Zona De Perigo
13 Sr. Bene
Notas iniciais
Subimos mais alguns lotes de escada.
Eu encarava Peter a cada grito que ouvíamos.
– Deixe de ser idiota, Marisa. Você sabe que esse merdinha está mentindo. -uma voz rouca, parecia alguém que havia fumando por anos.
– Bene, se acalme! Largue a arma, por favor. Já ajudamos, não foi? Eles devem ter se virado, agora, por favor, largue a arma. -uma voz feminina, parecia ter uns 40 e poucos anos.
– Vamos! Termine oque começou! Me mate logo, idiota! Quer chamar a atenção de zumbis pra salvar um bando de adolescentes? Eles vão morrer em breve, tenha certeza! E ainda por cima roubaram nossa comida, isso parece certo pra você?! — a voz parecia irritada, e ia se alterando a cada palavra. Um homem, eu deduzi.
– Você sabe meus motivos, Rogério. E tem mais! Somos apenas um grupo de velhos, se não morrermos pelos zumbis, vamos morrer pela idade! Eles são jovens, e tem a Alice.
Como ele conhecia Alice? Encarei Peter com um olhar de questionamento, e ele deu um sinal com a mão para continuarmos. Chegamos no sétimo andar, um longo corredor seguia por duas direções, a luz do sol iluminava-o por inteiro, as portas, por exceção de uma, estava fechada. As vozes continuavam a ser jogadas um contra o outro, não sabia oque fazer agora, se invadisse, o homem armado poderia me matar, se ficasse ali, nos perceberiam.
– Peter? — sussurrei — vamos subir mais um lote, e nos esconder lá, esperar os dois deles saírem, e vamos conversar, ok?
Peter afirmou com a cabeça, subimos em silêncio e nos escondemos, ficamos ali por alguns minutos que logo viraram horas, ninguém saia e a discussão ia tendo um fim.
– Quer saber? Eu cansei dessa merda, vou procurar um lugar pra mim, e saiba, se der mais um maldito tiro em mim, eu enfio essa arma eu um lugar nada legal. Ainda vamos nos encontrar, Bene, você vai ver.
Um homem desceu as escadas mancando, com uma mochila nas costas, ele parecia irritado. Não consegui ver seu rosto, mas ele não parecia muito mais velho que meu pai. Quando a porta dos fundos do prédio bateu, uma voz de dentro da sala ecoou:
– Pode sair dai, jovem. Não vou machucar você.
Entrei em pânico, ele sabia que estávamos lá o tempo todo? Fui surpreendido, mas não pude fingir que não estava. Eu queria correr, mas mantive a calma e fui caminhando ao lado de Peter até a sala. Bati na porta, e um senhor de uns 60 anos abriu, ele tinha barba e cabelos brancos, e me lembrou o papai Noel do Hawaii. Ele vestia uma bermuda florida e uma camiseta branca, chinelos azuis e tinha um sorriso convidativo.
– Olá meus jovens! Sou o Benedito, mas podem me chamar de Bene. Entrem, por favor, faço questão.
Entramos, e Peter se apresentou.
– Oi, Peter Alcantara Sousa. Tenho 17, é um prazer. — ele esticou a mão, e o senhor apertou.
– Hã... sou o Jack. Jack Mclain Miles. Prazer em conhecê-lo. — e estiquei a mão, e nos cumprimentamos.
–Bem-vindos a minha casa, é bem simples, como podem ver, mas é meu refúgio desse mundo.
O apartamento tinha alguns móveis velhos, mas era tudo muito limpo. Quadros e fotografias nas paredes, mostravam um pouco da família do senhor. Filhos, sobrinhos, talvez? Paisagens lindas pintadas por M. Harlem.
– Como o senhor conseguiu sobreviver a tudo isso? — Peter perguntou e surpreendeu um pouco Bene, que deu uma risada e respondeu.
– Bem, foi complicado Peter. Eu estava em casa com minha esposa e minha netinha, quando tudo começou. Os noticiários disseram que uma ameaça enorme estava por ai na rua, tudo começou com um vírus americano que havia se espalhado aos poucos até virar uma epidemia. Os primeiros infectados aparentavam sintomas de gripe, e então se transformavam. Eu entrei em desespero, claro! Liguei para minha filha que estava no mercado, mas ela não atendeu. Peguei tudo oque pude, comida, roupas, documentos, enfiei no carro e desci a serra. Para minha neta, não passava de uma viagem comum. Eu achava que no litoral estaria tudo mais tranquilo, me enganei. O melhor lugar pra ficar, agora, é numa ilha bem isolada, ou no interior. Deveria ter pensado antes. Nos instalamos na casa de praia da minha filha, no centro da cidade. Em dois dias, a água e comida que tínhamos, se esgotou. Marisa foi até esse nosso apartamento para conferir umas coisas, e se era seguro, enquanto fiquei com minha neta. Aconteceu uma coisa, e tive de sair pra buscar água, ela estava morrendo de sede! Quando voltei, ela já não estava lá. — o senhor ficou em silêncio por uns segundos. — Vim para cá, então, ajudamos algumas pessoas, mas somente Rogério ficou conosco até hoje.
– Sinto muito... foi o senhor que nos ajudou? — perguntei.
– Foi sim. Um motivo em especial, mas foi.
– E que motivo foi esse? — Peter questionou.
– Alice. Ela é minha neta.
Como não descobri antes? Era muito óbvio. Fiquei em silêncio até uma mulher sair de um dos quartos. Ela era um pouco mais nova que Bene, tinha pele bronzeada e cabelos pretos e curtos, era gordinha e bem amigável.
– Ah! Vejam, rapazes, essa é minha linda esposa, Marisa! — ela nos cumprimentou.
Conversamos por algumas horas, até percebi que estava anoitecendo, passei o dia todo ali?
– Bem, a conversa está boa e tudo mais, mas precisamos ir, temos muito oque contar. Vocês podem se juntar a nós, se quiserem. — encarei os dois, sorrindo.
– Escute, rapaz. Nós pretendemos ir embora daqui a dois dias. Preparamos um caminhão-casa, dentro dele há tudo que precisamos para uma viagem, comida, água, um banheiro, beliches. Queremos nos mudar para Mairiporã, há cachoeiras lá, podemos plantar, colher, ter bichos, será seguro. Estamos convidando vocês, convide seus amigos e leve oque puder. Tem até amanhã para decidir, avise Alice que estou aqui, e bem.
Nos despedimos, e fomos embora. No caminho, vi uma pessoa correndo, era Lily, ela pulou no meu colo sorrindo, depois voltou a postura normal, e me deu um tapa no rosto tão forte que achei que talvez meus olhos tenham saltado.
– Seu idiota, ridículo! Onde estava?! Passou o dia todo lá, achamos que tinha sido devorado até os ossos! E você, Peter? Seu babaca! Vocês me pagam! — ela fechou a expressão e voltou ao nosso lado. Contamos oque havia acontecido, e a proposta. Ela sugeriu contarmos junto ao jantar, foi oque fiz.
– Bem, Carly, Lily, Alice. Eu e Peter temos uma proposta. É para o bem de todos, e eu, pessoalmente, acho o melhor. — contei tudo oque poderíamos fazer se nos mudássemos. Todos concordaram, encaixotamos comida e água, algumas roupas, e estávamos prontos. Alice estava radiante de saber do seu avô, isso me deixou feliz. Fomos dormir um pouco mais esperançosos aquela noite.
Acordei de madrugada para ir ao banheiro, iluminando o caminho com uma lanterna, ao chegar na sala, Carly estava sentada no sofá chorando.
– Ei, Carly? O que houve? — me sentei ao seu lado e tirei o cabelo do seu rosto.
Entre alguns soluços e chorinhos baixos, ela disse:
– Jack, me prometa segredo.
– Certo, eu prometo. O que foi?
– Oh meu Deus, eu estou grávida, Jack! — fiquei pasmo, grávida? Em pleno apocalipse?
– Certo, whoa, ok. O pai é o Peter, certo? Vamos dar um jeito, Carly, não chore tanto. Ele já sabe?
– Não, não quero contar agora, está tão cedo. — ela limpava as lágrimas do rosto — Só você e Lily sabem, eu não queria estar grávida agora, e colocar um filho nesse mundo horrível? Onde eu estava com a cabeça? Oh meu Deus.
Ficamos ali por um tempo, quando ela parou de chorar e vou dormir, fui descansar. Não estava ciente do que estava prestes a acontecer.
Fale com o autor