Zona B
9 Capítulo 8
Notas iniciais
Algumas estrelas apareciam no escuro céu, acompanhando a luminosidade da Lua. Ao subir as escadas, Charmin estendeu a coberta que pegara e deitou sobre ela, apoiando a cabeça no travesseiro. Fechou os olhos por alguns minutos, respirando lentamente e finalmente deixou as lágrimas caírem.
Desde que fora enxotada de casa e abandonada por Collin a garota não chorava e somente James a vira. Depois daquele dia a posição de dura e fria voltara como se nada tivesse acontecido. Mas não haviam sido semanas fáceis: treinos, saques, lutas e um quase assassinato. E agora descobrira que o irmão havia planejado mandá-la ao alojamento para ir sozinho e viver uma vida tranquila na A. Tudo isso fazia com que as lágrimas descessem, e ela havia as contido muito bem e por muito tempo.
Agora, depois de tanto segurá-las, as lágrimas derramaram como cachoeiras de uma nascente que pensara estar seca. Charmin pegou o travesseiro para abafar o som do choro, não queria que os rapazes ouvissem o lado sensível dela. Mesmo sabendo que ele existia, era vergonhoso demais mostrá-lo. As costas das mãos estavam esfoladas e doloridas pelos afazeres da semana e mesmo assim ela forçou ambas as mãos contra o rosto para que o choro parasse. Finalmente abriu os olhos e passou a observar a lua.
Charmin passaria a noite ali, pois, se entrasse pelo alçapão e desse de cara com todos eles, talvez desaprendesse como falar civilizadamente mais do que já desaprendeu. Ajeitou o travesseiro, encolheu as pernas e os braços e fechou os olhos, ouvindo o barulho de alguns grilos.
Pensou em James sentindo frio de madrugada e quase cogitou descer para lá e dormir com ele, mas estava brava até com o garoto por ter escondido coisas tão importantes como a que escondeu. No fim acabou rolando pela coberta para cair no sono e ajeitando o travesseiro em diversas posições para que se acostumasse com o chão frio.
Então desejou que a mãe estivesse ali ao seu lado afagando seus cabelos e confortando-a, falando que tudo ficaria bem e encorajando-a, dizendo para não deixar que o mundo ganhasse dela. Tentou imaginar a voz carinhosa da mulher e depois de minutos percebeu que não conseguiria: Ela não lembrava ao menos o tom de voz da mãe.
***
– Não vou conseguir dormir sabendo que Charmin está lá fora no frio! – Vociferou James, olhando para o alçapão enquanto tentava conversar civilizadamente com Will. – E sabe de quem é a culpa de tudo isso? Dele!
Apontou para o garoto que já dormia completamente relaxado. Will, por sua vez, abaixou o braço de James e colocou uma mão em seu ombro, tranquilizando-o.
– Não foram as intenções dele. E você sabe muito bem disso, James. – Murmurou enquanto afastava-se do loiro e pegava um copo d’água. – Ele simplesmente fez o que precisava fazer e eu me lembro de te ver o agradecendo tantas vezes que não sabia se você possuía mais saliva dentro da boca de tão seca.
– Mas se não fosse por ele estar aqui nós não precisaríamos esconder tudo dela. Se não fosse por ele, nada disso aconteceria e nós não teríamos que ficar enchendo a cabeça dela com bobagens! – Passou as mãos pelo cabelo terrivelmente estressado. – Aquela garota é basicamente e totalmente tudo o que eu tenho! Tudo! Não tenho mais uma mãe e um pai, mas eu ainda a tenho depois de todos esses anos! E eu não vou deixá-la ir por esse simples fato de covardia! – Voltou a apontar para o rapaz. – Ele vai contar à Charmin antes d’ela ir à A. Ou se não eu mesmo conto a minha versão e faço com que o coração dele se parta em tantos pedaços que nem uma lupa será capaz de possibilitar a visão!
Bufando, Will somente se afastou de James e caminhou até sua cama, retirando as botas, a camisa e em seguida cobrindo-se com o lençol enquanto ouvia o mais novo questionar sobre a solução. Deu de ombros e negou qualquer continuação de conversa, arrumando o travesseiro e dormindo.
***
O Sol da manhã fez com que Charmin abrisse os olhos e olhasse ao redor, lembrando a noite passada. Um copo de leite e uma maçã estavam do outro lado da coberta, um papel preso embaixo do copo. Charmin resmungou e estendeu o braço, puxou o bilhete, aproximando-o do rosto para ler. Uma escrita caprichosa e pequena estava preenchendo o papel e ao olhar par ao final, revirou os olhos.
“James pegou minha coberta essa noite. Por sua causa fiquei com frio a noite inteira, gatinha. Quando acordar entre no alçapão, faremos uma reunião. Will.”
Amassou o papel e apoiou as mãos na terra para sentar-se e tomar o leite. Após terminá-lo, levantou e ajeitou a coberta. Pegou suas coisas e com o pé abriu o fecho do alçapão, jogou a coberta e o travesseiro e não entrou. Recolheu a maçã do chão e mordeu-a, jogando-a também pela entrada.
Parou enfrente ao buraco e o encarou por alguns minutos, pensando se entraria ou não; Se falaria com eles ou não; Se direcionaria o olhar a eles; Ou se simplesmente continuaria com tudo e com todos.
Mas então lembrou a mesma conclusão que chegara no dia em que Will fizera a proposta de se tornar um deles: O que ela teria a perder? Quem ela perderia? Ela não possuía mais nada e aquilo a obrigou a agachar, colocar os pés para dentro do alçapão e pular.
Todos pararam o que estavam fazendo para olhar para Charmin. Os olhares espantados e alguns chateados, como se pedissem desculpas. Josh limpava as facas da garota como pedido de desculpas silencioso e James mexia no colar que ela havia feito, demonstrando o tamanho da preocupação; Will olhava-a enquanto Charmin encostava na escada com o sorriso que trocaram quando ela se machucou na primeira semana.
Nick ainda dormia com um dos pés para fora e o rosto enfiado no travesseiro, os dois braços sobre a cabeça e o peitoral virado para o lado. Marc e Kyle mexiam nos computadores e ambos sorriram com o rosto avermelhado quando perceberam que estavam sendo observados por ela. Sorriu, passando os olhos por todos e assistindo os gestos de cada um.
Charmin percebeu que se fosse embora e os abandonasse, sem mais ou menos, aquilo sim faria com que ela perdesse algo muito mais importante do que pensava. Pegou a maçã do chão e jogou-a no lixo.
– Bom dia para vocês também, garotos. – Ironizou, indo até a cama de James e pegando uma toalha. – Vou tomar um banho e quando eu voltar nós começamos a tal reunião.
Andou até o banheiro calmamente ao chegar à porta, virou-se para Josh.
– Conte meus quinze minutos. – Ele sorriu ao ouvir a voz dela direcionada a si.
Enquanto Charmin estava no banheiro, Will arrumou a mesa em que todos sentariam em volta, colocando papéis, gráficos e alguns desenhos. Marc e Kyle alternavam entre teclados e códigos enquanto James e Josh arrumavam o alojamento em geral. Todos pensavam na garota e em como deveriam ter cuidado com as palavras.
Contado os quinze minutos e mais alguns que Charmin tinha o costume de ultrapassar, a garota saiu do banheiro arrumando a blusa. Os rapazes acompanharam seus passos, esperando algum movimento agressivo, mas ao invés disso ela só colocou a toalha no pescoço.
– Então. Sobre o que nós iremos conversar? – Perguntou, sentando-se na cama. – E pra que esse monte de papel?
– Nós vamos conversar sobre a A, gatinha. – Respondeu Will, sentando-se. – Lembra-se quando nós fomos ao norte e ao leste e pegamos aquelas informações sobre as pulseiras de acesso?
Charmin assentiu e então Marc e Kyle levantaram-se, virando o centro das atenções e apontando para as telas.
– Esses códigos são os que são colocados dentro do chip que dá passagem para a A. – Começou Kyle. – Mesmo não sendo um habitante da A, se você possuir este chip em bom estado e com identificação, automaticamente a entrada será liberada.
– Esses são modelos de pulseiras fabricadas e como as peças são encaixadas. – Apontou Marc para outro visor. – Se nós conseguirmos somente alguns fios, um chip e uma boa fita isolante, teremos livre passagem para a A. Como se usássemos uma pulseira real.
Charmin arregalou os olhos, surpreendida. Queria fazer tantas perguntas que não conseguia as organizar dentro da cabeça.
– Então aqueles modelos complicados de pulseiras são só forma e não conteúdo?
– Exatamente, gatinha. E tudo que nós precisamos agora é de um chip, o código nós temos. – Levantou o mais velho, pegando algumas fichas. – Vê esses homens? São traficantes e contrabandistas. Eles compram chips novos de alguns funcionários de fábricas da A, trazem para a B e vendem para cidadãos que pensam que sabem usar. E, bem...
– E nós sabemos como. – Completou Charmin, sorrindo e cruzando os braços.
– Sim.
– Então qual o plano, Will? – Zombou James, posicionando-se ao lado de Charmin. – Nós vamos lá, batemos em uns caras e roubamos esses chips, colocamos os códigos e viramos As? Felizes para sempre?
– Isso mesmo. Só que vai demorar um pouco o: “felizes para sempre”. – Falou Will. – Eu planejava negociar alguns chips primeiro como um experimento e depois roubaríamos mais para todos nós.
– E quando você vai negociar o tal chip?
– Daqui alguns dias. Eu vou amanhã falar com eles e perguntar o que querem em troca, então nós ativamos o plano. Aí nós construiremos uma pulseira fajuta e daremos para...
– Mim. – Completou Charmin, sorrindo. – Senão qual o outro motivo de eu estar aqui?
– Que bom que você entendeu gatinha. – Sorriu ao ver que ela não estava tão brava quanto deveria aparentar. – Se houver incômodo com isso, nós podemos refazer a rota...
– Não, eu quero fazer isso. Quero ser útil pelo menos uma vez na vida, Will. – Levantou-se, ajeitando o tênis. – Cansei de ser um estorvo.
– Charmin! – Protestou James.
– Vocês entenderam o que eu quis dizer. E vocês sabem a resposta. – Olhou para cada par de olhos na sala, séria. – Eu vou fazer isso, nós vamos virar As. Definitivamente seremos As.
– Marc e Kyle explicarão para você tudo sobre a Zona A, desde seu funcionamento até costumes e regras. Eu irei comprar uma roupa realmente boa para você, alguns acessórios e maquiagem. – Will pegou o casaco na mesa e caminhou em direção ao alçapão. – Você irá se transformar na A mais linda que existe.
– Tirando o fato de ser heterocromática e não ter etiqueta alguma, eu parecerei uma A. –Balançou a mão no ar em descaso. — Mas se eu me sentir ameaçada, vou sair chutando todo mundo, ok?
– Você já faz isso sem ser ameaçada, gatinha. Imagine quando sentir-se, vai ser uma pancadaria maravilhosa na vizinhança. – Gritou, subindo as escadas. – Vejo vocês mais tarde! Não façam bagunça!
Charmin caminhou até os gêmeos e puxou uma cadeira ao lado de Marc. O mesmo sorriu para ela e voltou-se para os papéis. Deu alguns para a garota e puxou outros.
– Muito bem. Esses aqui são alguns exemplos de loja e mercados perto do lugar onde iremos abrigar você. O seu hospedeiro vai cuidar de tudo, você só vai chegar e botar o plano em ação.
– E quem é meu hospedeiro?
Kyle trocou um olhar com Marc que Charmin notou que só eles saberiam.
– Quando chegar lá vai descobrir.
– Que ótimo. E onde eu vou ficar na casa do misterioso?
– Um porão.
– Melhor ainda! – Exclamou, levantando as mãos. – Tá, e como eu vou passar pra A?
– Depois que nós construirmos o Chip e colocarmos em seu pulso, arrumaremos você da forma superficial que as pessoas da A ficam e guiaremos você, através de um microfone em sua orelha, como chegar aos portões e passar sem suspeitas.
– E se suspeitarem de mim, Marc?
– Não vão. Eu garanto.
– Tá bom. E como você vai fazer essa pulseira? Quer dizer, se não for parecida os caras vão suspeitar.
– Nós vamos fazer uma mesma estrutura, só que com alumínio e acrílico ao invés de cristal e aço. Então colocaremos o chip codificado e os fios. – Pegou um papel que Kyle examinava e mostrou para a garota. – Tá vendo esse lugar aqui? É onde inserimos o chip e ligamos os fios.
Agora de perto Charmin pôde ver a pulseira, era mais como um bracelete. Feita de aço nas bordas e em cima do interior de cristal, algumas curvas e traços que pareciam ser inspirados no estilo vitoriado, no centro um círculo com o símbolo da monarquia. Pelo cristal era possível ver os fios conectados ao chip e como ele era pequeno, quase invisível.
– Amanhã você irá numa feira na cidade com Nick e James para comprar os materiais necessários e também comida. Está tudo se esgotando com esses esfomeados! – Disse com a voz falsamente ofendida. – Bem, por hoje é só isso. Não há muita coisa para falar até que Will chegue.
– Eu vou dar uma volta pela floresta, pode ser?
– Vá, mas volte. Will odeia que fiquemos na floresta.
– Sim senhor! – Bateu continência ao levantar. – Eu volto antes de ele surtar.
– Vai lá.
Marc piscou para Charmin e Kyle virou-se, dando um aceno. Apesar de quase não falarem muito, quando o faziam era realmente bom para a garota. Fazia com que se sentisse confortável. Eles não eram o tipo de gente que perguntava a cada frase falada, somente assentiam e escutavam e apesar de Charmin ser o tipo de garota que mais escuta do que fala, eles a faziam gostar de falar e ser escutada.
Andou em direção ao alçapão, mas antes olhou para a cama de Nick e pôde ver o garoto de bruços lendo um livro. Ao ver o rosto de Nícolas apoiado no travesseiro e a expressão do garoto as pernas automaticamente mexeram-se, levando-a até onde ele estava.
Ao perceber a sombra, Nick olhou para cima e pôde ver o rosto de Charmin avermelhado, os olhos estavam evitando contato. Ele fechou o livro e sentou, sorrindo. Simplesmente adorava ver a vergonha expressada em todo o rosto dela.
– O que a traz aqui, magrela? – Perguntou, usando o adorável apelido. – Ouvi falar que vão te colocar na A como um experimento. Você concorda com isso?
– Concordar não seria a palavra certa, Nícolas. – Respondeu, sentando-se. – Acho que “conformar” seria mais apropriado.
– Eu posso ir com você, se quiser.
– De onde veio essa gentileza? – Perguntou fingindo espanto. – Desceu alguma bondade em você, Nícolas?
Os olhos pareceram estreitar-se e encherem de raiva, os dentes rangiam. Depois revirou os olhos e percebeu que até agora não havia demonstrado tanta gentileza a ela e deu razão ao comentário maldoso de Charmin.
– Vamos sair. Você ia fazer isso, não?
– Claro...
– Ótimo, vamos então.
Nick levantou e colocando uma jaqueta de couro preta simples, puxou a mão de Charmin em direção as escadas rapidamente, sem olhar para trás. Não que não fosse por acaso a mão ser puxada, mas o toque de Nick era firme, confortante e estranhamente... Familiar.
Fazia com que os dedos frios de Charmin ficassem quentes cercados pelo os de Nick; Fazia com que ela ficasse confortável e quente. Ao subirem as escadas Nick ainda não havia soltado a mão de Charmin e só parou de andar quando chegou à cachoeira que visitara outro dia com Josh.
Ao soltar, Charmin sentiu que violentamente os dedos tornaram a ser frios.
– Tá bom aqui?
– Aham.
Charmin sentou na grama perto do lago, tirou os sapatos e colocou os pés dentro da água. Olhou para Nick, tombou a cabeça e em seguida agarrou a mão do garoto, obrigando-o a sentar a seu lado. Nícolas também tirou os sapatos e molhou os pés.
– Esse lugar é realmente lindo, não? – Perguntou Charmin, deitando-se. – Faz com que esqueçamos tudo e apenas concentremos em ficar olhando o formato das nuvens.
– Eu sou uma pessoa que não consegue ficar parado por muito tempo. – Deitou também. – Mas em alguns casos eu posso ficar o dia inteiro.
O som da água ensurdecia os ouvidos de Charmin e deixava-a aérea como se não estivesse na situação que estava. Ouvia Nick mexer em alguns ramos perto de sua perna e aquilo ajudava mais ainda na calma dela. Inspirou até sentir o cheiro de terra, grama e água salgada e respirou, retirando o ar dos pulmões. Estava tudo tão calmo e bom que Charmin virou-se para comentar com Nícolas sobre a claustrofobia que abandonava seu psicológico e então...
Então os dois viraram o rosto ao mesmo tempo e os narizes encostaram. Os olhares pararam e fixaram-se um no outro até que a tensão aumentasse tanto que um dos dois desviasse o olhar. Charmin focou os olhos na água, sentindo a cabeça queimar pelo olhar de Nick.
– Desculp...
– Tudo bem, Charmin.
– Enfim. – Olhou para cima. – Você já percebeu que há poucas nuvens hoje? Isso realmente faz com que...
Nick pigarreou.
– Eu descobri.
– Descobriu o quê?
– Um azul mais bonito que o do céu.
Novamente os olhos se encontraram. Os dela, interrogativos e os dele, indecifráveis. Charmin sorriu em dúvida, esperando a resposta e observou enquanto Nick comprimia os lábios.
– Qual? O da água?
Após alguns segundos olhando, Nick sorriu para Charmin e fechou os olhos.
– O de seu olho.
Charmin riu, olhando para ele com divertimento e fechando somente o olho preto.
– Essa cantada convenceria mais se eu tivesse os dois olhos azuis. – Disse Charmin. – Mas mesmo assim, obrigada pelo elogio. É sempre bom saber que pelo menos uma pessoa gosta da cor de um dos seus olhos.
Ambos riram fracamente e ao abrir os olhos Nick pôde ver que Charmin novamente voltou a olhar para o céu, evitando contato com ele. Então colocou uma de suas mãos no rosto da garota.
– Charmin...
Os olhos arregalaram-se e passavam da mão em seu rosto, para o dono da mão. Ambos estavam calmos, porém era notável o nervosismo tanto na expressão de Nick, quanto no tremor de seus dedos.
– Você poderia...
Súbita e dolorosamente, Nícolas lembrou os acontecimentos da noite passada e não queria ver Charmin dormindo na floresta novamente. Não por agora, enquanto poderia impedir as coisas de seu jeito. Passou a mão pela bochecha dela e empunhou algumas folinhas, desviando o olhar e abaixando a mão para o chão.
–...Tem uma grama no seu rosto. – Disse, por fim. – Eu estava tirando, desculpe se incomodei.
– Ah, obrigada.
– Tá.
– Hm... Está na hora de levantar. – Tirou os pés da água. – Will vai me matar por ficar fora por tanto tempo.
Charmin estava prestes a levantar quando a mão de Nick – novamente –, puxou a sua e a fez deitar, em cima do ombro do garoto. Perto demais. Olhou para ele como se perguntasse o que diabos ele estava fazendo e Nick simplesmente deu de ombros, balançando os pés na água e encarando a água.
– Já se foram quatro horas fora daquele lugar. – Sussurrou. – Que mal vai fazer mais uma?
– Mas eu...
– Só mais um pouco. – Interrompeu. – Eu estou pegando cada vez mais claustrofobia de ficar lá. Você não?
Um dos braços passou pelos ombros de Charmin. Mais perto.
– Acho que... Tudo bem.
Com a proximidade, Charmin pôde sentir o cheiro de Nick e a textura na camisa. Ao contrário de James ou até mesmo Will, Nick não cheirava a colônias cítricas ou algum outro cheiro forte. Ele cheirava a sabonete caseiro, mais camomila e roupas secadas sobre o Sol.
– Já aconteceu de você ter um segredo importante, mas nunca achar que a hora pretendida para contar era a certa, Charmin?
– Por quê?
– Não é nada. Foi só uma pergunta.
– Mesmo?
– Mesmo.
Charmin suspirou enquanto pensava na questão repentina de Nícolas. Não soava como somente uma simples pergunta.
– Bem, eu acho que diria para a pessoa mesmo se fosse algo ruim. No futuro o segredo pode não sair de minha boca e será muito pior.
– Mas e se for algo muito importante? Algo que mudasse o sentido da sua vida?
– Hm... Isso torna as coisas diferentes mesmo. Mas, se a pessoa confiar em você, tudo ficará bem. Mesmo que demore.
Nícolas observou-a de soslaio e sorriu com o canto da boca. No fim, ela sempre conseguia estar certa.
– Tá... Hm... Tomara que você se saia bem na A.
– Eu espero também. Dizem que os Bs que são pegos tentando entrar são presos ou levados para o exército.
– Eu nunca te contei como fui parar no exército, contei? – Disse, a voz parecia magoada. Charmin negou e Nick suspirou. – Tinha uma garota... Sabe? Ela era bem especial. Ainda é, na verdade. Eu acabei fazendo algo por ela que, no fim, acabou parecendo muito suspeito e a única testemunha que podia contar a história verdadeira me traiu. Era um dos meus melhores amigos.
– Nossa! Você tem amigos! – Exclamou, em seguida gemeu com a dor pelo tapa. – Perdão. – riu levemente. — Mas enfim, o que aconteceu depois?
– Acabei brigando com ele no meio da rua. Chamei atenção demais dos guardas e por outros problemas do passado, acabaram me reconhecendo e eu reagi contra eles. Lembro-me de ter ferido três ou quatro guardas só por raiva. – Suspirou. – Eu sou menor de idade então me colocaram no exército para “aprender minha lição”.
– Wow... –Exclamou. — E como você fugiu?
– Eu sou um ótimo analista. Então depois de alguns meses analisando olhares, gestos e falas, consegui armar uma briga falsa espalhando rumores e como muitos de lá se juntaram pra socar uns aos outros, consegui guarda baixa e fugi.
– Devo dizer, caro Nícolas, que estou realmente impressionada.
– Eu sou impressionante.
– Narcisista.
– Você sabe que eu sou impressionante, Charmin. – Piscou. – Bem no fundo, eu sei que você tem uma queda pelos meus olhos penetrantes.
– E o seu cabelo enrolado que é mais hidratado do que uma mulher? – Debochou, mordendo os lábios. – Ou sobre como você é sensível para a cura de machucados?
– Vai se ferrar! – Sorriu. – Vamos embora antes que eu enfie grama na sua boca.
Nícolas levantou, esfregando os pés sobre a grama para tirar a água e recebeu um sermão de Charmin e jurou a ela que lavaria o chão do alojamento quando chegassem. Ela sabia que teria de limpar mesmo assim, mas não deixou de rir pelo humor desesperado dele. Novamente, o rapaz passou um dos braços por seus ombros e Charmin percebeu que, apesar de todos os aspectos irritantes de Nick, ela poderia formar um laço com ele tão forte como o que tinha com James.
***
As botas pesavam enquanto Will andava até a mesa dos computadores. Colocou a mão sobre o ombro de Kyle e esperou que o garoto encontrasse seu olhar.
– Você acha que ela consegue?
Kyle olhou para Charmin que estava sentada conversando com James e sorriu orgulhoso dela. A garota havia feito um enorme progresso desde o mês em que chegara e estava realmente surpreendido que um corpo feminino como o dela tivesse aguentado todo o treinamento rígido e cansativo de Will.
– Ela tem bom vocabulário, corpo e beleza. Isso é o necessário para fingir ser uma A.
– Mas e se ela tiver um colapso sentimental ao ver...
Kyle negou, cortando a frase de Will.
– Charmin é madura o suficiente para encarar isso, Will. Nós conseguiremos os manuais e materiais necessários. Mudaremos a forma de tratamento e romperemos as barreiras.
– Você tem razão. – Will sorriu esperançosamente e encarou Charmin. Acima de Kyle e até de James, era o que mais estava orgulhoso da determinação dela. — Afinal, o que pode dar errado?
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