Zona B
28 Capítulo 26
Notas iniciais
Charmin fitou a garota, depois Nick, depois a garota novamente.
Talvez, o silêncio permaneceu no ambiente por cinco minutos, pois Will estava contando. Nick chamou Charmin, mas ela não respondeu. Então a garota se aproximou de Charmin e a mesma se sentiu instantaneamente humilhada por ter tão pouca altura perto dela. Estreitou os olhos e, repentinamente, lembrou-se daquela pessoa a sua frente.
– Alexandra?
Ela sorriu venenosamente e Charmin esperou que algum líquido escorresse pela boca.
– Que bom que se lembra de mim. – Disse com uma voz falsamente alegre e animada, e viu Josh sorrir atrás de Alexandra. – A partir de agora, seremos ótimas melhores amigas.
Charmin a ignorou.
– Will, me explica isso?
Will arqueou as sobrancelhas e apontou para Josh.
– Peça a ele pra explicar.
Charmin tombou a cabeça e sorriu. Dessa vez, veneno escorreria pela sua boca. Ela já sabia que havia um dedinho de Josh naquela história. Quando o conheceu, através de Will, viu na expressão do garoto que ele era um problema e tanto. Mas, quase sempre, não ligava pras coisas que ele quebrava e amizades esquisitas ou até mesmo os olhares que ele dava a ela quando Charmin tinha somente treze anos.
– Você sempre me dá trabalho, Josh. – Ela começou enquanto se aproximava. – Desde sempre. Eu cobri suas merdas, aguentei suas desculpas falsas e te tirei de problemas. Ela foi um deles, lembra? – Apontou para Alexandria, que estreitou os olhos ofendida. – Agora você vai e trás essa vaca de volta pra sua vida? Sério? Eu estou decepcionada com você, garoto.
Josh irritou-se. Ele não era forçado a obedecer todo mundo e muito menos dar satisfação a alguém que o machucou tanto. Andou até Alexandria e agarrou sua mão, levantando-a no ar e balançando-a para Charmin.
– Não fale assim dela, Charmin. – Vociferou. – Achou que eu ia ficar que nem um bobo atrás de você por todo esse tempo? Não vai acontecer mais.
Josh levou Alexandra até as escadas e forçou-a a subir as escadas, subindo atrás de si e fechando o alçapão, deixando todos surpresos com a atitude. Não fazia parte de Josh se rebelar, mas, Charmin pensava, aquela garota podia o mudar mesmo.
– Você podia ter avisado, Nícolas. – Charmin falou sarcasticamente, o sorriso acompanhando o tom. – E vocês quatro: Por que não a enxotaram?
Marc deu um passo à frente.
– Porque, nós pensamos que, se fizéssemos isso, Josh acabaria saindo daqui também e faria alguma merda lá fora. Nós só estamos protegendo o alojamento e a todos. Inclusive você. – Deu de ombros. – Nós a odiamos também.
– Incrível recepção, garotos. In-crí-vel.
Will aproximou-se e tomou-a nos braços, abraçando Charmin de um jeito forte e totalmente fraternal que somente ele sabia fazer. Apertou-a cada vez mais e quando ela bateu em seu ombro, pedindo que ele parasse, ele a soltou.
– Desculpa, mas eu tava com muita saudade, gatinha. – Sorriu e então o sorriso ficou malicioso. Ele fez um sinal de “ok” com a mão. – A propósito, seus peitos estão incríveis, gatinha.
– WILL!
Charmin ouviu o grito que não foi seu. James se aproximou dos dois e deferiu um tapa no rosto de Will, com o mais velho caindo no riso logo depois.
– Qual é, você sabe que não tem nenhum problema eu falar isso! – Falou entre risos e James abafou a mão no ar, ignorando-o e dirigindo-se a Charmin.
– Eu tava morrendo de saudade, Char.
Então ele abraçou-a, e Charmin quase sentiu vontade de chorar. O abraço de James era um tanto fraco, mas era quente e seguro. E ela já estivera em seus braços tantas vezes que a sensação que se repetia conseguia ser tão boa quanto as passadas. Ela amava aquele abraço mais que tudo em sua vida. Mais que a mãe, até.
– James...
Ele beijou-lhe a testa por um longo tempo e passou a mão por seu cabelo. Quando afastaram-se, James sorriu e Charmin percebeu que ele estava quase chorando, assim como ela. E aquilo era tudo que eles precisavam, um do outro. Conheciam-se a longos anos e sempre que se encontravam depois de um mínimo tempo, era como séculos.
James passou um braço pelos ombros de Charmin, trazendo-a pra perto.
– Tá vendo, Nícolas? – James sorriu. – Ela é minha.
– Eu não diria isso quando nós...
– Chega! – Marc colocou a mão no ar e andou até Charmin. – Onde está o meu abraço?
Charmin se surpreendeu. Na primeira vez que havia visto Marc, ele tremia quando chegava perto dela e sentia-se totalmente constrangido quando ela o elogiava. Agora, ele trazia um sorriso brincalhão nos lábios e estendia os braços para ela, esperando que ela correspondesse. No fim, todos haviam mudado dentro daquele lugar. Até mesmo Josh, mesmo que para o lado negativo.
Olhando para James, que acenou com a cabeça para Marc, ela correu até o ruivo e pulou em seus braços, enroscando-se em seu pescoço. Marc vacilou um pouco no passo, mas logo segurou-a e abraçou sua cintura. Sentiu o corpo de Charmin perto do seu e, repentinamente, enrubesceu.
Virou a cabeça para Will e, acenando de olhos bem abertos e sobrancelhas arqueadas, afastou Charmin de seus braços. Will realmente tinha razão.
Charmin olhou para Kyle e para os cabelos novos e rebeldes dele que o deixavam mais largado e mais adolescente, como ele realmente era. Ele sorriu tímido para ela e acenou com a mão, enquanto estendia a mão para ela apertar. Charmin recusou a mão e abraçou-o de surpresa, deixando um Kyle com cara assustada e corpo paralisado.
– Não vai me abraçar mesmo? – Perguntou ela em seu ouvido. – Eu vou me sentir ofendida.
Vagarosamente, Kyle colocou os braços nas costas de Charmin e deu tapinhas leves em seu ombro, enquanto tentava não pensar que um corpo de sexo oposto estava próximo demais do seu.
Charmin afastou-se e olhou para todos, inclusive para Nick. Ele fez bico para ela.
– E eu, não ganho um abraço?
– Você ganhou beem mais que um abraço, garotinho.
– O QUÊ?! – James gritou no outro canto do alojamento. – O QUÊ VOCÊ FEZ COM A MINHA CHARMIN, TOURMALINE?
– N-nada cara. Foi só um beijo! – Levantou as mãos, rendido. Nick não falava, mas tinha certo medo de James. – Eu juro!
James apontou para os dois, com os olhos estreitados. Realmente, parecia um irmão para ela. Em seus pensamentos, Charmin esperava que James pulasse em Nick e quebrasse todo o corpo dele por somente chegar perto da garota. Em seu pensamento, aquilo não acabaria bem.
– De língua?
– Claro que foi de língua. Acha que eu vou dar um selinho em Charmin? – Perguntou debochado, e Charmin o olhou com advertência. – Olha...
– Chega. Vocês dois.
Kyle fitou os dois com um olhar que transparecia um claro e rude sermão e olhou para Charmin, que tinha as bochechas levemente ruborizadas e um cabelo tampando o rosto, como se escondesse a vergonha. Ele soltou um riso fraco para ela e, novamente, olhou para os dois rapazes como se precisasse conversar com eles, como um pai conversa com os irmãos quando eles brigam. De longe, Kyle era o mais maduro de todos os homens ali.
– James, Nícolas, para o canto, agora. – Sinalizou um espaço afastado de todos, onde ficavam as mesas e computadores. – E, se vocês reclamarem, eu conto pra Charmin de vocês quando ela foi embora. E, eu sei que vocês não querem parecer femininos na frente dela.
Ambos ficaram paralisados e Charmin estranhou. O que, de tão horrível, aconteceu com eles para essa resposta ser tão... Tão... Comandada? Ironicamente, ambos pareciam duas crianças, mesmo.
James acenou positivamente e praticamente correu até o local.
– Sim senhor.
Nick bateu continência, de um jeito cômico e assustado.
– Você que manda, comandante.
Olhando para Charmin como se dissesse “Eu não quero ir pra lá, mamãe”, Nick caminhou até o canto e encostou à parede, recebendo um olhar feio de James e, após perder a paciência com o cabelo arrumado e lisinho e aquele olhar de desprezo para ele, Nick mostrou o dedo do meio e sentiu um tabefe na cabeça assim que levantou a mão.
– Ai!
Olhou para a frente e viu Kyle com os dedos próximos ao seu rosto.
– Por Cristo, Nícolas, você tem quase dezoito. Pare de ser tão criança.
– Eu sou dois anos mais jovem que você, Kyle.
– E eu sou uma década mais maduro que você, garoto.
James soltou uma risada falhada e Kyle o bateu, também. Então Nick riu e Kyle bateu nos dois.
– Mas foi ele que riu! – James apontou para Nick e o outro afastou seu dedo com um tapa, murmurando algo sobre mães e ensinos quando pequeno. – Viu?!
– Eu não dou um foda-se pra vocês dois. Eu me importo com Charmin, o.k.?
Ambos cruzaram os braços e falaram ao mesmo tempo.
– E se eu morrer?
– Que o Inferno cuide de vocês.
Os dois mais novos ficaram em silêncio e Kyle bufou, olhando para trás e vendo Josh e Alexandra voltar e descer as escadas. Virou-se e encarou os dois que estavam à frente: James, com um olhar baixo e birrento, e Nick, com os braços cruzados e os fios enrolados do cabelo caindo sobre a testa.
– Primeiro: Sejam mais crescidos, por favor. Nós temos agora duas mulheres aqui dentro, e elas não precisam ouvir as discussões bobas de vocês dois. – Então colocou o indicador no peito de James. – E você. Charmin já tem dezessete anos, ok? Ela não é mais aquela garotinha sensível de treze anos de idade que ficava chorando pela mãe toda noite. Ela tomou tiros, James, e aposto que se você tomasse tiros, entraria em desespero, pois é um escandaloso. – “Ai”, pensou o louro. – E, Nícolas, você deve respeitar mais a sua namorada. Isso se ela for sua namorada, você é tão covarde pra se comprometer que até Joshua defende aquela peste que desceu com ele e você abusa do carinho de Charmin. Seja um homem pela primeira vez na sua vida.
Nick abriu a boca, mas Kyle falou antes.
– Eu sei que você é um homem por tem pênis. Mas você entendeu o que eu disse.
– Com nove anos, eu mesmo machuquei meu pai com uma garrafa e o denunciei à polícia. Com onze, minha mãe não me queria mais, ok? Depois, eu fui morar numa barraca no meio de uma floresta com um bando de porcos que não lavava nem o próprio rosto. Não diga que eu não sou um homem, porque eu já passei por muita coisa.
– Ah, faça-me o favor, seu pirralho de merda. – Cuspiu as palavras na cara de Nick e o mesmo estremeceu. Não conhecia aquele lado de Kyle. Ninguém conhecia. – Pelo menos você lembra do rosto do seu pai idiota ou da sua mãe submissa. Eu não lembro nem da cor do cabelo da minha mãe, porque eu não tinha idade suficiente pra saber nome de cores! Não me venha com essa de coitado que teve uma vida difícil que pelo menos você teve alguém de sangue perto de você. Eu só tive Marc até os quinze anos de idade, quando morávamos na rua e comprávamos pão velho com os trocos que roubávamos de bares. – Um sorriso de desdenho apareceu nos lábios. – E você, teve pessoas que cuidavam de você desde sempre. Tinha pessoas que comiam na palma da sua mão e, por fazer cagada, acabou parando na porra do exército. Então, diga, Nícolas, o quão difícil é sua vida.
Silêncio.
– Ótimo. Isso é pra aprender a não responder as pessoas com razão. Agora vão. Eu preciso conversar com Will.
James retirou-se. Nick ficou ainda de braços cruzados.
– Acha mesmo que eu não valorizo Charmin o suficiente? Ela teria morrido se eu não tivesse pulado naquele lago.
– Sério? Não acha que fez aquilo para não ficar sozinho?
Kyle girou os calcanhares e deixou Nick sozinho, com o corpo mais encolhido que o possível.
Teria mesmo ele feito aquilo para não ficar sozinho?
***
– Eu queria pedir desculpas pelo meu comportamento... Inadequado, durante esses dias. – Falou Alexandra, ao lado de Josh e à frente de Will. – Realmente, eu não fui comportada, assim como não respeitei suas regras ou a conduta do alojamento. Eu claramente sou uma ameaça.
Pela primeira vez naquele dia, Will sorriu de satisfação.
– E vai dar o fora?
– Não, ela vai ser a nossa nova integrante. – Josh respondeu.
– Irmão, você acha que isso é uma banda de adolescentes esfarrapados? – Perguntou, com uma das sobrancelhas arqueadas e um tom sarcástico. – Isso aqui é sério. Nós não precisamos de outra pessoa.
– Então por que aceitaram Charmin?
– Porque Char é importante e preciosa para nós. Já ela...
– Sandra também é importante. – O louro colocou a mão no ombro de Alexandra. – Ela vai ser boa para nós.
Will ficou em silêncio por alguns segundos. Sabia que alguma coisa daria errado se contrariasse o irmão, principalmente pelo temperamento difícil do mesmo. Já estava cansado de dificuldades ali dentro. Estava aguentando aquilo havia muito tempo para simplesmente estragar tudo com o senso de proteção idiota que tinha e mania de querer tudo de seu jeito. Ele precisava ser mais adequado a sua idade. Como um aviso, olhou para os dois como se estivesse dando benção a um casamento.
– Se Alexandra nos causar algum problema, ou se você nos causar problema por causa dela, eu juro pela minha vida, Joshua, que você vai ver meu pior lado de toda a vida.
Nenhum dos dois disse nada. Simplesmente deram as mãos e andaram até a cama de Josh, sentando nela.
Voltando-se para Charmin, que encontrava-se sozinha na cama de Marc, esperando o mesmo chegar do banho, viu-a passar a mão pelos cabelos e apalpar a parte raspada. Ela provavelmente achava que estava horrível e, o mais provável ainda, lembrava-a de como as coisas no exército haviam a traumatizado.
– Tá tudo bem, gatinha?
Ela parou de fitar os pés e levantou a cabeça para ver o sorriso iluminador de Will.
– Aquele puto do Nick, deixando o puto do James mais puto ainda. Por que eu não posso ser a puta da história?
– Porque você ainda não está tão desesperada assim. – Ele retrucou, e Charmin riu de verdade. Will era o único que a fazia sentir-se assim. – Então, você se lembra de Alexandra?
– Lembro um pouco. Ela era aquela namoradinha do Josh, não? Quando ele não conseguia nada comigo, ia pra ela.
– Essa mesma. Bem, ela vai adorar sua companhia, sabe? – Falou, com um sorriso irônico e típicos seus. – Adoro ver mulheres brigando por um macho.
Repentinamente, Charmin levantou-se.
– Eu não vou brigar por Josh.
– Não estou falando dele, gatinha. Estou falando de Nícolas.
– Você acha que ela...
– Olha a cara daquela criatura. – Apontou para Alexandra, que estava conversando com Josh com um olhar afiado. – Assim que ela perceber essa brecha que você deu ao Nícolas por causa dessa babaquice que ele fez, ela vai atacar.
– Vadia... – Murmurou e olhou para Nick, que conversava desanimadamente com Kyle. – Eu... O que eu faço?
– Não sei, querida. – Exclamou. – Protege seu macho! Não tenho interesse em mulheres o suficiente para saber suas estratégias maldosas.
– Eu vou conversar com ele. – Virou os pés. – Me deseje boa sorte, William.
– Tenta não matar o coitado do coração, gatinha.
***
Nick desceu a porta do alçapão. Estava tremendo por dentro.
“Vamos conversar”, ela disse. “Precisamos esclarecer as coisas”, ela disse em seguida e ele congelou.
O que era tão grave assim pra eles conversarem? Durante os três anos juntos, eles nunca conversaram sobre algo sério. Nick tinha uma memória muito boa pra esquecer-se de alguma conversa séria com Charmin. Talvez ela quisesse finalmente terminar, no fim das contas. Não que ele quisesse terminar, nunca quis e nunca vai querer. Mas, do jeito que as coisas andavam, talvez ela quisesse dar um tempo a tudo e deixá-lo sozinho, sem mais ninguém a quer contar.
Estavam os dois parados, com os pés fixados na grama seca. Ventava um pouco e já era noite, então não se enxergava nada muito bem. Charmin estava com os braços em volta do corpo, provavelmente com frio. Nick tirou a jaqueta de malha e colocou nos ombros dela. Ouviu um baixo obrigado e sorriu, pelo menos ela ainda falava algo.
– Nick...
– Espera. Antes de você começar algo, eu só quero deixar claro algumas coisas.
Charmin colocou os braços dentro da jaqueta e fitou o garoto, que a olhava de um jeito desesperado e envergonhado ao mesmo tempo, como se fosse fazer algo louco, mas estivesse parando pra pensar se era o certo.
– Lembra quando nós fizemos um piquenique e você me deu o pingente do seu colar? – Perguntou. Ela esperou um pouco, mas assentiu. – Eu juro, Charmin, que aquele foi o melhor dia da minha vida, na verdade o segundo, porque o primeiro foi quando eu conheci você. Eu te amo, mesmo. Eu te amo tanto quanto um pintor ama suas tintas e um músico, o seu instrumento. Você é, de longe, pessoa mais incrível que eu já conheci em toda a minha vida. Você me fez esquecer os temores do passado para ver o meu presente, que é você. Seja o meu futuro, por favor. Eu preciso de você, sabe? Se eu não te tiver, eu não vou ter um coração. – Nícolas respirou para tomar um ar. Olhou para Charmin e sorriu carinhosamente. – Lembra-se do dia que você disse que me conhecia, só não sabia se era da cidade ou dessa vida? Eu sei que, se houver a reencarnação, o Inferno ou o Céu, eu vou te amar de lá.
– Nícolas...
– Então não me abandone, Charmin.
Agora, ele tremia de verdade. Nunca falou tanto de um sentimento seu para uma pessoa. Nunca se revelou tanto para alguém que não fosse um espelho de casa. Mas, agora, Charmin sabia de seus maiores segredos e sabia que ele a amava, aquilo podia ser a pior ou a melhor coisa que ele havia feito. Realmente, Nick não sabia.
Ela sorriu e aproximou-se dele, colocando a mão em seu cabelo e bagunçando alguns cachos.
– Eu só ia falar que você não se devia meter com a Alexandra.
Nick caiu de joelhos e deitou no chão de bruços, tentando esquentar o corpo que fervia de nervosismo.
– Só isso? – Murmurou com a voz abafada e virou-se para encarar o rosto dela de cima. Os cabelos negros circulavam o rosto e era mostrado como a silhueta dela era fina, os olhos desiguais brilhavam e ao mesmo tempo, escureciam. Ela estava mais linda que nunca, e Nick sorriu por saber que era só sua. – Você me devasta, Charmin. Do jeito mais extasiante possível.
Charmin ajoelhou-se e colocou a cabeça de Nick sobre suas pernas, beijando-lhe o topo da cabeça levemente e enrolando os cachinhos em seus dedos. Ela esperou que Nícolas fechasse os olhos e dormisse, ele havia tido péssimas noites nos lagos e não estava dormindo direito faziam-se meses, ela notou.
– Quem diria que um dia você falaria que me ama. – Ela riu sozinha e bagunçou o cabelo dele de leve. Viu-o fazer uma careta pelo movimento repentino e sorriu. – Eu também te amo, Nícolas Tourmaline.
uanto tentava não pensar que um corpo de sexo oposto estava próximo demais do seu.
Charmin afastou-se e olhou para todos, inclusive para Nick. Ele fez bico para ela.
– E eu, não ganho um abraço?
– Você ganhou beem mais que um abraço, garotinho.
– O QUÊ?! – James gritou no outro canto do alojamento. – O QUÊ VOCÊ FEZ COM A MINHA CHARMIN, TOURMALINE?
– N-nada cara. Foi só um beijo! – Levantou as mãos, rendido. Nick não falava, mas tinha certo medo de James. – Eu juro!
James apontou para os dois, com os olhos estreitados. Realmente, parecia um irmão para ela. Em seus pensamentos, Charmin esperava que James pulasse em Nick e quebrasse todo o corpo dele por somente chegar perto da garota. Em seu pensamento, aquilo não acabaria bem.
– De língua?
– Claro que foi de língua. Acha que eu vou dar um selinho em Charmin? – Perguntou debochado, e Charmin o olhou com advertência. – Olha...
– Chega. Vocês dois.
Kyle fitou os dois com um olhar que transparecia um claro e rude sermão e olhou para Charmin, que tinha as bochechas levemente ruborizadas e um cabelo tampando o rosto, como se escondesse a vergonha. Ele soltou um riso fraco para ela e, novamente, olhou para os dois rapazes como se precisasse conversar com eles, como um pai conversa com os irmãos quando eles brigam. De longe, Kyle era o mais maduro de todos os homens ali.
– James, Nícolas, para o canto, agora. – Sinalizou um espaço afastado de todos, onde ficavam as mesas e computadores. – E, se vocês reclamarem, eu conto pra Charmin de vocês quando ela foi embora. E, eu sei que vocês não querem parecer femininos na frente dela.
Ambos ficaram paralisados e Charmin estranhou. O que, de tão horrível, aconteceu com eles para essa resposta ser tão... Tão... Comandada? Ironicamente, ambos pareciam duas crianças, mesmo.
James acenou positivamente e praticamente correu até o local.
– Sim senhor.
Nick bateu continência, de um jeito cômico e assustado.
– Você que manda, comandante.
Olhando para Charmin como se dissesse “Eu não quero ir pra lá, mamãe”, Nick caminhou até o canto e encostou à parede, recebendo um olhar feio de James e, após perder a paciência com o cabelo arrumado e lisinho e aquele olhar de desprezo para ele, Nick mostrou o dedo do meio e sentiu um tabefe na cabeça assim que levantou a mão.
– Ai!
Olhou para a frente e viu Kyle com os dedos próximos ao seu rosto.
– Por Cristo, Nícolas, você tem quase dezoito. Pare de ser tão criança.
– Eu sou dois anos mais jovem que você, Kyle.
– E eu sou uma década mais maduro que você, garoto.
James soltou uma risada falhada e Kyle o bateu, também. Então Nick riu e Kyle bateu nos dois.
– Mas foi ele que riu! – James apontou para Nick e o outro afastou seu dedo com um tapa, murmurando algo sobre mães e ensinos quando pequeno. – Viu?!
– Eu não dou um foda-se pra vocês dois. Eu me importo com Charmin, o.k.?
Ambos cruzaram os braços e falaram ao mesmo tempo.
– E se eu morrer?
– Que o Inferno cuide de vocês.
Os dois mais novos ficaram em silêncio e Kyle bufou, olhando para trás e vendo Josh e Alexandra voltar e descer as escadas. Virou-se e encarou os dois que estavam à frente: James, com um olhar baixo e birrento, e Nick, com os braços cruzados e os fios enrolados do cabelo caindo sobre a testa.
– Primeiro: Sejam mais crescidos, por favor. Nós temos agora duas mulheres aqui dentro, e elas não precisam ouvir as discussões bobas de vocês dois. – Então colocou o indicador no peito de James. – E você. Charmin já tem dezessete anos, ok? Ela não é mais aquela garotinha sensível de treze anos de idade que ficava chorando pela mãe toda noite. Ela tomou tiros, James, e aposto que se você tomasse tiros, entraria em desespero, pois é um escandaloso. – “Ai”, pensou o louro. – E, Nícolas, você deve respeitar mais a sua namorada. Isso se ela for sua namorada, você é tão covarde pra se comprometer que até Joshua defende aquela peste que desceu com ele e você abusa do carinho de Charmin. Seja um homem pela primeira vez na sua vida.
Nick abriu a boca, mas Kyle falou antes.
– Eu sei que você é um homem por tem pênis. Mas você entendeu o que eu disse.
– Com nove anos, eu mesmo machuquei meu pai com uma garrafa e o denunciei à polícia. Com onze, minha mãe não me queria mais, ok? Depois, eu fui morar numa barraca no meio de uma floresta com um bando de porcos que não lavava nem o próprio rosto. Não diga que eu não sou um homem, porque eu já passei por muita coisa.
– Ah, faça-me o favor, seu pirralho de merda. – Cuspiu as palavras na cara de Nick e o mesmo estremeceu. Não conhecia aquele lado de Kyle. Ninguém conhecia. – Pelo menos você lembra do rosto do seu pai idiota ou da sua mãe submissa. Eu não lembro nem da cor do cabelo da minha mãe, porque eu não tinha idade suficiente pra saber nome de cores! Não me venha com essa de coitado que teve uma vida difícil que pelo menos você teve alguém de sangue perto de você. Eu só tive Marc até os quinze anos de idade, quando morávamos na rua e comprávamos pão velho com os trocos que roubávamos de bares. – Um sorriso de desdenho apareceu nos lábios. – E você, teve pessoas que cuidavam de você desde sempre. Tinha pessoas que comiam na palma da sua mão e, por fazer cagada, acabou parando na porra do exército. Então, diga, Nícolas, o quão difícil é sua vida.
Silêncio.
– Ótimo. Isso é pra aprender a não responder as pessoas com razão. Agora vão. Eu preciso conversar com Will.
James retirou-se. Nick ficou ainda de braços cruzados.
– Acha mesmo que eu não valorizo Charmin o suficiente? Ela teria morrido se eu não tivesse pulado naquele lago.
– Sério? Não acha que fez aquilo para não ficar sozinho?
Kyle girou os calcanhares e deixou Nick sozinho, com o corpo mais encolhido que o possível.
Teria mesmo ele feito aquilo para não ficar sozinho?
***
– Eu queria pedir desculpas pelo meu comportamento... Inadequado, durante esses dias. – Falou Alexandra, ao lado de Josh e à frente de Will. – Realmente, eu não fui comportada, assim como não respeitei suas regras ou a conduta do alojamento. Eu claramente sou uma ameaça.
Pela primeira vez naquele dia, Will sorriu de satisfação.
– E vai dar o fora?
– Não, ela vai ser a nossa nova integrante. – Josh respondeu.
– Irmão, você acha que isso é uma banda de adolescentes esfarrapados? – Perguntou, com uma das sobrancelhas arqueadas e um tom sarcástico. – Isso aqui é sério. Nós não precisamos de outra pessoa.
– Então por que aceitaram Charmin?
– Porque Char é importante e preciosa para nós. Já ela...
– Sandra também é importante. – O louro colocou a mão no ombro de Alexandra. – Ela vai ser boa para nós.
Will ficou em silêncio por alguns segundos. Sabia que alguma coisa daria errado se contrariasse o irmão, principalmente pelo temperamento difícil do mesmo. Já estava cansado de dificuldades ali dentro. Estava aguentando aquilo havia muito tempo para simplesmente estragar tudo com o senso de proteção idiota que tinha e mania de querer tudo de seu jeito. Ele precisava ser mais adequado a sua idade. Como um aviso, olhou para os dois como se estivesse dando benção a um casamento.
– Se Alexandra nos causar algum problema, ou se você nos causar problema por causa dela, eu juro pela minha vida, Joshua, que você vai ver meu pior lado de toda a vida.
Nenhum dos dois disse nada. Simplesmente deram as mãos e andaram até a cama de Josh, sentando nela.
Voltando-se para Charmin, que encontrava-se sozinha na cama de Marc, esperando o mesmo chegar do banho, viu-a passar a mão pelos cabelos e apalpar a parte raspada. Ela provavelmente achava que estava horrível e, o mais provável ainda, lembrava-a de como as coisas no exército haviam a traumatizado.
– Tá tudo bem, gatinha?
Ela parou de fitar os pés e levantou a cabeça para ver o sorriso iluminador de Will.
– Aquele puto do Nick, deixando o puto do James mais puto ainda. Por que eu não posso ser a puta da história?
– Porque você ainda não está tão desesperada assim. – Ele retrucou, e Charmin riu de verdade. Will era o único que a fazia sentir-se assim. – Então, você se lembra de Alexandra?
– Lembro um pouco. Ela era aquela namoradinha do Josh, não? Quando ele não conseguia nada comigo, ia pra ela.
– Essa mesma. Bem, ela vai adorar sua companhia, sabe? – Falou, com um sorriso irônico e típicos seus. – Adoro ver mulheres brigando por um macho.
Repentinamente, Charmin levantou-se.
– Eu não vou brigar por Josh.
– Não estou falando dele, gatinha. Estou falando de Nícolas.
– Você acha que ela...
– Olha a cara daquela criatura. – Apontou para Alexandra, que estava conversando com Josh com um olhar afiado. – Assim que ela perceber essa brecha que você deu ao Nícolas por causa dessa babaquice que ele fez, ela vai atacar.
– Vadia... – Murmurou e olhou para Nick, que conversava desanimadamente com Kyle. – Eu... O que eu faço?
– Não sei, querida. – Exclamou. – Protege seu macho! Não tenho interesse em mulheres o suficiente para saber suas estratégias maldosas.
– Eu vou conversar com ele. – Virou os pés. – Me deseje boa sorte, William.
– Tenta não matar o coitado do coração, gatinha.
***
Nick desceu a porta do alçapão. Estava tremendo por dentro.
“Vamos conversar”, ela disse. “Precisamos esclarecer as coisas”, ela disse em seguida e ele congelou.
O que era tão grave assim pra eles conversarem? Durante os três anos juntos, eles nunca conversaram sobre algo sério. Nick tinha uma memória muito boa pra esquecer-se de alguma conversa séria com Charmin. Talvez ela quisesse finalmente terminar, no fim das contas. Não que ele quisesse terminar, nunca quis e nunca vai querer. Mas, do jeito que as coisas andavam, talvez ela quisesse dar um tempo a tudo e deixá-lo sozinho, sem mais ninguém a quer contar.
Estavam os dois parados, com os pés fixados na grama seca. Ventava um pouco e já era noite, então não se enxergava nada muito bem. Charmin estava com os braços em volta do corpo, provavelmente com frio. Nick tirou a jaqueta de malha e colocou nos ombros dela. Ouviu um baixo obrigado e sorriu, pelo menos ela ainda falava algo.
– Nick...
– Espera. Antes de você começar algo, eu só quero deixar claro algumas coisas.
Charmin colocou os braços dentro da jaqueta e fitou o garoto, que a olhava de um jeito desesperado e envergonhado ao mesmo tempo, como se fosse fazer algo louco, mas estivesse parando pra pensar se era o certo.
– Lembra quando nós fizemos um piquenique e você me deu o pingente do seu colar? – Perguntou. Ela esperou um pouco, mas assentiu. – Eu juro, Charmin, que aquele foi o melhor dia da minha vida, na verdade o segundo, porque o primeiro foi quando eu conheci você. Eu te amo, mesmo. Eu te amo tanto quanto um pintor ama suas tintas e um músico, o seu instrumento. Você é, de longe, pessoa mais incrível que eu já conheci em toda a minha vida. Você me fez esquecer os temores do passado para ver o meu presente, que é você. Seja o meu futuro, por favor. Eu preciso de você, sabe? Se eu não te tiver, eu não vou ter um coração. – Nícolas respirou para tomar um ar. Olhou para Charmin e sorriu carinhosamente. – Lembra-se do dia que você disse que me conhecia, só não sabia se era da cidade ou dessa vida? Eu sei que, se houver a reencarnação, o Inferno ou o Céu, eu vou te amar de lá.
– Nícolas...
– Então não me abandone, Charmin.
Agora, ele tremia de verdade. Nunca falou tanto de um sentimento seu para uma pessoa. Nunca se revelou tanto para alguém que não fosse um espelho de casa. Mas, agora, Charmin sabia de seus maiores segredos e sabia que ele a amava, aquilo podia ser a pior ou a melhor coisa que ele havia feito. Realmente, Nick não sabia.
Ela sorriu e aproximou-se dele, colocando a mão em seu cabelo e bagunçando alguns cachos.
– Eu só ia falar que você não se devia meter com a Alexandra.
Nick caiu de joelhos e deitou no chão de bruços, tentando esquentar o corpo que fervia de nervosismo.
– Só isso? – Murmurou com a voz abafada e virou-se para encarar o rosto dela de cima. Os cabelos negros circulavam o rosto e era mostrado como a silhueta dela era fina, os olhos desiguais brilhavam e ao mesmo tempo, escureciam. Ela estava mais linda que nunca, e Nick sorriu por saber que era só sua. – Você me devasta, Charmin. Do jeito mais extasiante possível.
Charmin ajoelhou-se e colocou a cabeça de Nick sobre suas pernas, beijando-lhe o topo da cabeça levemente e enrolando os cachinhos em seus dedos. Ela esperou que Nícolas fechasse os olhos e dormisse, ele havia tido péssimas noites nos lagos e não estava dormindo direito faziam-se meses, ela notou.
– Quem diria que um dia você falaria que me ama. – Ela riu sozinha e bagunçou o cabelo dele de leve. Viu-o fazer uma careta pelo movimento repentino e sorriu. – Eu também te amo, Nícolas Tourmaline.
Fale com o autor