Zona B
39 Capítulo 37
Notas iniciais
Calçou os mesmos chinelos de dois dias atrás, vestiu a regata azul-marinho, colocou os óculos de sol e saiu do pequeno quarto de hotel, com a mala em mãos. James fechou a porta assim que Will e Kyle saíram e agora estava indo até a sala onde tomavam o café da manhã.
Eram quase seis horas quando realmente acordou, estava na casa de Marissa e despediu-se da moça naquela manhã, pois ela teve de ir trabalhar no restaurante onde eles se conheceram. Há dois dias atrás, quando Marissa fez piada sobre Jay estar olhando para os seios dela, ele veio percebendo como nunca viu uma garota que o atraía tanto, nem Charmin chegava a esse ponto com ele. Muito pelo contrário, sentia como se ela fosse sua irmã, mas, com Marissa, sempre vinha algo a mais na troca de olhares.
Agora, enquanto fatiava o pão e passava a manteiga, lembrava-se do sotaque dela enquanto eles conversavam em sua casa, assistindo TV e comendo alguma coisa tradicionalmente mexicana que Marissa havia preparado para os dois. Depois de lembrar as horas seguintes, as bochechas ganharam um leve tom rubro.
– Vi você destrancando a porta hoje de manhã. Onde passou a noite?
A faca chacoalhou na mão de James enquanto ele olhava para o lado e via Will e Kyle o observando, obviamente notaram o rubor em seu rosto. Fitou ambos e mordeu o pão falsamente descontraído,
– Estava na casa de uma amiga que conheci aqui.
Will juntou as mãos e apoiou o rosto nelas, com os cotovelos apoiados na mesa, parecia uma garotinha de seis anos posando para uma foto.
– Aquela dos peitos grandes? – Indagou, um sorriso divertido dançava sobre o rosto e os olhos castanhos claros brilhavam. – Vocês transaram?
– Eu...
O mais velho virou-se para o ruivo, que tomava um suco vez em quando passando os olhos de um para o outro, captando toda a cena.
– O que você acha, Kyle? Ele dormiu ou não com a mexicana peituda?
– Você sabe que eu não gosto de me intrometer no assunto alheio dos outros, mas... Com certeza. Olhe a cara dele! – Apontou para James, cujo olhos estavam mirados em qualquer lugar a não ser aquela mesa, e a boca retorcia-se em nervosismo. – Parece uma criança quando pega alguma coisa escondido!
Will mordeu uma torrada com geleia e voltou ao questionário.
– Ela não é muito velha pra você? Pelo que Francisco me disse, Marissa possui vinte e dois anos e você só tem dezoito.
– Olha quem fala! – Exclamou o louro. – Acha que eu não vi você se agarrando com aquelas crianças? Você tem quase vinte e cinco e fica aí, pegando os de dezessete!
– O assunto não sou eu, é você, James.
Jay suspirou impacientemente e terminou o leite.
– Sim, eu dormi com ela.
– E você gosta dela ou só dos melões?
– Eu gosto dela. – Respondeu entre suspiros. – Acho que gosto até demais.
– Hum... – Will se levantou, pegou um pedaço de bolo de chocolate e voltou à mesa. – E o que está esperando? Vai falar com ela, garoto.
Fitou a toalha quadriculada da mesa enquanto repassava algumas coisas na mente. Se fosse realista, Marissa não aceitaria vir com ele. Afinal, ela possuía uma vida estável e, se pensasse, não iria vir com James para arriscar-se todos os dias. Mas algo em sua mente, uma voz que ele desconhecia até ontem, pedia a ele para tentar.
Ergueu o olhar para Kyle, que comia um pedaço de torta caseira.
– Acha que eu devo ir até ela?
– Claro. Quando você tem uma oportunidade de ter alguém, você tem que tentar agarrar essa chance de todas as maneiras.
James levantou.
– Me esperem na rodoviária, não demoro muito.
E assim saiu correndo do hotel. Andou algumas quadras, cruzando entre pessoas, pedindo licença, empurrando outras e ouvindo ofensas em mexicano por não olhar onde anda. A mente só focava-se em uma coisa: Marissa. Parou por um momento e lembrou-se que não sabia exatamente qual o nome do restaurante que ela trabalhava, sabia somente a rua.
Chegando lá, parou na esquina e, com alguns trocos do bolso, comprou uma rosa amarelada para ela, a flor lembrava seus olhos. Agradeceu ao homem que o desejou boa sorte com a “moça bonita que irá conquistar” e voltou a correr na calçada, procurando pelas janelas o rosto ou o cabelo ondulado de Marissa.
Já havia passado por quatro restaurantes e entrara em todos, mas em nenhum deles ela estava. Foi quando entrou em uma pequena lanchonete no fim da rua quando viu-a: os cabelos balançavam enquanto ela andava rapidamente, entregando bebidas e comidas.
Tudo parou naquele momento.
James andou vagarosamente até ela e colocou a mão em seu ombro, um toque leve. A garota se virou e esboçou surpresa ao vê-lo. Pediu à gerente alguns minutos e sentaram-se em uma mesa, a flor ainda descansava na mão de Jay.
– Achei que irias viajar. – Disse ela, o sotaque forte no “j”. – Por que está aqui?
– Porque... – Começou. Odiava aquela sensação de ter muita coisa pra dizer e nunca saber por onde começar. Resolveu, então, soltar tudo que viesse à mente. – Quando eu te conheci e, sem querer olhei pro seu decote, você não se sentiu ofendida. Ao contrário disso, riu e pediu que eu olhasse para o seu rosto, e quando eu o fiz, eu juro agora que nunca havia visto algo mais lindo na minha vida. Você é simpática, engraçada, bem humorada e, mesmo que às vezes seja séria e implicante, até nisso eu me encanto. Estou aqui porque me encorajaram a vir, se fosse por mim, eu nunca mais te veria. Mas, eu sei que não suportaria não te ver, e agora eu te respondo o porquê de estar aqui. – Entregou a flor a ela. As mãos tremiam de ansiedade enquanto ela passava os dedos pelas pétalas e, depois de alguns minutos, acenou com a cabeça, pedindo que ele continuasse. – Estou aqui, Marissa, porque estou inegavelmente apaixonado por você. Não sei como, mas em dois dias, eu fiquei e agora estou apaixonado por você. E, o outro motivo de eu estar aqui, é para pedir que venha comigo.
– O que?
James estendeu a mão e pegou a da garota, que assistia à cena em choque com tudo. Os olhos âmbar estavam grandes e a pupila que quase sempre era dilatada, agora estava tão contraída quanto nunca. O nervosismo era expresso em seus olhos e no modo como a boca formava um pequeno “o”. Apertou os dedos dela abaixo dos seus.
– Vem comigo, Mari. – Pediu ele com uma voz doce que quase nunca usava. – Nós não temos um lar fixo, mas eu aprendi que o real lar é aquele onde temos as pessoas que gostamos. E eu sei que você é sozinha aqui, sem os pais ou parentes. Então, vem comigo.
Marissa puxou sutilmente a mão debaixo do rapaz.
– James, yo no posso.
– Claro que pode! – Levantou-se rapidamente e foi até o outro lado da mesa, sentando-se ao lado dela. – Claro que pode. Nós arranjaremos roupa pra você, uma cama pra dormir — Você pode dormir na minha –, e a vida vai ser melhor pra você. Eu prometo isso. Faço isso acontecer.
A moça suspirou lentamente. Olhou novamente a rosa e pensou no que as mães, avós e as pessoas de uma cidade pequena e pobre como aquela tinham a dizer: O que você tem a perder? Aproximou a flor do nariz e inspirou o odor leve que ela emanava. Eu não tenho nada a perder, só a ganhar.
– Eu vou com usted.
Pela primeira vez em muito tempo, desde que Charmin se fora, ele sorriu. Sorriu verdadeira e puramente, um sorriso de felicidade que exprimia quando percebia algo realmente bom na vida. Puxou os ombros de Marissa e beijou-a, a flor caiu em seu colo. Ao fundo, as pessoas do restaurante batiam palmas e alguns assobiavam. Mas, para eles, tudo era silêncio.
***
Dilan colocou o quepe verde musgo, que combinava com a farda, e olhou para Jack. O rapaz usava a mesma roupa, o cabelo agora estava mais curto e mais comportado, ocultando o lado rebelde dele. O outro percebeu o olhar e o retribuiu, fazendo uma reverência.
– Tá pronto, cara?
– Não.
Jack suspirou e retirou o chapéu.
– Eu também não. Mas se não formos pra lá agora, você sabe que os sargentos e o Charlie irão matar a gente.
Olhou-se no espelho da penteadeira. Só de pensar que era o último dia ali dentro, depois de quatro anos, Dilan tremia internamente de ter de sair do exército. Havia se acostumado à rotina: Acordar às cinco horas da manhã, correr todo o local, depois fazer exercícios e almoçar uma comida péssima, mas que mesmo assim, tinha gosto de lar.
Lembrou-se, repentinamente, a maneira como foi parar ali.
Quase ninguém sabia, somente Jack e Jenni, e claro, Charlie. Ninguém sabia, também, que na verdade, Dilan era um B, foi um dos mais pobres de todos. Havia entrado no exército para, além de ter feito o que fez, poder melhorar a vida de sua avó, a única parente viva. Os pais, infelizmente, haviam morrido por conta de uma epidemia muito antiga, mas letal, que atingiu quase toda a população da parte Norte da B, que era onde morava. Estava agora com vinte anos totais, e há quatro anos, poderia considerar-se uma das piores pessoas que havia conhecido e sido. Não gostava de lembrar, mas, nesse dia em especial, era preciso. Drogas, bebidas, brigas, traições, coisas tradicionais de um B qualquer, mas ele sempre quis ser melhor e nunca conseguiu. Então, quando atingiu a idade apropriada, entregou-se na fronteira e foi para o exército, possibilitando uma nova chance para Nancy e para ele. Mudou a maneira de agir, de pensar e de tratar os outros; Aprendeu a amar corretamente e ser amado; Entendeu como é ter pessoas a quem pode-se confiar e a segurança de confiar nos outros.
– Dilan?
Percebeu então que estava olhando fixamente para o espelho e que Jack o chamava.
– Desculpa. – Disse, colocando o quepe novamente e ajeitando as mangas da farda. – Estou pronto.
Saíram do quarto e caminharam pelo corredor em silêncio. Vários jovens, com as mesmas vestes, caminhavam e riam para a mesma direção. Encontrou Jenni, Rose e Sam no caminho e ambos juntaram-se a elas. Nunca vira Jenni com o cabelo preso como estava, e impressionou-se ao notar que ela ficava bonita até mesmo daquele jeito. Talvez fosse o jeito que ela o olhava que o fazia pensar assim. Talvez fosse só a paixão influenciando tudo, não interessava.
Segurou a mão dela no meio de todos.
– Então, você mora no outro lado da A. Como vai fazer para me ver, Jennifer? – Perguntou divertidamente, mesmo que soubesse que ela não poderia vê-lo todos os dias, como ele queria. – Ou está pensando em me abandonar depois que nos formarmos?
Ela mordeu os lábios, escondendo um sorriso.
– Bom, eu sou maior de idade e meus pais estavam vendo um apartamento pra mim, para poder fazer faculdade. – Começou; as bochechas avermelhavam-se à medida que ela continuava. – E... Coincidentemente, meu apartamento fica na mesma rua que sua casa.
Dilan parou de caminhar e virou-se para ela, o rosto expressando espanto, surpresa e um pouco de incredulidade.
– O QUE?
Não percebeu, mas havia gritado, pois Jenni pedia silêncio com o indicador pousando nos lábios. Ela deu de ombros e sorriu abertamente, e Dilan enxergou tudo iluminado ao redor dela, o sorriso parecia irradiar luz. Sem pensar duas vezes, puxou a cintura da garota e segurou-a no ar, rodopiando-a.
– Dilan! – Pediu ela, enquanto estava no ar. – Me põe no chão! Dilan!
Pessoas ao redor que passavam por eles, olhavam-nos como se fossem dois malucos brincando de princesa no castelo, pois o jeito como Dilan a olhava e ria para o nada era como se fazia nos contos de fadas. Enfim, colocou-a no chão e abraçou-a.
– Não acredito! Minha avó vai te mimar tanto! Eu vou te visitar todo dia! – Exclamou várias frases ao mesmo tempo enquanto ouvia as pessoas murmurando o quanto eles eram estranhos. Jenni ria nos braços dele alegremente e sem motivo. – Céus, Jenni. Como eu te amo!
A risada cessou. Jenni afastou os braços do rapaz de si e olhou-o.
– Você o que? – Indagou enquanto ele abaixava os braços e ela afastava-se. Dilan abriu a boca, mas nada saía. – Dilan.
Crispou os lábios e sorriu minimamente, mas, ainda assim, era um sorriso.
– Você ouviu. Não vou repetir. – Respondeu, enquanto pegava a mão dela novamente e prosseguia o caminho. Jenni não conseguia parar de encará-lo, a frase ia e voltava a sua mente. – E eu sei que você sente o mesmo.
***
Charmin olhou-se no espelho. Mais um vestido... Disse a si mesma que mandaria Collin levá-la a uma loja de roupas onde pudesse comprar calça jeans e moletons, pois só tinha saias, vestidos e suéteres. Fazia quase uma semana que estava na A e em todos os dias, exceto a manhã de sua chegada, usara roupas femininas demais para ela.
Quando criança, depois que a mãe foi embora e Collin arranjou um emprego por obrigação e necessidade, o irmão sempre comprara a ela vestidos e saias floridas ou com estampas de bolinhas, adorava ver a irmã enfeitada e parecendo uma menininha da qual somente ele pudesse cuidar e tocar.
Agora, quando teve chance de cuidar de Charmin novamente, a mesma coisa estava acontecendo, percebeu. E, mesmo que não gostasse das roupas, gostava da sensação de estar protegida pelo mais velho.
Dessa vez, usava uma saia estilo anos 50 (pelo que Isabel dissera a ela, o estilo antigo estava na moda na época do inverno), com pragas e se rodasse, a saia levantaria junto. Um tom amarelo ouro contrastava com o escuro preto da saia e um casaco grosso de lã branca por cima de tudo deixava Charmin mais madura e mais velha. Prendeu o cabelo e colocou a peruca, tocando então uma campainha que ficava em cima da escrivaninha ao lado da cama.
Minutos depois, Agatha apareceu à porta, usando o tradicional uniforme.
– Pois não, senhorita?
– Oi, Agatha! – Disse. – Preciso que você me ajude com a maquiagem...
Um sorriso brotou nos lábios da empregada.
– Vai se encontrar com o senhor Nícolas?
Charmin repentinamente constrangeu-se. Era tão óbvio assim? Concordou que sim, se até mesmo a mulher a sua frente reparou.
– Vou sim... Mas eu só usei maquiagem duas ou três vezes, e não fui eu quem passou. Poderia me ajudar?
– Claro, senhorita!
A mulher aproximou-se, abrindo o closet de Charmin e, em seguida, puxando uma gaveta, onde pegou uma maleta prateada. Pousou-a na penteadeira do banheiro e abriu-a, revelando uma enorme caixa de maquiagem, com vários tons de sombra, pó, batons e delineadores.
– Mas que merda...
– O palavreado, se me permite, senhorita, aqui na A, deve ser muito polido. Por isso, evite palavras de baixo calão.
– Perdão, Agatha. Irei corrigir meu palavreado. – Andou até a moça. – Então, o que acha que podemos fazer?
Agatha pegou um pincel, retirou um lápis preto, um delineador e um batom em tom coral.
– No inverno, costumamos usar tons escuros. – Disse, passando o pincel em uma sombra grafite. – Pensei em passar pouca maquiagem, mas o suficiente para exaltar sua beleza. Podemos começar?
Charmin consentiu. Fechou os olhos e sentiu o pincel deslizar sobre as pálpebras. Um algodão molhado passou pelos cantos e parte de cima e, então, um lápis desenhou uma linha fina acima dos cílios e curvou-se para cima.
– Abra os olhos, senhorita. Mas não olhe no espelho!
Abriu-os, e forçou-se a não olhar como estava. Agatha então passou uma máscara nos cílios, deixando-os mais compridos e grossos, e por fim passou o batom em tom claro.
– Pronto, senhorita. – Disse, colocando tudo novamente na maleta de maquiagem e fechando-a. – Devo dizer que está linda.
Voltou os olhos para o espelho e impressionou-se. Os olhos, geralmente puros, estavam coloridos com um tom cinza escuro, assemelhado seu olho ao de um gato. A boca estava em um tom rosa alaranjado um tanto escuro, combinando com todo o resto do rosto. Os cílios estavam grossos e mais destacados, ela nunca percebeu o quanto eram compridos.
– O que achou? – Perguntou a jovem, com um tom de esperança por aprovação.
Charmin sorriu.
– Nunca pensei que poderia ficar tão bonita assim. Você é incrível, Agatha.
Agatha sorriu tão aberta e luminosamente que Charmin conseguiu enxergar o quão nova a mulher era.
– Obrigada, senhorita! – Pousou as mãos em ambos os ombros de Charmin. – Agora, que tal chamar o senhor Nícolas?
A garota assentiu.
– Tudo bem, pedirei que venha até seu quarto.
– Não! Peça que me encontre na porta da casa. Diga que estarei o esperando.
Agatha acenou, logo depois se retirando. Charmin ajeitou o casaco de lã nos ombros e, olhando para os lados, rodopiou para ver a saia subindo e formando um círculo ao seu redor. Sorriu, a parte mais divertida era aquela.
Apagou as luzes e fechou a porta do quarto, começando a descer a escada. O salto fino da bota produzia um som oco, mas novo para ela, que estava acostumada com um silêncio extremo. Percebeu finalmente que não tinha mais catorze anos, que possuía quatro anos a mais. Era um adulto, de certo modo.
– Está muito bonita, senhorita Charmin.
Olhou para o lado e viu Jim parado ao lado da porta de entrada.
– Olá, Jim! – Acenou, depois pousando a mão sobre o topo metálico da cabeça do robô. – Em qual porcentagem está seu nível de sinceridade?
– Oitenta por cento, senhorita. Mas o elogio à senhorita é cem por cento verdadeiro.
– Muito obrigada, então! Sua lataria também está muito polida!
Como que automaticamente, uma pequena luzinha acendeu no topo de Jim.
– Obrigada, senhorita. – Abriu a porta para ela. – Tenha um bom passeio.
Charmin saiu e encostou na árvore ao lado da casa. Era a segunda vez que via como a casa era por fora, pois quase sempre entrava pelo estacionamento subterrâneo. Era um tom branco tão claro que, quando a luz batia, uma cor violeta reluzia no piso da frente. Havia um jardim antes da calçada, com uma grande árvore ao lado, onde a família tomava o café da manhã nos domingos. Arbustos de rosas brancas e vermelhas estavam espalhados pelos dois lados, deixando um aroma suave no ambiente externo. O tom branco da neve deixava tudo mais bonito.
– Charmin!
Virou-se e fitou Nick saindo pela porta. A peruca ruiva, como sempre, na cabeça, e usava um sobretudo azul marinho por baixo de uma calça caqui, com botas pretas que vinham até metade da panturrilha. Sorriu, ele parecia diferente com esse tipo de roupa, mas aquilo não era ruim.
Nick abraçou-a calorosamente, aquecendo-a do frio intenso do inverno. Ele cheirava a loção para barba e um perfume forte, o mesmo da noite do baile, tão bom que Charmin inspirou o ar gelado para sentir o cheiro mais profundamente. Beijou-a lentamente, deixando depois uma marca de batom nos lábios dele.
– Ver você de saia é um pouco impressionante. – Comentou ele, colocando as mãos no bolso do sobretudo, mas antes pegando as mãos da garota e as colocando juntos, deixando-os próximos.
– É... Tenho que pedir para Collin comprar calças para mim.
– Não, não! – Exclamou Nick. – Você fica linda assim. Que-quer dizer, fica linda de todo jeito! Mas em especial, assim.
Charmin enrubesceu com o comentário. Era algo difícil ser elogiada por Nick de forma tão direta como ele disse agora, consequentemente, tais palavras causavam certo efeito nela.
– Então... Acho que não preciso de calças.
O rapaz assentiu, encostando o nariz ao dela. Os olhos cinza azulados dele brilhavam, parecia sorrir com os olhos totalmente concentrados nos dela.
– Pra onde nós vamos, Charmin?
– Que tal almoçar? Eu não almocei, porque fiquei escolhendo uma roupa que me aquecesse.
– Vamos almoçar, então.
Afastou-se dela, tirou as mãos do bolso, segurando uma da garota e entrelaçando os dedos. Puxou-a para fora de casa e começaram a andar pela rua. Eram quase duas horas da tarde, e a maioria das lojas estava com as portas fechadas por conta do frio e da neve.
– Seu irmão veio me visitar hoje.
Charmin olhou-o de relance. Aquele comentário vindo de Nick não significava coisa boa.
– Veio, é? E o que ele falou?
– Falou pra eu cuidar de você. Que se eu não fizesse isso, ele me expulsaria da casa e não me deixaria te ver nunca mais.
A garota riu suavemente, lufadas de ar saíram de sua boca.
– Meu irmão puxou o lado dramático da família.
– O assustador também. Aqueles olhinhos azuis meigos são só fachada!
– Todos nós somos muito protetores, é coisa de família. – Comentou enquanto atravessavam uma rua deserta. – Quando minha mãe foi embora e como nós nunca vimos nosso pai, nós éramos a família um do outro. Então, eu posso dizer que há sim uma razão para ele ser assim. Só não quer que eu seja mais machucada do que já fui.
Nick mordeu a bochecha e passou o braço ao redor dos ombros de Charmin.
– Não é como se eu fosse te machucar...
– Mesmo se fizer, ele sabe que eu vou te machucar de volta. E eu digo fisicamente.
Arregalando os olhos, o garoto olhou para a namorada. Charmin piscou para ele e olhou para frente, deparando-se com um restaurante com ar familiar, pouco lotado e enfeitado com itens natalinos.
– Vamos nesse. – Puxou a mão de Nick.
Um garçom prontamente atendeu-os e direcionou-os a uma mesa. Charmin estava prestes a pedir quando ouviu uma risada estranhamente familiar. Passou os olhos por todos os cantos do restaurante e pousou-os numa mesa com mais ou menos vinte pessoas, todas rindo alegremente e tomando cerveja. A risada veio do jovem de cabelos castanhos, alto e com o sorriso tão confortável que se acostumou durante três meses. Ao seu lado, as meninas com quem partilhou o quarto e o garoto de cabelos compridos com quem criou uma amizade serena. Lembranças invadiram sua cabeça ao olhar para todos aqueles antigos amigos do exército.
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