Zona B
41 Capítulo 39
Notas iniciais
O sol estapeou Nick, forçando-o a abrir os olhos. Esticou o corpo por baixo dos lençóis e sentou-se na cama. Foi quando percebeu que estava sem roupas.
Tampou a boca para evitar uma crise de risos e olhou para o lado, onde Charmin dormia serenamente com uma coberta por cima, cobrindo o corpo que, assim como o dele, estava nu. Voltou os olhos à janela, era ainda madrugada e provavelmente todos estavam dormindo. Pegou uma samba canção que estava jogada ao lado do pé da cama e vestiu-a, levantando-se para fechar a janela. Os passos estavam calmos e silenciosos, com medo de que acordasse a namorada.
Os pingentes no pescoço balançavam e tilintavam um som metálico. Pegou o pingente que Charmin dera a ele há alguns anos e observou-o. No começo, quando ainda não se acostumara a ele, sempre achava estranho deparar-se com a caveira. Era um tanto assustador, confessava a si mesmo, uma garota de catorze anos lhe dar uma caveira como sinal de compromisso. Porém, com os anos, o crânio passou a ser parte de si. Não tirava para tomar banho, trocar de roupa ou dormir, era como uma tatuagem que permanecia com ele.
Levou o pingente aos lábios e beijou-o.
Virou-se, então, e recolheu todas as peças pelo chão: sua calça, camisa, o vestido de Charmin e as peças íntimas da garota. Colocou-os sobre a escrivaninha, jogou a pequena embalagem plástica no lixo do banheiro e lavou o rosto. Olhou-se no espelho, havia dois pequenos hematomas em cada lado do pescoço e, como se não bastasse, um arranhão que ia do ombro esquerdo até a parte de baixo direita das costas. Charmin era realmente inusitada, pensou ele enquanto esboçava um sorriso.
Fechou a porta do banheiro. Sentou-se na cama, ao lado de Charmin, e alisou os cabeços dela com o máximo de cuidado para que não acordasse. Arrumou-lhe o cabelo, tirando parte do rosto, e notou os mesmos hematomas nela, mas maiores e mais escuros, bem mais. Tentou ser positivo e pensar no quão sensacional havia sido a noite anterior, mas tudo que lhe passava pela cabeça eram as mãos de Colin em seu pescoço quando descobrisse que Nick havia dormido com a irmãzinha dele.
Olhou para o pé da cama e viu quase toda a parte de baixo do corpo de Charmin descobertos. Saiu da cama e foi até o outro lado, mas quando estava prestes a cobrir a garota, percebe uma mancha vermelha no lençol, onde estava a cintura dela. Nick suspirou pesadamente, torcendo para não haver nada de errado quando ela acordasse. Cobriu-a e tocou a campainha. Poucos minutos depois, um toque na porta é ouvido.
Nick a abre e encontra Agatha.
– Pois não senhor? Precisa de... – Os olhos deslizam para trás, onde Charmin está dormindo, pelada. – Oh...
– Pois é. – Diz ele, coçando a nuca. – Aconteceram algumas coisas ontem à noite e eu fiquei com medo de acordá-la, porque, sinceramente, eu não quero que ela faça um escândalo.
Agatha sorri simpaticamente.
– Quer uma ajuda, então?
– Quero. – Responde, dando espaço para a mulher. – Entre, por favor.
Ela o faz.
– Acho que primeiro o senhor deveria vestir uma calça.
Nick arregala os olhos, olhando para baixo. Corre até o closet, veste uma calça moletom e anda novamente até Agatha.
– Pronto.
– Ok. – Caminhou até a porta que divide os quartos e adentrou ao quarto de Charmin, indo até o closet e abrindo-o. – Alguma marca nela?
Nick crispa os lábios e enrubesce.
– Sim, duas enormes no pescoço.
– Então ela vai ter que usar gola alta. – Tira um suéter vinho do guarda-roupa e uma calça jeans azul clara, sem detalhes ou rasgos. – Ela provavelmente vai querer algo muito confortável para vestir as pernas.
– Por... Que?
– Pela sua cara, senhor Nick, já deve ter visto a marca de sangue que fica na virilha. – Explica ela. Fita Nick pelos ombros, o rapaz assente. – Não quero me intrometer, senhor, mas... Foi a primeira vez de vocês?
Nick balança a cabeça novamente, voltando a coçar a nuca.
– É bem típica essa reação. – Disse. – Senhorita Charmin não parece ser o tipo de garota que entra em desespero por essas coisas, e aposto que o senhor não deve tê-la obrigado a isso. Obrigou? – Observou o rapaz novamente. Ele negou muito nervoso. – Não se preocupe, então. Eu mesma lavarei o lençol de vocês e me certificarei de que Sr. Collin não saiba de nada a não ser pela boca de vocês.
Pegou um sutiã e uma calcinha e colocou todas as roupas no ombro.
– Obrigada, Agatha. – Os dois caminharam novamente para o quarto de Nick. – Você não sabe o quão preocupado eu fiquei com a possibilidade de Collin descobrir. Ele não parece gostar muito de mim.
– Ele gosta, sim. Mas é como todo irmão mais velho: Não quer ver a pequena com outro.
Agatha deixou as roupas no pequeno sofá à frente da cama de Nick, andou até o banheiro e ligou a banheira. Despejou o sabonete na água e colocou a mão no ombro de Nick.
– Eu vou me retirar, pois preciso preparar o café da manhã antes que todos levantem. Acorde senhorita Charmin com calma e cuidado, e se ela começar a gritar, abrace-a e faça com que se sinta segura. O senhor a conhece há quatro anos, deve saber bem como fazer isso.
– Sim, eu sei.
– Ótimo. – Abriu a porta do quarto. – Desçam em uma hora, por favor.
Nick concordou e fechou a porta quando ela se retirou. Caminhou até a cama e inspirou lentamente, depois deixando o ar sair em uma longa lufada branca. Tocou o braço de Charmin, mexendo-o levemente.
– Charmin. – Sussurrou. A garota abriu os olhos pouco a pouco. Nícolas esboçou um sorriso ansioso, mas meloso e carinhoso ao mesmo tempo. – Bom dia, linda.
Charmin franziu as sobrancelhas.
– Nick? – Ele acenou, a garota sentou-se na cama. – Ai... – Colocou a mão embaixo da barriga. – Por que eu estou sem roupas?
– Porque... Bem... – Começou a coçar a nuca novamente. Depois de alguns segundos em silêncio, Charmin formou uma expressão mista de espanto, surpresa e, bem no fundo, felicidade. – É. Acho que você já entendeu.
– Dormir sem roupas é mais confortável do que eu pensei.
Sorriu para Nick, que aos poucos foi rindo. Charmin levantou-se enrolada nos lençóis e encostou a cabeça no peito de Nick. O rapaz passou os braços por ela e permaneceram em silêncio por algum tempo.
Então Nick ouviu barulho de água corrente.
– A BANHEIRA!
Correu até o banheiro, deixando Charmin parada no quarto com uma cara um tanto “Que porra tá acontecendo?”. Fechou a torneira e voltou ao quarto.
– Desculpa. Mas é que Agatha veio aqui e disse que você deveria tomar um banho, então deixou a banheira ligada e... Você entendeu.
Charmin assentiu, arrastando os lençóis até o banheiro.
– Já volto.
Nick sentou-se na cama enquanto ouvia a porta do banheiro fechando. Assim que ela o fez, levantou-se e foi até o closet, pegando um moletom, colocando-o e cobrindo os pés com meias. Voltou à cama e retirou o lençol com a mancha de sangue de Charmin, colocando-o no canto do quarto.
Sentou-se no sofá, cruzou as pernas, descruzou e cruzou-as novamente. Estava nitidamente nervoso, os pensamentos não paravam e a mente estava totalmente acesa como um letreiro a madrugada. Sentia os dedos de Charmin, os suspiros dela, os sussurros e os movimentos. Tampou a mão com o rosto, pois estava começando a sentir as bochechas quentes.
– Nick?
Como ontem, Charmin estava a sua frente, os cabelos agora totalmente molhados e uma toalha enrolada no corpo. Tentou não olhar, mas passou os olhos lentamente desde às coxas de Charmin até o pescoço marcado dela.
– Sim?
– Eu precisava de roupas. Agatha me deixou alguma coisa?
Olhou para o lado, onde a roupa dela estava. Pegou-a e entregou a Charmin.
– Aqui. Eu vou te esperar lá fora.
A garota assentiu e Nick caminhou para fora, fechando a porta e, ao olhar para os dois lados do corredor, suspirando pesadamente. Depois de alguns minutos, sorriu até as orelhas e olhou para cima.
– A melhor manhã de todas.
***
– Vocês precisam de mais alguma ajuda? – Sam perguntou, deixando a última caixa de mudança no chão.
Dilan levantou-se, ajeitando o cabelo que caía na testa.
– Acho que não. O resto eu e Jenni resolvemos com os pais dela. – Respondeu. – Obrigado por ajudarem, garotas. Vão ser um casal normal agora.
Rose correu e abraçou Sam por trás. Por ser bem mais baixa que a garota, os pés saíram do chão e, se não fosse a força da loira, as duas teriam caído para trás. A mais alta olhou para a ruiva e sorriu. Agora, que havia saído do exército, tudo era mais fácil para as duas.
– Sammy, vamos ao parque? Eu quero dar comida aos patos.
– Eu não gosto de patos.
– MAS EU GOSTO E NÓS VAMOS! – Gritou, fazendo todos estremecer. Começou a puxar Sam para longe pela mão para a saída da casa. – Bye-byeee!
Jenni e Dilan entreolharam-se duvidosamente e, em seguida, riram. O rapaz, entretanto, continuou sorrindo para ela, olhando fixamente para a moça.
– Ok. Nós ainda temos muitas coisas pra fazer. – Jenni bateu as mãos, desviando de Dilan e indo até um montinho de caixas pequenas, onde estavam as roupas. – Você quer que eu coloque suas roupas ou você as coloca depois?
Olhou para ele, que estava parado e parecia estranhamente desanimado. Dilan puxou a franja para trás e suspirou.
– Eu... Eu coloco depois. Coloca só as suas.
– Okay.
Empilhou duas caixas brancas, cujas frentes estavam escrito “Clothes”, e levantou-se com ambas entre os braços, virando a cabeça para o lado para enxergar o caminho até a escada da nova casa.
A casa nova não era grande, muito pelo contrário, era até pequena. O segundo andar era somente para um quarto que cabia um armário, uma cama de casal e uma TV de cerca de 36 polegadas na frente, com um pequeno espaço ao lado para uma penteadeira. O resto da casa, o primeiro andar, era constituído por uma cozinha, dois banheiros (minúsculos, por sinal), uma sala e um quarto que, claro, serviria para toda a bagunça que ela juntasse. Ou para o Cherry.
Subiu a escada e empurrou com o pé a porta, entrando no quarto. A cama e o armário já estavam lá, Dilan ainda subiria a escrivaninha e a televisão. As paredes eram azul turquesa e havia uma enorme janela em cima da cama, fazendo Jenni pensar numa cor de cortina para colocar, porque, claro, quem gostaria de acordar com um Sol de oito horas na cara todo dia?
Deixou as caixas no chão, perto do armário, ficou de joelhos e começou a tirar as roupas.
Colocou as blusas de tecido mais fino nos cabides e pendurou-os, depois dobrou as calças, bermudas, shorts e saias para colocá-los na parte de baixo da porta, as camisas separadas por “Casa” e “Sair”, as jaquetas na outra porta, e a roupa do exército numa das gavetas, junto com o diploma e as medalhas. Por fim, restou somente uma roupa no fundo da caixa: Uma camisa de Dilan.
Mordeu os lábios, colocou a blusa nos ombros e desceu os degraus até chegar à cozinha, onde Dilan tomava uma lata de cerveja. Sem camisa. Uma tatuagem que ia da cintura até o peitoral, parecia um anjo.
– Ah... Ahm... Dilan...
O rapaz voltou o olhar a ela, e arqueou as sobrancelhas. Jenni desviou o olhar e cruzou os braços. Dilan pegou a camisa que estava no balcão e colocou-a tão rápido que estava ao contrário, depois amassou a latinha e aproximou-se da namorada.
– Desculpa, por, hum, isso. Precisa de alguma ajuda?
A garota fitou-o novamente.
– Tinha uma camisa sua nas minhas roupas. Vim devolver.
Ergueu a peça. Era uma camisa normal, de algodão e gola V, com uma estampa de camuflagem azul, preto e branco.
– Eu sempre me perguntei onde estava. – Sorriu, com as bochechas ainda vermelhas. – Agora sei onde. Eu te dei ela no dia do meu aniversário, quando você ficou bêbada e molhou a sua de cerveja.
– Oh, sim. – Estendeu-a. – Então... Aqui.
Dilan balançou a cabeça negativamente, pegou a blusa e esticou-a em frente ao corpo dela.
– Pode ficar. Combina com você. E eu gosto que a use.
Novamente, manteve o sorriso para Jenni e olhou fixamente para ela. Obrigatoriamente, ela olhou-o também, e concentrou-se no verde-castanho de suas íris. Pegou a camisa lentamente e olhou para baixo.
– Dilan...
– Hum?
– Sua camisa está ao contrário.
– Ah! – Olhou para os lados, onde a costura aparecia. – Está mesmo! Espera aí. – Tirou-a novamente, e antes que a colocasse, Jenni colocou a mão sobre a tatuagem. – O... O que foi?
– Qual anjo é esse? Por que tem seis asas?
– É um serafim. – Explicou ele. Depois, recitou: – “Cada um tinha seis asas: com duas cobria o rosto, com duas cobria os seus pés e com duas voava”. Segundo a Bíblia, eles protegiam o reino de Deus.
– Não sabia que você era religioso.
– Não sou, mas gosto dos significados. São puros. – Abaixou o resto da camisa. – Gostou?
– Da tatuagem?
Sorriu mais abertamente.
– Também.
Segurou a mão de Jenni que pousava em sua cintura e direcionou-a a seu pescoço, depois pegando sua outra mão e fazendo o mesmo. Aproximou os rostos e encostou o nariz no dela. Jenni sentiu o cheiro da colônia forte de Dilan e da loção de barbear, fechou os olhos e inspirou aquele odor que a rodeava enquanto o rapaz puxava a cintura dela para si. Os lábios estavam quase se tocando...
Um latido foi-se ouvido da sala. Jenni instantaneamente virou-se para a direção do som.
– Cherry!
Dilan revirou os olhos e bufou enquanto a moça ia até o labrador de nariz vermelho.
– E eu achando que aquele osso iria durar bastante.
***
O som do telefone foi-se audível aos ouvidos de Collin. Porém, ele estava acordado demais para demorar a atendê-lo.
Calçou os chinelos e levantou-se rapidamente, atravessando o quarto para pegar o telefone que se localizava na escrivaninha ao lado da cama. Apertou o botão verde e esperou que alguém falasse.
– Já estamos prontos. Acorde todos na casa e venha ao beco, certo?
– Certo, irmão.
Desligou o telefone e pousou-o novamente na escrivaninha, sentando-se na cama. Olhou de soslaio para trás e pôde ver Isabel dormindo tranquilamente, os cabelos cor de amanhecer espalhados pela cama e pelo próprio rosto. A coberta cobria-a quase por inteiro pelo frio intenso das madrugadas de inverno. Deitou-se ao lado dela e a abraçou.
Inspirou o cheiro de romã do cabelo dela.
– Está na hora? – Murmurou ela, virando-se para Collin.
Ele assentiu.
– Você... Acha que vai dar certo?
– Sinceramente? – Perguntou. Is concordou. – Eu não sei, amor. Mas eu acredito na B.
Isabel sorriu e beijou Collin rapidamente. Tirou as cobertas do corpo e levantou-se.
– Vou me trocar. Chame os outros.
Collin sentou-se na cama e arqueou as sobrancelhas.
– Como assim “me trocar”? Você não vai!
A mulher, que estava pegando um par de botas baixas do guarda-roupa, olhou-o pelos ombros.
– Como assim digo eu! Eu sei mais que você!
O rapaz ficou em silêncio por alguns segundos.
– Troque-se rápido. – Levantou-se da cama e amarrou o roupão que cobria o corpo. – E nada de meia calça. Tá frio.
– Tá bom, chefe.
Saiu do quarto, e ao passar pelo corredor, deparou-se com Jimmy na porta.
– Precisa de algo, senhor? Quer que eu acorde os garotos?
Collin afagou a cabeça metálica de Jimmy, e a luzinha no topo acendeu novamente.
– Não precisa, eu mesmo quero acordá-los.
– Às suas ordens.
Subiu as escadas. O som das pantufas era quase inaudível por conta do andar leve que possuía, assim como Charmin. E, claro, por causa do treinamento. Amarrou o roupão novamente, chegando ao corredor, e passou pelas portas de Nick e Charmin, chegando à de Josh.
Bateu duas vezes.
– Joshua.
Mais duas vezes.
– Joshua!
Bufou, e socou a porta uma vez somente. Afinal, precisava ser um cavalheiro.
– Joshua!
Depois de alguns segundos, ouviu um resmungo. Josh abriu a porta, com um moletom branco enorme e uma cueca box vermelha.
– Pois não? – A voz sonolenta era notória, enquanto os olhos mal abriam e o rosto parecia amassado, com algumas marcas de lençol. – Já tá na hora do café da manhã?
– Não. Ligaram pra cá. Temos que ir.
O louro apertou os olhos e passava a mão para tirar os fios da testa.
– Ir aonde?
– Aonde não. O que; e eu já respondo sua pergunta antes que pergunte. Iremos fazer revolução. – A feição de Josh mudou. Estava sério.
Assentiu para Collin, que se retirou e caminhou até a porta de Nick.
Bateu na porta duas vezes. Nick atendeu-a.
– Collin? O café da manhã não começa em uma hora?
O homem estreitou os olhos. Nick estava, estranhamente, vestido. Estava de calças, uma blusa e uma camisa de flanela por cima. Estava arrumado, pois até os cabelos estavam penteados, e isso acontecia somente depois do meio dia.
– Começa... O que está fazendo acordado?
As bochechas avermelharam. Peguei você, pensou Collin.
– Eu... Pedi à Agatha para me ajudar a arrumar o guarda-roupa. Você sabe, não? Foi tudo se acumulando num canto do quarto e eu não sou organizado, então pedi ajuda a ela.
Collin colocou meia cabeça para dentro do quarto e inspirou.
– E tomou banho de banheira? Aroma de rosas?
Nick cerrou os punhos.
– Tomei, sim.
Olhou ao redor do quarto.
– E por que tem três travesseiros na sua cama?
Nick olhou a cama e pressionou os lábios.
– Um para a cabeça, uma para as pernas e um para abraçar. Sabe como é nesse frio: nós acabamos ficando carentes.
– Sei... – Sorriu, mesmo não parecendo um sorriso verdadeiro. – Se troca que nós vamos sair, sim? – Nick concordou. – Roupa de combate, Nícolas.
– Sim, senhor.
Collin virou os pés e começou a caminhar em direção à escada novamente.
– Não vai acordar Charmin? – Nick perguntou com a voz levemente elevada. Era desrespeitoso gritar com os donos da casa na A.
– Nah. Pelo jeito, ela já está bem acordada... – Ergueu o braço e balançou o indicador em negação. – NADA me escapa nessa casa, Nicky.
Nick bateu a mão na testa com tanta força que um som alto ecoou pelo corredor.
– Fodeu.
***
Charmin puxou o zíper da bota cano longo, que ia até os joelhos, pegou a adaga, colocou-a no cinto, e saiu do quarto, erguendo o capuz para esconder o rosto. Depois de três semanas na A, com a peruca e as lentes, ter o cabelo solto e os olhos livres de falsidade davam a ela uma sensação tão boa, aquelas que nunca se espera e comemora quando se chega.
Desceu as escadas e foi até a cozinha, de encontro com os outros.
Batucou o vidro da porta duas vezes para indicar que estava ali, e todos olharam para ela. Josh e Nick estavam com roupas parecidas, mas agora, cada um parecia como sempre foram, sem os disfarces e todas as coisas. Havia uma pistola no cinto de Nick, ela percebeu. Ambos acenaram para ela, mas Nick voltou o olhar para o café mais rápido.
– Bom dia, querida! – Isabel caminhou até a garota, com uma calça de couro que fazia barulho a cada passo e uma bota salto alto que, nem em toda sua vida, Charmin usaria. – Seu cabelo está lindo hoje!
Abraçou-a apertado, depois murmurando em seu ouvido:
– Eu soube sobre você e Nick. Collin está uma fera, então seja carinhosa e paciente.
A garota suspirou lentamente e fechou os olhos, logo os abrindo. Isabel afastou-se, colocando os indicadores nos cantos dos lábios e erguendo-os. “Sorria!”.
– Collin, você não acha que sua irmã está bonita com a roupa de combate?
O rapaz virou-se com a xícara de chá na mão, quase esboçou um sorriso, mas voltou ao semblante carrancudo. Bebericou a bebida quente e colocou-a na mesa, logo depois ajeitando o casaco longo nos ombros.
– Ela tá normal. O que tem demais na garota usar roupa de couro? É ocasião especial agora Charmin decidir vestir-se como uma mulher de verdade? Porque, pelo jeito, ela virou uma noite passada.
O copo de leite de Josh caiu no chão enquanto ele arregalava os olhos.
– Collin! – Isabel advertiu. – Os modos!
– Blá blá blá os modos blá blá blá! – Pegou a xícara e atravessou a cozinha, fuzilando Nick com o olhar e, depois, oferecendo um olhar de negação a Charmin. – Vou estar na sala, resolvendo algumas coisas.
– Nada disso! – Isabel agarrou-o pelo braço. – Nós vamos ter uma pequena conversa ali no depósito. – Virou-se para os outros, que assistiam a tudo com olhares espantados ou envergonhados, como no caso de Nick. – Crianças, não exagerem na comida para não passarem mal depois.
Sorriu para eles e puxou Collin até um armário relevantemente grande e fechou a porta num estrondo.
Depois de alguns segundos, Charmin caminhou até a porta em passos silenciosos e encostou a orelha. Josh e Nick olhavam para ela de sobrancelhas franzidas. Charmin moveu a mão, pedindo para que eles se aproximassem, e os dois o fizeram; Cada um encostou-se a porta.
A conversa, que estava baixa, foi ficando mais alta à medida que Isabel gritava.
– ... E você acha que tem direito de fazer essa palhaçada?! Vai falar que você nunca fez sexo com ninguém! Há dois dias atrás você fez, e sabe com quem? Comigo! E eu aposto que não fui a primeira, como Nick foi para Charmin e vice-versa.
Josh tirou a orelha da porta e moveu os lábios. “Acho que isso não é da minha conta”. Nick acenou, constrangido, e voltou-se à porta enquanto Josh sentava-se e pegava um pouco de café.
– ... Achou que sua irmã nunca faria sexo, então? Que ela seria virgem para o resto da vida e que não se aproximaria de ninguém a não ser de você e de Will, que claramente não faria sexo com ela porque ele é gay!
– Não achei que ela não se aproximaria. Só achei que não seria na minha FUCKING CASA!
– Durante esses dias, Charmin e Nick tiveram chances de ficarem mais próximos que na B, pois nunca podiam sair do Alojamento para não serem pegos ou sempre estavam em missões! E, além disso, ela perdeu a virgindade com dezoito anos, o que é o certo! E você? Lembro-me de ter dito que dormiu com uma garota com quinze anos! Ainda quer reclamar sobre sua irmã querer ter uma vida normal como todos?
Houve um silêncio.
– Mas e se ele quebrar o coração dela? O que eu vou fazer? Charmin não tem mãe, nunca viu o pai e só Deus, Buda, Alá ou até mesmo Satã sabe o que vai acontecer em algumas horas! – Collin calou-se por um momento e respirou fundo. – Eu não vou conseguir ver o coração dela quebrado de novo...
– Meu amor, corações se quebram, viram cacos e juntam-se de novo. Claro, a forma nunca mais vai ser a mesma, mas quem sabe ele não fique mais forte? Ou fique mais esperto? Se aquele garoto quebrar o coração de Charmin, aposto que ela vai dar uma surra nele e depois vai tudo ficar bem. Ela é uma garotinha forte. – Mais um pouco de silêncio. – Agora, vamos até lá fora porque eles vão achar que eu estou te batendo.
Charmin e Nick entreolharam-se e correram até a mesa, sentando-se um ao lado do outro. O garoto segurou sua mão por debaixo da mesa.
Isabel e Collin saíram do armário, o rapaz estava com as bochechas vermelhas. Aproximaram-se da mesa, onde os três mais novos pareciam calmos à primeira vista, mas as mãos batucavam nervosamente sobre a mesa.
– Eu queria pedir desculpas por meu comportamento grosseiro com vocês. Não foi minha intenção. – Pousou a mão na cabeça de Charmin. – Desculpe-me por ser um idiota, sim?
Ela sorriu ternamente.
– Tudo bem, Col.
– Ótimo. – Respondeu ao sorriso. – Agora, nós vamos falar do plano.
***
As ruas estavam escuras e as únicas iluminações eram das lâmpadas. Estavam na área afastada do centro da cidade, então os prédios eram como uma paisagem distante que se fundiam com céu, as luzes artificiais juntas às das estrelas. Charmin olhou para cima, o céu na A não era como na B por conta da poluição dos carros e das indústrias, mas era bonito de se ver.
Caminhavam todos fazia algumas horas desde a saída da casa de Collin, eram cerca de sete horas da manhã. A garota voltou o olhar para frente e viu várias pessoas reunidas num lugar, todas de preto e com proteções, botas e cintos com armas. Foi entre essas pessoas que viu o tão familiar cabelo louro platinado.
Correu na ponta dos pés como antigamente até aproximar-se do rapaz alto e esguio, pulando em suas costas e enlaçando as pernas em sua cintura. Ele vacilou por um momento, mas soube quem estava ali, assim como Charmin soube.
– James! – Exclamou ela enquanto descia e esperava que ele se virasse. – Você tá bronzeado!
Jay não falou nada, simplesmente abraçou-a.
– Charmin!
Charmin inspirou o nostálgico cheiro de sabão caseiro de James e sentiu a pedrinha que deu a ele no aniversário de dezoito anos pressionar contra seu colo. Não fazia tanto tempo que não se viam, mas desde os catorze anos da garota, eles conviviam juntos todo dia, e passar algumas semanas longe de quem se vive junto é doloroso, principalmente quando se ama tal pessoa.
Afastaram-se, ambos sorrindo abertamente.
– Senti sua falta, pirralha.
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