Zona B
21 Capítulo 19
Notas iniciais
Dentro do exército, Charmin perdeu completamente a noção dos dias, mas ao menos sabiam que estava em meados de outubro. Fazia cerca de um mês e meio que estava presa dentro da fortaleza e, após a visita de Collin, não teve mais contato com ninguém do exterior.
Eram tempos chuvosos, felizmente. Com os dias nublados e quase escuros, a terra molhada e mole, os treinamentos foram diminuídos e eram quase sempre dentro do local, fazendo com que uma grande massa de alunos se concentrasse no refeitório quase todos os dias.
A garota havia evoluído, percebeu ao olhar-se no espelho do dormitório. Os braços, apesar de finos, estavam com alguns músculos definidos e ela perdera mais peso do que o pouco que possuía. Estava bem mais esguia e as pernas mais finas, não por falta de fome e sim por treino. As roupas que Charlie deu a ela estavam agora com maior cabimento e ela mudou para os sutiãs de Rose ao invés dos de Jenny. Isso a impressionava mais que tudo.
Talvez ela estivesse finalmente passando pela puberdade. Ou talvez fosse algo na comida.
Conseguira desenvolver uma amizade fraterna com Dilan, mesmo perguntando a ele há tempo atrás se o garoto era gay. Melhorou sua relação com Sam e, assim como Jenny, acostumou-se com a ideia de a loura e Rose serem um casal. Quanto a Jack... Ainda estavam frios. Sempre que Charmin pensava estar perto de uma amizade com o garoto, ele falava a ela algo grosseiro, ela ficava brava e ambos se afastavam. Mas ele funcionava assim e ela já estava o entendendo. Acabou descobrindo que Jenny possuía uma paixão platônica por Dilan e estava tentando fazer com que fosse mútuo. Mas o tradicionalismo do rapaz não ajudava.
Também enfeitara seu canto, pedindo algumas fotos a Charlie que, secretamente, xerocou-as para a garota e deixou que pendurasse em seu quarto. Com cartas velhas de Rose, fez colagens em forma de flores e pendurou-as na parede, dando um ar mais feminino ao local. Na cabeceira de sua cama, envolta por um molde de discos de vinil velhos de Sam, estava uma foto de Charmin e Nick, abraçados na grama com sorrisos felizes. Sempre que dormia, Charmin perguntava a si mesma se um dia poderia sorrir com ele assim novamente.
Após mais e mais sessões de “interrogatório”, os soldados descobriram o motivo de Charmin estar dentro do exército e ela virou uma espécie de celebridade com crédito negativo. Descobriram, também, que foi ela a garota que fez com que Nick mudasse e arranjasse um jeito de escapar para vê-la outra vez. Algumas garotas – fãs de Nick – a olhavam mal e diziam que, por culpa dela, ele havia abandonado um grande destino como lutador pelos os Novos Estados Unidos. Alguns rapazes perguntaram a Charmin o que ela deu a ele para que se tornasse tão comportado. Literalmente.
Em resumo: se não fosse por meia dúzia de pessoas, Charmin já havia dado um jeito de ter feito Nick resgatá-la.
Vinha sonhando com memórias fragmentadas dos dois, muitas vezes não sabendo se eram reais ou não. Incrivelmente, a dor em seu peito era enorme e a bomba em seu coração estava prestes a explodir. Não sabia se pedia por Nícolas ou se simplesmente o descartava, furiosamente magoada por ter escondido um passado tão grande e sentimental dela.
E, por mais louco que estivesse parecendo, as torturas estavam a deixando mais resistente a reações e impermeável ao estresse. No final das contas, ser detida não foi algo tão ruim assim. Havia aprendido a lutar melhor e agora sabia utilizar força a curta e longa distância. A mira estava melhorada e ela até venceu uma aposta com Dilan, fazendo com que ele trouxesse a ela outro bolinho.
Os treinos com Jack estavam auxiliando-a a não apanhar de veteranas impiedosas. Por mais que tenha sido treinada por Will, estava muito mais ágil agora do que jamais fora. Bateu em alguns garotos que a insultaram por ser namorada – Ou supostamente era – de Nick. Encrencou-se com algumas meninas que falaram a respeito dela e de como Nícolas havia se apaixonado por uma garota com olhos que pareciam de animais.
E, além de tudo isso, seu aniversário estava realmente próximo. Se estivesse certa sobre os dias que passou dentro do exército, faltavam cerca de duas semanas para comemorar o décimo oitavo ano, tornando-se legalmente maior de idade. Leu escondido em uma ficha que o aniversário de Nick era depois do seu e gabou-se por ser algumas semanas mais velha que ele.
Mas, nesse momento, enquanto tudo isso vinha acontecendo, ela se deixava ocupar em fazer um gigante castelo de cartas com as garotas.
– Charmin, me dê outro baralho. – Pediu Rose enquanto concentrava-se em colocar duas cartas juntas. – Rápido, antes que isso caia.
Charmin levantou-se e cuidadosamente foi até a cama de Rose, pedindo licença a Sam que lia um livro e pegando o maço velho de cartas. Já havia perdido a conta, mas aquele seria talvez o quarto ou quinto baralho. Rose realmente gostava de cartas, percebeu.
Engatinhou até a ruiva e deu a ela o objeto, tendo o máximo de cautela ao arrastar-se para o outro lado, empunhando o sétimo andar. Estavam ali há quase quatro horas, colocando cartas sobre as outras e bufando ao vê-las caindo. Não havia treino, pois estavam sem energia e, além disso, era domingo.
Velas aromáticas pertencentes a Sam se espalhavam pelo dormitório e davam um ar feminino e ao mesmo tempo assustador ao local, fazendo com que parecesse um lugar assombrado. Quem entrasse ali se depararia primeiro com a bagunça e as velas, depois com elas.
– ACABAMOS! – Rose gritou e levantou os braços, em uma espécie de alegria infantil. Parecia extremamente uma criança que ganhara o doce favorito em montes. – Sammy, venha aqui observar nosso castelo!
Sam riu e fechou o livro, sentando-se e fitando o feito. Estava realmente grande; Dez andares de cartas azuis, pretas e vermelhas, todas misturadas de uma forma aleatória e ao mesmo tempo linda. Fez um sinal positivo para Rose e Charmin, voltando a abrir o livro e entrar em seu pequeno universo.
Jenny, que até então estava dormindo no chão, esparramada no meio de várias caixinhas, acordou e assustou-se ao ver que, em algumas horas, algo com menos de trinta centímetros havia se transformado em quase um metro de papel alinhado. Balançou a cabeça em aprovação para as duas e levantou-se, pegando um casaco e abrindo a porta.
– Onde pensa que vai, nessa completa escuridão? – Perguntou Charmin com um tom protetor que desenvolvera entre as duas durante o tempo. – Vai ver Dilly?
Jenny enrubesceu e assentiu.
– Volto em menos de uma hora.
Em seguida atravessou a porta e Charmin caiu em risos, pensando na careta de vergonha da amiga e, depois de algum tempo, na do rapaz ao receber a visita surpresa no breu. Após descobrir sobre a paixão de Jenny, havia a elogiado para Dilan e feito o máximo para que ficassem sozinhos. O garoto parecia negar qualquer contato íntimo com a morena, mas, uma vez, quando a mesma tropeçou e caiu sobre ele e o tom vermelho dominou seu rosto, Charmin soube que já havia feito tudo que podia. Só faltava um pouco de ousadia e os dois estavam bem.
– Aposto meu sutiã de renda azul marinha que, em uma semana, eles estão se pegando em algum lugar. – Rose provocou enquanto circulava o castelinho e sentava ao lado de Charmin, cutucando-a. – E você?
– Aposto meu taco de quarta-feira que demora duas semanas.
Rose arregalou os olhos como se Charmin estivesse apostando milhões em algo arriscado.
– Mesmo?
– Mesmo.
– Sammy, o que você aposta contra? – Rose virou-se para a loura que já havia fechado o livro e guardava as roupas de Rose na gaveta. Odiava bagunça. – Você não crê neles mesmo.
– Aposto nada. Não vou jogar os dados no inevitável. – Piscou enquanto enrolava meias rosa claro. – Rosy, tem que aprender a ser mais organizada.
Rose fez uma careta.
– Não! Arrume aí pra mim.
– Não vou arrumar!
– Por quê? – Perguntou num tom muxoxo. – Não gosta de organização?
– Porque eu não sou sua vadia, Rose. – Respondeu num tom irônico. — Eu vou parar de arrumar suas coisas e deixar que sua cama vire um entulho. – Alertou à outra com um tom sério e, ao ver a expressão arrependida da namorada, sorriu em vitória. – Agora venha dobrar suas blusas.
Relutante, Rose levantou-se e foi até Sam, pegando roupas caídas no chão e colocando todas dentro de uma gaveta, reclamando que não merecia ser empregada e que era domingo, portanto tudo precisava ser uma bagunça.
– Ainda é dia? – Interrogou Charmin enquanto levantava-se e dobrava as barras da calça. – Acho que vou tomar um ar.
– São quatro horas. – Sam consultou um relógio velho no pulso. – Volte antes de ficar escuro.
Repentinamente, Charmin lembrou-se de Will e o jeito protetor dele, censurando-a e pedindo a ela que não ficasse até tarde no lago. Sam era do mesmo jeito que o mais velho, só possuía um pouco de aspereza nos gestos. Mas, mesmo assim, era tão protetora quanto. Sorriu calorosamente para a loura e calçou os coturnos, indo até a porta e atravessando-a.
***
Andou até o jardim e passou a mão pela grama, sentindo a água da chuva grudar na pele. O cheiro de chuva misturado às folhas estava agradável e Charmin encostou-se ao tronco da árvore, inclinando a cabeça para observar as nuvens nubladas e cinzas no céu. Ventava um pouco e isso a deixava com frio nos braços, mas as queimaduras que ainda se curavam a faziam deixá-los estendidos.
– Parece que, toda vez que venho aqui, você já está no lugar para me importunar. – Uma voz indiferente e levemente insensível foi ouvida. Charmin abriu os olhos e encontrou as íris escuras de Jack. – Então, como anda sua vida de famosa?
– Um pé na bunda. – Respondeu, dando lugar ao garoto e movendo-se para o lado. Ele aceitou o local e encostou seu ombro ao dela. – Enquanto tenho que ouvir opiniões sórdidas de homens; recebo insultos toscos de mulheres. Nunca quis um lança-chamas como quero agora.
Jack riu. Divertia-se com o estresse da garota.
– Graças a mim, você pode surrá-los. Diga que sou maravilhoso. – Cortou-a de uma possível frase, estendendo a palma da mão para ela. – Não, não diga. Eu já sei.
– Oh, Jack, soberano Jack. Como és incrível! – Exclamou num tom falso de admiração e em seguida riu. – Vá se foder.
Jack arqueou as sobrancelhas e virou-se para ela, encarando os olhos heterocromáticos de Charmin.
– Não acha que fala muito palavrão para uma menina de dezessete anos?
– Não acha que é muito chato para um garoto de dezoito anos?
– Dezenove. – Corrigiu. – Fiz aniversário na semana passada.
– Mesmo?
– Mesmo. Não achei que fosse tão importante assim. – Deu de ombros, desinteressado. – Afinal de contas, é só uma data que ressalta em observar que eu nasci.
– Exatamente!
Charmin levantou-se e ajeitou a blusa, tirando gramas da calça e limpando a terra dos coturnos. Ofereceu uma mão a Jack e ao ter sido recusada, puxou-o pelos ombros e o fez forçadamente levantar. Antes que o rapaz pudesse protestar, puxou-o pelo pulso até o refeitório e o empurrou num banco para que sentasse.
– Você é louca, não é? – Perguntou meio bravo e meio entretido. Mesmo que não falasse, adorava ver as coisas que Charmin aprontava. – Finja ser normal e volte aqui!
Correndo, Charmin alcançou uma máquina de doces e, com uma nota amassada do bolso, pegou um bolinho colorido com azul e vermelho e tirou a embalagem, dirigindo-se a Jack e colocando a comida na mesa. Em seguida, andou o mais rápido que pôde até as cubas de comida e, pulando uma mureta que separava a cozinha do refeitório, pegou uma caixa de fósforos e enrolou um guardanapo num palito quebrado.
Voltou até Jack e, sentando-se de frente a ele, cravou a vela improvisada no bolinho e, com outro palito de fósforo, acendeu e tocou a chama no papel. Repentinamente, começou a bater palmas e cantar a tradicional música “Parabéns pra você”.
Jack começou a rir e, embalado pelo humor da garota, bateu palmas fracas junto dela até a vela apagar e o papel deixar um cheiro de queimado pelo local. Charmin tirou a vela queimada da comida e empurrou o bolo para Jack, indicando para ele comer.
– Meu presente de aniversário. – Explicou enquanto ele a olhava de modo estranho. – Sei que é uma merda e que há coisas muito melhores, mas eu ainda acredito no “o que vale é a intenção”.
Jack negou com um sorriso pequeno e imperceptível em seu rosto.
– Nunca recebi um presente de aniversário. – Falou e Charmin assustou-se com a resposta. Até mesmo ela recebera presentes de Collin e da mãe. O colar velho que recebera dela antes de partir era um exemplo. – Então... Obrigado. Estou me sentindo péssimo em dizer isso, mas obrigado.
– Ouvir isso de você realmente me impressionou.
– Eu causo isso nas pessoas às vezes.
A mão de Jack estava estendida sobre a mesa e o anel reluzia à luz fraca que vinha das janelas. Estranhamente, Charmin pensou já ter visto aquele anel em algum lugar. Na mão de Jack, claro, mas em outro cenário. Estreitou os olhos e rapidamente tocou o anel do rapaz, sentindo um choque na mente.
Charmin distanciou-se dali e perdeu-se em devaneios, procurando na mente o que a fazia lembrar Jack. Então viu. Enquanto Nick estava em pé, esperando James ensanguentado levantar, dois garotos a tiraram do círculo de briga. Um deles, o mais forte, usava um anel no indicador que deixou uma marca no braço de Charmin. Viu a si mesma olhando furiosamente para o rapaz e os cabelos compridos dele balançaram-se, em reprovação.
– Eu te conheço. – Sibilou para o rapaz que, impressionantemente, não se assustou com a acusação. – Quando pretendia me contar?
– Não pretendia. Queria que você não me reconhecesse. Não foi bom ter te conhecido. – Soltou todas as frases de uma vez só e Charmin sentiu uma pontada no coração. Não foi bom ter te conhecido. – Você pertencia a Nícolas e eu era o amigo bobo que o ajudava no romantismo. Foi horrível ter gostado de você.
– Você... – Não conseguiu completar a frase. Estava chocada demais. – Quando?
– No momento em que olhou feio para mim. Eu sempre gostei de garotas com atitude. E atitude é algo em falta na B. – Explicou e comeu o bolinho, como se a conversa não fosse séria ou reveladora. – Não se preocupe. Não gosto mais de você. Faz três anos, afinal. Só Nícolas para entregar o coração na bandeja como fez para você.
Charmin assentiu. Não conseguia expelir nenhuma palavra para Jack, estava chocada demais para falar. Deixou que ele acabasse a sobremesa e ao fazê-lo, despediu-se dele com um sorriso vazio e caminhou até o dormitório, entrando silenciosamente e sentando-se na cama, não respondendo a nenhuma pergunta das garotas.
***
Nick abriu o alçapão do alojamento e rapidamente dirigiu-se ao armário improvisado que usavam para pegar roupas e tomar banho. Passou o dia inteiro correndo pela floresta, exercitando o corpo e alongando as pernas. Estava mais magro por conta de Charmin e não se alimentava direito há dias. Resolveu que, pela namorada, deveria estar forte e saudável para conseguir resgatá-la daqui algumas semanas.
Ligou o chuveiro e despiu-se, afundando a cabeça na água e molhando os cabelos enrolados. Fazia cerca de um mês e meio que Charmin estava no exército e o alojamento nunca pareceu tão vazio. O silêncio reinava e, quando Will estava animado para falar, algum som era feito no local.
A pervinca que dera a Charmin e a pegara na grama, toda ensanguentada, havia secado e as pétalas caíram, fazendo com que restasse somente um graveto de madeira mole. No fim, jogou os restos no lago e voltou mais determinado para dentro do local.
Nick se perguntava como ela estava agora. Perguntava a si mesmo se ela estava mais magra ou mais forte; Os cabelos ainda estavam brilhantes e intactos; O físico melhorado ou o psicológico mudado. Estava ciente da probabilidade de Charmin descobrir o que fez a ele durante todos os anos e, é claro, estava ciente d’ela descobrir como perdeu a memória. Tudo aquilo o assustava e uma onda de negativismo e depressão o derrubava, mas, mesmo assim, Nícolas tentava pensar que, ao descobrir a verdade sobre tudo, Charmin não desistiria dele.
Tentava imaginar a garota fazendo amizades e se a pessoa com quem Nick mais se aproximou lá dentro talvez soubesse quem era Charmin, confiaria ao amigo à proteção dela. Tudo bem, Jack fora uma vez apaixonado pela menina, mas Nick muito bem sabia o quanto o garoto se remoeu por isso e extraiu qualquer resquício de sentimento por Charmin de seu coração. Por isso, mas só por isso, confiava em Jack. Pois, assim como ele, Jack era mau quanto bom. E só por causa de Charmin ambos melhoraram.
Era impressionante que Charmin tinha a capacidade de mudar todas as pessoas ao seu redor, Nick percebeu. Primeiro com James, que era um garoto teimoso e metido demais para o pouco que era. Então ele, que era um dos piores criminosos e vândalos de toda a região sul, tornou-se um garoto mais calmo e carismático. Jack, frio e calculista que soube usar a ironia para fazer os outros rirem. Josh, que só pensava em si mesmo enxergou outras pessoas no mundo. Will, que pensava estar acabado depois da colocação da prótese. Marc e Kyle, que aprenderam a falar e expressar opiniões, saindo da jaula psicológica criada por eles. Até mesmo Collin, que soube que nem sempre as decisões mais fáceis eram as melhores.
E, de tanto pensar em Charmin, Nick sentiu falta dela. Como se um braço ou uma perna fossem arrancados e você só tivesse ficado ciente disso após uma longa e cansativa cirurgia surpresa. Sentia saudades dos sorrisos dela, do toque frio e ao mesmo tempo confortável de seus dedos, das mãos dela em seu cabelo e até mesmo da ironia e braveza doce da garota. Sentia falta de olhar para aquelas íris diferentes tão lindas. Se pensasse bem, Nícolas sentia falta até mesmo dos fios do cabelo negro dela.
Ao ouvir Josh gritando seu nome e explicando que o tempo esgotara, saiu do banho e colocou o moletom, passando a toalha pelos cabelos molhados e bagunçando-os. Foi até sua cama e pendurou a toalha na cômoda improvisada. Tocou então o colar do exército e virou-o para ver o pingente que, há muito tempo atrás, Charmin dera a ele.
Lembrava-se perfeitamente do momento. Com a ajuda de Jack, havia preparado uma espécie de piquenique para Charmin e levou-a de olhos vendados até o local. Sua opinião sobre garotas sempre foi muito restrita, mas, ao conhecê-la, pareceu interessar-se tanto em agradá-la que uma vez, Charmin mandou-o parar com os presentes. Então pediu que ela sentasse numa toalha rasgada nos cantos que estava estendida pela grama e ambos comeram frutas, passando a tarde conversando e tomando suco. Nick deitou sobre a grama para observar o céu e acabou por dormir, acordando de manhã com Charmin envolta em seus braços, num sono profundo.
Ao acordar, a garota sorriu para ele como a donzela em perigo sorri para o herói e deu a ele o pingente de coração, explicando que pertencia a mãe e que, por isso, deveria ter muito cuidado ao guardá-lo. Mais tarde, quando ela se acidentou e Nick foi parar no exército, levou o pingente para o local e o guardava no fundo de sua gaveta, depois colocando no colar recebido no local por um amigo.
Desde aquele dia, sempre teve o máximo de sigilo para manter o objeto de alumínio por perto e nunca perdê-lo. Sempre esperou que Charmin desistisse do gênio difícil dele e mandasse dar o pingente de volta, terminando com ele e rompendo os laços. Mas isso, felizmente, nunca aconteceu.
E, com esse gesto, Nick concluiu que, se Deus existia, a certeza disso era a fé e o amor de Charmin pelo garoto.
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