Eles saíram minutos depois e subiram a rua devagar. Todo o trajeto possuía a mesma imagem: vazio, árvores quebradas, alguns objetos estranhos espalhados que foram trazidos pelo vento e sangue dos corvos. O silêncio fora quebrado com alguns pássaros cantando, o que aliviou a sensação de solidão pelo menos um pouco. Otto procurou os pássaros nas árvores e fios elétricos, mas não encontrou nenhum. Toda vez que encontravam uma casa com uma janela ou fresta aberta, um arrepio subia, e a grande maioria delas estava assim. Observavam também os carros parados no meio da rua, mas também estavam todos vazios.
— Gente, acho que sobrevivemos a um apocalipse – Otto disse durante o caminho. Ninguém respondeu, mas todos ficaram repensando a afirmação.
Andaram por uns quatro quarteirões até chegar à rua de Miguel. Ela era uma descida, mais arborizada e possuía mais prédios que casas. Em um momento Fernanda teve um sobressalto. Ela ouviu um som atrás dela, mas como ninguém se manifestou por ele, pensou que era coisa da cabeça. Mas segundos depois ouvira novamente. Ela parou de caminhar e ficou um pouco petrificada, mas não resistiu. Virou a cabeça levemente por cima do ombro. O medo a abraçou com força quando viu. Era um bode, parado no meio da rua, encarando-a.
Quando ia avisar os amigos sobre o que via, outro som chamou a atenção, mas desta vez vinha de perto dela, muito perto. Quando voltou a visão para os colegas, se deparou com Miguel estirado na rua. Sobre ele estava Fillipe, socando-o incansavelmente.
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